terça-feira, 12 de setembro de 2006

Cê não me devia maldizer assim





Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento:
Vou mais além, não bebo dessa água.
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da terra e do céu.
Dai-me de beber,
que tenho uma sede sem fim.

A Fonte. Renato Russo

Em dias como hoje, eu não sei o que escrever. Talvez seja esta sede sem fim. Não tenho o frescor da escrita de Eileen ou de Chissana. Nem o imponderável n ta mora li de Abrão Vicente ou de navega Mayra Andrade. Essa gente nova e descomplexada que anda por aí. Gente inova, diria. Falo-vos, então, da correspondência com o meu amigo, do bom jazz e da boa conversa. Ele, por sinal, nem gostou que eu dissesse: o Estadista não governa para a próxima eleição, mas para a próxima geração. Mal habituado poderoso e senhor do mundo, ele me condenou ao inferno no último email. A dar o troco, permiti que Pranchinha lhe dissesse umas loas. Este, desde Nero até ao último deus da esquina, anda a gozar com os poderosos. Continua nisso mesmo depois de morto, já que estamos no reino do absurdo. Devia ser combatente da liberdade, pois a Pátria se liberta a cada momento (e ainda bem). Unânimes contra o ufanismo a que isto se tornou. O mais bem gerido da África (coitado do Continente!). A Constituição mais moderna do mundo (oh, kanadja!). O 1° (também na África) à vista do MCA. E mais coisas & loisas patrioteiras que a conversa em família já repete à exaustão. Entretanto, é neste – o quê mesmo? - Japão, Hong Kong ou King Kong que acontece o apagão da Electra. Neste Pêdême de cada dia que a malária, erradicada na Colónia, mata de novo. Neste milênio que os novos escravos são barrados no mar, com o reforço estrangeiro, para o inglês ver. Não sei o que escrever, porque quero andar em sentido contrário desse carnaval da loucura, do kásubodi e da narco ostentação. E os poemas que timidamente escrevo, gostaria que fossem de pedra. Não a pedra das infra-estruturas precárias, mas a explosiva pedra com que um apóstolo do futuro construirá a sua Igreja. Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam. Tento escrever o que vejo deste 10° andar. Mas o Calçadão é um frenesi artificial e a cidade grande é uma babel antropófaga. O telejornal diz que Amazonas está sendo desmatada de forma perigosa. O maior terrorismo acaba por ser o ambiental. Pior do que nos transformar a todos em Califado. O Papado tentou-o nos Descobrimentos e ficamos irremediavelmente sadomasoquistas. A Deus nas alturas que, por aqui, apesar das terçãs, nos entenderemos. Em dias como hoje, eu não sei o que escrever. Definitivamente, estou em branco. Quem sabe, um rap à maneira do José Luis Tavares. Ou os versos revisados como Armênio Vieira. Mas terei de falar dos grandes? O meu colega da faculdade telefona a dizer sobre a vernissage de “Cê”, o último álbum de Caetano Veloso. Conto-lhe do King Kong e ele a rir como um louco. Grande Pranchinha! Escuto, nesta tristeza infinda, A Fonte, de Renato Russo. Daqui a pouco saio pela cidade procurando pão quente e o álbum de Caetano Veloso. Diz a televisão que ele canta assim: Eu não me arrependo de você/ Cê não me devia maldizer assim/ Vi você crescer. E eu não vou escrever sobre o quinto aniversário do 11 de Setembro. Não estou a fim de sublinhar o óbvio...

Palestrando em Icó

Faculdade Vale do Salgado

domingo, 10 de setembro de 2006

Melodia



Despeço-me de assaz versos
Como quem se aparta
Da casa onde nasceu...

Por Pedro ou Sísifo
E (soubeste-o sempre) longa
A minha viagem, deixava-te
As palavras que já são pássaros
E este enorme desplante
De rosas nas estrofes...

Por certo, uma frase ou tão-somente
(perfumada crase) de não contida
Crave em pedra e alma tua
O dentro de tais frutos
- nós (digamo-lo também)
Olhando a lua...

Quem sabe, o meu ir desnude
O dia em seu porvir, quando
E antes que – dos versos! –
Nos anoiteça (agora ou no eterno)
A melodia...


Filinto Elísio

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

O ÚLTIMO MITTERRAND



(Em dias assim prefiro escrever sobre tudo e nada.
Sem hierarquias. Caminhando contra o vento…)



Bilinguismo de “trocolansa”

Hoje, quero falar da língua cabo-verdiana. Do crioulo de Cabo Verde, falado em toda a Nação Global e estudado em várias universidades do mundo, mas que continua relegado à marginalização nas oficialidades. Mas que tacanhês, quanta colonização mental! Como não oficializar a lingua do pensamento, da fala e da intercomunicação neste Cabo Verde global? Perigar o português? Não me façam rir. O que periga o mau português falado e escrito em Cabo Verde é exactamente a não definição do estatuto oficial das duas línguas. A tal diglossia, de que nos fala a estudiosa Dulce Almada, tem a ver com a promiscuidade linguística, com o actual bilinguismo de “trocolansa”. Só teríamos a ganhar se dominásse bem as duas línguas que a ventura nos deu: a cabo-verdiana e a portuguesa. Quem já leu Chomsky sabe das vantagens cognitivas do bilinguismo saudável. Para um pensamento estruturado, capaz de pensar a ilha, o arquipélago e o cosmo. Funcionar em dois códigos linguísticos é um valor agregado, a potenciar, meus senhores. Importa não confundir as nossas fobias com a realidade, sobretudo aquela que transcende uma elitezinha medíocre e deformada. Basta dos pruridos de trazer por casa e oficializemos o crioulo de Cabo Verde. Por uma questão de não amputarmos a soberania, nem amordaçarmos a democracia…

Cimboa – muito mais que instrumento

Em conversa com Charles Akibodé soube do projecto de preservação e de valorização da Cimboa, instrumento musical tradicional cabo-verdiano, em vias de extinção. O projecto de Akibodé não se resume ao instrumento em si, como peça da antropologia cultural, mas abraça uma iniciativa mais alargada e mais consequente da promoção da Cultura que se faz em Santiago. A Salvaguarda da Memória da Cimboa resgata o prestígio cultural e social de Mano Mendi, um dos mestres do batuque e na execução da Cimboa. Ela resgata também a técnica do fabrico desse instrumento, a partir de uma abordagem científica do artesanato cabo-verdiano. Charles Akibodé, investigador de profissão, entendeu o que à nossa elite desavisada custa a entender: a verdadeira estética pressupõe uma perspectiva ética.

Fantasia, digamos…

Meu caro amigo, do bom jazz e da boa conversa, acabo de assistir ao O ÚLTIMO MITTERRAND, filme de Robert Guédiguian. Mitterrand sim, era um estadista fascinante. Com grandeza. Agora, eu não fico embasbacado diante desse Carnaval. Prefiro coisas mais pedagógicas. Quando não, fico horas diante do oceano. Estou assumidamente numa fase zen. Naquela do zen-mundismo, como diria Gilberto Gil. Meu caro amigo, das piadas inteligentes, não estive, nem estaria por um segundo embasbacado com o processo histérico. Prefiro amar, mesmo vizinho cativo da dor, quem não odeia senão o ódio. A política não é a minha praia. Literalmente. A política tem de se resumir aos seus limites em qualquer sociedade democrática. Ela não pode tudo. Frágil e vulnerável como todos, o político só governa com o aval dos governados. Um Nero a mandar vir hoje seria até hilariante. Já não há paciência mesmo. O Pranchinha, se cá estivesse, faria a reprise daquele Ditador que, do alto da sua arrogância, mandou revogar (imaginem) as Leis da Gravidade. Obviamente que o Grande Líder caiu fulminado por terra. Excesso de peso, meu caro amigo…

Ricardo…graças a Deus!


Não é só o nome que santifica: Ricardo de Deus. É a música também que, mesmo ousando pelo profano, como todo o suíngue aliás, está aqui eivada de sagrado. O álbum Fragmentos foi feito com engenho e arte, corolário de muito bom-gosto e muita técnica, desde a composição à produção, passando naturalmente pela interpretação.

Ricardo de Deus, mercê das suas aparições e das suas aulas de piano, conseguiu já um panteão sonhado por todos e uma serenidade conseguida apenas por alguns. Ele vem a Fragmentos, seu primeiro álbum, com a maturidade de repertório e a mão tão precisa quão concisa na escolha dos músicos, tanto cabo-verdianos como brasileiros e outros. A notariedade de Ricardo de Deus não se traduz em significante, mas sim na profunda e radical simplicidade, apanágio dos iluminados.

Brasileiro, de São Paulo, mas ora serenado nas ilhas de Cabo Verde desde 1999, Ricardo de Deus pegou já o significado da alma crioula, no jeito como nos apresenta a maior parte das 14 faixas que perfilam neste álbum. Diga-se que o Artista assina todas as composições, à excepção de “Lundu” de Arnaldo Rebello, facto inusitado entre a gente que o tinha apenas por exímio pianista. Fragmentos é genuína música cabo-verdiana, mas não engessada a nada. Nem mesmo à toada que se ouve pelas esquinas. É música boa, nova e glamourosa…de Deus, realmente.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

sábado, 2 de setembro de 2006

Príncipe das nuvens

Há dias que caminham silenciosos
Como se rastejassem à soleira
Das nossas almas esquecidas
E olhassem de soslaio a solidão
Também nossa…

Há dias insidiosos, à flauta
Em que o mago engana a serpente
E este, de puro fogo, crepita
À Eva e sua profanada maçã
- ó libidinosas…

Dias há que nos adentram o lar
Pela fresta das janelas e do pensamento
E ficam quietos, como lamentos,
De murmúrios tão-somente
E em desenlace…

É quando a poesia soletra
Na vertigem deste lugar
- chamemo-lo poisio ou viagem –
Onde se refugia o Albatroz,
Príncipe das nuvens…

Filinto Elísio

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris
e minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Shiva

(…) Senão eu te invento por toda a eternidade (…)
Paulo Leminsky


Ter partido também
Ficar um pouco contigo
Flutuar assim para lá
Do azul, do zil e do vão
- Eu nem queria outra coisa,Mulher…

Partir para vir contar
A praça do além e do éden
(o reverso da maçã e seu pecado)
Serpenteada numa árvore, mulher,
E tão torneada em teu corpo…

Eu nem queria senão ter ido
Com ou sem retorno, ao pé de ti
E dali (miró, como me chamas),
Neruda, pessoa, outros poetas
De toda a poesia…

Aqui, deixado na praia,
Eu te invento...metáfora!

Filinto Elísio

Founders

Foto de Omar Camilo

O "imprescindível" Manuel Veiga

O "imprescindível" Manuel Veiga corre risco de vida num hospital em Nova Iorque, na sequência de um ataque cardíaco. Ministro da Cultura, mas sobretudo intelectual da mais fina estampa, Manuel Veiga tem um profundo empenhamento pela coisa cultural cabo-verdiana, em particular a língua crioula. Neste momento, ele tem estado a estrategizar uma Conferência Internacional sobre a Claridade.Juntemo-nos todos numa correntente positiva pela rápida e pronta recuperação de Manuel Veiga.

Em prol da caboverdianidade!

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Thugs, CEDEAO, Constituição e Israel + nota do colunista


A caça aos Thugs

A manchete da prisão dos jovens delinquentes, mais conhecidos por Thugs, nos deixa mais aliviados e mais crentes da nossa segurança pública. Tal como a saúde pública, a segurança pública é questão premente e prioritária. Sem elas, não há estabilidade, nem paz social, as verdadeiras razões que trariam investimentos a Cabo Verde, diga-se em abono da verdade. Ninguém sai da Inglaterra para vir a Cabo Verde, a risco do paludismo, da cólera ou do assalto. Tao pouco ele viria para assistir gente a defecar na via pública ou a curtir os apagões da Electra. Pura e simplesmente não haverá turismo, nem outro investimento sério, se alguma incongruência não for consertada a tempo e, quanto a isso, não devemos ter papas na língua. Mas dizia, a caça aos Thugs veio em boa hora e é mister que o nosso sistema judicial seja consequente com a lei e o interesse nacional. Só que o buraco é mais em baixo. A criminalidade transcende a medidas securitárias, por sinal mais que necessárias. Ela tem a ver com as alternativas sociais para a juventude. A segurança sustentável não é policial, mas societal. Até porque os jovens delinquentes são “nossos jovens” e precisam ser recuperados. Não apenas por aquele que viria da Inglaterra, mas por nós que continuamos…em Cabo Verde!


Cabo Verde e a CEDEAO

Apoio a 100% a ideia da revisão das nossas relações com a CEDEAO. Elas deveriam, hoje mais do que nunca, incrementar uma vertente mais bilateral do que multilateral, no quadro comunitário. Esta tese foi defendida pelo diplomata Manuel Amante da Rosa, mas, para variar, não teve respaldo crítico entre os seus pares da diplomacia. Cabo Verde deverá reflectir e assumir qual o cenário da CEDEAO que lhe interessa realmente. Em verdade, o enquadramento de Cabo Verde no mundo não se faria de costas voltadas para a África Continental. O Arquipélago é estratégico, porque está estrategicamente posicionado (não apenas em termos geográficos) na África Ocidental. Em verdade, é estratégico com África e nunca sem ela. Mas não se tem o Continente a qualquer custo. A questão da livre circulação das pessoas e bens merece revisão séria e rápida. Concordo com a preocupação do ministro Júlio Correia sobre a ameaça demográfica, decorrente de uma migração intensiva e nem sempre controlada. O país tem de dizer a CEDEAO quanto recebe e como recebe. Como pequeno estado insular (relativamente estável), próximo de uma Costa instável, empobrecida e sobrepovoada, as ameaças a um rápido e perigoso desequilíbrio demográfico são evidentes. Com as delicadezas necessárias e a complexidade que a questão determina, é hora de fazer o que tem de ser feito…

A questão presidencial

Releio, com vagar e sentido crítico, o livro “A questão presidencial em Cabo Verde – uma questão de regime”, de David Hopffer Almada, e penso se não seria interessante reabrirmos o debate sobre o tipo de regime mais adequado para Cabo Verde. Debate de rua, societal mesmo, quase em referendo. O dito Parlamentarismo Mitigado, um hiato que às vezes mete água, é a melhor solução política? Quais as virtualidades de outras propostas? O retoque constitucional pontual seria por si só suficiente para qualificar o actual regime? Ou, quem sabe, a virtude está numa mudança mais de fundo, no presidencialismo ou no semi-presidencialismo? O actual regime permitiria, sem perversões, a coabitação entre um governo e um presidente adversos? Até que ponto, no actual figurino, certas coabitações não fragilizariam a soberania, a democracia e o desenvolvimento, valores ainda em consolidação nesta etapa histórica da vida nacional? Dá que pensar o facto de o Presidente da República, saído directamente do voto popular, não ser titular de importantes poderes próprios e de que maneira esta “fragilidade” contribui para um equilíbrio saudável entre todos os Órgãos Políticos de Soberania. O povo cabo-verdiano realmente quer um Governo que não responda primordialmente perante o Presidente da República que escolheu? Enfim, uma série de questões que merecem ser tematizados para lá do país político e do país jurídico. Sem arrogâncias, nem tecnicismos juridico-constitucionais, quem atiraria a primeira pedra?

Israel e a mentira orwelliana

Leio a imprensa local e há acontecimentos que não acontecem. Parece a mentira orwelliana que, repetida ene vezes, vira verdade. Os aviões que lançam misseis sobre as crianças indefesas são pura brincadeira. Uma ficção, tirada do monitor de um video game, crê-se. Em Cabo Verde, os deuses-de-esquina ficam quedos e mudos. Mas eles também não interessam. São zeríssimos à esquerda. O silêncio dos silenciados não nos aparta da vergonha. O ataque, desproporcional e injustificado, ao Líbano é uma vergonha para a Humanidade e os homens de bem e de boa vontade condenam tamanho genocídio. As Nações Unidas, uma vez mais, não podem nada, mesmo nada, contra a força bruta. O governo de Israel (não confundir com o povo judeu) é déspota, fascista e desumano, para não dizer bem aprendido com o nazismo. O que acontence ao povo palestiniano e libanês não passa de um holocausto. Um nojo, com todas as letras…

Nota do Colunista:

O cronista não está alheio à fruição social. Muitos dos temas que aborda foram escrutinados no quotidiano. Os assuntos colectivos são inesgotáveis. Não pretende ele ser dono, nem accionista de alguma verdade. Ao levantar questões, ele quer contribuir para a reflexão da nossa opinião pública. De vez em quando, ele migra para o seu espaço poético, como o Albatroz, de Baudelaire. Aí, a sua função torna-se mais existencial que social. Os leitores hão de perceber a alteridade. Quando não (direito que os assiste), reclamem pelo endereço electrónico: filintos@gmail.com.

sábado, 26 de agosto de 2006

Hora Grande


Os tempos são fortes e a hora é grande.

Saint-John Perse


Glosa

Para alguns, felizmente poucos (mas hegemónicos), está tudo bem e estável debaixo do céu. Questionar estes dias sob o sol nosso de cada dia seria subversão perigosa. Terrorismo de baixa intensidade, acto inaceitável num país pobre e vulnerável, ainda por riba de morabeza, como o nosso. Tudo bem e estável, mau grado a insegurança, o desemprego e a doença pública, aliada à holística incompetência, das altas nuvens ao rente chão. Os hegemónicos (poucos, felizmente) não querem saber das reclamações, das reivindicações e das manifestações. Do descontentamento das ruas, querem distância. E das insatisfações mais surdas, fazem ouvidos de mercador. Face à quietude aparente, mas falsa, o país navega por mares escusos e, qual nave dos malucos, todos fingem estar no porto de salvamento. Onde estão os lúcidos, minha gente? Um simples Velho do Restelo afinal? O que é da crítica local, outrora tão acutilante e valente quão agora necessária? Será que, no chão da República, a ignomia é permitida e a disfunção faz escola? Não, não e não, meus amigos. Os cronistas são filhos de Cronos. E deste, guardam a mais sagrada fidelidade. Não podem eles fugir aos tempos. E muito menos à grandeza desta hora…

Doença pública e a cidadania

Leio a entrevista de uma autoridade sanitária, no Jornal Expresso das Ilhas, e discordo das suas colocações. A política da saúde pública precisa ser revista, sim senhor. Vejamos, por exemplo, a questão do paludismo, afinal retornada, mas só agora assumida como endémica, pelas autoridades. Não poderia haver um plano preventivo mais sério e consequente diante de uma realidade por assumir. Nem poderia haver autoridade sanitária em face de uma não-problemática. Qual teria sido a razão deste irresponsável silêncio? A beleza dos indicadores que muito doura as estatíticas e induz a elogios internacionais? O turismo emergente e cada vez mais importante, mas contingencial em face a rupturas da saúde pública? O medo aos investidores que olham para isto como um destino lucrativo? A oposição sistemática, mister democrático, pronta a tirar dividendos das desacelerações e afins? Francamente, nós, os cidadãos, contribuintes e eleitores, temos de perceber as razões do silencio. Quando morre gente, por paludismo ou outra doença (duas por ano que sejam), em quadro de uma política ausente, a culpa nunca é da fatalidade. Nem da população. Não se criminalize a vítima, por favor. Existe paludismo na cidade da Praia, porque a sua população é culpada, não colabora e não limpa? A Praia é uma lixeira, conforme o Bispo de Cabo Verde, porque ao praiense falta urbanidade e civismo? Será a Praia uma lixeira ou lixeira é o que uns e outros fazem da Praia? Tenham dó, meus senhores. As coisas não são assim. Mais do que teatros de bairro, mas sérios investimentos no saneamento, na higiene, na infraestruturação e na qualidade de vida na cidade. Mais do que jogar as responsabilidades e as culpas para debaixo do tapete, mas medidas concretas em relação aos problemas reais. Vamos, agora, aliviar as coisas e trabalhar por esta causa comum. Em respeitos aos vivos e aos mortos. Na certeza de que deste lado estamos lúcidos. E consequentes…é pagar para ver!

Porto, aeroporto, estradas & etc

Falta muito, faltando mais à minha cidade. Faltam equipamentos de mais qualidade: porto, aeroporto, estradas & etc. O desenvolvimento só se processa com o homem educado no espaço equipado. De escolas (do básico ao superior), de hospitais (por demanda populacional), de ruas asfaltadas (ou pavimentadas, a gosto) e de praças (com flores e monumentos), entre outras tantas coisas que dão dignidade e cidadania. Assim, terra de ninguém - de porto atrofiado, aeroporto tacanho, estradas medíocres & etc -, as coisas não funcionam. Não só para a minha cidade, mas para o país todo. Falta muito, faltando mais, e terá chegado a hora de interpretar Saint-John Perse: Os tempos são fortes e a hora é grande.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O tempo circular dos tempos





Glosa

Serão os verbos, a verve e a tecitura esta obsessão de te rever na próxima esquina? Neste tempo de “múltiplos tempos”, estarei contigo no imaginário e na lembrança tão-somente. Não pude, qual Sharezade, perpetuar os nossos encontros em estórias de Mil e Uma Noites. Nem pude – e eis como estranha a minha ledice – postular outro vôo de pássaro que não fosse aquele. Os meus escritos continuarão a ser para ti, minha musa, e, em seus artifícios e alfaias, eles abordarão o tempo circular, mãe de todos os outros. Mesmo quando, por repto do quotidiano, descemos ao pulsar das esquinas...

1. O “tempo de São Filipe”

As intervenções efectuadas pela Câmara Municipal de São Filipe nalguns espaços públicos daquela cidade, oportunamente denunciadas pelo cidadão Fausto Rosário, foram agora “chumbadas” pelo Instituto da Investigação e do Património Cultural (IIPC), sob alegação de que as mesmas “descaracterizam” o Centro Histórico de São Filipe. O posicionamento do Ministério da Cultura, através do IIPC, revela um sentido de autoridade sobre as questões patrimoniais e uma atenção em relação às demandas da cidadania. Os poderes públicos devem ser capazes de responder, em tempo crítico, às descaracterizações dos elementos patrimoniais e ambientais de Cabo Verde, para além dos interesses partidários, económicos e outros. Sem afrontar quem quer que seja, nem fulanizar certas questões, é imperioso um reordenamento das coisas em muitos pontos do país, onde o caos se instalou e a crítica entrou na ordem do dia. Não podemos permitir que o património cultural e ambiental seja delapidado. A destruição, ou mesmo a descaracterização dos nossos bens patrimoniais condiciona a nossa memória e o nosso sentido de tempo histórico. A quem compete preservar e valorizar a nossa identidade? Preservar é um direito e um dever de todos nós, de todo o cidadão, e também do Estado. Cada um de nós deve estar atento aos grandes empreendimentos municipais e outros (privados, inclusive), evitando que os mesmos colidam com o patrimônio. Ao saudarmos a iniciativa do IIPC não significa defendermos a paragem no tempo. O município de São Filipe, como todos os outros de Cabo Verde, precisa de saneamento básico, de infraestruturação e de edificação, valores que agregam melhoria de vida aos cidadãos. Mas as diferentes velocidades dos tempos não se devem colidir. Por isso, as coisas têm de partir de um verdadeiro pacto social entre o Governo, a Edilidade e o Cidadão. Desta tríade, ninguém deve ficar de fora. O resto é karkutisam e o país não pode derramar seu “tempo”...

2. O “tempo claridoso”

Não se pode também lidar com o passado como se ele não existisse. Nem se deve deixar de admitir que Cabo Verde seja uma multiplicidade de “tempos”, alguns mais históricos que outros. Por conseguinte, esta viagem, retrospectiva pelo “tempo claridoso”, um dos mais marcantes, se não o mais determinante, da nossa modernidade literária, se tornou imperiosa. Ao meu ver, a Claridade começa em 1935 e o arauto de tal fenómeno terá sido o poeta Jorge Barbosa. O seu livro “Arquipélago”, publicado nesse ano, traz embutido todos os signos e premissas de “pés fincados no chão” e “olhos voltados para a realidade social”. O afrontamento temático dos claridosos estava todo ali. Mas foi no ano seguinte, em 1936, com o lançamento da Revista Claridade, na cidade do Mindelo, que o sentido ganha dinâmica e sistematicidade. Dir-se-ia que a nova largada, inscrita no escrita barbosiana, ganha então transcendência. Dá-se claramente uma mudança de paradigma, rompendo os intelectuais com o mimetismo cultural, ora modal e costumeiro, em prol de novos fundamentos e problemáticas. O imaginário, bem como o processo criativo, desloca-se para o cenário das ilhas e para o drama das suas gentes. A Geração de Baltazar Lopes da Silva (e Oswaldo Alcântera), Manuel Lopes e Jorge Barbosa, e a de seus contemporâneos dialécticos, António Aurélio Gonçalves e Jaime de Figueiredo, entre outros, reconfiguraram uma mitologia da cultura cabo-verdiana de um molde mais plausível e próximo – a caboverdianidade. E, em lacto senso, mudaram o nosso jeito de ser e de estar no mundo, não só a poética e a prosa ficcional, mas o ensaio antropológico e a crítica social. Outrossim, vale reconhecer que a Claridade foi também um prenúncio e uma advertência do despertar nacionalista. Era, em toda a linha, o acordar de um tempo histórico. O silencioso que se conscientiza silenciado e, destarte, questiona o mundo e a mundividência. Nos seus rudimentos...naturalmente!

3. Onde as águas não se misturam

Resignado ao sentido doloroso da existência, o Poeta caminha. Ele está ciente de não poder ultrapassar o parapeito da sua angústia, mas caminha. Agora que seu pressentimento se desfez numa perda atroz, onde as águas não se misturam, ele deambula. Balbuciando sempre a glosa de Fernando Pessoa (pois não abriria mão da sua loucura): a minha dor antiga...quem ma roubou?

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Onde a minha saudade a cor se trava

Para Béqui



O sonho…e agora, José?

O sonho acabou. Dona Mindoca, a mulher das nossas vidas, morreu. Em sentimentos mistos, busco no intertexto de “a mãe morreu”, no “O Estrangeiro”, de Alberto Camus, um absurdo conforto. O meu pai, na sua digna e infinita tristeza, balbuciará a drummoniana frase: E agora, José? Sinto os meus irmãos, tristes e indignados, ainda incrédulos dessa profunda religiosidade (não a dos templos que almejam guardiães, mas a do Zodíaco que arranja estrelas do Destino). E agora, você? No mais fundo de mim, sou um poço de dúvidas. Ao Sísifo tirem tudo, menos as pedras. Ao Cristo, não lhe retirem a Cruz. Tão pouco queiram subtrair ao Significante o Significado. Busco, no holograma deste tempo, as absolutas razões para não morrer de tristeza. Logo eu que vos suplicara, na escrita do escrito, a minha mãe de volta. Logo eu que, em acto de toda a humildade, daria a alegria, a energia e a escrita, tudo o que mais quisessem, por esse regresso. Ferido de morte, algo em mim – em nós, diria – renasce das cinzas. A dialéctica do sofrimento, sublimando as coisas. A lembrança em forma de força. A saudade em jeito de resistência. O amor que move montanhas. O sonho acabou? Da janela em que olho o vazio, ou quem sabe a eternidade, uma ciciante palavra recusa o terminal deste sonho. Voz de tão só ternura: o sonho apenas começou. Meus amigos, é ela, a mulher das nossas vidas, que eu sei…

Alma gentil

Não vos falaria aqui da Dona Mindoca, professora e pessoa pública. Nem da sua generosidade social que saltava à vista. Falo-vos agora das coisas mais íntimas, desse lado de cá da rosa. Das minhas brincadeiras com ela: Dona Mindoca não é poeta, mas Poesia. Em verdade, eu via nela uma metáfora em toda a transcendência e vivia essa mulher em todo o vate poético. E punha não minhas preces e crenças e sim as orações que me ensinara: alguns versos de Fernando Pessoa. Quem me roubou a minha dor antiga? E fiz com que se fizesse vaidosa, linda e raínha aos gracejos deste Albatroz. E sou feliz por tê-la feito sorrir mais do que chorar. E estou em paz por tê-la amado até ao fim da linha. Dona Mindoca, deste lado da lua, era um ser humano extraordinário. Ela adorava o pôr-do-sol e, sempre que víamos juntos um crepúsculo, a frase era: eis o estado de beleza que nenhum artista consegue imitar. Gostava também das plantas e dos animais. Acordava cedo para a azáfama das plantas no terraço da casa e deleitava-se com o chilreio dos passarinhos. Adorava viajar e tinha as suas paixões pelos lugares. Nem vos conto de como bateu palmas ao ver São Petersbugo, o Monte Jura e as margens do Rio Charles. O luminoso encanto no alto da serra no Ceará e muitos outros lugares por onde andou, sempre de forma curiosa e generosa, fazendo amigos e expandindo Cabo Verde. Falo-vos aqui e agora de uma luz boa e terna, e quiçá eterna, que passou pelas nossas vidas. Como uma estrela a riscar o firmamento e deixou o travo da suprema beleza…

Post Scriptum

Manda a nobreza, em nome de todos, agradecer aos que nos últimos dias fizeram por salvar a Dona Mindoca. A boa intenção, mais do que o sucesso, tem a sua divindade. E, em toda a dignidade desta nossa dor profunda, queremos reconhecer publicamente o empenho de todos. As dúvidas, as frustrações e as revoltas, que ainda nos dilaceram, estão a ser sublimadas. A morte da Dona Mindoca não será um acto de ficar no ar, antes de mergulhar no esquecimento. Queremos também agradecer ao conforto que nos dá, nesta hora de catarse, um turbilhão de amigos e conhecidos.

Post Post Scriptum

Este texto é S/Cem Margens. Por conseguinte, ele é meu. Mas o escrito nesta escrita, tenho a certeza, poderia ser assumido, com mais engenho e arte, por um punhado de apaixonados, nomeadamente Anastácio Filinto Correia e Silva, José Cardoso, Osvaldo Correia e Silva, Antero Simas, Benilde Correia e Silva, António Correia e Silva e Alberto Correia e Silva. E, numa dimensão de mundo novo, pelos netos da Dona Mindoca – a “Geração da Gelatada”, que é hoje o nosso sofrimento abreviado.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Mayra e Dudu


Hoje, vou falar-vos da música. Não da música, em sentido vasto e caudaloso. Mas de dois álbums, acabados de sair: “Navega”, de Mayra Andrade e “Nos Kantador”, de Dudu Araújo. Estes dois trabalhos discográficos são, antes de mais delongas, o corolário da maturidade a que chegou a música cabo-verdiana. Acrescido à singular interpretação desses artistas, o groove atingido por todos quantos, na linha melódica, rítimica e do arranjo, se alinharam na feitura de tais álbums. Das características comuns entre Mayra Andrade e Dudu Araújo, sublinham-se a potencialidade vocal e interpretativa, o bom gosto na escolha de composições (e compositores) e o arrojo dos arranjos. E nem disse a marca mais sintomática: o charme de apresentação em palco (sorriso, sobriedade e inteligência). Alguns reparos, entretanto. Mayra Andrade, emergindo também como compositora de boa verve, tem uma excelente banda, faltando-lhe um ou dois elementos cabo-verdianos para que se instale a naturalidade da toada crioula. Dudu Araújo, ao contrário, precisaria alinhar aos seus exímios músicos (onde Bau é matricial) o vórtice de um instrumentista estrangeiro, habituado a escalar montanhas para lá das pentatónicas. Mas tudo isso, é palavreado de um leigo que percorre a música como um andarilho acidental, razão que relativiza qualquer tentação de postulado. Em verdade, gosto da música por gostar tão-somente. E nesta (in) capacidade, recomendo-vos vivamente Navega”, de Mayra Andrade e “Nos Kantador”, de Dudu Araújo…

segunda-feira, 31 de julho de 2006

De coração e de oração, com Vadú...

O compositor e intérprete Vadú, um dos expoentes da Geração Pantera, encontra-se gravemente enfermo, na sequência de um atentado à faca no Festival do Tarrafal, neste último fim-de-semana, notícia que nos consternou e revoltou.

Aderimos, como milhares de cabo-verdianos em todo o mundo, à corrente positiva que almeja pronta recuperação do autor de “Preta”.

Estamos, de coração e de oração, com Vadú...

Apesar da escrita, do engenho e da arte

O estado da nação

O estado da nação é bom, se analisado o ponto de partida e a vizinhança decadente, mas ele não permite deitar e rolar. Falta muito, muitíssimo, fazer para que Cabo Verde perca a vulnerabilidade e ganhe desenvolvimento sustentável. É tudo tão contingente! Mesmo as grandes conquistas não estão asseguradas contra a irreversibilidade. E a ilha maior – Santiago –, bem como algumas ilhas, precisa de estruturação mais profunda e radical. A todos os níveis. Não se constrói país em duas velocidades antagónicas, mormente em desaceleração da demanda, do potencial e da força. Ele não nos permite , por exemplo, estar satisfeito com a Praia às escuras, com um porto medíocre e um aeroporto ridículo, para não falarmos da insegurança e do policiamento inibido. Bater palmas com o Plateau esburacado, com as construções clandestinas, a venda caótica nos passeios e a tresanda excrementária dos becos. Assim não. Não, não e não. Há grandes investimentos, ajudas orçamentais e obras. Tudo isso denota dinâmica e, em abono de justiça, damos mérito à governação. Mas há interiores encravados, há ilhas à margem e há gente à míngua, faltando por isso muito, muitíssimo, fazer para que Cabo Verde ganhe a velocidade do cruzeiro neste Atlântico Médio, que a NATO tanto aprecia…

O escrito versus a escrita

O escrito tem de ter escrita, parametrizada no engenho e na arte. Assim, foi instituído o Verbo, no iniciático tempo em que os espíritos pairavam sobre as águas. De então, o ofício, tao sagrado quão profano, que determina ao escriba o seu talião. Não se fala aqui do escritor, pois não se lhe concede mesuras cor-de-rosa. Ora o cronista faz rir, para não fazer chorar. E vice-versa. Ora ele sai dos salamaleques e “poesia só tenho a de pedra e na pedra forjada”. Tomai-o por coerente, entretanto. Mesmo quando viesa a prosa para o pôr-do-sol ou para a romantizada praia dos desgovernados. Ele jamais seria uma opinião alienada, demissionária e colaboracionista, como alguém quis que fosse. Ás vezes, não opina por razões de estratégia. Outras vezes, manda indirectas evitando confrontações estéreis. Mas se a raia chega aos fundamentos, os que norteaim princípios e interesses, desta confraria, aí sim o seu escrito se torna acutilante, fera e guerreiro. Apesar da escrita, do engenho e da arte…

quarta-feira, 19 de julho de 2006

A cabeçada do Zidane



Praia de Santa Maria de Esperança

Vejo a Praia de Santa Maria de Esperança e sei que amanhã será outro dia. A mudança terá de ser interior, antes de ganhar a dinâmica de um arquétipo diferente. Platão, de túnica branca, fora à Acrópole suscitar Diálogos. Fora um momento de luz. Milénios depois, esses mortais estão na caverna da Razão. No café, à lânguida esplanada onde a bizantinice reina e os reformados impõem a razão por gritaria, fala-se da cabeçada do Zidane, do recorrente clima de kásu bódi, dos Direitos Humanos, dos claridosos, dos caridosos e dos mendicantes. Cada cidade tem a acrópole que merece, menos Praia que merecia uma opinião pública mais acesa, acutilante e consequente. Os sequestrados do Plateau ficam ali à roda e à sucessão dos dias, esperando que a areia flua da clepsidra. E o pessoal discute os apagões da Electra com atrevida impotência. Pessoalmente, já nem falo mais da Electra, não para evitar susceptibilidades diplomáticas e disparates afins, nem a medo de bilhetinhos ameaçadores, mas porque deixou de interessar. Os apagões continuam, com a falta de água de permeio, e esta é uma afronta quase colonial. Mas continuamos com a nossa luz interior. E a balbuciar a música de Chico Buarque de Hollanda: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”…

Quando as palavras se impõem

Perdoem-me se vos habituei mal, com largas mesuras de cavalheiro e algum hilariante rasgo de permeio. O Pranchinha, meu defeituoso alter-ego, depois de vida tão severina, me deixara em sábias e testamentárias lições quais retornar à pedra, como escrevera o Poeta Mário Fonseca, fosse o mais ontológico da minha narrativa. Doravante, deixarei de adjectivar e serei todo mineral perante a iniquidade. Perdoem-me, de coração. Poderia, vez por outra, guardar as margens: nesta idade não importa ganhar todas as batalhas. Poderia até, diante dos valores mais altos, ficar pelo grito do meu silêncio, que das minhas atitudes seria o mais letal. Todavia, há palavras que se impõem. Rompem a barragem e se afirmam sem margens no açougue das águas. Diante dos altares, fico mais aceso do que as velas e não me ajoelho perante a grandeza. Tão frágeis as grandezas que se decompõem amiúde à minha fé de grão de areia. Não vejo por que as letras, mesmo as mais belas, tenham de recusar o quotidiano, nem razões para que o cronista se esconda sob a máscara de um enorme Carnaval. Aparelhar as palavras e dispô-las em crítica é uma profissão de risco, que eu sei. Exige, para lá do engenho e da arte, uma aventurosa força de vontade perante a realidade. Por conseguinte, este cronista nunca seria aqui um homem de resguardos…

Nós e os grandes arquitectos

Acarinhar a excelência não tem sido apanágio da nossa gente. Cesária Évora é rainha em todo o mundo, menos entre nós, onde a excelência e o sucesso se acanham. No café, à lânguida esplanada, os homens maiúsculos são desmerecidos, para o gáudio dos medíocres. A inveja é a terapia dos desgraçados. Desgraçadamente, com perdão pela redundância. Teríamos tido a oportunidade de um traçado de Óscar Niemayer aí no conjunto da Biblioteca Nacional e perdemo-lo desgraçadamente. Teríamos tido a oportunidade de acoplar à antiga Capitania dos Portos do Mindelo um aquário projectado por Peter Chermaieff e deixamo-lo morrer ainda em maqueta. Também desgraçadamente. Teríamos tido a oportunidade de um projecto assinado por Siza Vieira aí no vale da Cidade Velha e, desgraçadamente, fizemo-lo ofuscar por outras práticas. Trago estes exemplos apenas e tão-só para nos recordarem dos dias que correrem impunemente para o mar. Enfim, coisas e loisas, de um país que ainda não se libertou de todos os seus pesadelos e continua em défice de homenagear um dos seus artistas maiores: o pianista cabo-verdiano-americano Horace Silver. Arquitecto imprescindível do jazz contemporâneo.

N ta mora li

Talvez coubesse dizer que Abraão Vicente, cujo programa televisivo ainda não superou a nossa expectativa, arranhou mesmo a sério algum status quo. Mal proferiu a merecida frase e, abre-te Sésamo, os animais saíram da toca. Furiosos, furiosíssimos. O Carmo e a Trindade, mais a ira do instalado, vociferam pela cabeça do jovem artista. Obviamente que há um pensamento estruturado para a Arte, inclusive a plástica, mas , em strictu sensu, Vicente terá acertado na mosca. Grande cabeçada de Zidane. Um dos sintomas desse hiato, é o corporativismo exagerado de certos barões que se acham imunes à crítica. Hora de molhar as bases desse castelo só de areia. Fui…

Bónus track

Ataque israelita ao Líbano: meia centena de civís mortos. Permitam-me a licença de vomitar. Não tenho estomâgo...

terça-feira, 4 de julho de 2006

Zero Ground em lhana manhã de Julho





História, com Poesia

O país faz anos (31 bem contados) e o mote da crónica é esta efeméride, a maior (e a melhor) do processo histórico de Cabo Verde. A Independência Nacional é o momento zero no chão da República. É mais do que isso: um país que desponta para o mundo, com passos seguros e notórios. Os aspectos exaltantes ultrapassam de longe os pontos críticos. Pessoalmente, orgulho-me deste país e, na próxima encarnação (se a dita existir), quero voltar cabo-verdiano. Regozijo-me com o desempenho global do país e com a tangibilidade da malha nacional até à diáspora. Faz-se História, com Poesia. Permitam-me que eu dê uma salva de palmas a Cabo Verde. A minha última ovação fora a um pôr-do-sol em Fortaleza. Na velha Ponte dos Ingleses…

Independência às escuras

O aniversário da Independência Nacional é comemorado às escuras. A meretriz uma vez mais nos prega partidas e nos ludibria com técnicas à mistura. Caso para dizer que ela não está “tecnicamente” em condições de permanecer. Há um rol de anos, o Pranchinha vivíssimo da silva questionara o negócio da China que entregava a água e a energia ao bandido. O lúcido já vira dar muito ouro ao bandido, mas água e luz era mesmo coisa inédita. E fazendo jus ao bizarro, a monopolista revelou-se o mais formidável caso de incompetência, abuso e burrice de que se tem notícia. Obviamente que falo da magnífica, mas desavergonhada Electra, cujos poderes ocultos ninguém ousa pôr em causa. Mal a crítica se aponta, saem os cães de fila em defesa do dono e o afoito se encolhe, não vá o diabo tecê-las. A pedir medidas terminais, a Electra entra-nos nesta lhana, manhã de Julho, como diria o Poeta Osvaldo Osório, em sua máxima sabotagem. Caso para gritar, a despeito de incomodar os senhores da praça: Viva Cabo Verde, abaixo a Electra…

Breu, lixo e kásu bodi

Não se pretende agora estragar a festa, nem ser aqui desmancha-prazeres, mas este ano prefiro ficar em casa, alheio a qualquer forma de procissão. Este amuo não tem a ver com o Plateau esburacado e descaracterizado, para o gáudio de muito bairrista de serviço. Tão-pouco tal resistência pretende boicotar algo. A emenda e o soneto se merecem. Quem sou eu afinal? Apenas um temente de Deus – não dos pequenos deuses de esquina, note-se –, mas que não se ajoelha em nenhum altar. Ou tão-só um indignado do breu, lixo e kásu bodi…

Nota aos colegas jornalistas

Achei desproporcionada a reacção dos jornalistas (não de todos, por sinal) às declarações do arquitecto Frederico Hoppfer Almada. Naturalmente que o termo “expulsão” não foi elegante, mormente vindo de um político. Ímpetos de linguagem, quem sabe. Entretanto, não houve entre a classe a apreciação do contexto e do conteúdo dessas declarações. Pelo que se depreende o cavalheiro não pôs em causa a liberdade de informação dos jornalistas, mas sim o desempenho deficitário dos mesmos. Não sei se houve de facto casos de incompetência, pois me faltam dados para ajuizar. Mas se a incompetência for confirmada, manifesta e recorrente, nada mais legítimo do que a sua contestação, em defesa de uma melhor informação e comunicação social. Sem dramas, nem politiquices. Os padrões de qualidade devem ser exigidos a todos. É a condição do mercado, caros amigos. Ademais, ninguém deve estar acima do crivo crítico. Com elegância…naturalmente!