terça-feira, 31 de outubro de 2006

Ao Sul do Realismo


Foto Omar Camilo

Cada poema um epitáfio

Não me canso, como um asceta, de gritar Eis Fortaleza, a Bela. Faço-o não para ensaiar uns versos épicos, mas para repetir o escrito num outdoor que me rouba a vista. Desta janela vê-se a languidez do oceano. E quando um barco vai á linha do horizonte, sou um Albatroz. Sem nostalgias, pois não há tempo para estados da alma. Mas os meus desejos não têm sintaxe. Nem são coisas axiomáticas. Eles saõ plenos e autênticos. T. S. Eliot, o maior dos poetas, teria dito que cada poema é uma plenitude. E o mestre enunciou-se assim em “Little Gidding”: “Cada frase e cada sentença são um fim e um princípio, / Cada poema um epitáfio”…

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Ao Sul do Realismo


Foto Omar Camilo

Una, duna, trina, catari­na…

"Qual o cheiro das roupas lavadas com sabão de coco? Qual é o aspecto dos bolinhos de polvilho? Qual o perfume do mel de jandaíra? Que maleitascura o xarope de mastruço e malvaísco?"
Jorge Marmelo

Una, duna, trina, catari­na…

Ao tempo, a Escola Grande era um educandário que obrigava as crianças a estarem em fila e a cantarem o Heróis do Mar, que ao tempo nos soava mal, mesmo mal. O pior era não falarmos crioulo nem mesmo nos intervalos. Já imaginaram como seria jogar carambola, campanada e polícia-ladrão em português? Mas como a brincadeira era soberana, tínhamos de transgredir. E como era bom transgredir. Não só para falarmos a língua mátria, mas comermos rebuçados e pasteis com diabo dentro, bem como os bolos no tabuleiro da “desaforada Olímpia”. Transgredir tinha sabor às bolas-de-Berlim e aos pastéis-de-nata que a vendedeira baptizava com nomes eróticos e indecentes, para a alegria do pessoal. E por que não recordar aquele Professor que, em vez dos rios e dos caminhos-de-ferro de Portugal Continental, fazia a malta decorar e batucar na carteira ao ritmo de "Una duna trina catari­na barimbau são dez..."…

No Ranking da Liberdade

Um deus-nos-acuda só porque os Jornalistas Sem Fronteiras perfilaram Cabo Verde no 45° lugar no Ranking dos Países com Liberdade da Imprensa. Escândalo é estarmos à frente do Brasil (em 73°) e dos Estados Unidos (em 55°), onde o campo mediático é dinâmico e a cidadania consagrada. Não sejamos complacentes com a falácia, meus senhores, pois no âmago sabemos que isto é a pré-história mediática. Aquele 29° lugar era virtual apenas. Então não foi aí há tempos que os jornalistas foram ameaçados à saída de um tribunal, porque cobriam o julgamento de um caso narco-farinácio? Deixemo-nos de tretas, pois já temos todos os dentes na boca. Para comer e para morder. Eu até creio que os Jornalistas Sem Fronteiras nem sabem da missa a metade. Imaginem se desconfiassem desse jornalismo que nivela os leitores, ouvintes e espectadores pelos padrões de Homer Simpson, aquele simplório da banda desenhada?
O nome das frutas

Diariamente, e por recomendação médica, faço marcha pela Avenida Beira-Mar. Saio de casa cedíssimo: o sol mal nascendo e os prédios por amanhecer. Caminho, absorto nos meus pensamentos, até ao mercado de peixe do Mucuripe. Ali, conheço alguns pescadores pelo nome e regateio o preço na pedra bem composta. De vez em quando, regresso com peixe fresco: badejo, tilápia, cavala ou atum. O melhor seria arroz de cabeça de atum, com açafrão, salsa e alcaparra. À mistura, levo coentro, limão e macaxeira. Batata doce e batata inglesa, quando não banana verde. E no regresso a casa, nos meus pensamentos contigo, mal reparo nas frutas à margem da calçada amanhecida: açaí, maracujá, graviola, cajá e fruta de conde – todos as frutas que adoravas. Já pelos nomes, mãe...

Bónus ou Resolução 48/2005

O Governo, por proposta do Ministro da Cultura, deu um passo histórico na aprovação da Resolução sobre a Estratégia de Afirmação e de Valorização da Língua Cabo-verdiana. Em face isso, o reconhecimento jurídico do Cabo-verdiano como Língua Oficial depende estritamente do Parlamento. Os grandes consensos, ventilados tanto por José Maria Neves como por Jorge Santos, deviam agendar a plena oficialização do bilingüismo de Cabo Verde, em benefício da cidadania e da integração de uma Nação que já se afirma Diasporizada. A imprensa também poderia fazer da Resolução 48/2005, para que, uma vez mais, não adiarmos o debate da nossa mais profunda identidade, nem joguemos a nossa alma para debaixo do tapete. A sociedade civil tem uma forte palavra sobre esta verdadeira questão de Regime. Queremos ouvir uns e outros. Temos, aqui e agora, a oportunidade de fazer História, una, duna..

domingo, 29 de outubro de 2006

sábado, 28 de outubro de 2006

VDMaktub, Bom de Vera ou o que mais queiram


Busquei por horas um nickname maneiro para este Blog, www.vdmaktub.blogspot.com . Pedi inclusive o concurso do Pranchinha que, vez por outra, me aparece com algo mais criativo. É que tu, Vera-Lúcia, és uma esteta em pessoa – nada a ver com os “mais iguais” do Triunfo dos Porcos, de George Orwell –, motivo que me levou à parcimónia de renomear o VDMaktub. Andando pela Av. Dom Luís, dei de caras como o nome – Bom de Vera –, bem chapado no frontispício de um prédio. “Eureka, si n ka pruveta es nomi, ki n kreka”…pensei num neolatinório terra-a-terra e alupekadu.

VDMaktub, diga-se em abono da verdade, parece até nome de agente secreto, desses que brigam contra o nosso dilecto James Bond. Onde foi Vera-Lúcia buscar o raio deste nome? Fê-lo, como vaticina o Pranchinha, para espantar José Bouquinhas, Pasqualini Settebellezze e Dom Charles, o Chaplin? Em caso afirmativo, ela teria razão, já que o pessoalzinho, além de bera, rasca e inculta, tem muito de caprino e nós, nisto de ética digital, somos todos vegetarianos. E, nesta fase veggie, não há espaço para os PêCêDês, sigla que responde por Pacóvios, Covardes e Desistentes, vulgo “laranjinhas da net”. Pois será VDMaktub, eivado dos belos textos de Vera-Lúcia de Deus e acompanhado dos gostosos acordes de Ricardo de Deus, o pianíssimo e veríssimo da deusa, para os mais chegados.

Tudo isso, para vos dizer que doravante chamarei este Blog de Bom de Vera, nem mais. Personalizando-o, bem à minha maneira, serei dele leitor assíduo e atento. Este point, já no começo, indicia corpo e alma. Forma e conteúdo. Uma harmonia entre a palavra e o ritmo. Aqui, a intenção e o gesto são feitos um para o outro. Tipo Romeu e Julieta. Refiro-me naturalmente à goiabada com queijo ou, em sua ausência querida, ao arroz com feijão. O eterno e transcendente baião-de-dois…

Uma última palavra sobre o VDMaktub, aliás BDV (Bom de Vera), não queira o leitor esgotar a sua percepção a cada leitura. Entrar no âmago do Artista é como deambular pelo labirinto. E Bom de Vera é fogo, não se revelando todo. Vou das chamas aos fumos, passando pelos seus incensos, e fica-me a sobrar a maior parte do enigma. Os meus cinco sentidos nem dão conta das virtualidades veladas deste Blog. A expectativa é o seu maior trunfo, diria até a sua carta na manga. Vera-Lúcia, estou com vontade de ler mais. Feita uma fome mesmo…

Poema de Amor


O Poeta e o seu café
Foto Mito


Se o teu coração e o meu
fossem dois relógios batendo
a mesma hora, nunca chegarias tarde
aos encontros, e eu, no minuto exacto,
chegaria a ti como um rio
que entra no mar.
Gostaria de estar contigo
e fôra essa a minha sina, que anjo
ou demónio se lembraria de vir dizer-me
que todos os paraisos
são paraisos perdidos?
Amar-te sempre queria eu
até que a morte nos viesse cobrir
de flores. No entanto, que posso fazer
contra os semáforos indicando o vermelho,
com tantas curvas impedindo
que eu siga em linha recta?
De resto, quando menos se espera
acontece chover e a seguir à chuva
vem a bruma. Como se não bastasse,
surge um guarda a exigir o santo-e-senha,
porém não recordo nenhum,
apenas sei o número de um telefone
que alguém me deu
quando andava de espingarda e boina verde.
Adeus, meu bem e deusa minha,
quando eu morrer, se morrer primeiro,
cobre-me de rosas vermelhas e brancas
e canta para mim uma canção de amor,
não faz mal se for alegre.


Arménio Vieira, in MITOGRAFIAS (livro ainda inédito)

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Sodadi Guentis Correia - Caio e Djamila

Cortesia Isa Pereira

Café com pão

Há coisas que não devem ser esmiuçadas para os outros. São demasiado íntimas, tratando-se de lembranças de infância. Os meus pais a declamarem Trem de Ferro, de Manuel Bandeira, é um trevo e um travo neste meu destino. Café com pão…


Trem de ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô...Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...

Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

(Manuel Bandeira in "Estrela da Manhã" 1936)

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

! Mirabolante Miró


Nocturne
Joan Miró

"O mais surrealista de todos nós".
André Breton

1.

Ontem, aproveitei a tarde para assistir a exposição! Mirabolante Miró, no Centro Cultural UNIFOR. Trazer 178 gravuras e 28 cartazes dos últimos 30 anos da vida de Joan Miró, dos quais muitos inspirados nos poemas de João Cabral de Melo Neto, Jacques Prévert e René Char, é um sublime acto de cultura. Sem mais comentários…

2.

Conversei longamente com o curador da exposição sobre uma parceria para a criação de uma pequeno Centro Cultural em Cabo Verde, ideia que vem sendo amadurecida e que já conta com alguns promotores, dentro e fora das ilhas. Ele achou a ideia excelente e pediu um memorando sobre isso. Há tanta coisa para ser mostrada, disseminada e intercambiada. À primeira, ele defendeu que o pequeno porte do espaço não deverá conferir a exiguidade dos projectos. É preciso algo mirabolante. Thinking big...

3.

Voltando a Joan Miro, "o mais surrealista de todos nós", segundo André Breton, importa referir, numa rápida síntese biográfica, que ele nasceu em Barcelona, na Espanha, em 20 de Abril de 1893 e faleceu em Palma de Maiorca, Espanha, em 25 de Dezembro de 1983. Na década de 1930, os seus horizontes artísticos ampliaram-se pelo mundo. Fez cenários para ballets e peças de teatro, e os seus quadros passaram a ser expostos regularmente em galerias francesas e americanas. Está em Paris, no fim da década, quando eclode a guerra civil espanhola, cujos horrores influenciam a sua produção. Em 1954, ganha o prémio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris ganha o Prémio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra mirabolante.
4.

Em termos de ficha técnica:

!Mirabolante Miró
Local: Espaço Cultural Unifor
Endereço: Av. Washington Soares, 1321 - Bairro Edson Queiroz
Período: de 29 de Setembro a 10 de Dezembro
Horário: das 10h às 20h, de terça-feira a domingo
Entrada Franca

Fragmentos...graças a Deus


Foto Omar Camilo

Leia mais sobre Ricardo de Deus e “Fragmentos”:

http://albatrozberdiano.blogspot.com/2006_09_01_albatrozberdiano_archive.html

http://multimerdia.blogspot.com/

http://www.sondisantiagu.blogspot.com/


terça-feira, 24 de outubro de 2006

Thoughts, feelings and poems

Retalhos nesta Fortaleza chuvosa




Quixote


(Sancho Pança e seus semelhantes são assim mesmo. Tanto os da esquerda quanto os da direita. Proliferam, dão explicações, razões, motivos. Fazem conferências de imprensa. Seminários, comunicados, entrevistas e não dizem nada)

Releio Dom Quixote de la Mancha, livro obrigatório. Todo o aspirante a belas letras deveria ler esta obra de Cervantes. De cada vez que a leio, fico pensativo, navegante. Da primeira vez, foi um frisson daqueles. Não fazia a menor ideia de quem era, mas a sua voz me admoestava os sentidos. Cá do meu lado, continuo quieto e navegante. Vou para onde os levam os meus passos. Se o real já não surte efeito, por que não deitar a mão à fantasia? O que ficará da Dulcineia são os seus assomos de dama. Alonjo Quijano de triste figura…

No Olimpo da Cise

Embora alguns guardiães da verdade musical façam deus-nos-acuda ao mínimo da crítica, vou dizer estas palavrinhas sobre Isa Pereira. Não apenas porque o Blog So Pa Fla, que prezo e respeito, tenha feito loas e referências ao espectáculo Na musika, nos kultura, mas por eu ter sido quem a convidou pela primeira vez a subir ao palco. Isa Pereira entra, sem favor nenhum, no circuito das deusas crioulas – Mayra Andrade, Sara Tavares, Lura, Maria Barros e Teté Alhinho, entre outras inquilinas do Olimpo da Cise – e fá-lo com luz própria.

Urubu pintado de verde

Vejo o texto do meu amigo e fico emocionado com a sua crença. O gajo lembra-me os comícios de 75. Eu já não consigo acreditar nas manhãs que cantam, porque em verdade elas nunca cantaram. Vem, irmão, deixo-te com uma frase de Mário Quintana: "a esperança é um urubu pintado de verde". Por estas e por outras, o meu cronista cabo-verdiano é Amadeu Oliveira e o meu gado de estimação continua a ser caprino. Mau grado Freud…

Da janela, as eleições

As eleições excitam-me. As músicas, as bandeiras, as movimentações, a festa. Os debates e as sondagens, aqui permitidas. Bem como as bocas de urna. À americana, com jovens em cada esquina. Acompanho tudo da janela, equidistante como manda a lei dos estrangeiros, mas de coração arfante e nunca neutro. Corro os olhos pelos jornais e um cronista brasileiro escreve: "Nesta altura, Alckmin só vencerá as eleições se Lula for flagrado na cama com uma mulher morta ou um homem vivo. Se a mulher estiver viva ou o homem morto, dá-se uma explicação qualquer e ele se reelege." As eleições excitam-me…

A estrela

A estrela HD 141569A, a 320 anos-luz da Terra

I couldn’t resist


15 Zodiacs
Laura Baltzell

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

domingo, 22 de outubro de 2006

Jazz has a sense of humor


Domingo é dia relaxado

Um rápido alô. Domingo é dia relaxado, não muito dado à escrita. Faxina geral, leitura dos jornais da terra (e riso de frases como “A pulsão totalitária”, de um colunista amigo) e audição de uma aula gravada sobre os empreendedores e o meio ambiente. Acabei de trocar o Gin´n tonic dos fins-de-semana pelas sessões musicais. Música e água mineral. Passando em revista os conselhos do Barão de Itararé, de Brinkerhoff Torelly, encontrei esta deliciosa frase: «O fígado faz muito mal à bebida». Coisas que o Pranchinha adoraria ter dito…Mas, dizia, troquei tudo pela música. Menos o vinho tinto, naturalmente, que alguém jurava não fazer mal à hipertensão. Jazz has a sense of humor, de Horace Silver, é o que recomendava agora aos mais novos…

Negócios com o Ceará

Escrevi um artigo para o jornal O Povo, de Fortaleza, sobre as relações entre o Ceará e Cabo Verde e quis mostrar ao leitor cearense as virtualidades em se relacionar com o nosso país. O incremento de negócios é um fenómeno real, sendo que muitos empreendimentos cearenses já se reestruturam para parcerias com Cabo Verde. A boa nova é que o Banco Mundial vai bonificar os empresários cearenses que abram negócios no Arquipélago ou ali arranjem sociedade com os empresários cabo-verdianos. Bom que se saiba – e importa dizê-lo sem papas na língua – que o pessoal no Ceará trabalha a sério no sector comercial, que se tornou no grande gerador de riquezas, empregos e tributos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve um crescimento de 40 mil para 127 mil estabelecimentos comerciais, entre 2000 e 2004. Aliado a esse fabuloso crescimento, o comércio, principalmente o de Fortaleza, está a tornar-se "cada vez mais complexo e completo". Uma das características do sector é o predomínio dos micros e pequenas empresas, que correspondem a 99% dos estabelecimentos existentes. Outra característica marcante é o elevado nível de informalidade, pois 56% dos estabelecimentos não são registados. Isso explica-se na medida em que são negócios que não exigem muito capital para iniciar e, mesmo assim, são capazes de gerar renda familiar. Em Cabo Verde ainda não quantificamos o peso das Rabidantes, os novos Lançados, para o equilíbrio das famílias. Esse marasmo não permite uma política bancária para o sector informal, nem uma política de crédito comercial que considere novas parcerias. Os nossos empresários, micros, pequenos e médios, precisam tomar tento a esta realidade, aprendendo a fazer joint-venture com os cearenses e a ampliar negócios não só na África Ocidental, como no Brasil. E porque não nos EUA, já que até esta nunca soubemos tirar o melhor partido do AGOA.

Os grandes pensadores

Dou mais uma gargalhada, às tantas, lendo o texto do meu amigo. “É a esperteza de Marx, que pensava ter descoberto as leis da História”. Não sendo marxista, nem marxólogo, tenho por mim que o grande pensador alemão mereceria outro tipo de tratamento e de análise. Assim como Adam Smith, Alexis de Tocqueville e outros. Em verdade, os grandes pensadores produzem teses e postulados, que não passam de verdades cujo Tempo cuidará de testar e ultrapassar. Todo o pensamento traz em si o lado jurássico, mas nem por isso perde a sua qualidade histórica e científica. Por isso, continuamos a amar, com devida e profunda vénia, homens como Leonardo da Vinci…

Nossos deuses de esquina

Soube do “bate-boca” na imprensa entre duas figuras da nossa praça. Pracinha, diga-se de passagem. O pitoresco provinciano. Assim, a cultura de maledicência, do murmurejo e da crítica infundamentada continua bem presente entre nós. Fazer o quê? O pessoal desconhece que a palavra é sagrada. Primeiro era o verbo. Depois viria a frase: olha o respeito! Esta não é do Barão de Itararé, pois que o Pranchinha continua aceso. E vai valendo pela gargalhada. Jazz has a sense of humor. E domingo é dia relaxadíssimo…

sábado, 21 de outubro de 2006

Para que o poema se faça, meu coração

Portrait II, de Juan Miró
As horas inexistem, posto que a clepsidra
Se escusa de vir em vidro e areia, olhos-relógios
Das palavras caídas e dos enigmas acesos
Que se aninham a desoras, meu coração…

Morreu a mãe, o cão e a esperança, morreu tudo
E mesmo o que resta sob a capa deste circulo,
Sendo o mundo circense em sua gargalhada,
É o despenhar das torres nessa decadente Babel….

Para que o poema se faça, meu coração
Em seu gosto de manga, seu aroma de rosa
Ou seu halo de mulher, de repente seja sina
Quando não suave vertigem ou
Portrait II…

Nas palavras se estalam as dores e não me digas
Puras metáforas as lágrimas no trilho das veias
Nem me cantes esse prenúncio das catedrais…
Filinto Elísio

INTERVALO

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado
-Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?


Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?


Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?


Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?


Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.


Fernando Pessoa