terça-feira, 17 de outubro de 2006

Os anéis de Saturno

(...)

Da próxima vez eu me mando
Que se dane meu jeito inseguro
Nosso amor vale tanto
Por voce vou roubar os anéis de Saturno

(...)

Extracto da música "Desculpe O Aue", de Rita Lee

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Saturno

Livros, génios, memórias…et tu danses



Mote…sem provocações

O teu email veio mesmo a calhar. Concordo contigo se dizes: não há ser humano, por mais brilhante que seja, que escape à pena ou à sanha dos invejosos, dos tolos ou dos ignorantes”. Novas de Cabo Verde? O que dizes também sobre as movimentações políticas não constituíram surpresa. Os políticos comportam-se da mesma forma. Sem luz própria. Densificam-se. Como num drama de Shakespeare. Deviam ler o livro "O Prisioneiro Fugido: Quando Deus é um Monstro", de Wafa Sultan, uma psiquiatra americana, nascida na Síria. De resto – Je sais que tu danses- como naquela canção de Francis Cabrel:


Je vois dans mes nuits écarlates,

Des diables et des dieux qui se battent,

Devant tes cheveux qui se balancent.


Por dentro da mente de Leonardo Da Vinci

Mal chego à Universidade, agora sob a efervescência do Mundo UNIFOR, dou de caras com a exposição “Por dentro da mente de Leonardo Da Vinci”, que veio de Florença para Fortaleza. A mostra consta de 40 modelos sobre os desenhos originais de Da Vinci, que podem ser vistos até 19 de Novembro. Os protótipos, segundo o curador da exposição, estão divididos em várias categorias: máquinas civis, como a bicicleta e o mecanismo helicoidal; máquinas de guerra, como escavadora de trincheira e projécteis ogivais; máquinas de ar, como o pára-quedas e o planador; e ainda as máquinas de água, como a draga e a embarcação de casco duplo. O visitante não pode deixar de ficar pensativo – filosoficamente pensativo, diga-se – diante da genialidade de Leonardo Da Vinci. Os códigos que produziu, misturando enigmas e axiomas, revelam que o ser humano é ilimitado. Se tanto, o céu por limite…

Caravaggio...mais poderoso que a morte

Falando dos grandes, leio a biografia de Michelangelo Merisi da Caravaggio, escrita pela romancista Francine Prose. O bibliotecário da Universidade, com quem tenho tido conversas interessantes, me recomendou a obra. Não apenas para eu saber mais um pouco sobre o grande pintor que morreu em 1610 aos 39 anos, mas para ir ao fundo de um génio que a seu tempo fora considerado maldito, pedrasta e violento. Segundo Prose, "tendo gasto sua vida breve, trágica e turbulenta pintando milagres, ele conseguiu criar um - o milagre da arte, o milagre da maneira pela qual alguma tinta, poucos pincéis, um quadrado de tela, junto com o ingrediente mais essencial, génio, pode produzir algo mais forte que o tempo e época, mais poderoso que a morte".


Wolfgang Amadeus Mozart

Pensar em Da Vinci e em Caravaggio, exigiria uma música de fundo. Felizmente há rádios FM que tocam Esurientes implevit bonis, de Claudio Monteverdi. O coro é das crianças da Catedral de Salisbury. Um bálsamo. Falando nisso, há quatro anos o Pablo nascia no Beth Israel Deaconess Hospital. A parteira falou no seu bostoniano castiço do Mozart Effect, estudos sobre o desenvolvimento dos bebés que ouvem o grande músico. Ela acabou por oferecer ao “baby boy” um CD, de Mozart…naturalmente.


domingo, 15 de outubro de 2006

Cinema e a Nação Global


Dr. Claire Andrade-Watkins
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sábado, 14 de outubro de 2006

The Lake of the Mind is Still



Laura Baltzell
East Boston Studio
80 Border Street, 4th Floor
East Boston, MA 02128

Divagações: Cabernet

Cabernet

O Pranchinha (ou terá sido seu fantasma?) trouxe um Cabernet Sauvignon que agitou lembranças. Uma baladazinha fácil, água de açúcar, incomoda o coração. Tive de “apagar” o áudio. Mas permanecia a neve caudalosa. De um lado a França, doutro lado a Suiça. Aqueles pássaros não acreditavam em Deus, mas na Arte e no Amor. E crê-se que tinham fé em Disney. No alto do Monte Jura. Uma bonita história que não cabe aqui…

Lantuna

Assisto, com prazer, ao “regresso” da Matilde, depois de um interregno blogueiro. Às vezes, apetece “fechar para balanço”. Outras vezes, há necessidade de navegar por outros mares. Existenciais até. A sua “torna-viagem” é pródiga e merecida. Aguardamo-la, com ternura e amizade. Com alegria…

O XI° Congresso

O XI° Congresso do PAICV está fruído e fluido. Sem os papões da esquerda e da direita cancerosas. O ideal da cidadania, da prosperidade e da qualidade de vida. JMN consagra-se como o grande líder do momento. E o PAICV moderniza-se a olhos vistos, sem perder a sua matriz e a sua motriz. Vamos pagar para ver. O país sai a ganhar…

Stanislaw

O Pranchinha, para os desavisados, é o Esculhambador-Geral da República. Admirador de Stanislaw Ponte Preta, o brasileiríssimo Sérgio Porto, o Pranchinha não respeita gregos, nem troianos, fará cabo-verdianos. É da sua natureza, defeito de fabrico, dirão alguns. O que Lalau, seu glorioso mentor, diria se visse esse Carnaval da República, tipo: “Zau, Zau, Zau…”? Eis a grande questão. A máxima do gajo: “O povão é resignado, tipo Nóis sofre, mas nóis goza”. A mínima: “Cabo Verde está na moda”…

Waterfront

Há quem goste, mas eu dispenso. Estou zen para caramba e queria estar num parque florestal. Ou numa montanha. Longe do frissom. Moro defronte ao mar, nesta cidade onde o turismo é quem mais ordena. Beira-Mar: muita agitação e vaivém. Do bem e do mal. De qualquer maneira, este décimo andar é ideal para assistir ao espectáculo do mundo…

Ilhéu de Santa Maria

Não se pode dizer que a gestão das ZDTIs não nos preocupa. Preocupa-nos e muito. Não pelos motivos politiqueiros de certa gente. O que o Germano Almeida escreveu, em boa hora, faz sentido e fé. Não nos podemos ficar indiferentes a isso. Há que respeitar o espaço das edilidades e das áreas de protecção ambiental. Falando nisso, já não estamos tão certos sobre o investimento de David Chow no ilhéu de Santa Maria. Queremos ouvir todos os lados, os prós e os contras, as partidas e as contra-partidas. E queremos estar por dentro do processo decisório. Feitas bem as contas todas (as sociais e as ambientais, sobretudo), quais são os ganhos? E as perdas?

Dr. Gunther von Hagens

Frio cortante, em Quincy. Vejo-a parar o carro e a entrar em casa. Wolleston Beach, vê-se pelos ciprestes. Ela fala com as crianças da exibição do Dr. Gunther von Hagens. Na areia fria, as gaivotas digladiam-se e a neblina cai sobre a tarde. Dói muito a neblina. Os aviões fazem o “landing approach” para lá das ilhas e o Outono acontece com nostalgia. Podia ter sido uma narrativa diferente. Noutro filme…

Weather Report

Entremente, calor abrasador em Fortaleza. Isto estava como um Pandemónio, mas hoje melhorou. Réstias do Cabernet Sauvignon na taça de cristal. Está fresco. Brisa fresca e céu caído, com cara de quem vai chover…

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

UM GIGANTESCO CENTRO COMERCIAL



O pintor cabo-verdiano Mito realizou a sua primeira expoição em Macau em Maio passado, por ocasião do 30º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre a República de Cabo Verde e a República Popular da China. Aqui deixa as impressões desse encontro esperado.
Macau sempre fez parte do meu imaginário. Talvez seja por ter uma prima casada com um macaense, que viveu em Cabo Verde. Talvez por isso sempre tenha acalentado o sonho de um dia conhecer Macau. Entre Abril e Maio de 2006, concretizei finalmente a viagem.

Cheguei a Macau vindo de Pequim. A primeira impressão foi a de estar num gigantesco centro comercial non-stop. Uma semana depois descobria aqueles que viriam a ser os meus lugares favoritos de Macau, o Mercado Vermelho, as Ruínas de São Paulo, a Ilha de Coloane, e também a simpatia das pessoas.

Reencontrei velhos amigos e fiz muitos outros. Um dos episódios que mais me tocou foi o reencontro com Joana Ling, a viúva do pintor Kwok Woon. Meia hora de conversa depois e entregávamo-nos às lembranças do tempo em que éramos colegas de curso na Arco, em Lisboa, nos idos anos de 90.

A minha visita ao Oriente permitiu-me ainda consolidar as relações entre as técnicas, os suportes, o imaginário da minha pintura e as tradições visuais do Oriente. A importância que sempre dei ao exercício da manualidade, à escrita, ao desenho de caracteres e também à pesquisa de novas e velhas grafias encontrou eco em cada momento da minha estadia. Foi ainda muito especial o encontro com a sonoridade do patuá, tão próxima do crioulo de Cabo Verde.
São exactamente estes, para além das outras razões que as palavras não alcançam e a própria razão desconhece, os motivos que me fazem desejar regressar tão breve quanto possível a essas paragens.

Revista
MACAU Página 117 IV Séríe - Nº4 Setembro de 2006

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Só pamódi

O sol descreve em arco as cores,
Que outrora foram olhares e gracejos,
Rápidos dizeres, vitrais, ladrilhos, estores
E o psicadélico das músicas nas catedrais …

De uma janela recuada e solitária,
Em solilóquios de tantos solfejos,
Reapareces, sombreada e decalcada,
Pura imagem no vórtice do pensamento…

Mas não eras tu tão-somente,
Quando as flores, os frutos e as nuvens,
Pasmos de espumas iam-se em pano e seda…

Natureza morta e viva, feita e reciclada,
Vezes sem conta em que eras, ó tecitura,
O meu soletrar nas calhas…só pamódi!

Filinto Elísio

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

domingo, 8 de outubro de 2006

A erupção do Monte Taburvur

Navegações: Brábu na txada

Há momentos em que as espumas dos lugares me obrigam a escrever sobre as coisas que leio. Em abono da verdade, isso não é um exercício recorrente. De molde um tanto bissexto, vou ponderando aqui e acolá a escrita dos outros. E faço-o com o exclusivo propósito de reinterpretar leituras. Não tenho outro interesse, creia-me o leitor. Obviamente que a grande notícia terá a ver com os partidos políticos cabo-verdianos. Os jornais fazem deles manchete insistente, à falta de móbil assaz mediático. Ganhasse um crioulo o Prémio Nobel. Mas não…

Pelo lido e acontecido, no plano real e no virtual, o MPD renovou-se, trazendo para a arena o Eng° Jorge Santos, candidato único à liderança. Estranhou-se o silêncio das eventuais tendências que davam um outro colorido a esse partido. O mesmo acontece com o XI° Congresso do PAICV, em que o Dr. José Maria Neves vai à sua própria reeleição, como candidato único. Onde estão as tendências que até ontem conotavam a democraticidade interna desse partido? A agravar os Estados Gerais dos partidos, a extinção do PCD, consagrando inexoravelmente a bipolarização. A pacificação interna dos dois maiores partidos e a consagração histórica da bipolarização numa sociedade em que a opinião pública se autonomiza ainda tímida e as instituições, bem como os empresários, procuram melhores caminhos, dizia-se, esta nova reconfiguração qualifica o processo democrático? Perguntas desta natureza não faltam. Faltará com certeza quem as queira responder…

Leio também a crónica de um confrade, que habitualmente gosto, mas fico mesmo esquisito. Quanta violência contida! A tertúlia tem de chegar a tal ponto? O pomo da discórdia justifica tamanho escárnio e maldizer? O extremar das posições chegou aos píncaros da ofensiva e da contra-ofensiva? Não sei quem seja o tal energúmeno de que o cronista se refere, nem importaria saber o porquê de assaz crispação. Nós, simples mas atentos leitores, gostaríamos de ficar pelo diapasão das crónicas a que o confrade nos habituou: análises límpidas, opiniões abalizadas e posições refrescantes. De quem é culto, na acepção académica e erudita do termo. Tão à margem do apupo dos imbecis…

Crónica consequente é ainda aquela de Ludgero Correia sobre o Estatuto Administrativo para a Cidade da Praia. Antes de mais, vem o texto a calhar, pois o Governo acaba de anunciar a ideia de reforma administrativa do país, sob a panaceia da Regionalização. Talvez coubesse, agora como nunca, debater o Estatuto Especial – e já agora os custos da capitalidade – à luz da Regionalização. Oportuna também, porque há mudança de guarda na Associação Pró Praia, abrindo espaços para outros debates e outras movimentações. O importante é não arrepiar caminho, nem perder os propósitos de promover a capital de todos os cabo-verdianos. Ainda que soe como eco no desfiladeiro, repito: de todos os cabo-verdianos…

E agora José? E agora você? A esta indagação drummoniana, respondo com riso e siso: no prumo da minha própria independência. A gostar de Cabo Verde com amor para lá de patrioteira. Diria até que existencialmente. Ainda que nestas paragens não haja Nobel para ninguém. Mas há Doutor Honoris Causa, sim senhor. Deixo a surpresa no ar, a partir de Fortaleza. Cada um tem a sua forma de contribuir. Uns organicamente, nesta ou naquela trincheira. Outros livremente, sendo a cidadania sua praia mais íntima. Sem lenço, nem documento. Brabu na txada…

Mar distante


Si no es el mar, sí es su imagen,
su estampa, vuelta, en el cielo.
Si no es el mar, sí es su voz
delgada,
a través del ancho mundo,
en altavoz, por los aires.
Si no es el mar, sí es su nombre
es un idioma sin labios,
sin pueblo,
sin más palabra que ésta:mar.
Si no es el mar, sí es su idea
de fuego, insondable, limpia;
y yo,
ardiendo, ahogándome en ella.


Pedro Salinas

Bô Seiva


Mayra Andrade a cantar Bô Seiva, de Orlando Pantera, é simplesmente ouro sobre o azul. Ver isso através do You Tube, mais precisamente no http://www.youtube.com/watch?v=uXqclPHi8co&mode=related&search=

Para obter o programa Macromedia's Flash Player.: Clicar aqui.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Rosas soletradas


"Las rosas están insoportables en el florero"
(Jaime Sabines)


Balbuciava-te rosa, rosas soletradas
Para o gáudio dos líricos e jardineiros
E néctares tão deliciosos quão viscosos
Dos amantes deslizantes no alarde…

Recordava-te, aos ouvidos esquecidos,
O ciciar das formigas nos abrigos,
O zumbido esvoaçado das abelhas
E as mãos do cio pelos corpos…

Nem te falava das pétalas, halos
E perfumes, fragrâncias longínquas,
De horizontes que idos se acomodam…

Nem te mostrava agora as dores,
O floreio dos espinhos e dos frutos
Os sais e ais com que se queda…


Filinto Elísio

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

terça-feira, 3 de outubro de 2006

A barca da fantasia



“Ao largo ainda arde a barca da fantasia/ e o meu sonho acaba tarde”
Pedro Ayres Magalhães


Intro

Duas notícias encorajadoras: a regionalização e o Tribunal Constitucional. A primeira, vou ponderá-la muito por alto. E a segunda, embora tenha uma posição sobre isso, é tarefa dos mais doutos. Só direi que já não era sem tempo a criação do TC. Temos sentido a sua falta…e de que maneira. Uma pequena nota sobre a pré estreia do filme “A ilha dos escravos”, do realizador Francisco Manso. Estamos em tempo de fazer do Cinema e do Audiovisual uma prioridade cultural…

Regionalização sim…vamos a ela

Cabo Verde, com a sua teia de ilhas e de comunidades no exterior, exigiria um modelo político-administrativo diferente. Raros os cabo-verdianos satisfeitos com o actual modelo. Nem a norte, nem a sul, nem a Barlavento, nem a Sotavento. E muito menos na Diáspora. Embora defendamos a economia de custos, saudamos a criação das redes e a irradiação dos pólos, fazendo jus à insularidade e, dentro do possível, à diasporização. O conceito Estado-nação, concentrador e polarizador, tende à macrocefalia, o que não é bem uma virtude. Naturalmente que haverá sempre pólos de maior desenvolvimento e de maior dinamismo, mercê das posições estratégicas das políticas, das economias, das demografias, dos espaços e das suas múltiplas conexões. Mas o Estado, necessário, mau grado o vaticínio sobre seu definhamento, terá o papel de harmonizar o país, permitindo a cada região as condições para se integrar no todo nacional. A regionalização é tema que nos interessa. Finalmente, a regionalização. A regionalização para sanar o regionalismo já instalado. Vamos a ela. Que regionalização nos interessaria? Aquela baseada nas ilhas, no grupo de ilhas, na municipalidade, na inter municipalidade? A reintegração das Grandes Áreas Metropolitanas, Comunidades Urbanas e Comunidades Intermunicipais? Voltaremos à ideia dos governadores civis, não eleitos, mas nomeados pelo establishment central? Ou à falácia das vocações, das hegemonias fabricadas ou dos lobbies posicionados? A problemática se resume ao problema da presença do Governo e dos serviços centrais nas ilhas ou o buraco é mais em baixo e mais alargado? Qual seria a mecânica mais plausível e realista? E as virtualidades culturais, para além da centralista e da municipalista? O assunto deve ficar confinado ao Governo e aos partidos políticos ou deve ser alargado à sociedade civil. Há países que fizeram amplo debate e consulta popular. Em Portugal (nosso recorrente modelo), fez-se até referendo. E entre nós, como seria? Uma decisão vertical ou horizontal, administrativa ou política, doada ou conquistada? Seria regionalização mesmo ou apenas descentralização? A territorialização das políticas públicas? Seria isso? O importante é que o mote está dado. Acredita-se que o povo das ilhas quer…a regionalização com equidade, com equilíbrio e com verdade. A cidadania, em sua total complexidade. Ou não?

Pequena nota

Não há como ficar indiferente à longa-metragem “A ilha dos escravos”, do realizador Francisco Manso, cuja pré estreia se pretende nos meses de Outubro e Novembro, tanto no Brasil como em Cabo Verde. O filme, produzido pela Cinemate, mas com o apoio das autoridades culturais de Cabo Verde, Brasil e Portugal, trata de uma história de amor acontecido na primeira metade do século XIX, na Ilha de Santiago, adaptando a história do romance “O Escravo”, de Evaristo de Almeida. Em tantas correlações, o filme acontece também no Brasil, em Portugal e na Áustria, onde a quadrilha amorosa entre a escrava Luísa que ama o escravo João, que ama a patroa Maria, que não ama o comerciante Albano Lopes, tem drama e respaldo. As minhas felicitações ao amigo Francisco Manso, também director de "O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", adaptação do romance homónimo de Germano Almeida, e a alguns cabo-verdianos próximos que participaram da obra, nomeadamente Jorge Tolentino e Manuel Veiga (Ministros da Cultura, promotores/patrocinadores), António Correia e Silva (investigação histórica), Mário Lúcio (investigação e trilha musical) e Josina Freitas (actriz), entre muitos outros cuja a marca indelével está ali no filme. Caso para pensar se já não era tempo de priorizar o Cinema e o Audiovisual. Pelas vantagens culturais, económicas e políticas que traz. Para resgatarmos um sector que já esteve melhor do que está. E porque as condições já estão minimamente criadas para a cinematografia nacional. Só falta ousar a barca da fantasia…

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

domingo, 1 de outubro de 2006

O Segredo das Pipas


“You will always have a special place in my heart”


1.

Domingo é um dia lixado. Véspera de escola e muito material para empinar. Micheal Porter não interessa mesmo. E eu não tenho cara de neoliberal, nem de novo turco. Há formas mais híbridas e menos bíblicas de fazer economia. Sem disparate keynesiano. Mas se o Professor exige empinanço…fazer o quê? Acordei cedo, ainda o sol era promessa de gema de ovo, e fui marchar no calçadão. Glicose a quanto obrigas! A Praia de Iracema é grande e recortada. Fiz a meia-hora matinal e parei na lota do Mucuripe, a regatear uma posta de cação. Já comeram caldeirada de cação? As pessoas votavam e a aragem balançava os coqueiros. Com irrealidade…

2.

Hoje, fez anos o meu filho Pablo. Quatro anos! Os meus dois filhos – Denzel e Pablo – mexem com o meu espírito, a minha saudade, o meu tudo. Eles são
O Segredo das Pipas. Queria-os aqui no Beira-mar, a ver as jangadas e os saveiros na baía. Levava-os a andar até o Porto das Dunas, onde as minhas recordações são gratas. Na Praça do Estressados, a turma discutia com interesse. O nível do debate é mais interessante que aquele a que estamos habituados nas ilhas. Um defensor do Presidente Lula diz que o Brasil resolveu dois grandes problemas macroeconómicos: a inflação e a dívida externa. Mas o seu interlocutor remata que há o combate à pobreza, a corrupção e a crise das contas públicas. Sem rabentolismos, nem arrogâncias. Eu não vim ao Brasil apenas para estudar, mas sim para respirar. Há oxigénio. Será da Amazónia? Às vezes, eu era atacado por uma grande claustrofobia. Adiante…

3.

Passo horas esquecidas, a ver um documentário sobre as artes plásticas mexicanas. Eu só conhecia Diego Rivera e Frida Khalo - minha santa ignorância! -, mas há muita gente interessante. México é um país fabuloso. Pós Azteca, mau grado a barbárie colonial e a vizinhança ameaçadora. O Pablo fez anos e repito isso a todos. Queria para o meu filho a cidadania, educação, segurança, saúde, amor e liberdade, enfim, essas coisas cada vez tornando a humanidade mais humana. Queria que gostasse de poesia e sorrisse à minha declamada voz . A poética de Pedro Ayres Magalhães (dos Madredeus):
Ao largo ainda arde a barca da fantasia/ e o meu sonho acaba tarde…

4.

No bistrô da esquina, estava ali o
signore para me servir o cappuccino: 30 mililitros de café e 150 de creme, polvilhado com canela. Melhor só aquele em Kendall Square. Gilberto Gil, na música METÁFORA diz que “uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz ‘lata’, pode estar querendo dizer o incontível.” Falando em metáfora, tenho aqui comigo a foto da Dona Mindoca e do Pablo. Estou sem mágoa. Apenas resoluto sobre algumas mudanças necessárias. Deixo-vos aqui uns versos do meu amigo Damário da Cruz, poeta e fotógrafo baiano:

(…)
(Se não for possível
em muitas manhãs)
rouba teu filho
nas tardes de domingo.
E na fala mais simples
conta no ouvido pequeno
o segredo das pipas,
os caminhos dos duendes,
as formas das cidades,
o mistério dos amores...
(…)

Não é um poema liiiiiiiiindo? É
O Segredo das Pipas, para as vossas senhorias. Comecei um novo livro. De poemas, ó tecnocratas. De poemas. De resto, passei as sobras do dia dia antenado nas eleições brasileiras. Mas o frisson do meu coração era outro: Pablo. Estou totalmente em clima sentimental…ó homem que eu amo!