quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O sonho de King: Free at last



“Change has come to America”
Baraka Obama





Mote


Quem não se lembra daquela negra (Rosa Parks, se estivermos lembrados) que se recusou a levantar do assento no autocarro para dar lugar a um branco? Deep South, nos anos sessenta do século passado! Que corajosa, para não dizer temerária, essa grande mulher! Atrever-se a mexer com os alicerces da segregação racial nos Estados Unidos era quase uma condenação à morte. Martin Luther King Jr sonhou em ver “os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos senhores de escravos sentados juntos à mesa da fraternidade” e foi assassinado. Malcolm X, por expressar o direito dos negros à “revolta activa” também foi assassinado. Muita água rolou sob essa ponte. Hoje, a América provou ser uma Grande Democracia. Em primeiro lugar, a América ganha o seu primeiro presidente negro, concretizando assim o sonho de Martin Luther King Jr. e da geração dos direitos civis. Por isso, o simbolismo da vitória de Baraka Obama é maior, muito maior, do que a sua própria realidade. Só por isso, Obama representa "uma revolução mental enorme". Depois, a América passa a ser não o império dos capitalistas e dos especuladores, mas sim como o empório de oportunidades para todos. E, finalmente, aguarda-se uma viragem política e geoestratégica de grandes proporções, a nível mundial.

1.


Os Estados Unidos da América são uma Grande Democracia. Em primeiro lugar, o primeiro estado republicano dos tempos modernos, erigido com a independência, onde ficou instituído a separação dos poderes – os Government Branches – em Executivo (encabeçado pelo Presidente, conferindo o sistema político como Presidencialista), o Legislativo (diferenciado entre o Senado, representando o engajamento dos Estados ao Federalismo, e o Congresso, representando a vontade constitucional dos cidadãos, dos Commons) e o Judicial (enformado no topo pela Suprema Corte). Este sistema, desenhado por Thomas Jefferson e sancionado, primeiro pelos Founding Fathers e depois pelos cidadãos corporiza a constitucionalidade americana, cujo texto confere poderes sagrados à vontade do Povo. Aliás, o texto constitucional americano tem uma virtude de ter como matriz “We the People”: Nós, o Povo.


2.


Outro aspecto importante, é o liberalismo económico e a consagração do direito à propriedade, bem como o direito individual, que confere aos EUA o estatuto de país geneticamente capitalista. Aliás, a revolução americana, contrariamente à francesa e à russa, foi o triunfo da burguesia. A classe média e comercial, frustrada nas suas expectativas em relações aos ingleses, demanda e conquista a sua autodeterminação e a sua soberania. Tocqueville, que estudou bem a revolução americana, repara que não é uma revolução dos desesperados, mas daqueles que querem mais esperanças para um modelo de vida de sucesso e de bem-estar. Defina-se o bem-estar, a acumulação e a ascensão como o ideário, o sonho americano, que Max Weber, mais à frente, vem analisar como o corolário da Ética Protestante, baseada no trabalho, na acumulação e no estoicismo da produção.


3.


Aspecto não menos importante é que a América surge no começo do século XX, como uma das 5 potências económicas. Acontece-lhe a primeira crise financeira em 1929. A Grande Depressão. O intervencionismo do Estado não só salva a Bolsa de Nova Iorque do crash, como transforma-a em maior bolsa do Mundo. A economia americana, com salários baixos, devido à mão-de-obra imigrante e negra, e à bolsa revitalizada, torna-se pujante. Com o fim da 2ª Guerra Mundial, a América é a grande credora da Europa e do Japão – o Plano Marshall – que a permite gerir os juros e consolidar o seu poderio geoestratégico junto a esses países, tornando-se (ao invés da Inglaterra e Alemanha) na maior economia do Planeta. Igualmente, intacta do impacto da Guerra, a América lidera o confronto ideológico entre o capitalismo e o comunismo, assumindo a Guerra Fria que, aparentemente ganha com a Queda do Muro de Berlim e com a instauração do ideal neoliberal, baseado no capitalismo financeiro (bolsista, bancário e monetário), pós industrial, a nível planetário. Alguém chamou isso, devido ao impacto global dessa nova economia, de Globalização.


4.


Politicamente, a América é um sistema multipartidário. Há partidos (vários) da direita à esquerda, bem como organizações independentes e assumidamente radicais. Mas de há muito, se calhar desde os primórdios, que se conformou a prática da bipolaridade: Republicanos (os conservadores, os da direita e os do centro-diretita) e Democratas (os progressistas, os da esquerda e os do centro-esquerda). Esse campo que permite a bipolaridade se chama “Mainstrean” ou seja o principal fio condutor do sistema, onde há grandes consensos já institucionalizados sobre os fundamentais da política (inclusive a externa), da economia e da constitucionalidade. No “Mainstrean” da Política é que tem gerado a dinâmica da alternância governativa, tanto no Executivo, como no Legislativo (nas duas câmaras) e no Judicial. Os partidos ou grupos políticos fora do “Mainstrean” têm uma expressão mais cívica, cidadã e social do que propriamente governativa, considerando haver na sociedade americana a tradição da acção cívica alavancadora de petições, impugnações, referenda e re-calls (anulações e repetições eleitorais), previstas na legislação americana. Em verdade, apesar da força real dos dois grandes partidos, o enformar das vontades políticas decorre da vontade arregimentada da cidadania. Aliás, a América corrigiu a ideia-quadro, herdade da visão grega da democracia, de um regime da maioria para um regime da cidadania, num quadro legal e institucional bem definido, onde imperam os direitos. Vejamos o caso do processo histórico dos afro-americanos na América que, nos anos 60, assumiram os Direitos Civis (num afrontamento dramático) e, mais tarde, conquistaram plenos direitos políticos.


5.


No âmbito do “Mainstrean”, as eleições presidenciais e outras, à excepção das locais, onde os independentes e grupos de cidadãos têm tido notável protagonismo, a alternância afirma-se entre Republicanos e Democratas. O ciclo político das presidenciais têm sido de dois mandatos, salvo raras excepções, marcadas pela crise, escândalo e/ou impugnação. Há um padrão, baseado numa prática costumeira, de 10 anos de Republicanos e de 10 anos de Democratas, igualmente salvo raras excepções. O ciclo e o contra-ciclo políticos iniciam e findam, na lógica costumeira do “Mainstream, respectivamente entre republicanos e Democratas. Assim, depois dos 10 anos da Administração Clinton/Democrata, sucedeu-lhe os 10 anos da Administração Bush/Republicano. O Democrata Al Gore/Vice-Presidente de Clinton, apesar de comandar as sondagens e a quantidade dos votos expressos directos, não conseguiu suplantar a lógica do contra-ciclo, bem enraizada nos delegados que iriam convencionar a escolha do novo Presidente (Bush, no caso), já que quem elege, em última instância, o Presidente é um Colégio Eleitoral, expressando a vontade colhida da cidadania. Por conseguinte, a entrada de Bush na Casa Branca marcou, não apenas o regresso dos Republicanos, mas de um segmento mais conservador com ideias mais arreigadas sobre as principais agendas públicas no momento: a geopolítica em relação ao petróleo, o terrorismo, a droga, os direitos humanos, o Iraque, o Afeganistão, a NATO, a Rússia, a China e a Europa. A Administração Bush ficou marcada pelo recuo de alguns direitos sociais, gastos militares, 11 de Setembro, a invasão do Iraque e o intervencionismo no Afeganistão e nos Balcãs. A classe média americana, a grande força cidadã dos EUA, começa a perder o seu poder de compra, afoga-se na dívida (sobretudo dos investimentos imobiliários e da ruptura dos cartões de crédito) e ressente, pela primeira vez em muito tempo, a subida dos combustíveis. Gera-se o descontentamento devido à guerra, a inflação e a má administração da coisa pública.


6.


O contra-ciclo político era favorável aos Democratas. Em tese, era a vez dos Democratas. Os Republicanos, numa missão difícil, apresentam-se os seus candidatos às primárias. Ganhara o menos parecido com George W. Bush, aliás aquele que o desafiara nas antigas primárias e dele fizera duras críticas – John McCain. Os Democratas apresentaram, não só a proposta de alternância, mas, pela primeira vez, a ideia da alternativa no quadro do “Mainstrean”. Vão às primárias com uma mulher – Hillary Clinton – e um mestiço – Baraka Obama (filho de um queniano e de uma americana branca). As primárias americanas denotaram a necessidade não só da alternância, mas dessa alternativa, tanto que preferiram aquele menos próximo aos anteriores poderes: o Senador de Illinois, Baraka Obama. Cedo, tanto na mobilização dos cidadãos e dos delegados, como na recolha de fundos para financiar a campanha, Obama mostrou-se mais dinâmico e mais adaptado à vontade dos cidadãos na reinvenção do “Mainstrean”. Escolhido oficialmente pelos democratas, o afrontamento passou a ser entre John McCain e Baraka Obama. Tanto as sondagens, como os debates, bem como ainda as angariações de fundos, denotam a clara vantagem de Baraka Obama que, não só acentua a ideia do contra-ciclo, como aproveita, com forte capacidade de liderança, o cansaço dos americanos em relação da guerra em duas grandes frentes e a crise financeira que vem minguando o seu poder de compra. A crise é tão acentuada que McCain não conseguiu se descolar completamente da imagem de Bush (com baixíssimo índice de popularidade) e das opções desastrosas dos Republicanos.


7.


Entretanto, estas eleições que culminaram a 4 de Novembro exigem uma análise complexa, multipolar e cruzada. Uma análise crítica de poliedro, onde vários factores interagiram para além da crise económico-financeira e a insatisfação da classe média, que, além de ser força económica real nos EUA, determinam a vontade do Colégio Eleitoral Americano. McCain era um herói da Guerra do Vietname (outro grande desastre e trauma americano) e tem uma trajectória moral impoluta. Mas a escolha de Palim à tabela de Vice não foi bem aceite e tomada como uma adição de soma zero. A Governadora do Alaska é mais conservadora que o Presidente Bush e obrigou a opinião pública a “colar de novo” McCain aos “falcões conservadores”. Isso pode ser um factor evasivo para o Candidato Republicano, para não dizer agravante e penalizante. Quanto a Obama a sua condição de mestiço (negro, para muitos) é um pau de dois gumes: de um lado, lhe garantia voto étnico, mas por outro lado poderia polarizar o debate na cor e na raça. A realidade mostra que apenas 12% dos americanos são negros, 15% são hispânicos, 8% são asiáticos e a grande maioria é branca. O desafio de Obama era ser o mais inclusivo e transversal possível, mostrando-se como candidato da alternância com alternativa para toda a classe média americana, sem deixar o apelo aos menos favorecidos da sociedade (onde estão muitos negros, hispânicos, asiáticos e outros. Em verdade, Obama tinha de se apropriar cada vez mais a matriz da constitucionalidade americana, baseada não em regime de pura maioria, mas na essência da cidadania plena para os americanos.


8.


Regozijamo-nos com a vitória de Baraka Obama. A América, em crise, precisa mudar de paradigma para buscar soluções à crise. Não são os 700 bilhões de dólares injectados pela Administração Bush, periclitantemente aprovados pelo Congresso, a panaceia da crise que é profunda. A América precisa de um novo lidar, que para além de ser jovem e “diferente”, aborde questões globais da crise, em termos financeiros, económicos, ambientais, energéticos, sociais, morais e éticos. O Estado passa a ser interventor na economia e nas finanças, e isso não será tarefa dos Republicanos e dos neoliberais fundamentalistas. A América deve repartir a liderança mundial com a Europa e a China… e nos parece que Baraka Obama está preparado para o “Job”. Vem aí o Brasil, a Índia e a Rússia, só Obama está pronto, sem os estigmas imperiais, para lidar com os novos fenómenos económicos e as suas demandas políticas no cômputo das Nações. Naturalmente, que o Sistema Americano (económico, financeiro, industrial, tecnológico e militar, bem como o geoestratégico) imporá limites a Obama. Ele não será o Presidente das nossas vontades e ansiedades, mas acima de tudo um Presidente americano, ciente dos interesses dos EUA em continuar na liderança mundial.


9.


Acreditamos também que será um Presidente generoso para com a África. A América continuará a ser apoiante do NEPAD e de incrementar os fundos do Milénio. As áreas de interesse – Egipto, Nigéria e África Austral – serão alargadas, demandando um esforço dos novos países para uma focalização na África Ocidental. O mercado da CEDEAO, o petróleo off-shore da Mauritânia e a posição geoestratégica de Cabo Verde (luta contra o terrorismo, a droga e tráfico humano, bem como o posto económico avançado do Atlântico, como já o é a China, e a Parceria Especial com a Europa) podem ser factores atractivos para uma Administração Americana liderada por Baraka Obama. Outro aspecto de domínio bilateral é o incremento da Cooperação Internacional, baseado no reforço do MCA, do AGOA e da cooperação militar. Igualmente, no quadro da Candidatura da Cidade Velha a Património Mundial da UNESCO e da subsequente inserção na Rota dos Escravos, reconectar com os EUA para a afirmação de novos e criativos investimentos no quadro do Turismo e dos Direitos Humanos.


10.


Finalmente, importa analisar as eleições americanas, não apenas como a rotina democrática dos EUA, mas um fenómeno de dimensão global e planetário. Com Obama na Presidência, haverá subida nas principais praças financeiras do mundo: de Nova Iorque a Hong Kong, passando por Londres, Frankfurt e Singapura; de Helsínquia a Joanesburgo, passando por Lisboa, Roma e São Paulo. Inclusivamente, as Nações Unidas, o Médio Oriente, o Darfur, a Geórgia, o Irão, a Venezuela, a Coreia do Norte e Cuba conhecerão novos cenários, quem sabe com novas oportunidades de (re) negociação. O grande dilema, e a isso temos de ficar cientes e conscientes, é se no cair dos novos muros, irão beneficiar as agendas do desenvolvimento, do comércio mais justo, dos pequenos estados insulares, das mudanças climáticas e da Paz como o Grande Activo para a Humanidade. Por tudo isso, as eleições americanas são importantes para o mundo e têm a ver directamente connosco.


Remake


Free at last. Estas eleições mudaram, por isso, a face da América e do Mundo. Passou a haver o antes e o depois de Baraka Obama. Quem não se lembra de Rosa Parks? Yes, We the People…we can.


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Obama piange per la morte della nonna


...um Presidente com rosto (e coração) humanizado. Não nos quedamos indiferentes a estas lágrimas.

I, Too





I, too, sing America.
I am the darker brother.
They send me to eat in the kitchen
When company comes,
But I laugh,
And eat well,
And grow strong.
Tomorrow,
I'll be at the table
When company comes.
Nobody'll dare
Say to me,
"Eat in the kitchen,"
Then.
Besides,
They'll see how beautiful I am
And be ashamed-
-I, too, am America.
Langston Hughes

Hoje é o Dia


I Have a Dream
Martin Luther King, Jr.
28 de Agosto de 1963, em Washington, D.C.

Quando os arquitectos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, estavam assinando uma nota promissória de que todo norte-americano seria herdeiro. Esta nota foi a promessa de que todos os homens, sim, homens negros assim como homens brancos, teriam garantido os inalienáveis direitos à vida, liberdade e busca de felicidade.
Mas existe algo que preciso dizer à minha gente, que se encontra no cálido limiar que leva ao templo da Justiça. No processo de consecução de nosso legítimo lugar, precisamos não ser culpados de actos errados. Não procuremos satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo na taça da amargura e do ódio. Precisamos conduzir nossa luta, para sempre, no alto plano da dignidade e da disciplina. Precisamos não permitir que nosso protesto criativo gere violências físicas. Muitas vezes, precisamos elevar-nos às majestosas alturas do encontro da força física com a força da alma; e a maravilhosa e nova combatividade que engolfou a comunidade negra não deve levar-nos à desconfiança de todas as pessoas brancas. Isto porque muitos de nossos irmãos brancos, como está evidenciado em sua presença hoje aqui, vieram a compreender que seu destino está ligado a nosso destino. E vieram a compreender que sua liberdade está inextrincavelmente unida a nossa liberdade. Não podemos caminhar sozinhos. E quando caminhamos, precisamos assumir o compromisso de que sempre iremos adiante. Não podemos voltar.
Digo-vos hoje, meus amigos, embora nos defrontemos com as dificuldades de hoje e de amanhã, que eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho norte-americano.
Eu tenho um sonho de que um dia, esta Nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios: "Achamos que estas verdades são evidentes por elas mesmas, em que todos os homens são criados iguais".
Eu tenho um sonho de que, um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos senhores de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade.
Eu tenho um sonho de que, um dia, até mesmo o estado de Mississípi, um estado sufocado pelo calor da injustiça, será transformado num oásis de liberdade e justiça.
Eu tenho um sonho de que meus quatro filhinhos, um dia, viverão numa Nação onde não serão julgados pela cor de sua pele e sim pelo conteúdo de seu carácter.
Quando deixarmos soar a liberdade, quando a deixarmos soar em cada povoação e em cada lugarejo, em cada estado e em cada cidade, poderemos acelerar o advento daquele dia em que todos os filhos de Deus, homens negros e homens brancos, judeus e cristãos, protestantes e católicos, poderão dar as mãos e cantarem com as palavras do antigo spiritual negro: " Livres, enfim. Livres, enfim.
Agradecemos a Deus, todo-poderoso, somos livres, enfim.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Site do Ministério da Cultura


...porque, navegar é preciso.

Yes...we can



Pablo Picasso
Man with a lollipop





Identidades



“Mestiçagens Socioculturais e Procura de Identidade na África Contemporânea: o Caso dos Países Africanos Lusófonos” é o título da conferência internacional, sob a égide da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) e o Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África (CODESRIA), que acontece esta segunda-feira, 3, e na terça-feira, 4, na cidade da Praia. Hotel Praia-Mar, mais precisamente. A não perder…



Ode Marítima



Luísa Queirós, uma das mais consequentes e coerentes artistas plásticos em (ou de?) Cabo Verde, inaugura, na terça-feira, 4, “Naufrágios e Barcos Abandonados”, uma exposição de escultura e pintura dedicada ao existencialismo (dramático, quase sempre) dos nautas, das naves e das navegações (in) conseguidas. Esta preciosidade acontece na Réplica da Torre de Belém, no Mindelo. Neste polegar da ilha, como diria Corsino Fortes, imaginamos essa mostra com ansiedade pessoana: o cais é uma saudade de pedra…



Solidariedade com Cuba



Na sexta-feira, 7, Mário Lúcio vai apresentar, no Cine-Teatro Municipal da Praia, um concerto musical em solidariedade ao povo cubano devido aos furações que fustigaram Cuba, recentemente. Depois, o artista seguirá em digressão internacional, promovendo essa mesma causa humanitária. Eis a agenda: Luxemburgo (Eglise St.Esprit) dia 12; Lollar (Kirchbergforum) 13; Potsdam (Nikolaisaal)14; Zürich (Moods - im Schiffbau) 16; St.Pölten (Musikcafe Egon) 17; Wien (Szene Wien) 18; Prag (Baracnickarychta) 19; Stuttgart (Laboratorium) 21; Dornbirn (Inatura) 23; Lisboa (Teatro São Jorge) dia 29 de Novembro. Os fundos angariados serão entregues ao Grupo de Solidariedade com Cuba. Eu sou solidário com Cuba; também por isso (e por muito mais), estou com Mário Lúcio…



Quase bíblico



É tempo" - tempo, talvez, de votar naquele que diz "Eu sou o escolhido". Parecido a Abraham Lincoln, Martin Luther King Jr. e a Jimmy Carter, Baraka Obama exala a “grandeza interior” que a América resguarda para, de forma recorrente, surpreender o mundo. Não haverá milagres, mas pela certa redenção dos males que afectam esse país e o mundo. Assisti, ontem, a um debate pela TCV sobre a “complexidade” das eleições americanas. Oportunidade perdida para se analisar as coisas de forma mais substantiva. Entrementes, rezamos (por um deus qualquer) que os votos não se derramem…

domingo, 2 de novembro de 2008

XLV

Não estejas longe de mim um só dia, porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.

Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência:
não te vás por um minuto, bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.

Pablo Neruda

sábado, 1 de novembro de 2008

Luto no sertão

Pelo sertão não se tem como
não se viver sempre enlutado;
lá o luto não é de vestir,
é de nascer com, luto nato.
Sobe de dentro, tinge a pele
de um fosco fulo: é quase raça;
luto levado toda a vida
e que a vida empoeira e desgasta.
E mesmo o urubu que ali exerce,
negro tão puro noutras praças,
quando no sertão usa a batina
negra-fouveiro, pardavasca.


João Cabral de Melo Neto

Kai

Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara se gaba sua lástima,
de que vaga se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.


Paulo Leminsky

Manhã

Canta (e como me encanta) o peregrino,
esse pardal que chilreia de quase música,
e nele medram não só a suave neblina,
mas o que se soletra neste amanhecer...

Tanto canta que - aos seus males espanta
-, embevecido, se me instala o pranto,
pois esteta tem disso: vê poema e ledice
seja no temprano, seja no engodo e prosa...

Desacordado, no (re) verso, eis que cioso
sei que é pura fala tão disfarçada melodia,
quão fingida a lágrima que ora me percorre...

Mas já lúcido, na plenitude a animar o dia,
rio-me do que se mascara. Ser seu canto:
sinfonia. E minha tristeza: mais que pranto...



Filinto Elísio

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Entre pedras, palavras...

Que estupidez o sangue nas calçadas!
O sangue fez-se para ter dois olhos,
um lépido pé, um braço agente,
uma industriosa mão tocante.
Que estupidez o sangue entre as palavras!
O sangue fez-se para outras flores
menos fáceis de dizer que estas
agora derramadas.


Alexandre O´Neill

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

De como era Kate

1.

Passeia-se por alguns Blogs (desses...de Cabo Verde) e é real o vaticínio de Millôr Fernandes: Já que não estamos vivendo em tempos éticos nem estéticos, é fundamental, pelo menos, não abandonarmos os tempos sintáticos. Pior, só na última sessão parlamentar. A que se retoma (porra) na próxima segunda-feira.
2.
Mexendo nos papéis, dei de caras com um guardanapo amarlotado. Apanhei-o num sushi bar, em Lisboa. Nele, de letra imprecisa, estava escrito:
Luar desbotado
A luz da noite induz
ao verso calado.
3.
Não entro na histeria dessa repetida sobre o lixo tóxico. Em certas matérias, mandam o bom-senso, a serenidade e o espírito colectivo. Pessoalmente, vendo as questões de custo-benefício, defenderia a opção pelo aterro sanitário. De resto, a inceneração não será a panaceia universal para o tratamento dos resíduos industriais. Sem ser especialista na matéria, não apoio a proposta de queima, que não se debruça sobre a redução, reutilização e reciclagem dos resíduos. Há equações que obrigam a interpelar parcelas como o ambiente, o bem-estar social e a qualidade de vida. Certas inequações, a meu ver, são para esquecer...
4.
Kate, a americana que foi fugaz paixão de Eugénio Tavares, se me adivinha breve, bela, simples e fluente. O que sobrou - olor de perfume na procela -, é uma fina neblina em forma de morna...

Sí, se puede

(Photo: Doug Mills/The New York Times)

Fastos

O Verão cantava sobre a sua rocha preferida
quando tu me apareceste,

o Verão cantava afastado de nós
que éramos silêncio,
simpatia,
liberdade triste,
mar
mais ainda do que o mar,
cuja enorme comporta azul
brincava aos nossos pés.

O Verão cantava
e o teu coração nadava longe dele.
Eu beijava a tua coragem,
entendia a tua perturbação.

Estrada através do absoluto das vagas
em direcção a esses altos picos de escuma
onde navegam virtudes assassinas
para as mãos que seguram as nossas casas.

Não éramos crédulos.
Éramos rodeados.

Os anos passaram.
As tempestades morreram.
O mundo partiu.

Sofria
por sentir que era o teu coração que já não me conhecia.

Eu amava-te.
Na minha ausência de rosto e no meu vazio de felicidade.

Eu amava-te,
mudando em tudo,
fiel a ti.


René Char

Sketches IV


Significados
Logo cedo, faço jogging, vejo o nascer do sol e leio versos de Leopold Sedar Senghor. Mulher nua, mulher negra. E a minha vida se enche de significados...

Karma
Demoradas reuniões, com especialistas e consultores cheios de nada. Cabo Verde visto e revisto (reinterpretado até) pelas tabelas estatísticas, pelo Banco Mundial e pelo FMI. Aturar a infinita "sapiência" dos profetas da terra e não poder rir quanto se apresenta o Power Point. Miguel Torga escrevera: Apetece gritar, mas ninguém grita!
Gripe política
Contra o surto da "gripe política", se calhar provocado pelo alarido em torno de lixo tóxico, só nos resta lamentar o dinheiro nosso de cada dia a pagar certos deputados e deplorar que as imunidades sejam tomadas por impunidades. Começo seriamente a acreditar em pai de santo, no deus-sol e no Nilo caudaloso, naquele que aparece em Monte Sinai, em Oxalá (Iemanjá, esta até serve) e nesse "milagrento" do Templo Maior. Há dias, ouvi um deputado a cacarejar pela rádio: gripe das aves, bem me pareceu.

Under the Big Sky
Uma vez, li um testemunho de Ernest Heminguay sobre o "preconceito anti-americano" que enfrentara em Cuba (pré-revolucionária). O seu amigo cubano, aos poucos, foi se apercebendo que não há bondade ou maldade nenhuma em apenas ser americano. Assim como Obama não é divino pelo facto de ser negro, ele não é diabólico pelo facto de ser americano. Tal como Martin Luther King Jr. e Jimmy Carter, Baraka Obama é um excelente ser humano. Acompanhem-no...That’s what Americans will be looking for after next Tuesday.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Sketches III


Poeta
(...) O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente (...). Fernando Pessoa...naturalmente.
Obama
Fazendo curta uma história longa, estamos todos prontos para comemorar a vitória de Obama, no dia 4 de Novembro. Os cabo-verdianos, com cidadania americana, aprendem a não derramar seus votos. Obama é "crioulo", ora.
Blogsfera cabo-verdiana
Mas essa identidade existe? Quanto a mim, somos cabo-verdianos na Blogsfera. Uns e outros, todos com o seu idioleto. Por favor, não se faça nenhum "congresso constitutivo". Tal seria, no mínimo, broxante...
Meia-lua inteira
É quando alguém nos complementa. Obviamente que ninguém nos completa. Somos, matricialmente, fragmentados. Por isso, com todos os riscos, saímos do Paraíso. Filósofos que somos, que nem Ulisses (o da Mitologia, diga-se), as ilhas, ainda que dos amores, são uma espécie de cárcere. Meia-lua que faz sorrir as nossas noites...
Eterna idade
É uma espécie de varanda, com montes à frente e árvores demoradas, a jusante. Creio ter escrito um grande disparate. Tangencial ao pensamento, o tempo que nos é inexorável. Tento escrever versos, mas (a sério) hoje não estou inspirado...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sketches II


Arte I
Apreciamos a Arte...em toda a sua extensão.
Obama
Apoiamos Obama...com muita admiração. Assim como odiamos os neonazis...
Crise
Apesar de global, podemos (juntos) mitigar seus efeitos em Cabo Verde.
Parlamento
Certa oposição transforma o Parlamento em...burrindadi.
Arte II
Para não morrermos, como diria o filósofo, de excesso de realidade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Segunda-feira


1.
Recebo a foto (gentileza de Rita Pires…da plástica fina, logo se vê) de um grafitti numa das esquinas do Bairro Alto, em Lisboa. Eu não comento. Até porque Obama, "arco-irisado" que é, vai além do preto-e-branco. O Mito comenta que o stencil parece bem recente, pois tal esquina fora desgrafittada em campanha recente. Obama é fenómeno transbordante…

2.
Quer os opositores, quer os governantes mais esclarecidos certamente perceberão a crise que grassa pelo mundo e que, não tarda, passa por Cabo Verde. Em consequência, esse surto de crispação e de balcanização das razões partidárias não poderá permanecer por mais tempo. Que não se derrame, ingloriamente, a oportunidade de alguns consensos que o País aguarda.

3.
Leio uma dúzia de documentos para prestar consultoria a um programa jornalistíco, desta feita, sobre a Diáspora. Leio discursos, fluxos bancários e outros dados/testemunhos da problemática. Cabo Verde ainda continua a ser incapaz de maximizar as relações com a sua Diáspora. Persiste em nós uma visão folclórica, romântica e empobrecida da emigração…

4.
Quase como os codornizes fritos que tu fazes. Ou o bacalhau com natas, com segredinhos de não sei que fruta. Ovas de cavala fritas a alho, com cebolada. Vou “caprichar” mais nessa receita (tomate, coentro e rosmaninho para encorporar o molho agridoce). Vale inventar um novo prato. Para deixar Alain Ducasse no chinelo…

sábado, 25 de outubro de 2008

Argila


Cavalier and seated nude
Pablo Picasso




Em duas partes
a vida se divide
e em duas artes
o imponderável
do corpo se revela.


Pela primeira arte
o rito do amor é chamas
pela segunda
o mito da paixão é dádiva.


E a dor de não amar
o amor é devaneio torpe
porque o prazer inflama
a dor de não doar
o corpo ao precipício.


E tudo que tu dizes
o barro dos teus olhos
o brilho do teu rosto
o sal dos teus dedos
de marfim e tédio
tudo é impasse
pois tudo está exposto
à liturgia da divisão das partes.



Dimas Macedo

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

On The Pulse Of (NEW) Morning


On The Pulse Of Morning


A Rock, A River, A Tree
Hosts to species long since departed,
Mark the mastodon.The dinosaur, who left dry tokens
Of their sojourn here
On our planet floor,
Any broad alarm of their of their hastening doom
Is lost in the gloom of dust and ages.
But today, the Rock cries out to us, clearly, forcefully,
Come, you may stand upon my
Back and face your distant destiny,
But seek no haven in my shadow.
I will give you no hiding place down here.
You, created only a little lower than
The angels, have crouched too long in
The bruising darkness,
Have lain too long
Face down in ignorance.
Your mouths spelling words
Armed for slaughter.
The rock cries out today, you may stand on me,
But do not hide your face.
Across the wall of the world,
A river sings a beautiful song,
Come rest here by my side.
Each of you a bordered country,
Delicate and strangely made proud,
Yet thrusting perpetually under siege.
Your armed struggles for profit
Have left collars of waste upon
My shore, currents of debris upon my breast.
Yet, today I call you to my riverside,
If you will study war no more.
Come, clad in peace and I will sing the songs
The Creator gave to me when I
And the tree and stone were one.
Before cynicism was a bloody sear across your brow
And when you yet knew you still knew nothing.
The river sings and sings on.
There is a true yearning to respond to
The singing river and the wise rock.
So say the Asian, the Hispanic, the Jew,
The African and Native American, the Sioux,
The Catholic, the Muslim, the French, the Greek,
The Irish, the Rabbi, the Priest, the Sheikh,
The Gay, the Straight, the Preacher,
The privileged, the homeless, the teacher.
They hear. They all hear
The speaking of the tree.
Today, the first and last of every tree
Speaks to humankind. Come to me, here beside the river.
Plant yourself beside me, here beside the river.
Each of you, descendant of some passed on
Traveller, has been paid for.
You, who gave me my first name,
You Pawnee, Apache and Seneca,
You Cherokee Nation, who rested with me,
Then forced on bloody feet,
Left me to the employment of other seekers-
-Desperate for gain, starving for gold.
You, the Turk, the Swede, the German, the Scot...
You the Ashanti, the Yoruba, the Kru,
Bought, sold, stolen, arriving on a nightmare
Praying for a dream.
Here, root yourselves beside me.
I am the tree planted by the river,
Which will not be moved.
I, the rock, I the river, I the tree
I am yours-
-your passages have been paid.
Lift up your faces, you have a piercing need
For this bright morning dawning for you.
History, despite its wrenching pain,
Cannot be unlived, and if faced with courage,
Need not be lived again.
Lift up your eyes upon
The day breaking for you.
Give birth again
To the dream.Women, children, men,
Take it into the palms of your hands.
Mold it into the shape of your most
Private need. Sculpt it into
The image of your most public self.
Lift up your hearts.
Each new hour holds new chances
For new beginnings.
Do not be wedded forever
To fear, yoked eternally
To brutishness.The horizon leans forward,
Offering you space to place new steps of change.
Here, on the pulse of this fine day
You may have the courage
To look up and out upon me,
The rock, the river, the tree, your country.
No less to Midas than the mendicant.
No less to you now than the mastodon then.
Here on the pulse of this new day
You may have the grace to look up and out
And into your sister's eyes,
Into your brother's face, your country
And say simply
Very simply
With hope
Good morning.
Maya Angelou

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Corpo Presente

1.
Quando Daisy veio à casa contar aquela tragédia, não escondeu a ambivalência dos seus sentimentos. Foi buscar à estante o livro “Corpo Presente”, de Anne Enright e leu em voz alta: “Há algo maravilhoso numa morte, como se tudo fecha e todas as formas como nos julgámos vitais não são sequer vagamente importantes”. Daisy deve ter ficado horas esquecidas a mirar o corpo. Era jovem. Pouco mais que uma criança. Chegou a sentir saudades da sua própria infância. Das cantigas de roda. Da grande cozinha que dava para o quintal. Da soleira das portas em noites de luar. Os murmúrios. Os gemidos escutados às janelas dos vizinhos. Memória da infância – de um lado, vagarosa e carinhosamente; doutro lado, sinistra, como um filme de vampiros. O suicídio da dona Judite, naquele sobrado azul. Bela, como uma princesa, a senhora entrou em estado depressivo e degolou-se com uma faca de pão. Daisy tinha ido, à frente de uma meia dúzia de meninos, ver o corpo. Aquela lagoa de sangue. Fora há tanto tempo…


2.
No conforto do Hotel Vittoria, Norberto acordou a meio da manhã e viu a imagem da sua mãe em frente à janela. A princípio, parecia-lhe uma sombra informe, que mal deixava ver a silhueta da Basílica para lá da Via X Giornate. O que era uma imagem em composição foi dando corpo a uma bela mulher septuagenária. Não duvidava que era a sua mãe. Mais tarde, a madrinha telefonara a contar do assassinato do jovem thug, às cinco da matina. “À mesma hora da aparição da tua mãe”, disse ela. Norberto encontrava-se ali em repouso, a ver se conseguia terminar um livro de poemas. Andar entre os feirantes do centro da cidade, dava-lhe alento e motivação. Só a Eluana, com as suas ideias de Feng Shui e de Ioga, defendeu esse retiro pelas terras italianas. O resto da família desaprovara a aventura, sobretudo aquela parte de ir a Veneza andar de gôndola.


3.
Cinthia dormia profundamente. A mãe diria que era o sono dos justos. Ressonava até. Não dava fé dos telefonemas, nem atentava para o sol que amanhecia como uma laranja. Durante a noite, longe dali, uma mão enluvada rodava a maçaneta de uma porta. Uma figura de preto (andrógina figura, diga-se) entrava pelo quarto. Uma espelunca. O covil dos ratos. Mas ela vinha sorrateira e sem fazer barulho. A figura empunha um cano cerrado. De manhã, quando a polícia descobriu o thug morto, a dúvida ia entre a carabina 12 e cano serrado. O Escorpião era vezeiro em arma de guerra. Parecia um assassino serial. Cinthia dormia profundamente. Completamente nua. No silêncio dos inocentes. Quando acontece o disparo, longe, a milhares de quilómetros dali, as pombas voaram da cúpula da Basílica que ladeava a imagem daquela mulher à janela…

"Presidente" OBAMA


Modesto, mas incondicional, apoio de Albatrozberdiano.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Broche


Estava ali o corpo putrefacto e nauseabundo. Daisy chegara a casa, ofegante e aflita: o Escorpião matou mais um thug! E ela não gostou do comentário da madrinha (magra, cabelo ralo, vestido negro e broche com olho à Salvador Dali). Não gostou que ela falasse do extermínio como índice de civilização. A madrinha tinha cada uma! Preferiu a discussão acesa que se instalou à mesa. A verdade não é tão evidente assim, respondia John, o patriarca, relativizando as teses dos Direitos Humanos que a Eluana insistia em trazer à mesa. Apenas um rasgo da memória, não se sabe se realizada, se sonhada. O Escorpião, mesmo que mate, é apenas uma máscara, uma ficção. O tio, que era uma espécie de sábio, descrevia a verdade como uma aproximação ao desejo ou à repulsa. O Dr. Zacarias (mas eram tantas personagens à mesa!) explicava-a como uma memória (selectiva, meus amigos). próxima ou distante de nós. E eu ria-me das nuances filosóficas de uns e de outros., sobretudo as de Zilda, a empregada, que, familarizada que estava, tinha a sua versão: a verdade é tudo que não seja mentira. O Escorpião não é verdade. Tinha o "apelido" de Sancho Pança. No broche da madrinha, um relógio simulava o tempo parado. Quase nas antípodas, a família me conhecia por Alonjo Quijano. De triste figura...dir-se-ia o thug que nauseabundava!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Mão invisível


Novas da Campanha


Uma Barbie em Filadélfia, horrorosa como todas as Barbies, distribui um panfleto que mente: Obama não nasceu no solo americano. E esta? Pior só aquela língua de fora que um Blog crioulo intitulou de “Fi de Cadon”. Enquanto isso, um homem, nascido para falar com os cidadãos olhos nos olhos, continua a rodar a América a espalhar esperança…

Acerca da Crise

A mão invisível do mercado estava suja. Tão suja quanto aquele que traficava droga, armas e pessoas. Entre uma mão e outra apenas uma fronteira duvidosa da legalidade. O capitalismo especulativo e desenfreado, que fazia encolher o Estado e projectar o imperialismo dos “donos” do dinheiro, é o responsável por este enorme rombo (ou roubo, como já dissemos aqui). A crise é ambiental, energética, financeira, económica, social e ética. Tem mais impacto que a queda do Muro de Berlim que apenas reconfigurou as oligarquias e reconstruiu outro muro entre o Norte e o Sul – entre a riqueza e a pobreza. A mão invisível e suja do mercado guardava esse novo muro com ordem para matar. Mão tão suja que já nem se pode lavar. Amputá-la seria o remédio santo…

Da Arte

A questão é elevar a política à Arte e não reduzir esta a aquela. De resto, não gostamos de ver discursos políticos nas Galas Musicais. Em nenhuma gala. A palhaçada das apresentações, redundante como seria, também já basta. Os espectáculos devem manter a lógica da produção artística tout court. Deveria ser apenas um profissional de comunicação, comedido, gracioso e shrap, a anunciar os artistas e, em breve sinopse, o busílis de estarmos ali sentados em hora nobre. Os viscerais na bancada. Sem intelectrocratas, nem intelectualóides. Todos para fora do stage. E música…Maestro!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

D-versos


Obama

Temos momentos sem neutralidade. Nem isenção, inclusive. No dia 4 de Novembro, queremos, desta arquibancada do mundo, que Obama seja o 44º Presidente dos EUA. Queremo-lo com fé, confiança e resolução. Pela América e pelo Mundo. Não podemos deixar de ser românticos em relação à América, cuja revolução, mais interessante que a francesa, a inglesa e a russa, declinou o poder como o exercício da vontade dos cidadãos. Apesar dos vícios do Império (de todos os impérios, note-se), a América guarda a distância do indivíduo em relação à causa e à coisa pública. E tem capacidade de se reinventar sempre que os falcões invadem o domínio das águias. Terra de Thomas Jefferson e de Martin Luther King Jr.. Ganhando Obama será a refundação da América…e não só.

Crise

Vivemos uma crise complexa. Múltipla, porque financeira, económica e ecológica. De confiança no capitalismo que se tornou globalizado e, até há dias, a panaceia dos nossos males. Vivemos uma crise globalizada, apanhando uns mais que os outros. Ou melhor: uns antes dos outros. O tempo, antes inexorável, tornou-se implacável com todos. O tempo da crise mundial, bem entendido. É uma questão de mais ou menos conectividade. De repente, os campeões do neoliberalismo lembram-se das virtudes do Estado e querem-no forte, intenso e interventivo. Um Estado capaz de transformar os impostos dos cidadãos em activos e em capitais para refinanciar a mega “irresponsabilidade” financeira dos capitalistas. Um Estado que reconheça, às pressas, que é hora de injectar dinheiro no network interbancário e salve, não só as finanças, mas todo o resto que ficou baralhado e que, a descuido, poderá transformar o mundo numa tremenda desgraça. O pânico dos ricos, que está longe do cenário dos pobres, é que nos tem nesta grande aflição por estes dias. E, com perdão pelos sabichões da nossa praça (praceta, diga-se de passagem), de cuja lição de sapiência estamos fartos, o cronista começa a ter desgosto do Estado. Em verdade, é o Estado que começou já a entrar na complexidade desta crise…

Ildo Lobo

Nenhuma voz cabo-verdiana me tocou tanto quanto a de Ildo Lobo. Naturalmente que não sou indiferente à toada de Cesária Évora, de Bana e de Mayra Andrade. Ouço o timbre de Sara Tavares, de Zeca di nha Reinalda e de Tcheka Andrade, e caio logo “na gandaia”. Isa Pereira, Dudu Araújo e Lura tiram-me do sério. Gosto das vozes cabo-verdianas, o skating da crioulidade musical do canto cabo-verdiano. Mas nenhuma voz me apanhou quanto a de Ildo Lobo. Talvez por dele ter ouvido “Labanta Brasu” e “Djonsinhu Kabral” no tempo certo de as ouvir. Não posso pensar em Cabo Verde, independente, livre e democrático, estas ilhas desabridas e afortunadas, sem que, na trilha, me ressurja o trecho da voz de Ildo Lobo. Não sou telúrico, nem visceral no apreender a Arte, diz-me o Poeta. Mas marca-me cá dentro, como uma cadência de mim próprio, essa clave com fonema. Voz que me é, como nenhuma, existencial…

A MAIS ALTA VOZ / ILDO LOBO



Declinava outubro com seu som

de poucas águas. E nem as lágrimas

da virgem da ladeira prometiam,

nesse ano, o sempre aguardado milagre.


E então tu partiste - pelas quebradas

de saibro e cieiro, pelas alturas de pico

d'antónia, tu, infante das planuras,

eterno enamorado do whisky e da maresia.


«Serenata nun luar klaru», «kabral ka more»

«djonzinhu kabral» - que compadecida voz

as recitará de novo nas madrugadas de facas

e despedidas? Quem rogará às ondas do mar

«faze-m un arku ba poiza la riba na krus d´igreja»?


Sin, «notísia tristi N ten pa N da:

fidju tera, barku grandi ka rizisti»,

declinava outubro com seu eco

de vígeis espigas, e lisboa era esse céu

toldado de presságios, tal indemne profecia

soluçando à ilharga da manhã.


Só tu eras a mais alta estrela «na séu di kabu verdi»,

só tu sabias ma «ka ten dia ka ten manhan»,

mas «na porton di nos ilha» bu vos é son

di strubon ta ronka pa iternidadi.



José Luis Tavares

sábado, 18 de outubro de 2008

Uma letra veio





Um M e outro

(gémeo)


e agora este


abrindo sulcos


veios


para a transa


da viagem: A voz


agora húmida



eriçando o campo


o último


de se ir às sombras

dum crepúsculo ao fundo

ígneo



— esse Me


as suas duas

sílabas-ímãs

de trazerem à boca

e à língua as frutas

se entreabrindo às águas

ao seu murmúrio



(De onda em onda aonde


as letras morrem — ou uma sobrenada e se detona: Imagem)



Um lume-olho novo luxo


belo se irisando


veio dos lábios

Veio da pedra ressequida


e desta arma


a espadanada sede sobre a página
Max Martins

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.E mar.
Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.


Manuel Alegre

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Chove!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


José Gomes Ferreira

Da tristeza feia de uma realidade descrita quase com raiva para a paz optimista de quem ouve para lá dos pingos da chuva


- 1.


Nem tristeza feia de uma realidade descrita quase com raiva, nem a paz optimista de quem ouve para lá dos pingos da chuva. O cronista, sem ser neutro, tem num caso e noutro franciscana isenção. Chove, ainda bem que chove. Mas, se não chovesse, havíamos de ir ver o mar. O caso do Escorpião? É ficção, mas podia ser real. Em verdade, a realidade é pior que isso. Infinitamente, pior. Escrevo para testemunhar o nonsense de como as coisas se me parecem. De resto, começa a tardar sermos lúcidos, apesar da nossa incondicional loucura…


0.

Leio-te um trecho de “Os Lusíadas”:

Tu, só tu puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

1.


Eu gostaria de ver um Ministro da Cultura como Gilberto Gil que, mal chegou ao poder, democratizou o dinheiro público em função das necessidades culturais e reais do povo brasileiro. E subvertou o jogo (elitista e capelista) dos recursos a reproduzirem-se apenas na elite intelectual. Gil virou a mesa e recompôs a ceia onde milhões de apóstolos foram cear. The best soup. Se Gilberto Gil não fosse artista de primeira grandeza, talento que mesmo o Brasil produz de raro em raro, eu havia de o querer ministro "até onde o final dessa estrada vai dar", conforme o Expresso 2222.


2.

Dia Nacional da Cultura. Acompanho, pelos Blogs de uns e outros, a posição sobre a efeméride. Alguma crítica (às vezes, fulanizada demais) ao titular da pasta. Em verdade, salvo respeito à opinião adversa, o Ministro da Cultura deve ser avaliado em função do cumprimento ou não do Programa do Governo para a área cultural que se estriba no abrir os cidadãos a novas oportunidades culturais bem como ao pluralismo da criação cultural. O Governo não deve ser intervencionista, nem dirigista em relação ao "mercado cultural", fazendo antes o papel de facilitador ao acesso e à fruição dos bens culturais, e de promotor da identidade nacional.


3.

Ocorre-me um extraordinário livro de Jean-Paul Sartre, "Os dados estão lançados", que mostra algum determinismo nas coisas. Há mudanças estruturais na Política da Cultura para se quebrar esse determinismo. Aquele shake-up que o ministro Jack Lang promoveu e conseguiu com François Mitterand em França, por exemplo. Depois há os condicionalismos políticos (partidários até e regionalistas ainda), onde certos consensos estruturais são difíceis, como será o caso da oficialização da língua cabo-verdiana. Os nossos parlamentares, mau grado a pseudo hermenêutica da fala, precisam de uma grande revolução mental. Não se faz Cabo Verde, sem o assumir de facto e de jure o bilinguismo cabo-verdiano. Basta de baile de máscaras e do império dos "intocáveis". Estamos fartos, fartíssimos, disso!

The Untouchables




Os "intocáveis" (na Índia, uma casta marginalizada; em Cabo Verde, um punhado de levianos) são uma gente em vias de extinção. Tais como os tubarões, as tartarugas, as baleias, as focas e os ursos polares. É preciso protegê-los em reservas, com fundos especiais e convenções internacionais. Os "intocáveis" crioulos, esses levianos, cheios de nove horas, se acham donos destas ilhas. Como se a Coroa, virasse de avesso, e editalizasse: a Grande Ilha, ao invés das duas capitanias (Ribeira Grande, a Sul, e Alcatrazes, a Norte), será, doravante, esquartejada numas leiras de terra, divididas (em empate técnico, diga-se) entre o Partido Amarelo e o Partido Azul, ficando o resto da canalha na condição de povo, servo, escravo, badio e sampadjudo, mesmo tud coll, a ver caravelas (navios, ao tempo)". O mesmo se fez quando, paulatinamente, as outras ilhas foram descobertas e povoadas, perdendo, cada uma a seu tempo, a condição de deserta. Os "intocáveis" foram ocupando o seu lugar ao sol (à sociedade, digo) e hoje, apesar de poucos e levianos, são os empresários da praça, a cúpula dos partidos, a nata da administração e os bacanas da nossa quotidiana telenovela. É vê-los, outrora balalaikados, ora fatiados, quando não enfatiotados a falarem do PIB, Sub-prime, Investimentos, ZDTIs, Revisão Constitucional e Parceria Especial. É vê-los a especular o solo, dito por achamento e usocapeão, e mesmo rasura notarial, a rateá-lo em lote, quarteirão e hectares urbanizáveis. A elite, a pequena-burguesia, a fina-flor, os copos-de-leite...The Untouchables!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ambrósia

Se ambrósia, em sangue, a vinho se torna
Não lhe adivinho, de pãs, faunos e sátiros,
Outra natura sua senão que do ébrio néctar
Todo âmbar nos seja o falecido Ampelos…

E se a longrina vinha, tua ou minha, trágica
De ninfas e de Sileno, nada lhe é como nudez
Que é, pois, temida sobre o Eufrates e gemida
Se ergueria a ponte que lhe aponta o Ganges…

Ali, aprendem-se lua, estrela e Kama Sutra
Sorvem-se, no oco das mãos, a água de mel
E o orvalho de Baco em espumas purpurinas…

Sabe-se, nas cercanias do Monte, o sal da poesia
Com que, aos perfumes, se amansam guerreiros,
Embriagados com turmalina, sol e melodia…


Filinto Elísio

Ofício Poético


escreva no corpo dela
um poema
com seu pau.

faça um poema
bem longo.
goze no ponto final.
Bráulio Tavares

Minha Vernissage





Vernissage só de mim

Chega-se a uma idade em que somos mais impacientes e mais selectivos. Estamos chatos e não se fala mais nisso. Três minutos seguidos a ouvir zouk crioulo, nem pensar. Dez minutos contadinhos de tecnocrata consultor, trabalhador soooooooofre. Uma hora de comício, nem merda. Seminários semanais, workshops das ONGs, exposições apressadas, coffee breaks e debate arranjado de jornal, não brinquem comigo. É da idade ou da cidade tudo a nos virar rápido, digital e virtual. Arranjo geral. Making ups. Mas a ti, minha lua nua (que a rima é chula), te queria lenta, tangível e real. Enluadíssima. Kama Sutra. Vernissage só de mim …

Bolsa & Poesia

As bolsas, ora em alta, ora em queda, já fazem parte das minhas preocupações. De todos nós, suponho. Preferia usar esse “tempo de antena” a apreciar Leonard Cohen, mas fazer o quê? Não porque fosse outrora corretor, nem porque ora almeje ter bolso na bolsa. Estou mas é vocacionado e alvitrado para viver de outro corre-corre e a depender tão-somente da vida e saúde (inclusive, a mental). Falando nisso, fechei já o meu livro de poemas "Li Cores & Ad Vinho" e, doravante, só me restam as agruras do editor, gráfico, gráfica, lançamento, essas coisas…

The last dance

Nas eleições americanas de 4 de Novembro, mesmo não sendo americano e muito menos eleitor americano, estou com Baraka Obama. Vi-o, ontem, a dar um grande baile a McCain. The last dance. O debate (este sim, foi debate, com gosto a biscoito fino). A malta toda assoberbada e desviada para o desaire financeiro e para o “regresso keynesiano” do Estado, quase a deixar passar em branco o maior fenómeno político da década. Quem não se lembra de Martin Luther King Jr.? I have a dream…

Coisas de Rubem Fonseca


É o que vem escrito no conto “Ela e outras mulheres”: Perguntei, não está bom assim? Cada um no seu canto, nos encontramos para ir ao cinema, passear no Jardim Botânico, comer salada com salmão, ler poesia um para o outro, ver filmes, foder. Acordar todo dia, todo dia, todo dia juntos na mesma cama é mortal. Os livros de Rubem Fonseca e os discos de Leonard Cohen não saem de casa…

Reactivos

Há pessoas que confundem alhos com bugalhos. Diante de um asno e de uma besta querem ver nos gajos duas ovelhas. O Albatroz tem cara de eco-ponto, oooooops, perdão, contentor de lixo? O post anterior teve dezenas de reacções, entre as quais uma trintena de lamúrias, umas conventuais, outras mordidas…putis!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Escorpião


o corpo sem sentido do morto
o sexo solitário do rato no laboratório
Ricardo Silvestrim
Garanto-vos que isto não é um conto de Rubem Fonseca. Lá porque o jovem estava ali morto, absolutamente acabado, com um espeto de ferro de uma orelha à outra, o cronista não tem de fazer a ressalva que isto é pura ficção. O infeliz tinha ainda a língua e o pénis cortados. "Esvaíra em sangue até às últimas", disse o médico que examinava o cadáver, acompanhado do agente da polícia. "Temos de ir buscar um meia-dúzia de thugs a ver se identificam este corpo", disse o agente, indiferente à multidão de curiosos. Talvez tivesse sido raptado em casa e levado por um justiceiro pelos lados da Quebra Canela. Ademais, o buraco no meio do peito era obra de um carabina doze ou de cano serrado e não de "boka bédju". Duas mulheres não aguentaram a cena e começaram nesse alvoroço de gritos e ataques. "Vocês são da família da vítima?", perguntou o agente, agora encorajado pela vinda de reforços. "Vítima o caneco. Desde que os thugs mataram o filho de uma delas que essas duas irmãs viraram desnorteadas", explicou outra mulher, esta já idosa. Na algibeira do malogrado, havia dinheiro, cartão vinti4, colares, broches e anéis. "Via-se que era assaltante, bandido, filho da puta", comentou, mais tarde, um taxista da assistência. Diante do impasse, uma rapariga dos seus 20 anos, ar de desvairada, gritou "Esse bunda aí foi morto pelo escorpião!", e o pessoal arrancou uma enorme gargalhada. Ela estava perturbada, dizem, na sequência de um assalto e de uma violação. Entrou em transe: "Pelo escorpião. Viva o escorpião!". O cronista não se mete e fica neutro. Encolhe os ombros. Completamente isento. Até porque a manhã já estava encorpada de sol e um pessoal do hospital viera cobrir o corpo com manto branco. Finito...

Não-coisa

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisas

em permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.


Ferreira Goular

Debate



O debate, bem urdido como terá sido, fez mais estória que História. Há enigmas e incógnitas que ficam no ar. Primeiro, as máscaras usadas não se adaptam aos rostos. Segundo, se o debate era confrontar os primeiros-ministros da II República, faltou Gualberto Rosário no painel. Se o mesmo era confrontar a governação e a contra-governação (à guisa de situação-oposição), a sociedade queria ver José Maria Neves e Jorge Santos. E se a ideia (de uma subjectividade que não se explica) fosse o interface dos próximos presidenciáveis (por sinal, jamais providenciáveis), na minha modesta opinião, estaria a faltar pelo menos mais três respeitáveis cidadãos com assaz ambição. Quanto ao conteúdo do debate, convenhamos que os dois cidadãos estão à altura de governar ou de presidir esta República. Competência é que não lhes falta. Mas já que há fumo (a nos sufocar até), passemos a procurar o fogo dessa História. Aliás, estória, diga-se em abono da frontalidade!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Paulo Liminski

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Obama - Get involved now




O Des (o) Culto



O baile

A sociedade é um baile de máscaras. O cronista gosta de metáforas faits-divers e à la Palisse. É forçoso que estejas no baile mascarados, mas a ninguém a obrigação de dançar todas as músicas. Máscaras, porque haverá rostos. Se não, outras coisas quaisquer, tão vazias quão atrozes, pois prenhes de absoluto, infinito e eternidade. Em verdade, não há respostas à vista. Há, se tanto, aproximações. Inconformidades. Por conseguinte, máscaras e rostos que as determinam. E o cronista continua iconoclasta…


O fenómeno blogueiro

O fenómeno blogueiro em Cabo Verde é relativamente novo e carece de um olhar mais crítico e mais sapiente. Há quantidade e, dela derivada, alguma qualidade. Pessoalmente, não sendo especialista, mas blogueiro bissexto, só tenho a dizer que, às vezes, gosto e que, outras vezes, desgosto. Uns parecem carregar preocupações mais exegéticas que outros. Mas não virá o mundo abaixo por isso. Somos todos aprendizes de feiticeiros. O Blog pode também ser uma parafernália tecnológica, de múltiplas escolhas e possibilidades mediáticas, mas, em essência, puro brinquedo de quem o programa e o edita. Há Blogs de toda a sorte, uns melhores que outros, na proporção dos blogueiros (ainda bem) diferenciados…

O Poeta

Não falo desse restaurante de onde se vê a baía e o Ilhéu de Santa Maria. Falo do Poeta, conditio, a que Rilke referia como “sono de ninguém/sobre tanta pálpera”. E há aqueles versos de Maria do Rosário Pereira em que “num poema, mesmo manchado/de café, a chávena é certamente a/concha de uma mão – por onde eu/bebo o mundo, em maravilha, se tu,/bem entendido, fores o poeta”. O poema vai mais longe, mas este cheirinho já diz desta opção assumida pela metáfora. É só continuar a habitar o interior de tal texto.

A coruja de Ateneia

Derrubem os deuses. Rasguem, sem medo, nem piedade, suas túnicas. Amortalhem seus corpos. Esquartejem-nos. E fiquem depois nesse silêncio da liberdade. Só o silêncio poderá gritar dentro de nós a emergência de olharmos para as coisas. Esse silêncio profundo e mais integral. Filosofal, direi. Antes que a coruja de Ateneia levante o voo e, de partida, deixe sobre nós as sombras sem panaceia da vida. Antes que o prenúncio dos nimbos se abata sobre as nossas almas…

sábado, 11 de outubro de 2008

Obra pública


A cidade da Praia parece um estaleiro. A asfaltagem continua e a obra pública é benvinda. Alguma incomodidade, sem dúvida. Mas por uma boa causa. Começámos a ter o cheirinho de como será a marginal da Praia, que tem uma baía linda. Lindíssima. I love Praia. Por isso, não sou neutro, nem isento quando a capital está em causa. Quero lixar o lixo, o thug, o ambulante, o bairrista, o praiano sacana (esse que come com desdém) e o forasteiro arrogante. Praia é uma cidade de todos e de tudo. Mas, não sendo candidato a nada, nem mesmo ao olimpo da blogaria, falo apenas da obra pública. Que nos deveria apresentar, a cada trecho, um aviso como o da foto. É que somos cidadãos, munícipes, contribuintes, clientes, praienses...essas coisas!

Lisboa, Lixboa, Luboa

Lisboa. Meia chuvosa, meia ensolarada. Meia fria, meio quente. Outubro é assim. Outono tem disso. Lisboa e tu me dizes poemas de Manuel Alegre. Lisboa e não há acácias de Cabo Verde. Mas há pinheiros pela rama. Cheira qualquer coisa. Cheira bem. Ora jasmim, ora alfazema. Na FNAC, do Centro Comercial Colombo, os livros, os CDs e os DVDs são a minha desgraça. Meu caro amigo, at large, o sistema é multifacetado, incorporando também a sua ala marginal. De uma perspectiva mais complexa, estamos sempre dentro. Cagando, embora. O padrão é complexo: tese e sua antítese. Uma síntese da merda. Meu outro amigo, mais at-large ainda, em verdade nunca somos neutros. Tentemos às vezes ser isentos. Entre Bush e coisa alguma, somos este e jamais aquele. Entre McCain e Baraka, somos pelo "brother", sem ilusões desmedidas. As manhãs não cantam, senão a música de um Wall Street a vir abaixo. O estrondo, meus caros, é pior que aquele do Muro de Berlim, que até foi giro, giríssimo. O problema não seria nos cair em cima o Carmo e a Trindade. O problema, Mon Petit, é o Day After e, sem neutralidades, nem complacências, temos filhos a crescer. Se não os tivéssemos, juro me me apetecia ir ao alto da Torre Eiffel e mijar sobre a cabeça da multidão. Ou, então, descarregar a tripa, do alto do Cristo-Rei, o Redentor. Ontem, foi um dia e tanto. Reunião na Colliers e tudo. Investimentos, projectos, empreendimentos, essas coisas. Ainda há disso, apesar da crise financeira mundial e on process. Escrevo um texto para o Mito, that griot, que participa numa grande colectiva internacional. Não digo onde para não acordar os facínoras. Ao fim do dia, a Assembleia da República (portuguesa, naturalmente) chumbou a lei sobre o casamento dos homessexuais. Achei bárbaro, fascista e retrógado esse chumbo grosso. E em Cabo Verde, isso passaria? Quero ver o deputado com colhões para fazer tal proposta. Saúdo daqui o Maukie, o Hugo e o Pranchinha. Eles não ganharam Prémio Nobel, juro. Telefono ao Pablo e ao Denzel, estes são mesmo verdade. É pá, Lisboa, Lixboa, Luboa, minha cidade de Ulisses (o da mitologia, ó malta). Alis Ubbo. Olissipo. Al-Ushbuna. Meia chuvosa, meia ensolarada. Quente e fria, como a sobremesa do restaurante Espaço Lisboa. Não vejo os poetas. Nem o Marc está em Lisboa. Onde estão os alfacinhas, os saloios, os tugas, os berdianos, os ciganos, os outros brancos e pretos? Onde estão os indianos, os chineses? Fernando Pessoa no Rossio e Alexandre O' Neill seguindo o cherne. Sei os teus seios; sei-os de cor. Onde estão todos? Mas estás tu, minha alma, meu outro. Outubro é assim. Outono tem disso, Panterinha...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Busy...mente

1.
Os deuses não existem, senão quando, por excesso de loucura ou de lucidez, inventamos coisas tangíveis e/ou intangíveis para divinizar. Marx falou em ópio do povo. Mas, em verdade, certas coisas chegam a ser piores que ópio...

2.
Receitas para um bom Blog? Não subscrevo essa. Conheço receita de Molho de São Nicolau (bem caprichada na farinha de mandioca, cabrito do tenrinho e inhame) e de Djagacida (com feijão seco, xerém do fininho e manteiga da terra), mas de Blog, convenhamos, ó rapaziada. É cada um a fazer o seu sem compromissos com gregos e com troianos. Sem dar cavaco aos berdianos. Eu só exigiria que a malta fosse menos “copy and paste” e isso já seria muito bom para se fazer um Blog. Fuck...

3.
Em 1929, muitos capitalistas especuladores deram cabo do canastro. O crash na bolsa lhes era intolerável moralmente. Hoje, em vez de irem desta para melhor, querem tomar no Estado a dinheirama do vasto povo. E que ninguém nos fale em praça financeira nos próximos dias. Estamos enojados...

Quando me é Lisboa




Chego a Lisboa. Cedinho. E o calafrio de Pessoa me percore a espinha, enquanto o automóvel circula do aeroporto ao hotel. Lisboa que acorda mais cedo que outras cidades do mundo. Gosto desta cidade que tem pedras brancas, cheira a pinho e a alfazema. E virou cosmopolita. Vários cartazes falam de arte acontecida e por acontecer. O trânsito continua bárbaro e o taxista ensina-me os últimos palavrões da língua portuguesa. Os taxistas de Lisboa davam um grande diccionário de palavras escabrosas, diga-se. Refaço, mentalmente, os meus afazeres. Escrevo na minha agenda Moleskine que Lisboa é o nosso alter ego urbanístico. Os arquitectos e os urbanistas crioulos (mas eles existem?) me matam. Será? No hall do hotel, a florista, que já me trata por tu, quer saber das flores de Cabo Verde. Pergunto-lhe sobre um poema de Alexandre O´Neill e ficamos quites. "Esse cabo-verdiano é meio maluco", estará a pensar. "Mas eu gosto de rosas, crisálidas e margaridas", remato, com elegância. Não antes sem aprender que "chiques mesmo são as orquídias, meu caro". Faço um print out de uns versos de O' Neill e ofereço à senhora. E deixo-vos, como desse rosmaninho que me sobe à lembrança (de tudo, de tudo, meus queridos), um nadinha desses belos versos:


(...)

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

(...)


Fica também na Moleskine: Lisboa é um teatro que me insunua e me denuda em pleno palco, um fado que me reabre o coração e me aperta o nó das lágrimas como as palavras que nos beijam. A sombra da minha mãe e o lusco-fusco da minha infância. Uma Fonte Luminosa e umas crianças ruidosas. Traquiníssimas. Éramos nós noutros tempos de Lisboa...

Máscara Negra


A Pablo Picasso

Ela dorme e repousa sobre a candura da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva
cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e fontes seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das faces, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar
a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!
Léopold Sédar Senghor

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

En passant


Debate presidencial

Insosso. Demasiadamente correcto. Com excesso de mesuras. Esse debate que concorreu com o meu sono da passada madrugada. Nas antípodas do "arrasta-rabo" das nossas campanhas. Um (McCain) a dizer as suas razões, tão anacrónicas, diga-se. Outro (Obama - ver foto a carregar o filho da minha sobrinha Dora Lisa) a enfatizar que a América precisa mudar. Agora, veio-me à mente um forward com a foto de um camião de indigentes, a sugerir indigência com a vitória (quase certa) de Obama. Há humor que é psicose de racista no seu crepúsculo. Freud explica...

Piadinha

A "piada" do telemóvel não era para ninguém em particular. Era apenas um rasgo de humor entre os convivas. Quem esteve fora, esteve absolutamente fora. É o que dá em estarmos a brincar muito neste Blog, com tantos livros de Edgar Morin, Norberto Bobbio, Umberto Eco e Jean Ziegler ainda por ler...

Viaggo

Estou no Sal, a caminho de Lisboa. Um italiano afirma que a demanda turística caiu drasticamente na ilha. Em verdade, tive essa impressão da última vez que cá estive. Alguma prostituição, muito lixo e visível insegurança, para além de atendimento medíocre. O problema somos nós a ficar na mesma, a não concorrer à altura e a fazer preços deus-nos-acude. Vamos repensar tudo de forma mais radicalizada que a tese propalada por certos operadores associados. O buraco é mais em baixo...

À Beira de Água

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado.
(Porque o amor, perdoa dizê-lo,dói tanto!
Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.)
Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.



Eugénio de Andrade
Os Sulcos da Sede

Convívio

Mais um jantar em casa. Convívio. Éramos seis (eu, o meu irmão António, o Djinho Barbosa, o Abraão Vicente, o Mário Fonseca e o José Cunha). Prometi dar a receita da Canja à minha moda ao Djinho Barbosa e da Garoupa com Cogumelos guarnecida com Arroz de Grelos ao José Cunha, o homenageado. O vinho do branco do Fogo - pomada da Chã, como diria o Mito - de tão gelado, correu solto a brindar uma tábua de queijos. E foi tempo de abordar:
1º - As eleições americanas. Sem neutralidade possível, pois fossemos americanos, era ali meia-dúzia de votos para Obama. E, para broxar um bocado o ambiente, lembrou-se que as presidenciais americanas são por colégio eleitoral. Não houve palavrões...
2º - O ensino superior. A necessidade (ou não) de se proliferarem instituições (operadores académicos, diria) por estas ilhas para, em breve futuro, descer sobre o "mercado" a mão isenta, mas intransigente, do Regulador em critérios de pura qualidade. A competição saudável é aquela que permite sobreviver aqueles que se afinam pelo critério do preço-qualidade. O importante é a qualidade da educação e do know-how dos jovens cabo-verdianos.
3º - A insegurança. Aliás, a criminalidade que, para além da política social, da abordagem sociológica e dos direitos humanos, precisa ser atacada incisivamente. Pessoalmente, sou radical: falta uma atitude de assalto (em exacta proporção) aos assaltantes. É preciso assaltar à mão armada aqueles que, na calada da noite, assaltam os cidadãos. Horas mais tarde, soube que amigo fora assaltado na rotunda de Cruz do Papa por quatro thugs à mão armada. Os bandidos partiram saciados, vivos e felizes. Uma pena...
4º - A literatura. Falou-se da criação de uma Academia de Letras Cabo-verdianas. A AEC faria o papel de uma Academia. Em Cabo Verde, a rigor, nada transcende. Nem mesmo Amilcar Cabral que não é dignificado em justa medida. Basta ver a estátua na Várzea. O museu que ainda não se fez. E os discursos em datas de circunstância, de que já estamos fartos de ouvir. Os heróis não existem. Os artistas inexistem. É um Olimpo de merda (está claro que tais considerações são da minha responsabilidade)...
5º - A declamação que acabou por não acontecer. Do audio, vinha uma declamação de João Vilaret e ninguém prestou muita atenção à Ode Marítima, de Fernando Pessoa. E eu que guardara Cena de Ódio, de Almada Negreiros, para a sobremesa! Vinha também uma música de Miles Davis e vi que Djinho Barbosa terá acusado o toque. Discretamente. Tutu...
6º - A crise financeira. O roubo e o rombo da alta finança. De como a Islândia declarou a bancarrota e de como fica difícil falar em "confiança" nos tempos actuais. Wall Street foi o momento mais pornográfico da noite.
Éramos seis, numa mesa de oito. Faltou sushi, impossível de fazer no shakespeariano Reino da Dinamarca. Faltou Arménio Vieira. E um outro lugar vazio. Seria do meu outro eu, às vezes, errante e poeta? Vagabundo de mim mesmo. Esse maluco!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cinema: W, Z & etc


Oliver Stone, um dos meus cineastas dilectos, apresenta-nos por estes dias o filme W, sobre George W. Bush, o senhor que finalmente deixa a presidência dos EUA. O filme retrata-nos também Dick, Condoleeza e Donald. All the gang. Deve ser para maiores de 21 anos. Ou, como propõe Stone, para todas as idades. Não gostei de Nixon, o único filme de Stone que não me apanhou fundo. Achei-o “forçado” e chato, com mania de Costa Gravas. Esse, ao menos, fez Z. Para filme chato, já agora, revejo os de Micheal Moore. Mas prometo não perder W. Que não só remete para Bush, como para Wall Street, afinal a grande comédia destes dias…