terça-feira, 31 de outubro de 2006

Ao Sul do Realismo


Foto Omar Camilo

Cada poema um epitáfio

Não me canso, como um asceta, de gritar Eis Fortaleza, a Bela. Faço-o não para ensaiar uns versos épicos, mas para repetir o escrito num outdoor que me rouba a vista. Desta janela vê-se a languidez do oceano. E quando um barco vai á linha do horizonte, sou um Albatroz. Sem nostalgias, pois não há tempo para estados da alma. Mas os meus desejos não têm sintaxe. Nem são coisas axiomáticas. Eles saõ plenos e autênticos. T. S. Eliot, o maior dos poetas, teria dito que cada poema é uma plenitude. E o mestre enunciou-se assim em “Little Gidding”: “Cada frase e cada sentença são um fim e um princípio, / Cada poema um epitáfio”…

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Ao Sul do Realismo


Foto Omar Camilo

Una, duna, trina, catari­na…

"Qual o cheiro das roupas lavadas com sabão de coco? Qual é o aspecto dos bolinhos de polvilho? Qual o perfume do mel de jandaíra? Que maleitascura o xarope de mastruço e malvaísco?"
Jorge Marmelo

Una, duna, trina, catari­na…

Ao tempo, a Escola Grande era um educandário que obrigava as crianças a estarem em fila e a cantarem o Heróis do Mar, que ao tempo nos soava mal, mesmo mal. O pior era não falarmos crioulo nem mesmo nos intervalos. Já imaginaram como seria jogar carambola, campanada e polícia-ladrão em português? Mas como a brincadeira era soberana, tínhamos de transgredir. E como era bom transgredir. Não só para falarmos a língua mátria, mas comermos rebuçados e pasteis com diabo dentro, bem como os bolos no tabuleiro da “desaforada Olímpia”. Transgredir tinha sabor às bolas-de-Berlim e aos pastéis-de-nata que a vendedeira baptizava com nomes eróticos e indecentes, para a alegria do pessoal. E por que não recordar aquele Professor que, em vez dos rios e dos caminhos-de-ferro de Portugal Continental, fazia a malta decorar e batucar na carteira ao ritmo de "Una duna trina catari­na barimbau são dez..."…

No Ranking da Liberdade

Um deus-nos-acuda só porque os Jornalistas Sem Fronteiras perfilaram Cabo Verde no 45° lugar no Ranking dos Países com Liberdade da Imprensa. Escândalo é estarmos à frente do Brasil (em 73°) e dos Estados Unidos (em 55°), onde o campo mediático é dinâmico e a cidadania consagrada. Não sejamos complacentes com a falácia, meus senhores, pois no âmago sabemos que isto é a pré-história mediática. Aquele 29° lugar era virtual apenas. Então não foi aí há tempos que os jornalistas foram ameaçados à saída de um tribunal, porque cobriam o julgamento de um caso narco-farinácio? Deixemo-nos de tretas, pois já temos todos os dentes na boca. Para comer e para morder. Eu até creio que os Jornalistas Sem Fronteiras nem sabem da missa a metade. Imaginem se desconfiassem desse jornalismo que nivela os leitores, ouvintes e espectadores pelos padrões de Homer Simpson, aquele simplório da banda desenhada?
O nome das frutas

Diariamente, e por recomendação médica, faço marcha pela Avenida Beira-Mar. Saio de casa cedíssimo: o sol mal nascendo e os prédios por amanhecer. Caminho, absorto nos meus pensamentos, até ao mercado de peixe do Mucuripe. Ali, conheço alguns pescadores pelo nome e regateio o preço na pedra bem composta. De vez em quando, regresso com peixe fresco: badejo, tilápia, cavala ou atum. O melhor seria arroz de cabeça de atum, com açafrão, salsa e alcaparra. À mistura, levo coentro, limão e macaxeira. Batata doce e batata inglesa, quando não banana verde. E no regresso a casa, nos meus pensamentos contigo, mal reparo nas frutas à margem da calçada amanhecida: açaí, maracujá, graviola, cajá e fruta de conde – todos as frutas que adoravas. Já pelos nomes, mãe...

Bónus ou Resolução 48/2005

O Governo, por proposta do Ministro da Cultura, deu um passo histórico na aprovação da Resolução sobre a Estratégia de Afirmação e de Valorização da Língua Cabo-verdiana. Em face isso, o reconhecimento jurídico do Cabo-verdiano como Língua Oficial depende estritamente do Parlamento. Os grandes consensos, ventilados tanto por José Maria Neves como por Jorge Santos, deviam agendar a plena oficialização do bilingüismo de Cabo Verde, em benefício da cidadania e da integração de uma Nação que já se afirma Diasporizada. A imprensa também poderia fazer da Resolução 48/2005, para que, uma vez mais, não adiarmos o debate da nossa mais profunda identidade, nem joguemos a nossa alma para debaixo do tapete. A sociedade civil tem uma forte palavra sobre esta verdadeira questão de Regime. Queremos ouvir uns e outros. Temos, aqui e agora, a oportunidade de fazer História, una, duna..

sábado, 28 de outubro de 2006

VDMaktub, Bom de Vera ou o que mais queiram


Busquei por horas um nickname maneiro para este Blog, www.vdmaktub.blogspot.com . Pedi inclusive o concurso do Pranchinha que, vez por outra, me aparece com algo mais criativo. É que tu, Vera-Lúcia, és uma esteta em pessoa – nada a ver com os “mais iguais” do Triunfo dos Porcos, de George Orwell –, motivo que me levou à parcimónia de renomear o VDMaktub. Andando pela Av. Dom Luís, dei de caras como o nome – Bom de Vera –, bem chapado no frontispício de um prédio. “Eureka, si n ka pruveta es nomi, ki n kreka”…pensei num neolatinório terra-a-terra e alupekadu.

VDMaktub, diga-se em abono da verdade, parece até nome de agente secreto, desses que brigam contra o nosso dilecto James Bond. Onde foi Vera-Lúcia buscar o raio deste nome? Fê-lo, como vaticina o Pranchinha, para espantar José Bouquinhas, Pasqualini Settebellezze e Dom Charles, o Chaplin? Em caso afirmativo, ela teria razão, já que o pessoalzinho, além de bera, rasca e inculta, tem muito de caprino e nós, nisto de ética digital, somos todos vegetarianos. E, nesta fase veggie, não há espaço para os PêCêDês, sigla que responde por Pacóvios, Covardes e Desistentes, vulgo “laranjinhas da net”. Pois será VDMaktub, eivado dos belos textos de Vera-Lúcia de Deus e acompanhado dos gostosos acordes de Ricardo de Deus, o pianíssimo e veríssimo da deusa, para os mais chegados.

Tudo isso, para vos dizer que doravante chamarei este Blog de Bom de Vera, nem mais. Personalizando-o, bem à minha maneira, serei dele leitor assíduo e atento. Este point, já no começo, indicia corpo e alma. Forma e conteúdo. Uma harmonia entre a palavra e o ritmo. Aqui, a intenção e o gesto são feitos um para o outro. Tipo Romeu e Julieta. Refiro-me naturalmente à goiabada com queijo ou, em sua ausência querida, ao arroz com feijão. O eterno e transcendente baião-de-dois…

Uma última palavra sobre o VDMaktub, aliás BDV (Bom de Vera), não queira o leitor esgotar a sua percepção a cada leitura. Entrar no âmago do Artista é como deambular pelo labirinto. E Bom de Vera é fogo, não se revelando todo. Vou das chamas aos fumos, passando pelos seus incensos, e fica-me a sobrar a maior parte do enigma. Os meus cinco sentidos nem dão conta das virtualidades veladas deste Blog. A expectativa é o seu maior trunfo, diria até a sua carta na manga. Vera-Lúcia, estou com vontade de ler mais. Feita uma fome mesmo…

Poema de Amor


O Poeta e o seu café
Foto Mito


Se o teu coração e o meu
fossem dois relógios batendo
a mesma hora, nunca chegarias tarde
aos encontros, e eu, no minuto exacto,
chegaria a ti como um rio
que entra no mar.
Gostaria de estar contigo
e fôra essa a minha sina, que anjo
ou demónio se lembraria de vir dizer-me
que todos os paraisos
são paraisos perdidos?
Amar-te sempre queria eu
até que a morte nos viesse cobrir
de flores. No entanto, que posso fazer
contra os semáforos indicando o vermelho,
com tantas curvas impedindo
que eu siga em linha recta?
De resto, quando menos se espera
acontece chover e a seguir à chuva
vem a bruma. Como se não bastasse,
surge um guarda a exigir o santo-e-senha,
porém não recordo nenhum,
apenas sei o número de um telefone
que alguém me deu
quando andava de espingarda e boina verde.
Adeus, meu bem e deusa minha,
quando eu morrer, se morrer primeiro,
cobre-me de rosas vermelhas e brancas
e canta para mim uma canção de amor,
não faz mal se for alegre.


Arménio Vieira, in MITOGRAFIAS (livro ainda inédito)

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Sodadi Guentis Correia - Caio e Djamila

Cortesia Isa Pereira

Café com pão

Há coisas que não devem ser esmiuçadas para os outros. São demasiado íntimas, tratando-se de lembranças de infância. Os meus pais a declamarem Trem de Ferro, de Manuel Bandeira, é um trevo e um travo neste meu destino. Café com pão


Trem de ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô...Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...

Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

(Manuel Bandeira in "Estrela da Manhã" 1936)

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

! Mirabolante Miró


Nocturne
Joan Miró

"O mais surrealista de todos nós".
André Breton

1.

Ontem, aproveitei a tarde para assistir a exposição! Mirabolante Miró, no Centro Cultural UNIFOR. Trazer 178 gravuras e 28 cartazes dos últimos 30 anos da vida de Joan Miró, dos quais muitos inspirados nos poemas de João Cabral de Melo Neto, Jacques Prévert e René Char, é um sublime acto de cultura. Sem mais comentários…

2.

Conversei longamente com o curador da exposição sobre uma parceria para a criação de uma pequeno Centro Cultural em Cabo Verde, ideia que vem sendo amadurecida e que já conta com alguns promotores, dentro e fora das ilhas. Ele achou a ideia excelente e pediu um memorando sobre isso. Há tanta coisa para ser mostrada, disseminada e intercambiada. À primeira, ele defendeu que o pequeno porte do espaço não deverá conferir a exiguidade dos projectos. É preciso algo mirabolante. Thinking big...

3.

Voltando a Joan Miro, "o mais surrealista de todos nós", segundo André Breton, importa referir, numa rápida síntese biográfica, que ele nasceu em Barcelona, na Espanha, em 20 de Abril de 1893 e faleceu em Palma de Maiorca, Espanha, em 25 de Dezembro de 1983. Na década de 1930, os seus horizontes artísticos ampliaram-se pelo mundo. Fez cenários para ballets e peças de teatro, e os seus quadros passaram a ser expostos regularmente em galerias francesas e americanas. Está em Paris, no fim da década, quando eclode a guerra civil espanhola, cujos horrores influenciam a sua produção. Em 1954, ganha o prémio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris ganha o Prémio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra mirabolante.
4.

Em termos de ficha técnica:

!Mirabolante Miró
Local: Espaço Cultural Unifor
Endereço: Av. Washington Soares, 1321 - Bairro Edson Queiroz
Período: de 29 de Setembro a 10 de Dezembro
Horário: das 10h às 20h, de terça-feira a domingo
Entrada Franca

Fragmentos...graças a Deus


Foto Omar Camilo

Leia mais sobre Ricardo de Deus e “Fragmentos”:

http://albatrozberdiano.blogspot.com/2006_09_01_albatrozberdiano_archive.html

http://multimerdia.blogspot.com/

http://www.sondisantiagu.blogspot.com/


terça-feira, 24 de outubro de 2006

Thoughts, feelings and poems

Retalhos nesta Fortaleza chuvosa




Quixote


(Sancho Pança e seus semelhantes são assim mesmo. Tanto os da esquerda quanto os da direita. Proliferam, dão explicações, razões, motivos. Fazem conferências de imprensa. Seminários, comunicados, entrevistas e não dizem nada)

Releio Dom Quixote de la Mancha, livro obrigatório. Todo o aspirante a belas letras deveria ler esta obra de Cervantes. De cada vez que a leio, fico pensativo, navegante. Da primeira vez, foi um frisson daqueles. Não fazia a menor ideia de quem era, mas a sua voz me admoestava os sentidos. Cá do meu lado, continuo quieto e navegante. Vou para onde os levam os meus passos. Se o real já não surte efeito, por que não deitar a mão à fantasia? O que ficará da Dulcineia são os seus assomos de dama. Alonjo Quijano de triste figura

No Olimpo da Cise

Embora alguns guardiães da verdade musical façam deus-nos-acuda ao mínimo da crítica, vou dizer estas palavrinhas sobre Isa Pereira. Não apenas porque o Blog So Pa Fla, que prezo e respeito, tenha feito loas e referências ao espectáculo Na musika, nos kultura, mas por eu ter sido quem a convidou pela primeira vez a subir ao palco. Isa Pereira entra, sem favor nenhum, no circuito das deusas crioulas – Mayra Andrade, Sara Tavares, Lura, Maria Barros e Teté Alhinho, entre outras inquilinas do Olimpo da Cise – e fá-lo com luz própria.

Urubu pintado de verde

Vejo o texto do meu amigo e fico emocionado com a sua crença. O gajo lembra-me os comícios de 75. Eu já não consigo acreditar nas manhãs que cantam, porque em verdade elas nunca cantaram. Vem, irmão, deixo-te com uma frase de Mário Quintana: "a esperança é um urubu pintado de verde". Por estas e por outras, o meu cronista cabo-verdiano é Amadeu Oliveira e o meu gado de estimação continua a ser caprino. Mau grado Freud…

Da janela, as eleições

As eleições excitam-me. As músicas, as bandeiras, as movimentações, a festa. Os debates e as sondagens, aqui permitidas. Bem como as bocas de urna. À americana, com jovens em cada esquina. Acompanho tudo da janela, equidistante como manda a lei dos estrangeiros, mas de coração arfante e nunca neutro. Corro os olhos pelos jornais e um cronista brasileiro escreve: "Nesta altura, Alckmin só vencerá as eleições se Lula for flagrado na cama com uma mulher morta ou um homem vivo. Se a mulher estiver viva ou o homem morto, dá-se uma explicação qualquer e ele se reelege." As eleições excitam-me…

A estrela

A estrela HD 141569A, a 320 anos-luz da Terra

I couldn’t resist


15 Zodiacs
Laura Baltzell

domingo, 22 de outubro de 2006

Jazz has a sense of humor


Domingo é dia relaxado

Um rápido alô. Domingo é dia relaxado, não muito dado à escrita. Faxina geral, leitura dos jornais da terra (e riso de frases como “A pulsão totalitária”, de um colunista amigo) e audição de uma aula gravada sobre os empreendedores e o meio ambiente. Acabei de trocar o Gin´n tonic dos fins-de-semana pelas sessões musicais. Música e água mineral. Passando em revista os conselhos do Barão de Itararé, de Brinkerhoff Torelly, encontrei esta deliciosa frase: «O fígado faz muito mal à bebida». Coisas que o Pranchinha adoraria ter dito…Mas, dizia, troquei tudo pela música. Menos o vinho tinto, naturalmente, que alguém jurava não fazer mal à hipertensão. Jazz has a sense of humor, de Horace Silver, é o que recomendava agora aos mais novos…

Negócios com o Ceará

Escrevi um artigo para o jornal O Povo, de Fortaleza, sobre as relações entre o Ceará e Cabo Verde e quis mostrar ao leitor cearense as virtualidades em se relacionar com o nosso país. O incremento de negócios é um fenómeno real, sendo que muitos empreendimentos cearenses já se reestruturam para parcerias com Cabo Verde. A boa nova é que o Banco Mundial vai bonificar os empresários cearenses que abram negócios no Arquipélago ou ali arranjem sociedade com os empresários cabo-verdianos. Bom que se saiba – e importa dizê-lo sem papas na língua – que o pessoal no Ceará trabalha a sério no sector comercial, que se tornou no grande gerador de riquezas, empregos e tributos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve um crescimento de 40 mil para 127 mil estabelecimentos comerciais, entre 2000 e 2004. Aliado a esse fabuloso crescimento, o comércio, principalmente o de Fortaleza, está a tornar-se "cada vez mais complexo e completo". Uma das características do sector é o predomínio dos micros e pequenas empresas, que correspondem a 99% dos estabelecimentos existentes. Outra característica marcante é o elevado nível de informalidade, pois 56% dos estabelecimentos não são registados. Isso explica-se na medida em que são negócios que não exigem muito capital para iniciar e, mesmo assim, são capazes de gerar renda familiar. Em Cabo Verde ainda não quantificamos o peso das Rabidantes, os novos Lançados, para o equilíbrio das famílias. Esse marasmo não permite uma política bancária para o sector informal, nem uma política de crédito comercial que considere novas parcerias. Os nossos empresários, micros, pequenos e médios, precisam tomar tento a esta realidade, aprendendo a fazer joint-venture com os cearenses e a ampliar negócios não só na África Ocidental, como no Brasil. E porque não nos EUA, já que até esta nunca soubemos tirar o melhor partido do AGOA.

Os grandes pensadores

Dou mais uma gargalhada, às tantas, lendo o texto do meu amigo. “É a esperteza de Marx, que pensava ter descoberto as leis da História”. Não sendo marxista, nem marxólogo, tenho por mim que o grande pensador alemão mereceria outro tipo de tratamento e de análise. Assim como Adam Smith, Alexis de Tocqueville e outros. Em verdade, os grandes pensadores produzem teses e postulados, que não passam de verdades cujo Tempo cuidará de testar e ultrapassar. Todo o pensamento traz em si o lado jurássico, mas nem por isso perde a sua qualidade histórica e científica. Por isso, continuamos a amar, com devida e profunda vénia, homens como Leonardo da Vinci…

Nossos deuses de esquina

Soube do “bate-boca” na imprensa entre duas figuras da nossa praça. Pracinha, diga-se de passagem. O pitoresco provinciano. Assim, a cultura de maledicência, do murmurejo e da crítica infundamentada continua bem presente entre nós. Fazer o quê? O pessoal desconhece que a palavra é sagrada. Primeiro era o verbo. Depois viria a frase: olha o respeito! Esta não é do Barão de Itararé, pois que o Pranchinha continua aceso. E vai valendo pela gargalhada. Jazz has a sense of humor. E domingo é dia relaxadíssimo…

sábado, 21 de outubro de 2006

Para que o poema se faça, meu coração

Portrait II, de Juan Miró
As horas inexistem, posto que a clepsidra
Se escusa de vir em vidro e areia, olhos-relógios
Das palavras caídas e dos enigmas acesos
Que se aninham a desoras, meu coração…

Morreu a mãe, o cão e a esperança, morreu tudo
E mesmo o que resta sob a capa deste circulo,
Sendo o mundo circense em sua gargalhada,
É o despenhar das torres nessa decadente Babel….

Para que o poema se faça, meu coração
Em seu gosto de manga, seu aroma de rosa
Ou seu halo de mulher, de repente seja sina
Quando não suave vertigem ou
Portrait II

Nas palavras se estalam as dores e não me digas
Puras metáforas as lágrimas no trilho das veias
Nem me cantes esse prenúncio das catedrais…
Filinto Elísio

INTERVALO

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado
-Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?


Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?


Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?


Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?


Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.


Fernando Pessoa

Nas azáguas do amor e da vida

De Nova Iorque, Manuel Veiga agradece

Por VNN Staff / Manuel Veiga
Publicado Friday, October 20, 2006
Num dia de chuva, parti de Cabo Verde, numa das nossas aeronaves, rumo aos EUA.Após um intenso trabalho na azágua da cultura, programei umas curtas férias, nas terras do Tio Sam, na companhia da minha mui estimada família. Foi assim que cheguei a Nova Iorque a 16 de Agosto de 2006, com o propósito de regressar às lides da cultura a 5 de Setembro.
Para a minha surpresa, quando cheguei ao destino, a minha mulher tinha preparado um programa de férias, com deslocações a Orlando e a Miami (na Florida). Foram umas férias de sonho, inesquecíveis, diriam o nosso filho mais velho e a minha cunhada que nos acompanharam. Com efeito, valeu a pena a prenda e a surpresa.Porém, surpresa maior estava para acontecer. E o destino quis que a mesma tivesse lugar na noite do regresso a Nova Iorque, isto é, a 29 de Agosto de 2006. Eu que presumia ter uma saúde de ferro, o meu coração resolveu provar-me que, afinal, tudo nesta vida é frágil e relativo.
Foi assim que, batido e abatido pelo órgão que leva a vida a todos os tecidos do corpo, fui transportado, de ambulância, ao Hospital Lenox Hill onde o primeiro diagnóstico sugeria a probabilidade de um transplante (que felizmente não veio a ser necessário) e apontava para um quadro clínico que inspirava sérios cuidados.
A notícia espalhou-se de forma célere; a minha família ficou estarrecida, os amigos e patrícios de todas as latitudes e de todos os quadrantes sociais ficaram surpreendidos. Sensibilizou-me, de forma particular, a atitude de um grupo de rabidantes do mercado da Praia (no Platô) que, ao tomarem conhecimento do sucedido, foram ao Ministério da Cultura interpelar o Director de Gabinete para que lhes dissesse a verdade verdadeira do que estava a acontecer com o amigo e cliente Manuel Veiga.
Outra surpresa agradável foram as visitas do Chefe do Governo, do ex-Presidente Mascarenhas Monteiro, do Ministro dos Negócios Estrangeiros, do Embaixador de Cabo Verde em Washington, do Secretário Executivo da CPLP, da deputada pelo Círculo das Américas, dos Embaixadores de Portugal, de Angola , do Níger e do Sudão, do Representante de S.Tomé e Príncipe junto da ONU, do Presidente do Instituto Crioulo-Americano, do alto funcionário da ONU, Doutor Carlos Lopes, da assistente do Secretário Geral da ONU, dos funcionários caboverdianos da ONU e da Missão Permanente de Cabo Verde, do Conselheiro Diplomático António Lima, do Embaixador Manuel Amante da Rosa, dos médicos caboverdianos Júlio Teixeira e Manuel Fontes), das Embaixatrizes de Angola e dos Camarões, de representantes da Associação das Mães Africanas nas Nações Unidas (UNAMA), de membros da comunidade caboverdiana de Boston, Providence, New Jersey e Nova Iorque, da minha prestimosa madrinha e filhas que me dão o tratamento de filho e de irmão.
Os gestos de solidariedade, porém, não se resumiram apenas a isto. Por e-mail, por fax, por telefone chegaram várias mensagens de solidariedade e de conforto de vários horizontes, particularmente de Cabo Verde. Pude receber ainda visitas de familiares que vieram de Cabo Verde e de França, expressamente para me ver. Chegaram também poemas, orações, flores, sugestões de leitura, de dieta alimentar e até propostas de empréstimo monetário para as despesas, caso houvesse necessidade…
Sempre disse que tinha grande respeito e reconhecimento para com um Povo que me legou três coisas importantes: uma Língua, uma História e uma Cultura. Porém, hoje sei também que esse mesmo povo tem apreço pelo trabalho que fiz e faço. Talvez seja, em grande medida, por causa de tudo isto que a minha reabilitação foi e está sendo rápida. Daí que, ao recuperar as forças, o meu primeiro gesto seja de agradecimento: a DEUS, ao meu POVO, à ciência no EUA, ao Hospital Lenox Hill, aos médicos e enfermeiras que me assistiram, à minha Família, às Autoridades de Cabo Verde, aos funcionários do Ministério da Cultura, aos artistas e criadores que me enviaram poemas ou uma palavra de conforto, aos meus amigos, aos antigos colegas do Seminário, às Igrejas e Comunidades religiosas bem como à Comissão de Tradução da Bíblia que rezaram por mim, à Comunicação Social que espalhou o eco do meu estado de saúde. A todos uma palavra de profundo reconhecimento Diante de todos vai este meu compromisso: se ontem tinha um grande respeito para com o meu Povo, hoje esse respeito transformou-se em AMOR e ADMIRAÇÃO.
Por isso, quero pedir a todos que continuem a contar comigo porque o incidente cardíaco que me atingiu fez-me crescer em humanismo, em patriotismo, em espiritualidade. A todos um obrigado do tamanho de Cabo Verde e da grandeza do meu coração.
À minha família, particularmente à minha mulher e aos meus filhos, prefiro simplesmente dizer-lhes que me convenceram daquilo que já sabia. A todos um obrigadão e que contem sempre comigo nas azáguas do amor e da vida.

Nova Iorque, 20 de Outubro de 2006
Manuel Veiga

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Pablo...poesis


Foto de Omar Camilo

Sintaxe do Desejo

Sombras

Se me contento
com tudo o que não tenho:
uma sombra, uma concha,
uma praia em desalinho,
eu não terei o corpo
da mulher que sonho
nem os lábios da lua
e o sol entre os meus braços.
Se me afundo estou só
e tudo o mais suponho:
um jeito de partir
ou de ficar calado
ou a ânsia de viver
saltimbanco e feliz
entre as cores do mundo
e os caminhos de volta para casa.
Dimas Macedo*
*O meu bom amigo Dimas Macedo (da Academia Cearense de Letras) completou há dias, 30 anos de lavra literária, 50 de idade e já editou 30 livros. O "danado" tem mais duas novidades. Hoje, no Instituto Cultural Oboé, ele lança Sintaxe do Desejo, livro de poemas com a chancela da Omni Editora. E antes do fim-do-ano, sai A Letra e o Discurso, ensaio de crítica literária. Dimas Macedo é também Procurador do Estado do Ceará e Professor de Direito na Universidade Federal do Ceará.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Esse Drummond...


Natureza Morta Com Frutas, Di Cavalcanti

Mulher andando nua pela casa


Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d’água.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.


Carlos Drummond de Andrade

Só pamodi bó


Mito
apresenta
Só Pamodi Bó
(um recordai pa Luís Morais)
26 de Outubro às 18:30
Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro - Antigo Solar da Nora, Estrada de Telheiras


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Só pamodi bó

Mergulho nos sons da tua paleta
para buscar no contrabando solar
a luz à solta no arco-íris da pauta
como quem pinta em sensoround
um sinfónico vitral technicolor.
Namoro o sopro destes sons
que me desenham nas lágrimas
pérolas negras e mornas lentas.
Confira:

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Empório

Obrigado por teres dito que o Albatroz está de cara nova. Está-se a metade da sua melhoria, houvesse ciência e tempo. Será um dia um blog de poesia e prova. Halo a um tempo leve e profundo. Incenso…

Igualmente vou escrever ao meu amigo em Paris. Sempre o achei lúcido e culto. Acima da manada. Conheci-o de perto em Nova Iorque. Empório. Bons tempos…Estou a vê-lo a rir das coisas do Pranchinha. O triunfo dos porcos faz rir. Para não chorar. O Jorge está em Nova Iorque também. O Manuel Veiga continua ainda ali, restabelecido graças a Deus. Hoje, Dia Nacional da Cultura, pensei nele. Com respeito e amizade.

Um barão não gostou do meu último post neste blog. Escreveu-me a dizer cobras e lagartos da minha escrita, exercendo a sua liberdade de opinião. Fiquei com a impressão de que lhe faltava espírito crítico, ironia sei lá. O pessoal leva-se demasiado a sério. Em resposta ao camarada, escrevi hehehehehehehe….

E como brinde, bónus track como dizíamos, deixo-lhe o “Empório celestial de conhecimentos benévolos” com que Jorge Luis Borges nos conta do sábio chinês. Este dividia os animais em:

a) pertenças do Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães vadios, h) incluídos nesta classificação, i) que se agitam loucamente, j) inumeráveis, k) desenhados com pincel de pêlo de camelo, l) etc, m) que acabam de quebrar o vaso precioso e n) que à distância parecem moscas.

Aposto que o barão não entendeu. Mas por hoje basta. Passei o dia a estudar Cultura Organizacional. Como um eremita. Ninguém e de ferro…

Fui novamente. O Dimas convida para um lançamento. Sintaxe do Desejo. Diz que o livro vale a pena, o queijo é do bom e o vinho é o Douro Vinha Maria Teresa 2003. Da Quinta do Crasto…só pode!

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Manhuaçu e bandeira branca



Pranchinha, meu camarada, o sol desce devagar pelo dorso da tarde e às vezes tenho a impressão de estarmos ali. A nossa alma. E o nosso destino…

Desta janela, não fosse um carro de campanha a repetir “Eu quero Lula de novo”, haveria de querer filosofar sobre a vida. Ou simplesmente a ouvir Love for Sale, de Cole Porter. Lindo de morrer. Mas tu insistes, meu camarada, em novas das ilhas. Não da música. Nem do verde. Nem das musas. Insistes nas “notícias do bloqueio”.

Meu caro, não responderia aqui às tuas colocações. Apenas diria que a paz se constrói com a liberdade, a equidade e o respeito. Não há, nem pode haver, uma relação de paz entre o abastado e o esfomeado. Entre o escravo e o senhor. Vejamos o filme Ultima Ceia, de Tomás Gutiérrez Alea, ou Viridiana, de Luís Buñuel. É que a realidade virou tão dramática quanto a ficção. E assaz hilariante diga-se de passagem…

O que me contas do rosário político lembra aquela anedota da rodoviária, Pranchinha. O diálogo mineiro, bem maneiro mesmo: ''Ocê tá dizendo que vai pra Manhuaçu pra eu achar que ocê vai pra Manhumirim, mas, ocê vai é pra Manhuaçu, mesmo''.

Os golpes e as mentiras que o pessoal nos prega são um grande “Manhuaçu”, meu camarada. Isso já vem do antanho: desde a geração “dos nossos avós” e se consolida agora com esse “vem irmão”. Tremendo “Manhuaçu”…

Dava até para rir. Desanuviar o ambiente, desopilar as ventas. O pessoal diz “que vai pra Manhuaçu”, Pranchinha. E já somos lúcidos, todos acesos, carregando o mesmo fardo. E nunca nos sentimos tão fartos desse “Manhuaçu”. Mas em nome de uma coisa maior, queremos paz e amor. Trégua, se quiseres. Por isso, bandeira branca, branca, branca.

E o dia já vai engolido pela boca da tarde. E o poente, numa antropofagia daquelas, come o sol incandescente. Somos nós em sentido figurado…

Fui, meu camarada. Já não está cá quem teceu estas linhas…

Lua, lua, lua

Quando outonava lá fora



Spirit Smiling Back
Laura Baltzell




Voltaremos sim à graça das flores, aos gracejos
De penugens das aves, diremos em pluma de ti
O caleidoscópio dos brinquedos, olhos curiosos
Que perscrutam as cores, em pura geometria…

Voltaremos à louca profusão dos dias, em sonhos
Ou realidades de sóis e nuvens, fantásticas luas
A soletrar serpentearia e tatuagem, em dorso
E os desejos recalcados pela areia do tempo…

Assim, no deserto das praias, onde as frias águas
Fervilham nossos silêncios e bolhas soluçam
No vaivém das ondas – vespertinos instantes…

Ao elo aquecido do dito e escrito, voltaremos,
Como castanhas crepitantes na resina de só sermos
Fiapos de nada, quando outonava lá fora….

Filinto Elísio

Os anéis de Saturno

(...)

Da próxima vez eu me mando
Que se dane meu jeito inseguro
Nosso amor vale tanto
Por voce vou roubar os anéis de Saturno

(...)

Extracto da música "Desculpe O Aue", de Rita Lee

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Saturno

Livros, génios, memórias…et tu danses



Mote…sem provocações

O teu email veio mesmo a calhar. Concordo contigo se dizes: não há ser humano, por mais brilhante que seja, que escape à pena ou à sanha dos invejosos, dos tolos ou dos ignorantes”. Novas de Cabo Verde? O que dizes também sobre as movimentações políticas não constituíram surpresa. Os políticos comportam-se da mesma forma. Sem luz própria. Densificam-se. Como num drama de Shakespeare. Deviam ler o livro "O Prisioneiro Fugido: Quando Deus é um Monstro", de Wafa Sultan, uma psiquiatra americana, nascida na Síria. De resto – Je sais que tu danses- como naquela canção de Francis Cabrel:


Je vois dans mes nuits écarlates,

Des diables et des dieux qui se battent,

Devant tes cheveux qui se balancent.


Por dentro da mente de Leonardo Da Vinci

Mal chego à Universidade, agora sob a efervescência do Mundo UNIFOR, dou de caras com a exposição “Por dentro da mente de Leonardo Da Vinci”, que veio de Florença para Fortaleza. A mostra consta de 40 modelos sobre os desenhos originais de Da Vinci, que podem ser vistos até 19 de Novembro. Os protótipos, segundo o curador da exposição, estão divididos em várias categorias: máquinas civis, como a bicicleta e o mecanismo helicoidal; máquinas de guerra, como escavadora de trincheira e projécteis ogivais; máquinas de ar, como o pára-quedas e o planador; e ainda as máquinas de água, como a draga e a embarcação de casco duplo. O visitante não pode deixar de ficar pensativo – filosoficamente pensativo, diga-se – diante da genialidade de Leonardo Da Vinci. Os códigos que produziu, misturando enigmas e axiomas, revelam que o ser humano é ilimitado. Se tanto, o céu por limite…

Caravaggio...mais poderoso que a morte

Falando dos grandes, leio a biografia de Michelangelo Merisi da Caravaggio, escrita pela romancista Francine Prose. O bibliotecário da Universidade, com quem tenho tido conversas interessantes, me recomendou a obra. Não apenas para eu saber mais um pouco sobre o grande pintor que morreu em 1610 aos 39 anos, mas para ir ao fundo de um génio que a seu tempo fora considerado maldito, pedrasta e violento. Segundo Prose, "tendo gasto sua vida breve, trágica e turbulenta pintando milagres, ele conseguiu criar um - o milagre da arte, o milagre da maneira pela qual alguma tinta, poucos pincéis, um quadrado de tela, junto com o ingrediente mais essencial, génio, pode produzir algo mais forte que o tempo e época, mais poderoso que a morte".


Wolfgang Amadeus Mozart

Pensar em Da Vinci e em Caravaggio, exigiria uma música de fundo. Felizmente há rádios FM que tocam Esurientes implevit bonis, de Claudio Monteverdi. O coro é das crianças da Catedral de Salisbury. Um bálsamo. Falando nisso, há quatro anos o Pablo nascia no Beth Israel Deaconess Hospital. A parteira falou no seu bostoniano castiço do Mozart Effect, estudos sobre o desenvolvimento dos bebés que ouvem o grande músico. Ela acabou por oferecer ao “baby boy” um CD, de Mozart…naturalmente.


domingo, 15 de outubro de 2006

Cinema e a Nação Global


Dr. Claire Andrade-Watkins
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sábado, 14 de outubro de 2006

The Lake of the Mind is Still



Laura Baltzell
East Boston Studio
80 Border Street, 4th Floor
East Boston, MA 02128

Divagações: Cabernet

Cabernet

O Pranchinha (ou terá sido seu fantasma?) trouxe um Cabernet Sauvignon que agitou lembranças. Uma baladazinha fácil, água de açúcar, incomoda o coração. Tive de “apagar” o áudio. Mas permanecia a neve caudalosa. De um lado a França, doutro lado a Suiça. Aqueles pássaros não acreditavam em Deus, mas na Arte e no Amor. E crê-se que tinham fé em Disney. No alto do Monte Jura. Uma bonita história que não cabe aqui…

Lantuna

Assisto, com prazer, ao “regresso” da Matilde, depois de um interregno blogueiro. Às vezes, apetece “fechar para balanço”. Outras vezes, há necessidade de navegar por outros mares. Existenciais até. A sua “torna-viagem” é pródiga e merecida. Aguardamo-la, com ternura e amizade. Com alegria…

O XI° Congresso

O XI° Congresso do PAICV está fruído e fluido. Sem os papões da esquerda e da direita cancerosas. O ideal da cidadania, da prosperidade e da qualidade de vida. JMN consagra-se como o grande líder do momento. E o PAICV moderniza-se a olhos vistos, sem perder a sua matriz e a sua motriz. Vamos pagar para ver. O país sai a ganhar…

Stanislaw

O Pranchinha, para os desavisados, é o Esculhambador-Geral da República. Admirador de Stanislaw Ponte Preta, o brasileiríssimo Sérgio Porto, o Pranchinha não respeita gregos, nem troianos, fará cabo-verdianos. É da sua natureza, defeito de fabrico, dirão alguns. O que Lalau, seu glorioso mentor, diria se visse esse Carnaval da República, tipo: “Zau, Zau, Zau…”? Eis a grande questão. A máxima do gajo: “O povão é resignado, tipo Nóis sofre, mas nóis goza”. A mínima: “Cabo Verde está na moda”…

Waterfront

Há quem goste, mas eu dispenso. Estou zen para caramba e queria estar num parque florestal. Ou numa montanha. Longe do frissom. Moro defronte ao mar, nesta cidade onde o turismo é quem mais ordena. Beira-Mar: muita agitação e vaivém. Do bem e do mal. De qualquer maneira, este décimo andar é ideal para assistir ao espectáculo do mundo…

Ilhéu de Santa Maria

Não se pode dizer que a gestão das ZDTIs não nos preocupa. Preocupa-nos e muito. Não pelos motivos politiqueiros de certa gente. O que o Germano Almeida escreveu, em boa hora, faz sentido e fé. Não nos podemos ficar indiferentes a isso. Há que respeitar o espaço das edilidades e das áreas de protecção ambiental. Falando nisso, já não estamos tão certos sobre o investimento de David Chow no ilhéu de Santa Maria. Queremos ouvir todos os lados, os prós e os contras, as partidas e as contra-partidas. E queremos estar por dentro do processo decisório. Feitas bem as contas todas (as sociais e as ambientais, sobretudo), quais são os ganhos? E as perdas?

Dr. Gunther von Hagens

Frio cortante, em Quincy. Vejo-a parar o carro e a entrar em casa. Wolleston Beach, vê-se pelos ciprestes. Ela fala com as crianças da exibição do Dr. Gunther von Hagens. Na areia fria, as gaivotas digladiam-se e a neblina cai sobre a tarde. Dói muito a neblina. Os aviões fazem o “landing approach” para lá das ilhas e o Outono acontece com nostalgia. Podia ter sido uma narrativa diferente. Noutro filme…

Weather Report

Entremente, calor abrasador em Fortaleza. Isto estava como um Pandemónio, mas hoje melhorou. Réstias do Cabernet Sauvignon na taça de cristal. Está fresco. Brisa fresca e céu caído, com cara de quem vai chover…

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

UM GIGANTESCO CENTRO COMERCIAL



O pintor cabo-verdiano Mito realizou a sua primeira expoição em Macau em Maio passado, por ocasião do 30º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre a República de Cabo Verde e a República Popular da China. Aqui deixa as impressões desse encontro esperado.
Macau sempre fez parte do meu imaginário. Talvez seja por ter uma prima casada com um macaense, que viveu em Cabo Verde. Talvez por isso sempre tenha acalentado o sonho de um dia conhecer Macau. Entre Abril e Maio de 2006, concretizei finalmente a viagem.

Cheguei a Macau vindo de Pequim. A primeira impressão foi a de estar num gigantesco centro comercial non-stop. Uma semana depois descobria aqueles que viriam a ser os meus lugares favoritos de Macau, o Mercado Vermelho, as Ruínas de São Paulo, a Ilha de Coloane, e também a simpatia das pessoas.

Reencontrei velhos amigos e fiz muitos outros. Um dos episódios que mais me tocou foi o reencontro com Joana Ling, a viúva do pintor Kwok Woon. Meia hora de conversa depois e entregávamo-nos às lembranças do tempo em que éramos colegas de curso na Arco, em Lisboa, nos idos anos de 90.

A minha visita ao Oriente permitiu-me ainda consolidar as relações entre as técnicas, os suportes, o imaginário da minha pintura e as tradições visuais do Oriente. A importância que sempre dei ao exercício da manualidade, à escrita, ao desenho de caracteres e também à pesquisa de novas e velhas grafias encontrou eco em cada momento da minha estadia. Foi ainda muito especial o encontro com a sonoridade do patuá, tão próxima do crioulo de Cabo Verde.
São exactamente estes, para além das outras razões que as palavras não alcançam e a própria razão desconhece, os motivos que me fazem desejar regressar tão breve quanto possível a essas paragens.

Revista
MACAU Página 117 IV Séríe - Nº4 Setembro de 2006

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Só pamódi

O sol descreve em arco as cores,
Que outrora foram olhares e gracejos,
Rápidos dizeres, vitrais, ladrilhos, estores
E o psicadélico das músicas nas catedrais …

De uma janela recuada e solitária,
Em solilóquios de tantos solfejos,
Reapareces, sombreada e decalcada,
Pura imagem no vórtice do pensamento…

Mas não eras tu tão-somente,
Quando as flores, os frutos e as nuvens,
Pasmos de espumas iam-se em pano e seda…

Natureza morta e viva, feita e reciclada,
Vezes sem conta em que eras, ó tecitura,
O meu soletrar nas calhas…só pamódi!

Filinto Elísio

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

domingo, 8 de outubro de 2006

A erupção do Monte Taburvur

Navegações: Brábu na txada

Há momentos em que as espumas dos lugares me obrigam a escrever sobre as coisas que leio. Em abono da verdade, isso não é um exercício recorrente. De molde um tanto bissexto, vou ponderando aqui e acolá a escrita dos outros. E faço-o com o exclusivo propósito de reinterpretar leituras. Não tenho outro interesse, creia-me o leitor. Obviamente que a grande notícia terá a ver com os partidos políticos cabo-verdianos. Os jornais fazem deles manchete insistente, à falta de móbil assaz mediático. Ganhasse um crioulo o Prémio Nobel. Mas não…

Pelo lido e acontecido, no plano real e no virtual, o MPD renovou-se, trazendo para a arena o Eng° Jorge Santos, candidato único à liderança. Estranhou-se o silêncio das eventuais tendências que davam um outro colorido a esse partido. O mesmo acontece com o XI° Congresso do PAICV, em que o Dr. José Maria Neves vai à sua própria reeleição, como candidato único. Onde estão as tendências que até ontem conotavam a democraticidade interna desse partido? A agravar os Estados Gerais dos partidos, a extinção do PCD, consagrando inexoravelmente a bipolarização. A pacificação interna dos dois maiores partidos e a consagração histórica da bipolarização numa sociedade em que a opinião pública se autonomiza ainda tímida e as instituições, bem como os empresários, procuram melhores caminhos, dizia-se, esta nova reconfiguração qualifica o processo democrático? Perguntas desta natureza não faltam. Faltará com certeza quem as queira responder…

Leio também a crónica de um confrade, que habitualmente gosto, mas fico mesmo esquisito. Quanta violência contida! A tertúlia tem de chegar a tal ponto? O pomo da discórdia justifica tamanho escárnio e maldizer? O extremar das posições chegou aos píncaros da ofensiva e da contra-ofensiva? Não sei quem seja o tal energúmeno de que o cronista se refere, nem importaria saber o porquê de assaz crispação. Nós, simples mas atentos leitores, gostaríamos de ficar pelo diapasão das crónicas a que o confrade nos habituou: análises límpidas, opiniões abalizadas e posições refrescantes. De quem é culto, na acepção académica e erudita do termo. Tão à margem do apupo dos imbecis…

Crónica consequente é ainda aquela de Ludgero Correia sobre o Estatuto Administrativo para a Cidade da Praia. Antes de mais, vem o texto a calhar, pois o Governo acaba de anunciar a ideia de reforma administrativa do país, sob a panaceia da Regionalização. Talvez coubesse, agora como nunca, debater o Estatuto Especial – e já agora os custos da capitalidade – à luz da Regionalização. Oportuna também, porque há mudança de guarda na Associação Pró Praia, abrindo espaços para outros debates e outras movimentações. O importante é não arrepiar caminho, nem perder os propósitos de promover a capital de todos os cabo-verdianos. Ainda que soe como eco no desfiladeiro, repito: de todos os cabo-verdianos…

E agora José? E agora você? A esta indagação drummoniana, respondo com riso e siso: no prumo da minha própria independência. A gostar de Cabo Verde com amor para lá de patrioteira. Diria até que existencialmente. Ainda que nestas paragens não haja Nobel para ninguém. Mas há Doutor Honoris Causa, sim senhor. Deixo a surpresa no ar, a partir de Fortaleza. Cada um tem a sua forma de contribuir. Uns organicamente, nesta ou naquela trincheira. Outros livremente, sendo a cidadania sua praia mais íntima. Sem lenço, nem documento. Brabu na txada

Mar distante


Si no es el mar, sí es su imagen,
su estampa, vuelta, en el cielo.
Si no es el mar, sí es su voz
delgada,
a través del ancho mundo,
en altavoz, por los aires.
Si no es el mar, sí es su nombre
es un idioma sin labios,
sin pueblo,
sin más palabra que ésta:mar.
Si no es el mar, sí es su idea
de fuego, insondable, limpia;
y yo,
ardiendo, ahogándome en ella.


Pedro Salinas

Bô Seiva


Mayra Andrade a cantar Bô Seiva, de Orlando Pantera, é simplesmente ouro sobre o azul. Ver isso através do You Tube, mais precisamente no http://www.youtube.com/watch?v=uXqclPHi8co&mode=related&search=

Para obter o programa Macromedia's Flash Player.: Clicar aqui.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Rosas soletradas


"Las rosas están insoportables en el florero"
(Jaime Sabines)


Balbuciava-te rosa, rosas soletradas
Para o gáudio dos líricos e jardineiros
E néctares tão deliciosos quão viscosos
Dos amantes deslizantes no alarde…

Recordava-te, aos ouvidos esquecidos,
O ciciar das formigas nos abrigos,
O zumbido esvoaçado das abelhas
E as mãos do cio pelos corpos…

Nem te falava das pétalas, halos
E perfumes, fragrâncias longínquas,
De horizontes que idos se acomodam…

Nem te mostrava agora as dores,
O floreio dos espinhos e dos frutos
Os sais e ais com que se queda…


Filinto Elísio

terça-feira, 3 de outubro de 2006

A barca da fantasia



“Ao largo ainda arde a barca da fantasia/ e o meu sonho acaba tarde”
Pedro Ayres Magalhães


Intro

Duas notícias encorajadoras: a regionalização e o Tribunal Constitucional. A primeira, vou ponderá-la muito por alto. E a segunda, embora tenha uma posição sobre isso, é tarefa dos mais doutos. Só direi que já não era sem tempo a criação do TC. Temos sentido a sua falta…e de que maneira. Uma pequena nota sobre a pré estreia do filme “A ilha dos escravos”, do realizador Francisco Manso. Estamos em tempo de fazer do Cinema e do Audiovisual uma prioridade cultural…

Regionalização sim…vamos a ela

Cabo Verde, com a sua teia de ilhas e de comunidades no exterior, exigiria um modelo político-administrativo diferente. Raros os cabo-verdianos satisfeitos com o actual modelo. Nem a norte, nem a sul, nem a Barlavento, nem a Sotavento. E muito menos na Diáspora. Embora defendamos a economia de custos, saudamos a criação das redes e a irradiação dos pólos, fazendo jus à insularidade e, dentro do possível, à diasporização. O conceito Estado-nação, concentrador e polarizador, tende à macrocefalia, o que não é bem uma virtude. Naturalmente que haverá sempre pólos de maior desenvolvimento e de maior dinamismo, mercê das posições estratégicas das políticas, das economias, das demografias, dos espaços e das suas múltiplas conexões. Mas o Estado, necessário, mau grado o vaticínio sobre seu definhamento, terá o papel de harmonizar o país, permitindo a cada região as condições para se integrar no todo nacional. A regionalização é tema que nos interessa. Finalmente, a regionalização. A regionalização para sanar o regionalismo já instalado. Vamos a ela. Que regionalização nos interessaria? Aquela baseada nas ilhas, no grupo de ilhas, na municipalidade, na inter municipalidade? A reintegração das Grandes Áreas Metropolitanas, Comunidades Urbanas e Comunidades Intermunicipais? Voltaremos à ideia dos governadores civis, não eleitos, mas nomeados pelo establishment central? Ou à falácia das vocações, das hegemonias fabricadas ou dos lobbies posicionados? A problemática se resume ao problema da presença do Governo e dos serviços centrais nas ilhas ou o buraco é mais em baixo e mais alargado? Qual seria a mecânica mais plausível e realista? E as virtualidades culturais, para além da centralista e da municipalista? O assunto deve ficar confinado ao Governo e aos partidos políticos ou deve ser alargado à sociedade civil. Há países que fizeram amplo debate e consulta popular. Em Portugal (nosso recorrente modelo), fez-se até referendo. E entre nós, como seria? Uma decisão vertical ou horizontal, administrativa ou política, doada ou conquistada? Seria regionalização mesmo ou apenas descentralização? A territorialização das políticas públicas? Seria isso? O importante é que o mote está dado. Acredita-se que o povo das ilhas quer…a regionalização com equidade, com equilíbrio e com verdade. A cidadania, em sua total complexidade. Ou não?

Pequena nota

Não há como ficar indiferente à longa-metragem “A ilha dos escravos”, do realizador Francisco Manso, cuja pré estreia se pretende nos meses de Outubro e Novembro, tanto no Brasil como em Cabo Verde. O filme, produzido pela Cinemate, mas com o apoio das autoridades culturais de Cabo Verde, Brasil e Portugal, trata de uma história de amor acontecido na primeira metade do século XIX, na Ilha de Santiago, adaptando a história do romance “O Escravo”, de Evaristo de Almeida. Em tantas correlações, o filme acontece também no Brasil, em Portugal e na Áustria, onde a quadrilha amorosa entre a escrava Luísa que ama o escravo João, que ama a patroa Maria, que não ama o comerciante Albano Lopes, tem drama e respaldo. As minhas felicitações ao amigo Francisco Manso, também director de "O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", adaptação do romance homónimo de Germano Almeida, e a alguns cabo-verdianos próximos que participaram da obra, nomeadamente Jorge Tolentino e Manuel Veiga (Ministros da Cultura, promotores/patrocinadores), António Correia e Silva (investigação histórica), Mário Lúcio (investigação e trilha musical) e Josina Freitas (actriz), entre muitos outros cuja a marca indelével está ali no filme. Caso para pensar se já não era tempo de priorizar o Cinema e o Audiovisual. Pelas vantagens culturais, económicas e políticas que traz. Para resgatarmos um sector que já esteve melhor do que está. E porque as condições já estão minimamente criadas para a cinematografia nacional. Só falta ousar a barca da fantasia…

domingo, 1 de outubro de 2006

O Segredo das Pipas


“You will always have a special place in my heart”


1.

Domingo é um dia lixado. Véspera de escola e muito material para empinar. Micheal Porter não interessa mesmo. E eu não tenho cara de neoliberal, nem de novo turco. Há formas mais híbridas e menos bíblicas de fazer economia. Sem disparate keynesiano. Mas se o Professor exige empinanço…fazer o quê? Acordei cedo, ainda o sol era promessa de gema de ovo, e fui marchar no calçadão. Glicose a quanto obrigas! A Praia de Iracema é grande e recortada. Fiz a meia-hora matinal e parei na lota do Mucuripe, a regatear uma posta de cação. Já comeram caldeirada de cação? As pessoas votavam e a aragem balançava os coqueiros. Com irrealidade…

2.

Hoje, fez anos o meu filho Pablo. Quatro anos! Os meus dois filhos – Denzel e Pablo – mexem com o meu espírito, a minha saudade, o meu tudo. Eles são
O Segredo das Pipas. Queria-os aqui no Beira-mar, a ver as jangadas e os saveiros na baía. Levava-os a andar até o Porto das Dunas, onde as minhas recordações são gratas. Na Praça do Estressados, a turma discutia com interesse. O nível do debate é mais interessante que aquele a que estamos habituados nas ilhas. Um defensor do Presidente Lula diz que o Brasil resolveu dois grandes problemas macroeconómicos: a inflação e a dívida externa. Mas o seu interlocutor remata que há o combate à pobreza, a corrupção e a crise das contas públicas. Sem rabentolismos, nem arrogâncias. Eu não vim ao Brasil apenas para estudar, mas sim para respirar. Há oxigénio. Será da Amazónia? Às vezes, eu era atacado por uma grande claustrofobia. Adiante…

3.

Passo horas esquecidas, a ver um documentário sobre as artes plásticas mexicanas. Eu só conhecia Diego Rivera e Frida Khalo - minha santa ignorância! -, mas há muita gente interessante. México é um país fabuloso. Pós Azteca, mau grado a barbárie colonial e a vizinhança ameaçadora. O Pablo fez anos e repito isso a todos. Queria para o meu filho a cidadania, educação, segurança, saúde, amor e liberdade, enfim, essas coisas cada vez tornando a humanidade mais humana. Queria que gostasse de poesia e sorrisse à minha declamada voz . A poética de Pedro Ayres Magalhães (dos Madredeus):
Ao largo ainda arde a barca da fantasia/ e o meu sonho acaba tarde…

4.

No bistrô da esquina, estava ali o
signore para me servir o cappuccino: 30 mililitros de café e 150 de creme, polvilhado com canela. Melhor só aquele em Kendall Square. Gilberto Gil, na música METÁFORA diz que “uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz ‘lata’, pode estar querendo dizer o incontível.” Falando em metáfora, tenho aqui comigo a foto da Dona Mindoca e do Pablo. Estou sem mágoa. Apenas resoluto sobre algumas mudanças necessárias. Deixo-vos aqui uns versos do meu amigo Damário da Cruz, poeta e fotógrafo baiano:

(…)
(Se não for possível
em muitas manhãs)
rouba teu filho
nas tardes de domingo.
E na fala mais simples
conta no ouvido pequeno
o segredo das pipas,
os caminhos dos duendes,
as formas das cidades,
o mistério dos amores...
(…)

Não é um poema liiiiiiiiindo? É
O Segredo das Pipas, para as vossas senhorias. Comecei um novo livro. De poemas, ó tecnocratas. De poemas. De resto, passei as sobras do dia dia antenado nas eleições brasileiras. Mas o frisson do meu coração era outro: Pablo. Estou totalmente em clima sentimental…ó homem que eu amo!