terça-feira, 25 de abril de 2006

À beira do Mucuripe

Mergulhado nos arquivos

Escrevo, arduamente mergulhado nos arquivos, um livro sobre as relações comerciais (e outras) entre o Ceará e Cabo Verde. Tenho descoberto coisas interessantes e estou cada vez mais convencido de que estas relações, profícuas para os micro e pequenos empresários de parte a parte, estão longe ainda do seu potencial. Neste momento, há um projecto do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) para a abertura de créditos e fomento de exportação e parceria (leia-se joint-venture) entre as empresas cearenses e cabo-verdianas. Esta nova realidade impõe às empresas um realinhamento estratégico para uma nova fase dos negócios. Em certa medida, não se trata apenas de negócio ponta-a-ponta do crescente comércio (formal e informal, note-se), mas de uma rede complexa rumo a novos mercados (África Ocidental, Macaronésia e EUA). Uma nova engenharia empresarial, de maior porte e complexidade, deve ser pensada pelos decisores públicos e privados do Ceará e Cabo Verde. A pesquisas pelos arquivos, remotos e recentes, dão-me esta visão prospectiva...

Cabo Verde X Ceará: small is beatifull

Forçoso reconhecer de que o Brasil não é só um importante player na região, mas um grande player mundial. Autosuficiente em termos energéticos e alimentares, competitivo em termos científicos e tecnológicos, o Brasil caminha, ao lado da China e da Índia, para o ranking das superpotências. Tão grande e transcendente, com uma capilaridade assaz expansionista, que irradia diante dos pequenos países a proposta de novas formas de cooperação internacional. É a linha de “small is beatifful”. Destarte, ressurge a cooperação entre o Ceará e Cabo Verde, inaugurada com o vôo directo da TACV Sal-Fortaleza, um divisor de águas. E neste particular, é de se reconhecer, noblesse oblige, a visão estratégica do então Presidente da TACV, João Ramos e do seu Administrador Comercial, Jorge Spencer Lima, por uma iniciativa tão ousada na altura quão bem-sucedida a prazo...

José de Alencar à mesa

A ideia de abordar as relações entre o Ceará e Cabo Verde (uma bilateralidade atípica tratando-se este de um país independente e aquele de um estado membro da República Federativa do Brasil) nasceu há muitos anos. A sua gênese deve-se de certa forma a razões afectivas. E radica-se à infância, ficando Freud por explicar os seus meandros. Em verdade, o Ceará aparece na minha infância com os textos de José de Alencar que o meu pai, em iniciativa recorrente, fora lendo ao longo desses anos. E no meu imaginário de criança, recriava sertões e cangaceiros, caatingas e forrós, coronéis e cabras-machos. E, em tal filme que ora descrevo, falava-se da proximidade cultural com o Arquipélago. Ao tempo, eram obrigatórias as leituras de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro que provocara algum frisson na pequena, mas dinâmica, intelectualidade claridosa. A obra, que sistematizava o perfil sociológico dos mundos ditos lusotropicalistas e pós-escravocratas, abria pistas interessantes. E o apport de Gilberto Freyre me emprestara uma perspectiva paritária entre o Nordeste brasileiro e Cabo Verde, no tocante ao mosaico antropológico e cultural, definidor em última análise das formas de vida. Sem ser freyriano, nem claridoso, embora reconheça num e noutro enormes méritos (e as suas contradições inerentes), fui reconstruindo no pensamento os pontos de convergência entre os cearenses e os cabo-verdianos. Agora sei que a cachupa e o mangunzá são pratos parecidos. E a Ypióca e o grogue de cana-de-açucar são “primos carnais”. E o forró lembra ao funaná e a seresta à morna. Semelhanças impressionantes...

À beira do Mucuripe

Uma canção do Fagner. O seresteiro e o violeiro. Serenata de Cabo Verde! De repente, nesse Mercado Central, vejo que o Das Frutas Serenadas precisa de novos sabores, cores e odores: cajá, caqui, chichá, grabiru, guaraná, maracujá, pitanga, sapoti, caju, jabuticaba, carambola, biriba e graviola, cujo suco, à beira do Mucuripe, a minha mãe adora...

1 comentário:

MAM disse...

Ainda não tinha vindo dar a este lugar, que se revela muito útil, por aprofundar lados menos conhecidos, enfrentando a herança do passado como uma passagem inevitável para o futuro, também ele inevitavelmente ligado à necessidade de soltar amarras. O saudosismo não é, nesta óptica, amigo do bom: abram-se as portas para quem quer entrar!
armandina maia