quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

À andaluza

por Filinto Elísio






Em memória de Lúcia Dias


1.



Faleceu Lúcia Dias. E a morte, uma vez mais, tem destas. Apanha-me de surpresa. E, entre o espanto e a tristeza, uma espécie de fúria invadiu a minha alma, cada vez mais metafísica. Não quero conhecer detalhes, nem ouvir explicações, agora que algo me diz da irreversibilidade que é a ausência desta minha amiga. Só queria recitar, entre dentes e para os meus botões, os versos Quando eu morrer batam em latas. Muitos foram os momentos em que me privei com Lúcia Dias. Em verdade, éramos amigos desde a infância. De então até ontem, a sua alegria fazia transbordar a minha vida, ora de riso, ora de reflexão. De riso, porque Lúcia, mesmo no siso, era inteligentemente bem humorada. E de reflexão, porque, pessoanamente falando, tinha na mais pueril gargalhada uma essência taciturna que me perturbava. Lembro-me dela, há quase trinta anos, confessar – a brincar bem me parecia - que tinha um coração grande e eu – dado a trocadilhos ali sem consequências – que ela tinha, sim, um grande coração.



2.



Uma vez, nos Estados Unidos, encontrei-me com Lúcia Dias, parte de uma delegação governamental. Se não me engano, ela acompanhava a visita do então primeiro-ministro Carlos Veiga a Nova Inglaterra. Reza a história de uma manifestação que preparávamos na época, chamando atenção para o Armazém de Cabo Verde, na cidade baleeira de New Bedford. Mas ela, distinguindo sempre o trigo do joio, quis um encontro onde pudéssemos falar de tudo. E de nada. Jantámos juntos num restaurante, em Cambridge, de onde a envidraçada cidade de Boston parecia um poema monumental. E, mais de que encantamento, ambos ficamos de repente nostálgicos. E quis que, por razões misteriosas, eu a recitasse, nesse difuso de luzes ao fundo, o poema Fim, de Mário Sá-Carneiro. Por isso...



Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

3.

Saudei, com alegria, que Lúcia Dias abraçasse o jornalismo. Ela sempre fora comunicativa, condição para ser, antes de mais, uma comunicóloga. E que tivesse ido estudar a Cuba, país radioso e radiante, onde a revolução não conseguiu matar a religiosidade, nem o bloqueio serenou a ânsia das artes. Ela apostara no jornalismo como forma de vida, pela razão de que o jornalismo deve (por imperativo ético) assumir a preocupação do homem no espaço e no tempo. Fê-la até ontem, com sentido de causa e consequência. Nas mais variadas funções que ocupou, ela foi fiel e leal ao imperativo ético da sua profissão. Que o digam os colegas...

4.

Tive a dita de almoçar com Lúcia Dias, há um mês e tanto, no Mindelo. Participávamos num encontro sobre a comunicação social e a diáspora cabo-verdiana, promovido pelo Instituto das Comunidades. Falava-se de tudo um pouco. Da necessidade de uma Rádio Global Cabo-verdiana. De maior integração mediática das comunidades. De uma central de notícias. Um almoço ruidoso. E do restaurante, envidraçava a linda baía do Porto Grande e recortava de, um ponto, a ilha de Santo Antão, e, doutro ponto, o Monte Cara. E com um olhar, entre a alegria e a reflexão, Lúcia Dias quis recordar...como era mesmo o poema de Mário Sá-Carneiro. Assim, minha amiga...



Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...

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