quarta-feira, 23 de julho de 2008

Caleidoscópio





Ergo-me cedo para a azáfama do dia. Rápida ginástica, enquanto o conjunto Ferro Gaita comemora 12 anos de vida, a ver também se me aqueço para a jornada. Ouço a rádio e nenhum barco de refugiados deu hoje à Costa. São os lançados inversos. Só que nós damos as boas-vindas com maus tratos e racismo. Com falácias mascaradas de Direitos Humanos. A ver se agradamos aos nossos patrões. Eu também vi (e não gostei) da posição do Ministro da Cultura de Portugal – entrevista à RTP - de que Cabo Verde (e não o Brasil) teria o grande papel de expandir a língua portuguesa. O Brasil (deixemo-nos de tretas) tem o maior e o melhor factor da lusofonia. Em quase tudo. Ademais, quando a esmola é muita, o pobre sempre desconfia. Há dias, dois miúdos estavam a discutir a importância de 5 de Julho e de 13 de Janeiro. Obviamente que não entrei na porfia, tão bizantinos eram seus argumentos. Quis declamar-lhes uns versos do meu falecido amigo Fernando Assis Pacheco. No “Último Tesão”, às tantas, o poeta sentenciava: “O país mete dó// guarda o último tesão/ para mandares/ meia dúzia de canalhas à tábua”. Os miúdos, filhotes de uma grande indigestão, começam ali a mandar vir. Ricos e pobres do Brasil, de Portugal, de Cabo Verde e do Mundo, roguem pelo discurso mais contrito dos vossos deuses. Não sabeis que, nesta fétida cloaca, o silêncio é de ouro? Vi o show de Isa Pereira que amei pelo “bom gosto”. Ouvi o álbum de Hernani Almeida e rendi-me ao instrumental cabo-verdiano. O álbum de Princesito está cinco estrelas e as fotografias de Kizó Oliveira têm arte. E, sem alarde, saio pelos textos para tomar ar fresco. Dos blogs, naturalmente. Ó rapazinho, ou estás quieto ou a gente te mostra o que é irreverência! Irrequieto, era João Bentes com os seus versos: “Democratos cabeçudos/ fodam-se na urna/ atem-se à bandeira/ enforquem-se nela/ lambam tudo o que conseguirem/ chupem chupem chupem/ engulam até arrebentar/ e no fim peçam a reforma/ como cidadãos da boa raça.” Ou Caetano Veloso, uma vez, farto dos miúdos revolucionários a patrulharem sua música, disse-lhes: “Quereis matar amanhã o velhote que eu matei ontem”, no que os fedelhos se entreolharam e se quedaram, quietinhos, a ouvir “Tigressa”, melodia melhor que certas causas da azáfama do dia…

1 comentário:

João Branco disse...

Belissimo post, Filinto. Também ouvi o MC de Portugal e fiquei um pouco, como dizer, arrepiado. Enfim, siga a dança. Como diz o pessoal da Boavista, «a nôss e Mérica é ké pésôd!». Abraço