segunda-feira, 11 de maio de 2009

O Imprescindível


1.
Levitam-se, nesta manhã de Maio, todos os espíritos bons e sábios. O que se furta à luz deste dia é o meu pai ter feito 80 anos. Anastácio Filinto Correia e Silva é um homem sábio, sereno e tolerante nesta matura idade. O imprescindível. Com inteligência e humor prontos a disparar. Em tudo o que, de paz interior, lhe consente a vida…

2.
A partir deste momento, o Albatrozberdiano está suspenso. Fechado para balanço. Quero ter tempo e vagar (calma, sobretudo) para escrever Os Apontamentos de Denise, um romance que me dá voltas à cabeça e quer ser livro ainda este ano. Também anuncio para Julho o fim das crónicas no Jornal A Nação. Quero escrever menos para escrever melhor. Tudo não passa de ponderada e lúcida postura. Há uma hora para cada coisa. Pode-se, sem tornar ninguém infeliz, mudar de rumo e de vida. Pode-se arrepiar este caminho e andar outra estrada que não esta. Pode-se dançar outra música, a mais inaudível, todavia melhor meditada. A partir deste momento…

3.
A rapaziada (yes, we can eat..Big Mac) há-de ficar mais confusa nas eiras e nas beiras. O entardecer da idade, já dizia Eugénio Tavares, trar-nos-ia o imorredouro sentimento de amor. No devagarinho, vaticinara-o com inusitada confissão de Poeta. E o que rebrilha ali, dir-se-ia o sol em estribilho, são leiras de nada e outras sesmarias. Basta esse despautério de idiota da aldeia. Artífice preguiçoso de verbo trapalhão era só o que me faltava. Basta de mariquices da pequena prosa. De resto, não há como aplainar o cânone sério. Precisaria, sim, de tempo útil para escrever de pulso aberto. Para cuidar do lume brando que a cozedura literária exige. Para fazer a tenra broa de côdea fina, esse melhor recheio que a metáfora determina. Fique, pois, confusa a rapaziada.

4.
Eis a cidade. Eis o labirinto, os esfíngicos becos desta urbe. Predicam-nos infernos, os desta paróquia. Predicam-nos também céus, mas pleiteiam-se em nós verbos para pintar seus homens. Eis a tinturaria com verdes diluídos em cabo magenta. O barroco tropical seco. Uns que envilecem, outros que envelhecem. Uns são como parra e dão em nada; outros, como tu, são uva boa e dão vinho maduro. Talvez fosses à frente franquear-nos a porta do velho casario. Ou a anunciar-nos o fim de um ciclo. E o começo de uma outra conjura…

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O único impossível



0. Essencialidade
O que faz a poesia, no meu modesto encarar, é a essencialidade poética vis-a-vis a realidade. A realidade pode ser apaziguada e/espasmódica. Ela pode ser a sua própria dialéctica, a sua irrealidade. Ou, ainda, a sua surrealidade. É tudo uma questão do sensacionismo com que nos apercebemos dela. Por isso, “O único impossível”, de Ovídio Martins, tem a mesma essencialidade estética que “Saudade”, de Januário Leite.
1. O único impossível
Mordaças
A um poeta?

Loucura!

E por que não
Fechar na mão uma estrela
O Universo num dedal?
Era mais fácil
Engolir
o mar
Extinguir o brilho aos astros
Mordaças
A um poeta?

Absurdo!

E por que não
Parar o vento
Travar todo o movimento?
Era mais fácil deslocar montanhas com uma flor
Desviar cursos de água com um sorriso

Mordaças
A um poeta?
Não me façam rir!...

Experimentem primeiro
Deixar de respirar
Ou rimar...mordaças
Com liberdade

Ovídio Martins
2. Saudade
(À memória de minha estremecida mãe)
Alma mais simples do que a flor singela,
E coração de rola a mais sentida,
A minha santa mãe inesquecida
Era o ideal das mãis: tal era ela.
Não mais verei a luz da minha estrela
No céu caliginoso desta vida!
Que resta a [à] alma, pela dor vencida,
Nas trevas desta noite de procela?

Apenas mil lembranças! e, suspenso,
O éco da sua voz e a soledade!...
Ó mãe, se numa balança, tal qual penso,

Existe no teu mundo, a eternidade,
Mãe, põe dum lado o teu amor imenso,
E doutro lado põe: a minha saudade!

António Januário Leite
3. Poética
Houve do evadir das palavras
Como haveria, outrora, de fugir
Aos tempos verbais de jaez ou raiz
De um sol fulminado em fulminante,
Algo como poética…

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Boche é brom!


Foto de Xam


Logo eu que trocara, não os vês pelos bês, mas minaretes por minetes (mais por descuido que trocadilho), se calhar na calha de Alexandre O'Neill - Boche é Brom! -, fiquei ali, prostrado e demorado, a ver pela cara dos presentes. Mas este gajo ganha a vida a escrever poemas? Em verdade, este gajo ganha a vida a aturar quem atura, pondo no lugar a sintaxe toda e escondendo a semântica, onde cotovias, quanto não cucos, eram o que se via pela fresta das palavras. A vidinha afinal (e não há que se estar condoído com a sorte, se há tanta gente sem norte) resume-se a estes erros de paralaxe. Vamos, pois, ao Moamba animar o estômago, pois que as pretas estupidamente geladas entram lisas com os carapaus fritos e o resto será poesia. Queres saber para quando o fim do Albatrozberdiano, este blog que já vai longo. O meu irmão António, de todos o mais sábio, porque de racionalidade mais infinita, diria: Concentra-te para a literatura mais de monta, para o romance que de ti se espera. Talvez devesse eu ir às Conferências de Estoril ver Blair e Aznar, mas, nas horas que me sobram nesta Lisboa luminosa, ou poema ou nada. De resto, escreveria a sentença poética de Eugénio Melo e Castro: A poesia é um gozo/o leitor/deve sentir-se gozado. Estou a ver pela cara dos presentes, repito! Prometo ao escultor Moisés, que é vegetariano e esculpe menires que voam, uma cachupa de algas marinhas. Estou mais calhado para o vate poético, balbucio-me. Por isso, outro livro está já pronto: Diversa prosa de quase verso...

A Casa dos Budas Ditosos

A Casa dos Budas Ditosos - João Ubaldo Ribeiro

Poema à mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...


Eugénio de Andrade

terça-feira, 5 de maio de 2009

Sob-notas

Violão de Lela

Faleceu ontem, aos oitenta anos, Manuel Tomás da Cruz, mais conhecido por Lela Violão, toada de seresteiro, ser humano bom, meu amigo. Em Lisboa, onde me encontro, choro a eternidade da sua ausência. Tocador nos bailes da boémia, desde os 14 anos. Ele deixou-nos um disco - Caldo de Rebeca - em parceria com o violinista Martin Schaefer. Em verdade, não faleceu o Violão. De Lela…


Aleluia pantagruélica

Deixei de ir ao espectáculo de Lenny Kravitz, no Pavilhão Atlântico, para jantar em casa do Mito e da Rita, no Bairro Alto. Para além dos donos da casa, somos eu, Abraão Vicente e José Cunha. Aleluia pantagruélica, regada a bons vinhos: Gambas ao Molho de Alho Francês e Pato no Forno e Arroz de Alho – um poema. Cunha, um dos grandes poetas cabo-verdianos a emergir, fez incursões dramáticas sobre a minha poesia.


Feira do Livro de Lisboa

Acordo neste dia 6 de Maio, em quarto de hotel, ouvindo Unforgettable, de Nat King Cole. A só (e sozinho, como me sinto), balbucio a frase de Jorge Luís Borges: “Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever, eu gabo-me daqueles que me foi dado ler.” Por isso, releio A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, um romance obrigatório. Também por isso e antes de ir lançar Li Cores & Ad Vinhos, hoje às 18H00, ao Centro Cultural de Belém, passarei o dia no Parque Eduardo VII, na Feira do Livro de Lisboa.

sábado, 2 de maio de 2009

Alas de Mariposa


A Francisco Fragoso e João Branco, personas...


Campo de Concentração do Tarrafal

Naturalmente que não sou apologista de uma celebração inflamável, como se todos tivéssemos pavios curtos, do passado. Entretanto, não poderemos perder a consciência em relação à abominável condição humana em que se vivia no Campo de Concentração do Tarrafal. Nem deveremos permitir a lavagem da memória dessa tragédia, pois nem estaríamos a exorcizar os fantasmas (que elas existem, existem), nem estaríamos a construir um futuro saudável em temos dos Direitos Humanos. A História não se resume à interpretação dos dados documentais, pois estes também não são neutros, nem isentos, como aliás todos os testemunhos. A própria Ciência não poderá ficar imune às nossas abstracções e às nossas condições afectivas, sociais, históricas e culturais. A própria Ciência é produto histórico e, deste modo, a ciência com que olhamos o Campo de Concentração do Tarrafal…
Pathos nacional
Ainda que possa desagradar a gregos e a troianos (e a risco de melindrar cabo-verdianos), reafirmo, ou não serei eu pensador por conta própria, que a sagrada família política ficará mais enriquecida com o afrontamento político entre Carlos Veiga e José Maria Neves, duas pérolas políticas (prevaleçando este itálico) de Cabo Verde. Pelo dito e pelo visto, e só para confirmar o pálido exemplo destas palavras, atente-se ao famoso debate, mediado pelo jornal A Semana, indiciador aliás da "última fronteira"do pathos nacional. Não sendo as únicas soluções dos seus respectivos campos políticos, já que afinal (e ainda bem) o cenário se torna hoje mais complexo, creio gizarmos por esses dois cavalheiros a formatação de novas ideias e de outras vontades conducentes ao mainstrean político que anda a faltar ao País.
Chuva ácida
Não poderei ficar calado, nem deixar de expressar a minha indignação, diante do execrável artigo (encomendado e pago, diga-se de passagem), no Jornal Expresso das Ilhas, que se presta a uma desproporcionada tentativa de "linchamento moral" da minha irmã Benilde Correia e Silva e a de um maquiavélico "abuso psicológico" da sua filha Carine, de apenas 11 anos. A minha irmã, protegendo o bom-nome e a estabilidade emocional da filha, pesando ainda as responsabilidades públicas e sociais que tem, não poderá reagir nos mesmos termos e com as mesmas armas. Ademais, sabendo tudo não passar de um ardiloso plano de fugir aos tribunais e às responsabilidades (penais e civis) de "quem falsamente a acusa" e/ou de um desespero de causa em relação à justica que tarda, mas não falha, creio piamente estarmos aqui perante um demente a magicar "crónicas da morte anunciada". E, como diria o Poeta, as minhas dúvidas mais sombrias pairam no ar como nuvens de lixo tóxico prestes a desabarem sob forma de chuva ácida e corrosiva. Mas Deus tem...
Poësis, naturalmente
Claro que a vida continua, mesmo se os problemas imediatos são os homens-cães e vice-versa, desses que Arménio Viera espanta "não ladrarem". A realidade é esta e não importa chamar de monstros simples moínhos inertes, passe a metáfora quixotesca. Não há como fugir a metaforizar o discurso e chamar bois bravos às vacas loucas. O resto é ir vivendo, em poesia. Ou na Diversa Prosa de Quase Verso, livro que termino por estes dias. Os amigos, os verdadeiros amigos, terão entretanto a distrair com Li Cores & Ad Vinhos, ora no mercado. Prometi, sem arrogância e de coração aberto, dar autógrafos. Os Li Cores vão para os meus pais Hermínia Cardoso Correia e Silva e os Ad Vinhos para os poetas da minha geração José Luis Tavares, Valentinous Velhinho, José Luiz Hopffer Almada, Vasco Martins, Tchalé Figueira e Mário Lúcio Sousa.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Hora dos Bravos



0.
Esta crónica não pretende fazer análise da conjuntura política nacional. Tão pouco, pretendo, através dela, exercer uma valentia de afirmação com causa, mas sem consequência. Cronista bissexto, as minhas opiniões são apenas marginais e fazem parte de um “imprinting cultural” da minha cidadania. Por conseguinte, aos abutres de opinião, alguns dos quais parasitam as praças municipais e on-line com sórdidos comentários de trazer por casa, não haverá razões para a ira. Esta crónica pretende tão-somente rir dos mitos escondidos sob a couraça das verdades. O gozo enorme das desmistificações. Dar, com os leitores, a sonante gargalhada da dúvida contra a ideia-fixa e a ideia-força…

1.
Aquando o regresso das férias do A Semana (férias que melindraram alguns, diga-se de passagem), esse Jornal estampava uma grande entrevista, à guisa de debate, entre Carlos Veiga e José Maria Neves. Os meus amigos especularam à larga sobre o cenário que se montava. Uns, mais cartesianos, falavam que esses dois grandes actores da política fizeram um frente-a-frente presidencialista. Outros, menos cartesianos, admitiam um acordo tácito de coabitação política em que José Maria Neves faria o terceiro mandato governativo e Carlos Veiga finalmente chegaria a Presidente da República. Em verdade, todos afrontaram o arquipélago das incertezas e, a riscos enormes, não analisaram outras variáveis políticas e sociológicas que, no subliminar caos da existência, determinavam o curso dos acontecimentos.

2.
Ultimamente, ainda na mesma linha especulativa, os analistas, tanto analógicos como digitais, já falavam da possibilidade de Carlos Veiga e José Maria Neves afrontarem-se, primeiro, nas legislativas e, depois (se calhar por expedientes de delfinato), nas presidenciais, como se a opinião pública e o sistema político fossem apenas agentes da passiva. Uma vez mais, as coisas não parecem tão lineares à fala dos doutos e os veredictos autoritários das ideias parecem fadados a um rotundo fracasso. Carlos Veiga e José Maria Neves afirmam concorrer, por ora, à liderança dos seus partidos nos respectivos congressos no decurso de 2009. E a premissa de tais afirmações, ela mesma, comporta a sua incessante dialéctica.

3.
Confesso que me apraz assistir ao duelo entre Carlos Veiga e José Maria Neves, ambos determinados a nos governarem depois de 2011. Será um duelo dos bravos. Apraz-me assistir, uma vez mais, que os grandes acontecimentos fazem parte da incerteza destes tempos. Aliás, fazem parte da incerteza de todos os tempos. O poeta grego Eurípides dissera que “O esperado nunca se cumpre e para o inesperado um deus abre a porta”. E como é bela a aventura humana pelos insólitos…

4.
Quero apenas dizer aos confrades de opinião que as nossas ideias (as minhas à cabeça), às vezes, axiomáticas e absolutistas, precisam passear por meta pontos de vista e importar variáveis dos mais improváveis. Poderemos, nesta hora dos bravos, estar erradíssimos da silva. E isso também, meus caros, era um gozo enorme…

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Começa a haver flores a mais

começa a haver flores demais
flores cromáticas, umas mais plásticas
que outras, mas todas doidivanas,
a crescerem como um cancro
na Primavera.

começa a haver excesso de luz,
exagerado diurno e a faltar sombra,
becos íntimos para os beijos, fiapos
de nuvem e de lua para a primeva
nudez da aurora.

falta a cambraia das noites frias,
a ventania com que nos refugiamos
sob os cobertores de outrora, falta
calar o chilreio dos pássaros, começa
a haver canto a mais.

os interstícios de tantas falas,
os tules, ora sem cor, nem dor,
o caule das alas e o coice dos alados
cavalos, ora o reduzir poesia à prosa
e (as mulas) à metáfora.


Filinto Elísio
in Diversa prosa de quase verso

sábado, 25 de abril de 2009

25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O que me acontece

Evades-me, ora de contente, ora de padecida,
Perdendo no que me eras enleio, só devaneio,
O seres-me sêmea, se sendo fêmea não bastarias
Para que me afoitasses, cá dentro, poesia…

Desfiava-te as tranças e esvoaçava-te os pêlos,
Sodomizava-te a cada milímetro, a música
De ti que ouvia, teu certo respirar, arfante,
De quase gemido, nau perdida que derivas…

Evades-me sempre, tão que de modo leve,
Se me escapas das mãos, quão fresca água
De matares minha sede, a dos desertos meus…

A de minha vida breve, eis que me anoitece,
Ave que vai e vem, voa e povoa de imagem
O soletrar de amanho com que me foges…


Filinto Elísio
in Diversa prosa de quase verso

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Kriola Enkantu


Cronista Desesperado, Poesia & Moonlight Serenate






Poderia começar por intuir que a lua é uma mulher linda, lindíssima. E, já agora, que tanto se me dá, instituir que sou louco, o que é pouco diante do que se vê ao espelho. Poderia, em segundo, continuar a fazer loas à lua, ouvir dela uivos de loba e berrar à quietude do monitor do meu portátil. Às vezes, questiono-me se não seria mais interessante parar de escrever crónicas. Deixar de ser inspirado. Dar um desesperado basta ao Albatrozberdiano. Fazê-lo, não para transpirar a Bloga incauta, mas parar tão simplesmente. Radondu sima riloje. Questiono-me se não seria até mais ecológico se, num rasgo filosófico mediano, merecido à pasmaceira de resto, acabasse de vez com o Entre-Nós e fosse à lua cheia na rua. Assumir o penso, logo desisto. Outras vezes, admito que o pessoal terá de aturar as minhas impertinências, engolir o sapo das minhas agruras e aceitar que eu seja ovelha desgarrada. No dizendo, fazendo, se ajoelho não digo ámen. Rezar também não. Admito também compartilhar o oxigénio e o carbono com todos, e mesmo cometer pecados de amar, acarinhar, doar, verbos não muito regulares e, na paróquia, tidos por levianos. Como despiciendo o discorrer sobre os amores passados, tardios e reciclados -, uns em boas amizades, outros em ódios de lume brando. Admito ainda não poder ser outro, mas tão-só só este poeta, exagerado, pé feio, aquilo torto, olhos mortiços, andarilho…E leio, com entusiasmo, que os cientistas descobriram que recitar poesias ou ler poemas em voz alta diminui o stress, normaliza os batimentos cardíacos e a frequência respiratória. Será que a poesia começou a ser útil? Descobriram que, tal como a marcha matinal e/ou vespertina, vale recitar e eu, modéstia à parte, confesso que já andava desconfiado disso. Todavia, não será por utilidade a razão de haver escrito Li Cores & Ad Vinhos, livro que, em breve, estará à disposição da recitara local. Este é um livro inútil nos escaparates. De alguém a beber as palavras para além da conta e a desejar compartilhar a sua embriaguez com todos. Inútil como os olhos esverdeados dessa morena para o trigueiro e que passa também pela rua, alheia à lua. Se quiserem provar o cálice, tê-lo-ei à mão de todos. Confesso que este livro não marca uma nova fase, nem aponta novos caminhos. Não exageremos. Já não tenho idade de entreter a canalha. Tornei-me simples, assumidamente simples. Até por ter percorrido o território da complexidade. Simples, mas não ingénuo, como ditaria a própria desconstrução da complexidade. Como downgrade…Pela rádio, ouço a cantilena dos cretinos da terra. Têm a prerrogativa do Estado da Nação. Os melhores filhos desta democracia que também têm de mediocridade o que lhes sobra de milagrosa bênção. Enquanto não me chega o dia de pensar para desistir, saio à rua pensando no cão que me guarda, na estrela que reluz, na brisa que bole a copa das acácias, essas coisas…Lua, vagem, viagem. Uma carruagem de coisas. Sou assumidamente sartreano em que o homem encontra em toda a parte a projecção de si próprio. Os meus poemas repetirão isso. Tudo – pedra, flor, água, ar, terra, vento, gemido, fala, Deus – é reflexo do homem. O homem reposicionado em tudo, inclusive na sua própria transcendência. Acho até que a lua cheia, assim cheia de graça e de luz, me persegue. Saio a deambular, com a mão na algibeira, esquecido dos assaltos e dos meus inimigos de estimação. Moonlight Serenate. Eis que também a lua é inútil. Será? Assim (permitam-me esta confidência), a lua é uma mulher linda, lindíssima…

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tudo incluído



1.
Chego ao grande empreendimento turístico e o porteiro, que faz as vezes do segurança, não me deixa entrar. Ele explica-me que posso ver o pôr-do-sol ali mesmo à entrada, mas que o hotel não aceita não hóspedes. Eu sou um não hóspede. Tanto que me contento com o sol a pôr-se no mar como uma melodia que enternece. Um sol alaranjado e oceânico. De um lado esse sol enorme, redondo e esmaecendo-se ao crepúsculo. Doutro lado, o porteiro pensativo entre as minhas razões e as razões do hotel. Entre o meu bilhete de identidade (cidadão cabo-verdiano, pois com certeza), que me deixa à porta, e a ausente pulseirinha (jura-me o porteiro nas vezes do segurança), que me faria entrar no portentoso hotel…

2.
No aeroporto, já uma vendedeira me informara das suas vendas nulas. Os turistas que chegam ou partem, tendo pago à origem o tudo incluído, não têm dinheiro para comprar um souvenir da terra sequer. O t-shirt, o bibelot de casca de coco ou de pedra, o CD, o cartão postal, a garrafa de grogue, o ponche de mel e de coco, o atum de conserva…tudo fica literalmente às moscas. Na esplanada do aeroporto, a balconista também tem queixas: “Nem uma garrafinha de água!” Os turistas chegam e partem, liderados por um tour manager, sem terem espaço para conviver com as pessoas da terra. É-lhes desenhado um cenário exótico da ilha – as suas dunas de areia, as suas praias intermináveis, as suas estradas entre ravinas -, cujo pacote deve ser comprado à priori na agência de viagens…

3.
De repente, consigo falar com um turista acidental. Um que foge da muralha do grande hotel e vem ver o pôr-do-sol cá fora. Este quer saber da língua, da música, da poesia e da culinária de Cabo Verde. Sabe que temos um país de rendimento médio e em cumprimento dos objectivos do milénio. É um evadido, um subversivo. Não se contenta com sol e praia, com os passeios pela ilha nos autocarros alugados pela operadora turística. Diz-se farto de comer pasta e pizza em Cabo Verde. Cioso de sentir o Petit Pays que Cesária Évora canta, diz ele. De repente, consigo falar com um turista incidental. Um que rompe o circuito, o bloqueio que o circuito cria. Um perigoso, amante fervoroso do pôr-do-sol cá fora…

4.
Não deveria haver um sistema híbrido, alternativo ao all inclusive dos hotéis e das aldeias turísticas, de Cabo Verde? Algo que, sem perder a selectividade, contornasse (e controlasse) a versão de turismo da pulseirinha? E que permitisse maior interacção do turista com a comunidade? Naturalmente que, sendo criativos e inovadores, não nos faltarão ideias originais ou soluções, como agora é moda dizer, para humanizar (se não mesmo crioulizar) o circuito turístico cabo-verdiano. Tão pouco nos faltarão engenho e arte para acrescentar a tais soluções a cabo-verdianidade com os seus ingredientes da arte e do folclore. Ademais, não nos dispomos a mostrar a cor da pulseirinha diante um Cuba Libre, já que Grogue de Santo Antão e Vinho do Fogo não estão no cardápio. Enfim, é tudo incluído…menos Cabo Verde!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Sense Of Humor




Kriol Jazz Festival

Não sei a quem realmente agradecer pelo maravilhoso fim-de-semana de Kriol Jazz Festival. Antes de mais, à Câmara Municipal da Praia pela ousadia de transformar em festival a “outra música”, a inumerável música de qualidade que a elasticidade da semântica chamará de “jazz”. Igualmente, pela Produção Harmonia, vê-se que coisa fina, da melhor cepa e estampa. O palco, a Praça Luís de Camões (ora Praceta Dr. Lereno, ora Praça da Reitoria da Universidade), o público que vibra com Lenine e pede bis, tris, parou porquê, porquê parou, e que dança com Jorge Reys e Banda pela madrugada, os aficionados que cantam com Yuri Boanaventura, tudo muito mágico, com tanta metáfora. Ver e ouvir Mário Lúcio, com uma banda híbrida e boa, a estilizar a ladainha é momento raro que a recordação irá resguardar aqui no chip. Sentir o pulsar reinventado de Tcheka, ele todo mais que artista, mas Arte em pessoa. O som pesado de Meddy Gerville, o kora de Ba Cissoko, que lembra, mas com genica de um Richard Bona, Andreas Vollenweider. Para continuar…

Horace Silver

Como munícipe desta cidade, não estarei desautorizado a fazer propostas. Que a edição do próximo ano seja em tributo a Horace Silver, o maior jazz-player cabo-verdiano-americano, felizmente ainda vivo e sem a ventura de conhecer Cabo Verde. Silver foi o criou o hard bop, estilo mais influente do jazz desde os anos 80. Ele tocou com Stan Getz, Miles Davis, Coleman Hawkins e Lester Young. Com Art Blakey, ele criou os Jazz Messengers. Mais: tem duas músicas com reminiscências cabo-verdianas – The Capeverdean Blues e Song For My Father. Vamos, minha gente, homenagear Horace Silver. Passaporte Diplomático, Chave da Cidade, Doutor Honoris Causa, essas coisas. Como diria Silver, Jazz has a sense of humor…

Modo de preparo

O segredo está no tempero à minha moda. Seja pernil de porco ou badejo no forno, seja Molho de São Nicolau, seja Djagacida, a chave do enigma começa no fogo lento, alho, limão, gengibre e coentro. Juro que vou escrever um livro sobre os temperos. Dos pratos aprendidos em Providence. Dos experimentados em Marraquexe. Da cavala frita ao molho escabeche. De como acompanhas as medidas e cronometras o tacho de feijão. De como o azeite extra-virgem e o azeite balsâmico se acasalam. De como marinar esse carpaccio de atum. Sem cardápio, sem salamaleque. Slow food. E que tal um festival de slow food crioulo? Salsa, agrião e sal grosso. Sobrando-nos apenas e tão-somente o modo de preparo…

Vela para Nossa Senhora da Graça

Hoje, estou mais calmo. Dirás que acendi uma vela para Nossa Senhora da Graça, minha padroeira. Dir-se-ia que bate em mim um remanso qualquer. Será da voz de Yuri Boanaventura que nem cantou Ne Me Quite Pas? Será do texto sobre feng shui que me torna, a par e passo, crente do Oriente e das montanhas do Nepal? Será dos olhos dos meus filhos escuros e grandes com a noite? A noite me apazigua o pensamento, não sei se devido ao vento ralo ou à sombra que se desprende dos beirais…

sábado, 4 de abril de 2009

1. Kriol Jazz Festival. Quem não foi, perdeu. A edição de ontem elencava três grandes nomes. O primeiro convidado era um filho da terra: Tcheka. O seu nome é referência absoluta da música cabo-verdiana. Nesse mesmo palco, actuou depois Meddy Gerville, da Ilha Reunião, um dos maiores virtuosos do moderno jazz instrumental . Finalmente, a chave de ouro Ba Cissoko, da Guiné-Conacri, com os códigos todos do kora ancestral e o virtuosismo de quem aprendeu o "ruído" de Jimmi Hendrix...

2. Instituir Kriol Jazz Festival, anualmente, significará agregar valor à Cidade da Praia, pelo que merecem aplausos os promotores do evento. Aos poucos, a oferta cultural será plural e internacional, havendo espaço também para outras formas e outros conteúdos, para outras soluções espirituais. Longa vida ao Kriol Jazz Festival...

3. Praia já teve Fesquintal de Jazz e Festijazz, assim como já teve dois festivais de cinema. Vamos, pois, recentrar esta cidade pela Arte e pela Cultura. Comecemos pela animação, pelo patromónio, pela reflexão, pelo debate. Comecemos pela atitude. O striptease necessário. Despir a canga da mediocridade, da mesmice e da dominação. Mental slavery. Nu moooooooooooooonda...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Minuendos




1. Nota máxima para o workshop, ontem, na UniCV, com os músicos Jorge Reyes, Changuito e El Panga. Como diria Jorge Mermelo, foi um fim do dia perdido para as coisas do espírito. O apreender a música...lentamente.


2. Nos próximos dias 3, 4 e 5 de Abril vai se realizar o Kriol Jazz Festival, na Cidade da Praia. A conferir:


3 Abril


Tcheka - Praia - CV
Meddy Gerville - Réunion
Ba Cissoko - Guiné Conakry


4 Abril


Mário Lúcio - Praia - CV
Lenine - Brasil
Mário Canonge & Ralph Thamar - Martinique


5 Abril


Baú & Voginha - S.Vicente - CV
Regis Gizavo - Madagáscar
Jorge Reyes
Orestes Lopez, Cachão & Chano Pozo - Cuba
Yuri Buenaventura - Colômbia


3. Lá estava a treta ultraliberalóide e socialeira, a fingir-se por dentro de tudo e de nada. Uns de portáteis a luzir, outros de pose art-deco, todos na desdita do verbo "estar". A Fábula do Esopo, creio, começava nesses termos...


4. Chego a casa, já com o relógio sem cucos batendo as 21H00, a tempo ainda para detonar uma omelete de queijo da Boavista e cogumelos enlatados. Com chá verde gelado. Cansado...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Chalk drawings and messages

New York, circa 1971-early 1990s, © Helen Levitt.

A Way of Seeing Morreu a fotógrafa Helen Levitt, a diva dos instantâneos de Nova Iorque. Os insólitos, as loucuras, o mood da cidade mais cool do planeta não escaparam às lentes de Levitt que clicava com genica de artista plástica e com embriaguês de poeta. A minha alma triste, que é também de crosstown, andarrilho que sou das esquinas, testemunha das ruas fechadas, dos Dead End Streets, dos baixios que os viadutos concedem, do Harlem e do Bronx às 3:00 A.M., dos vagabundos que recolhem latas de alumínio e garrafas de plásticos em carros roubados nos supermercados, de tudo. Dos pintores das pontes, dos cabo-verdianos nos andaimes das pontes suspensas, de quando os aviões embateram nas torres gémeas da World Trade Center. De tudo tão fatídico. A way of seeing...O Paraíso tropical de Humboldt (...) Em menos de uma semana, o Beagle chegou à costa ocidental de Santiago e ancorou na baía da Praia. Com FritzRoy, fez visitas sociais, encontrando-se com o governador português e o cônsul americano. Depois, passeou pela cidade, como turista, passando por soldados com armas de madeira, crianças castanhas de tronco nu e currais de cabras e porcos. Chegou a um vale profundo, nos arredores, e aí, finalmente, encontrou o Paraíso de Humboldt (...) Tempo & Paciência O jornalista e amigo Francisco Fontes nos dá conta da impossibilidade da antologia poética Destino de Bai, lançado desde Julho de 2008, em Coimbra, chegar a Cabo Verde. A ONGD Saúde em Português não diz nada ao coordenador da antologia. Em relação aos exemplares a que temos direito, devo assumir que me falta Tempo & Paciência para mendigar tal obra aos donos do mundo. Fuck them all...

Monday in B-Flat


I can pray
all day
& God
wont come.
But if I call
911
The Devil
Be here
in a minute!
Amiri Baraka

DESTE CAUTELAR PENSAMENTO




(Da Arte, dos Partidos e das Verdades)




Pretensos críticos


Antigamente, ou talvez não tão antigamente assim, reinavam os pretensos críticos da Arte, esses todo-poderosos. Com os seus critérios herméticos e estafados. A determinarem que o borrão de fulano era melhor, mais bem conseguido ora, que o de beltrano; que a metáfora de beltrano superava a de sicrano e por aí além. Mau grado o arcaboiço estético, quase sempre de reboco epistemológico, a cerne de tudo se resume aos ditames do gosto individual ou colectivo. A obra-prima de hoje pode ser, amanhã, uma obra marginal. Por isso, rogava aqui que não se nos aprisionasse a fruição artística. A gaiola da crítica, da pretensa crítica, por competente que pareça ou se aperceba, poderá, em muitos casos, conter riscos de lesa Arte. Entrementes, reinam ainda entre nós os pretensos críticos da Arte, esses todo-poderosos…


Pretensos militantes


Leio, sem qualquer entusiasmo, o elogio (que a mim soa a falso e a exagerado) que o meu amigo faz a um terceiro, pelas suas virtudes de militante partidário. Fá-lo, como se o mundo se esgotasse ali e se as galáxias de preencher com o nosso existencialismo se encaixassem, como um todo, nesse vão dos partidos políticos. Para mim (sem querer ferir susceptibilidades de uns e de outros, nem ousar perturbar deuses de esquina com vara curta), os partidos são de facto importantes para o desenho político vigente, mas, pensados a fundo, não passam de variáveis marginais da grande equação social. Podemos, se quisermos, exercer cidadania e ter vida pública à margem dos partidos e, de tal prática, podemos induzir e quiçá alterar o nosso sistema constitucional. Não haverá determinismo, nem fatalismo tão pouco, que impeça que todo esse aparato afinal se aparte de ser, como diria Caetano Veloso, uma “vaca profana”…


Pretensos donos da Verdade


Ou mesmo das Verdades. O sinal cognitivo da filosofia é sempre o ponto de interrogação. Quem no-lo diz é o Poeta Salah Stétié. Os que por aqui exclamam, sendo donos da Verdade na imprensa e nos palanques locais; os que por estas e outras bandas se afirmam sabedores do caminho das vinhas (e das verdades do vinho), mais não são que fracassos em pessoas, teses fugazes, frágeis, fragilíssimas, como todas e, de pronto, degradáveis (posto que, de primeiro, já eram degradantes). Assim todo aquele que afirma e que exclama nesta arena, afirma e exclama a relatividade e a debilidade do exposto, e encaramo-lo com o sinal cognitivo da filosofia, isto é com o ponto de interrogação. Poeta, a Verdade é pouca; as verdades são dúvidas…