segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Montanha

Montanha

Não direi outra coisa deste momento. Os nossos olhares dizem quase tudo e faz algum frio nesta montanha. Devíamos ter trazido uma malha mais pesada. Os abraços e os afagos não aquecem as sobras do mundo. Desgovernados que somos, é neste preciso lugar que a vida nos faria sentido. As honras, os livros, os compromissos – menos os filhos e a música – podem ser deixados na saudade. E se o sol nos saísse redondo e amarelo? E se tudo parasse para sentir a terra a girar? Distante da pequena política…

O segundo erro de Agostinho

Recentemente, dando um triste espectáculo de mau perdedor, sai-nos um Agostinho, pior do que nunca, a propalar fraude ao vento. Foi um erro grave, gravíssimo. Sobretudo, porque não fez jus, nem honrou o ónus da prova. Quem acusa, tem que provar. Senão corre o risco de perder credibilidade. Ou, então, incorre ao crime da calúnia, com consequências penais e civis. Quem atira a primeira pedra, reza o bíblico preceito, terá de estar imune ao pecado. Ou, bem no popular já que estamos em campanha, terá de se cuidar do telhado de vidro. Vociferando, gesticulando e gritando, o gajo abriu as torneiras do esgoto e as residuais alagaram o seu próprio partido. Foi o seu segundo, e grave, erro. Tenho falado com amigos próximos, alguns militantes e outros dirigentes, do MpD. Estão todos incrédulos (e angustiados, diga-se) com a “feito” do seu presidente. Como sei separar o trigo do joio, e reconheço as virtualidades desse partido no equilíbrio do sistema político, digo isto aos meus amigos: tirem-no dali. Troquem-no por outro mais interessante. Aquilo deve voltar ao lugar de onde deveria ter permanecido – a militância na base!

Combate pela História

Mas basta, Pranchinha, onde quer que estejas! É já no domingo que a coisa se resolve. Entrámos na recta final de uma campanha. E já não temos tempo, nem paciência, para cansaços. Às tantas, a adrenalina toma conta de nós e move-nos o gosto pelo embate. Outras vezes, temos a tentação de exacerbar, sair da coordenação e responder às coisas. Mas não, terá de ser tudo ponderado, conforme os cânones. A campanha eleitoral é uma estilização, civilizada, da guerra. Um confronto feito de cartazes, bandeiras, pulseiras, tempos de antena, comícios, porta-a-porta, boca-a-boca, negociações, enfim, tudo a que se tem direito para levar a água ao moinho. A par de tudo isso, não estamos num jogo das circunstâncias. Para nós, este combate é estrutural. É um combate pela História…

Ao peitoril de uma casa

No alto da serra, avistamos São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau e os ilhéus Rombo e Raso. O aroma a rosmaninho, eivado a perfume dos pinheiros, leva-nos distantes no pensamento, com os fiapos de nuvem. De repente, invade-nos um sol redondo e amarelo. E rimo-nos. Não vá o adversário reclamar por um sol azulado, pois a natureza não se afina pelas leis eleitorais. Nem se confina a esse Carnaval da política. Vamos ao peitoril de uma casa, onde o queijo fresco é divino e o grogue é mesmo de Santo Antão. Um cúmulo de nuvem faz trilho ao telhado dessa casa. De uma porta, ladeada de duas janelas, sobra à soleira uma criança tão linda, tão linda, que Deus existe.

1 comentário:

Kamia aka Chissana Magalhães disse...

Peço desculpa por violar este espaço que frequentemente visito sem no entanto me atrever a manifestar a minha presença. Mas hoje não resisti. Tenho que lhe dar os meus parabéns pelos textos que a cada dia se superam.
Sobre Agostinho disse, e bem, exactamente aquilo que penso. Gostei particularmente do remate final. E o texto intitulado "Ao peitoril de uma casa" está lindo, lindo.

Desculpe se não encontro agora palavras melhores para expressar o meu apreço.