sábado, 15 de novembro de 2008

Imagine



Respostas


Qual é o mal de vir a Cabo Verde tentar a sorte? Se tem habilitações para tal, não vejo onde posssa estar o problema.


Mal nenhum, companheiro. Cabo Verde, tal como Portugal, Senegal ou Brasil, é terra da emigração e da imigração. Aqui, o companheiro vem de longe e se torna benvindo. Nesta roda concêntrica, em torno do sol, somos genuinamente multiculturais e, aos poucos, nos libertamos de um passado traumático que se não branquea com os rompantes da paridade monetária, da parceria especial e dos exercícios da NATO. É preciso mais, muito mais. Que muito mais gente tente a sorte pelo Mundo - esse wider spectrum de que falava John Lennon em "Imagine". Cabo Verde, Portugal, Senegal, Brasil, you may name it...


Despir-se de preconceitos, porquê? Por falar de barracas com pessoas a viver em condições desumanas ou por denunciar o comportamento de alguns políticos?


Despir-se de preconceitos, naturalmente. Pensarmos com as nossas próprias cabeças, como diria Amilcar Cabral. As barracas (e as Buracas) da vida são problemas de direitos humanos e devem ser denunciadas por todos e em todo o lugar. E o comportamento de alguns políticos, bem como de certos jornalistas, nacionais e estrangeiros, que lhes prestam servicinhos devem ser denunciados sempre. Pelo que li, a crítica postada no Blog "Os Momentos" não punha em causa o jornalismo crítico e acutilante, mas sim aquele medíocre e malidecente, a passar pela rama da deontologia e da ética. Convenhamos que há muita leveza insustentável por aí e há que investir em gente mais qualificada...


E um País que sobreviveu às secas, fome, miséria, escravatura e colonização é imune a críticas?


Críticas é o que se quer, companheiro! Críticas sérias, sustentadas e substantivas. Puras cantigas de escárnio e de mal-dizer não animam ninguém nem a nada neste terreiro. Valentias de pura afirmação, tomamo-las apenas e tão-só como liberdade de expressão, que é muito e importante, mas de modo algum como jornalismo, que tem cânones para outra freguesia. Há gente a querer matar amanhã um velho que morreu ontem. Aliás, e ainda bem, matamo-lo ontem. Era o velho das secas, das fomes, das misérias, das escravaturas e das colonizações.


Criticar é espartilhar o país? E silenciar, é o quê?


Espartilhar nesse caso merece ser entendido em sua semântica complexa. A rigor, um país com a endurance de Cabo Verde não se espartilha facilmente. Mordaças a um poeta? Ovídio Martins considerava isso amiúde o único impossível. De modo que silenciar não cola. Nem aqui, nem na China...


Glosa (ou o tal "Imagine", de John Lennon)


Imagine there's no heaven,

It's easy if you try,

No hell below us,

Above us only sky,

Imagine all the people

living for today...


Imagine there's no countries,

It isnt hard to do,

Nothing to kill or die for,

No religion too,

Imagine all the people

living life in peace...


Imagine no possessions,

I wonder if you can,

No need for greed or hunger,

A brotherhood of men,

imagine all the people

Sharing all the world...


You may say I'm a dreamer,

but Im not the only one,

I hope some day you'll join us,

And the world will live as one...


É mais ou menos isso, companheiro...

4 comentários:

Pura eu disse...

Hello Filinto, vou apenas me apropriar, a título de remate, de duas expressões tuas neste post.

"Pelo que li, a crítica postada no Blog "Os Momentos" não punha em causa o jornalismo crítico e acutilante..."

"Há gente a querer matar amanhã um velho que morreu ontem. Aliás, e ainda bem, matamo-lo ontem. Era o velho das secas, das fomes, das misérias, das escravaturas e das colonizações ..."

De facto, Filinto, as barracas da Boa Vista devem chocar certas cabeças mais do que as clausúras da Buraca.

É um caminho, mas por agora dou por encerrada a contenda das ilhas.

João Branco disse...

Filinto, com a devida vénia, vou publicar estas tuas respostas no Cafe Margoso e dou-me por satisfeito. Mas que fique desde já claro, a incompetência, o compadrio, o silencio cumplice e o frete não tem nacionalidade própria... Melhor do que ninguém sabes isso!

João Branco disse...

Margarida, não caias na atitude (do meu ponto de vista pouco inteligente) de justificar os nossos males com os males dos outros.

Abraço!

Filinto Elisio disse...

Naturalmente, João. As nacionalidades (nem para o Paraíso, nem para o Inferno) ficam fora disto. O que nos dilacera +e a medíocridade dos "fretistas" de papel passado. Pessoalmente, defendo as minhas convicções sempre, não me preocupando com o desespero dos "deuses da esquina". Sou Albatroz, companheiro.

Registo o teu comentário. O meu post tem a ver com a justiça em relação a certas situações. A par disso, sou cidadão do Mundo. Liberdade é o meu porto seguro...