terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Travessia

Travessia

Disse, uma vez Cláudio Vivo (dou um doce a quem descobrir o seu paradeiro): É triste, mas verdadeiro. A grande maioria das pessoas passa por esta vida imersa na multidão, cumprindo prazos, pagando contas, morrendo de medo do futuro e idealizando um passado remoto que é na maioria das vezes um monte de sequelas. Outros (poucos, loucos e raros) desafiam, desafinam este coro de contentes descontentes. Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram à beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo. Não sei se os leitores entendem o espírito, mas os tempos pedem um esforço de compreensão. Entrementes, estava no terraço de um ferry que nos atravessa o canal entre São Vicente e Santo Antão.

On the road

Estive em Santo Antão e caí de quatro. Fiquei impressionadíssimo com as montanhas e com as cordilheiras. Todas imponentes e caprichosas. Desafiando tudo. A terra e os homens. Mentalmente revi os retratos de “Flagelados do Vento Leste”, de Manuel Lopes, um romance marcante. Em Ponta do Sol, alojei-me perto da minha casa da mais tenra infância. E, por um relapso que só Freud explica, revivi o convívio com Nha Juliana e os passeios à mirada de Ponta de Pistola. Palmilhei a ilha de lés a lés e quase quis parar – assentar de cama e mesa! – em Ribeira do Paul. Mas havia um comício mais à frente e uma eleição para ganhar…

Campanha alienígena

Abro os jornais e acompanho o impropério. Ainda bem que isso só acontece num planeta bem distante. Em Cabo Verde, as coisas já são diferentes. País do milénio, do desenvolvimento médio e da categoria 1, ora. Mas dizia, o dito acontece num planeta a mil milhas. Ali, a fraude eleitoral é cassete gasta de todo o derrotado nas eleições. Uma linguagem violenta, virulenta e rasteira. Com verguinhas, cimentos e euros à mistura. Os cartazes gigantes, médios e pequenos, espalhados pelo planeta, são para o inglês ver. Na ante-véspera das eleições, está-se mesmo a ver, a capotona faz das suas e sai pela calada a comprar votos. As capelinhas, as clientelas e os carreiristas de sempre. Dão vivas e abaixos diante da multidão. E querem ganhar à força (e à sombra) umas eleições já perdidas. É a lógica do verbo fácil, demagógico e conventual, onde o Estado é palavra vã. Assim não dá…

Musa de amarelo

Em Ribeira das Patas, conheci uma linda jovem. Estava grávida e vestia umas camisolas amarelas, pilon-pilon. Quis saber das suas razões, além do entusiasmo político, pontuado pela batucada. Ela falou-me do futuro e da sua responsabilidade maternal. Prometi sugerir à dita, musa da campanha, disse alguém, um nome para o primogénito. Vai ser um nome bonito, risonho que nem a aurora. Para, como diria o poeta Mário Fonseca, quando a vida nascer…

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Os desgovernados

Sobre aquela praia

Como se a espiral desse agora mais uma volta, assim eles se encontraram tantas luas passadas sobre aquela praia. Que o passado esteja morto e enterrado. E dele fique lembranças, ora boas, ora nem por isso, mas sempre cândidas de mãos fadadas para um reencontro. Esquecidos da elementar cautela, os desgovernados amaram-se pela madrugada e a sorte, que sempre inveja, soube serenar o seu ímpeto de maldade. O amor é o melhor que há nas nossas vidas, escrevera ele em tempos distantes, noutras paragens. E ela então prometida ao destino suspirava o derradeiro encontro, como se de “Amor em Tempos de Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, tudo se tratasse. E a espiral, cumprindo mais uma volta, fez do fugaz o que a vida tem de eterno. Mesmo que soletrada sobre aquela praia…

Um novo mundo é possível

Em tempos de campanha eleitoral, a crónica fica entontecida. O texto tem de se apartar das tentações e o cronista fica esquizofrénico. Por isso, ele fala de amor, que é a mais profunda forma de subverter as coisas. E por falar de amor, acontece neste momento o Fórum Social Mundial, desta feita na Venezuela. O Fórum se define como um espaço mundial de debate democrático de ideias, aprofundamento da reflexão e formulação de propostas que se opõem à ditadura do capital. Vale a pena conferir esta cosmovisão no Site: www.forumsocialmundial.org.br . Nele li um extraordinário discurso de Hugo Chaves sobre Sandino, Simon Bolívar e Pancho Vila. Não só o texto retórico estava impecável, como a semântica era toda conseguida. Nestes tempos em que a América Latina retorna às lideranças necessárias, valerá a pena acompanhar o mundo com uma visão mais alargada e crítica. O nosso olhar não pode ficar confinado às eleições portuguesas, desaguadas em Cavaco Silva, mas têm de extravasar para mais além. Céu é grande, mundo é largo…


Águas passadas…em festa

Acontece a qualquer um embriagar-se numa vitória eleitoral. Logo eu que sou fã de Kundera e tenho sempre à mão “O livro do riso e do esquecimento”. Pois, dizia, acontece a qualquer um saltar, sorrir, dançar e gritar vivas. Quem diria, eu que não vou à procissão, nem à manifestação. Eu que vejo a vida e a morte, como um albatroz, convencido que o poeta nunca foi deste mundo. Mas esse celebrar transcendeu a um devaneio passageiro. Sofri a cada hora da campanha, a cada minuto da contagem dos votos e a cada segundo do anúncio dos resultados. Não nego que essas eleições mexeram com a minha estrutura muito mais do que eu gostaria de admitir. Pelo sim e pelo não. Por isso, são águas passadas…em festa!





O gado em raiva & já faltou mais


Soube, por travessas portas, que o gado continua raivoso. Há quatro anos raivoso. A destilar alcatrão quente pelas ventas e a vociferar mil pragas contra o alter-ego do Pranchinha. Este também não é flor que se cheire. Tão logo diluído no esquecimento, volta à carga, atiçando os do palanque para o diálogo dos dias. Pôr as ideias a circular é o apanágio dos democratas, razão porque não se compreende que o gado continue tão neurótico. Tendo o vulgo indagado as razões de tamanho fiasco, o Pranchinha respondeu, com aquele humor de espantar catedrais: “O efeito ‘manito bomba’ é de feitiço contra feiticeiro, ó minha gente”. Mas não tardará muito para que possamos voltar à normalidade. As eleições são necessárias, porque dão oxigénio à democracia, mas cansam. Exacerbam. O nosso espírito já pede algum remanso, algo como uma paz. De uma nuvem que se instala, linda como um algodão doce, diante do nosso olhar existencial…


Os desgovernados

Os desgovernados olharam o céu e aquiesceram. O que dirá o Zodíaco sobre o futuro e a angustiosa decifração dos enigmas? A tremeluzente cidade, adormecida, dolente na sua aparência. O arfar das horas monocórdicas e dos corpos assustados. O importante é haver vida e vivê-la com sentido. O resto…ondas que beijam a praia e depois partem. Liquefeitas, realizadas, saciadas…

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Aquariano pós eleitoral

Crónica recortada

Desta feita, faço recortes. Não por falta de assunto. Mas por excessivo assunto. Saio à rua e tudo muda de figura: cartazes, bandeiras, músicas, farpas e fanfarras. Está-se em tempo eleitoral e eu, como a maioria dos cabo-verdianos, vou votar no próximo domingo. E, quem sabe, apesar da sandice de certos discursos, estejamos novamente a fazer história. Manifestamente há civismo nestas eleições. Tirando um ou outro caso, a lembrar que “quem não suja à entrada, fá-lo à saída”, tudo corre como manda o figurino mais civilizado. Às tantas, percebe-se que a democracia é um excelente processo civilizatório. Isto é, aos poucos, vamos perdendo a barbárie que nos torna exacerbados uns com os outros.

O Pranchinha revisitado

Daria tudo para reavivar o Pranchinha. Este também daria o céu para assistir a tudo isto. Obviamente com o seu humor consequente de quem destrinça o trigo do joio. Por mais isento que o gajo se assumisse, fazendo jus à sua mania de juiz, nestas eleições a neutralidade parece impossível. De resto, não se pode ficar neutro, nem indiferente perante Cabo Verde. E Pranchinha teria de entrar na dança, seguir a procissão e subir ao palanque (ó política a quanto obrigas!). Frequentar a conversa de café. Curtir a demagogia dos assessores lusitos, compará-los aos tupiniquins de outrora, e lamentar a marginalização das competências locais (mesmo quando não mercenárias), enfim…o que o Pranchinha tem perdido nestes dias!

Conversa de café

Devíamos ter ido lá todos, amigos e conhecidos, nunca inimigos, diga-se, ouvir o que o homem tem de novo para dizer. Saber se há novidade, pois das velhas coisas (não por serem antigas, mas por serem ultrapassadas) já não há vencimento. Esperarmos que o discurso não traga desgraças, nem que os gestos sejam de briga. Já ninguém quer ir para a Pasargada, de modo que terá de ser aqui, na Tapadinha. Caso para dizer que estamos condenados ao entendimento. Obrigados ao destino comum, por Cabo Verde. Por isso, e porque há valores que transcendem a política, a tolerância e o diálogo devem falar mais alto. Devíamos, pois, ir à conversa de café. Para expressar as nossas “posições espontâneas”. Ou quanto mais não seja pelo café. Que nunca defraudou ninguém…



Xatiadu ku flipadu

O comício ia forte e feio, cheio de desgraça e de má-língua, vaticinando para Cabo Verde tsuname, tremor de terra, erupção vulcânica e praga de mil pés. O comício do pessoal xatiadu ku flipadu, pronto para tomar a terra de assalto e para ver se era daquela que a malta comprava gato por lebre. De repente, surge o jornalista no meio do apupo dos imbecis, uns mais fanáticos do que outros a mandar vir farpas contra o gajo. “Li o teu artigo no on-line”, diz um cão-de-fila, pronto para saltar na presa. O seu comparsa põe o dedo em riste e ameaça o jornalista. Gente que confunde estado de direito com da direita. Onde será que vimos isso? Alguém se lembra das ameaças pidescas? Em tempos do Estado Novo, seria? É pá…uma corja de fascistas!

Aquariano pós eleitoral

A 24 de Janeiro, este aquariano fará anos. São muitos e não os vou dizer ao leitor. Só direi que continuo engajado às coisas da arte e não às circunstâncias da política. O tempo eleitoral está sendo uma excepção, uma espécie de intervalo para dar o meu contributo modesto. Como cidadão não ficaria bem com a minha consciência, se visse este momento a partir do cais de ver passar o barco. No dia 13 de Fevereiro, faça sol ou chuva, venha nuvem ou Juno, voltarei aos meus poemas e às minhas pesquisas. Como diz alguém que me é próximo, “é tempo académico, mano”. Et pour cause, a partir dessa data, regressarei ao meu âmago. Aquariano tem cada uma…

sábado, 7 de janeiro de 2006

Rio

Eis que um rio que nunca deveria ter tido outro rumo regressa agora às suas margens. Não saberei se por saudade ou se por cansaço. Ou se por alguma vocação impregnada às coisas que termina sempre o seu a seu dono. Os abraços, a boca, o cabelo, o sexo, o perfume, tudo exala um retorno mais que eterno. E eu, perplexo diante da vida, deixo-me escorrer nessa torna-viagem como se a sina me viesse já escrito. E nós, ao fim e ao cabo, cumpríssemos uma rota concêntrica. Em torno deste enorme amplexo…

sábado, 31 de dezembro de 2005

Feliz Ano Novo

Boas lembranças para todos, bons festejos. E, sobretudo, um Ano Novo, com muita prosperidade, paz e amor.

Nota: Arte é a condição sine qua non para uma resolução alternativa.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

INTERVALO

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado
- Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
- A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

FERNANDO PESSOA

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Soneto desviado

Soletrava ela ou ele – não importa,
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe –, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.

E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.

Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.

E saberão (dele ou dela) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto…

Passaja d’óne

Uma espécie de nuvem atravessa a manhã e se instala, nublada e cinzenta, na minha alma. Não sei se da geofísica ou se da minha tristeza, mas o certo é que jamais verei a águia que por mim passou e, se calhar por leviano romantismo, me deixou este travo de saudade. Também confesso que a divisa entre um ano que finda e outro que começa me deixa entre a euforia e a nostalgia. Quem dera poder, como os demais espantar os fantasmas que, noite e dia, invadem cá dentro as minhas catedrais. Tudo se esvai. Inexorável é a areia que vai com o vento. Insustentável este sentimento de perda que a pertença, quase sempre, não processa. Estou na beirada do rio Charles, em Boston. Numa ruidosa rua de São Paulo. Ou, no alto do Monte Verde nesta friorenta manhã, onde a águia atravessa o meu estado da alma. Não sei se da geofísica ou se da minha tristeza…

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

por Eduardo Alves da Costa




Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.



Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.



Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.



Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.



Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.



E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita - MENTIRA!


Nota do Blogueiro:

Natal: rebuliço do vento

Venta. Lembro-me da minha tia-avó Mamazinha a discorrer sobre o equinócio. Lá fora o rebuliço do vento. Aquele redemoinho. O silvo de uma melopeia triste. Dos que cortam na alma. E o fino corte na fímbria da tristeza. Das que se revelam apenas num olhar de soslaio. Relance de transeunte. Fugaz estrela. Ou tão-só cadente. A riscar o céu. As luzes, os sons, as gargalhadas, a mesa farta e o pinheiro enfarpelado se esvaem na retina desse espelho. De nada adianta a multidão se cá dentro deambula, alheio ao vento, um homem só…

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Os juízes e os nossos deuses de esquina

(O Salão Abílio Duarte está cheio e a multidão celebra a chegada do candidato. Nos bastidores, é tudo adrenalina. Mayra Andrade está em Cabo Verde a emprestar poesia a este Natal de rebuliço comercial. No Senegal, faleceu a minha tia Ivone. Ainda estou por saber quem julgará os juízes. E os nossos deuses de esquina…)


Pórtico

As Festas aproximam-se vertiginosamente, mas a minha alma está triste com o falecimento da tia Ivone, irmã da minha mãe, pertença do que somos e do que temos em termos dos valores familiares. Naturalmente que não irei discorrer sobre este doloroso facto íntimo no S/Cem Margens que, modéstia à parte e mau grado o próprio autor, é referência pública. Entrementes, dando contas à vida, devo sublinhar que a morte é o grande reconstrutor das coisas. Relativizando tudo, mas tudo, nada se sobrepõe à perda (irreversível) de uma pessoa querida e próxima. É como se uma espécie de sol partisse para todo o sempre. Dói muito, muitíssimo…

Glosa

As Festas aproximam-se vertiginosamente, dizia, e a azáfama natalícia é consumista. O comércio é o grande ganhador de haver Natal e os pobres ficam mais deprimidos do que nunca. Sempre achei que o Natal daria uma excelente ocasião para o debate sobre o desequilíbrio social. Paradoxalmente, a celebração do nascimento de Cristo (a grande esperança dos deserdados) se transformou na exuberância dos poderosos. Pode? Não que eu seja contra a celebração e o encanto natalícios. Quem chega em casa e não encontra a Árvore de Natal, não se considere feliz, nem benquisto. Há rituais que valem a pena, porque o ritualismo faz parte do ser antropológico. De resto, cai bem sair pela Avenida Cidade de Lisboa e pela Avenida dos Combatentes pela Liberdade da Pátria e ver as luzes da cidade. Melhor, só a voz de Nat King Cole a cantar “Merry Christmas To You”, no rádio do automóvel. Vertiginosamente, e de um só gesto, apetece-me abraçar a todas as pessoas que amo…



Deliberações & milénio

Uma decisão das autoridades eleitorais, sem efeitos práticos, que o Falecido comentaria “apenas para o inglês ver”, manda um partido político retirar cartazes de propaganda eleitoral colocados há três meses. Esse ilícito, que já teve o seu impacto danoso, está a ser reparado tardia e morosamente, permitindo à opinião pública pensar que a impunidade reina e que há uma tendência de “bananização” da República. E, já agora, porque “o cujo nada tem a ver com as calças”, aproveito para expressar solidariedade ao jornalista José Leite, do Noite Ilustrada, diante do acto censurante (sem aspas, meus senhores) a uma peça feita com isenção e deontologia jornalísticas e que não belisca os princípios que enformam o sistema e a lei eleitorais. Estamos a entrar em 2006, caríssimos. Há coisas que não cabem no milénio!

Com Cabo Verde no coração

Estive na Assembleia Nacional a ponderar a nossa sala cheia. O candidato Pedro Pires dizia, às tantas no seu discurso de apresentação, que a questão de fundo já não é a de haver ou não a democracia, mas sim da qualidade da democracia que existe no país. E, se a conversa antes era a sala composta do adversário, o que se dirá agora da transbordante multidão que ali estava a apoiar o “Amigo Comandante”? Mas o tema recorrente terá de ser adiado novamente, já que é impossível não pensar na minha tia Ivone, recém falecida, cuja alegria de viver merece, aqui e agora, a recitara da minha imensa saudade…

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

A hora íntima

por Vinícius de Moraes


Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?




Rio de Janeiro, 1950

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Pinóquio ou Ronda nº 2

Contextualizando

(Uma hora depois de rodarmos os bares da cidade da Praia em busca da paz de espírito: Motcha, fechado; Pirilampo: fechado; Petu Pomba, fechado; chegamos ao Paulino, no Palmarejo. Acesa discussão. A escravatura foi abolida há 169 anos. Alguns dos nossos bisavós foram escravos. Mas até esta não discutimos a fundo a questão. Temos falado do Holocausto, outra tragédia, mas acontecida há menos tempo. As luzes na avenida prenunciam o Natal. Fala-se da escrita. O poeta é um fingidor, glosou alguém Fernando Pessoa. Eu queria tanto contar aos meus filhos a história do Pinóquio. Festival marginalizado, dizes no teu Blog)

Zero

Amiga, a grande verdade é que o mundo começou sem o homem e há de terminar sem ele. O ciclo completo não é necessariamente antropológico. Leio o teu Blog e gosto das tuas razões. Um dia, hás de entender que o mundo é um grande paradoxo às voltas. Vale termos os Raiz di Polon, Amiga. Gostei daquela: Está tudo a ver um Benfica – Manchester, um Porto – Artimedia. Ou então, a encher avenidas em passeatas...

Boa nova…lufada de ar fresco

Soube, há dias, pelo meu pai que Arménio Vieira lança em breve um livro de poemas. Nessa mesma tarde, encontro o Poeta por acaso e este confirma-me ter na calha o documento. Venha o livro, agora ou nunca. Quero ler boa poesia e não a versalhada que pulula por cá. Aguardo, com expectativa, o livro de poemas do Conde de Silvenius, um veneno contra a monotonia…e a mediocridade!

Natal a ser…

Aproxima-se o Natal e ficamos entre tristes e contentes. As luzes e as cores trepidantes trazem-nos algo como uma nostalgia e, mesmo calados cá dentro, a nossa alma chora de alguma perda. Viver é perder. Perder-se, para ser mais próprio. E no Natal, na azáfama natalícia, que nos sentimos mais sós no mundo. Ou a sós com ele, como tu predizias quando era luar o que nos encantava à beira das horas…

Cinematografia nacional

Parece ter chegado a hora de abordarmos o cinema e o audiovisual em Cabo Verde. A questão de fundo não é este ou aquele festival de cinema. Não coloquemos o carro diante dos bois. Está fora de questão adiarmos o debate. Importa, a bem da nossa cultura e identidade, uma cinematografia nacional. Para já, temos de criar as infra-estruturas institucionais que possam, via cooperação internacional e outros canais, fomentar a Sétima Arte. O cinema criou um manancial de obras-primas em pouco mais de um século. Tornou-se a mais popular e mágica linguagem antes da multimédia e fixou imagens transcendentais na retina da humanidade. Só que não se faz cinema com o aparato e os significantes. É preciso tocar no ponto certo. O Ministério da Cultura não poderá aderir ao cinema apenas por uma questão de marketing. Ele tem de se reestruturar organicamente para que o cabo-verdiano veja e produza cinema. A cadeia tem de ser montada. Aqui e agora…

Cinema Paradiso e o festival

Acontece o Festival de Cinema. Sem público, o que não é dramático em qualquer mostra de qualidade. A qualidade é hermética, me perdoem os populistas e demagogos. O meu amigo sente-se nervoso, perdido e sem estribeiras. Começa-se a procurar culpados. Típico de pessoas que não possuem referencial e tentam justificar a sua mediocridade diante da crise. Raramente a qualidade é pão que agrada todas as bocas. Mas, dizia, o festival acontece com alguns gatos-pingados e os burocratas ficam descontentes. Queriam ter público, imprensa, secretário de estado, ministro, fogo de artifício, gala, Hollywood, a ver se era daquela que o comboio entrava nos trilhos. Mas ainda é prematuro…

A propósito do cabaret no Ilhéu dos Pássaros

Ocupação do Ilhéu de Santa Maria? Eu também tenho as minhas reticências. Não que eu seja contra o investimento do magnata David Chow. Cabo Verde precisa é de mais e mais investimentos. Mas quando as coisas são de fundo, elas merecem ser socializadas com os cidadãos. Queremos saber a natureza de tal investimento no Ilhéu de Santa Maria, escrutinar criticamente os prós e os contras. Afinal trata-se de um formidável património histórico, paisagístico e ecológico. Por isso, as intervenções estruturais demandam, no mínimo, algum consenso da cidadania. O crescimento económico é bem-vindo, mas não o queremos a qualquer custo…

Sim, falávamos de Pinóquio

O escritor é uma espécie de Pinóquio. De tudo o que escreve, cresce-lhe este nariz. E os leitores já sabem nada é verdade. Nem mesmo a verdade. Escrever, dizia Pessoa, é fingir tão completamente a dor deveras. Bem criança, entre os meus seis e sete anos, eu ouvia contar a história do Pinóquio e ficava numa pilha de meditações existenciais. Era uma história, não se sabe se de rir, se de chorar. Como era bom ser Pinóquio e equilibrar sobre os ombros de outros bonecos. A vida é um show de marionetas…

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Porque...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Não há praia para ninguém, madame

As boas e as más da Tapadinha

Há coisas que só acontecem aqui na Tapadinha. Umas boas, como a cachupa refogada ou o funaná lento. E outras horríveis, como o outdoor eleitoral antes da campanha ou, pior ainda, a covardia de o tirar. A jeito ou a eito, como diria o falecido no seu tratado “Oito ou Ointenta, as Dicas da Malandragem!”. Pelas coisas boas, vamos ficando nesta paragem e, nas entrelinhas, empunhando a bandeirola, mesmo que a dita pareça um pouco o logótipo daquela lata de banha da CEE. Pelas más, me perdoem as muito feias, mas beleza é fundamental, estaremos dispostos à lida contra a malvadeza e a carniça que envergonham a malta.

A Avenida enfarpelada

A Avenida, enfarpelada de luzes, prepara-se para a inauguração. Por uns instantes, somos já cosmopolitas. Por outros, continuamos provincianos. Cosmopolitas, quando pensamos a cidade de molde integrado e competitivo. Uma urbe disposta a ser um espaço equipado, com cidadãos qualificados. O binómio do desenvolvimento. E o resto, tretas. E provincianos, quando temos a sensação de trabalho acabado, obra fechada. Nivelando a cidade por baixo, comparando com outras da região ou, pior ainda, com o passado. O muito que já se fez, é pouco. O cidadão quer melhor aeroporto, porto, circular, avenida, rotunda, universidade, praça, mercado, parque, centro comercial, centro cultural, enfim, melhor tudo. Bem-estar e qualidade de vida, no mote dessa inauguração bonita. Ora, a cidade compara-se com o futuro. A saudade que se tem é do futuro…

Ao leitor atento

Mal abro a caixa-de-correio do Hotmail, dou de caras com uma mensagem indignada. Alguém que se assume apreciador do S/Cem Margens protesta contra a minha última crónica. Impõem-se-me uma resposta, noblesse oblige. Tive de explicar ao leitor que eu jamais seria pau-mandado. Se estou a apoiar este ou aquele é por pura convicção política. Melhor dizendo, convicção cultural. Acredito que este será capaz de ter sentido histórico e não se vender ao desbarato a um punhado de estrangeiros. E aquele tomará providências cautelares contra a máfia instalada na vizinhança. Pau-mandado é o apoiante acrítico que não destrinça aquele que governa daquele que se governa, porra. Agora, gostar mesmo, gosto da poesia e de coisas mais elegantes. Política não resiste à idealização. Arte, sim senhor. Paixão. Em matéria de coração, sou leviano assumido. Apaixono-me aos 44. Um caso sério…

O Plateau e o Monte Vermelho escavado

Dou uma volta pelo Plateau e tenho a impressão de que alguém anda a sabotar este lugar. Desconfio que seja ódio social, coisa parecida. Vingança histórica. Ou simplesmente incompetência. Nossa, naturalmente. De todos nós. Que não temos nem força, nem resistência, para dizer basta. Cidadania também seria afirmar o Plateau. Protegê-lo e fomentá-lo a ser o lugar de referência e memória de uma cidade, menina do mar. Só que o Plateau não é um problema só dos nascidos e residentes, dos munícipes direi, da Praia, mas uma questão que interpela a todos os cabo-verdianos. Desde a segunda metade do século XVIII que este espaço urbano é matricial da cabo-verdianidade. Não reconhecer isso é inibir a nossa memória e votar o nosso passado ao esquecimento. Não reconfigurar esta trajectória, que tudo alberga de identitária, significará uma perda colectiva com consequências imprevisíveis. O Falecido, que Deus o tenha, do alto do seu exagero, vaticinava a premonição da merda generalizada. Já não será só a falta de água e da energia eléctrica, dizia. Mas os esgotos vão encanar e o Monte Vermelho, escavado como está, cairá por terra. E os extractores de areia, além de matarem as tartarugas e de salgarem os lençóis freáticos, acabarão com as praias. Dentro de pouco tempo, já não há praia para ninguém, madame. O caos…

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Ronda nº 1

(Seis imigrantes africanos morrem afogados a sul das ilhas Canárias, devido ao naufrágio da embarcação clandestina. Livros lidos e desafios à vista. Amanhece na cidade da Praia. Ontem, houve fogo de artifício. E eu numa melancolia de bom tamanho)



Zero

O editor e o leitor me perdoem a impertinência, mas hoje queria escrever em retrospectiva. Prometo ir e vir ao sabor do vento. Ao bom gosto do teclado, direi. Assim, como quem não quer a coisa….Uma das personagens do meu tempo era Balela (nome trocado, naturalmente), que fez grande carreira de vagabundo na cidade e tinha um português muito parecido a alguns deputados de hoje, teimosos em não levarem a oratória para o crioulo. Balela dançava no meio da praça, ao som da Banda Municipal, que, ao tempo, chamávamos de “musguêros”. Venham ver Balela a bailar o cha-cha-cha! E era a felicidade da meninada vê-lo dançar. A malta trocava o lanche de casa pela passada do dito e ficava a desoras a aprender as piruetas que o mesmo ensinava. Naquele tempo, a praça era um lugar bonito, ajardinado e alinhado. E o coreto ali imponente e o chafariz com repuxo de água. Outro tempo, aziago em muita coisa, mas em que o calcetamento não demandava cooperação internacional e outros trâmites cabeludos, sabe o leitor como são. E Balela era o rei e o senhor de tudo, porque elegante e amigo das crianças, vagabundo da primeira apanha, gente finíssima. Lembrei-me dele de repente e acho que estou a ficar velho. Ou, se tanto, a ficar mais rabugento e impaciente comigo próprio. Ou tão-só a morrer devagar. Arre, que estou numa melancolia de bom tamanho…


Amanhecendo

O amanhecer é um espanto. Da janela, temperados pela insónia, pedaços do luar banham o bocejar das horas. É-se feliz em lapsos de tempo. O resto é a mesmice que nos força à vigília. Apetece flutuar no imponderável e no improvável. Apetece saltar o cerco, correr, fugir e fazer dos confins um refúgio que seja…sonho. Ou, então, ficar calado, sereno e quieto à espera que as nuvens se dissipem sobre a manhã. Tremeluzem estrelas, ora em bocados de luz, ora em danças distantes. O que dirá o Zodíaco desta minha vida? O que será traduzido nos horóscopos e noutras leituras de premonição? Silva o vento, uiva o cão e canta o galo. Este último canta para contrariar a ideia de ser cosmopolita esta cidade. O gajo canta como um desaforado bardo e as galinhas, ensonadas ainda, convencem-se do atavismo entre o canto e o amanhecer. Mas as manhãs não cantam, mesmo que os nossos pequenos deuses prometam, de mãos juntas, acordes, ritmos e melodias. Tudo não passa de um ciclo que a cada volta de expande e deixa na minha solidão o travo da morte. Tudo é falso, falácia, ilusão. Ou, quem sabe, incandescente verdade que não interessa. Enquanto isso, cá estou a testemunhar as horas que, monocórdicas, marcam o caminho das coisas. Espreito, da fresta da minha alma, e vejo a rua ainda deserta. Amanhecendo…


Leituras do mês

Embora Novembro tenha sido um mês estressante, pude ler três livros interessantes. Li, e recomendo, "Animal Tropical", de Pedro Juan Gutiérrez, escritor que afirma, em máxima irreverência que, mau grado o “global player” e o seu embargo arrogante, o povo cubano continua a fazer amor, a andar de bicicleta, a dançar salsa e a comer arroz com feijão. Outro livro excelente é “Os Limites da Interpretação”, de Umberto Eco, em discurso directo para o leitor semântico e o leitor crítico. O livro é composto de vários ensaios sobre a semiótica como instrumento matricial da interpretação. O terceiro livro (oferta do meu irmão António) é “Historias Mal Contadas”, de Silviano Santiago, crónicas saborosas, meio densas, meio soltas, como só uma certa geração de brasileiros sabe contar. Um dia, quando for grande, hei de escrever as minhas histórias mal contadas. Prometo-vos…

Desafios

Faltam cumprir dois momentos essenciais, duas eleições importantes. À nossa maneira, apoiaremos os nossos candidatos, dando o máximo de nós, onde eventualmente sejamos mais úteis. Seria bom que cada cabo-verdiano defendesse a sua dama e consolidasse com isso o processo democrático. Pessoalmente, somos pelo PAICV e pelo Presidente Pedro Pires. Pelas bandeiras que defendem. Em prol de Cabo Verde. Não seria hora de falarmos nisso, pois o tempo das campanhas ainda não começou. Mas já há cartazes na rua, por incongruência ou provocação. O jeito é soltarmos todas – TODAS – as amarras. Uipooooooooo!

A festa acabou

E a festa acabou. Com muito cansaço e alguma saudade. Qualquer pecador teria o seu merecido descanso. Sombra e água fresca. Mas não. A vida continua. Dura, rasca e marra. Faltam erguer estátuas na minha cidade. Levantar vigas rente aos céus e desafiar a paisagem urbana. Aturdido pelo turbilhão de gente, entro no carro a cortar a marginal. O mar descansa um bocado. O imenso azul, o iodo nauseabundo e a espuma na areia. Uma ave marinha, branca, branca, branca. E, de regresso, passo em frente ao ilhéu de Santa Maria e a sua silhueta lambida na baía. É uma espécie de adeus. Dizem que em breve os chineses tomarão conta daquilo – uma decisão historicamente irresponsável e um negócio, no mínimo, da China. De facto, a festa acabou. Deixou de fazer sentido. Mas estou exausto. Na semana que vem continuo…

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Da última marcha

Seja esta a última marcha e venha depois outro tempo. Em fila e em parada, como se fossemos militares. Blocos e mais blocos. Bandeiras. Cores e hinos. Seja esta a última revista e desça depois sobre nós a estação das flores. E de repente, termos sido o halo de uma breve fumaça. Esvoaçante. Livre. Para dançarmos ao crepitar dos fogos. Hirtos, lá vão eles a cantar o novelo dos dias. Cidade erguida agora com monumentos. Cidade de ruas incaracterísticas, onde a canalha urina e defeca nas esquinas. Cidade que amamos com, se necessário, sangue, acima de todas as outras. Cidade, toda ela útero, tomada de visco dos transeuntes. E dos automóveis enlouquecidos nas rotundas. Venha depois outro tempo e sejas para mim a dançarina misteriosa na praça vazia. E o resto, lua, luar, tua dança nua. Dessa nudez de última marcha…

Monte Birianda

Estive e nunca estive neste lugar. Há qualquer coisa de topo do mundo. Para além do falso horizonte das achadas e das várzeas. Vi o teu olhar nos olhos de muitas mulheres. E de muitos homens que, de soslaio, também miravam o desfiladeiro. Mentalmente declamei poemas desconexos. Bocados de Pessoa salpicados aos de Borges e os meus pobres versos de permeio. Este lugar tem música. Cada pedra guarda acordes inaudíveis e tu sabes o que significa música nas pedras.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Monte Verde

Deu-me um branco. Um blackout na mente e, de repente, não vejo nada. Nesse relapso, o mundo parou. E tudo deixa de fazer sentido. Nem a tua mão faz sentido. Nem a rosa friorenta no alto do Monte Verde. Nem a portentosa baía e a frenética malha urbana. Nem o Vasco no seu tibetano exílio. Nem os falcões, nem as águias. Os corvos que grasnam pelas encostas. As pedras silenciosas à mercê da ventania. As nuvens vagarosas. Tudo a marcar o instante de nada. E esvai-se o branco. As cores regressam aos céus e algumas ilhas, e ilhéus, aparecem no painel do meu pensamento. E a tua mão recomeça a fazer sentido…

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Crónica tardia ou ninguém escreve ao coronel

(A campanha eleitoral aproxima-se. Tcheka ganha prémio em Dakar. José Maria Neves reafirma em Lisboa o papel geoestratégico de Cabo Verde. Chove. Chovendo mansamente, menina. Em Paris, nada está tão líquido. Há uma música de Caetano Veloso que não me sai do pensamento. Haverias de dizer que o desamparinho imortaliza. A nós, pelo menos…)

Monte Babosa

A solidão é uma espécie de espelho. Esse tempo que demora uma estrela cadente nos meus olhos. Mirada de transeuntes apressados, diria. Hora do rush. O sol a pôr-se em cores estivais. Pensar, de relance, em alguém. Fugaz o dia que acaba. E nunca mais regressa. Mesmo que na boca, sinta ainda o gosto do retorno impossível. No meio das pedras, uma insistente flor. A cidade estendida, do monte até ao mar. Sou andarilho de muitos mundos. Retirante…

Geração Pantera

A candura, a competência e o amor parecem ser os ingredientes de uma nova geração que, a força de expressão e a poesia deste tempo, chamaria de Geração Pantera. Orlando Pantera, o profundo Pantera, estivera uma vez no Instituto Cabo-verdiano de Menores à procura de emprego. A directora do ICM quis saber o seu currículo académico e ele respondeu não ter grandes estudos, mas que amava as crianças. Conta-o José Vicente Lopes num memorável texto sobre esse artista que mudou a música cabo-verdiana. Não estarei a exagerar se disser que há um antes e um depois Orlando Pantera, nem estarei a brincar se sublinhar de que mudou o tropos do cabo-verdiano. Quem é da Geração Pantera? Apenas músicos? Artistas? Penso que a malha é mais alargada. Em tempos, Mário Lúcio me dissera, na plena azáfama do Fesquintal de Jazz, que a revolução já estava instalada. Em todos os cantos do país. Em todos os quadrantes da nação. Basta ouvir José Maria Neves a discursar, a falar de amor, como um novo paradigma político. Experimente-se ver os quadros novos a projectarem o futuro. Até mesmo na economia o fenómeno está instalado. Geração da Independência. Noutra pauta, Geração Pantera…


Je danse avec l’ amour

Mayra Andrade, em dueto com Charles Aznavour, é simplesmente um luxo. Parcerias do tipo também ajudam a internacionalizar Cabo Verde. A multiculturalidade de um encontro assim traz à superfície uma série de coisas. Encontro de gerações, de géneros, de culturas, de estilos. Mayra Andrade e Charles Aznavour interpretam juntos Je danse avec l’amour. Album de Charles Aznavour. O da Mayra Andrade começou a ser produzido agora, em Paris. Aznavour canta o amor. Canta-o com beleza e sentimento. No melhor da canção romântica francesa. E hoje, como nunca, o amor deixou de ser meiguice para se afirmar como uma subversão do mundo. Estamos em tempos de terrorismos. Do Estado e do anti-Estado. Por isso, cantar o amor é cantar a paz, a existência, a vida. O amor de todas as formas. Agora veio-me à lembrança aquele conto de Woody Allen em que um professor da City College se evade para uma edição de bolso do Madame Bovary, de Flaubert, tanta era sua paixão por Emma. O protagonista sai de Manhattan contemporâneo para se refugiar em Yonville do século XIX. De todas as formas, dizia. Uma amiga confessava-me que todo o ser humano precisa fazer amor em Veneza. Quando não, em Porto Seguro onde a natureza é mais pródiga e o dólar vale muito mais. O ser humano precisa voar, rematava. Ícaro tinha razão. Ou, pelo menos, emoção…

Objectos transcendentes

Retirante, emociona-me que Tcheka tenha ganho o Prémio “Músicas do Mundo”, da RFI, em Dakar. A candura, a competência e o amor, Tcheka em pessoa. O resto, havendo campanha, ninguém escreve ao coronel. Agora que o sol morreu ou, quem sabe, ele seja vida noutro lugar, sei que a canção de Caetano Veloso se intitula Livros. Eis um cheirinho:
(…)
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
(…)