domingo, 8 de outubro de 2006

Navegações: Brábu na txada

Há momentos em que as espumas dos lugares me obrigam a escrever sobre as coisas que leio. Em abono da verdade, isso não é um exercício recorrente. De molde um tanto bissexto, vou ponderando aqui e acolá a escrita dos outros. E faço-o com o exclusivo propósito de reinterpretar leituras. Não tenho outro interesse, creia-me o leitor. Obviamente que a grande notícia terá a ver com os partidos políticos cabo-verdianos. Os jornais fazem deles manchete insistente, à falta de móbil assaz mediático. Ganhasse um crioulo o Prémio Nobel. Mas não…

Pelo lido e acontecido, no plano real e no virtual, o MPD renovou-se, trazendo para a arena o Eng° Jorge Santos, candidato único à liderança. Estranhou-se o silêncio das eventuais tendências que davam um outro colorido a esse partido. O mesmo acontece com o XI° Congresso do PAICV, em que o Dr. José Maria Neves vai à sua própria reeleição, como candidato único. Onde estão as tendências que até ontem conotavam a democraticidade interna desse partido? A agravar os Estados Gerais dos partidos, a extinção do PCD, consagrando inexoravelmente a bipolarização. A pacificação interna dos dois maiores partidos e a consagração histórica da bipolarização numa sociedade em que a opinião pública se autonomiza ainda tímida e as instituições, bem como os empresários, procuram melhores caminhos, dizia-se, esta nova reconfiguração qualifica o processo democrático? Perguntas desta natureza não faltam. Faltará com certeza quem as queira responder…

Leio também a crónica de um confrade, que habitualmente gosto, mas fico mesmo esquisito. Quanta violência contida! A tertúlia tem de chegar a tal ponto? O pomo da discórdia justifica tamanho escárnio e maldizer? O extremar das posições chegou aos píncaros da ofensiva e da contra-ofensiva? Não sei quem seja o tal energúmeno de que o cronista se refere, nem importaria saber o porquê de assaz crispação. Nós, simples mas atentos leitores, gostaríamos de ficar pelo diapasão das crónicas a que o confrade nos habituou: análises límpidas, opiniões abalizadas e posições refrescantes. De quem é culto, na acepção académica e erudita do termo. Tão à margem do apupo dos imbecis…

Crónica consequente é ainda aquela de Ludgero Correia sobre o Estatuto Administrativo para a Cidade da Praia. Antes de mais, vem o texto a calhar, pois o Governo acaba de anunciar a ideia de reforma administrativa do país, sob a panaceia da Regionalização. Talvez coubesse, agora como nunca, debater o Estatuto Especial – e já agora os custos da capitalidade – à luz da Regionalização. Oportuna também, porque há mudança de guarda na Associação Pró Praia, abrindo espaços para outros debates e outras movimentações. O importante é não arrepiar caminho, nem perder os propósitos de promover a capital de todos os cabo-verdianos. Ainda que soe como eco no desfiladeiro, repito: de todos os cabo-verdianos…

E agora José? E agora você? A esta indagação drummoniana, respondo com riso e siso: no prumo da minha própria independência. A gostar de Cabo Verde com amor para lá de patrioteira. Diria até que existencialmente. Ainda que nestas paragens não haja Nobel para ninguém. Mas há Doutor Honoris Causa, sim senhor. Deixo a surpresa no ar, a partir de Fortaleza. Cada um tem a sua forma de contribuir. Uns organicamente, nesta ou naquela trincheira. Outros livremente, sendo a cidadania sua praia mais íntima. Sem lenço, nem documento. Brabu na txada…

Mar distante


Si no es el mar, sí es su imagen,
su estampa, vuelta, en el cielo.
Si no es el mar, sí es su voz
delgada,
a través del ancho mundo,
en altavoz, por los aires.
Si no es el mar, sí es su nombre
es un idioma sin labios,
sin pueblo,
sin más palabra que ésta:mar.
Si no es el mar, sí es su idea
de fuego, insondable, limpia;
y yo,
ardiendo, ahogándome en ella.


Pedro Salinas

Bô Seiva


Mayra Andrade a cantar Bô Seiva, de Orlando Pantera, é simplesmente ouro sobre o azul. Ver isso através do You Tube, mais precisamente no http://www.youtube.com/watch?v=uXqclPHi8co&mode=related&search=

Para obter o programa Macromedia's Flash Player.: Clicar aqui.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Rosas soletradas


"Las rosas están insoportables en el florero"
(Jaime Sabines)


Balbuciava-te rosa, rosas soletradas
Para o gáudio dos líricos e jardineiros
E néctares tão deliciosos quão viscosos
Dos amantes deslizantes no alarde…

Recordava-te, aos ouvidos esquecidos,
O ciciar das formigas nos abrigos,
O zumbido esvoaçado das abelhas
E as mãos do cio pelos corpos…

Nem te falava das pétalas, halos
E perfumes, fragrâncias longínquas,
De horizontes que idos se acomodam…

Nem te mostrava agora as dores,
O floreio dos espinhos e dos frutos
Os sais e ais com que se queda…


Filinto Elísio

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

terça-feira, 3 de outubro de 2006

A barca da fantasia



“Ao largo ainda arde a barca da fantasia/ e o meu sonho acaba tarde”
Pedro Ayres Magalhães


Intro

Duas notícias encorajadoras: a regionalização e o Tribunal Constitucional. A primeira, vou ponderá-la muito por alto. E a segunda, embora tenha uma posição sobre isso, é tarefa dos mais doutos. Só direi que já não era sem tempo a criação do TC. Temos sentido a sua falta…e de que maneira. Uma pequena nota sobre a pré estreia do filme “A ilha dos escravos”, do realizador Francisco Manso. Estamos em tempo de fazer do Cinema e do Audiovisual uma prioridade cultural…

Regionalização sim…vamos a ela

Cabo Verde, com a sua teia de ilhas e de comunidades no exterior, exigiria um modelo político-administrativo diferente. Raros os cabo-verdianos satisfeitos com o actual modelo. Nem a norte, nem a sul, nem a Barlavento, nem a Sotavento. E muito menos na Diáspora. Embora defendamos a economia de custos, saudamos a criação das redes e a irradiação dos pólos, fazendo jus à insularidade e, dentro do possível, à diasporização. O conceito Estado-nação, concentrador e polarizador, tende à macrocefalia, o que não é bem uma virtude. Naturalmente que haverá sempre pólos de maior desenvolvimento e de maior dinamismo, mercê das posições estratégicas das políticas, das economias, das demografias, dos espaços e das suas múltiplas conexões. Mas o Estado, necessário, mau grado o vaticínio sobre seu definhamento, terá o papel de harmonizar o país, permitindo a cada região as condições para se integrar no todo nacional. A regionalização é tema que nos interessa. Finalmente, a regionalização. A regionalização para sanar o regionalismo já instalado. Vamos a ela. Que regionalização nos interessaria? Aquela baseada nas ilhas, no grupo de ilhas, na municipalidade, na inter municipalidade? A reintegração das Grandes Áreas Metropolitanas, Comunidades Urbanas e Comunidades Intermunicipais? Voltaremos à ideia dos governadores civis, não eleitos, mas nomeados pelo establishment central? Ou à falácia das vocações, das hegemonias fabricadas ou dos lobbies posicionados? A problemática se resume ao problema da presença do Governo e dos serviços centrais nas ilhas ou o buraco é mais em baixo e mais alargado? Qual seria a mecânica mais plausível e realista? E as virtualidades culturais, para além da centralista e da municipalista? O assunto deve ficar confinado ao Governo e aos partidos políticos ou deve ser alargado à sociedade civil. Há países que fizeram amplo debate e consulta popular. Em Portugal (nosso recorrente modelo), fez-se até referendo. E entre nós, como seria? Uma decisão vertical ou horizontal, administrativa ou política, doada ou conquistada? Seria regionalização mesmo ou apenas descentralização? A territorialização das políticas públicas? Seria isso? O importante é que o mote está dado. Acredita-se que o povo das ilhas quer…a regionalização com equidade, com equilíbrio e com verdade. A cidadania, em sua total complexidade. Ou não?

Pequena nota

Não há como ficar indiferente à longa-metragem “A ilha dos escravos”, do realizador Francisco Manso, cuja pré estreia se pretende nos meses de Outubro e Novembro, tanto no Brasil como em Cabo Verde. O filme, produzido pela Cinemate, mas com o apoio das autoridades culturais de Cabo Verde, Brasil e Portugal, trata de uma história de amor acontecido na primeira metade do século XIX, na Ilha de Santiago, adaptando a história do romance “O Escravo”, de Evaristo de Almeida. Em tantas correlações, o filme acontece também no Brasil, em Portugal e na Áustria, onde a quadrilha amorosa entre a escrava Luísa que ama o escravo João, que ama a patroa Maria, que não ama o comerciante Albano Lopes, tem drama e respaldo. As minhas felicitações ao amigo Francisco Manso, também director de "O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", adaptação do romance homónimo de Germano Almeida, e a alguns cabo-verdianos próximos que participaram da obra, nomeadamente Jorge Tolentino e Manuel Veiga (Ministros da Cultura, promotores/patrocinadores), António Correia e Silva (investigação histórica), Mário Lúcio (investigação e trilha musical) e Josina Freitas (actriz), entre muitos outros cuja a marca indelével está ali no filme. Caso para pensar se já não era tempo de priorizar o Cinema e o Audiovisual. Pelas vantagens culturais, económicas e políticas que traz. Para resgatarmos um sector que já esteve melhor do que está. E porque as condições já estão minimamente criadas para a cinematografia nacional. Só falta ousar a barca da fantasia…

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

domingo, 1 de outubro de 2006

O Segredo das Pipas


“You will always have a special place in my heart”


1.

Domingo é um dia lixado. Véspera de escola e muito material para empinar. Micheal Porter não interessa mesmo. E eu não tenho cara de neoliberal, nem de novo turco. Há formas mais híbridas e menos bíblicas de fazer economia. Sem disparate keynesiano. Mas se o Professor exige empinanço…fazer o quê? Acordei cedo, ainda o sol era promessa de gema de ovo, e fui marchar no calçadão. Glicose a quanto obrigas! A Praia de Iracema é grande e recortada. Fiz a meia-hora matinal e parei na lota do Mucuripe, a regatear uma posta de cação. Já comeram caldeirada de cação? As pessoas votavam e a aragem balançava os coqueiros. Com irrealidade…

2.

Hoje, fez anos o meu filho Pablo. Quatro anos! Os meus dois filhos – Denzel e Pablo – mexem com o meu espírito, a minha saudade, o meu tudo. Eles são
O Segredo das Pipas. Queria-os aqui no Beira-mar, a ver as jangadas e os saveiros na baía. Levava-os a andar até o Porto das Dunas, onde as minhas recordações são gratas. Na Praça do Estressados, a turma discutia com interesse. O nível do debate é mais interessante que aquele a que estamos habituados nas ilhas. Um defensor do Presidente Lula diz que o Brasil resolveu dois grandes problemas macroeconómicos: a inflação e a dívida externa. Mas o seu interlocutor remata que há o combate à pobreza, a corrupção e a crise das contas públicas. Sem rabentolismos, nem arrogâncias. Eu não vim ao Brasil apenas para estudar, mas sim para respirar. Há oxigénio. Será da Amazónia? Às vezes, eu era atacado por uma grande claustrofobia. Adiante…

3.

Passo horas esquecidas, a ver um documentário sobre as artes plásticas mexicanas. Eu só conhecia Diego Rivera e Frida Khalo - minha santa ignorância! -, mas há muita gente interessante. México é um país fabuloso. Pós Azteca, mau grado a barbárie colonial e a vizinhança ameaçadora. O Pablo fez anos e repito isso a todos. Queria para o meu filho a cidadania, educação, segurança, saúde, amor e liberdade, enfim, essas coisas cada vez tornando a humanidade mais humana. Queria que gostasse de poesia e sorrisse à minha declamada voz . A poética de Pedro Ayres Magalhães (dos Madredeus):
Ao largo ainda arde a barca da fantasia/ e o meu sonho acaba tarde…

4.

No bistrô da esquina, estava ali o
signore para me servir o cappuccino: 30 mililitros de café e 150 de creme, polvilhado com canela. Melhor só aquele em Kendall Square. Gilberto Gil, na música METÁFORA diz que “uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz ‘lata’, pode estar querendo dizer o incontível.” Falando em metáfora, tenho aqui comigo a foto da Dona Mindoca e do Pablo. Estou sem mágoa. Apenas resoluto sobre algumas mudanças necessárias. Deixo-vos aqui uns versos do meu amigo Damário da Cruz, poeta e fotógrafo baiano:

(…)
(Se não for possível
em muitas manhãs)
rouba teu filho
nas tardes de domingo.
E na fala mais simples
conta no ouvido pequeno
o segredo das pipas,
os caminhos dos duendes,
as formas das cidades,
o mistério dos amores...
(…)

Não é um poema liiiiiiiiindo? É
O Segredo das Pipas, para as vossas senhorias. Comecei um novo livro. De poemas, ó tecnocratas. De poemas. De resto, passei as sobras do dia dia antenado nas eleições brasileiras. Mas o frisson do meu coração era outro: Pablo. Estou totalmente em clima sentimental…ó homem que eu amo!




sábado, 30 de setembro de 2006

Eu era poeta, dizias


Eu era poeta, dizias,
Devido ao halo dos pães, das broas e dos bolos,
E dos recém saídos do forno, os pastéis de massa fina
Davam-me sonetos pastosos regados
Ao vinhaço de Alentejo…

Poeta, porque eu dançava
Aos teus riscos e rabiscos, e sorria
Dos bonecos que, da magenta do quadro,
Corriam pelos becos – sem frutos, repetias,
Sem pecados de expulsão divina…

E às vezes, pedia-te um lapso de atenção:
Pousada na flor, a borboleta em tons laranja
E o gato azeviche, com olhares verdes, rasgava-lhe
As pequenas sombras da tarde…


Tu juravas ser eu poeta
Pelos meus neurónios cor-de-rosa
E a cinza dos meus olhos viam
(sem alarde) a rua amarela…

E escutavam também os meus sentidos
A melodia com que um girassol prateado
Volteava (embriagado e tonto) seus seios
No fantástico zen da lua…

Filinto Elísio

Fenway Park


It's a wonderful thing, like entering into an Easter egg.
John Updike

O Outono entrava devagar,
de folhas caídas, em Fenway Park
e tu (a cores) parecias um ovo de Páscoa
e levavas no coração uma canção desesperada:
Pablo (seria o nome) -,
não se sabe se de Neruda
ou de Picasso, que também amavas…


Filinto Elísio

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Lugares (sempre)


Lugare...bridge

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos

(...)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
(...)


Álvaro de Campos

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Neurótico


Feedback…em síntese

Podem chamar-me de neurótico. Tragam mais adjectivos de má qualificação. Não seja por masoquismo, mas eu mereço. Dir-se-ia que meço as coisas pelo meu estado da alma e isso não pode ser assim. Levei uma vida para ter 45 anos e não abro mão deste estatuto. E, para que não fiquemos assim impunes, valham-me a barriga já proeminente e este olhar de quem já viu o mundo pelo avesso. Por mim passava horas esquecidas diante do calçadão da Praia de Santa Maria da Vitória. Digo-lhe o nome assim corrido, com quem vinga desta coisa imerecida. É isto o S/Cem Margem, meus amores…

A cidade merecida, a realidade e duas horas históricas

É dos livros que a realidade nem sempre tem casos com a verdade. O que não tem faltado é realidade sem verdade. Um pouco por todo o lado. Sobretudo, nesta minha cidade, onde os gregos e troianos assaltaram e querem que nós, os praienses, lhes façamos as graças. Continuo hermético? Ali no cais, na rampa de São Januário, viera Vasco da Gama em 1498 a caminho da Índia, e o lugar em vez de ser santuário histórico e turístico, virou mictório público dos transeuntes. Estes nem respeitam o obelisco à tragédia da Assistência e às vítimas da Fome. Já sei ainda não estou a ser suficientemente claro. Já viram a Praia Negra, esse crime ecológico? Ela não era assim, mas um parque natural frondoso e bonito, onde os citadinos iam passar os seus fins-de-semana. Além da natureza, ela tem história interessante, não fosse ali um dos grandes espantos científicos de Charles Darwin, em Janeiro de 1832. It was on Santiago that Darwin made his first curious discovery. O cientista colhera ali as suas primeiras impressões tropicais, de plantas e animais, que determinaram sobremaneira a sua ciência futura. O lugar foi transformado em lugar de memória? Qual quê? Mas sim num escoadouro de excrementos urbanos, lixeira hospitalar e dejecto de industrias duvidosas, além de ancoradouro das velharias e barcos encalhados. Na baía onde ancorara o navio Beagle, imaginem. É que eu não poderia ser mais claro e directo. Não procuro a realidade, mas a verdade. A não ser que, em vez de crónica, prefiram prescrição médica. Com os seus efeitos colaterais. Naturalmente…

SMS

Estava ali a piscar no telemóvel: + chuva em CV, bjs, té +. Dos emails que recebi, um me deixou pensativo. Dizia assim: I don't think you have any idea of what I went through those days. Albatroz era o meu título no blog e Filas o meu nick no ICQ. Isto é para quando estou virtual…Continuem a mandar as vossas críticas. Acho que a Constituição prevê tais liberdades. Ela já tem 14 anos…pudera!

O Papa e o colunista

As opiniões de Ratzinger não deviam condicionar Bento XVI, que tem outras responsabilidades. Mas elas não justificam ameaças, tensões e guerras. Religiosas, ainda por cima. Pior do que isso é o bombardeamento e a destruição do Líbano. Ou então, o colunista local que o defende, confundindo barbárie com liberalismo. Fui…






domingo, 24 de setembro de 2006

De quinta a domingo: Zebra Entrance e “Silent Prayer”


Quinta-feira


(…)

Ainda não escolhi o meu orientador. Tenho tempo. No iPod, escuto New York State of Mind, de Billy Joel, enquanto procuro o livro “O Marketing das Nações”, de Phillip Kotler. Um telefonema de Cabo Verde. Não digo de quem, mas pergunto, Qual a sistemática para a declaração do estado da calamidade pública? Em situações de desastres ou de caos, torna-se mister tomar medidas excepcionais e de urgência, a vários níveis. Olha, fiz-te estes sonetos incompletos:

O azeite aloirando a cebola
Onde a batata palha e o bacalhau
Refogam no alho e na salsa
Um Natal onde se era feliz…

Diante do tacho, estavas tu
Ares de deusa, perfume de rosa,
O meu Édipo de noz-moscada
Ao teu olhar de mesa farta…

Desculpa-me que perdi os tercetos, mas os versos eram também inconsequentes. Como o apagão recorrente da Electra. Aqui, em Fortaleza não há apagões, nem dia de água. Mas sente-se saudades de Cabo Verde. Que está verde, verdíssimo, havias de dizer…

(…)

A Praia caminha para 120 mil habitantes, cerca de ¼ da população de Cabo Verde e tem uma população flutuante de mais de 20 mil diariamente, sem contar com a crescente imigração estrangeira, não recenseada. A pressão demográfica ultrapassa de longe a capacidade de resposta e, em face disso, as pessoas vivem mal na cidade, sem espaço para a qualidade de vida. Nos últimos anos aumentaram o tráfico e o consumo da droga, o furto e o assalto, a casa clandestina e o comércio na calçada, o lixo e a doença pública. Aumentaram também o desemprego, a pobreza e a mendicância. Com a época das chuvas, a cidade apresenta-se fétida, doente e impraticável. A zona baixa tornou-se um verdadeiro pântano, o paredão que sustentava a zona do Brasil ruiu e as casas nas encostam correm riscos de desabamento.


Sexta-feira

(…)

Aulas na Universidade. Estudar, estudar, estudar…na biblioteca apinhada de jovens. A maior parte, delicia-se no chat. Uma minoria estuda. Ou pensa que estuda. Eu penso nos meus filhos e no que fazem. À tarde, vou ter com o Prof. Anastácio, na Federal. Ele está a caminho de Cabo Verde, a convite da Câmara Municipal da Praia. Na sexta-feira à noite, jantei no Colher de Pau, em Varjota. Além do pão de alho, a entrar, havia boa música, ao violão. O jovem solitário imitava Djavan. O prato principal foi um salteado de cordeiro com mandioca – que tu adorarias! - e a sobremesa de papaia do nosso livro da imaginação: receitas e versos…

(…)

Leio nalguns blogs a campanha para “desmistificar” Orlando Pantera, o que não deixa de ser uma enorme falácia. O nosso reconhecimento em relação ao grande génio já falecido ainda está aquém do merecido. Orlando Pantera, para lá de exímio compositor, era um hardcore de alta voltagem. Disposto a mexer com os vários géneros da nossa música — morna, coladeira, funaná, choro, batuque, ele fez…uma revolução. O Pantera, apesar de vida meteórica, nos disse ao que veio, com as suas novas texturas sonoras, os seus arranjos de outra alquimia, a sua marcação dissonante e as suas letras de quem reinventava a poesia. E ele mantém ainda a sua marca de água impressa na voz e na atitude (sobretudo, na atitude) dos mais novos, mesmo daqueles que, por despeito ou ressentimento, o recusam. Que eternize a sua alma de criador. Só nos resta agradecer a Deus e sair de fininho por Cabo Verde ter tido Orlando Pantera.
Viva Pantera! Sempre…


Sábado

(…)

O filme "O Diabo Veste Prada" é interessante. Uma comédia sobre o mundo da moda e uma interpretação sobre o quotidiano de Anna Wintour (a directora da Revista Vogue América). Como estou a estudar a hiper competitividade, sou fã de Meryl Strip e das músicas de Madonna, gostei do filme. Nada que me fizesse cair na reflexão existencial, mas algo que me ajudou a passar este sábado à tarde. Longa espera e uma esperança. Eye of beholder. Com um sorriso ainda triste…

(…)

Não faltarão aqueles a dizer que a população não ajuda. Um palavreado jurássico e dito para desresponsabilizar alguns. “O praiense não tem civismo” – não é o que se ouve por aí? O Bispo alertou que a Praia “está uma lixeira”. Muito antes disso, Mário Fonseca (poeta e lúcido) afirmara que a cidade estava “uma cloaca”. E a culpa é da população? Que preconceito! E o preconceito é o pensamento sem juízo, nem ethos. Incapaz de formatar alternativas, mergulhado no breu da fatalidade. Criminalizar a população é uma estratégia discursiva que esconde os mandantes e só revela dos mandados. Lá chegaremos…

Domingo

(…)

Domingo foi de muito estudo. Tenho um exame cabeludo para breve e tenho de estar com o Micheal Porter, com a sua teoria das cinco forças, na ponta da língua. Mas à noite, não muito longe do meu apartamento, pude reconfirmar que a Peixada do Meio tem a melhor badejo no forno da cidade. Badejo com aboborinhas e arroz de coentro. Um cortejo de campanha eleitoral passou diante do meu 10° andar e não me emocionei nem um pouco. Já não tenho idade para pornografias…

(…)

O que fazer? De imediato, era o decretar o estado da calamidade pública. Quanto custaria fazê-lo? E quanto seria não o fazer? A longo prazo, as soluções teriam de ser encontradas de molde mais sustentável. Elas passariam pelo debate (mais sério e consequente) sobre o Plano Urbano Director, o Estatuto Especial e os Custos da Capitalidade. Mas vê-se que em relação a tais aspectos prevalece um estranho silêncio, quase uma conspiração. A quem interessa tudo isso? É que há mais perversão no status quo do que supõe o nosso ingénuo ideal republicano…


P/S: Noite branca, como há mais de 16 anos. A casa vitoriana. O Franklyn Park. Zebra Entrance. Era uma cidade em Outono, folhas caídas e o coração aquecido. Como nesse conto de Woody Allen, ele dormia com a amada e amanhecia no guarda-roupa. Olha, que está a tocar “Silent Prayer”, de Doky Bros. Naturalmente…

sábado, 23 de setembro de 2006

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Do Emmanuel College...




Olhavas para lá das pedras
Terras e mares, outros ares,
Medras de amoras em flor,
Tua tralha de cada viagem…

E ao fim desse cipreste,
Qual ave turbulenta, contas
Moinhos, monstros e tantas
Robustas sombras de ti…

Caindo a noite, nesse parque
Como em teu coração, choravas,
Baixinho, o apanágio divino,
Flagrantes de outros amores…

E depois, em nada, puro vazio,
A paisagem se anulando longe,
Pétala caindo de tua figura breve
Fugaz de um amor sem limites…

Filinto Elísio

Um sonho

lua na folha molhada
brilho azul-branco
olho-água, vermelho da calha nua
tua ilharga lhana

mamilos de rosa-fagulha
fios de ouro velho na nuca
estrela-boca de milhões de beijos-luz

lua
fruta flor folhuda
ah! a trilha de alcançar-te
galho, mulher, folho, filhos
malha de galáxias
tua pele se espalha
ao som de minha mão

traçar-lhe rotas
teu talho, meu malho
teu talho, meu malho

o ir e vir de tua
o ir e vir de tua ilha

lua
toda a minha chuva
todo o meu orvalho
caí sobre ti
se desabas e espelhas da cama
a maravilha-luz do meu céu
jabuticaba branca

Caetano Veloso, in Cê

A um toureiro morto

Edouard Manet, "Toureiro Morto" (1864)

Sou a camisa do toureiro morto,/a cal magra, a casca, a casa que ele vestia/à maneira de um pássaro/que o calçasse inteiro/e protegesse, de modo que/seu peito já não se lembrasse

que o maciço compacto de minha alvenaria/era só uma fiada e outra/de algodão e fresta,/nó e fenda./Sou o muro/estreito

e bem cortado, o reboco, a parede/delgada, a camisa que morreu/com ele, o muro, o metro/exato e reto que, no entanto,/ já não pode tal corpo/ que, extático, parece alastrar-se

como árvore, ao avesso, porque morta,/rio, ao avesso, morto, poça/de terra e não de água, de terra/que se derramou para voltar à terra./O que em mim era casa/deixou fugir as vigas, descolou-se, emagreceu dos ossos, tornou-se aéreo./Um morto é inquilino que não me serve e já/ outras paredes vêm chegando:o paletó/ de pinho ostenta cadeados definitivos,/colarinho de barro e lata.Morto,/nenhum veludo orna as ruas

sinuosas de seu intestino; músculos nus,/açúcar o que era arame. Sou a camisa/ encharcada de água em que se ferveu a carne,/o peixe, o adubo gorduroso da cabeça,/da língua, dos olhos daquele que amei, que amei/como uma casa ama a chama de sua régua.
Eucanaã Ferraz, no livro Rua do Mundo (ed. Cia. das Letras)

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Love her

SON DI SANTIAGU

China Town não, obrigado


Recentemente, falando com um amigo e vizinho, voltamos à velha, mas cada vez mais necessária ideia da Associação dos Moradores e Amigos do Plateau. Não apenas para abordarmos a lástima que se tornou o Ribal Praia, mas para reflectirmos sobre as soluções e as alternativas existentes. Para já, o exorcizarmos a premissa de que o Plateau seja um problema (ou mesmo uma problemática), quando ele é uma grande oportunidade (de cultura, turismo, negócios, finanças, educação, etc). Falando amiúde com o meu amigo chegamos à conclusão de que o Plateau corre sérios riscos de degradação e de ostracismo. Em verdade, não se percebe que uma das áreas mais preciosas de Cabo Verde seja “abandonada” à descaracterização e ao avanço desenfreado do comércio especulativo e outro, bem como da venda ambulante (diria até, rabidante) dos informais. A continuar esse ritmo desenfreado, dentro de cinco anos, viveremos numa autêntica China Town. Esta não é do Pranchinha, coitado, mas vaticínio de todos quantos abordam a questão. Não que eu tenha algo contra a presença dinâmica dos estrangeiros e dos forasteiros na cidade. Antes pelo contrário, Praia tem uma vocação metropolitana e cosmopolita e há que ser coerente em relação aos seus caminhos. Entretanto, chamaria aqui a atenção no tocante ao controlo e à gestão dos fluxos migratórios e à necessidade de gentrização do espaço, transformando completamente a forma e o conteúdo social da cidade. A questão é humana, em todos os seus quadrantes, Eis a pergunta abismal: existe Plateau fora do horário comercial e administrativo? Existência, no significado profundo do termo. Diga-se em abono da realidade que essa fatia urbana precisa de urgente reabilitação, tarefa que envolve tudo e todos, sobretudo a edilidade e o governo. O papel do Estado como indutor torna-se extremamente relevante. Aliás, a opção de plantar ali a Reitoria da Universidade de Cabo Verde, por exemplo, foi mais que bem pensada. A de praça digital também. Mas é preciso algo mais. É preciso um processo integrado de recuperação da área que se pretende salvaguardar, implicando o restauro dos edifícios e a revitalização do tecido económico e social, no sentido de tornar a área atractiva e dinâmica, com mais competitividade e melhor condições de habitabilidade. À margem, mas não neutro, diante da euforia imobiliária, urbanística e outra que toma conta de alguns espíritos, reafirmo ao meu amigo e vizinho sobre a premência da nossa Associação. Estou crente que todos (os de boa fé e boa-vontade) irão aderir. Tem a ver com requalificar Cabo Verde, pela cidadania ora. Em prol do Plateau. Sem saudosismos em relação ao passado, mas com assumida saudade do futuro...

sábado, 16 de setembro de 2006

Xoo em cumpre anos






Eres tan sólo un sueño,
pero en ti sueña el mundo
y su mudez habla con tus palabras
Octavio Paz

Eros, como a noite, também faz anos
Brisa vagarosa de praia deserta
Onde eu também fora Deus
Antes do Verbo

Eras ontológica, sereia
Arenosa aos meus passeios
De solilóquio e assim
Soletrava-te em sonhos

Eres tan solo versos de Paz
Uma vez, lua, outra vez estrela
Palavras daqui soletradas
E tântricas do teu corpo…

Eros, eras, eres…esses e efes
Todas as letras tatuadas
No balbuciante dos teus lábios
Quando não beijam…

Filinto Elísio

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Roteiro de Dimas Macedo

Ontem, participei da missa na Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Mucuripe, homenagem aos 50 anos do meu amigo e poeta Dimas Macedo. Um recital de Acção de Graças, baseado em peças de Beethoven e Mozart, como merece o "parnaso de Lavras". Mas não vou escrever, uma vez mais, sobre este camarada das andanças pela Belle Époque, de Fortaleza. Apenas transcrevo um texto de Fenando Ferraz, poeta e jurista do Piauí.


Roteiro de Dimas Macedo


Natural de Lavras da Mangabeira (CE), Dimas Macedo é professor da Universidade Federal do Ceará, Procurador do Estado do Ceará e membro da Academia Cearense de Letras. São de sua autoria os seguintes livros de poemas: A Distância de Todas as Coisas (1980; 3ª edição: 2001), Lavoura Úmida (1990; 2ª edição: 1996), Estrela de Pedra (1994; 2ª edição: 2005), Liturgia do Caos (1996) e Vozes do Silêncio (2003).

Como jurista e cientista político, publicou: Política e Constituição (Rio de Janeiro: Ed. Lúmen Júris, 2003). E no campo da crítica ou do ensaio, é autor de: Leitura e Conjuntura (1984; 3ª edição: 2004), A Metáfora do Sol (1989; 3ª edição: 2003), Ossos do Ofício (1992), Crítica Imperfeita (2001) e Marxismo e Crítica Literária (Florianópolis, 2001).

Dimas Macedo integra o Conselho Editorial de vários jornais e revistas culturais: Espiral e Literapia (Fortaleza), Literatura (Brasília) e Morcego Cego (Santa Catarina), entre outros. Compõe também o Conselho Editorial das Edições da UFC, o Conselho de Publicações da Editora Códice e o Conselho Editorial do Museu – Arquivo da Poesia Manuscrita. Participou, com poetas e estudantes do Curso de Direito da UFC, da criação da revista e do movimento literário Molec.

Poemas e textos literários de sua autoria foram vertidos para o inglês e o espanhol e publicados em Portugal, Espanha, Inglaterra, Argentina e Estados Unidos, tendo trabalhos de sua autoria divulgados nos principais jornais e revistas do Ceará e do Brasil. A sua produção no campo da cultura literária ou da reflexão filosófica abrange um conjunto de trinta livros editados e mais de trezentos artigos, versando a maioria deles sobre literatura e autores de língua portuguesa.

Desenvolvendo uma intensa atividade literária, cultural e artística, que se projeta no campo editorial e na área da defesa da cidadania e da justiça, Dimas Macedo, além do livro Política e Constituição, acima referido, publicou o livro A Face do Enigma (2002), este último sobre a trajetória biográfica e a obra literária do grande escritor cearense José Alcides Pinto.

Presidente da Comissão de Direito Ambiental da Procuradoria Geral do Estado do Ceará e membro da Comissão de Direitos Humanos, da Comissão de Estudos Constitucionais e Vice-Presidente da Comissão de Ensino Jurídico da OAB-CE, Dimas Macedo tem artigos publicados em revistas jurídicas especializadas, entre elas, a revista Nomos, do Curso de Mestrado em Direito da UFC; a Revista de Humanidades, do Centro de Ciências Humanas da UNIFOR; a Revista de Informação Legislativa, do Senado Federal; a Revista da Faculdade de Direito da UFC; a Revista dos Tribunais – Cadernos de Direito Constitucional e Ciência Política, da Editora RT; e a Revista Trimestral de Direito Público, da Editora Malheiros, São Paulo; sendo ainda autor dos livros Ensaios de Teoria do Direito (1985), O Discurso Constituinte/Uma Abordagem Crítica (1987), ambos já em segunda edição, e Pesquisas de Direito Público (2001), onde discute, respectivamente, temas de Filosofia do Direito, Sociologia Política e Direito Constitucional.

Na área específica da Pós-Graduação, além do Mestrado em Direito da UFC, tem lecionado as disciplinas Teoria do Estado, Organização Federativa do Estado e Normas e Princípios Constitucionais, nos Cursos de Especialização em Direito Tributário e Direito Constitucional, na Universidade de Fortaleza; Processo Constitucional e Teoria dos Direitos Fundamentais nos Cursos de Aperfeiçoamento de Magistrados e Pós-Graduação em Processo Civil, na Universidade Federal do Ceará; e Direito Constitucional Ambiental, no Curso de Pós-Graduação em Direito Ambiental, na Universidade Estadual do Ceará. Por dois mandatos exerceu as funções de chefe do Departamento de Direito Público da Faculdade de Direito da UFC.

Com toda esta multiplicidade de funções e cargos, Dimas Macedo se auto-intitula como poeta. E afirma que “esse mundo fantástico do imponderável, essa transcendência cristã e divina que borbulha em cada um de nós como uma rocha, compreende, em essência, os sentidos daquilo que pedimos e daquilo que achamos a cada passo de nossa caminhada. Aceitar Deus é ouvir a alegoria mais pura da palavra, é sentir a pulsação dos humildes, é ancorar uma nuvem nas areias móveis do deserto, porque os móbiles de sal do pensamento já são, em sua unidade suprema, os códigos de luz de todas as idades do homem”.

Em seu livro Marxismo e Crítica Literária, Dimas Macedo, com propriedade, afirma que “a realidade social concreta, não podemos esquecer, esconde-se por trás de uma cortina de mentiras e falsificações, de forma que assim, gradativamente, a sua face vai se tornando invisível. E se ela não se concentra captada numa obra literária, como exige, aliás, o pronunciamento de Milan Kundera, ela termina aventurando-se a não ser reconhecida pelo leitor, que não tem mais o hábito de conviver com o concreto real. (...) Para libertar a literatura desse processo de escamoteação do real, faz-se preciso que o crítico esteja consciente de que o exercício de sua atividade de decodificador de linguagens está subordinado à compreensão de que a obra literária, assim como o autor e o leitor, encontram-se inseridos num universo conhecido pela designação de contexto social”.

Como bem observa Rodrigo Marques, “os símbolos da infância de cada poeta permanecem vivos e sempre estão a reclamar um poema e a despertar eternas saudades e lembranças”. Não poderia ser diferente com o poeta Dimas Macedo, que homenageia sua cidade natal, Lavras da Mangabeira(CE), com o poema “Lavras”, publicado em seu livro A Distância de Todas as Coisas:

“Longe daqui do tumulto,
lá no meio das coisas,
prostrada para o universo,
posto que existe,
Lavras é a cidade mais bela do mundo,
pois em cada rua
nasce uma saudade
que termina em meu corpo”.

No poema “Elegia Lavrense”, Dimas Macedo conversa com sua cidade que o fez nascer de suas entranhas, e que um dia o viu partir em silêncio. Quantos de nós nos identificamos com este auto exílio da cidade que nos gerou e abrigou em seu berço desde quando nascemos e que, muitas vezes no mudismo de sua história, guarda em suas ruas, parques, avenidas, escolas, clubes e residências o registro de nossa existência com a ilusão juvenil de que morávamos no centro do universo? Como um casulo, ela bem sabe que um dia a borboleta parte e que, por mais que deseje, não mais terá condições de acolher em seu ventre de casulo sua larva que se fez borboleta e que aprendeu a voar. Será, caros irmãos Cineas Santos e Genuíno Sales, que, ao lerem “Elegia Lavrense”, vocês não se lembrarão de Campo Formoso, município de Caracol/PI, ou da fazenda Tamboril dos Sales, ao sopé da serra do sertão de Pedro II, como eu me lembro da minha Parnaíba? Vejam como o poeta Dimas canta a sua terra de berço:

“Lavras,
ainda não quero transformar-te em canto,
quero apenas denunciar-te com uma elegia
para que rememores teu passado
de poemas ainda não escritos,
mas que escreveste
para o contentamento dos teus filhos.
Moléculas desgarradas do teu seio,
lentas para os sonhos de amor
que conquistaste.
Histórias paridas de tuas entranhas,
serenas como o caminhar dos teus transeuntes
na beleza cantante de tuas ruas
e de tuas praças,
ou com a solidão que ostentas
em tuas madrugadas,
com tua avenida enluarada,
serena para a inquietação que te dominava outrora.
II
Lavras, as tuas ruas agora silenciaram,
não mais choram com a sinfonia
dos violões plangentes dos teus seresteiros.
Tudo até parece que dorme sobre ti
pairando entre a timidez paralela de tuas casas.
Teus líderes
ainda acalentam em ti uma esperança,
sim, porém muitos partiram,
aliás, todos.
...
Teu corpo repousa virgem,
envolvido pela monotonia de tua solidão.
E é com essa paz, Lavras,
que te desejo.
Quero-te com as tuas manhãs de domingo,
nostálgicas para mim nas festas do padroeiro,
ou com as tuas tardes tristes
ao som da velha banda que não conheci
mas cuja harmonia
ouço a cada instante
tocando dobrados que ferem a alma.
Quero-te na tua calma,
perdida na tua agonia,
sobretudo quando sofrias a crueldade
dos teus poderosos
e eu não podia te socorrer
na minha fragilidade de criança”.

Reviver o passado é, como bem expressa Dimas Macedo, a nossa própria vida como “uma sucessão de dias e de noites”. O sonho, a angústia, a desilusão, a alegria, a tristeza, a esperança, o desejo, as paixões, e o amor alimentam a própria existência deste grande poeta que se autodenomina como “poeta apenas (...) com as mãos calejadas de versos”, a guardar no olhar “uma imaginação entre planícies”.
Para mim, é o próprio poeta que homenageio no poema que lhe presenteei em 1º/9/2003, intitulado “Poeta de Lavras”:

“Nas ondas perenes do mar
alternando calmaria com arrebentação
navega o barco do poeta
sem porto onde atracar
Tem como norte a luz
que afugenta a morte
iluminando a alma
nos labirintos da vida
Nos caminhos d’água
segue o homem que sonha
harmonizar direito com justiça
humanizando o mundo com poesia”.

Finalizando minhas modestas palavras, escolhidas que foram para fazer uma breve apreciação sobre a extensa obra do poeta Dimas Macedo, socorro-me de Mário Quintana em sua versão da felicidade, invocando aqui o poema de sua autoria intitulado “A Idade de Ser Feliz”:

“Existe somente uma idade para a gente ser feliz,
somente uma época na vida
de cada pessoa em que é possível sonhar
e fazer planos e ter energia
bastante para realizá-los a despeito de
todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com
a vida e viver apaixonadamente e
desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar
a vida à nossa própria imagem e semelhança e
vestir-se com todas as cores e experimentar todos os
sabores e entregar-se a todos os amores sem
preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda disposição de tentar
algo NOVO, de NOVO e de NOVO,
e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz
na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração
do instante que passa”.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Haikus

1
Mano en la noche.
Un pájaro sombrío,
Sombra de pájaro.

2
La muerte bebe

Su oscuro vino amargo,
Y luego sigue.

3
Fugaz crepúsculo

Que alumbras por las tardes,
Lámpara breve

4
Canto en la noche.

Las sirenas me llaman;
Sueñan mi muerte.

5
Sueño mi muerte,

Los clavos, la madera.
Cuelgo del sueño.


6Piedra o espada.
Excalibur soñado.
Mano que duda.

Carlos Pintado

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

An Inconvenient Truth


An Inconvenient Truth reaches out to 562 theaters this weekend. As of Wednesday, the cume box office to date is $13.6M heading into its seventh week of release.

We will also be posting international release dates in the coming week.

The Los Angeles Times reports: Wildfire Increase Linked to Climate - Higher temperatures over 34 years — rather than land-use changes — have led to more blazes, researchers say. They’re sure it’s not a fluke.

Finally, do you know a person of faith who you’d like to see An Inconvenient Truth for free?

September 9/11

http://www.loosechange911.com/index_main.html

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Cê não me devia maldizer assim





Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento:
Vou mais além, não bebo dessa água.
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da terra e do céu.
Dai-me de beber,
que tenho uma sede sem fim.

A Fonte. Renato Russo

Em dias como hoje, eu não sei o que escrever. Talvez seja esta sede sem fim. Não tenho o frescor da escrita de Eileen ou de Chissana. Nem o imponderável n ta mora li de Abrão Vicente ou de navega Mayra Andrade. Essa gente nova e descomplexada que anda por aí. Gente inova, diria. Falo-vos, então, da correspondência com o meu amigo, do bom jazz e da boa conversa. Ele, por sinal, nem gostou que eu dissesse: o Estadista não governa para a próxima eleição, mas para a próxima geração. Mal habituado poderoso e senhor do mundo, ele me condenou ao inferno no último email. A dar o troco, permiti que Pranchinha lhe dissesse umas loas. Este, desde Nero até ao último deus da esquina, anda a gozar com os poderosos. Continua nisso mesmo depois de morto, já que estamos no reino do absurdo. Devia ser combatente da liberdade, pois a Pátria se liberta a cada momento (e ainda bem). Unânimes contra o ufanismo a que isto se tornou. O mais bem gerido da África (coitado do Continente!). A Constituição mais moderna do mundo (oh, kanadja!). O 1° (também na África) à vista do MCA. E mais coisas & loisas patrioteiras que a conversa em família já repete à exaustão. Entretanto, é neste – o quê mesmo? - Japão, Hong Kong ou King Kong que acontece o apagão da Electra. Neste Pêdême de cada dia que a malária, erradicada na Colónia, mata de novo. Neste milênio que os novos escravos são barrados no mar, com o reforço estrangeiro, para o inglês ver. Não sei o que escrever, porque quero andar em sentido contrário desse carnaval da loucura, do kásubodi e da narco ostentação. E os poemas que timidamente escrevo, gostaria que fossem de pedra. Não a pedra das infra-estruturas precárias, mas a explosiva pedra com que um apóstolo do futuro construirá a sua Igreja. Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam. Tento escrever o que vejo deste 10° andar. Mas o Calçadão é um frenesi artificial e a cidade grande é uma babel antropófaga. O telejornal diz que Amazonas está sendo desmatada de forma perigosa. O maior terrorismo acaba por ser o ambiental. Pior do que nos transformar a todos em Califado. O Papado tentou-o nos Descobrimentos e ficamos irremediavelmente sadomasoquistas. A Deus nas alturas que, por aqui, apesar das terçãs, nos entenderemos. Em dias como hoje, eu não sei o que escrever. Definitivamente, estou em branco. Quem sabe, um rap à maneira do José Luis Tavares. Ou os versos revisados como Armênio Vieira. Mas terei de falar dos grandes? O meu colega da faculdade telefona a dizer sobre a vernissage de “Cê”, o último álbum de Caetano Veloso. Conto-lhe do King Kong e ele a rir como um louco. Grande Pranchinha! Escuto, nesta tristeza infinda, A Fonte, de Renato Russo. Daqui a pouco saio pela cidade procurando pão quente e o álbum de Caetano Veloso. Diz a televisão que ele canta assim: Eu não me arrependo de você/ Cê não me devia maldizer assim/ Vi você crescer. E eu não vou escrever sobre o quinto aniversário do 11 de Setembro. Não estou a fim de sublinhar o óbvio...

Palestrando em Icó

Faculdade Vale do Salgado

domingo, 10 de setembro de 2006

Melodia



Despeço-me de assaz versos
Como quem se aparta
Da casa onde nasceu...

Por Pedro ou Sísifo
E (soubeste-o sempre) longa
A minha viagem, deixava-te
As palavras que já são pássaros
E este enorme desplante
De rosas nas estrofes...

Por certo, uma frase ou tão-somente
(perfumada crase) de não contida
Crave em pedra e alma tua
O dentro de tais frutos
- nós (digamo-lo também)
Olhando a lua...

Quem sabe, o meu ir desnude
O dia em seu porvir, quando
E antes que – dos versos! –
Nos anoiteça (agora ou no eterno)
A melodia...


Filinto Elísio

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

O ÚLTIMO MITTERRAND



(Em dias assim prefiro escrever sobre tudo e nada.
Sem hierarquias. Caminhando contra o vento…)



Bilinguismo de “trocolansa”

Hoje, quero falar da língua cabo-verdiana. Do crioulo de Cabo Verde, falado em toda a Nação Global e estudado em várias universidades do mundo, mas que continua relegado à marginalização nas oficialidades. Mas que tacanhês, quanta colonização mental! Como não oficializar a lingua do pensamento, da fala e da intercomunicação neste Cabo Verde global? Perigar o português? Não me façam rir. O que periga o mau português falado e escrito em Cabo Verde é exactamente a não definição do estatuto oficial das duas línguas. A tal diglossia, de que nos fala a estudiosa Dulce Almada, tem a ver com a promiscuidade linguística, com o actual bilinguismo de “trocolansa”. Só teríamos a ganhar se dominásse bem as duas línguas que a ventura nos deu: a cabo-verdiana e a portuguesa. Quem já leu Chomsky sabe das vantagens cognitivas do bilinguismo saudável. Para um pensamento estruturado, capaz de pensar a ilha, o arquipélago e o cosmo. Funcionar em dois códigos linguísticos é um valor agregado, a potenciar, meus senhores. Importa não confundir as nossas fobias com a realidade, sobretudo aquela que transcende uma elitezinha medíocre e deformada. Basta dos pruridos de trazer por casa e oficializemos o crioulo de Cabo Verde. Por uma questão de não amputarmos a soberania, nem amordaçarmos a democracia…

Cimboa – muito mais que instrumento

Em conversa com Charles Akibodé soube do projecto de preservação e de valorização da Cimboa, instrumento musical tradicional cabo-verdiano, em vias de extinção. O projecto de Akibodé não se resume ao instrumento em si, como peça da antropologia cultural, mas abraça uma iniciativa mais alargada e mais consequente da promoção da Cultura que se faz em Santiago. A Salvaguarda da Memória da Cimboa resgata o prestígio cultural e social de Mano Mendi, um dos mestres do batuque e na execução da Cimboa. Ela resgata também a técnica do fabrico desse instrumento, a partir de uma abordagem científica do artesanato cabo-verdiano. Charles Akibodé, investigador de profissão, entendeu o que à nossa elite desavisada custa a entender: a verdadeira estética pressupõe uma perspectiva ética.

Fantasia, digamos…

Meu caro amigo, do bom jazz e da boa conversa, acabo de assistir ao O ÚLTIMO MITTERRAND, filme de Robert Guédiguian. Mitterrand sim, era um estadista fascinante. Com grandeza. Agora, eu não fico embasbacado diante desse Carnaval. Prefiro coisas mais pedagógicas. Quando não, fico horas diante do oceano. Estou assumidamente numa fase zen. Naquela do zen-mundismo, como diria Gilberto Gil. Meu caro amigo, das piadas inteligentes, não estive, nem estaria por um segundo embasbacado com o processo histérico. Prefiro amar, mesmo vizinho cativo da dor, quem não odeia senão o ódio. A política não é a minha praia. Literalmente. A política tem de se resumir aos seus limites em qualquer sociedade democrática. Ela não pode tudo. Frágil e vulnerável como todos, o político só governa com o aval dos governados. Um Nero a mandar vir hoje seria até hilariante. Já não há paciência mesmo. O Pranchinha, se cá estivesse, faria a reprise daquele Ditador que, do alto da sua arrogância, mandou revogar (imaginem) as Leis da Gravidade. Obviamente que o Grande Líder caiu fulminado por terra. Excesso de peso, meu caro amigo…

Ricardo…graças a Deus!


Não é só o nome que santifica: Ricardo de Deus. É a música também que, mesmo ousando pelo profano, como todo o suíngue aliás, está aqui eivada de sagrado. O álbum Fragmentos foi feito com engenho e arte, corolário de muito bom-gosto e muita técnica, desde a composição à produção, passando naturalmente pela interpretação.

Ricardo de Deus, mercê das suas aparições e das suas aulas de piano, conseguiu já um panteão sonhado por todos e uma serenidade conseguida apenas por alguns. Ele vem a Fragmentos, seu primeiro álbum, com a maturidade de repertório e a mão tão precisa quão concisa na escolha dos músicos, tanto cabo-verdianos como brasileiros e outros. A notariedade de Ricardo de Deus não se traduz em significante, mas sim na profunda e radical simplicidade, apanágio dos iluminados.

Brasileiro, de São Paulo, mas ora serenado nas ilhas de Cabo Verde desde 1999, Ricardo de Deus pegou já o significado da alma crioula, no jeito como nos apresenta a maior parte das 14 faixas que perfilam neste álbum. Diga-se que o Artista assina todas as composições, à excepção de “Lundu” de Arnaldo Rebello, facto inusitado entre a gente que o tinha apenas por exímio pianista. Fragmentos é genuína música cabo-verdiana, mas não engessada a nada. Nem mesmo à toada que se ouve pelas esquinas. É música boa, nova e glamourosa…de Deus, realmente.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

sábado, 2 de setembro de 2006

Príncipe das nuvens

Há dias que caminham silenciosos
Como se rastejassem à soleira
Das nossas almas esquecidas
E olhassem de soslaio a solidão
Também nossa…

Há dias insidiosos, à flauta
Em que o mago engana a serpente
E este, de puro fogo, crepita
À Eva e sua profanada maçã
- ó libidinosas…

Dias há que nos adentram o lar
Pela fresta das janelas e do pensamento
E ficam quietos, como lamentos,
De murmúrios tão-somente
E em desenlace…

É quando a poesia soletra
Na vertigem deste lugar
- chamemo-lo poisio ou viagem –
Onde se refugia o Albatroz,
Príncipe das nuvens…

Filinto Elísio

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris
e minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Shiva

(…) Senão eu te invento por toda a eternidade (…)
Paulo Leminsky


Ter partido também
Ficar um pouco contigo
Flutuar assim para lá
Do azul, do zil e do vão
- Eu nem queria outra coisa,Mulher…

Partir para vir contar
A praça do além e do éden
(o reverso da maçã e seu pecado)
Serpenteada numa árvore, mulher,
E tão torneada em teu corpo…

Eu nem queria senão ter ido
Com ou sem retorno, ao pé de ti
E dali (miró, como me chamas),
Neruda, pessoa, outros poetas
De toda a poesia…

Aqui, deixado na praia,
Eu te invento...metáfora!

Filinto Elísio

Founders

Foto de Omar Camilo

O "imprescindível" Manuel Veiga

O "imprescindível" Manuel Veiga corre risco de vida num hospital em Nova Iorque, na sequência de um ataque cardíaco. Ministro da Cultura, mas sobretudo intelectual da mais fina estampa, Manuel Veiga tem um profundo empenhamento pela coisa cultural cabo-verdiana, em particular a língua crioula. Neste momento, ele tem estado a estrategizar uma Conferência Internacional sobre a Claridade.Juntemo-nos todos numa correntente positiva pela rápida e pronta recuperação de Manuel Veiga.

Em prol da caboverdianidade!

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Thugs, CEDEAO, Constituição e Israel + nota do colunista


A caça aos Thugs

A manchete da prisão dos jovens delinquentes, mais conhecidos por Thugs, nos deixa mais aliviados e mais crentes da nossa segurança pública. Tal como a saúde pública, a segurança pública é questão premente e prioritária. Sem elas, não há estabilidade, nem paz social, as verdadeiras razões que trariam investimentos a Cabo Verde, diga-se em abono da verdade. Ninguém sai da Inglaterra para vir a Cabo Verde, a risco do paludismo, da cólera ou do assalto. Tao pouco ele viria para assistir gente a defecar na via pública ou a curtir os apagões da Electra. Pura e simplesmente não haverá turismo, nem outro investimento sério, se alguma incongruência não for consertada a tempo e, quanto a isso, não devemos ter papas na língua. Mas dizia, a caça aos Thugs veio em boa hora e é mister que o nosso sistema judicial seja consequente com a lei e o interesse nacional. Só que o buraco é mais em baixo. A criminalidade transcende a medidas securitárias, por sinal mais que necessárias. Ela tem a ver com as alternativas sociais para a juventude. A segurança sustentável não é policial, mas societal. Até porque os jovens delinquentes são “nossos jovens” e precisam ser recuperados. Não apenas por aquele que viria da Inglaterra, mas por nós que continuamos…em Cabo Verde!


Cabo Verde e a CEDEAO

Apoio a 100% a ideia da revisão das nossas relações com a CEDEAO. Elas deveriam, hoje mais do que nunca, incrementar uma vertente mais bilateral do que multilateral, no quadro comunitário. Esta tese foi defendida pelo diplomata Manuel Amante da Rosa, mas, para variar, não teve respaldo crítico entre os seus pares da diplomacia. Cabo Verde deverá reflectir e assumir qual o cenário da CEDEAO que lhe interessa realmente. Em verdade, o enquadramento de Cabo Verde no mundo não se faria de costas voltadas para a África Continental. O Arquipélago é estratégico, porque está estrategicamente posicionado (não apenas em termos geográficos) na África Ocidental. Em verdade, é estratégico com África e nunca sem ela. Mas não se tem o Continente a qualquer custo. A questão da livre circulação das pessoas e bens merece revisão séria e rápida. Concordo com a preocupação do ministro Júlio Correia sobre a ameaça demográfica, decorrente de uma migração intensiva e nem sempre controlada. O país tem de dizer a CEDEAO quanto recebe e como recebe. Como pequeno estado insular (relativamente estável), próximo de uma Costa instável, empobrecida e sobrepovoada, as ameaças a um rápido e perigoso desequilíbrio demográfico são evidentes. Com as delicadezas necessárias e a complexidade que a questão determina, é hora de fazer o que tem de ser feito…

A questão presidencial

Releio, com vagar e sentido crítico, o livro “A questão presidencial em Cabo Verde – uma questão de regime”, de David Hopffer Almada, e penso se não seria interessante reabrirmos o debate sobre o tipo de regime mais adequado para Cabo Verde. Debate de rua, societal mesmo, quase em referendo. O dito Parlamentarismo Mitigado, um hiato que às vezes mete água, é a melhor solução política? Quais as virtualidades de outras propostas? O retoque constitucional pontual seria por si só suficiente para qualificar o actual regime? Ou, quem sabe, a virtude está numa mudança mais de fundo, no presidencialismo ou no semi-presidencialismo? O actual regime permitiria, sem perversões, a coabitação entre um governo e um presidente adversos? Até que ponto, no actual figurino, certas coabitações não fragilizariam a soberania, a democracia e o desenvolvimento, valores ainda em consolidação nesta etapa histórica da vida nacional? Dá que pensar o facto de o Presidente da República, saído directamente do voto popular, não ser titular de importantes poderes próprios e de que maneira esta “fragilidade” contribui para um equilíbrio saudável entre todos os Órgãos Políticos de Soberania. O povo cabo-verdiano realmente quer um Governo que não responda primordialmente perante o Presidente da República que escolheu? Enfim, uma série de questões que merecem ser tematizados para lá do país político e do país jurídico. Sem arrogâncias, nem tecnicismos juridico-constitucionais, quem atiraria a primeira pedra?

Israel e a mentira orwelliana

Leio a imprensa local e há acontecimentos que não acontecem. Parece a mentira orwelliana que, repetida ene vezes, vira verdade. Os aviões que lançam misseis sobre as crianças indefesas são pura brincadeira. Uma ficção, tirada do monitor de um video game, crê-se. Em Cabo Verde, os deuses-de-esquina ficam quedos e mudos. Mas eles também não interessam. São zeríssimos à esquerda. O silêncio dos silenciados não nos aparta da vergonha. O ataque, desproporcional e injustificado, ao Líbano é uma vergonha para a Humanidade e os homens de bem e de boa vontade condenam tamanho genocídio. As Nações Unidas, uma vez mais, não podem nada, mesmo nada, contra a força bruta. O governo de Israel (não confundir com o povo judeu) é déspota, fascista e desumano, para não dizer bem aprendido com o nazismo. O que acontence ao povo palestiniano e libanês não passa de um holocausto. Um nojo, com todas as letras…

Nota do Colunista:

O cronista não está alheio à fruição social. Muitos dos temas que aborda foram escrutinados no quotidiano. Os assuntos colectivos são inesgotáveis. Não pretende ele ser dono, nem accionista de alguma verdade. Ao levantar questões, ele quer contribuir para a reflexão da nossa opinião pública. De vez em quando, ele migra para o seu espaço poético, como o Albatroz, de Baudelaire. Aí, a sua função torna-se mais existencial que social. Os leitores hão de perceber a alteridade. Quando não (direito que os assiste), reclamem pelo endereço electrónico: filintos@gmail.com.

sábado, 26 de agosto de 2006

Hora Grande


Os tempos são fortes e a hora é grande.

Saint-John Perse


Glosa

Para alguns, felizmente poucos (mas hegemónicos), está tudo bem e estável debaixo do céu. Questionar estes dias sob o sol nosso de cada dia seria subversão perigosa. Terrorismo de baixa intensidade, acto inaceitável num país pobre e vulnerável, ainda por riba de morabeza, como o nosso. Tudo bem e estável, mau grado a insegurança, o desemprego e a doença pública, aliada à holística incompetência, das altas nuvens ao rente chão. Os hegemónicos (poucos, felizmente) não querem saber das reclamações, das reivindicações e das manifestações. Do descontentamento das ruas, querem distância. E das insatisfações mais surdas, fazem ouvidos de mercador. Face à quietude aparente, mas falsa, o país navega por mares escusos e, qual nave dos malucos, todos fingem estar no porto de salvamento. Onde estão os lúcidos, minha gente? Um simples Velho do Restelo afinal? O que é da crítica local, outrora tão acutilante e valente quão agora necessária? Será que, no chão da República, a ignomia é permitida e a disfunção faz escola? Não, não e não, meus amigos. Os cronistas são filhos de Cronos. E deste, guardam a mais sagrada fidelidade. Não podem eles fugir aos tempos. E muito menos à grandeza desta hora…

Doença pública e a cidadania

Leio a entrevista de uma autoridade sanitária, no Jornal Expresso das Ilhas, e discordo das suas colocações. A política da saúde pública precisa ser revista, sim senhor. Vejamos, por exemplo, a questão do paludismo, afinal retornada, mas só agora assumida como endémica, pelas autoridades. Não poderia haver um plano preventivo mais sério e consequente diante de uma realidade por assumir. Nem poderia haver autoridade sanitária em face de uma não-problemática. Qual teria sido a razão deste irresponsável silêncio? A beleza dos indicadores que muito doura as estatíticas e induz a elogios internacionais? O turismo emergente e cada vez mais importante, mas contingencial em face a rupturas da saúde pública? O medo aos investidores que olham para isto como um destino lucrativo? A oposição sistemática, mister democrático, pronta a tirar dividendos das desacelerações e afins? Francamente, nós, os cidadãos, contribuintes e eleitores, temos de perceber as razões do silencio. Quando morre gente, por paludismo ou outra doença (duas por ano que sejam), em quadro de uma política ausente, a culpa nunca é da fatalidade. Nem da população. Não se criminalize a vítima, por favor. Existe paludismo na cidade da Praia, porque a sua população é culpada, não colabora e não limpa? A Praia é uma lixeira, conforme o Bispo de Cabo Verde, porque ao praiense falta urbanidade e civismo? Será a Praia uma lixeira ou lixeira é o que uns e outros fazem da Praia? Tenham dó, meus senhores. As coisas não são assim. Mais do que teatros de bairro, mas sérios investimentos no saneamento, na higiene, na infraestruturação e na qualidade de vida na cidade. Mais do que jogar as responsabilidades e as culpas para debaixo do tapete, mas medidas concretas em relação aos problemas reais. Vamos, agora, aliviar as coisas e trabalhar por esta causa comum. Em respeitos aos vivos e aos mortos. Na certeza de que deste lado estamos lúcidos. E consequentes…é pagar para ver!

Porto, aeroporto, estradas & etc

Falta muito, faltando mais à minha cidade. Faltam equipamentos de mais qualidade: porto, aeroporto, estradas & etc. O desenvolvimento só se processa com o homem educado no espaço equipado. De escolas (do básico ao superior), de hospitais (por demanda populacional), de ruas asfaltadas (ou pavimentadas, a gosto) e de praças (com flores e monumentos), entre outras tantas coisas que dão dignidade e cidadania. Assim, terra de ninguém - de porto atrofiado, aeroporto tacanho, estradas medíocres & etc -, as coisas não funcionam. Não só para a minha cidade, mas para o país todo. Falta muito, faltando mais, e terá chegado a hora de interpretar Saint-John Perse: Os tempos são fortes e a hora é grande.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O tempo circular dos tempos





Glosa

Serão os verbos, a verve e a tecitura esta obsessão de te rever na próxima esquina? Neste tempo de “múltiplos tempos”, estarei contigo no imaginário e na lembrança tão-somente. Não pude, qual Sharezade, perpetuar os nossos encontros em estórias de Mil e Uma Noites. Nem pude – e eis como estranha a minha ledice – postular outro vôo de pássaro que não fosse aquele. Os meus escritos continuarão a ser para ti, minha musa, e, em seus artifícios e alfaias, eles abordarão o tempo circular, mãe de todos os outros. Mesmo quando, por repto do quotidiano, descemos ao pulsar das esquinas...

1. O “tempo de São Filipe”

As intervenções efectuadas pela Câmara Municipal de São Filipe nalguns espaços públicos daquela cidade, oportunamente denunciadas pelo cidadão Fausto Rosário, foram agora “chumbadas” pelo Instituto da Investigação e do Património Cultural (IIPC), sob alegação de que as mesmas “descaracterizam” o Centro Histórico de São Filipe. O posicionamento do Ministério da Cultura, através do IIPC, revela um sentido de autoridade sobre as questões patrimoniais e uma atenção em relação às demandas da cidadania. Os poderes públicos devem ser capazes de responder, em tempo crítico, às descaracterizações dos elementos patrimoniais e ambientais de Cabo Verde, para além dos interesses partidários, económicos e outros. Sem afrontar quem quer que seja, nem fulanizar certas questões, é imperioso um reordenamento das coisas em muitos pontos do país, onde o caos se instalou e a crítica entrou na ordem do dia. Não podemos permitir que o património cultural e ambiental seja delapidado. A destruição, ou mesmo a descaracterização dos nossos bens patrimoniais condiciona a nossa memória e o nosso sentido de tempo histórico. A quem compete preservar e valorizar a nossa identidade? Preservar é um direito e um dever de todos nós, de todo o cidadão, e também do Estado. Cada um de nós deve estar atento aos grandes empreendimentos municipais e outros (privados, inclusive), evitando que os mesmos colidam com o patrimônio. Ao saudarmos a iniciativa do IIPC não significa defendermos a paragem no tempo. O município de São Filipe, como todos os outros de Cabo Verde, precisa de saneamento básico, de infraestruturação e de edificação, valores que agregam melhoria de vida aos cidadãos. Mas as diferentes velocidades dos tempos não se devem colidir. Por isso, as coisas têm de partir de um verdadeiro pacto social entre o Governo, a Edilidade e o Cidadão. Desta tríade, ninguém deve ficar de fora. O resto é karkutisam e o país não pode derramar seu “tempo”...

2. O “tempo claridoso”

Não se pode também lidar com o passado como se ele não existisse. Nem se deve deixar de admitir que Cabo Verde seja uma multiplicidade de “tempos”, alguns mais históricos que outros. Por conseguinte, esta viagem, retrospectiva pelo “tempo claridoso”, um dos mais marcantes, se não o mais determinante, da nossa modernidade literária, se tornou imperiosa. Ao meu ver, a Claridade começa em 1935 e o arauto de tal fenómeno terá sido o poeta Jorge Barbosa. O seu livro “Arquipélago”, publicado nesse ano, traz embutido todos os signos e premissas de “pés fincados no chão” e “olhos voltados para a realidade social”. O afrontamento temático dos claridosos estava todo ali. Mas foi no ano seguinte, em 1936, com o lançamento da Revista Claridade, na cidade do Mindelo, que o sentido ganha dinâmica e sistematicidade. Dir-se-ia que a nova largada, inscrita no escrita barbosiana, ganha então transcendência. Dá-se claramente uma mudança de paradigma, rompendo os intelectuais com o mimetismo cultural, ora modal e costumeiro, em prol de novos fundamentos e problemáticas. O imaginário, bem como o processo criativo, desloca-se para o cenário das ilhas e para o drama das suas gentes. A Geração de Baltazar Lopes da Silva (e Oswaldo Alcântera), Manuel Lopes e Jorge Barbosa, e a de seus contemporâneos dialécticos, António Aurélio Gonçalves e Jaime de Figueiredo, entre outros, reconfiguraram uma mitologia da cultura cabo-verdiana de um molde mais plausível e próximo – a caboverdianidade. E, em lacto senso, mudaram o nosso jeito de ser e de estar no mundo, não só a poética e a prosa ficcional, mas o ensaio antropológico e a crítica social. Outrossim, vale reconhecer que a Claridade foi também um prenúncio e uma advertência do despertar nacionalista. Era, em toda a linha, o acordar de um tempo histórico. O silencioso que se conscientiza silenciado e, destarte, questiona o mundo e a mundividência. Nos seus rudimentos...naturalmente!

3. Onde as águas não se misturam

Resignado ao sentido doloroso da existência, o Poeta caminha. Ele está ciente de não poder ultrapassar o parapeito da sua angústia, mas caminha. Agora que seu pressentimento se desfez numa perda atroz, onde as águas não se misturam, ele deambula. Balbuciando sempre a glosa de Fernando Pessoa (pois não abriria mão da sua loucura): a minha dor antiga...quem ma roubou?

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Onde a minha saudade a cor se trava

Para Béqui



O sonho…e agora, José?

O sonho acabou. Dona Mindoca, a mulher das nossas vidas, morreu. Em sentimentos mistos, busco no intertexto de “a mãe morreu”, no “O Estrangeiro”, de Alberto Camus, um absurdo conforto. O meu pai, na sua digna e infinita tristeza, balbuciará a drummoniana frase: E agora, José? Sinto os meus irmãos, tristes e indignados, ainda incrédulos dessa profunda religiosidade (não a dos templos que almejam guardiães, mas a do Zodíaco que arranja estrelas do Destino). E agora, você? No mais fundo de mim, sou um poço de dúvidas. Ao Sísifo tirem tudo, menos as pedras. Ao Cristo, não lhe retirem a Cruz. Tão pouco queiram subtrair ao Significante o Significado. Busco, no holograma deste tempo, as absolutas razões para não morrer de tristeza. Logo eu que vos suplicara, na escrita do escrito, a minha mãe de volta. Logo eu que, em acto de toda a humildade, daria a alegria, a energia e a escrita, tudo o que mais quisessem, por esse regresso. Ferido de morte, algo em mim – em nós, diria – renasce das cinzas. A dialéctica do sofrimento, sublimando as coisas. A lembrança em forma de força. A saudade em jeito de resistência. O amor que move montanhas. O sonho acabou? Da janela em que olho o vazio, ou quem sabe a eternidade, uma ciciante palavra recusa o terminal deste sonho. Voz de tão só ternura: o sonho apenas começou. Meus amigos, é ela, a mulher das nossas vidas, que eu sei…

Alma gentil

Não vos falaria aqui da Dona Mindoca, professora e pessoa pública. Nem da sua generosidade social que saltava à vista. Falo-vos agora das coisas mais íntimas, desse lado de cá da rosa. Das minhas brincadeiras com ela: Dona Mindoca não é poeta, mas Poesia. Em verdade, eu via nela uma metáfora em toda a transcendência e vivia essa mulher em todo o vate poético. E punha não minhas preces e crenças e sim as orações que me ensinara: alguns versos de Fernando Pessoa. Quem me roubou a minha dor antiga? E fiz com que se fizesse vaidosa, linda e raínha aos gracejos deste Albatroz. E sou feliz por tê-la feito sorrir mais do que chorar. E estou em paz por tê-la amado até ao fim da linha. Dona Mindoca, deste lado da lua, era um ser humano extraordinário. Ela adorava o pôr-do-sol e, sempre que víamos juntos um crepúsculo, a frase era: eis o estado de beleza que nenhum artista consegue imitar. Gostava também das plantas e dos animais. Acordava cedo para a azáfama das plantas no terraço da casa e deleitava-se com o chilreio dos passarinhos. Adorava viajar e tinha as suas paixões pelos lugares. Nem vos conto de como bateu palmas ao ver São Petersbugo, o Monte Jura e as margens do Rio Charles. O luminoso encanto no alto da serra no Ceará e muitos outros lugares por onde andou, sempre de forma curiosa e generosa, fazendo amigos e expandindo Cabo Verde. Falo-vos aqui e agora de uma luz boa e terna, e quiçá eterna, que passou pelas nossas vidas. Como uma estrela a riscar o firmamento e deixou o travo da suprema beleza…

Post Scriptum

Manda a nobreza, em nome de todos, agradecer aos que nos últimos dias fizeram por salvar a Dona Mindoca. A boa intenção, mais do que o sucesso, tem a sua divindade. E, em toda a dignidade desta nossa dor profunda, queremos reconhecer publicamente o empenho de todos. As dúvidas, as frustrações e as revoltas, que ainda nos dilaceram, estão a ser sublimadas. A morte da Dona Mindoca não será um acto de ficar no ar, antes de mergulhar no esquecimento. Queremos também agradecer ao conforto que nos dá, nesta hora de catarse, um turbilhão de amigos e conhecidos.

Post Post Scriptum

Este texto é S/Cem Margens. Por conseguinte, ele é meu. Mas o escrito nesta escrita, tenho a certeza, poderia ser assumido, com mais engenho e arte, por um punhado de apaixonados, nomeadamente Anastácio Filinto Correia e Silva, José Cardoso, Osvaldo Correia e Silva, Antero Simas, Benilde Correia e Silva, António Correia e Silva e Alberto Correia e Silva. E, numa dimensão de mundo novo, pelos netos da Dona Mindoca – a “Geração da Gelatada”, que é hoje o nosso sofrimento abreviado.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Mayra e Dudu


Hoje, vou falar-vos da música. Não da música, em sentido vasto e caudaloso. Mas de dois álbums, acabados de sair: “Navega”, de Mayra Andrade e “Nos Kantador”, de Dudu Araújo. Estes dois trabalhos discográficos são, antes de mais delongas, o corolário da maturidade a que chegou a música cabo-verdiana. Acrescido à singular interpretação desses artistas, o groove atingido por todos quantos, na linha melódica, rítimica e do arranjo, se alinharam na feitura de tais álbums. Das características comuns entre Mayra Andrade e Dudu Araújo, sublinham-se a potencialidade vocal e interpretativa, o bom gosto na escolha de composições (e compositores) e o arrojo dos arranjos. E nem disse a marca mais sintomática: o charme de apresentação em palco (sorriso, sobriedade e inteligência). Alguns reparos, entretanto. Mayra Andrade, emergindo também como compositora de boa verve, tem uma excelente banda, faltando-lhe um ou dois elementos cabo-verdianos para que se instale a naturalidade da toada crioula. Dudu Araújo, ao contrário, precisaria alinhar aos seus exímios músicos (onde Bau é matricial) o vórtice de um instrumentista estrangeiro, habituado a escalar montanhas para lá das pentatónicas. Mas tudo isso, é palavreado de um leigo que percorre a música como um andarilho acidental, razão que relativiza qualquer tentação de postulado. Em verdade, gosto da música por gostar tão-somente. E nesta (in) capacidade, recomendo-vos vivamente Navega”, de Mayra Andrade e “Nos Kantador”, de Dudu Araújo…