quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Arte & facto


PÔ (à memória de DÉCIO PIGNATARI)
Mito


Pô

Para Mito, este poema gráfico-gastronómico, aconteceu acidentalmente ao servir uma entrada de choucroute, cebola & queijo mozzarela, durante um almoço no restaurante Sujinho na Consolação. São Paulo tem disso...
Nissei
Bashô em mim/ o que poeta ra tarô/ nesse restô da Liberdade// O zen pura de sushi/ teu kim ono & xi-coração/ tu arrigatô minha emoção// Sashimi com lua/ hiroshima nua/ tu quer saïury comigo?/ Sampa tem disso, que eu sei...
Função da Arte
Nirvana, orgasmo, espanto, espasmo...essas coisas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Praça da Sé

Espelho
Emanoel Araújo



Camaleoa

Com a crise internacional, libertamo-nos do pensamento único neoliberal que se impôs desde a queda do Muro de Berlim. No inevitável mundo novo, que se crê sem a especulação capitalista, a blindagem dolaresca e a economia hipotecária, mercê de uma ética cifronista, as coisas tendem a ser menos injustas e menos desiguais. Naturalmente que não somos utópicos, nem ingénuos. As previsões continuam sombrias para os “deserdados da Terra” e a globalização tende a globalitária na sua estrutura sistémica. Mas haverá sim uma metamorfose, à maneira de luz ao fundo do túnel, de um camaleónico incremento contra a desumanização, esse pendurar a economia do Planeta pelos fios de Wall Street e de falácias afins. Com o socorro do dinheiro público, creio ter chegado o momento de novos padrões para a convivência, a produção e o consumo. Vejo o Brasil e repenso, à luz das sociabilidades necessárias, que nada estará perdido!

Liberdade

Passados vinte e tal anos, eis que regresso a São Paulo, cidade com C grande, em toda a dimensão urbanística, e cosmopolitismo que chega mesmo a doer. O bairro da Liberdade já não é tão japonês como outrora e reparo que os antigos restaurantes já deram lugar a novos empreendimentos. Esta é uma cidade “camaleoa”, como lhe chamou a poeta Maria Helena Sato, cabo-verdiana a reinar no principado das letras paulistanas. Mas a Praça da Sé, declive que vai ao topo génese paulista, memorialista e quase patronímica, do Padre Anchieta, permanece intacta. O silêncio altivo da Sé Catedral, onde percorro a verdade de não saber me ajoelhar, nem benzer. Certos momentos para mim são de alguma religiosidade, mas de nenhuma religião. É falar com Deus (ou com os deuses), sem intermediação dos seus templos. É dispensar a burocracia da fé, administrativismo que não acrescenta sol às minhas angústias. O bairro da Liberdade tão impregnado da minha existência…

O que quer e o que pode esta língua

A conferência da linguista Dulce Almada Duarte introduzira a tónica desviante: o crioulo foi criado pelos cabo-verdianos no século XVI. Ao criar uma língua, esboça-se claramente um processo histórico que recria a Nação Cabo-verdiana. A Nacionalidade, por conseguinte, não nasce nos tardios anos 30 do século XX, com os Claridosos, mas muito antes e em tempos ainda escravocratas. Algo me lembraria do golpe ideológico dado no Simpósio do 50º da Revista Claridade, no Mindelo, em que, doravante, de ideário cultural e estético, Claridade passara a ser uma ideologia. Tendo caído por terra a tese da Unidade Guiné - Cabo Verde, em 1980, o Poder, que ostracizara os Claridosos nos primeiros anos da Independência, repescava ora os seus valores e as suas figuras como novos ícones da Nação e os projectava para o centro do discurso político dominante. Na plateia, fingia-se como se finge agora que nada foi posto em causa e teatralizam-se, como outrora, palmas e mais palmas. Rio-me dos sumptuosos pavões e indago a mim próprio sobre como fazer, o que fazer e porque fazer. Ficar em silêncio elegante e cúmplice das circunstâncias e das onjunturas alheias à minha vontade? Vamos, com sentido de causa e sem medo das consequências, procurar as malhas da Nação…

Museu Afro Brasil

O que mais me encantou em São Paulo foi o Museu Afro Brasil, complexo cultural formatado e "animado" para dar visibilidade ao enorme contributo dos negros na afirmação (identitária e civilizacional) do Brasil, país onde ainda flui um racismo subtil e manhoso. Transcendendo o (pré) conceito da Casa Grande e da Senzala, algo só sublimável com o "empowerment" dos africanos e da vasta Diáspora Negra, o Museu Afro Brasil é, acima de tudo, um espelho em poliedro para que todo o ser humano se reconheça e se projecte como activo da História Universal. O curador e artista plástico, Emanoel Araújo – autêntico "filho de Ogum" – afirma que o Museu "pretende celebrar o que ainda não foi possível celebrar: a inclusão da nossa desconhecida gente". Nossa? Pois, nossa, companheiros.

Haicai nocturno

Maria Helena Sato, que me foi grata revelação, escreveu este poema, intitulado “Praça da Sé”:

Paisagem nocturna.
Os gatos são todos pardos,
Os caminhos, tortos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

lusoáfricas berço terço

lusoáfricas berço terço
o terceto da nova poesia

onde passava a Passargada
passa agora o pássaro da paz

tão linda e ledice lírica
vero verso e vertigem

cantiga antiga do amigo
contigo ate canto o cantar

o trottoir da trova trolley
que troveja tartex e tempo

o silêncio silex do Simas
da sirene morna muda

lá onde a noite atinge
de esfinge o Conde finge

o poeMito faz lexema
no pão da poesia morena

à Cris à cruz à luz
o sufixo e o crucifixo

o lixo o Kitsch o bicho
dura lex pax lua

o perverso e o avesso
na poesia do reverso ...


Filinto Elísio

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Contravento Pedra-a-Pedra


Em São Paulo


Nesta imensa floresta urbana, "Pindorama pós-moderna" como o meu amigo Crisolino, petista de fina estampa, chamava a sua cidade, leio no Blog de Ricardo Riso - http://www.ricardoriso.blogspot.com/ - um interessante comentário sobre "Sopinha de Alfabeto", revista literária que eu, o Mito (criador da ideia, diga-se), o Eurico Barros e o Arnaldo Silva ousámos nos idos anos 80. Creio bem que a nossa ousadia (de real pedrada no charco) se enquadrava num projecto maior de criação de uma "geração litero-cultural" - o Movimento Pró Cultura, liderado por José Luís Hopffer Almada, algo que carece de análises mais complexas, desapaixonadas e epistimológicas por parte dos entendidos. O texto de Ricardo Rico levou-me a reviver (sem saudades, nem pieguices) os bons tempos em que o "bando dos quatro" tentava a irreverência tangencial e subliminar de "incomodar" o estabelecido. E o facto de Manuel Delgado, outro saudoso amigo, ter caracterizado a iniciativa como “sinal de decadência infantil”, não tendo a revista “importância nenhuma”, nos dera um gozo enorme na altura. Estar na Arte é subverter, com metáforas impossíveis, o que se afirma óbvio. Estar na Arte é significar certos sinais de decadência. Vejo a Paulista no seu élan vespertino, com neblina e chuva, e resignifico o "PoeMito Concretista"...

sábado, 22 de novembro de 2008

Montezuma ou talvez nem isso

O Violeiro e a Daminha no Engenho
Anita Malfatti
Cronos
Cronos é aquele que comanda os meus dias mas, às vezes, queria ir mais devagar - aos lentos passos dos índios que guiavam Hérman Cortez a Montezuma -, tão alheio à ansiedade apreensiva e apressada dos deveres. Eu queria estar mais zen e mais compenetrado nos meus pensamentos, olhando o mundo com fisionomismo e tranquilidade. Cronos é de facto um deus estranho - não Quetzalcoatl, aquele equívoco com que o Imperador olhou Cortez, mas este quebranto só meu e tão íntimo -, que me escraviza no tempo e no lugar.
Sampa
Esboço uns tópicos para a minha intervenção em "Fala dos Poetas" que irá acontecer durante o I Seminário Internacional dos Estudos Cabo-verdianos, em São Paulo. Não sei se falarei de mim (ou melhor dos meus despretensiosos versos), da minha visão da literatura cabo-verdiana (que não se vicia em Claridade absoluta) ou da minha forma de ser (e de estar, sobretudo) perante a Arte. Em verdade, não sei se as coisas que direi terão alguma valência. Nem sei qual a razão porque Montezuma concordou em ser batizado e a se tornar súdito do rei D. Carlos I da Espanha. Outras vezes, como outrora terá sentido alguém, tenho a impressão de estarmos a entregar Tenochtitlán numa bandeja de ouro. É o que me pressente certas "reacções em cadeia"...
Novembro
Tal como São Paulo, Novembro me diz muito. Mais que o seu significante (esses sinais que trepidam, quando não "esmagam"), o seu significado (que nem os olhares que permanecem no espelho, mesmo quando partimos) é o que me prende a ti. Apesar de ateu, iconoclasta e republicano, sem lenço, nem documento, creio ter sido, noutra vida, um monge budista.
Em Pessoa
Ai que prazer...
Não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!

LEMBRANÇA DE BRASÍLIA À CHUVA

Chuva de brasília não molha
alma de poeta, não — cai nos vãos
dos prédios, fina geometria de Niemeyer
deflagrada desde a veleira fímbria do pensamento.

Geórgica de luz, imperial e moça,
chuva de brasília é esta urdidura mansa,
som de êmbolo rabiscando
ausência de esquina emboscando o tempo.

Arremessado eco, cantoria de nuvens,
chuva de brasília é violão de treno
no derrotado azul desta oblonga manhã
decompondo-se numa ressaca de ramagens.

Chuva de Brasília talvez seja
este prelúdio de antenas conjurando
horizontes, a alma transistorizando
notícias de catástrofe, teu sorriso avarandado
à cabeleira de um póstumo sol de estio.

Porém, altiva, esmerila a praça dos três poderes,
alheia ao destino das tombadas folhas,
ao eco das catástrofes cremando
o parco fulgor de um sol a crédito.

Chuva de brasília não é essa garoa outonal
revoluteando as entranhas, motim de ecos
esgarçando a calma de tais dias, irrecusável vaticínio
atirado aos que lufam nos pátios doutra dança.
Chuva de brasília é essa dengosa mulata
encenando adeuses nos arroteados umbrais
do mundo, a procissão dos corvos jamais vistos,
sigilo que se anuncia pelos relâmpagos fremendo
num céu de sílica.

Chuva de brasília é minha alma sonhando
sua ausência pelos amodorrados pátios de lisboa.
Mas chuva de brasília eu vi mínima,
campeando num declínio esteorofónico,
consumado adeus por esses abertos jardins
sem uma esquina onde emboscar o verso.


JOSÉ LUIZ TAVARES
Brasília, 17 de Novembro de 2008

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Erro de Português


Mestiço
Candido Portinari
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
Oswaldo de Andrade

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Profunda Reflexão

O Pensador
Auguste Rodin
1.
Terá chegado a hora de os produtores culturais, principalmente os artistas, não serem olhados nesta terra como pobretanas, marginais e pedintes. Tão pouco como românticos vagabundos e penitentes nestas ilhas, onde o medíocre burocrata já vai conseguindo uma razoável conta bancária. Terá chegado a vez do produto cultural, sem pejos, nem complexos, entrar no mercado e mensurar o seu activo no cômputo de outros produtos. Hora de uma nova economia que se adiciona aos restantes – a “economia da cultura” – não só para adoçar a alma e reforçar os vínculos da identidade, mas para alicerçar um novo “campo” de acção conducente à criação da riqueza e à melhor distribuição social do rendimento…

2.
E se tal hora terá chegado, como nos indicia o Fórum Internacional sobre a Economia da Cultura, organizado pelo Ministro da Cultura de Cabo Verde, teremos de nos preparar, com sentido de causa e consequência, para os debates sobre a cultura, que não dizem unicamente respeito à defesa das identidades (regional, nacional, histórica) e à formação do capital humano (colectivo, individual), mas também (e de igual modo) abordam a dimensão económica da problemática. Os debates que transbordem e transcendam o espaço e o tempo deste Fórum Internacional, instalando-se, doravante, no quotidiano e nos vasos capilares das ilhas e da Diáspora…

3.
Em verdade, nem teríamos de inventar a roda. Teremos de reinventá-la à luz da nossa (ir) realidade. Os dados estão lançados, como diria Jean-Paul Sartre. Mas, diante dos dados (que precisam de novos levantamentos e outras análises), comecemos a questionar o conjunto das actividades culturais que tenham eventualmente algum impacto económico. O sector cultural e criativo gera rendimentos? Fá-lo de forma proporcionada e suficiente? Ele sustenta ou é sustentado pela Economia de Cabo Verde? As políticas públicas para a Cultura subsidiam as actividades culturais e criativas de forma emancipadora e autonomizante ou fazem-no de forma precária, assistencial não reembolsável? O mercado empresarial tem tido capacidade, mesmo com as leis de renúncia fiscal, para patrocinar e remunerar o trabalho criativo, inovativo e intelectual da nossa sociedade? Estas perguntas implicariam respostas a serem dadas, não apenas pelo Poder Político, mas por toda a Sociedade Cabo-verdiana, diga-se em abono da verdade.

4.
Segundo o “Global Entertainment & Media Outlook 2006-2010”, da Price Waterhouse Coopers, a “economia da cultura” passou de 1,3 triliões de dólares em 2005 e se aponta, apesar da crise financeira internacional, para 1,8 triliões de dólares em 2010, crescendo 6,6% ao ano, bem acima da média da economia mundial (5%). Em outros termos, a “economia da cultura” tornou-se o sector que mais cresce, gera renda, exporta e emprega, e aquele que melhor remunera. É ainda o que mais impacto tem sobre outros sectores igualmente vitais. E produz maior valor adicionado. Ademais, é uma “economia” baseada em recursos inesgotáveis (como a criatividade e a inovação) e que activa de forma “competitiva” os países que nela investem.

Cidade VI


a arménio vieira, jorge carlos fonseca e osvaldo azevedo,
observadores, amantes e críticos da cidade




Nós temos uma cidade.
A nossa cidade nem sequer chega a ser nojenta.
A nossa cidade está de nojo.
A nossa cidade está de nojo pelos sobreviventes da cidade.

Estes deambulam circunspectos pelas ruelas de ponta-belém e pelo que sobreviveu das ruas de
madragoa, de sá da bandeira, de andrade corvo, de serpa pinto, da república, de cândido dos
reis, da horta, da moradia, oh!, pelas antigas ruas cinicamente sorrindo transfiguradas e ainda
aturdidas sob as vestes e os nomes heróicos das placas toponímicas recém-colocadas.
Prosseguem pela pracinha do liceu, descansam por momentos aprazíveis nos bancos dos jardins
floridos.
Postam-se depois nos muros avarandados da cidade e lançam olhares tristes sobre a imensidão
dos subúrbios. Planam o olhar pelos vultos de ponta-de-água, da achada eugénio lima, da achada
grande, do paiol, da fazenda, de lém-cachorro, do castelão, da vila nova, da achadinha, de
pensamento, de safende e de outros bairros postados contra a imponência longínqua das
montanhas do interior da ilha e o vulto translúcido e majestoso do pico de antónio.
Desistem de imaginar o burburinho que irá por achada de santo antónio, tira-chapéu
(ou frouxa-chapéu, para os mais renitentes) e outros subúrbios das proximidades do mar,
agora envaidecidos pela presença próxima da antiga placidez das moscas e das alimárias
e das hortas miraculadas do palmarejo, de símbolos do poder como o palácio da assembleia
nacional popular, as embaixadas da união soviética, da china e de portugal, de vivendas e
residências de ministros, juízes, directores-gerais, inspectores das finanças, auditores das
alfândegas e outros altos funcionários do estado.
Dir-se-ia, pensam de si para si e nos subúrbios que se estendem defronte dos seus olhos
indignados, um extenso mercado de candongueiros um roque santeiro luandense ou um
imenso acampamento de exércitos hititas prestes a invadir mênfis Tebas e outras cidades
egípcias e a destruir a grandeza das suas pedras seculares e a magnificência das suas memórias.
Atravessam a rua do hospital. Alguns dos sobreviventes da cidade encarceram-se no pavilhão
dos alienados, dementes e possessos da quinta enfermaria do hospital central “agostinho neto”
para sessões de consulta psiquiátrica e de meditação sobre o tempo e a cidade ou, melhor, sobre
os tempos da cidade.
Conspícuos, os habitantes da cidade apresentam condolências ao quase-cadáver sorridente da
cidade. As melhores condolências, asseguram, são as que se apresentam aos sobreviventes, as
únicas vítimas de algum mérito e merecedoras de autêntica pena, escárnio que baste e muita
condescendência. Afinal, verdadeiros mortos-vivos, são eles irrefutável memória e assídua
presença das ruínas do futuro!
Ah! os sobreviventes da cidade!
Nem sequer acreditam na ressurreição do seu lugar de natalidade.
Espavoridos e insólitos, sentados na plácida e obesa comodidade das tocatinas e das conversas de
fim de tarde nos bancos da praça grande, observam o crescer dos prédios, a abertura de novas
avenidas e de novos arruamentos, a alegre devoração e as doces guerras dos festivais de música,
a consonântica (mas, admitem, melodiosa) desfaçatez de alguns dos recém-chegados …
Com um certo temor e muito a contra-gosto digerem o impúdico abraço entre o plateau e os
subúrbios. Por isso, declinam os convites para as inaugurações de empreendimentos turísticos e
de modernas vias rápidas que, cogitam, pretendem unificar as achadas, achadinhas, várzeas,
colinas, encostas e ribanceiras numa, profetizam sarcásticos, cidade-menina do atlântico.
Meditativos, os sobreviventes da cidade revisitam os lugares da infância e, pressurosos,
lamentam o entranhado lixo da cidade, a proliferação do comércio ambulante e das quotidianas
feiras de bugigangas, a ruína de lojas tradicionais emblemáticas (como a casa serbam, a loja
herculano, a casa feba, as galerias), a caótica degradação dos bairros, o terramoto da miséria e do
êxodo rural, a invasão dos bárbaros que, dizem, são os sampadjudos das as-ilhas, os badios de
fora (das aldeias, dos cutelos e das vilas do interior da ilha), os cooperantes de carteiras recheadas
e olhos claros omniscientes, os mandjacos (negros, animistas e muçulmanos) da costa de áfrica,
os comerciantes chineses que escudados na monumentalidade chinesa do palácio da assembleia
nacional popular na achada de santo antónio e no baixo preço dos produtos importados da sua ásia
natal têm arruinado os comerciantes locais, não se coibindo sequer de se juntar aos indígenas das
ilhas e instar os mandjacos a irem para a sua terra…
Enfim e para culminar, a plena dakarização das ruas, das mentalidades, da cidade...
Em conversas segredadas asseveram que enquanto uns invadem os leitos das ribeiras e as encostas
e constroem bairros de barracas, outros ocupam a beira-mar e refastelam-se nas vivendas e outros
rostos recentes e antiquíssimos da capitalidade, remetendo os sobreviventes da cidade para a
insignificância e a amnésia, para a irrelevância de moradores antigos e primeiros da cidade-
capital, urbe cantada e vilipendiada como rochosa transfiguração da velha e antiga metáfora de
cidade santa, urbe reiterada e secularmente mal-amada por alguns forasteiros que nela e noutras
reinam e todavia reivindicam.…
Sentados no cruzeiro, os sobreviventes da cidade observam o mar e a sua possível transfiguração
em trilho para o além, em viagem ou suicídio desde que seja uma forma definitiva de fuga ao
corpo putrefacto da cidade.
Cidade despojada da praia negra e dos seus coqueiros e pic-nics, substituídos pelos dejectos da
fábrica de cervejas e pelo cheiro nauseabundo dos tanques onde vão sendo experimentadas novas
formas de energia renovável sem qualquer utilidade prática.
Cidade despojada da memória do verde, dos pássaros cinzentos e do canto do bico de lacre no
taiti e nas antigas florestas circundantes do bairro craveiro lopes e da fazenda, para sempre
extintas.
Sentados no cruzeiro, sob os auspícios e a ferrugem dos canhões antiquíssimos, os sobreviventes
da cidade são tomados de um imperecível desejo de evasão da cidade carregada de vento, pó, ruas
esburacadas e de insolentes animais, racionais e irracionais, domésticos e exóticos.
Sentados no cruzeiro os sobreviventes da cidade cogitam utópicos e visionários e ante os seus
olhos formam-se as imagens de uma longa avenida marginal estendendo-se, asfaltada e
movimentada, da gamboa, passando pelo porto, até à praia da mulher branca, com as devidas
e modernas bifurcações para um mais moderno aeroporto internacional e os remodelados bairros
de lém-ferreira, ponta-de-água e achada-grande-trás…
Pesarosos, os sobreviventes da cidade debruçam-se sobre as trucidadas flores da praça grande,
das pracinhas da escola grande e do liceu adriano moreira (os sobreviventes da cidade recusam-se
a pronunciar o novo nome, domingos ramos, comparsa semi-analfabeto de, imagine-se, outros
terroristas, ou de modo mais eufemístico, combatentes do mato, em boa hora neutralizados, como
amílcar cabral, josina machel, eduardo mondlane, chico té, che guevara, justino lopes, jaime mota,
ludgero lima e o ainda mais execrável kwame nkrumah) …
Crispados, os sobreviventes da cidade cogitam sobre a futura reposição da verdade dos lugares e
dos seus nobres e pátrios nomes, como craveiro lopes, alexandre albuquerque, andrade corvo,
serpa pinto, sem esquecer os heróis de mucaba…
Os sobreviventes da cidade rezam sobre as ruínas da cadeia civil e dos sobrados coloniais
amarelecidos pelo tempo e pela decrepitude, os quintais de algumas casas térreas de persianas
verdes, janelas envidraçadas e soalheiras meias-portas e outras casas típicas do planalto da cidade
da praia, urbe outrora chamada de santa maria da esperança e da vitória.
Os sobreviventes da cidade indignam-se com a transfiguração do planalto (recapitulam: capital
de facto das ilhas de caboverde desde o abandono da cidade velha em 1776 e capital oficial da
província ultramarina desde 29 de Abril de 1858) em reles e francófono plateau de uma
cinematografia na qual a cidade se transmutou em mero figurante numa vilã miríade de subúrbios.
Os sobreviventes da cidade continuam deambulando pelas ruelas e constatam com alívio, orgulho
e alguma vaidade que os moradores das casas mais modestas dos quarteirões mais pobres do
planalto-capital recusam terminantemente a deportação para o longínquo bairro da terra-branca
(branca de novos ricos indígenas e de cabelos loiros cooperantes, dizem sarcásticos) ou para
qualquer achada, achadinha ou ribeira, todas flageladas pelo cinzento, pelo abandono, pelo caos,
pelo despojamento de urbanidade, por todo tipo de carências, pela ausência de qualquer memória
urbanística e, sobretudo, pela irremissível circunstância de serem baxu-praia, abaixo da praia,
sub-praia…
Os sobreviventes periféricos e suburbanos da cidade preferem ser despejados. O cubículo ou a
casa térrea de dois ou três quartos e muita promiscuidade não se salva, mas ao menos salva-se a
honra. Ocupa-se a praça e abre-se escritório de conversador na esplanada central da cidade, no
restaurante avis ou no café cachito ou abanca-se como engraxador de sapatos na praça alexandre
albuquerque (arremetem os auscultadores da cidade: mas a polícia nega-se a fazer reluzir as
botas na praça “12 de Setembro”. Quando for o caso não há-de a polícia precisar de botas
reluzentes. Abaixo o boato e a paranóia!)

Os habitantes da cidade estão de nojo. Pelos sobreviventes da cidade ou por si próprios.
Milhafres e vampiros debicando o cadáver da cidade.
Persistentemente. Diligentemente.

Os habitantes da cidade estão de luto. Pela cidade e por si próprios.
Cadáveres futuros sobre o corpo arruinado da cidade.
Irremediavelmente.

Dizia eu, nós temos uma cidade.
A nossa cidade e os seus habitantes nem sequer chegam a ser nojentos.
A nossa cidade e os seus habitantes estão aparentemente de nojo.
Pela cidade e pelos sobreviventes da cidade.
Magnanimamente.

Lisboa, 2003/Julho de 2008
(versão refundida do poema homónimo constante do livro Á Sombra do Sol, volume II, Praia, 1990)

José Luís Hopffer Almada

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Milady, é perigoso contemplal-a...

1.
"Papas", não muito longe da Associação Cabo-verdiana e da Cinemateca de Lisboa, é um belíssimo restaurante. A compor a mesa: eu, o José Luís Hopffer Almada e o Mito. Quando estamos assim juntos, fico a matutar naqueles versos de Arménio Vieira sobre Lisboa que ali não estava para nos saudar. A conversa é variada: o José Luís a contar sobre o filme "W" e sobre "A Dolorosa Raíz do Micondó", livro de poemas da santomense Maria da Conceição Lima; o Mito a abordar sobre os vídeopoemas que irá apresentar na Semana da Cultura Cabo-verdiana, em São Paulo.
2.
No aeroporto, com a mala e tudo, não consigo viajar. Simplesmente, não há hoje voo da TAP para a cidade da Praia. Tanto que eu queria chegar a tempo de participar no Fórum Internacional sobre a Economia da Cultura! Felizmente, o meu quarto no Hotel Sana Metropolitan, ainda por fazer, estava ainda disponível. Tempo para aceitar ao convite de Sílvio Baptista...
3.
Foi um jantar interessante, num restaurante de Entre-Campos, cujo nome não retive. Estava também o casal que irá editar "Li Cores & Ad Vinhos" - Carlos Serra e Moura e Carla Serra e Moura, interessantíssimos. Recebi, de presente, uma excelente edição O Livro de Cesário Verde, desenhado por João Vieira. Milady, é perigoso contemplal-a...

Orçamento, PIB e We Can



A Cultura tem 3% do Orçamento Geral do Estado, algo a se louvar, mas sobretudo a suscitar uma reflexão mais estratégica e mais partilhada sobre as políticas públicas para o sector. A grande questão será como e em quê aplicar tais recursos para que a Economia da Cultura ocupe um percentual mais destacado e mais efectivo (em termos do impacto sócioeconómico) no PIB de Cabo Verde. Importa saber qual a massa financeira da Produção Cultural e qual o Rendimento Per Capita do Produtor Cultural. Importa, sem que se perca a alma, fazer as contas. Para além das áreas que, ainda nesta fase, precisam de fomento público, importa saber que incentivos junto ao mercado da criatividade e da inovação, sobretudo das artes performativas, para que as mesmas se autonomizem e passem a produzir Cultura não como "pedintes", mas como activos importantes (e sem complexos) da economia cabo-verdiana. Yes, we can...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Com posição


Composition VIII
Wassily Kandinsky





"Alfa Pendular" rumo a Braga



Quem encontro no comboio? O jornalista Francisco Fontes que também se apeia no Porto Campanhã. As eleições na Guiné-Bissau, a antologia de poemas, o frisson em torno do poema de José Maria Neves e a necessidade de uma boa editora em Cabo Verde.



Os Deolinda



Sobre Os Deolinda alguém assim escreveu: Há uma longa série de clichés associados ao fado. Por exemplo, o fado tem que ter guitarra portuguesa. Os Deolinda não usam guitarra portuguesa. Ou, o fado tem que ser sisudo, sério, compenetrado, fatalista e triste. Os Deolinda não são nada disso. Ou ainda, o fado não pode ser dançado. E dança-se com os Deolinda. Ouço o disco “Canção ao lado” e gosto dessa química reconfortante.



Coup de foudre



Distante, há picardia, malícia e tacanhês. Esses bloguistas são como gladiadores. Ou mercenários. Matam-se uns aos outros. Tu sabes que isso é pouco saudável. Prefiro ler Les Mots e les Choses, de Michael Foucault. Tento de riso e de siso. Tempo bíblico de amar e de odiar. Mas, olha, novembrina esta solidão. Coup de foudre até com as horas que desandam no relógio...



Restaurante "Tia Matilde"



A convite de José Cunha, lá fomos jantar no restaurante "Tia Matilde". Não só porque fica ao pé do Hotel Sana Metropolitan, onde me hospedo em Lisboa, mas porque a canja de pato ali é divina e o coelho no forno mais que um poema. Eu, o Mito, o Zé Brazão e a companheira. E o Cunha, naturalmente. Amena cavaqueira que não dispensa os "estados gerais" da blogsfera crioula, a medíocridade das ofertas culturais da Praia e do Mindelo e o Fórum Internacional sobre a Economia da Cultura organizado pelo Ministério da Cultura.


domingo, 16 de novembro de 2008

Economia da Cultura

Women Running on the Beach
Pablo Picasso



1.
Aceitei participar, mas vou chegar com um dia de atraso, no Fórum Internacional sobre a Economia da Cultura, organizado pelo Ministério da Cultura. O evento, que ocorre na cidade da Praia, prova que as autoridades estão mais despertas para o impacto socioeconómico da produção, da circulação e do consumo de bens e serviços culturais no contexto da Nação Global Cabo-verdiana.

2.
Sempre vamos tendo, uns e outros, a percepção de que a participação da Cultura na nossa economia seja bem expressiva. Tornou-se lugar-comum dizer “Cultura é o petróleo de Cabo Verde”, um misto de orgulho com bazófia de crioulo. Entretanto, não haverá fumo sem fogo. Embora não tenhamos indicadores estatísticos, nem estejamos na posse do conhecimento sobre o PIB da Cultura Cabo-verdiana, estamos conscientes que a caboverdianidade lactu senso terá também a sua força dos números e, pela certa, o seu peso dos cifrões. Há que mensurar a Cultura, sim senhor…

3.
O Banco Mundial estimou, em 2003, que a Economia da Cultura respondia por 7% do PIB mundial e se projectava como o sector mais dinâmico da economia planetária. Qual o peso da Economia da Cultura, isto é qual o peso da criação artística e intelectual em Cabo Verde? Econometria…vamos a ela. Acima ou abaixo da média mundial? Qual o nível de crescimento deste sector criativo e inovador na economia cabo-verdiana?

4.
E, para tanto, valerá fazer diagnósticos, construir indicadores, colectar e sistematizar dados, estudar e pesquisar mais (e melhor) o sector cultural. Valerá juntar todos, nacionais (de toda a insularidade e da diáspora) e estrangeiros (de todos os quadrantes), para sabermos não só a quantas vamos, mas o que nos aponta a Economia de Cabo Verde. Sendo a produção cultural um dos seus activos, precisamos incentivá-la, fomentá-la e projectá-la. Mais riqueza e inclusão social, mais inserção mundial de Cabo Verde e, sobretudo, mais alma, como diria Orlando Pantera.

5.
Vamos, pois, partilhar, conversar e conspirar para que tal comece a acontecer…
Nota 1:
Em Lisboa, vou às livrarias, deambulo pela Baixa, onde me deparo com Juca Ferreira, Ministro da Cultura do Brasil, e Zulu Araújo, Presidente da Fundação Palmares, e assisto a um show de Nancy Vieira, no Teatro São Luís. Vejo que a minha luz, tal qual a música do Vadú, tem o seu lado sombra e que com ele, meu pássaro, posso ir ver o Tejo.
Nota 2:
Ergo-me pedrasta, apupado de imbecis, assim começa o poema Cena de Ódio, de Almada Negreiros. Mas eu me rio dos deuses pés descalços e dos duendes das esquinas. Reafirmo tudo fazer por convicção pura, mesmo quando, sem máscaras, nem dualidades, apoio uma determinada "causa perdida". Outrossim, certas birras são para se esquecer...

sábado, 15 de novembro de 2008

Imagine



Respostas


Qual é o mal de vir a Cabo Verde tentar a sorte? Se tem habilitações para tal, não vejo onde posssa estar o problema.


Mal nenhum, companheiro. Cabo Verde, tal como Portugal, Senegal ou Brasil, é terra da emigração e da imigração. Aqui, o companheiro vem de longe e se torna benvindo. Nesta roda concêntrica, em torno do sol, somos genuinamente multiculturais e, aos poucos, nos libertamos de um passado traumático que se não branquea com os rompantes da paridade monetária, da parceria especial e dos exercícios da NATO. É preciso mais, muito mais. Que muito mais gente tente a sorte pelo Mundo - esse wider spectrum de que falava John Lennon em "Imagine". Cabo Verde, Portugal, Senegal, Brasil, you may name it...


Despir-se de preconceitos, porquê? Por falar de barracas com pessoas a viver em condições desumanas ou por denunciar o comportamento de alguns políticos?


Despir-se de preconceitos, naturalmente. Pensarmos com as nossas próprias cabeças, como diria Amilcar Cabral. As barracas (e as Buracas) da vida são problemas de direitos humanos e devem ser denunciadas por todos e em todo o lugar. E o comportamento de alguns políticos, bem como de certos jornalistas, nacionais e estrangeiros, que lhes prestam servicinhos devem ser denunciados sempre. Pelo que li, a crítica postada no Blog "Os Momentos" não punha em causa o jornalismo crítico e acutilante, mas sim aquele medíocre e malidecente, a passar pela rama da deontologia e da ética. Convenhamos que há muita leveza insustentável por aí e há que investir em gente mais qualificada...


E um País que sobreviveu às secas, fome, miséria, escravatura e colonização é imune a críticas?


Críticas é o que se quer, companheiro! Críticas sérias, sustentadas e substantivas. Puras cantigas de escárnio e de mal-dizer não animam ninguém nem a nada neste terreiro. Valentias de pura afirmação, tomamo-las apenas e tão-só como liberdade de expressão, que é muito e importante, mas de modo algum como jornalismo, que tem cânones para outra freguesia. Há gente a querer matar amanhã um velho que morreu ontem. Aliás, e ainda bem, matamo-lo ontem. Era o velho das secas, das fomes, das misérias, das escravaturas e das colonizações.


Criticar é espartilhar o país? E silenciar, é o quê?


Espartilhar nesse caso merece ser entendido em sua semântica complexa. A rigor, um país com a endurance de Cabo Verde não se espartilha facilmente. Mordaças a um poeta? Ovídio Martins considerava isso amiúde o único impossível. De modo que silenciar não cola. Nem aqui, nem na China...


Glosa (ou o tal "Imagine", de John Lennon)


Imagine there's no heaven,

It's easy if you try,

No hell below us,

Above us only sky,

Imagine all the people

living for today...


Imagine there's no countries,

It isnt hard to do,

Nothing to kill or die for,

No religion too,

Imagine all the people

living life in peace...


Imagine no possessions,

I wonder if you can,

No need for greed or hunger,

A brotherhood of men,

imagine all the people

Sharing all the world...


You may say I'm a dreamer,

but Im not the only one,

I hope some day you'll join us,

And the world will live as one...


É mais ou menos isso, companheiro...

Ora sou água

Ora sou água, ora sou fogo,
E se me invento terra, ar
Que lhe leva o vento, ora
Sou nuvem, pura miragem.

Em verdade, nem por enfado
Ou por desafio, eu seria outro;
Mesmo que a vida, por um fio,
Preciosa, se remira em ouro.

Mais que a abelha à roda da rosa
Ou do mar lambido na praia
Ora sou prosa, ora sou poema.

Poente que sou, mirante de nada,
Cavaleiro andante, aventureiro,
Puro horizonte tudo o que sou…

Filinto Elísio

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Nave de alabastros


manXtime
Mito
Hoje, amanheci nesta loucura: nave de alabastros, teus cerâmicos rostos e fulgentes olhos, ó cabalística cidade. Depois, à hora da higiene matinal, que é a seguir ao jogging e ao noticiário, ainda isto me foi dado: sementeira de alada fantasia, tumefacto ventre de eufonia – só tua. E não é que me visto ao espelho que mostra as rugas, alguns cabelos brancos e meia dúzia de estrias, também minhas. Tomo o pequeno-almoço nessa recorrência (eh, pá, preciso de ajuda, a sério): alfarrabistas e poetas, meretrizes e cães, rosas e musgos – todos os mucos – tu, cidade. O engarrafamento que me leva, como um rio parado, ao Plateau (há quem o chame de “Centro Histórico”), dá um close-up num relógio pendurado por um fio de nylon, suicídio que assim reporto: sílabas labirínticas, olha que tenho tua esfinge na mão, quantos liames são teus segredos, latejam-me teus becos, companheira – sem eterna idade. Sei que não estou imbecil, mas já não resguardo as certezas de ontem…

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Bienal

Começa amanhã, por nove dias, a 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará. "A aventura cultural da mestiçagem" é o grande tema de 2008. Na Bienal, estarão mais de 350 editoras e 140 escritores de mais de 20 países da América, da Ásia, da Europa e da África. Na curadoria do evento, Floriano Martins, mais uma razão para o primado da poesia. Alguns convidados: Alex Pausides (Cuba), Omar Lara (Chile), José Maria Memet (Argentina), Edwin Madrid (Equador), Marco Lucchesi (Brasil), José Angel Leyva (México) e José Luís Tavares (Cabo Verde). No evento de 2006, estava eu em travessias com o Poeta Dimas Macedo e falávamos das Mil e Uma Noites. Em 2004, a participação crioula teve a participação de António Leão Correia e Silva e Germano Almeida. À semelhança de edições anteriores, o evento deste ano promete ser “danado de bão”. Em prol da leitura pública…

Madrugada

Deu-me agora de acordar pela madrugada e ler poesia até que o sono me derrube. Às tantas, entre as três e quatro da matina, eis que me levanto da cama, sem saber exactamente o que me desperta. Tenho sempre a mão um livro de Fernando Pessoa e, como quem vai a um versículo da Bíblia, escolho uma ode, um soneto ou um verso livre. Os heterónimos pessoanos fazem as minhas madrugadas e leio seus versos diante do espelho. Faço gestos e trejeitos, treino entoações e tons de voz, tento até sapateados. Um solilóquio digno de ópera. Hoje, por exemplo, reli Alberto Caeiro ao som de “Bandera de Nhô Sanfilipe”, de Kim Alves. Uma mistura meio estranha, mas com todo o sentido dentro de mim. Dentro do meu quarto, sou uma espécie de Clown. Meio Charlot, quase Pierrot. Absurdamente romântico. Quando não abro a janela de par em par para ver a rua. Adormecida. Onde haverá, no vasto mundo, alguma mulher nua? Absolutamente nua. E eu, pecador, me confesso: sou um apaixonado pela lua…

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Pa Bô


Passa o Mito por uma rua de Lisboa e dá de caras com um muppy da PT Telecom: "30 min. por €5 pa bô". Em crioulo de Cabo Verde! Aliás, certos produtos não se vendem hoje em Lisboa sem estrategizar o segmento do mercado cabo-verdiano. Os cartões de telefone, por exemplo. Algumas ideias e projectos políticos. Cabo-verdianos, ucranianos, brasileiros e outros. Manuela Ferreira Leite deveria fazer um estágio na PT Telecom. Burro velho também aprende...