quinta-feira, 13 de abril de 2006
Quarteto, trio, dueto & solo
A terra e a água, o quarteto iniciático
De o Verbo ser o começo de tudo, inscrito
Em letras do mistério no Sagrado Livro.
Reiterou o pai, o filho e o poeta, trindade
E trio que emproam, em luz e brilho,
A estrela d´alva de um dia e sua sompra,
Nuvens que correm na manhã nublada.
Quem sabe chove, aqui e no mundo, agora
Em dueto canta-se o arco-íris que decresce
Como um sol que se assenta ali no poente.
Faltou-lhe tudo afinal, a paz e a guerra,
A solidão desbotoada da rosa e o perfume
Que enebria a una verdade de sermos solo…
Filinto Elísio
quarta-feira, 12 de abril de 2006
Lança-perfume
Rita Lee, uma das maiores expoentes da Música Popular Brasileira, apresentou um soberbo espectáculo no aterro da Praia de Iracema. Tudo, e muito mais, para comemorar os 280 anos de Fortaleza. Com os pés atolados na areia e o pensamento esvoaçado no mundo, lá cantámos em uníssono Ovelha Negra, Amor e Sexo e Doce Vampiro.
(…)
Me acostumei com você
me ferindo, me curandoa ferida
mas nada disso importaaaa
vou abrir a portaaaa
pra você entrar
beija minha boca
(…)
Mas o melhor da noite foi Luzianne Lins, Prefeita de Fortaleza. No fim do espectáculo, afirmou: “Queremos muitas mudanças. Não queremos apenas crescimento económico. Queremos mais democracia e justiça. Queremos que o fruto da produção e do crescimento sejam distribuídos eqüitativamente. Não podemos ser mais o país da desigualdade nem a capital da injustiça social”.
2.
Mas já se faz tarde. Tardíssimo. E estou com sono, soninho, como diria o meu filho Pablo.
(…)
Vem cá meu bem, me descola um carinho
(…)
Lança, lança perfume…
terça-feira, 11 de abril de 2006
Pluma na lua
Tendes vós, com mesuras retesadas, a noite
Com que o Judeu, de Shakespeare, dita ali
Sua injustiça, profana ou santa, em Veneza
E encanados fostes do Verbo, e em primo frutos…
Fostes, das tremeluzentes estrelas, a cadente
E a rápida trajectória do risco e do cisco, ao micro
Olhar de um campónio aos vastos campos
E a mão incerta que à linha o peixe aguarda…
Poetas, como pescadores na lua, e em pluma
Flutuam no jusante das palavras e a medra,
ora pedra, ora Fedra, à sombra e sua metáfora…
Em primo ou sopro derradeiro, Esopo ou átomo,
Ilhas irradiadas no espaço anil e vão do mar,
Sois de mim, dados frutos, oh implacáveis…
Fortaleza, 2 de Abril de 2006
Retalhos
Leio os blogs todos, recebendo, de cada um, os seus implacáveis recados. Em verdade, com ou sem pessoalizações de permeio, já somos um movimento e creio mister o reforço da causa. Assumidamente. Como tudo o que começa e um dia terá pernas para fazer o seu caminho, andamos ora como equilibristas na corda bamba…
Arco-íris
Acabo de ver um arco-íris. Da minha janela, o arco se vê perfeito. Uma espécie de apoteose depois da chuva. Parece até que o dia recomeça. E o meu coração, então encharcado, sorri de novo. Acho que alguém canta um samba antigo. De Lupicínio Rodrigues, se não me engano. Algo que me transporta à infância…
280° Aniversário
Fortaleza comemora 280 anos, com muita actividade cultural. Amanhã, pela noite, será o show de Rita Lee, na Praia de Iracema. Não vou perder. Gosto do estilo roqueiro-nacionalista de Rita Lee. E a irreverência da forma e do conteúdo como encara a arte. E a vida…
Quadros da Diáspora
Será para breve mais um Congresso do Quadros da Diáspora. Ocasião de ouro para falarmos da Nação Global Cabo-verdiana. Tirando uma ou outra mania elitista, deste ou daquele “dotorado”, a iniciativa é louvável e merece o nosso aplauso.Continua oportuno o “suicídio da pequena-burguesia”, em prol de mais soberania, democracia e desenvolvimento. Cabral era um visionário. Vendo as coisas como estão, saibamos distrinçar o trigo do joio…
Golpe de Estód na Paraíse
Vamos ver se deixamos em casa o bairrismo e o neocolonialismo, pois Cabo Verde não pode parar. A “turbinada”, na teia de todas as praças, precisa compreender que só estaremos abertos ao mundo se assumirmos as nossas matrizes crioulas. Sou negro, sou branco, sou das ilhas, sou do mundo. Sou sincreticamente cidadão. Setenta anos sobre a Claridade, temos de ser “independentes”, sem síndromas da Casa Grande e Senzala. Cabeça em movimento…eia Orlando Pantera!
Mayra Andrade
Un soir de janvier 2004, mû par une sorte de rumeur distillée depuis quelque temps, je fais escale au Satellit Café, un club à musique live du quartier Oberkampf de Paris, fortiche dans la mise en orbite de jeunes pousses, disons, "world". Et là, un choc, une découverte comme ça n'arrive même pas une fois l'an : Mayra Andrade redessine les contours musicaux de son pays, le Cap Vert, avec grâce, aplomb et, chose rare pour une fille qui n'a pas encore 20 ans, retenue. Certes, on sait grâce à Cesaria Evora où se trouve cet archipel (à 500 km au large du Sénégal) et on découvre peu à peu que cette terre aride ne chante pas d'une seule voix, qu'elle est foisonnante de rythmes, Morna, Coladera, Funana, Batuque, qu'elle est riche en auteurs et interprètes, rarement restés au pays, plutôt installés loin du port, parfois exilés.Mayra n'est pas une exilée.
domingo, 9 de abril de 2006
Deus é crioulo
No equinócio
Ouço a rádio, enquanto escrevo. Ora conversa, ora música. Domingo é assim. Arrumar a casa e escrever um bocado. O dia está solarengo, mas não me assumo com hábitos do turista de sol e praia. De resto, estou cá para aprender. Falando nisso, encanta-me ler o Evangelho Segundo Judas. É refrescante e apaixonante. Fomos aprendendo sempre pelos evangelhos canónicos (isto é, aqueles reconhecidos oficialmente pelo poder eclesiástico), mas às tantas nos sentíamos cristãos, católicos mesmo, mas não apostólicos romanos. Assim, os outros testemunhos começam a incendiar a nossa imaginação. No mundo da Gnose, tudo é permitido. Os gnósticos apreciam o Demiurgo, o dito criador do Universo, e, por conseguinte, o vórtice da substância e do caos. Eis que o Filho do Homem vai a Jerusalém e enfrenta o seu próprio destino. Não é o que nos contaram ao longo da vida. Cristo não precisave de Judas para ser traído. Em todas as sociedades dos homens, os traidores (e há muitos) ao lado dos iluminados. Mas leiam, por favor, Envangelho Segundo Judas…
Germano Almeida
Germano Almeida, o mais celebrado dos ficcionistas cabo-verdianos, acaba de lançar em Portugal o seu último livro “Eva”. Fico curioso. Dele (Germano Almeida), guardo como relíquia “Ilha Fantástica”, “Dois Irmãos” e “Testamento do Senhor Nepumuceno Araújo da Silva”. E do relacionamento pessoal (já que me considero amigo), guardo as bissextas, porém caudalosas, conversas às sextas com Tchalé Figueira e Vasco Martins. E os poucos encontros durante a campanha de reeleição do Comandante Pedro Pires. Uma figura, esse Germano! E conhecedor do bom vinho, a bebida dos deuses. Ficcionar Cabo Verde é extremamente importante para a nossa identidade, disse Germano Almeida numa entrevista à RDP África. Ficcionemos, pois, Cabo Verde…
A toponímia do logradouro
Há dias, na inauguração do Memorial à Fome e às Vítimas do Desastre da Assistência, em cerimónia presidida pelo primeiro-ministro, apareceu o nosso amigo Nuno Duarte com um cartaz a reivindicar a reposição do nome Desastre da Assistência à rua ora chamada Cabo Verde Telecom, por sinal a empresa patrocinadora do monumento. Confesso ter ficado encantado com a atitude e o gesto de Nuno Duarte. Houve gente que não gostou, entretanto. Houve gente que pretende o aparato ao invés da essência. E o próprio desenho conceptual do arquitecto Carlos Hamelberg interpela mais ao conteúdo que à forma (tríada futurista em obelisco), diga-se. O Desastre da Assistência se impõe, em verdade, como um dever de memória e isso é uma forma qualificada da cidadania...Quando cheguei em 1980 a Belo Horizonte, Minas Gerais, como estudante de Biblioteconomia, havia aquela rua chamada Dan Mitrioni, um torturador estrangeiro, morto no Uruguai por guerrilheiros Tupamaros. Era um tempo interessante, de muita militância e muita cidadania. Tanto que a comunidade local conseguiu, depois de muita luta e insurgência civil (belos tempos), substituir o nome do “putamadre” pelo de José Carlos da Mata Machado, revolucionário assassinado pela policia política dos tempos da ditadura militar…A cidade da Praia, por ser antiga e capital, precisa rever a sua toponímia e trazer à colação nomes, feitos e referências historicamente mais recomendáveis…
No equinócio
Nha Gina dizia que eu seria um contador de histórias. E nas quentes noites, eu contava a melhor, dizia ela. Meus pássaros, sei contar-vos as histórias escondidas e pelos logradouros, dos largos aos becos, as fronhas de uma alegria estão aqui guardadas como um tesouro. A brisa em contraponto e a barlavento, e o espampanante silêncio do sotavento, tudo é navio velejando à hora da beleza. Poesia...como era aliás apanágio à porta daquela soleira!
sábado, 8 de abril de 2006
Saco
quinta-feira, 6 de abril de 2006
Codex Alimentarius
Est-ce qu'on ne pourrait pas faire un véritable néo-impressionnisme culinaire, un dadaïsme culinaire, une cuisine abstraite ?
Hervé This. La Cuisine c'est de l'amour, de l'art, de la technique
Pagando para ver
Hoje, lembrei-me do meu amigo Mamour Bá, músico senegalês que também estudava em Belo Horizonte, nos idos anos oitenta. Quando a sua filha nascera, ele ninava a primogénita ao som do korah e eu pagava para ver tão pungente cena. Soube, pelos amigos comuns, que ele tem rodado o mundo, mostrando os seus prodigiosos tambores e palestrando sobre as virtualidade pedagógicas da música. O Crisolino, outro do nosso tempo, ficou de me mandar “O Corpo é Sonoro”, CD com que Mamour Bá está a conquistar o mundo. Eyes of beholder…
Adeco, Prodeco & outros decos
Comer hoje é uma grande aventura. Os gourmets ponham-se a pau. Recentemente, assisti na TCV uma reportagem (creio que de Odair Santos) sobre a matança de animais em plena rua, na cidade de Assomada. Reportagem bem feita, porque inusitada e corajosa, a questão reclama, com urgência, o olhar das autoridades municipais e sanitárias. O que é da sociedade civil, minha gente? Neste mundo das vacas loucas e da gripe aviária, a cultura alimentar do consumidor é uma estratégia de sobrevivência. Ninguém deve apanhar algo na loja e no supermercado, sem ler a composição e o prazo do alimento. Temos de fortalezar os Adeco, Prodeco & outros decos. Eles acabam por ser mais importantes do que os partidos políticos. Pode? Naturalmente…
Codex Alimentarius
Falemos da estética culinária. Sem dramatismos. Será a cozinha uma forma de arte? Ou simplesmente um elemento do código da alimentação? Nesta época pascoal, embora en não seja religioso, o meu pensamento fica, com água na boca, no Arroz de pato à dona Mindoca e no Bacalhau na tábua à tia Sílvia. Pelo lado materno, tenho grandes chefs, a começar pelo meu avô João Henriques de Almeida Cardoso, famoso funcionário da Fazenda Pública e cozinheiro do Guisado de cabrito e Arroz de cabeça de atum. A minha tia Xixi também, mas esta é especialista em doces e bolos. Bolo de frutas secas, nem conto. Devo ter herdado algum jeito desta minha maravilhosa gente. Mamour Bá, artista de mão cheia, jurava que o meu Bacalhau à Gomes de Sá era o melhor do mundo. É que ele, modéstia à parte, nunca experimetou o meu Molho de São Nicolau..
quarta-feira, 5 de abril de 2006
Alvoroda chuvosa em Fortaleza
1
Logo ao romper da alva, a cidade adormecida ainda, vou à janela ver a réstia da chuva. Adoro a chuva. Acho que a chuva todo o cabo-verdiano adora. Encanta-me a fresca brisa que a acompanha. O céu plúmbeo e carregado de nuvens cinzentas. E a promessa de um dia ensolarado mais à frente. Aqui, deste 11° andar, apetece-me flutuar no pensamento. Levitar no espaço sideral devia ser um direito constitucional. Ou, algo mais em conta, um direito humano. E assim, sempre que nos desse a gana do imponderável, toca a flutuar, camaradas. Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências. Quero a chuvosa manhã (pessoana) de não pensar em nada…
2
Entrementes, na televisão (baixinho para não acordar a cidade), um cientista afirma que afinal o rio Nilo – the Big River – não nasce no Lago Vitória, entre o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, onde acontecem muitos outros rios africanos. Mas sim na floresta de Nyungwe, no Ruanda, seguindo o fio do rio Akagera. Uma expedição de cientistas, apoiada por satélites de localização, confirma a nova nascente do maior rio do planeta.
3
Antes lia muito. Devorava, com antropofagia, os autores alinhados nas estantes da biblioteca do meu pai. Hoje, sou mais bissexto…e malandro. Mas, assim mesmo, só como aperitivo ou digestivo, vou lendo algo…se o título me encanta. Et pour cause, começo a ler, neste afã chuvoso, o romance “"Al-Gharb 1146 - Viagem Onírica ao ‘Portugal’ muçulmano”, de Alberto Xavier, comprado ontem numa livraria no centro da cidade. Uma prosa inteligente, a retratar a influência do Califado de Córdoba sobre toda a Península Ibérica, em que prevaleceu uma verdadeira democracia religiosa entre mouros, judeus e cristãos. E porque o mundo não se esgota na intolerância da alma e na intransigência da fé, acho que tomo coragem para chegar ao fim deste inusitado romance…
4.
Divago. Onde estávamos mesmo? Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências, está na hora de sair de casa…o dever me aguarda, companheiros!
segunda-feira, 3 de abril de 2006
O Mundo e o Belo
Os indocumentados
João K., nome falso e aleatório, está nos Estados Unidos há 10 anos. Ele não obteve ainda nem o Green Card (o cartão de residência), nem o Social Security Card (a cartaira de trabalho e do seguro social). Trabalhador, vizinho exemplar e bom chefe-de-família, João K sustenta a sua prole, algures num subúrbio de Boston, e sustenta os seus pais e irmãos em Cabo Verde. Mais, abriu uma conta-emigrante num banco em Cabo Verde e o seu extracto bancário confirma ser um excelente cliente. Como milhares de cabo-verdianos, na mesma situação, João K votou nas eleições legislativas e presidenciais de Cabo Verde. Não diz no quê, nem em quem. O voto é secreto, ora. Algum problema, meus senhores?
2.
Recentemente, mercê da política doméstica, alguém tentou pôr em causa a legitimidade dos cabo-verdianos “ilegais” nos Estados Unidos, mas com passaportes cabo-verdianos válidos, votarem nas legislativas e presidenciais de Cabo Verde. A princípio, achei a ideia um tanto ao quanto bizarra, para não dizer bizantina, para logo depois concluir pela perversão e intolerância desse pensamento. Antes de mais, seria mister analisarmos, em termos da nossa própria constitucionalidade, em que cenários um cidadão cabo-verdiano perderia a sua nacionalidade. Depois, ao querermos questionar a questão da dupla ou da múltipla cidadania, não poderemos admitir o cenário da não cidadania para qualquer cabo-verdiano. E, finalmente, não poderemos formular a ideia da Nação Global se subtrairmos aos cabo-verdianos espalhados pelo mundo, legais ou não nos vários países de acolhimento, a sua capacidade de participar da vida cabo-verdiana (política, cultural, social, económica, outra).
3.
No que concerne aos Estados Unidos, milhares, senão mesmo milhões, de americanos e não americanos preparam-se para marchas históricas, a 10 de Abril, recordando as marchas cívicas dos anos 60, desta feita protestando contra um um projecto de lei, que prevê a selecção de imigrantes de acordo com a respectiva nacionalidade, e a criação de «bolsas de estrangeiros» autorizados a permanecer no país para ocuparem empregos mal pagos, designadamente no trabalho doméstico, restauração e construção civil. A lei põe de imediato em causa a permanência nos Estados Unidos de muitos indocumentados, entre os quais muitos, muitíssimos, cabo-verdianos.
4.
Paradoxalmente, os imigrantes considerados ilegais representam actualmente cerca de 5% da população activa dos EUA, e a tendência é de aumentar. Segundo a Pew Hispanic Center (PHC), sediada em Washington,, o mercado de trabalho norte-americano registou um aumento de 400 mil indocumentados, em 2005, o que faz ascender a 12 milhões de estrangeiros as estimativas dos indocumentados a viver nesse país. Em suma, a América é grande também graças aos imigrantes. Inclusive, os indocumentados como João K., nome falso e aleatório, …eis a verdadeira realidade.
5.
Voltando a Cabo Verde, o que motivaria um político cabo-verdiano a misturar, alhos com bugalhos, a indocumentação de muitos cabo-verdianos residente na América com a capacidade destes votarem? Temos todos, até às últimas consequências, de pensar no alcance perverso de tal motivação… João K., nome falso e aleatório, é cabo-verdiano de pleno direito, meus senhores!
domingo, 2 de abril de 2006
Ora chove, ora faz sol
1.
Da cozinha, uma telápia feita ao molho de limão e malagueta, um caldo de mancarra e um arroz branco. Em tributo ao meu amigo Mário Rosa, prezadíssimo Maruca, ex Embaixador da Guiné-Bissau em Washington, dizem-me que agora político. Era ele que, em tardes de muita discussão sobre o futuro da África, me ensinou a confeccionar alguns pratos típicos da Guiné-Bissau. Meio exilado, Maruca escrevia um diário implacável sobre os bastidores da sua vida diplomática e eu terminava o livro “O Inferno do Riso”. Tardes inesquecíveis de um Inverno tomado de neve. Em Quincy, Mass…
2.
Não me esqueço daqueles dias em Lisboa. Os três na plataforma da Estação de Parede. Sempre gostei da Estação dos Caminhos de Ferro. Remetem-me ao cancioneiro de Milton Nascimento e ao frenesim de Alewife, em Cambridge. Foram belos momentos em Lisboa, apesar de em Madrid a barbárie ter explodido então uma Estação dos Caminhos de Ferro. Adiante…
3.
Ora chove, ora faz sol. Ora vou a janela, ora fico diante do computador. Como naquele poema de Arménio Vieira, falando do relógio de cucos. Este é um ano das efemérides. A Claridade faz 70 anos. O movimento Pró Cultura e a folha literária Sopinha do Alfabeto fazem 20 anos. O primeiro romance em crioulo de Cabo Verde (a língua materna, preferente e maior dos cabo-verdianos), Odju d´Água, de Manuel Veiga, também faz 20 anos. Ora chove, ora faz sol. Mas importa termos memória…
4.
Prometo só escrever palavras certificadas. Aquelas que podem ser encontradas, a baixo preço, no supermercado dos termos. E que a defesa dos consumidores as ateste dentro do prazo e próprias para o consumo. Em momento algum trarei palavras do mercado negro. As minhas frases não estarão fora de jogo, nem irão falhar penalties. Prometo não ficar completamente nu perante o leitor. Terei, pelo menos, uns óculos escuros…para que a moral não entre de vez em paranóia!
5.
Saio do mote deste blog para sugerir com verdade a leitura do livro “Nação Crioula”, de José Eduardo Agualusa. Li-o de uma assentada…
sábado, 1 de abril de 2006
Em "chuvoso"
sexta-feira, 31 de março de 2006
Notas soltas...com leite de côco
Dia mais ou menos livre. Ontem, entreguei o meu Plano de Trabalho à AGÊNCIA e aguardo o feedback. Hoje, estou mais doméstico. Enquanto isso, faço a ménage do meu apartamento e a panela coze um guisado de frango com mandioca. E com leite de côco, esqueci-me de pontuar. Da mesa da escrita, o Denzel e o Pablo, meus pássaros, sorriem para mim da moldura fotográfica.
O funaná entra, lento e melodioso, pelo meu portátil. É a Rádio de Cabo Verde, repescada pela www.nave.cv . Zeca di nha Reinalda e a sua voz inconfundivel:
Oh, Segunda, kela ka ta fazedu…
O noticiário diz que anda um Director da Prisão, agora demissionário, a contas com a Justiça. Pelo entendido, há uma grande nebulosa sobre o caso. Que o mesmo não seja partidarizado, como quase tudo o que acontece. O importante é que a Justiça funcione…
2.
A Justiça funciona? Acho que funciona sim, ainda que malmente. Há dias, apareci diante de um Procurador a depor, como testemhuna, contra a agressão a que uma advogada foi vítima. Isso me fez lembrar uma queixa contra mim, porque Visaonews publicou um artigo não assinado e que caiu no desagrado de um dos nossos deuses pés descalços. E, por ironia do destino, não tinha sido eu o autor do artigo! Eu era (e sou) apenas um dos accionistas desse jornal online, por sinal presente em Cabo Verde na altura. Não entendi a queixa contra mim, mas Freud explica. Ele tem costas largas. Na altura, quis usar aquele dispositivo constitucional de mandar tudo e todos às urtigas, mas deixei correr a palhaçada e, como se previra, não deu em nada. A questão acabou plasmada no Relatório dos Jornalistas Sem Fronteiras e no dos Direitos Humanos, do Departamento de Estado Americano. Mas a Justiça funciona. Ela, por exemplo, convocou o Manuel Delgado, jornalista senior da nossa praça, por telefone a comparecer “daqui a duas horas” e este, tão brilhante quão irreverente, contou-me das ternuras que disse à “autoridade”. Funciona sim, e como funciona! Eu, por exemplo, fui agredido por um animal raivoso e à traição, e até esta nada. Arrependi-me mil vezes não ter revirado a afronta na hora, saldando ali as contas com o “amofinado justiceiro”. É um detalhe tão somente, mas, como diria Flaubert, “le bom Dieu est dans le détail”…
3.
Não sou daqueles que diaboliza o Estado e, importando lixeiras ideológicas, vocifera pelo seu fim. Defendo antes um Estado democrático e social, sobretudo num país como o nosso. Cabo Verde precisa de Estado ágil, moderno e forte. Isso não significa a defesa de uma economia sem mercado ou de uma cidadania esquecida do bem-estar e da qualidade de vida. A riqueza é gloriosa, vaticinou Deng Xiaoping, algo que os pós estalinistas, trotskistas e “trotskeiros”, bem como os tais deuses pés descalços, nunca entenderam. O buraco tem sido sempre mais em baixo, companheiros. Temos de ter um Estado que assuma a Educação, a Saúde, a Segurança, a Justiça e a Política Externa. Para o resto, valha-nos Deus, terá de ser a sociedade…civil, ora.
4.
Março, mês do Teatro, termina hoje. E queria não só saudar João Branco e Francisco Fragoso, cada um imprescindível à sua maneira, mas também fazer uma homenagem a Sammuel Bekect, cujo centenário do nascimento já se comemora em todo o mundo. Entrementes, da cozinha, ressalta o aroma do frango guizado com mandioca. Tresandada a leite de côco. Quanta fome…
Oh, Segunda, kela ka ta fazedu…
quarta-feira, 29 de março de 2006
A lacónica flor da língua
Para alguém, como eu – do antanho apaixonado pela museologia e pela língua portuguesa –, o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado recentemente na cidade de São Paulo, é um bálsamo. Fico a imaginá-lo de longe e a namorá-lo no pensamento. Ou, então, a acariciá-lo virtualmente, pelo Internet. Ele permite de facto um conhecimento intensivo e exaustivo da língua portuguesa e nos confirma a pujante (e ainda não totalmente acordada) existência da lusofonia. Outrossim, ele se revela, a um tempo, real e fantástico. Como adoraria aprofundar o meu conhecimento sobre museus interpretativos, que usam as tecnologias de comunicação de ponta para embalar conteúdos de assaz interesse colectivo. Importava reafirmar que os museus hoje em dia não apresentam apenas artefactos, mas ideias e imaginação. Anteriormente, o curador era um guardador de peças, agora ele e um roteirista de surpresas. Isso me encanta…
Sucessão no MpD ou algo mais sério
A propósito da sucessão no Movimento para a Democracia (MpD), acertada depois do duplo desaire eleitoral, o meu confrade Manuel Delgado tocou num aspecto realmente importante ao dizer que o deputado Jorge Santos, para ele o melhor posicionado, “apesar de ser preto, é de Santo Antão”. E, o pior, ele assume isso como um “defeito” em conexão a que denomina o “badiuísmo que inquina a elite política cabo-verdiana”. Amigo, respeitador e ciente da pena de Manuel Delgado, procurei ler o artigo sob vários ângulos antes de me pronunciar. Mas não pude deixar de ficar intrigado com o vector nele impregnado. Ora, os “defeitos” de Jorge Santos não se radicam em ser “de Santo Antão”, o que em Cabo Verde não será condição suficiente para ganhar e/ou para perder qualquer pleito. E muito menos a pretitude, seria condição sina qua non da ascensão e/ou queda de alguém na Ilha de Santiago. Os seus “defeitos” serão com certeza outros…Ademais, não é o “badiuismo” que inquina a politica cabo-verdiana. Mas sim o regionalismo estreito e letal, o bairrismo besta (vamos botar besta nisso), de uma elite, que, a continuar, poderá indicar caminhos tenebrosos e desavindos. O “badiuismo”, assim como o “sampadjudismo”, seriam faces opostas da mesma moeda, há muito fora da circulação, mas que sub-repticiamente gente bem localizada utiliza como cavalo de batalha. A indivisibilidade de Cabo Verde e os fundamentos da cabo-verdianidade, conceitos eivados de significado, revelam que realmente somos um povo coeso e único, e que a diversidade dos nossos jeitos e trejeitos, longe de ser um condicionalismo, é a nossa grande oportunidade. Por isso, uma outra abordagem, por favor…
Torres verdes para Nova Iorque
Em Nova Iorque, tornou-se importante e correcto construir prédios ‘ecológicos’. Isto é, edifícios projectados para diminuir o impacto sobre o ambiente – com sistemas para economizar a água e a energia eléctrica. As maquetas dessas novas edificações estão expostas no museu dos arranha-céus, em Manhattan. Há pelo menos uma dúzia delas, nomeadamente a nova sede do jornal The New York Times, o corporativo "The Hearst Tower", residencial "One River Terrace" e a Torre da Liberdade, que será construída no "Ground Zero" (terreno onde se localizavam as torres gémeas do World Trade Center), entre outras. Mas tudo indica que, muito em breve, as casas ecológicas se tornarão populares nos Estados Unidos e no resto do Planeta. Em Cabo Verde, agora que pretendemos dar vida (e sustentabilidade) aos ZDTIs, a questão poderá perfeitamente ser levantada com acuidade. A ecologia deveria encarada como pré requisito para o investimento imobiliário e turístico. E para que não fiquemos a ver navios, os nossos edis e arquitectos deveriam fazer-se por uma sensibilidade ecológica. Verde que te quero verde…
domingo, 26 de março de 2006
Distante do Pranchinha
Nota necessária
O S/Cem Margens entra numa nova fase. Distante do Pranchinha. Os sinais foram dados nas últimas semanas. Fi-lo com enigma, naturalmente. A realidade sem a magia seria “bera”, o leitor poderá imaginar. Mas, sob o diáfano da sombra, deixei as pistas necessárias. A literatura tem a sua vertente confessional e Flaubert teria dito a grande verdade quando, sobre a pressão das autoridades e dos bons costumes, assumiu “Madame Bovary c’ est moi”. Tudo sou eu, ao fim e ao cabo, e daqui a alguns anos alguém dirá terem servido estas notas, em forma de crónica, para algum entendimento do espírito da época. Uma nova fase, repito, mais voltada a aspectos de uma actualidade de acuidade colectiva. Obviamente que, vez por outra, terei uma recaída. Afinal, o escritor não vende, por nada deste mundo, a sua criatividade…e a sua liberdade!
Brasil X Cabo Verde
Numa hora
Museu dos Correios
Ocupo parte do meu tempo, agora que tomei a decisão de viver da escrita (risco espinhoso, note-se), a formular o projecto da criação do futuro Museu dos Correios de Cabo Verde. Esta nova ocupação, que me permite espaço para uma pesquisa académica, obriga a entrar no mundo fascinante da museologia, algo que deveria ser pensado com mais propriedade e parcimónia
quarta-feira, 22 de março de 2006
As sandálias do peregrino ou recurso a Mulher nua
« Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté »
- Leopold Sédar Senghor
Mote
Enquanto isso, uma corja de labregos e com mandíbulas ao léu, intenta contra a ordem dos dias. De vez em quando, saio assim da cena e deambulo por aí como uma verbo à toa. Deixo-me levar pela brisa que venta, esquecida e serena, acalentando o meu momento. Passa a dita manifestação e eu, pensativo, introspectivo mesmo, não me identifico com nada disso. Apetece-me gritar aqui na crónica, recitar aos labregos os versos Mulher Nua, mas o tempo passou e o leitor, aquele mais obtuso, não iria gostar da estilística. É que morreu o filósofo português Fernando Gil e o pensamento ficou mais pobre. Ele nos ensinara que para se perceber seja o que for, é preciso olhar até à linha do horizonte e ir um pouco mais além. Um grande homem…
Nota para a malta da Campanha
Recebe a faixa presidencial o Comandante Pedro Pires. O acto tem grandeza e, sobretudo, transcendência. O Presidente, de entre os demais, é quem mais defende a estabilidade da nação, razão por que eu e a maioria dos cabo-verdianos nele apostámos. Queremo-lo, por isso, em serenidade e muita saúde, para que possa potenciar (a Cabo Verde) …es paz di Deus. Aos companheiros da jornada eleitoral, recordando-lhes Ildo Lobo em sua ausência, um grande abraço de Homem Livre…
Dos livros
Dos livros que deixo, em boas mãos vale dizer, três foram tão marcantes que lhes devoto um amor táctil e uma ternura física. «Os Lusíadas», de Luís de Camões, «Intérprete de Enfermidades», de Jhumpa Lahiri, e «Confissões de uma Máscara», de Yuko Mishima. Com o primeiro, aprendi o ritmo e a métrica, o engenho e a arte das letras intemporais. Com o segundo, tomei tento à trama com que o novelo se desenrola. E com o terceiro, sonhei que sorria deste imponderável todo. Faço votos que estes três fabulosos livros sejam, para quem os doei, verdadeiras bíblias. Basta que a leitura se alheie do profano. Em verdade, o sagrado nunca esteve nos livros, mas na sabedoria de quem os lê...
Dia Internacional da Poesia
No Dia Internacional da Poesia (e da Árvore), a par das actividades do Ministério da Cultura, quis fazer um tributo particular aos meus poetas dilectos. Dos cabo-verdianos, separei Jorge Barbosa, Ovídio Martins, João Vário e Arménio Vieira para balbuciar seus versos à boca da noite. Dos estrangeiros, transportei para um lugar à-parte Walt Withman, Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto. Os leitores poderão ter um naipe diferente, pois a poesia é um campo vasto e sem tempo. Hoje, por exemplo, apetece-me falar-vos de Leopold Sédar Senghor, um dos expoentes da poética mundial, cujo vate levou aos altos píncaros a negritude. E, a partir dele, extrair, em tributo à “prefaciadora implacável”, as palavras mais belas no manancial do sentimento, quais sejam:
(…) Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir,
bouche qui fais lyrique ma bouche (…)
As sandálias do peregrino
Chamados à sombra de uma árvore, quisemos contar uns aos outros as estórias das nossas vidas. Enquanto isso, uma corja de labregos, vociferante e besta, insiste em “quebrar” o nosso concêntrico abraço. Em comunhão, repitimos em coro as palavras de Fernando Gil: «Cada coisa, para ser o que é, tem de estar em ligação com todas as outras. A identidade ideal é uma rede de conexões infinitas. Para se perceber o mínimo sobre o mínimo seria preciso conhecer-se tudo». Kírie…meus irmãos!
quarta-feira, 15 de março de 2006
Traz di Som
Fiquei indignado quando li uma nota jornalística, cuja manchete vinha nestes termos: Anti-Semitism subsidized by U.S.? Aid flows to Cape Verde regime that attacks Jews. E também acompanhei a lista dos emails, em forward, até à minha “caixa de correio electrónico”. Somando dois mais dois, vi claramente o quatro e o quadro de gente bem identificada que, uma vez mais e pela falácia, avilta a imagem de Cabo Verde. Não pude deixar de pensar, com náusea diga-se, que há um lado perverso neste nosso jogo democrático. Em verdade, a democracia só nos interessa, se for com verdade, pão e fonema. A democracia só é virtuosa se estribada na liberdade e no bem-estar, conceitos alargados e subjectivos, mas com uma sustentação cognitiva muito clara. O anti-semitismo não existe em Cabo Verde e não seria pelas opiniões irresponsáveis de Florenço Baptista, nem pelas reacções desproporcionadas de José Tomás Veiga que ele passaria a existir. Quase todos nós, cedo ou tarde, tivemos ascendentes judaicos e isso, assim como outras ascendências, não nos torna melhores, nem piores. O sermos mestiços significa que corre em nós o húmus antropológico de origem vária e recusar esta realidade é sermos empobrecedores. Mas o busílis da questão está na maliciosa tentativa de “denunciar” uma situação que não existe, com o fito de “encurtar” ou mesmo comprometer a assistência americana e/ou outra a Cabo Verde. A política do “vale-tudo”. Chegados aqui, peço-vos licença para vomitar…
Assessorando a Cultura
Ter servido no Ministério da Cultura me deu a enorme percepção das mudanças que o sector demanda. E não deixou de ser “uma verdadeira escola” partilhar o dia-a-dia profissional com Manuel Veiga, Ministro da Cultura, como assessor. Longas e caudalosas conversas (e sonhos, porque las hay…) e planos sobre a causa e a coisa da Cultura. Em verdade, precisamos de mudanças radicais a nível do sector, nomeadamente em questões da inclusão, da diversidade, do património, do livro e da leitura, da arquivística, da animação e, sobretudo, da internacionalização. Se quisermos fazer da Cultura um factor importante, se não mesmo aquele determinante do PIB, temos de encetar a triagem e a selecção do potencial, investir pesado na produção e introduzir um novo padrão de qualidade dos bens e serviços culturais. A lógica da subvenção indiscriminada, autentico hábito de FAIMO cultural, não nos levará a caminhos do sucesso e da excelência. É preciso reservar o subsídio institucional para os casos excepcionais e periclitantes. Para a maior parte dos casos, urge instituir créditos, com juros motivadores, que permitam a um tempo introduzir a noção do mercado artístico e a outro tempo estrategizar a inserção internacional da Cultura de Cabo Verde.
Traz di Som
Não podia deixar de assinalar o lançamento do álbum Traz di Som, de Ângelo (Djinho) Barbosa, ocorrido na última sexta-feira, no Palácio da Cultura. São 16 faixas de boa música, à procura ousada de novas sonoridades e de outras atitudes para com a Música. Projecto generoso e federador, Ângelo (Djinho) Barbosa, conseguiu o feito de reunir, para fazer coisa boa, 35 músicos de diferentes matrizes e matizes. É obra. Num tempo em que precisamos, como pão para a boca, de destrinçar o trigo do joio…
Intervalo
Não me é possível prosseguir esta crónica sem que a tristeza e a saudade aflorem à linha do texto. Os sentimentos invadem-me a escrita e eu nada mais sou do que um cronista de viagem. Queria ser cerebral e frio, pura faca incisiva na carne. Queria não ter pena dos dias soletrados nas horas. Nem lamentar o sol que, desaparecido no poente, voltará amanhã recauchutado e...fatalmente outro. Queria ser estrela cadente e riscar, com ilusória beleza, o silencioso céu. E, quem sabe, poder regressar ciente da minha prefaciadora das crónicas implacáveis. E dela ter, quiçá em retorno, um pródigo abraço...
segunda-feira, 6 de março de 2006
Linda cotovia
Vejo o sol a pôr-se em raríssima beleza e a minha tristeza é uma existência…com poesia. Chamava-a, com respeito e amizade, “linda cotovia”, mercê de uns versos de Xavier Villarutica, poeta mexicano. E a minha amiga dizia amiúde versos de Pessoa quando a ocasião prometia balbuciá-los. E foram poucos, mas bons, os momentos de encanto em que pude com ela falar sobre os livros que, pela fantasia, nos apanharam pela rama. Os livros de Miguel Torga, dizia-me ela. E eu insistia que lesse os de João Ubaldo Rodrigues, devasso das vestes que aprisionam certos intelectuais. E aplaudimos juntos Lauro Moreira, na residência do Embaixador Victor Gobato, a recitar, em eloquente verve, “Alguns Toureiros”, de João Cabral de Melo Neto. Ou tão simplesmente, com uma candura de pássaro, “Estiagem”, de Jorge Barbosa. Pois é, Lica era uma alma boa, doce e pacífica. Uma alma poética. E, sempre que morre alguém próximo da minha saudade, fico a flutuar no pensamento e, sem alarde, deixo a minha solidão ir ver o pôr-do-sol.
Fome
Inaugura-se o Monumento à Fome e às Vítimas do Desastre da Assistência, numa das rotundas da capital. É um obelisco em tríade, a representar a família nuclear cabo-verdiana, disposta de forma concêntrica numa procura de céu…e de eternidade. Os obeliscos são assim: agudos, dramáticos e desafiadores. A cidade irá entender pouco a pouco o significado do Monumento e recriará a partir dele um traço mais estético (e mais futurista) para o espaço. A Fome continuará, por muito tempo, a ser uma referência em Cabo Verde. É uma experiência traumática e matricial inscrita na psique de todos nós, mesmo daqueles que insistem no esquecimento. Assim, no imponderável da velocidade das luzes e dos automóveis, faça sol ou lua, nuvem ou Juno, a nossa memória se sublimará em beleza neste chão da República…
Albatrozberdiano
Entrementes, alguém entoa uma melopeia triste e não consigo identificar quem seja. Sempre a medo de serem as sereias, das que cantam à aventura peregrina, amarro-me ao mastro da minha imaginação e sigo a viagem. Não me importa o que os deuses pequenos pensam dos dias. Estes (os dias, naturalmente) passam indiferentes aos grandes e desaguam sempre na profundidade do destino. Quem souber doutra margem, atire aqui e agora a primeira pedra. Ou tão simplesmente ria o seu riso sapiente que a própria vida tem os seus cabelos brancos. Mas não se julgue ingénuo e abrutalhado este fruto das vinhas. Tem-se nesta hora os dentes todos na boca. E o que era doce acabou: o Supremo já deu o seu veredicto e a Vénus de Milo, como diria Arménio Vieira, está gorda. A partir de hoje, entra-se no realismo pesado e a poesia, a pouquíssima então, desvelar-se-á pelo ralo. Eu já não acredito nas manhãs que cantam. Infeliz, mas lúcido, farei sozinho a minha longa estrada. Sem lenço, nem documento…