segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

MargosaMente



Rua Nho Mozart
(Bairro da Fazenda, Praia)
Mito



1.


Prometi (e promessa sendo dívida) a João Branco uma crónica sobre o Café Margoso, Blog que é menino dos anos por estes dias. Em verdade, apanhado pela síndrome da página branca (digo do Word 2007 branco), fui pensando, com as dores da insónia, no começo de tal crónica. Diga-se que o café, adocicado ou amargo, margoso para me “aggiornar” mais, literalmente me tira sono, mas nem por isso me torna mais excitado. De modo que, nesse branco que me deu, fui esboçando frases triviais e pensamentos fúteis, na certeza de que a eternidade, como diria Valentinous Velhinho, não passa à soleira da nossa porta

2.


Tentei, numa “das desaforadas”, escrever em defesa da Economia da Cultura, da Oficialização da Língua Crioula, da ancestralidade (ao tempo escravocrata) da Nação Cabo-verdiana e da (assumida e consequente) Regionalização do País, bem como da redefinição (diria até radicalização) da Política Ambiental. Vendo que a minha vara curta não enervava as novas feras, me aquiesci diante da inutilidade das opiniões valentes. Já nem os cristãos acreditam que a fé de um grão de areia irá mover montanhas, quanto mais este agnóstico, para não dizer ateu graças a Deus, que fui sendo nestes 40 e tal anos. Céptico, o Albatroz não escreveu assaz desaforos para desassossegar os nossos deuses de esquina…

3.


Teimosa e recorrentemente, esbocei uns rabiscos gráficos e inventei-os, feiosos quê bê, pós-modernos, Dada e conceptualistas, tudo para a efeméride, mas, lembrando do que recomendava um paredão em São Paulo – “Não piche este grafite!” -, amachuquei meu Basquiat e joguei-o no caixote do lixo. Porra, és poeta e tua deriva pela plástica parece uma tragicomédia. Da Vinci era polivalente e paneleiro, mas génios dessa verve só de raro em raro ressurgem e, me perdoem os Claridosos e os caridosos, não me parece que tais duendes revisitem as nossas ilhas pdm. Descrente? Nem flaça, ó João. Apenas acordado. E, já agora, lúcido…

4.


Música, hélas. Todos os cabo-verdianos são músicos, ora. Inclusive a malta do zouk-love, não te rias. Desde que li a obra magistral de Mário Fonseca, Mon Pays Est Une Musique, ficou claro no meu espírito que Mozart foi crioulo. Antes do tempo e do lugar. Eugénio Tavares pode até ser galego, mas Mozart, o Wolfie, é pó di terra. E Horace Silver é americano, tanto que ninguém o condecora, mas Amadeus é cá do bairro, saiba-se. Por isso, ritmo e melodia, letra ainda por riba, compus uma sinfonia para o Café Margoso. Procuro-a agora para mandar a JB, mas nada, rien de rien, acordado do sonho, a minha partitura onírica desapareceu. Seria por causa da valente e acertada entrevista de Hernani? Quiet magic, brother

5.


Ensaiei mandar uns comentários para a Blogsfera Crioula (essa nova Diáspora Cabo-verdiana), mas, com o ego deste tamanho, não consigo ser anónimo. Anonimato passou a ser a suprema condição da liberdade de expressão do pessoalzinho, pois que mascarados nos atrevemos a peidar na catedral, sem riscos de pecar. Inferno é fogo, companheiro. Gulag, pior ainda. Mascarados nos agigantamos como os novos adamastores e instauramos o terrorismo das nossas razões e dos nossos anátemas. Comentários, definitivamente, amofinam aos que não se alinham no “Carnaval dos napoleões retintos”, que nem o samba de Chico Buarque. Et pour cause, também não mandei os comentários pensados…

6.


Entre Outono e Inverno, pelos aeroportos, hotéis e reuniões (sobretudo, intermináveis reuniões que a profissão ainda obriga), fui engendrando algo sobre a crónica prometida. Fazia ou não as loas merecidas ao Mindelact e ao activismo teatral do CCPM? Recordava ou não que João Branco, mais que ninguém, declama com entoação (e rara emoção) os meus despretensiosos versos? Assumia ou não que sou visitante diário do Café Margoso, às vezes, para aplaudir, outras vezes, para vaiar? Rematava ou não que, aos amigos, não temos de ser complacentes, manteigueiros e filhos da mãe, prevalecendo nessa vela da amizade a chama incandescente da sinceridade?

7.


E como Sete é dos Cabalísticos. E como os pecados, se não mortais, não merecem estar na Bíblia, confesso que, perante tamanho dilema, não consegui me acertar na crónica prometida, devida para ser mais exacto. Não valerá a pena discorrer mais, pois overdose de masturbação tem os seus males, nem terei de fazer, como já se usa pela net, mais adição que redunde em zero. Direi que também, invadindo a área de JB, tentara uma peça de teatro, súmula miudinha do Das Frutas Serenadas, em cujo hiper e inter texto havia a rábola fabulosa das circum-navegações de Plotlomeu (eia, Tchalé Figueira!). JB, ao entabular as cenas de Plotlomeu pelo porto de Odessa, já ia sendo linchado no palco do Mindel Hotel. Artista sooooooofre…e não se fala mais nesse margoso!

2 comentários:

João Branco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Branco disse...

Hahaha considera a promessa mais do que comprida. E cumprida, também. Abraço, poeta. A porta está aberta para os aplausos e para as vaias, desde que vestidos de sinceridade.