Mote
A brincar com o Pablo aprendi que as brincadeiras têm peso e ocupam espaço…na alma. É uma experiência bonita e enriquecedora, garanto-vos. Por isso, digo-vos a Constituição, assim como está, às vezes, é um transtorno bipolar. Leiam, como eu li, ““O doce veneno do escorpião”, de Bruna Surfistinha, que, sem medo de mostrar a cara, nos conta do “real life”. Não serei eu o primeiro, nem o último, a misturar alhos com bugalhos. O fenómeno BIG BROTHER instalou-se entre nós. Dias-há….
Inquietações
Não consegui atinar a razão por que dois avaros cronistas desta praça inquinaram o bate-boca das eleições – aqui, de celebrações, e, acolá, de impugnações – na séria, seríssima, questão do Holocausto. O que uma coisa teria a ver com outra? A par do inquinado, e falando agora também a sério, concordo que o Holocausto, extermínio de milhões de judeus e outros grupos indesejados pelos nazistas (comunistas, homossexuais, ciganos, eslavos, sindicalistas, católicos, Testemunhas de Jeová, e pacientes psiquiátricos), seja para sempre lembrado como o ápice da selvajaria e da intolerância humanas nesta era contemporânea. Ocasião para recordar ainda as bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáki. Ou recuar um pouco mais no tempo e repensar a Escravatura, cuja rota da memória a UNESCO pretende erigir. Já agora, e porque estou na Cidade Velha – ou Cidade de Santiago, rebaptizado –, diante do grande oceano que nos leva para o mundo, lembro-vos da frase de Koichiro Matssura: “Símbolo da negação dos direitos humanos, o tráfico negreiro e a escravatura devem ser recordados pela consciência humana. Pela exploração e a violência extrema que as caracterizaram, pelos discursos monstruosos que os justificaram, e pelas interacções paradoxais que engendraram, esta tragédia continua no centro das questões mais quentes do mundo de hoje”. Inquinemos, pois, o debate para estas questões da nossa (des) Humanidade…
Cabo Verde mais ao largo
Cabo Verde é isto: “Para António C., a caminho da América, com um forte abraço da sua esposa e filhos, até um dia se Deus quiser”. Além de simples e corriqueiras “mantenhas pela rádio”, Cabo Verde é a extraterritorialidade onde radicam as suas comunidades espalhadas pelo mundo. São os cabo-verdianos que se posicionam em rede para fazerem do arquipélago um espaço matriz e matricial da cabo-verdianidade. É isto na cultura, na língua, economia. É isto nas eleições. Os argumentos que dividem os cabo-verdianos dentro e fora do país são falaciosos e fascistas. O povo das ilhas nem sempre está nas ilhas e, quando isso acontece, ele não perde a sua identidade, nem os seus direitos cívicos. A grandeza de Cabo Verde está nesta nação que extravasa o Estado e se prolonga por “ilhas mais ao largo”. Saudemos, pois, a Nação Global Cabo-verdiana e deixemo-nos de “mofineza”…
Super a superar a nossa paciência
Irreconciliável, fiquei como toda a gente a aguardar a decisão do Supremo. A cada dia, é o dia…e nada. O país todo, em stand by, à espera de uma decisão e os senhores doutores demoram assim tanto tempo! Não percebo nada de juízo, nem de assaz procedimento. É possível que seja normal essa câmara lenta, lesiva da nossa santa paciência. Alguém me confidencia que o anacronismo está no 5º Juiz. O episódio onde entra o bonitão, ainda por cima de prazo vencido, virou hilário nacional. Gostávamos muito de rir, lá isso é verdade. Mas demais faz mal…
Racismo
Outro dia, os avaros falaram também do racismo. Sim, o racismo. E ninguém venha dizer que tal seja afago doutra freguesia. O racismo é global, globalizou-se. E assentou raias entre nós também. Muito do nosso bairrismo não passa de racismo contido. Normal seria que as localidades competissem. Que cada um, no seu rincão, vestisse dele também a camisola. Isso, sem perda de perspectiva nacional, nem esquecimento do nosso destino colectivo, obviamente. O que é absolutamente intolerável e dispensável passou a ser a ideia da supremacia, do lobby bloqueador e do regionalismo autocolonial. E sobre isso, de nada adianta a defesa do avestruz, fingir que o dito acaba por toque de mágica ou por uma fuga em frente. O racismo, sim. Já que os avaros trouxeram a deixa, vamos colocar o dedo na ferida. Noutra pauta, falar-vos-ia de Etelvina, nome inventado naturalmente, como uma pérola. Raceada, branco e negro, nasceu escurinha e de olhos verdes. E o drama de tal cruzamento é problema do BIG BROTHER. Etelvina quer, e merece, ser feliz…
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Um oásis no recôndito
Mote
Creio ter sido Fernando Pessoa, o grande, melhor dito, o profundo, a escrever que “Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma”. Ó, leitor, a minha mãe faz anos e eu agradeço a Deus pela mãe que tenho. Queria, em súplica pública, que ela soubesse (para a eternidade) que sou o eterno devedor. Fosse eu o autor do soneto de Januário Leite, estaria um pouco mais tranquilo. Tivesse eu pintado “Pietà”, loiça do tipo, seria outra loisa. Mas nada de frustrações, pois cada um dá o que pode e a mais não é obrigado. E a minha mãe sabe que há um oásis no recôndito da minha alma…
Saravá, shallon e olá como vamos
Acompanhei, primeiro, com hilariante leitura, e, depois, com alguma preocupação, o semitismo e o anti-semitismo dos articulistas Florenço Varela e José Tomaz Veiga. A questão judaica, que é séria e importante, merecia ser discutida com outra serenidade e nunca no calor de eleições, por uns, ganhas, e, por outros, perdidas. Não há inferioridade, nem superioridade, pela origem judaica. Seria falacioso querer que houvesse. Falacioso e irritante, já agora. Oportuno seria debater a cidadania cabo-verdiana e a origem antropológica do cabo-verdiano. O código genético é importante. Mas não é no inato apenas, mas sobretudo no adquirido, que reside a virtude. Pelas quatro costelas, descobri numa delas a minha origem judaica. As minhas origens cristãs-novas, como diria Manuel Delgado, o mais acutilante jornalista cabo-verdiano. Mas pelas minhas contas, entram na minha composição genética os fulas, os mandingas, os indianos e os portugueses. Algo me diz que somos fortes e “ricos” por esta mestiçagem. O mundo que o cabo-verdiano criou, com perdão a Gilberto Freyre, tem origem em muitos outros povos e em mais diversas culturas. E temos de estar orgulhosos destas origens (de todas as origens, note-se). Sem xenofobias, nem afirmações…bestas!
Caia na gandaia
Ó, leitor, basta de política. De contar e recontar votos. Isaura Gomes, quando acerta, pede basta à psicose da fraude. Vamos cair na gandaia, pois a ala dos malucos (e dos artistas) já sai pelas ruas. Estamos no Carnaval. Além de grande evento cultural e grande negócio turístico, o Entrudo tornou-se numa profunda terapia psicossocial. Carregados que estamos todos de duas eleições, com a sua boa dose de guerra de nervos, o Carnaval vem em boa hora. Há que desanuviar, festejar, rir, soltar a franga. Uma festa estival, tomada de máscara e folia, na qual o fugaz sobrepõe ao eterno. “O Carnaval está aí, vamos vadiar…para a polícia não pegar!”. Sobretudo, o nosso auto policiamento que, vezes sem conta, nos leva à patrulha e ao fascismo existencial. Ame-se quem puder…
Griposa preocupante
Enquanto a gripe aviaria se globaliza e, como um cancro, ela se aproxima, os homens perdem o tino e o siso em guerras fratricidas. Parece que vivemos tempos difíceis em termos de uma consciência colectiva em prol da paz. Os recursos gastos para a destruição são de longe mais avultados do que aqueles dispendidos para pesquisas e aplicações médicas. Sofisticam-se mais as prisões do que as escolas. Armam-se exércitos e desarmam-se hospitais. Um pouco por todo o mundo. Apetece-se sair à rua, de cartaz em punho, e manifestar-me contra este grande absurdo. Estaria sozinho? Naturalmente, num país onde as pessoas não conseguem fazer entrar nos eixos a Electra, é normal que ninguém se manifeste contra o aquecimento global. Eu vi a frieza com que a comunicação social tratou o facto do Presidente Pedro Pires ter restituído ao mar uma tartaruga cabeçuda. Frieza tão franciscana quão ignorante. Pois, estaria sozinho, pedreiro livre que sou, sem lenço nem documento, ciente da minha cidadania. Aliás, prefiro uma boa solidão a uma má companhia. Por isso – montanha! -, queria estar bem lá no alto…
A NATO por estes dias
Defendemos que Cabo Verde terá de ser um país útil para a comunidade internacional. E utilíssimo na promoção da paz e da estabilidade, sobretudo regional, diga-se. Destrinçando sempre a geopolítica da paz da geopolítica da hegemonia e do terror (sob qualquer forma e conteúdo), há que ponderar, entretanto, o papel do nosso país na presente conjuntura internacional. Os exercícios militares da NATO devem ser assim analisados pela opinião pública. Não os detalhes militares em si, mas os contornos políticos e diplomáticos da sua autorização e da sua concessão. Os cabo-verdianos querem saber em que condições eles se realizam e quais as suas vantagens (e as desvantagens). A que lucro (e a que custo) temos a NATO por estes dias. Será pedir demais? Nada disso. Uma exigência democrática tão somente…
Nota: Discorde, fale mal, fale bem, concorde, esperneie. O leitor pode sim opinar sobre as minhas crónicas. Recebo críticas pelo email: filinto1992@yahoo.com.
Creio ter sido Fernando Pessoa, o grande, melhor dito, o profundo, a escrever que “Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma”. Ó, leitor, a minha mãe faz anos e eu agradeço a Deus pela mãe que tenho. Queria, em súplica pública, que ela soubesse (para a eternidade) que sou o eterno devedor. Fosse eu o autor do soneto de Januário Leite, estaria um pouco mais tranquilo. Tivesse eu pintado “Pietà”, loiça do tipo, seria outra loisa. Mas nada de frustrações, pois cada um dá o que pode e a mais não é obrigado. E a minha mãe sabe que há um oásis no recôndito da minha alma…
Saravá, shallon e olá como vamos
Acompanhei, primeiro, com hilariante leitura, e, depois, com alguma preocupação, o semitismo e o anti-semitismo dos articulistas Florenço Varela e José Tomaz Veiga. A questão judaica, que é séria e importante, merecia ser discutida com outra serenidade e nunca no calor de eleições, por uns, ganhas, e, por outros, perdidas. Não há inferioridade, nem superioridade, pela origem judaica. Seria falacioso querer que houvesse. Falacioso e irritante, já agora. Oportuno seria debater a cidadania cabo-verdiana e a origem antropológica do cabo-verdiano. O código genético é importante. Mas não é no inato apenas, mas sobretudo no adquirido, que reside a virtude. Pelas quatro costelas, descobri numa delas a minha origem judaica. As minhas origens cristãs-novas, como diria Manuel Delgado, o mais acutilante jornalista cabo-verdiano. Mas pelas minhas contas, entram na minha composição genética os fulas, os mandingas, os indianos e os portugueses. Algo me diz que somos fortes e “ricos” por esta mestiçagem. O mundo que o cabo-verdiano criou, com perdão a Gilberto Freyre, tem origem em muitos outros povos e em mais diversas culturas. E temos de estar orgulhosos destas origens (de todas as origens, note-se). Sem xenofobias, nem afirmações…bestas!
Caia na gandaia
Ó, leitor, basta de política. De contar e recontar votos. Isaura Gomes, quando acerta, pede basta à psicose da fraude. Vamos cair na gandaia, pois a ala dos malucos (e dos artistas) já sai pelas ruas. Estamos no Carnaval. Além de grande evento cultural e grande negócio turístico, o Entrudo tornou-se numa profunda terapia psicossocial. Carregados que estamos todos de duas eleições, com a sua boa dose de guerra de nervos, o Carnaval vem em boa hora. Há que desanuviar, festejar, rir, soltar a franga. Uma festa estival, tomada de máscara e folia, na qual o fugaz sobrepõe ao eterno. “O Carnaval está aí, vamos vadiar…para a polícia não pegar!”. Sobretudo, o nosso auto policiamento que, vezes sem conta, nos leva à patrulha e ao fascismo existencial. Ame-se quem puder…
Griposa preocupante
Enquanto a gripe aviaria se globaliza e, como um cancro, ela se aproxima, os homens perdem o tino e o siso em guerras fratricidas. Parece que vivemos tempos difíceis em termos de uma consciência colectiva em prol da paz. Os recursos gastos para a destruição são de longe mais avultados do que aqueles dispendidos para pesquisas e aplicações médicas. Sofisticam-se mais as prisões do que as escolas. Armam-se exércitos e desarmam-se hospitais. Um pouco por todo o mundo. Apetece-se sair à rua, de cartaz em punho, e manifestar-me contra este grande absurdo. Estaria sozinho? Naturalmente, num país onde as pessoas não conseguem fazer entrar nos eixos a Electra, é normal que ninguém se manifeste contra o aquecimento global. Eu vi a frieza com que a comunicação social tratou o facto do Presidente Pedro Pires ter restituído ao mar uma tartaruga cabeçuda. Frieza tão franciscana quão ignorante. Pois, estaria sozinho, pedreiro livre que sou, sem lenço nem documento, ciente da minha cidadania. Aliás, prefiro uma boa solidão a uma má companhia. Por isso – montanha! -, queria estar bem lá no alto…
A NATO por estes dias
Defendemos que Cabo Verde terá de ser um país útil para a comunidade internacional. E utilíssimo na promoção da paz e da estabilidade, sobretudo regional, diga-se. Destrinçando sempre a geopolítica da paz da geopolítica da hegemonia e do terror (sob qualquer forma e conteúdo), há que ponderar, entretanto, o papel do nosso país na presente conjuntura internacional. Os exercícios militares da NATO devem ser assim analisados pela opinião pública. Não os detalhes militares em si, mas os contornos políticos e diplomáticos da sua autorização e da sua concessão. Os cabo-verdianos querem saber em que condições eles se realizam e quais as suas vantagens (e as desvantagens). A que lucro (e a que custo) temos a NATO por estes dias. Será pedir demais? Nada disso. Uma exigência democrática tão somente…
Nota: Discorde, fale mal, fale bem, concorde, esperneie. O leitor pode sim opinar sobre as minhas crónicas. Recebo críticas pelo email: filinto1992@yahoo.com.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2006
Liiiiiiiiiiiiiindo
Dia Lindo
Esta é a crónica do Dia Lindo. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó pessoal. Antevimo-lo do alto da montanha, em Santo Antão. E tudo isto transcende a política. É uma coisa épica. Romântica até mais não. Tomada de beijos e abraços. Risos e lágrimas. De gente bonita, no seu interior emocionado. Este é o Dia Lindo. Definitivamente este não poderá ser o tempo vigiado. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó juventude…
Daquela aventurança
Em criança, fui um mau perdedor. E sofri muito com isso. Chorava e agredia toda a vez que tivesse de declarar a falência no jogo do monopólio. Se a minha equipa perdesse, era um Deus nos acuda. E se não conseguisse um lugar à mesa ao lado da dona Mindoca, a comida sabia-me amarga. Aos poucos, fui aprendendo (e ainda bem) que a tolerância era a melhor aventurança da vida. Perder ou ganhar fazem parte do mesmo processo. E ambos devem ser tomados com calma, serenidade e responsabilidade. Já adulto, perdi eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos e, felizmente, ganhei eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos…não confundindo nunca nuvem com Juno. Ao vencedor, impede a fineza da humildade. E ao perdedor, recai a responsabilidade da felicitação. Isto, dito assim, não tem graça alguma. Era preciso viver as luas todas de uma campanha (imprópria para cardíacos, diga-se) para se ter a ideia desta crónica. É uma questão que tem a ver com Freud e não com a fraude. Trata-se de um indício muito perigoso a que devíamos estar mais atentos. E isso lembra-me aquela do jogo da bisca em que o perdedor quis impugnar os resultados de um capote. Se a moda pega e faz doutrina!
A viagem até 2011
Estas presidenciais devem ser analisadas por múltiplos ângulos. E as ilações também podem ser múltiplas. Serão escritas páginas e páginas sobre a vitória do Comandante Pedro Pires. Analistas e politólogos, gente com mais ciência (e mais frieza) de perspectiva. Eu apenas direi da minha justiça. Ora bem, os cabo-verdianos votaram maioritariamente no Comandante Pedro Pires porque entenderam que este dá mais garantias para liderar o Estado de Cabo Verde nesta transição ao País de Desenvolvimento Médio. Mais garantias, entendem? Decisivamente, o contra-ciclo político só será em 2011.
Com Cabo Verde no Coração
Agora é tempo da inovação na continuidade. A navegação entendeu o que estava em causa e deu o seu veredicto certo, certíssimo. Desta feita, o eleitor não se fez rogado: concedeu boa margem de legitimidade ao presidente. E, em democracia, a vontade do cidadão é soberana. O que se espera de um presidente que fará o “time-frame” 2006-2011? Doravante, a presidência deverá ser exercida com maior protagonismo e acutilância. Embora o presidente da República não tenha a governação como encargo, a sua eleição é muito importante, pois trata-se do mais alto representante da Nação. Tão importante que o novo presidente eleito poderá exercer uma magistratura mais influente no combate à pobreza, na erradicação do tráfico de droga, no alargamento da inclusão cultural, nas parcerias estratégicas e nas novas âncoras internacionais, no retoque constitucional necessário e, sobretudo, no aprofundamento da nossa cidadania. Liiiiiiiiiiiiiindo…
Esta é a crónica do Dia Lindo. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó pessoal. Antevimo-lo do alto da montanha, em Santo Antão. E tudo isto transcende a política. É uma coisa épica. Romântica até mais não. Tomada de beijos e abraços. Risos e lágrimas. De gente bonita, no seu interior emocionado. Este é o Dia Lindo. Definitivamente este não poderá ser o tempo vigiado. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó juventude…
Daquela aventurança
Em criança, fui um mau perdedor. E sofri muito com isso. Chorava e agredia toda a vez que tivesse de declarar a falência no jogo do monopólio. Se a minha equipa perdesse, era um Deus nos acuda. E se não conseguisse um lugar à mesa ao lado da dona Mindoca, a comida sabia-me amarga. Aos poucos, fui aprendendo (e ainda bem) que a tolerância era a melhor aventurança da vida. Perder ou ganhar fazem parte do mesmo processo. E ambos devem ser tomados com calma, serenidade e responsabilidade. Já adulto, perdi eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos e, felizmente, ganhei eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos…não confundindo nunca nuvem com Juno. Ao vencedor, impede a fineza da humildade. E ao perdedor, recai a responsabilidade da felicitação. Isto, dito assim, não tem graça alguma. Era preciso viver as luas todas de uma campanha (imprópria para cardíacos, diga-se) para se ter a ideia desta crónica. É uma questão que tem a ver com Freud e não com a fraude. Trata-se de um indício muito perigoso a que devíamos estar mais atentos. E isso lembra-me aquela do jogo da bisca em que o perdedor quis impugnar os resultados de um capote. Se a moda pega e faz doutrina!
A viagem até 2011
Estas presidenciais devem ser analisadas por múltiplos ângulos. E as ilações também podem ser múltiplas. Serão escritas páginas e páginas sobre a vitória do Comandante Pedro Pires. Analistas e politólogos, gente com mais ciência (e mais frieza) de perspectiva. Eu apenas direi da minha justiça. Ora bem, os cabo-verdianos votaram maioritariamente no Comandante Pedro Pires porque entenderam que este dá mais garantias para liderar o Estado de Cabo Verde nesta transição ao País de Desenvolvimento Médio. Mais garantias, entendem? Decisivamente, o contra-ciclo político só será em 2011.
Com Cabo Verde no Coração
Agora é tempo da inovação na continuidade. A navegação entendeu o que estava em causa e deu o seu veredicto certo, certíssimo. Desta feita, o eleitor não se fez rogado: concedeu boa margem de legitimidade ao presidente. E, em democracia, a vontade do cidadão é soberana. O que se espera de um presidente que fará o “time-frame” 2006-2011? Doravante, a presidência deverá ser exercida com maior protagonismo e acutilância. Embora o presidente da República não tenha a governação como encargo, a sua eleição é muito importante, pois trata-se do mais alto representante da Nação. Tão importante que o novo presidente eleito poderá exercer uma magistratura mais influente no combate à pobreza, na erradicação do tráfico de droga, no alargamento da inclusão cultural, nas parcerias estratégicas e nas novas âncoras internacionais, no retoque constitucional necessário e, sobretudo, no aprofundamento da nossa cidadania. Liiiiiiiiiiiiiindo…
O TELL ME THE TRUTH ABOUT LOVE
W. H. AUDEN
NHOS FLA-M VERDADI ASÉRKA DI AMOR
TRADUSON: J.L. TAVARES
Ten kenha ki ta fla ma amor é un rapazinhu
Y kenha ki ta fla ma el é un pasu;
Es ta fla ma e ta faze mundu jira el sozinhu,
Ten kenha ki ta fla ma é un éru krasu:
Mas kantu N tenta sabe atraves di vizinhu
Ki ta parseba ma kel li staba na si alkansu,
Si mudjer fika aburisidu
Y e fla ma éra proibidu.
Será ke ta parse ku un pijama
Ó pruzuntu na kabu kura dor,
Será ki si txéru ta lenbra un lama
Ó e ten purfumu di un flor?
Será ke áspri sima arami farapadu
Ó suavi sima un masiu kubertor,
Será ke ta korta ó é lizu na ladu?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
Livrus di stória ta papia d´el
Dun manera ki kuazi ka ta ntendedu,
Y ta papiadu txeu d´el
Na kes grandi naviu ki ta trabesa mar sen medu;
Dja N odja es asuntu tratadu
Na rilatóriu asérka di algen ki mata kabésa,
Dja N odja-l té rabiskadu
Na gia di konboiu viradu dipalbesa.
E ta uba sima un lobu fomiadu
Ó e ta rapika sima marxa fanfara,
Será ki si son é midjor imitadu
Nun seroti ó na pianu Xiku Séra?
Será ke gosta so di stilu bédju
Ó na fésta é pruvokador
E ta kala so N da-l ku duedju?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
N buska-l na kaza di veron
Mas N ka atxa-l nen sen kamiza
Na kel ar di brighton ki ta intxi pulmon
Nen la maidenhead, la na tamiza,
N ka ta ntende vos di rozera
Melru N ka konxe si kanson
Mas e ka staba dentu kapuera
Nen baxu di kolxon.
E méstri na faze bioku sen midida,
E ta bira tontu na karosel,
Ó e ta pasa ténpu na korida
Ta brinka ku fiu di kordel,
E ten ideias asérka di dinheru
E ta atxa ma pátria debe kantadu lovor,
Ó e gosta di ri di stórias brajeru?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
Es fla-m ma ta fika sénpri lenbransa
Di kes sintimentu ke ta inspira,
N sta buska-l desdi kriansa
Y nunka N ka panha-l na mira
Trinti-sinku anu di tamanhu
Y N kontinua sen konxe
Es kriatura stranhu
Ki tudu algen e ta da koxi.
Y óra ke ta ben, e ta ben sen aviza
Inkuantu N ta linpa naris
Ó N ta odja-l sédu antis di txon N piza
Ó e ta masa-m na otokaru di karis?
E ta ben sima ténpu ta muda
Ku mansidon turtura ó kusa pior,
Nha bida futuru e ta muda?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
NHOS FLA-M VERDADI ASÉRKA DI AMOR
TRADUSON: J.L. TAVARES
Ten kenha ki ta fla ma amor é un rapazinhu
Y kenha ki ta fla ma el é un pasu;
Es ta fla ma e ta faze mundu jira el sozinhu,
Ten kenha ki ta fla ma é un éru krasu:
Mas kantu N tenta sabe atraves di vizinhu
Ki ta parseba ma kel li staba na si alkansu,
Si mudjer fika aburisidu
Y e fla ma éra proibidu.
Será ke ta parse ku un pijama
Ó pruzuntu na kabu kura dor,
Será ki si txéru ta lenbra un lama
Ó e ten purfumu di un flor?
Será ke áspri sima arami farapadu
Ó suavi sima un masiu kubertor,
Será ke ta korta ó é lizu na ladu?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
Livrus di stória ta papia d´el
Dun manera ki kuazi ka ta ntendedu,
Y ta papiadu txeu d´el
Na kes grandi naviu ki ta trabesa mar sen medu;
Dja N odja es asuntu tratadu
Na rilatóriu asérka di algen ki mata kabésa,
Dja N odja-l té rabiskadu
Na gia di konboiu viradu dipalbesa.
E ta uba sima un lobu fomiadu
Ó e ta rapika sima marxa fanfara,
Será ki si son é midjor imitadu
Nun seroti ó na pianu Xiku Séra?
Será ke gosta so di stilu bédju
Ó na fésta é pruvokador
E ta kala so N da-l ku duedju?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
N buska-l na kaza di veron
Mas N ka atxa-l nen sen kamiza
Na kel ar di brighton ki ta intxi pulmon
Nen la maidenhead, la na tamiza,
N ka ta ntende vos di rozera
Melru N ka konxe si kanson
Mas e ka staba dentu kapuera
Nen baxu di kolxon.
E méstri na faze bioku sen midida,
E ta bira tontu na karosel,
Ó e ta pasa ténpu na korida
Ta brinka ku fiu di kordel,
E ten ideias asérka di dinheru
E ta atxa ma pátria debe kantadu lovor,
Ó e gosta di ri di stórias brajeru?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
Es fla-m ma ta fika sénpri lenbransa
Di kes sintimentu ke ta inspira,
N sta buska-l desdi kriansa
Y nunka N ka panha-l na mira
Trinti-sinku anu di tamanhu
Y N kontinua sen konxe
Es kriatura stranhu
Ki tudu algen e ta da koxi.
Y óra ke ta ben, e ta ben sen aviza
Inkuantu N ta linpa naris
Ó N ta odja-l sédu antis di txon N piza
Ó e ta masa-m na otokaru di karis?
E ta ben sima ténpu ta muda
Ku mansidon turtura ó kusa pior,
Nha bida futuru e ta muda?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Montanha
Montanha
Não direi outra coisa deste momento. Os nossos olhares dizem quase tudo e faz algum frio nesta montanha. Devíamos ter trazido uma malha mais pesada. Os abraços e os afagos não aquecem as sobras do mundo. Desgovernados que somos, é neste preciso lugar que a vida nos faria sentido. As honras, os livros, os compromissos – menos os filhos e a música – podem ser deixados na saudade. E se o sol nos saísse redondo e amarelo? E se tudo parasse para sentir a terra a girar? Distante da pequena política…
O segundo erro de Agostinho
Recentemente, dando um triste espectáculo de mau perdedor, sai-nos um Agostinho, pior do que nunca, a propalar fraude ao vento. Foi um erro grave, gravíssimo. Sobretudo, porque não fez jus, nem honrou o ónus da prova. Quem acusa, tem que provar. Senão corre o risco de perder credibilidade. Ou, então, incorre ao crime da calúnia, com consequências penais e civis. Quem atira a primeira pedra, reza o bíblico preceito, terá de estar imune ao pecado. Ou, bem no popular já que estamos em campanha, terá de se cuidar do telhado de vidro. Vociferando, gesticulando e gritando, o gajo abriu as torneiras do esgoto e as residuais alagaram o seu próprio partido. Foi o seu segundo, e grave, erro. Tenho falado com amigos próximos, alguns militantes e outros dirigentes, do MpD. Estão todos incrédulos (e angustiados, diga-se) com a “feito” do seu presidente. Como sei separar o trigo do joio, e reconheço as virtualidades desse partido no equilíbrio do sistema político, digo isto aos meus amigos: tirem-no dali. Troquem-no por outro mais interessante. Aquilo deve voltar ao lugar de onde deveria ter permanecido – a militância na base!
Combate pela História
Mas basta, Pranchinha, onde quer que estejas! É já no domingo que a coisa se resolve. Entrámos na recta final de uma campanha. E já não temos tempo, nem paciência, para cansaços. Às tantas, a adrenalina toma conta de nós e move-nos o gosto pelo embate. Outras vezes, temos a tentação de exacerbar, sair da coordenação e responder às coisas. Mas não, terá de ser tudo ponderado, conforme os cânones. A campanha eleitoral é uma estilização, civilizada, da guerra. Um confronto feito de cartazes, bandeiras, pulseiras, tempos de antena, comícios, porta-a-porta, boca-a-boca, negociações, enfim, tudo a que se tem direito para levar a água ao moinho. A par de tudo isso, não estamos num jogo das circunstâncias. Para nós, este combate é estrutural. É um combate pela História…
Ao peitoril de uma casa
No alto da serra, avistamos São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau e os ilhéus Rombo e Raso. O aroma a rosmaninho, eivado a perfume dos pinheiros, leva-nos distantes no pensamento, com os fiapos de nuvem. De repente, invade-nos um sol redondo e amarelo. E rimo-nos. Não vá o adversário reclamar por um sol azulado, pois a natureza não se afina pelas leis eleitorais. Nem se confina a esse Carnaval da política. Vamos ao peitoril de uma casa, onde o queijo fresco é divino e o grogue é mesmo de Santo Antão. Um cúmulo de nuvem faz trilho ao telhado dessa casa. De uma porta, ladeada de duas janelas, sobra à soleira uma criança tão linda, tão linda, que Deus existe.
Não direi outra coisa deste momento. Os nossos olhares dizem quase tudo e faz algum frio nesta montanha. Devíamos ter trazido uma malha mais pesada. Os abraços e os afagos não aquecem as sobras do mundo. Desgovernados que somos, é neste preciso lugar que a vida nos faria sentido. As honras, os livros, os compromissos – menos os filhos e a música – podem ser deixados na saudade. E se o sol nos saísse redondo e amarelo? E se tudo parasse para sentir a terra a girar? Distante da pequena política…
O segundo erro de Agostinho
Recentemente, dando um triste espectáculo de mau perdedor, sai-nos um Agostinho, pior do que nunca, a propalar fraude ao vento. Foi um erro grave, gravíssimo. Sobretudo, porque não fez jus, nem honrou o ónus da prova. Quem acusa, tem que provar. Senão corre o risco de perder credibilidade. Ou, então, incorre ao crime da calúnia, com consequências penais e civis. Quem atira a primeira pedra, reza o bíblico preceito, terá de estar imune ao pecado. Ou, bem no popular já que estamos em campanha, terá de se cuidar do telhado de vidro. Vociferando, gesticulando e gritando, o gajo abriu as torneiras do esgoto e as residuais alagaram o seu próprio partido. Foi o seu segundo, e grave, erro. Tenho falado com amigos próximos, alguns militantes e outros dirigentes, do MpD. Estão todos incrédulos (e angustiados, diga-se) com a “feito” do seu presidente. Como sei separar o trigo do joio, e reconheço as virtualidades desse partido no equilíbrio do sistema político, digo isto aos meus amigos: tirem-no dali. Troquem-no por outro mais interessante. Aquilo deve voltar ao lugar de onde deveria ter permanecido – a militância na base!
Combate pela História
Mas basta, Pranchinha, onde quer que estejas! É já no domingo que a coisa se resolve. Entrámos na recta final de uma campanha. E já não temos tempo, nem paciência, para cansaços. Às tantas, a adrenalina toma conta de nós e move-nos o gosto pelo embate. Outras vezes, temos a tentação de exacerbar, sair da coordenação e responder às coisas. Mas não, terá de ser tudo ponderado, conforme os cânones. A campanha eleitoral é uma estilização, civilizada, da guerra. Um confronto feito de cartazes, bandeiras, pulseiras, tempos de antena, comícios, porta-a-porta, boca-a-boca, negociações, enfim, tudo a que se tem direito para levar a água ao moinho. A par de tudo isso, não estamos num jogo das circunstâncias. Para nós, este combate é estrutural. É um combate pela História…
Ao peitoril de uma casa
No alto da serra, avistamos São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau e os ilhéus Rombo e Raso. O aroma a rosmaninho, eivado a perfume dos pinheiros, leva-nos distantes no pensamento, com os fiapos de nuvem. De repente, invade-nos um sol redondo e amarelo. E rimo-nos. Não vá o adversário reclamar por um sol azulado, pois a natureza não se afina pelas leis eleitorais. Nem se confina a esse Carnaval da política. Vamos ao peitoril de uma casa, onde o queijo fresco é divino e o grogue é mesmo de Santo Antão. Um cúmulo de nuvem faz trilho ao telhado dessa casa. De uma porta, ladeada de duas janelas, sobra à soleira uma criança tão linda, tão linda, que Deus existe.
terça-feira, 31 de janeiro de 2006
Travessia
Travessia
Disse, uma vez Cláudio Vivo (dou um doce a quem descobrir o seu paradeiro): É triste, mas verdadeiro. A grande maioria das pessoas passa por esta vida imersa na multidão, cumprindo prazos, pagando contas, morrendo de medo do futuro e idealizando um passado remoto que é na maioria das vezes um monte de sequelas. Outros (poucos, loucos e raros) desafiam, desafinam este coro de contentes descontentes. Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram à beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo. Não sei se os leitores entendem o espírito, mas os tempos pedem um esforço de compreensão. Entrementes, estava no terraço de um ferry que nos atravessa o canal entre São Vicente e Santo Antão.
On the road
Estive em Santo Antão e caí de quatro. Fiquei impressionadíssimo com as montanhas e com as cordilheiras. Todas imponentes e caprichosas. Desafiando tudo. A terra e os homens. Mentalmente revi os retratos de “Flagelados do Vento Leste”, de Manuel Lopes, um romance marcante. Em Ponta do Sol, alojei-me perto da minha casa da mais tenra infância. E, por um relapso que só Freud explica, revivi o convívio com Nha Juliana e os passeios à mirada de Ponta de Pistola. Palmilhei a ilha de lés a lés e quase quis parar – assentar de cama e mesa! – em Ribeira do Paul. Mas havia um comício mais à frente e uma eleição para ganhar…
Campanha alienígena
Abro os jornais e acompanho o impropério. Ainda bem que isso só acontece num planeta bem distante. Em Cabo Verde, as coisas já são diferentes. País do milénio, do desenvolvimento médio e da categoria 1, ora. Mas dizia, o dito acontece num planeta a mil milhas. Ali, a fraude eleitoral é cassete gasta de todo o derrotado nas eleições. Uma linguagem violenta, virulenta e rasteira. Com verguinhas, cimentos e euros à mistura. Os cartazes gigantes, médios e pequenos, espalhados pelo planeta, são para o inglês ver. Na ante-véspera das eleições, está-se mesmo a ver, a capotona faz das suas e sai pela calada a comprar votos. As capelinhas, as clientelas e os carreiristas de sempre. Dão vivas e abaixos diante da multidão. E querem ganhar à força (e à sombra) umas eleições já perdidas. É a lógica do verbo fácil, demagógico e conventual, onde o Estado é palavra vã. Assim não dá…
Musa de amarelo
Em Ribeira das Patas, conheci uma linda jovem. Estava grávida e vestia umas camisolas amarelas, pilon-pilon. Quis saber das suas razões, além do entusiasmo político, pontuado pela batucada. Ela falou-me do futuro e da sua responsabilidade maternal. Prometi sugerir à dita, musa da campanha, disse alguém, um nome para o primogénito. Vai ser um nome bonito, risonho que nem a aurora. Para, como diria o poeta Mário Fonseca, quando a vida nascer…
Disse, uma vez Cláudio Vivo (dou um doce a quem descobrir o seu paradeiro): É triste, mas verdadeiro. A grande maioria das pessoas passa por esta vida imersa na multidão, cumprindo prazos, pagando contas, morrendo de medo do futuro e idealizando um passado remoto que é na maioria das vezes um monte de sequelas. Outros (poucos, loucos e raros) desafiam, desafinam este coro de contentes descontentes. Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram à beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo. Não sei se os leitores entendem o espírito, mas os tempos pedem um esforço de compreensão. Entrementes, estava no terraço de um ferry que nos atravessa o canal entre São Vicente e Santo Antão.
On the road
Estive em Santo Antão e caí de quatro. Fiquei impressionadíssimo com as montanhas e com as cordilheiras. Todas imponentes e caprichosas. Desafiando tudo. A terra e os homens. Mentalmente revi os retratos de “Flagelados do Vento Leste”, de Manuel Lopes, um romance marcante. Em Ponta do Sol, alojei-me perto da minha casa da mais tenra infância. E, por um relapso que só Freud explica, revivi o convívio com Nha Juliana e os passeios à mirada de Ponta de Pistola. Palmilhei a ilha de lés a lés e quase quis parar – assentar de cama e mesa! – em Ribeira do Paul. Mas havia um comício mais à frente e uma eleição para ganhar…
Campanha alienígena
Abro os jornais e acompanho o impropério. Ainda bem que isso só acontece num planeta bem distante. Em Cabo Verde, as coisas já são diferentes. País do milénio, do desenvolvimento médio e da categoria 1, ora. Mas dizia, o dito acontece num planeta a mil milhas. Ali, a fraude eleitoral é cassete gasta de todo o derrotado nas eleições. Uma linguagem violenta, virulenta e rasteira. Com verguinhas, cimentos e euros à mistura. Os cartazes gigantes, médios e pequenos, espalhados pelo planeta, são para o inglês ver. Na ante-véspera das eleições, está-se mesmo a ver, a capotona faz das suas e sai pela calada a comprar votos. As capelinhas, as clientelas e os carreiristas de sempre. Dão vivas e abaixos diante da multidão. E querem ganhar à força (e à sombra) umas eleições já perdidas. É a lógica do verbo fácil, demagógico e conventual, onde o Estado é palavra vã. Assim não dá…
Musa de amarelo
Em Ribeira das Patas, conheci uma linda jovem. Estava grávida e vestia umas camisolas amarelas, pilon-pilon. Quis saber das suas razões, além do entusiasmo político, pontuado pela batucada. Ela falou-me do futuro e da sua responsabilidade maternal. Prometi sugerir à dita, musa da campanha, disse alguém, um nome para o primogénito. Vai ser um nome bonito, risonho que nem a aurora. Para, como diria o poeta Mário Fonseca, quando a vida nascer…
quarta-feira, 25 de janeiro de 2006
Os desgovernados
Sobre aquela praia
Como se a espiral desse agora mais uma volta, assim eles se encontraram tantas luas passadas sobre aquela praia. Que o passado esteja morto e enterrado. E dele fique lembranças, ora boas, ora nem por isso, mas sempre cândidas de mãos fadadas para um reencontro. Esquecidos da elementar cautela, os desgovernados amaram-se pela madrugada e a sorte, que sempre inveja, soube serenar o seu ímpeto de maldade. O amor é o melhor que há nas nossas vidas, escrevera ele em tempos distantes, noutras paragens. E ela então prometida ao destino suspirava o derradeiro encontro, como se de “Amor em Tempos de Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, tudo se tratasse. E a espiral, cumprindo mais uma volta, fez do fugaz o que a vida tem de eterno. Mesmo que soletrada sobre aquela praia…
Um novo mundo é possível
Em tempos de campanha eleitoral, a crónica fica entontecida. O texto tem de se apartar das tentações e o cronista fica esquizofrénico. Por isso, ele fala de amor, que é a mais profunda forma de subverter as coisas. E por falar de amor, acontece neste momento o Fórum Social Mundial, desta feita na Venezuela. O Fórum se define como um espaço mundial de debate democrático de ideias, aprofundamento da reflexão e formulação de propostas que se opõem à ditadura do capital. Vale a pena conferir esta cosmovisão no Site: www.forumsocialmundial.org.br . Nele li um extraordinário discurso de Hugo Chaves sobre Sandino, Simon Bolívar e Pancho Vila. Não só o texto retórico estava impecável, como a semântica era toda conseguida. Nestes tempos em que a América Latina retorna às lideranças necessárias, valerá a pena acompanhar o mundo com uma visão mais alargada e crítica. O nosso olhar não pode ficar confinado às eleições portuguesas, desaguadas em Cavaco Silva, mas têm de extravasar para mais além. Céu é grande, mundo é largo…
Águas passadas…em festa
Acontece a qualquer um embriagar-se numa vitória eleitoral. Logo eu que sou fã de Kundera e tenho sempre à mão “O livro do riso e do esquecimento”. Pois, dizia, acontece a qualquer um saltar, sorrir, dançar e gritar vivas. Quem diria, eu que não vou à procissão, nem à manifestação. Eu que vejo a vida e a morte, como um albatroz, convencido que o poeta nunca foi deste mundo. Mas esse celebrar transcendeu a um devaneio passageiro. Sofri a cada hora da campanha, a cada minuto da contagem dos votos e a cada segundo do anúncio dos resultados. Não nego que essas eleições mexeram com a minha estrutura muito mais do que eu gostaria de admitir. Pelo sim e pelo não. Por isso, são águas passadas…em festa!
O gado em raiva & já faltou mais
Soube, por travessas portas, que o gado continua raivoso. Há quatro anos raivoso. A destilar alcatrão quente pelas ventas e a vociferar mil pragas contra o alter-ego do Pranchinha. Este também não é flor que se cheire. Tão logo diluído no esquecimento, volta à carga, atiçando os do palanque para o diálogo dos dias. Pôr as ideias a circular é o apanágio dos democratas, razão porque não se compreende que o gado continue tão neurótico. Tendo o vulgo indagado as razões de tamanho fiasco, o Pranchinha respondeu, com aquele humor de espantar catedrais: “O efeito ‘manito bomba’ é de feitiço contra feiticeiro, ó minha gente”. Mas não tardará muito para que possamos voltar à normalidade. As eleições são necessárias, porque dão oxigénio à democracia, mas cansam. Exacerbam. O nosso espírito já pede algum remanso, algo como uma paz. De uma nuvem que se instala, linda como um algodão doce, diante do nosso olhar existencial…
Os desgovernados
Os desgovernados olharam o céu e aquiesceram. O que dirá o Zodíaco sobre o futuro e a angustiosa decifração dos enigmas? A tremeluzente cidade, adormecida, dolente na sua aparência. O arfar das horas monocórdicas e dos corpos assustados. O importante é haver vida e vivê-la com sentido. O resto…ondas que beijam a praia e depois partem. Liquefeitas, realizadas, saciadas…
Como se a espiral desse agora mais uma volta, assim eles se encontraram tantas luas passadas sobre aquela praia. Que o passado esteja morto e enterrado. E dele fique lembranças, ora boas, ora nem por isso, mas sempre cândidas de mãos fadadas para um reencontro. Esquecidos da elementar cautela, os desgovernados amaram-se pela madrugada e a sorte, que sempre inveja, soube serenar o seu ímpeto de maldade. O amor é o melhor que há nas nossas vidas, escrevera ele em tempos distantes, noutras paragens. E ela então prometida ao destino suspirava o derradeiro encontro, como se de “Amor em Tempos de Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, tudo se tratasse. E a espiral, cumprindo mais uma volta, fez do fugaz o que a vida tem de eterno. Mesmo que soletrada sobre aquela praia…
Um novo mundo é possível
Em tempos de campanha eleitoral, a crónica fica entontecida. O texto tem de se apartar das tentações e o cronista fica esquizofrénico. Por isso, ele fala de amor, que é a mais profunda forma de subverter as coisas. E por falar de amor, acontece neste momento o Fórum Social Mundial, desta feita na Venezuela. O Fórum se define como um espaço mundial de debate democrático de ideias, aprofundamento da reflexão e formulação de propostas que se opõem à ditadura do capital. Vale a pena conferir esta cosmovisão no Site: www.forumsocialmundial.org.br . Nele li um extraordinário discurso de Hugo Chaves sobre Sandino, Simon Bolívar e Pancho Vila. Não só o texto retórico estava impecável, como a semântica era toda conseguida. Nestes tempos em que a América Latina retorna às lideranças necessárias, valerá a pena acompanhar o mundo com uma visão mais alargada e crítica. O nosso olhar não pode ficar confinado às eleições portuguesas, desaguadas em Cavaco Silva, mas têm de extravasar para mais além. Céu é grande, mundo é largo…
Águas passadas…em festa
Acontece a qualquer um embriagar-se numa vitória eleitoral. Logo eu que sou fã de Kundera e tenho sempre à mão “O livro do riso e do esquecimento”. Pois, dizia, acontece a qualquer um saltar, sorrir, dançar e gritar vivas. Quem diria, eu que não vou à procissão, nem à manifestação. Eu que vejo a vida e a morte, como um albatroz, convencido que o poeta nunca foi deste mundo. Mas esse celebrar transcendeu a um devaneio passageiro. Sofri a cada hora da campanha, a cada minuto da contagem dos votos e a cada segundo do anúncio dos resultados. Não nego que essas eleições mexeram com a minha estrutura muito mais do que eu gostaria de admitir. Pelo sim e pelo não. Por isso, são águas passadas…em festa!
O gado em raiva & já faltou mais
Soube, por travessas portas, que o gado continua raivoso. Há quatro anos raivoso. A destilar alcatrão quente pelas ventas e a vociferar mil pragas contra o alter-ego do Pranchinha. Este também não é flor que se cheire. Tão logo diluído no esquecimento, volta à carga, atiçando os do palanque para o diálogo dos dias. Pôr as ideias a circular é o apanágio dos democratas, razão porque não se compreende que o gado continue tão neurótico. Tendo o vulgo indagado as razões de tamanho fiasco, o Pranchinha respondeu, com aquele humor de espantar catedrais: “O efeito ‘manito bomba’ é de feitiço contra feiticeiro, ó minha gente”. Mas não tardará muito para que possamos voltar à normalidade. As eleições são necessárias, porque dão oxigénio à democracia, mas cansam. Exacerbam. O nosso espírito já pede algum remanso, algo como uma paz. De uma nuvem que se instala, linda como um algodão doce, diante do nosso olhar existencial…
Os desgovernados
Os desgovernados olharam o céu e aquiesceram. O que dirá o Zodíaco sobre o futuro e a angustiosa decifração dos enigmas? A tremeluzente cidade, adormecida, dolente na sua aparência. O arfar das horas monocórdicas e dos corpos assustados. O importante é haver vida e vivê-la com sentido. O resto…ondas que beijam a praia e depois partem. Liquefeitas, realizadas, saciadas…
quarta-feira, 18 de janeiro de 2006
Aquariano pós eleitoral
Crónica recortada
Desta feita, faço recortes. Não por falta de assunto. Mas por excessivo assunto. Saio à rua e tudo muda de figura: cartazes, bandeiras, músicas, farpas e fanfarras. Está-se em tempo eleitoral e eu, como a maioria dos cabo-verdianos, vou votar no próximo domingo. E, quem sabe, apesar da sandice de certos discursos, estejamos novamente a fazer história. Manifestamente há civismo nestas eleições. Tirando um ou outro caso, a lembrar que “quem não suja à entrada, fá-lo à saída”, tudo corre como manda o figurino mais civilizado. Às tantas, percebe-se que a democracia é um excelente processo civilizatório. Isto é, aos poucos, vamos perdendo a barbárie que nos torna exacerbados uns com os outros.
O Pranchinha revisitado
Daria tudo para reavivar o Pranchinha. Este também daria o céu para assistir a tudo isto. Obviamente com o seu humor consequente de quem destrinça o trigo do joio. Por mais isento que o gajo se assumisse, fazendo jus à sua mania de juiz, nestas eleições a neutralidade parece impossível. De resto, não se pode ficar neutro, nem indiferente perante Cabo Verde. E Pranchinha teria de entrar na dança, seguir a procissão e subir ao palanque (ó política a quanto obrigas!). Frequentar a conversa de café. Curtir a demagogia dos assessores lusitos, compará-los aos tupiniquins de outrora, e lamentar a marginalização das competências locais (mesmo quando não mercenárias), enfim…o que o Pranchinha tem perdido nestes dias!
Conversa de café
Devíamos ter ido lá todos, amigos e conhecidos, nunca inimigos, diga-se, ouvir o que o homem tem de novo para dizer. Saber se há novidade, pois das velhas coisas (não por serem antigas, mas por serem ultrapassadas) já não há vencimento. Esperarmos que o discurso não traga desgraças, nem que os gestos sejam de briga. Já ninguém quer ir para a Pasargada, de modo que terá de ser aqui, na Tapadinha. Caso para dizer que estamos condenados ao entendimento. Obrigados ao destino comum, por Cabo Verde. Por isso, e porque há valores que transcendem a política, a tolerância e o diálogo devem falar mais alto. Devíamos, pois, ir à conversa de café. Para expressar as nossas “posições espontâneas”. Ou quanto mais não seja pelo café. Que nunca defraudou ninguém…
Xatiadu ku flipadu
O comício ia forte e feio, cheio de desgraça e de má-língua, vaticinando para Cabo Verde tsuname, tremor de terra, erupção vulcânica e praga de mil pés. O comício do pessoal xatiadu ku flipadu, pronto para tomar a terra de assalto e para ver se era daquela que a malta comprava gato por lebre. De repente, surge o jornalista no meio do apupo dos imbecis, uns mais fanáticos do que outros a mandar vir farpas contra o gajo. “Li o teu artigo no on-line”, diz um cão-de-fila, pronto para saltar na presa. O seu comparsa põe o dedo em riste e ameaça o jornalista. Gente que confunde estado de direito com da direita. Onde será que vimos isso? Alguém se lembra das ameaças pidescas? Em tempos do Estado Novo, seria? É pá…uma corja de fascistas!
Aquariano pós eleitoral
A 24 de Janeiro, este aquariano fará anos. São muitos e não os vou dizer ao leitor. Só direi que continuo engajado às coisas da arte e não às circunstâncias da política. O tempo eleitoral está sendo uma excepção, uma espécie de intervalo para dar o meu contributo modesto. Como cidadão não ficaria bem com a minha consciência, se visse este momento a partir do cais de ver passar o barco. No dia 13 de Fevereiro, faça sol ou chuva, venha nuvem ou Juno, voltarei aos meus poemas e às minhas pesquisas. Como diz alguém que me é próximo, “é tempo académico, mano”. Et pour cause, a partir dessa data, regressarei ao meu âmago. Aquariano tem cada uma…
Desta feita, faço recortes. Não por falta de assunto. Mas por excessivo assunto. Saio à rua e tudo muda de figura: cartazes, bandeiras, músicas, farpas e fanfarras. Está-se em tempo eleitoral e eu, como a maioria dos cabo-verdianos, vou votar no próximo domingo. E, quem sabe, apesar da sandice de certos discursos, estejamos novamente a fazer história. Manifestamente há civismo nestas eleições. Tirando um ou outro caso, a lembrar que “quem não suja à entrada, fá-lo à saída”, tudo corre como manda o figurino mais civilizado. Às tantas, percebe-se que a democracia é um excelente processo civilizatório. Isto é, aos poucos, vamos perdendo a barbárie que nos torna exacerbados uns com os outros.
O Pranchinha revisitado
Daria tudo para reavivar o Pranchinha. Este também daria o céu para assistir a tudo isto. Obviamente com o seu humor consequente de quem destrinça o trigo do joio. Por mais isento que o gajo se assumisse, fazendo jus à sua mania de juiz, nestas eleições a neutralidade parece impossível. De resto, não se pode ficar neutro, nem indiferente perante Cabo Verde. E Pranchinha teria de entrar na dança, seguir a procissão e subir ao palanque (ó política a quanto obrigas!). Frequentar a conversa de café. Curtir a demagogia dos assessores lusitos, compará-los aos tupiniquins de outrora, e lamentar a marginalização das competências locais (mesmo quando não mercenárias), enfim…o que o Pranchinha tem perdido nestes dias!
Conversa de café
Devíamos ter ido lá todos, amigos e conhecidos, nunca inimigos, diga-se, ouvir o que o homem tem de novo para dizer. Saber se há novidade, pois das velhas coisas (não por serem antigas, mas por serem ultrapassadas) já não há vencimento. Esperarmos que o discurso não traga desgraças, nem que os gestos sejam de briga. Já ninguém quer ir para a Pasargada, de modo que terá de ser aqui, na Tapadinha. Caso para dizer que estamos condenados ao entendimento. Obrigados ao destino comum, por Cabo Verde. Por isso, e porque há valores que transcendem a política, a tolerância e o diálogo devem falar mais alto. Devíamos, pois, ir à conversa de café. Para expressar as nossas “posições espontâneas”. Ou quanto mais não seja pelo café. Que nunca defraudou ninguém…
Xatiadu ku flipadu
O comício ia forte e feio, cheio de desgraça e de má-língua, vaticinando para Cabo Verde tsuname, tremor de terra, erupção vulcânica e praga de mil pés. O comício do pessoal xatiadu ku flipadu, pronto para tomar a terra de assalto e para ver se era daquela que a malta comprava gato por lebre. De repente, surge o jornalista no meio do apupo dos imbecis, uns mais fanáticos do que outros a mandar vir farpas contra o gajo. “Li o teu artigo no on-line”, diz um cão-de-fila, pronto para saltar na presa. O seu comparsa põe o dedo em riste e ameaça o jornalista. Gente que confunde estado de direito com da direita. Onde será que vimos isso? Alguém se lembra das ameaças pidescas? Em tempos do Estado Novo, seria? É pá…uma corja de fascistas!
Aquariano pós eleitoral
A 24 de Janeiro, este aquariano fará anos. São muitos e não os vou dizer ao leitor. Só direi que continuo engajado às coisas da arte e não às circunstâncias da política. O tempo eleitoral está sendo uma excepção, uma espécie de intervalo para dar o meu contributo modesto. Como cidadão não ficaria bem com a minha consciência, se visse este momento a partir do cais de ver passar o barco. No dia 13 de Fevereiro, faça sol ou chuva, venha nuvem ou Juno, voltarei aos meus poemas e às minhas pesquisas. Como diz alguém que me é próximo, “é tempo académico, mano”. Et pour cause, a partir dessa data, regressarei ao meu âmago. Aquariano tem cada uma…
sábado, 7 de janeiro de 2006
Rio
Eis que um rio que nunca deveria ter tido outro rumo regressa agora às suas margens. Não saberei se por saudade ou se por cansaço. Ou se por alguma vocação impregnada às coisas que termina sempre o seu a seu dono. Os abraços, a boca, o cabelo, o sexo, o perfume, tudo exala um retorno mais que eterno. E eu, perplexo diante da vida, deixo-me escorrer nessa torna-viagem como se a sina me viesse já escrito. E nós, ao fim e ao cabo, cumpríssemos uma rota concêntrica. Em torno deste enorme amplexo…
sábado, 31 de dezembro de 2005
Feliz Ano Novo
Boas lembranças para todos, bons festejos. E, sobretudo, um Ano Novo, com muita prosperidade, paz e amor.
Nota: Arte é a condição sine qua non para uma resolução alternativa.
Nota: Arte é a condição sine qua non para uma resolução alternativa.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2005
INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado
- Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
- A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
FERNANDO PESSOA
Que raras deusas têm escutado
- Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
- A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
FERNANDO PESSOA
quinta-feira, 29 de dezembro de 2005
Soneto desviado
Soletrava ela ou ele – não importa,
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe –, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.
E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.
Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.
E saberão (dele ou dela) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto…
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe –, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.
E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.
Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.
E saberão (dele ou dela) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto…
Passaja d’óne
Uma espécie de nuvem atravessa a manhã e se instala, nublada e cinzenta, na minha alma. Não sei se da geofísica ou se da minha tristeza, mas o certo é que jamais verei a águia que por mim passou e, se calhar por leviano romantismo, me deixou este travo de saudade. Também confesso que a divisa entre um ano que finda e outro que começa me deixa entre a euforia e a nostalgia. Quem dera poder, como os demais espantar os fantasmas que, noite e dia, invadem cá dentro as minhas catedrais. Tudo se esvai. Inexorável é a areia que vai com o vento. Insustentável este sentimento de perda que a pertença, quase sempre, não processa. Estou na beirada do rio Charles, em Boston. Numa ruidosa rua de São Paulo. Ou, no alto do Monte Verde nesta friorenta manhã, onde a águia atravessa o meu estado da alma. Não sei se da geofísica ou se da minha tristeza…
quinta-feira, 22 de dezembro de 2005
NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI
por Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
Nota do Blogueiro:
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
Nota do Blogueiro:
Natal: rebuliço do vento
Venta. Lembro-me da minha tia-avó Mamazinha a discorrer sobre o equinócio. Lá fora o rebuliço do vento. Aquele redemoinho. O silvo de uma melopeia triste. Dos que cortam na alma. E o fino corte na fímbria da tristeza. Das que se revelam apenas num olhar de soslaio. Relance de transeunte. Fugaz estrela. Ou tão-só cadente. A riscar o céu. As luzes, os sons, as gargalhadas, a mesa farta e o pinheiro enfarpelado se esvaem na retina desse espelho. De nada adianta a multidão se cá dentro deambula, alheio ao vento, um homem só…
quarta-feira, 21 de dezembro de 2005
Os juízes e os nossos deuses de esquina
(O Salão Abílio Duarte está cheio e a multidão celebra a chegada do candidato. Nos bastidores, é tudo adrenalina. Mayra Andrade está em Cabo Verde a emprestar poesia a este Natal de rebuliço comercial. No Senegal, faleceu a minha tia Ivone. Ainda estou por saber quem julgará os juízes. E os nossos deuses de esquina…)
Pórtico
As Festas aproximam-se vertiginosamente, mas a minha alma está triste com o falecimento da tia Ivone, irmã da minha mãe, pertença do que somos e do que temos em termos dos valores familiares. Naturalmente que não irei discorrer sobre este doloroso facto íntimo no S/Cem Margens que, modéstia à parte e mau grado o próprio autor, é referência pública. Entrementes, dando contas à vida, devo sublinhar que a morte é o grande reconstrutor das coisas. Relativizando tudo, mas tudo, nada se sobrepõe à perda (irreversível) de uma pessoa querida e próxima. É como se uma espécie de sol partisse para todo o sempre. Dói muito, muitíssimo…
Glosa
As Festas aproximam-se vertiginosamente, dizia, e a azáfama natalícia é consumista. O comércio é o grande ganhador de haver Natal e os pobres ficam mais deprimidos do que nunca. Sempre achei que o Natal daria uma excelente ocasião para o debate sobre o desequilíbrio social. Paradoxalmente, a celebração do nascimento de Cristo (a grande esperança dos deserdados) se transformou na exuberância dos poderosos. Pode? Não que eu seja contra a celebração e o encanto natalícios. Quem chega em casa e não encontra a Árvore de Natal, não se considere feliz, nem benquisto. Há rituais que valem a pena, porque o ritualismo faz parte do ser antropológico. De resto, cai bem sair pela Avenida Cidade de Lisboa e pela Avenida dos Combatentes pela Liberdade da Pátria e ver as luzes da cidade. Melhor, só a voz de Nat King Cole a cantar “Merry Christmas To You”, no rádio do automóvel. Vertiginosamente, e de um só gesto, apetece-me abraçar a todas as pessoas que amo…
Deliberações & milénio
Uma decisão das autoridades eleitorais, sem efeitos práticos, que o Falecido comentaria “apenas para o inglês ver”, manda um partido político retirar cartazes de propaganda eleitoral colocados há três meses. Esse ilícito, que já teve o seu impacto danoso, está a ser reparado tardia e morosamente, permitindo à opinião pública pensar que a impunidade reina e que há uma tendência de “bananização” da República. E, já agora, porque “o cujo nada tem a ver com as calças”, aproveito para expressar solidariedade ao jornalista José Leite, do Noite Ilustrada, diante do acto censurante (sem aspas, meus senhores) a uma peça feita com isenção e deontologia jornalísticas e que não belisca os princípios que enformam o sistema e a lei eleitorais. Estamos a entrar em 2006, caríssimos. Há coisas que não cabem no milénio!
Com Cabo Verde no coração
Estive na Assembleia Nacional a ponderar a nossa sala cheia. O candidato Pedro Pires dizia, às tantas no seu discurso de apresentação, que a questão de fundo já não é a de haver ou não a democracia, mas sim da qualidade da democracia que existe no país. E, se a conversa antes era a sala composta do adversário, o que se dirá agora da transbordante multidão que ali estava a apoiar o “Amigo Comandante”? Mas o tema recorrente terá de ser adiado novamente, já que é impossível não pensar na minha tia Ivone, recém falecida, cuja alegria de viver merece, aqui e agora, a recitara da minha imensa saudade…
Pórtico
As Festas aproximam-se vertiginosamente, mas a minha alma está triste com o falecimento da tia Ivone, irmã da minha mãe, pertença do que somos e do que temos em termos dos valores familiares. Naturalmente que não irei discorrer sobre este doloroso facto íntimo no S/Cem Margens que, modéstia à parte e mau grado o próprio autor, é referência pública. Entrementes, dando contas à vida, devo sublinhar que a morte é o grande reconstrutor das coisas. Relativizando tudo, mas tudo, nada se sobrepõe à perda (irreversível) de uma pessoa querida e próxima. É como se uma espécie de sol partisse para todo o sempre. Dói muito, muitíssimo…
Glosa
As Festas aproximam-se vertiginosamente, dizia, e a azáfama natalícia é consumista. O comércio é o grande ganhador de haver Natal e os pobres ficam mais deprimidos do que nunca. Sempre achei que o Natal daria uma excelente ocasião para o debate sobre o desequilíbrio social. Paradoxalmente, a celebração do nascimento de Cristo (a grande esperança dos deserdados) se transformou na exuberância dos poderosos. Pode? Não que eu seja contra a celebração e o encanto natalícios. Quem chega em casa e não encontra a Árvore de Natal, não se considere feliz, nem benquisto. Há rituais que valem a pena, porque o ritualismo faz parte do ser antropológico. De resto, cai bem sair pela Avenida Cidade de Lisboa e pela Avenida dos Combatentes pela Liberdade da Pátria e ver as luzes da cidade. Melhor, só a voz de Nat King Cole a cantar “Merry Christmas To You”, no rádio do automóvel. Vertiginosamente, e de um só gesto, apetece-me abraçar a todas as pessoas que amo…
Deliberações & milénio
Uma decisão das autoridades eleitorais, sem efeitos práticos, que o Falecido comentaria “apenas para o inglês ver”, manda um partido político retirar cartazes de propaganda eleitoral colocados há três meses. Esse ilícito, que já teve o seu impacto danoso, está a ser reparado tardia e morosamente, permitindo à opinião pública pensar que a impunidade reina e que há uma tendência de “bananização” da República. E, já agora, porque “o cujo nada tem a ver com as calças”, aproveito para expressar solidariedade ao jornalista José Leite, do Noite Ilustrada, diante do acto censurante (sem aspas, meus senhores) a uma peça feita com isenção e deontologia jornalísticas e que não belisca os princípios que enformam o sistema e a lei eleitorais. Estamos a entrar em 2006, caríssimos. Há coisas que não cabem no milénio!
Com Cabo Verde no coração
Estive na Assembleia Nacional a ponderar a nossa sala cheia. O candidato Pedro Pires dizia, às tantas no seu discurso de apresentação, que a questão de fundo já não é a de haver ou não a democracia, mas sim da qualidade da democracia que existe no país. E, se a conversa antes era a sala composta do adversário, o que se dirá agora da transbordante multidão que ali estava a apoiar o “Amigo Comandante”? Mas o tema recorrente terá de ser adiado novamente, já que é impossível não pensar na minha tia Ivone, recém falecida, cuja alegria de viver merece, aqui e agora, a recitara da minha imensa saudade…
sexta-feira, 16 de dezembro de 2005
A hora íntima
por Vinícius de Moraes
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Rio de Janeiro, 1950
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Rio de Janeiro, 1950
quarta-feira, 14 de dezembro de 2005
Pinóquio ou Ronda nº 2
Contextualizando
(Uma hora depois de rodarmos os bares da cidade da Praia em busca da paz de espírito: Motcha, fechado; Pirilampo: fechado; Petu Pomba, fechado; chegamos ao Paulino, no Palmarejo. Acesa discussão. A escravatura foi abolida há 169 anos. Alguns dos nossos bisavós foram escravos. Mas até esta não discutimos a fundo a questão. Temos falado do Holocausto, outra tragédia, mas acontecida há menos tempo. As luzes na avenida prenunciam o Natal. Fala-se da escrita. O poeta é um fingidor, glosou alguém Fernando Pessoa. Eu queria tanto contar aos meus filhos a história do Pinóquio. Festival marginalizado, dizes no teu Blog)
Zero
Amiga, a grande verdade é que o mundo começou sem o homem e há de terminar sem ele. O ciclo completo não é necessariamente antropológico. Leio o teu Blog e gosto das tuas razões. Um dia, hás de entender que o mundo é um grande paradoxo às voltas. Vale termos os Raiz di Polon, Amiga. Gostei daquela: Está tudo a ver um Benfica – Manchester, um Porto – Artimedia. Ou então, a encher avenidas em passeatas...
Boa nova…lufada de ar fresco
Soube, há dias, pelo meu pai que Arménio Vieira lança em breve um livro de poemas. Nessa mesma tarde, encontro o Poeta por acaso e este confirma-me ter na calha o documento. Venha o livro, agora ou nunca. Quero ler boa poesia e não a versalhada que pulula por cá. Aguardo, com expectativa, o livro de poemas do Conde de Silvenius, um veneno contra a monotonia…e a mediocridade!
Natal a ser…
Aproxima-se o Natal e ficamos entre tristes e contentes. As luzes e as cores trepidantes trazem-nos algo como uma nostalgia e, mesmo calados cá dentro, a nossa alma chora de alguma perda. Viver é perder. Perder-se, para ser mais próprio. E no Natal, na azáfama natalícia, que nos sentimos mais sós no mundo. Ou a sós com ele, como tu predizias quando era luar o que nos encantava à beira das horas…
Cinematografia nacional
Parece ter chegado a hora de abordarmos o cinema e o audiovisual em Cabo Verde. A questão de fundo não é este ou aquele festival de cinema. Não coloquemos o carro diante dos bois. Está fora de questão adiarmos o debate. Importa, a bem da nossa cultura e identidade, uma cinematografia nacional. Para já, temos de criar as infra-estruturas institucionais que possam, via cooperação internacional e outros canais, fomentar a Sétima Arte. O cinema criou um manancial de obras-primas em pouco mais de um século. Tornou-se a mais popular e mágica linguagem antes da multimédia e fixou imagens transcendentais na retina da humanidade. Só que não se faz cinema com o aparato e os significantes. É preciso tocar no ponto certo. O Ministério da Cultura não poderá aderir ao cinema apenas por uma questão de marketing. Ele tem de se reestruturar organicamente para que o cabo-verdiano veja e produza cinema. A cadeia tem de ser montada. Aqui e agora…
Cinema Paradiso e o festival
Acontece o Festival de Cinema. Sem público, o que não é dramático em qualquer mostra de qualidade. A qualidade é hermética, me perdoem os populistas e demagogos. O meu amigo sente-se nervoso, perdido e sem estribeiras. Começa-se a procurar culpados. Típico de pessoas que não possuem referencial e tentam justificar a sua mediocridade diante da crise. Raramente a qualidade é pão que agrada todas as bocas. Mas, dizia, o festival acontece com alguns gatos-pingados e os burocratas ficam descontentes. Queriam ter público, imprensa, secretário de estado, ministro, fogo de artifício, gala, Hollywood, a ver se era daquela que o comboio entrava nos trilhos. Mas ainda é prematuro…
A propósito do cabaret no Ilhéu dos Pássaros
Ocupação do Ilhéu de Santa Maria? Eu também tenho as minhas reticências. Não que eu seja contra o investimento do magnata David Chow. Cabo Verde precisa é de mais e mais investimentos. Mas quando as coisas são de fundo, elas merecem ser socializadas com os cidadãos. Queremos saber a natureza de tal investimento no Ilhéu de Santa Maria, escrutinar criticamente os prós e os contras. Afinal trata-se de um formidável património histórico, paisagístico e ecológico. Por isso, as intervenções estruturais demandam, no mínimo, algum consenso da cidadania. O crescimento económico é bem-vindo, mas não o queremos a qualquer custo…
Sim, falávamos de Pinóquio
O escritor é uma espécie de Pinóquio. De tudo o que escreve, cresce-lhe este nariz. E os leitores já sabem nada é verdade. Nem mesmo a verdade. Escrever, dizia Pessoa, é fingir tão completamente a dor deveras. Bem criança, entre os meus seis e sete anos, eu ouvia contar a história do Pinóquio e ficava numa pilha de meditações existenciais. Era uma história, não se sabe se de rir, se de chorar. Como era bom ser Pinóquio e equilibrar sobre os ombros de outros bonecos. A vida é um show de marionetas…
(Uma hora depois de rodarmos os bares da cidade da Praia em busca da paz de espírito: Motcha, fechado; Pirilampo: fechado; Petu Pomba, fechado; chegamos ao Paulino, no Palmarejo. Acesa discussão. A escravatura foi abolida há 169 anos. Alguns dos nossos bisavós foram escravos. Mas até esta não discutimos a fundo a questão. Temos falado do Holocausto, outra tragédia, mas acontecida há menos tempo. As luzes na avenida prenunciam o Natal. Fala-se da escrita. O poeta é um fingidor, glosou alguém Fernando Pessoa. Eu queria tanto contar aos meus filhos a história do Pinóquio. Festival marginalizado, dizes no teu Blog)
Zero
Amiga, a grande verdade é que o mundo começou sem o homem e há de terminar sem ele. O ciclo completo não é necessariamente antropológico. Leio o teu Blog e gosto das tuas razões. Um dia, hás de entender que o mundo é um grande paradoxo às voltas. Vale termos os Raiz di Polon, Amiga. Gostei daquela: Está tudo a ver um Benfica – Manchester, um Porto – Artimedia. Ou então, a encher avenidas em passeatas...
Boa nova…lufada de ar fresco
Soube, há dias, pelo meu pai que Arménio Vieira lança em breve um livro de poemas. Nessa mesma tarde, encontro o Poeta por acaso e este confirma-me ter na calha o documento. Venha o livro, agora ou nunca. Quero ler boa poesia e não a versalhada que pulula por cá. Aguardo, com expectativa, o livro de poemas do Conde de Silvenius, um veneno contra a monotonia…e a mediocridade!
Natal a ser…
Aproxima-se o Natal e ficamos entre tristes e contentes. As luzes e as cores trepidantes trazem-nos algo como uma nostalgia e, mesmo calados cá dentro, a nossa alma chora de alguma perda. Viver é perder. Perder-se, para ser mais próprio. E no Natal, na azáfama natalícia, que nos sentimos mais sós no mundo. Ou a sós com ele, como tu predizias quando era luar o que nos encantava à beira das horas…
Cinematografia nacional
Parece ter chegado a hora de abordarmos o cinema e o audiovisual em Cabo Verde. A questão de fundo não é este ou aquele festival de cinema. Não coloquemos o carro diante dos bois. Está fora de questão adiarmos o debate. Importa, a bem da nossa cultura e identidade, uma cinematografia nacional. Para já, temos de criar as infra-estruturas institucionais que possam, via cooperação internacional e outros canais, fomentar a Sétima Arte. O cinema criou um manancial de obras-primas em pouco mais de um século. Tornou-se a mais popular e mágica linguagem antes da multimédia e fixou imagens transcendentais na retina da humanidade. Só que não se faz cinema com o aparato e os significantes. É preciso tocar no ponto certo. O Ministério da Cultura não poderá aderir ao cinema apenas por uma questão de marketing. Ele tem de se reestruturar organicamente para que o cabo-verdiano veja e produza cinema. A cadeia tem de ser montada. Aqui e agora…
Cinema Paradiso e o festival
Acontece o Festival de Cinema. Sem público, o que não é dramático em qualquer mostra de qualidade. A qualidade é hermética, me perdoem os populistas e demagogos. O meu amigo sente-se nervoso, perdido e sem estribeiras. Começa-se a procurar culpados. Típico de pessoas que não possuem referencial e tentam justificar a sua mediocridade diante da crise. Raramente a qualidade é pão que agrada todas as bocas. Mas, dizia, o festival acontece com alguns gatos-pingados e os burocratas ficam descontentes. Queriam ter público, imprensa, secretário de estado, ministro, fogo de artifício, gala, Hollywood, a ver se era daquela que o comboio entrava nos trilhos. Mas ainda é prematuro…
A propósito do cabaret no Ilhéu dos Pássaros
Ocupação do Ilhéu de Santa Maria? Eu também tenho as minhas reticências. Não que eu seja contra o investimento do magnata David Chow. Cabo Verde precisa é de mais e mais investimentos. Mas quando as coisas são de fundo, elas merecem ser socializadas com os cidadãos. Queremos saber a natureza de tal investimento no Ilhéu de Santa Maria, escrutinar criticamente os prós e os contras. Afinal trata-se de um formidável património histórico, paisagístico e ecológico. Por isso, as intervenções estruturais demandam, no mínimo, algum consenso da cidadania. O crescimento económico é bem-vindo, mas não o queremos a qualquer custo…
Sim, falávamos de Pinóquio
O escritor é uma espécie de Pinóquio. De tudo o que escreve, cresce-lhe este nariz. E os leitores já sabem nada é verdade. Nem mesmo a verdade. Escrever, dizia Pessoa, é fingir tão completamente a dor deveras. Bem criança, entre os meus seis e sete anos, eu ouvia contar a história do Pinóquio e ficava numa pilha de meditações existenciais. Era uma história, não se sabe se de rir, se de chorar. Como era bom ser Pinóquio e equilibrar sobre os ombros de outros bonecos. A vida é um show de marionetas…
segunda-feira, 12 de dezembro de 2005
Porque...
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
segunda-feira, 5 de dezembro de 2005
Não há praia para ninguém, madame
As boas e as más da Tapadinha
Há coisas que só acontecem aqui na Tapadinha. Umas boas, como a cachupa refogada ou o funaná lento. E outras horríveis, como o outdoor eleitoral antes da campanha ou, pior ainda, a covardia de o tirar. A jeito ou a eito, como diria o falecido no seu tratado “Oito ou Ointenta, as Dicas da Malandragem!”. Pelas coisas boas, vamos ficando nesta paragem e, nas entrelinhas, empunhando a bandeirola, mesmo que a dita pareça um pouco o logótipo daquela lata de banha da CEE. Pelas más, me perdoem as muito feias, mas beleza é fundamental, estaremos dispostos à lida contra a malvadeza e a carniça que envergonham a malta.
A Avenida enfarpelada
A Avenida, enfarpelada de luzes, prepara-se para a inauguração. Por uns instantes, somos já cosmopolitas. Por outros, continuamos provincianos. Cosmopolitas, quando pensamos a cidade de molde integrado e competitivo. Uma urbe disposta a ser um espaço equipado, com cidadãos qualificados. O binómio do desenvolvimento. E o resto, tretas. E provincianos, quando temos a sensação de trabalho acabado, obra fechada. Nivelando a cidade por baixo, comparando com outras da região ou, pior ainda, com o passado. O muito que já se fez, é pouco. O cidadão quer melhor aeroporto, porto, circular, avenida, rotunda, universidade, praça, mercado, parque, centro comercial, centro cultural, enfim, melhor tudo. Bem-estar e qualidade de vida, no mote dessa inauguração bonita. Ora, a cidade compara-se com o futuro. A saudade que se tem é do futuro…
Ao leitor atento
Mal abro a caixa-de-correio do Hotmail, dou de caras com uma mensagem indignada. Alguém que se assume apreciador do S/Cem Margens protesta contra a minha última crónica. Impõem-se-me uma resposta, noblesse oblige. Tive de explicar ao leitor que eu jamais seria pau-mandado. Se estou a apoiar este ou aquele é por pura convicção política. Melhor dizendo, convicção cultural. Acredito que este será capaz de ter sentido histórico e não se vender ao desbarato a um punhado de estrangeiros. E aquele tomará providências cautelares contra a máfia instalada na vizinhança. Pau-mandado é o apoiante acrítico que não destrinça aquele que governa daquele que se governa, porra. Agora, gostar mesmo, gosto da poesia e de coisas mais elegantes. Política não resiste à idealização. Arte, sim senhor. Paixão. Em matéria de coração, sou leviano assumido. Apaixono-me aos 44. Um caso sério…
O Plateau e o Monte Vermelho escavado
Dou uma volta pelo Plateau e tenho a impressão de que alguém anda a sabotar este lugar. Desconfio que seja ódio social, coisa parecida. Vingança histórica. Ou simplesmente incompetência. Nossa, naturalmente. De todos nós. Que não temos nem força, nem resistência, para dizer basta. Cidadania também seria afirmar o Plateau. Protegê-lo e fomentá-lo a ser o lugar de referência e memória de uma cidade, menina do mar. Só que o Plateau não é um problema só dos nascidos e residentes, dos munícipes direi, da Praia, mas uma questão que interpela a todos os cabo-verdianos. Desde a segunda metade do século XVIII que este espaço urbano é matricial da cabo-verdianidade. Não reconhecer isso é inibir a nossa memória e votar o nosso passado ao esquecimento. Não reconfigurar esta trajectória, que tudo alberga de identitária, significará uma perda colectiva com consequências imprevisíveis. O Falecido, que Deus o tenha, do alto do seu exagero, vaticinava a premonição da merda generalizada. Já não será só a falta de água e da energia eléctrica, dizia. Mas os esgotos vão encanar e o Monte Vermelho, escavado como está, cairá por terra. E os extractores de areia, além de matarem as tartarugas e de salgarem os lençóis freáticos, acabarão com as praias. Dentro de pouco tempo, já não há praia para ninguém, madame. O caos…
Há coisas que só acontecem aqui na Tapadinha. Umas boas, como a cachupa refogada ou o funaná lento. E outras horríveis, como o outdoor eleitoral antes da campanha ou, pior ainda, a covardia de o tirar. A jeito ou a eito, como diria o falecido no seu tratado “Oito ou Ointenta, as Dicas da Malandragem!”. Pelas coisas boas, vamos ficando nesta paragem e, nas entrelinhas, empunhando a bandeirola, mesmo que a dita pareça um pouco o logótipo daquela lata de banha da CEE. Pelas más, me perdoem as muito feias, mas beleza é fundamental, estaremos dispostos à lida contra a malvadeza e a carniça que envergonham a malta.
A Avenida enfarpelada
A Avenida, enfarpelada de luzes, prepara-se para a inauguração. Por uns instantes, somos já cosmopolitas. Por outros, continuamos provincianos. Cosmopolitas, quando pensamos a cidade de molde integrado e competitivo. Uma urbe disposta a ser um espaço equipado, com cidadãos qualificados. O binómio do desenvolvimento. E o resto, tretas. E provincianos, quando temos a sensação de trabalho acabado, obra fechada. Nivelando a cidade por baixo, comparando com outras da região ou, pior ainda, com o passado. O muito que já se fez, é pouco. O cidadão quer melhor aeroporto, porto, circular, avenida, rotunda, universidade, praça, mercado, parque, centro comercial, centro cultural, enfim, melhor tudo. Bem-estar e qualidade de vida, no mote dessa inauguração bonita. Ora, a cidade compara-se com o futuro. A saudade que se tem é do futuro…
Ao leitor atento
Mal abro a caixa-de-correio do Hotmail, dou de caras com uma mensagem indignada. Alguém que se assume apreciador do S/Cem Margens protesta contra a minha última crónica. Impõem-se-me uma resposta, noblesse oblige. Tive de explicar ao leitor que eu jamais seria pau-mandado. Se estou a apoiar este ou aquele é por pura convicção política. Melhor dizendo, convicção cultural. Acredito que este será capaz de ter sentido histórico e não se vender ao desbarato a um punhado de estrangeiros. E aquele tomará providências cautelares contra a máfia instalada na vizinhança. Pau-mandado é o apoiante acrítico que não destrinça aquele que governa daquele que se governa, porra. Agora, gostar mesmo, gosto da poesia e de coisas mais elegantes. Política não resiste à idealização. Arte, sim senhor. Paixão. Em matéria de coração, sou leviano assumido. Apaixono-me aos 44. Um caso sério…
O Plateau e o Monte Vermelho escavado
Dou uma volta pelo Plateau e tenho a impressão de que alguém anda a sabotar este lugar. Desconfio que seja ódio social, coisa parecida. Vingança histórica. Ou simplesmente incompetência. Nossa, naturalmente. De todos nós. Que não temos nem força, nem resistência, para dizer basta. Cidadania também seria afirmar o Plateau. Protegê-lo e fomentá-lo a ser o lugar de referência e memória de uma cidade, menina do mar. Só que o Plateau não é um problema só dos nascidos e residentes, dos munícipes direi, da Praia, mas uma questão que interpela a todos os cabo-verdianos. Desde a segunda metade do século XVIII que este espaço urbano é matricial da cabo-verdianidade. Não reconhecer isso é inibir a nossa memória e votar o nosso passado ao esquecimento. Não reconfigurar esta trajectória, que tudo alberga de identitária, significará uma perda colectiva com consequências imprevisíveis. O Falecido, que Deus o tenha, do alto do seu exagero, vaticinava a premonição da merda generalizada. Já não será só a falta de água e da energia eléctrica, dizia. Mas os esgotos vão encanar e o Monte Vermelho, escavado como está, cairá por terra. E os extractores de areia, além de matarem as tartarugas e de salgarem os lençóis freáticos, acabarão com as praias. Dentro de pouco tempo, já não há praia para ninguém, madame. O caos…
Subscrever:
Mensagens (Atom)