sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Mais Cabo Verde

Creiam, meus amigos, que o meu voto é pensado, ponderado e gizado. Com alguma parcimónia. Não será jamais um voto derramado no calor da emoção, nem aquele embriagado pelo carnaval da política. Fosse isto apenas para «animar a malta», acreditem que não faria este post. Procuro, no meu profundo dilema de Poeta, eleger um projecto que mais se aproxima ao Cabo Verde dos meus sonhos. Não me permitiria ao Cabo Verde dos meus pesadelos. Como diria Caetano Veloso: «Respeito muito minhas lágrimas». Um caso apenas: há dias, assisti, com profunda indignação, a grosseira ingerência do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa em tempo de antena de responsabilidade partidária a dizer aos Cabo-verdianos em quem votar. Fiquei chocado e enojado. Um festival de desamor à soberania de Cabo Verde e de falta de decoro para com os Cabo-verdianos. Por conseguinte, o meu voto é coerente e consequente. Quero mais Cultura, mais Desenvolvimento Sustentável, mais Estado Social e Mais Nação Global Cabo-verdiana. Mais SOBERANIA. Mais Cabo Verde. Votarei em José Maria Neves, no dia 6 de Fevereiro!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Soneto 57

Sendo teu escravo, o que fazer senão atender
Às horas e aos chamados de teu desejo?
Não tenho tempo algum para mim,
Nem serviços a fazer, até que me peças.

Nem ouso repreender a hora do mundo sem fim,
Enquanto eu, minha soberana, sigo tuas horas,
Nem penso que a solidão da ausência seja amarga,
Após dispensar teu servo de teu serviço;

Nem ouso questionar com meus ciúmes
Onde andarás, ou imaginar o que fazes,
Mas, como um triste escravo, sento-me e não penso,

Salvo, onde estás e quão feliz fazes a todos:
Então, que tolo é o amor, que, sob teu jugo
(Embora nada faças), nenhum mal o assombre.

William Shakespeare

domingo, 21 de novembro de 2010

Salmo 136


Nem por abandonadas se calavam
As harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
O vento de Sião, nas cordas tensas,
A música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
Na lembrança Sião e no futuro,
Até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimos nos pusessem,
Mais do que os corpos, as almas e as vontades,
Que nem sentimos já o ferro duro,
Se do que fomos deixarem as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem.

José de Sousa Saramago

domingo, 14 de novembro de 2010

José & Pilar


Ficámos na primeira fila para o documentário "José e Pilar". Ele era o Nobel e ela o pilar. A Pilar del Rio. Ambos em tela, música magistral, a morte simplificando em seu lento mas certeiro relógio o que se pontifica vida. Depois saímos de mãos dadas para uma pizzaria do meio do caminho e pudemos estar à luz de uma vela vermelha. Estranha sensação - a mesma sentida em Paris, no Les Deux Magotts, sabe-se lá pelas razões que a Razão não explica. Lindo documentário, dizia-te.

O filme, a um tempo, conota à ficção e denota ao factual. As biografias têm essa ambivalência de subverter o que aparenta. Uma ilha de Lanzarote, ventosa e lunar, com o enorme vulcão para subir e a vida em alteridade com a morte. Miguel Gonçalves Mendes conseguiu captar a essência: amor, antes e depois de tudo. A humanidade do amor. Às vezes, sob o disfarce do ateísmo e do olhar materialista (e dialéctico) da vida; outras vezes, rendido ao altar dos cânticos e à fé nas coisas que não se explicam.

Por mistério (ou por falta dele) o Rei D. João III, de Portugal, presenteia o Arqueduque Maximiliano, da Áustria com um elefante. Enquanto a "Viagem do Elefante" se escreve e se corporiza em livro, o documentário desfia a história de Saramago em seus últimos anos de vida e a força de Pilar, que amando o homem, nos permite o José que havia em Saramago. O Nobel...

sábado, 13 de novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Poema Começado no Fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Adélia Prado

sábado, 23 de outubro de 2010

Quinta poética

Escrituras Editora
e Casa das Rosas convidam para a

QUINTA POÉTICA

com os poetas convidados
Cláudio Willer (SP), Contador Borges (SP), João Melo (Angola) e Flá Perez (Campinas), com apresentação especial de Vivian Guilhem, do grupo de dança cigana Luna Gitana (SP).


Quinta-feira, 28 de outubro de 2010, a partir das 19h (evento gratuito)

Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos, Av. Paulista, 37 - São Paulo
Informações: (11) 5904-4499
Quinta poética

Mensalmente, a Casa das Rosas abre suas portas para a Quinta Poética, um grande encontro dos amantes da boa poesia, com a presença de poetas consagrados e novos talentos, que têm a oportunidade de apresentar seu trabalho. Intervenções artísticas das mais diferentes expressões, como dança, música, artes plásticas, cultura popular, envolvem a leitura dos poemas. Grandes nomes da poesia, como Álvaro Alves de Faria, Beth Brait Alvim, Carlos Felipe Moisés, Celso de Alencar, Contador Borges, Eunice Arruda, Floriano Martins, Hamilton Faria, Helena Armond, José Geraldo Neres, Raimundo Gadelha, Raquel Naveira, Renata Pallottini, Renato Gonda, entre outros, já estiveram presentes nesses encontros, que são promovidos pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas.

Os poetas:

José Geraldo Neres (curador) nasceu em Garça, SP, em 1966. Poeta, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual) e produtor cultural. Publicou o livro de poesia Olhos de barro, (Coleção Orpheu, Multifoco Editora) que recebeu menção especial na 3a edição do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2010); e Outros Silêncios, Prêmio ProAC da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo 2008, (Escrituras Editora, 2009) realizado através do programa “Bolsa para autores com obra em fase de conclusão” da Fundação Biblioteca Nacional em 2007/2008; e Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007). É cofundador do Palavreiros. Integrante do Conselho Gestor & Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas (Programa Cultura Viva, do MinC). Gestor Cultural. Curador da Sala Permanente de Vídeo/Doc. da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (2008). Jurado da etapa inicial do Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2009). Ministra oficinas literárias, com ênfase em criação literária e estímulo à leitura. blog: http://neres-outrossilencios.blogspot.com

Claudio Willer (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela representada pelo surrealismo e geração beat. Acaba de lançar Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia, ensaio (Civilização Brasileira, 2010); também publicou Geração Beat (L&PM Pocket, coleção Encyclopaedia, 2009); Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004); Volta, narrativa (terceira edição em 2004); Lautréamont - Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas (Iluminuras, nova edição em 2008), Uivo e outros poemas de Allen Ginsberg (L&PM Pocket, nova edição em 2010), Poemas para leer en voz alta (Andrómeda, Costa Rica, 2007) e ensaios na coletânea Surrealismo (Perspectiva, 2008). É autor de outros livros de poesia – Anotações para um Apocalipse, Dias Circulares e Jardins da Provocação – e da coletânea Escritos de Antonin Artaud, esgotados. Poemas publicados em antologias e periódicos literários, no Brasil e em vários outros países. Presidiu por vários mandatos a UBE, União Brasileira de Escritores. Trabalhou em administração cultural, inclusive como Coordenador da Formação Cultural na Secretaria Municipal de Cultura (1993-2001). Doutor em Letras na USP com Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (2008), faz pós-doutorado na USP sobre Religiões Estranhas, Hermetismo e Poesia. Coordena oficinas literárias; ministra cursos e palestras sobre poesia e criação literária. Prepara um livro sobre surrealismo e uma coletânea de ensaios sobre misticismo e poesia.

Contador Borges (São Paulo) leciona Filosofia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Como acadêmico, concentra a sua pesquisa na relação entre Erotismo e Literatura. Poeta, ensaísta e dramaturgo, publicou as obras: Angelolatria (1997), O Reino da Pele (2003), Wittgenstein! (2007) e A Morte dos Olhos (2007). Traduziu Aurélia, de Gérard de Nerval, O Nu perdido e outros poemas, de René Char, A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade, Diálogo entre um padre e um moribundo, do mesmo autor, entre outros livros. Publicou diversos artigos e poemas em jornais e revistas no Brasil e no exterior. É organizador e coordenador da Coleção Pérolas Furiosas da Editora Iluminuras, dedicada às obras do Marquês de Sade.

João Melo nasceu em 1955, em Luanda (Angola), onde vive atualmente. Melo é um dos autores africanos mais estudado nas universidades do Brasil, onde morou de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa, É jornalista, escritor, professor universitário e deputado à Assembleia Nacional de Angola. Dirige atualmente a revista África 21. Poeta, contista, cronista e ensaísta, publicou doze livros de poesia, cinco de contos e um de ensaios. Editado habitualmente em Angola, Portugal e Itália, publicou em 2008, no Brasil, o seu livro de contos Filhos da Pátria, pela Editora Record. Tem vários prêmios, entre eles o Prêmio Nacional de Cultura e Artes 2009, na categoria de literatura, pelo conjunto da sua obra. É membro fundador da União de Escritores Angolanos, da qual já foi secretário geral, presidente da Comissão Directiva e presidente do Conselho Fiscal.



Flá Perez (Flávia Perez) nasceu em 1968 no Rio de Janeiro e mora em Campinas, SP. Tem Mestrado em Microbiologia Agrícola pela USP. Publicou o livro Leoa ou Gazela, Todo Dia é Dia Dela. Participou da Antologia do Bar do Escritor em 2009. Teve poemas escolhidos para publicação no Concurso Nacional Cassiano Nunes, promovido pela Biblioteca Central da Universidade de Brasília e no Projeto Pão e Poesia 2009.

Vivian Guilhem (São Paulo) é professora de Dança Cigana e outras modalidades. Coordena o grupo de dança cigana Luna Gitana há mais de 10 anos e ministra cursos de dança e cultura cigana em sua loja Alemdalenda na região de Pinheiros. Além de empresária, apresenta um programa sobre cinema na All TV, pela internet. Maiores informações: www.vivianguilhem.webs.com e www.alemdalenda.com.br

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

Exercícios para a fragmentação de uma praça

Tenho por mim que se anda a estragar a praça. A nossa praça que, ao tempo, fazia de ágora, porque, em parelha, a cidade poderia ser polis. Com cidadania e tudo. Arménio Vieira, uma espécie de selo poético nesse entremeio, vaticinara-lhe um poema promonitório – falou até em bomba termonuclear! - e não é que lhe desmontam a esplanada, aí mesmo à beira do correto. Com a bomba do decreto. O pessoal não sabe que temos uma praça temática, relíquia urbanística, pensada para recriar uma cidade. Quadrangular, tendo por eixos a rua do ouro e/ou da banca, a rua da câmara e do povo, a rua da fé e da justiça, e a rua dos sobrados, ela própria lúdica sendo um baralho de cartas: valete, ouro, paus e espadas. Ao centro, o chafariz e a gurita, pela música clamando os cidadãos e pelas água renovando o convívio. Por um triz, éramos civilizados. Passávamos pelo processo civilizatório. Tempo andado, chega cá para isto um que diz: vamos alfaltar o miolo da praça e, por desgraça, desenha-lhe motivos de pano de terra e, como tudo acaba em vernáculo e em exótico, houve até palmas. Adiante, bobinando o tempo, o pessoal da festarola ergue-lhe outro um urinol que é um mastadonte, destoando a estética inicial dos que realmente pensavam a cidade. Demais faz mal e subentendam vocês aqui um grande palavrão mais sublime, de longe mais sublime, que o hino nacional. Agora sim, apetece tirar para fora o coiso e urinar nos cravos. Não deve ser proibido. Pode-se até defecar. Vomitar. Vomite-se quem puder, caramba. Neste besteirol de advogados, se a constituição for omissa, estaremos no reino do permitido…

MARINA SILVA PODE REFORÇAR O PROJETO DO NOVO BRASIL

Leonardo Boff *


É aqui que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. Ela mostrou que há uma faceta significativa do eleitorado que quer enriquecer o projeto da democracia social e popular. Esta precisa assumir estrategicamente a questão da natureza, impedir sua devastação pelas monoculturas, ensaiar uma nova benevolência para com a Mãe Terra

O Brasil está ainda em construção. Somos inteiros, mas não acabados. Nas bases e nas discussões políticas sempre se suscita a questão: que Brasil finalmente queremos?

É então que surgem os vários projetos políticos elaborados a partir de forças sociais com seus interesses econômicos e ideológicos com os quais pretendem moldar o Brasil.

Agora, no segundo turno das eleições presidenciais, tais projetos repontam com clareza. É importante o cidadão consciente dar-se conta do que está em jogo para além das palavras e promessas e se colocar criticamente a questão: qual dos projetos atende melhor às urgências das maiorias que sempre foram as "humilhadas e ofendidas" e consideradas "zeros econômicos" pelo pouco que produzem e consomem.

Essas maiorias conseguiram se organizar, criar sua consciência própria, elaborar o seu projeto de Brasil e digamos, sinceramente, chegaram a fazer de alguém de seu meio, Presidente do país, Luiz Inácio Lula da Silva. Foi uma virada de magnitude histórica.

Há dois projetos em ação: um é o neoliberal ainda vigente no mundo e no Brasil, apesar da derrota de suas principais teses na crise econômico-financeira de 2008. Esse nome visa dissimular aos olhos de todos, o caráter altamente depredador do processo de acumulação, concentrador de renda que tem como contrapartida o aumento vertiginoso das injustiças, da exclusão e da fome. Para facilitar a dominação do capital mundializado, procura-se enfraquecer o Estado, flexibilizar as legislações e privatizar os setores rentáveis dos bens públicos.

O Brasil sob o governo de Fernando Henrique Cardoso embarcou alegremente neste barco a ponto de no final de seu mandato quase afundar o Brasil. Para dar certo, ele postulou uma população menor do que aquela existente. Cresceu a multidão dos excluídos. Os pequenos ensaios de inclusão foram apenas ensaios para disfarçar as contradições inocultáveis.

Os portadores deste projeto são aqueles partidos ou coligações, encabeçados pelo PSDB que sempre estiveram no poder com seus fartos benesses. Este projeto prolonga a lógica do colonialismo, do neocolonialismo e do globocolonialismo, pois sempre se atém aos ditames dos países centrais.

José Serra, do PSDB, representa esse ideário. Por detrás dele estão o agrobusiness, o latifúndio tecnicamente moderno e ideologicamente retrógrado, parte da burguesia financeira e industrial. É o núcleo central do velho Brasil das elites que precisamos vencer, pois elas sempre procuram abortar a chance de um Brasil moderno com uma democracia inclusiva.

O outro projeto é o da democracia social e popular do PT. Sua base social é o povo organizado e todos aqueles que pela vida afora se empenharam por um outro Brasil. Este projeto se constrói de baixo para cima e de dentro para fora.

Que forjar uma nação autônoma, capaz de democratizar a cidadania, mobilizar a sociedade e o Estado para erradicar, a curto prazo, a fome e a pobreza, garantir um desenvolvimento social includente que diminua as desigualdades. Esse projeto quer um Brasil aberto ao diálogo com todos, visa a integração continental e pratica uma política externa autônoma, fundada no ganha-ganha e não na truculência do mais forte.

Ora, o governo Lula deu corpo a este projeto. Produziu uma inclusão social de mais de 30 milhões, e uma diminuição do fosso entre ricos e pobres, nunca assistido em nossa história. Representou em termos políticos uma revolução social de cunho popular, pois deu novo rumo ao nosso destino. Essa virada deve ser mantida, pois faz bem a todos, principalmente às grandes maiorias, pois lhes devolveu a dignidade negada.

Dilma Rousseff se propõe garantir e aprofundar a continuidade deste projeto que deu certo. Muito foi feito, mas muito falta ainda por fazer, pois a chaga social dura já há séculos e sangra.

É aqui que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. Ela mostrou que há uma faceta significativa do eleitorado que quer enriquecer o projeto da democracia social e popular. Esta precisa assumir estrategicamente a questão da natureza, impedir sua devastação pelas monoculturas, ensaiar uma nova benevolência para com a Mãe Terra. Marina em sua campanha lançou esse programa. Seguramente se inclinará para o lado de onde veio, o PT, que ajudou a construir e agora a enriquecer. Cabe ao PT escutar esta voz que vem das ruas e com humildade saber abrir-se ao ambiental. Sonhamos com uma democracia social, popular e ecológica que reconcilie ser humano e natureza para garantir um futuro comum feliz para nós e para a humanidade que nos olha cheia de esperança.

* Leonardo Boff, é teólogo, filósofo e escritor.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Cidade

Não será assim, tão de chofre, sem civilidade, nem genealogia, que se ocupa a cidade dos meus cuidados. Obviamente, Praia, como nenhuma outra, a remoer cá dentro. Complacência dos deuses e seus devotos? Caramba, sou ateu. Mesuras aos reis e seus súbditos? Arre, sou anarquista. Querem-na cosmopolita, uns; sonham-na pacata, outros. Gozá-la, seviciá-la e esventrá-la, todos. Metrópole única (mentalmente metropolizada), diferente, sui generis. Seus terroristas dorminhocos. Seus líderes viciados. Os munícipes desatentos transitam pelo Platô. Raros turistas merdosos. Pacóvios são os proclamados senhores destas achadas! Nero queimaria isto sem pestanejar. Tudo a arder e o crepitar de estrelas nessa bandeirola da tardia república. Crepite e carbonize, pois, a constelação toda. Assim tão de chofre, não…

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para o meu filho Pablo

Meus oito anos


Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar - é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Casimiro de Abreu

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

20 poemas de amor y una canción desesperada

Poema 1





Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.


Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.


Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!


Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.


Pablo Neruda

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Aguares

Os bulícios, bocados de quietude, são poemas
mesmo quando nem versos, sejam só fonemas,
verbos diversos, acaso das flores, outras cores,
abelhas de medrar mel, aguares e eu nisto tudo...

Filinto Elísio

sábado, 21 de agosto de 2010

Mãe Ilha


Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.
A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam
De azáleas lívidas a ilha se cercou.
A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.
E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina.


 Natália Correia

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Girassol

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente

Girassol!
 
Corsino Fortes

domingo, 1 de agosto de 2010

Ventana sobre el cuerpo

La Iglesia dice: El cuerpo es una culpa.
La ciencia dice: El cuerpo es una máquina.
La publicidad dice: El cuerpo es un negocio.
El cuerpo dice: Yo soy una fiesta.

Eduardo Galeano

sábado, 31 de julho de 2010

Beethoven é um erro perfeito



Beethoven é um erro perfeito


De repente, vejo o Pranchinha a comer papel na rua. A chatear a tribo sentada no café. A esmolar ao pessoal que joga xadrez. E, pior ainda, a declamar poemas de Manoel de Barros. Tipo assim:

Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

O Pranchinha a comer papel na rua. A Semana, A Nação, Expresso das Ilhas. Outros papéis. A brochura da Constituição. Tudo é comestível. A sua amada é vegetariana, mas ele assumiu-se ruminante de papel. Como os caprinos que, vez por outra, ludibriam o cosmopolitismo desta cidade e passeiam pelo Plateau. Come até Bíblia e Alcorão. Menos fruto proibido. E no café, um primata que faz as vezes de segurança, diz que os malucos têm de ficar a sete léguas. Para não cansar os clientes. Nada de roçar as intimidades dos homens que bebem a bica sem aurora. Outrora, os bichos eram entendidos sobre o convívio das lagartixas. Agora, talvez porque anda a mandar o aedis egipty, tempo da dengue, das estradas asfaltadas, das águas por virem, fumava uma beata esquecida no chão imundo. A chatear a tribo sentada no café, imaginem. E se ele se banhasse em querosene e deitasse fogo ao seu andrajoso corpo? Para lá do alarido, dos gritos e dos sirenes, de ficar tudo a tresandar churrasco e os não canibais atirarem a primeira pedra, voltaria tudo ao princípio. Ao descomeço…e o cronista que, para enriquecer esta língua de Camões, se entrega a inventar palavras escabrosas. Beethoven é um erro perfeito. E o Pranchinha a comer papel na rua!

Mumificado em Paris

Andando sozinho pelas tortuosas ruas, como fosse magicando que a poesia tenha, por nascente, as sintaxes sem certeza. Tê-la-á, em crescente, também por esta solidão em que se deslumbra o pensamento. Aperceber-me, não por ser Paris, qualquer cidade do mundo ou teus olhos pretos, o quanto se desabrocha o meu sentimento neste tempo. Sou extraído do lugar, mas contido, diria mesmo embebido, no tempo. Perdoa-me, se ao poeta for isto: o verbo abstrair-se-lhe do começo bíblico. Ele vem de não sei onde e vai para o infinito da incerteza. Nenhuma matemática. Gramática nenhuma. Deus tão pouco. Isto é oco e meio à-toa. Leio-te alguns trechos de “A Morte do Ouvidor”, de Germano Almeida, e bebo um pouco de água que trago no cantil. Um grupo de turistas japoneses sai do autocarro e começa a fazer fotografias. O bas-fond de Paris sabe defender-se. O turismo jamais vai conseguir domá-lo. Olho para os pombos que disputam e debicam pequeníssimas côdeas de pão. Mas, afinal, o que se passa aqui? Ando assim, mumificado em Paris (é o que dá rever Tutankhamon, no Museu do Louvre) ou me entrego ao agrafo dos outros cantos? A múmia do jovem faraó será um serial killer? Bem, por aqui fico: mumificado mesmo. Não gosto de dar muita confiança à cidade grande…

Os calares das casas

De repente, as casas começam a morrer. Uma a uma. Vai a turma à urna. Inexoravelmente. Quero dizer, as casas lá ficam, mesmo quando se arruínam. Os lares é que nascem, crescem e morrem. Podem até parir. Crescer e multiplicar. São lagares do ciclo desta vida descontente. À noite, ratos e morcegos roem o silêncio que delas restam. Réstias de nada, com fantasmas. Coaxos de sapos e ladrares de cães vagabundo. E vaga-lumes, grilos e baratas. Bichos pelas brenhas e gravanhas. Espumas ressequidas de onde as vozes são ruidosas. Os lugares são a sua própria decadência. Agora é o formigueiro que se abeira das portas. Pode o poeta pintá-los a fresco, retocá-los com metáforas. As letras, quais blocos de cimento das almas, são o recurso da indigência. No café, sentados à ruminação das horas, a tribo provinciana afoita-se às últimas da Copa do Mundo. It’ s time for Africa, o providencial golo espanhol a lixar a Holanda e o pintor de frescos (um barrilzinho de encomenda) a chatear. Arre que é tão inútil a poesia de os recensear todos. Casas que começam a morrer. Lares, queria eu dizer-vos…

sábado, 24 de julho de 2010

Proposição

Ano a ano
crânio a crânio
Rostos contornam
o olho da ilha
Com poços de pedra
abertos
no olho da cabra

E membros de terra
Explodem
Na boca das ruas
Estátua de pão s6
Estátuas de pão sol
Ano a ano
crânio a crânio
Tambores rompem
a promessa da terra Com pedras
Devolvendo às bocas
As suas veias
De muitos remos

Corsino Fortes

sábado, 10 de julho de 2010

Je t'aime

Je t'aime pour toutes les femmes que je n'ai pas connues
Je t'aime pour tous les temps où je n'ai pas vécu
Pour l'odeur du grand large et l'odeur du pain chaud
Pour la neige qui fond pour les premières fleurs
Pour les animaux purs que l'homme n'effraie pas
Je t'aime pour aimer
Je t'aime pour toutes les femmes que je n'aime pas


Qui me reflète sinon toi-même je me vois si peu
Sans toi je ne vois rien qu'une étendue déserte
Entre autrefois et aujourd'hui
Il y a eu toutes ces morts que j'ai franchies sur de la paille
Je n'ai pas pu percer le mur de mon miroir
Il m'a fallu apprendre mot par mot la vie
Comme on oublie


Je t'aime pour ta sagesse qui n'est pas la mienne
Pour la santé
Je t'aime contre tout ce qui n'est qu'illusion
Pour ce coeur immortel que je ne détiens pas
Tu crois être le doute et tu n'es que raison
Tu es le grand soleil qui me monte à la tête
Quand je suis sûr de moi.

Paul Éluard