terça-feira, 1 de julho de 2008

Decifrar a pedra



Nem sempre me é fácil decifrar
Toda a fruta que, em teus lábios,
Sabe tão-só a beijos e carícias
Quão amiúde a poemas por dizer…

Nem sempre posso, do teu olhar,
Mirar o voo que nele se deseja
- Entre magenta, azul e violeta -,
E dele acalentam as cores furtivas …

Pôr as mãos sem tocar ao rente
Que são pêlos de ti e do infinito
E sem roçar, seja de leve, a lua…

Sorver os sais, o suco das flores,
Os vinhos de nada, os halos de pão
E é pedra o que, de segredo, madruga…

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Absolut 33



1. Tenho um País que faz 33 anos

a) É um aniversário no meio de alguma “bronca pós eleitoral” que, mormente simbólico e emblemático (33 era a idade de Cristo), corre o risco de passar desapercebido. Pessoalmente, renego a ideia de que isto está por um fio, por causa da subida vertiginosa dos combustíveis e da subida perigosa dos alimentos. Isto é apenas mais um grande desafio. O País cresceu, mercê da Independência Nacional, virou democrático e ganhou mais encaixe contra os choques externos. É preciso fé e crença. Vale ter muita força para vencer os desafios da vulnerabilidade. Mas há governabilidade, credibilidade e estabilidade. É investir nisso e entrar, em festa e com entusiasmo, na idade…da maturidade;

b) No 30º aniversário da Independência Nacional, fez-se festa rija e merecida. Em Julho de 2005, Cabo Verde vivia em plena euforia. O País estava percebido como a sair dos PMA e o seu Índice de Desenvolvimento Humano era o 3º melhor de toda a África. Ademais, os dados macroeconómicos indicavam que finalmente estávamos a mudar, e no bom sentido. E fez-se festa rija, em parâmetros de qualidade: Cabo Verde, este país africano “diferente”, tinha promessas do MCA e estava a caminhar para a Parceria Especial com a União Europeia. Transicional…

2. Falava-te outro dia do Homem-Aranha

a) Sem muita surpresa, ouço, pela RCV, a composição do Governo remodelado. Ouço também (sem alguma surpresa), em sua justiça de antípoda, Fernando Elísio Freire. José Maria Neves, o melhor primeiro-ministro da História deste País, diz que é o “governo possível”. Das caras novas, gostei de todas, esperando que Vera Duarte leve “mais Cultura e mais Direitos Humanos para a Educação” e que José Maria Veiga, vindo da Luta Contra a Pobreza, veja a “Agricultura como Segurança Alimentar”. E dou alvíssaras a Fátima Fialho e a Janira Hopffer Almada;

b) O Homem-Aranha galga paredes e salta para o abismo e é o único que voa no improvável. Bem dizia Ovídio Martins, um dos maiores poetas de Cabo Verde e demasiado decente para o tempo e o espaço, qual o único impossível: mordaças a um poeta. Entrementes, no território da política, faz-se apenas o possível. Até nos brinquedos (e aprendi isso com o meu filho), o Super-homem não é “super de verdade” e o Hulk não é incrível como parece. Mas o Homem-Aranha, esse é bom demais…

3. Miscelâneas

a) O complexo turístico Predracim Village faz 5 anos. E apetece-me felicitar o seu promotor e gerente José Pedro Oliveira (Djopam), pela inovação, aposta e qualidade, mostrando-nos que o operador nacional pode sim estar no mercado turístico de forma competitiva e digna. Djopam descobriu (como o rato proverbial da experiência científica) que era possível vencer o mercado sem desenfreio especulativo, mas com sentido comunitário e ambiental. Um fim-de-semana em Pedracim Village é (re) descobrir que Cabo Verde é “sabe pa fronta”;

b) Quero, aqui e agora, assinalar a participação de Artemisa Gomes Sequeira que representará Cabo Verde nos Jogos Paralímpicos de Pequim, em Setembro próximo. A proeza dessa jovem de 26 anos é lançamento de disco e de dardo, modalidades em que tem galardões nas competições africanas recentes. Artemisa, que é orgulho de um país aos 33 anos, significa a tenacidade e a força da juventude cabo-verdiana. Convido-vos a acompanhar essa estrela;

c) A celebração do 33° Aniversário tem este ano um travo de grandeza, em França: a inauguração na cidade de Saint Denis (Área Metropolitana de Paris) de uma avenida com o nome de Amílcar Cabral, o Pai da Nação Cabo-verdiana. Palmas para a equipa do Embaixador José Duarte (eia José Leite) e a sua rede de diplomacia cultural, económica, política e o que mais queiram. Amilcar Cabral, honremos a sua memória, é ainda o nosso maior capital da diplomacia…

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Circo Sem Poesia


Charge de HENFIL

Creio ter sido de Octávio Paz a frase: “Se os líderes lessem poesia, eles seriam mais sábios”. E isso vem a propósito da última sessão parlamentar, no decurso de um debate bizarro e bizantino sobre a “política dos transportes”. Estes adjectivos, passe o eufemismo, devem-se ao baixo teor das interpelações e à paralaxe invertida das explicações. Às tantas, pareciam mudos a falar a surdos e, da bancada dos espectadores, as gargalhadas eram contidas em forma de sorrisos. Mas o pior (ou o melhor, a depender do prisma) terá sido a recusa da poesia por parte dos entes parlamentares. Cada um afiançava-se (com a arrogância de um rei decadente e carcomido) que não fazia poesia e acusava o outro de tamanho ilícito. Creio ter sido de Arménio Vieira estes versos: “Gente oca, cabecinha de alfinete”…


Praia de Santa Maria


segunda-feira, 23 de junho de 2008

Making your day

Descobri que o teu Blog ainda mexe. Obviamente, e porque mexe, ele não entra no ranking dos Blogs Crioulos. Vou lendo, nas linhas e nas entrelinhas, o que sussurra a tua alma. Nessas coisas, o não-dito, fingindo hermetismo, é que acaba por expressar mais coisas. É inaudito o teu Blog. Não falo aqui de quantidade, tipo dois quilos de post/dia, mas de qualidade, essa coisa fugaz, mas que tem cá dentro o seu indelével. Nem falo dessa incontinência verbal e escrita daqueles que – sintaxe ao que vens, meu caro, ou semântica, tu não és para cá chamada – vão pontuando os dias por madrugar. Falo, apenas e tão-só, da tua escrita meio imperceptível e quase silenciosa. Uma espécie de sombra, sabes como é…

Dia da Língua Portuguesa

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê?
Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem

Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria

Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô– Você e tu– Lhe amo– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!– Ma’de brinquinho, Ricardo!?
Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro,
assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem...


Língua
Caetano Veloso

Tu és a minha água. Tu és a minha água dos mares daqui




Direito ao djatu


Como poderia estar posto em sossego se cinco milhões de crianças estão condenadas neste ano a morrer de fome? Como poderia estar em paz com a lua que, no dizer de Princesito, ta lumia pretu, ta lumia branku, se adolescentes grávidas são banidas do ensino secundário aqui nas ilhas? Como posso me apaziguar com esta leda madrugada se algures um navio-de-guerra estrangeiro perscruta no mar os clandestinos da Costa, não para os dar porto seguro, mas para os deportar para a fome e para o desespêro? A lista de paradoxos tornou-se enorme e nos desafia a reflectir acerca da condição humana. Para que não regridamos aos modos de vida marcados pela barbárie. Precisamos exercer (também na escrita) o direito ao djatu para exorcizarmos o fantasma do evidente egoísmo que inebria o humano.

Chile de Pablo Neruda e de Victor Jara

Creio que uma boa parte dos leitores não sabe que Salvador Allende se suicidou com um fuzil, oferecido por Fidel Castro. O primeiro marxista na história a chegar à presidência, via eleição livre e democrática, completaria agora 100 anos. Desde que assumiu o poder, o imperialismo e a direita criaram condições de instabilidade no Chile de Pablo Neruda e de Victor Jara que culminaram no golpe fascista liderado pelo animal Augusto Pinochet.

Dos ópios, escolha o diabo

Falando em Marx, creio que o filósofo se esqueceu de nos contar do segundo ópio: a ideologia política. Entre os dois ópios, venha, pois, o diabo e escolha. Estou por fora…

A cartomancia da escrita

E não é que revejo a minha leitora da Av. Cidade de Lisboa? Esta, contrariamente a muitos, anda radiante com a "nova linha" deste cronista. Diz que gosta mesmo é de prosa-poética e me adianta logo meia-dúzia dos melhores confrades. Com o ego massajado, ouso ali a inconfidência de como começaria a minha próxima crónica: Tu és a minha água. Tu és a minha água dos mares daqui…E eu, que afinal gosto mesmo é de poesia, fico de gaiato diante da ventura da confraria. Acabaram-se as eleições e os "jogadores de bancada" começam a comentar o esquema táctico duns e doutros. Nesta hora, há de tudo: arrogância, oportunismo, preconceito, miopia e estupidez política. A cartomancia dos nossos escribas chega a ser batoteira. Estes nos têm vendido (nos três semanários da praça) gato por lebre…

Os que no meu peito fazem morada

Aos meus amigos, porque de repente, não mais que de repente, eles contam muito, estes versos de Dunga Odakam... aos que me são caros, meu afecto, zelo e cuidado/ Aos que me são raros, bom ouvido e brando facho para envolvê-los em energia./ Aos amigos que me são calmos, um mar de ventos sábios a navegá-los./ E aos frágeis, meu coração cedo ou tarde para aportá-los./ Aos amigos que são ternos, a luz azul calmante dos universos. E aos que no peito fazem morada, muita força para o dia e poesia para a madrugada.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O Tempo e seus momentos


Foto de Amilcar Aristides



Poesis com a minha cidade

Gosto de ir à ponta do Farol Maria Pia, ao desamparinho, para contemplar a cidade e o oceano. Praia é uma cidade marinha e marítima. Ela deverá ser assumida como cidade-porto, em toda a causa e consequência. Da Ponta Temerosa à Ponta da Mulher Branca, passando por uma borda balnear significativa, a Baía da Praia precisa ser vista e revista nas suas potencialidades e valências. Dar excelência à cidade será assumir a sua dimensão histórica e transatlântica. A par desta constatação, assumo que não vou ao Farol Maria Pia com preocupações urbanísticas, mas por esta necessidade de relação poética com a minha cidade…

O antegozo de horas íntimas

Sabem disto os que me lêem: nunca fui chegado em agradar aos gregos e aos troianos, e mantenho a convicta teimosia de não ser complacente com os cabo-verdianos. A onda da desesperança que ora nos assola pode ser remédio santo contra a gripe das aves da política local. Estes tempos sem poesia, mas com um novo rinoceronte (pior que o de Kafka) a fazer discurso político. Sabem os que me lêem que não haverá tréguas para as manhãs vazias, nem palmas para o Rei que passa nu. Entrementes, e porque há uma lixada minoria que não gosta da poesia, deixo aqui expressos estes versos de Linhares Filho: Tuas mãos nos meus cabelos/ é gesto simples, repousante/ mas vem de reproduzir uma energia e segredar apelos. Teus dedos falam, têm magia. /Apiedam-se de mim, exortam-me, estimulam. / Compreendem, abrandam, conciliam. / Deles jamais escorrem sangue/ mas uma doce linfa/ que o sono me provoca e me fecunda o sonho. Contam histórias de antigos cafunés/ e trazem-me o antegozo de horas íntimas…

Iria também de burro

Tempo a sobrar, vou à praceta rir um bocado dos facínoras. Em horas estranhíssimas, de porcos triunfantes e de um ladrar de cães senis, queria mergulhar nestes pensamentos e esquecer que esta cloaca é puro excremento. O discurso da desdita é estruturalmente fascista e me viesse a morte (algo mais democrática que a vida, diga-se em verdade), queria por força ir de burro. Tal qual desejou o grande Poeta Sá-Carneiro: Que o meu caixão vá sobre um burro/Ajaezado à andaluza// A um morto nada se recusa/ Eu quero por força ir de burro…

O Tempo e seus momentos

E que ninguém interprete estas palavras com um estado de tristeza ou de desânimo. Há sempre uma planta – um cacto que seja – no meio das pedras. E as próprias pedras, já ao segundo olhar, são metáforas necessárias à minha poesia. Além de armas de arremesso – sempre que necessárias -, se os momentos são roubados ao Tempo!

sábado, 14 de junho de 2008

MADRUGADA DO CHIADO



(Desconversando com F. Pessoa)

Múltiplo solitário poeta
com o universo inteiro na cabeça,
eis-te agora sentado em extática glória
aqui onde te assopram ao ouvido
os lodosos detritos dos dias
e as líquidas profecias
gizadas ao refluir das luzes.

Triste despessoado fernandinho,
aqui posto em estado de estátua,
a rara chuva destes dias
já não aleita as raízes donde crescem
as visões – roubam-te o desassossego
com o escárnio da madrugada e os tráficos
que a noite desfecha contra o sono,

mas ainda te ouço sonhador ao griso
que descampa este largo (pois sem sonho
não há glória), embora o enxame turístico
empalideça o manso rufar das náufragas estrelas,
as madrugadas de fêveros ecos
quando o universo cisma nas razões que cunham
a solidão e seu luminoso rasto debruando a alba.

Dos desastres da pátria, nem te falo:
tu que navegaste soçobrados sonhos
de império, hoje és segura escada para cátedra;
não te cotaram ainda em bolsa, mas é coisa
para ser pensada, agora que no fundo da arca
nenhum enigma se dissimula, nem o arroto
que prateia algum verso descartável.

Sei que rumoreja mal o altivo rogo por entre
o tinir dos copos nas mesas da esplanada
onde se empoleira a viçosa vacuidade do mundo
e não há porfia que acenda o coração amortalhado,
drenando ainda, como intérmina rebentação,
fulgores de vinho sorvidos com a mansidão de um
touro, mas manda sempre a este que não é teu devoto,
porém, como tu, peregrina sob o essencial desamparo,
à acrílica mansidão com que a treva nos acolhe.

JOSÉ LUIZ TAVARES

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Batukador




N ta bai mar
N ta bai mar
N ta murgudja na azul…


Ecológico, guerreiro e talentoso são os adjectivos que qualificam Carlos Alberto Sousa Mendes (Princesito), compositor, poeta e intérprete de Monte Iria, Tarrafal, na ilha de Santiago. Tais atributos ficaram, ontem, mais do que consagrados no espectáculo “Mi en Si”, promovido pelo Centro Cultural Português da Praia/Instituto Camões, iniciativa do seu já imprescindível responsável, João Neves.

O artista em ajuste directo e em perfeita proximidade. Não éramos muitos a assistir “Mi en Si”. Apenas três dezenas de “good fellows”, amantes da boa música e crentes (no meu caso, desde “Lua”) de Princesito, um artista que consegue transportar o terreiro do batuque para um ambiente mais intimista e “cool”.

Nesse élan, Princesito recriou, com excelência e humor - do blues ao finaçon, passando pela morna, mas sempre na clave e com o timbre de “Batukador” -, a magia que se quer ao entardecer de uma quinta-feira. “Mi en Si”, cá para mim, é o momento interjeccional entre o Sol (também nota musical) e a Lua (a que Princesito suplica: “fika ku mi mas un kuzinha/ dexa n lambuxa na bo”), beleza do desamparinho tão-somente.

Como em tudo a exalar bom gosto e qualidade, “Mi en Si” soube-me a pouco. Queria-o ainda mais íntimo. Queria-o ainda mais longo e mais compacto. E falando de quantidade e intensidade, como diria Caetano Veloso, muito é muito pouco.

O que sobra é um trio inimputável a garantir mais do que o básico em termos de melodia e ritmo. Na tchabeta finkadu, onde o espírito de Nha Bibinha Cabral vem ao de cima e o público canta e bate palmas, porque a Preta de quem é? La negra é di bo…ah, kanadja, Batukador!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Caro Bloquista

O problema de Sapo.CV, portal comercial e com objectivos lucrativos, é o tipo de proposta que faz aos Blogs cabo-verdianos. Em primeiro lugar, a deslocalização das publicidades comerciais existentes no mercado cabo-verdiano. Depois, os convites sem proposta financeira, sob a falácia de não haver interesse comercial. E terceiro, a estratégia de ajuntamento bloguista sob a estratégia não declarada, mas que é de gato escondido com rabo de fora. Com devido respeito pelo trabalho e pela intenção dos outros, mas há coisas que não interessam. Adiante...

Princesito


segunda-feira, 9 de junho de 2008

Duas cartas a mim mesmo no dia dos meus

1.

Descrê, meu amigo, dos rútilos usos
da palavra poesia — o animal
que lavra em ti move-se nos esconsos
lugares de penumbra,
afeito à íngreme maturação da fala.

O que perdeste, e agora recordas,
te seja doce precipício,
longe da comum expectativa
e seu eco mil vezes repetido.

Duvida do lugar que dizem
pertencer-te — perdidas pátrias
jamais havidas, a sombra do que
amaste ressumando em cada verso,
são a inóspita morada que te não protege
do naufrágio em estranhos portos e fronteiras.

Aí saberás que a dor é sem partilha,
e o cautério da luz requer essa íntima
cegueira que nenhuma alba fende
com o latido dos deuses diurnos.

A imperfeita medida destes versos,
seu ritmo sobressaltado, te ensinem
que a ignorância do que mais amas
é a razão desta arte de perder-se.


2.

Que razões sustentam o voo de um sino
declamando « a equação celeste do destino»?
Raros os dias em que a sina escura
não grafa nas veias uma lei mais dura.

Mas faz da tua vida uma arte de recusa:
da pátria, em que célere te amortalham,
tu que só nos versos os sinais que salvam
vislumbraste ( aos ór
fãos da antiga musa,

confortará qualquer placebo edulcorado);
da fama, que é a subtil cília com que
tentam domar teu verbo escuro. Giza

com a tua fala o incomum destino anunciado
nos levantinos portos de embarque — a vida
é o que desborda deste molde de decalque.



José Luis Tavares

domingo, 8 de junho de 2008

Retour




A gana e a sana dos momentos

Há uma semana, estava mais taciturno e estranho a cogitar sobre o papel do esquecimento, descrito por Kundera, e o da amnésia, estruturado por Freud. O que nos salva depois de um trauma é a memória selectiva e vi-o agora, longe de tudo e de todos. A de alinharmos, para o nosso próprio bem, a via da sublimação e não da depressão. O “dar a volta por cima” ou, qual Fénix, o renascer das cinzas tem a ver com a nossa atitude existencial de encarar os desafios que nem sempre são fáceis de vencer, mas importantes de enfrentar. Uma semana depois, estando na beirada do rio Tejo num solilóquio mais que necessário, sinto roçar nos meus ombros a fímbria ancestral do dilema camoniano – a gana de Vasco da Gama e a sana do Velho de Restelo. É preciso continuar a navegar!


Coisas de Airton Monte

O poeta brasileiro Adriano Espínola escreveria assim: "A minha pátria é o meu corpo, pulsando por entre porradas e carinhos quotidianos, palco carnal do sentido e do desejo, repartido entre vísceras e sonhos, sedento do agora e faminto do mundo, navegante à deriva do possível e do precário". Lembranças do meu confrade, Airton Monte, em Fortaleza. Ele sempre a precisar que a vida, sem poesia, é que nem baião de dois sem feijão, nem arroz…

Futebol

Assisti, com drama e sofreguidão, pela Sport TV 1, o jogo entre Portugal e a Turquia. Igualmente, estava antenado, através da RCV, ao Estádio da Várzea, onde Cabo Verde defrontava a Tanzânia. Não perco esperanças de permanecer na Copa Africana das Nações, nem perco fé de ir longe no UEFA Euro 2008. Em verdade, Cabo Verde vence por 1-0 e Portugal por 2-0. Fico contente. Em júbilo. E estranha-me este súbito entusiasmo pelo futebol e este sentimento de proximidade (e de alinhamento) entre Cabo Verde e Portugal, outrora adormecido, mas que lateja ora em mim…com drama e sofreguidão.

Dia de Portugal

O Centro Cultural Português da Praia, uma vez mais, nos brilha com uma iniciativa de altíssima qualidade. Maria João e Mário Peixote, no Auditório da Assembleia Nacional, para um espectáculo intitulado “Pele”, no âmbito do Dia 10 de Junho – data nacional portuguesa e das comunidades da língua portuguesa. Com letras de Tiago Torres da Silva, Eugénia de Vasconcellos e do próprio José Peixoto, os dois protagonistas não fazem vénias apenas ao jazz e à música portuguesa, mas vagueiam pela música planetária onde as fronteiras se esbatem e os homens se abraçam. Em "Pele", eles nos dizem que a Terra afinal é pequena, mas que o mundo continua (ainda bem) vasto e diverso.

Cahier d’ un retour au pays natal

Nunca se vem tarde à homenagem a um poeta maior. Hoje, domingo aparentemente tranquilo (os tubarões estarão adormecidos ainda?), vou à estante e retiro algumas obras de Aimé Cesaire. Que grande poeta! Que grande humanista. Que grande combatente: Pois então, palavras, mas palavras de sangue fresco, palavras que são maremotos e erisipelas e paludismos e lavas e fogos dos matos, e o chamuscar da carne e o flamejar da cidade. Fixai bem: Não jogo nunca se não for ao ano mil Não jogo nunca se não for ao Grande Terror Ficai à vontade comigo. Eu não o ficarei convosco…

quinta-feira, 5 de junho de 2008


Mooding




River: The Joni Letters


Tenho um gosto musical eclético. O meu gosto estético não se confina ao instituido pelos nossos deuses descalços. Muito menos aos pequenos deuses das tascas do planeta. Era o que me faltava. Orlando Pantera, de Lapidu na Bo, faz tanto sentido quanto Joni Mitchell, de Court and Spark. A proposito, e para a ultima profecia, quria que ouvissem °River: The Joni Letters”, de Herbie Hancock...


Lokua


Aplaudo as nossas musas hesperitanas – Mayra Andrade, Sara Tavares, Lura, Nancy Vieira e Isa Pereira. Passo a acreditar em Xangô diante dos espectaculos de Mario Lucio, Tcheka Andrade, Paulino Vieira e Ramiro Mendes. A voz de Ildo Lobo é tudo. Quase tudo. Queria dançar como Mano Preto ao ouvir as melodias da bacia do Rio Congo. As melodias de Lokua Kanza...


Tu me fais bobo, Filas


No Aeroporto Internacional Leopold Sedar Senghor, depois de percorrer a estrada de Dakar a Yoff, dou de caras com Salif Keita. Tempo apenas para correr ao Free Shop e comprar o album “Bobo”. Keita não resiste em me dar um autografo, quando me escuta em “Chérie tu me fais bobo, bobo, bobo duma gné”. Em Cabo Verde, ja haviamos descoberto que Salif era a inversão de Filas, tua senha. Tu me fais bobo...

Lusotopia


Navegar é preciso

Lisboa, diferente de outras capitais europeias, é clara e brilhante, amanhecida mais cedo para o meu contentamento. Cruzo com pessoas que não conheço, mas que, pelo semblante familiar, me remetem a Cabo Verde. Falar em português, sem esconder este primado crioulo que me anima, é fazer parte de uma grande nação. A lusofonia, com a inclusão da nossa diversidade, é uma realidade com sentido. Pena que os homens, nos seus desvios, se esqueçam que navegar é preciso...

Here and now

É tradição o Carnaval Jamaicano. Até os bazares hindus e persas vendem bandeiras com o Leão de Judá. Aparece à janela um nigeriano, albino que nem Salif Keita. “É tudo à Portobello Road”, diz-me um parceiro angolano, habituado ao lugar, como poucos. Os haitianos preferem “compass” e eu, marciano neste planeta, julgava ouvir “zouk”. Gilberto Gil, em “Here and Now”, a cantar assim:


Here and now, I guess I know how
Remote and secret that could be
The time when a man can lay down
And the place where he can run free


Dia Mundial do Ambiente

Celebra-se hoje o Dia Mundial do Ambiente. O planeta não está no melhor caminho e os humanos também não parecem estar a fazer deste um mundo melhor. Não basta o discurso da beleza, nem mesmo o do bem, ou mesmo o da inocência, ou o do romantismo. Em verdade, falta algo às acções dos governos, dos partidos politicos, dos empresários, das ONGs e dos professores. Falta um grande engajamento a tudo...de todos.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O vagar dos dias


MITO
O VAGAR DOS DIAS SEM MADRUGADA.
ÓLEO E ACRÍLICO SOBRE TELA.100X80
CM. 1994.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Meio Zen






Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão



Carlos Drummond de Andrade




Ecce Homo


Um crucifixo a desfazer-se, quando não se tornando pó, era a imagem de Cristo lá em casa. Uma tia-avó, metamorfoseando-se em « dona da casa » com a trombose da irmã, impressionava-nos com um inferno contado em detalhes. Ela caprichava no Lucifer, o mais incendiado dos capetas, com gestos de pelo sinal da cruz e credos na boca. E Cristo continuava ali : pungido, tomado de chagas, com uma resina vermelha que, a malta jurava, era sangue de verdade. Até hoje, águas passadas sob essa ponte das trevas, ainda retenho na memória esse crucifixo a desfazer-se…


Checking-up


Vou ao médico para um check-up e somos mais frágeis que as baratas, as minhocas e as lagartixas. Os passarinhos no varão e o cãozinho do Pablo não precisam dos versos de Jorge Luis Borges, do peixe frito com arroz de fava, da música de Ray Charles, da Constituição Nacional, do Código Eleitoral, das velas aromáticas na sala, de Jesus Cristo e de Buda ou de almejar a nomeação de Barak Obama, essas coisas. Chego à conclusao que é preciso mudar. Entrar em regime : o ferro, o potássio e a vitamina C. Beber dois litros e meio de água (a ver se damos cabo de uma pedra nos rins). Reduzir o sal aos limites da nossa Zona Económica Exclusiva e cortar as relações diplomáticas com o Johnnie Walker Black Label. Mas isso nao incluirá o bom tinto. Alá é grande…


Para morrer de rir


Encontro-me acidentalmente, no rush da Av. Cidade de Lisboa, com uma leitora: Tu não és o Filintro Martins? - pergunta a dita cuja. Ciente de ser Filinto Elisio de Aguiar Cardoso Correia e Silva, nome de pia e de registo, não me faço rogado ante à confusão. Prazer em conhecer-te, continua a minha interlocutora, sem papas na língua: Estou farta de coisas escalafabéticas: assaltos thugs jorge santos josé maria neves descalabros da TACV apagões na Praia. E remata: Quero que fiques sempre a escrever assim, é que tu me matas de rir todas as quintas-feiras…


Benquerença


Talvez, devido à benquerença, hoje, acordei assim: segue o teu destino, rega as tuas plantas e ama as tuas rosas. É que estou meio (apenas meio, não abusem)…Zen !

sábado, 31 de maio de 2008

Li cores e ad vinhos




Dados lançados



Vieram as eleições. E os dados são claros: o PAICV não tem hoje as praças autárquicas mais urbanas de Cabo Verde. Praia, São Vicente, Santa Catarina e Sal estão doravante sob a gestão municipal do MPD. Este partido, para além do Sal, tem também Boavista e Maio, ilhas consideradas "turísticas". Os dados, ora lançados, servirão para uma análise profunda e responsável da situação. Nem tudo o vento levou...




Poesia




Terminei mais um livro de poemas. Poemas ilustrados com fotografias de Omar Camilo. Ou vice-versa. São versos de meia-idade, com o pêndulo ora pela fogacidade, ora pela sagacidade. Cumprindo o preceito de João Cabral de Melo Neto, Mestre da Poesis, em que o fonema não derrama seu poema. O título: "Li cores e ad vinhos"...




Espectáculo do mundo




Sábio era Alberto Caeiro, apaziguado com o espectáculo do mundo. Cuidando dos seus rebanhos, ele fazia-se de bom pastor. Por vezes, é mesmo assim: fechar os olhos e deixar as coisas andarem. A apatia. A quase indiferença. Outras vezes, é nada disso: descer na arena e pegar a fera pelos chifres numa luta sem fim. A intervenção. O alinhamento às causas e às coisas. Sermos actores desse espectáculo do mundo. Ganhar e perder os dias, fodam-se, Deixar os livros de Caeiro na estante da sala...


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Meta tempo




Tempo

Chove. Fria e mansamente. Com algum remanso. Com nuvens baixas e plantas bafejadas pela neblina.

O rio. O rio quase perto. O rumorejo do rio. E o ciciar de uma ave.

Avezinha di rapina, branka ki tem...London Mood.

Em Lisboa, "o pessoal declama poesia cabo-verdiana".

This mascarade.

Neve na alma. Neve aquecida de branco. Alvura.

Tempo. Palavras soltas, soltas, soltas...Le neant, porra.

Blank. Blind. Wild...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Por ora

O meu velho faz anos
Tenho com o meu pai uma estranha relação de amizade e cumplicidade. Deixámos cair, há muito, o Muro de Berlim da idade. Falamos da arte, da ciência e da filosofia. Da cidade da Praia, que é onde gostamos e escolhemos viver. De Cabo Verde, que é nossa causa comum. Apesar de ser avô dos meus filhos, tenho por ele essa entrega de melhor amigo. A eternidade? Já não temos idade para nela pensamos. E o velho faz 79 anos, bem contados. É apenas e tão só uma nota pessoal, se me é permitido amar alguém…
Nossos jovens/adolescentes
Ainda há dias, eram frágeis criaturas e o tempo passou num ai. Hoje, saídas da moldura da infância, já não querem comer as refeições à mesa e passam boa parte das horas no telemóvel. Nem ficam felizes com os grandes almoços de família. Tão pouco somos os heróis do pessoal, já que nem somos tão digitais assim. Distanciaram-se daqueles que não sabem a criptografia do MSN e perderam o compasso do hip-hop. Começaram a namorar e não dão tréguas aos que amaram a seu tempo. São egoístas e parecem querer partir a cada amuo. Angustiam um bocado, mas gostamos deles. Continuam a ser a melhor parte de nós. São os nossos jovens/adolescentes…
O Bicho
Na semana passada, escrevi sobre a escassez do arroz. A situação é gravosa e desumana. Está aí um problema sério (e cada vez mais real) dos Direitos Humanos. Conduzindo do Palmarejo para o Plateau, vi a cena chocante. Não era esse poema de Manuel Bandeira, referenciado há dias numa crónica de Airton Monte. Era um homem no contentor do lixo. Absolutamente, um homem. E, já agora, tomem lá os versos de Manuel Bandeira: Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio/ catando comida entre os detritos/ o bicho não era um cão/ não era um gato/ não era um rato/ o bicho, meu Deus, era um homem.
Nobreza de ser
Acompanho, com interesse, a campanha autárquica. É importante que Cabo Verde saia sempre a ganhar, sublimando as eventuais crispações e os evidentes exageros. O pessoal precisa de alguma contenção verbal. Dizer tudo com modos. Ir mais no modo que na moda. Será a maledicência, tão vil quão habitual ultimamente, a única forma de fazer política? Em verdade, a política é ciência nobre e não esse território da canalha. Os cidadãos querem civismo e elegância como direito. A democracia não é o "laissez-faire" da maioria e da minoria, mas o ditame da cidadania. Talvez pareçam estas palavras exageradas para algum "deus das esquinas". É que importa exagerar na nobreza de ser…
Superfícies
Criativa e de bom gosto a exposição "Superfícies", de Omar Camilo, no Centro Cultural Português. Igualmente, interessante a exposição fotográfica do inquieto Baluca Brazão, no Centro Cultural Francês. Estas e outras iniciativas levantam um grande questionamento: não chegou a hora de uma grande galeria de arte na Cidade da Praia? Nem precisam responder. A hora é agora!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Arroz


"E não adianta buscar esse caminho nos outros e nas coisas, pois a porta de acesso somente pode ser aberta por nós e por dentro. Cabe-nos simplesmente destrAlinhar à direitaavá-la, mas se estiver emperrada, o jeito é arrombá-la".
Aufifax Rios
Vianda básica
Leio, na revista Correio Internacional, um gravoso artigo sobre a eleição de Sílvio Berlusconi, algo que não me move como a escassez do arroz, e vejo que o mundo, para lá do triunfalismo globalitário, não passa de uma grande violência estrutural. Há uma clara eclipse da razão e da justiça. Os cosmocratas falam em crise do arroz. O Império da Vergonha prefere colocar os alimentos nos carros que nas bocas das crianças do mundo. Anda tudo ligado. E que não venham os nossos sabichões, armados em trepadores de coqueiro, fazer a defesa do indefensável. Parem a grande treta. Sem o arroz, vianda básica da nossa gente, a democracia resta empobrecida e inoperante…
Viciado em arroz
Em verdade, sou um viciado por arroz. Todos os meus pratos preferidos são acompanhados de arroz. Aproveito a oportunidade para esta nota pessoal, com devido respeito aos aficionados da alta cozinha (ou da "nova cozinha", como insiste o meu sócio e amigo Carlos Hamelberg), mas os meus predilectos são peixe frito com molho escabeche e arroz pintado, arroz de pato à Dona Mindoca, arroz de atum (atum de conserva cabo-verdiana!) e canja de galinha (com arroz "tupatupa"). Isto, para não vos falar do bolo de arroz e do arroz doce. Acompanhante dilecto e recorrente, expresso aqui a minha preocupação face à propalada crise do arroz. Vendo a geopolítica e esta insanidade dos especuladores de tudo, apetece-me dar viva ao arroz nosso de cada dia e um retumbante abaixo a cosmocracia que não interessa ao Planeta…
Agora falando a sério
Durante anos o Banco Mundial e o FMI disseram que um mercado liberalizado proporcionaria o sistema mais eficiente para produzir e distribuir alimentos, mas hoje os países mais pobres são forçados a uma intensa guerra de competição contra especuladores e comerciantes. Hedge Funds e outros capitais errantes estão a despejar milhares de milhões de dólares em commodities que fogem dos mercados de acções, colocando os stocks de alimentos fora do alcance das pessoas pobres. Segundo estimativas, os fundos de investimento agora controlam 50-60% do cereal comercializado nos maiores mercados de commodities do mundo. Calcula-se que a quantia de dinheiro especulativo em commodities futuras – mercados em que os investidores não compram ou vendem uma commodity física, como arroz ou trigo, mas meramente apostam sobre movimentos de preços – inchou de US$5 mil milhões em 2000 para US$175 mil milhões em 2007. A situação é indefensável. Um crime à escala mundial. Olhe-se para o Haiti, por exemplo. Poucas décadas atrás era auto-suficiente em arroz. Mas um pacote de 1994 do FMI, forçaram-no a liberalizar o seu mercado. O arroz barato inundou-o a partir dos Estados Unidos e a produção local foi arrasada.
Meio vegetativo
De repente, carro parado no meio do engarrafamento, sentiu-se completamente só. O mundo como um enorme armazém vazio de arroz. O turbilhão das pessoas à sua volta parecia nada. Ele já não tinha reunião marcada, nem criança ruidosa em casa. Agnóstico, não cometeu o pecado de ir ao confessionário e, nesta cidade, não era hábito ter psicólogo de serviço. Nenhuma rosa digital, nem mesmo um flirt virtual pela Internet. Deixou a meio um livro sobre Barak Obama e a cidade não tinha cinema. Olhou para a baía e percebeu que não era feia a paisagem, mas não se emocionou com o crepúsculo. Nem mesmo ouviu, à primeira, o buzinão dos carros atrás de si. "O senhor anda a dormir ao volante ou quê, seu vegetal", gritou-lhe um taxista sem consciência deste mundo sem arroz…

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Trumpet


Todo de seu tudo

Dos versos meus, neste e noutro fala-se da morte.
O resto, do consorte, é todo ele sem cabresto
Transversas, em pinote, pedras e pedras, a teta
E o desferrar, quase proxeneta, do bebé-proveta…

Quando assim instaura o poema ou fonema
Por sorte, no meio da tecedura, tecem e fenecem
A textura e o miolo da palavra, a chula e a gula
Do Poeta, louco e de pouco prumo, filho-da-puta…

Reversos teus, lado outro de mim, enfim à solta
Ajuíza e giza o encontro das sílabas, ora pervertidas,
Ora invertidas, soletrando antídotos do coração…

Como estilete no pulmão, lâmina nesses olhos,
Como veneno, às vezes para o doce, tipo fruta,
Poeta que desfruta, do Paraíso todo de seu tudo…

Filinto Elísio

Nos lingua, nos kultura!




The Capeverdean Creole Institute will be most grateful for your presence at this event. Nos lingua, nos kultura!



Friday, April 25, 2008 - 1:00pm-6:00pm - Brockton, MA
Location - Massasoit Community CollegeStudent Center - Upper Lounge (next to the Library)One Massasoit Boulevard, Brockton, Massachusetts 02302

For directions visit: http://www.massasoit.mass.edu/


1:00pm - Book Fair Opens4:00-6:00pm - ALUPEC workshop6:00pm - Book Fair Closes


Saturday, April 26, 2008 - 1:00pm-7:00pm - Fall River, MA
Location - Bristol Community CollegeCommonwealth College Center - Atrium and Faculty Staff Lounge (Parking Lot 12)777 Elsbree Street, Fall River, Massachusetts 02720


1:00pm - Book Fair Opens2:00-2:15pm - Welcome RemarksJohn Sbrega, President of Bristol Community CollegeJoanne Preston, Dean of Humanities and EducationJosé Costa, Director of LusoCentro2:

15-2:30pm - Remarks about Conference and the Book FairCarlos Almeida, Assistant Director of LusoCentroManuel Gonçalves, President of Cape Verdean Creole Institute (CCI)Joaquim Morais, Director of the Institute of National Library & of Book

2:30-4:30pm - Panel about the Construction of National IdentityNezi Brito- member of CCI (moderator)Manuel Brito-Semedo - (in the perspective of the book: A Construção da Identidade Nacional- Análise da imprensa entre 1877 e 1975)Fátima Bettencourt - (representation of national identity in the memory of immigrants based on the book Mar - caminho adubado de esperança)Adelaide Monteiro - (national language - linguistic policy as an instrument of preservation and promotion of one of the main elements of national identity)

4:30-5:00pm - Book Signing

5:00-7:00pm - Reception, with traditional Capeverdean musicpoetry readings by Daniel Spínola, Rosendo Brito, and Vasco Pires

7:00pm - Book Fair Closes


Sunday, April 27, 2008 - 11:00am-5:00pm - Dorchester, MA
Location - Catholic Charities of Greater Boston/Teen Center at Saint Peter's Church284 Bowdoin Street, Dorchester, MA 02122
11:00am - Book Fair Opens1:00pm - Dance performance by CV St. Peter's Center and music by Djamila Cardoso and Mizael Ribeiro, Burke High School

1:15pm - Poetry reading by Cape Verdean American poet, Jarita Davis

1:30pm - Celebration of Cape Verdean Poet, Pedro CardosoManuel da Luz Goncalves, President of Capeverdean Creole Institute Maria De Jesus Mascarenhas, Consul General of Cape Verde, Boston Joaquim Morais, Director of National Library, Cape VerdeManuel Veiga, Minister of Culture, Cape VerdeCarla Martin, Graduate Student, Harvard UniversityManuel Brito-Semedo, Author and Professor, Cape Verde3:00pm - Talulu and Band performance

4:00pm - Nenas and Band performance

5:00pm - Book Fair Closes


Capeverdean Creole Institute Contact Information


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Diatância de Todas as Coisas




Do paraíso
Foi o homem expulso
Banido e expulso
Banido e expulso
Mas homem.
Valentinous VelhinhoIn “Tenho o infinito trancado em casa”


Poeta

Vejo raramente o poeta Valentinous Velhinho, amigo de infância e da adolescência. As nossas vidas parecem paralelas e tendem a encontrar-se no infinito. De quando em vez, temos furtivos e rápidos encontros e aproveitamo-los para falar das coisas que nos comovem: palavras nossas e a dos outros. Metáforas que enroupam as palavras. Ambos amávamos eternamente as nossas mães e perdemo-las na espuma dos dias. Em boa verdade, viemos órfãos para esta vida quando soubemos, desde o início, que as nossas mães também haviam de partir. E, quebrando esta rotina, diria até esta ausência instituída pelo Destino, vou visitar o Poeta em sua casa. Supõe-se ter ele ali o infinito trancado.

Cartoon Network

O primeiro canal dava uma manifestação no Tibete. O segundo, qual Casimiro de Pina (meu amigo), discorria sobre Robert Mugabe. O terceiro insistia que o Irão estava a enriquecer o urânio. Já no décimo, Barak Obama e Hilary Clinton discutiam a retirada (ou não, imaginem) do Iraque. Creio ser no 14º, pois já perdera a conta, a vergonhosa fome em Darfur. Às tantas, impróprios para quem ama a poesia e desaconselháveis para o Pablo ao meu lado, rendo-me à lógica de assistirmos aos bonecos animados…

Omar Camilo e a plástica

Há dias, lendo o Blog de um amigo, deparei-me com a lista dos artistas plásticos cabo-verdianos. Ali estavam, segundo o critério do Bloguista, dos modernos aos pós-modernos. Vinham até os que, por razões não muito claras, ficavam fora da lista. Em verdade, uma vez mais, o poder do discurso torna-se um discurso do poder e, como tal, esboça o seu arquétipo e aparato. Convido o pessoal a visitar o cubano-caboverdiano Omar Oliveira e pousar um olhar sobre as suas telas plásticas. Ouso dizer (sem pretensões de dono da verdade) que ali, nesse ateliê / apartamento, se esboça o melhor da plástica contemporânea.

Dor de uma simples rosa

Segundo Eça de Queiroz, a morte de milhares de chineses, na longínqua China, era apenas um dado estatístico. Se o vizinho da esquina quebrasse a perna, tal tragédia nos seria mais relevante. Entretanto, não deixo de ficar preocupado com o que se passa no Tibete. Não para fazer alguma consideração atrevida e inoportuna, muitas vezes a servicinho alheio, mas porque o canal um apresenta uns olhos tão próximos de um tibetano perseguido. Nem estou a pensar na Globalização, mas na Humanidade, esta coisa que nos atravessa, em profundidade, e nos faz sentir a dor de uma simples rosa.

Distância de Todas as Coisas

Recebi, quando saía para o Aeroporto Internacional Pinto Martins, de Fortaleza, o livro “Democracia e Constituição – Estudos”, uma homenagem de vários constitucionalistas ao Professor e Poeta Dimas Macedo. Agradeço ao Professor Edmilson Barbosa a amabilidade da oferta e, com emoção, agradeço a Deus pela amizade com o Poeta da “Distância de Todas as Coisas”.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Nhô Mulato - kudi baxon


Vamos fincar o Mastro no coração de Cabo Verde, porque morreu, aos 98 anos, Francisco Fontes, conhecido por Nhô Mulato. Absortos todos no desenfreio de um crescimento económico e de uma política de circunstância, nem todos fomos – as autoridades, as personalidades e as entidades culturais, por exemplo, lá não estavam – a acompanhar o decano das Bandeiras de Cabo Verde à sua última morada. Mas estavam presentes os populares, em lágrimas e alvíssaras, com tambores e bandeiras sobretudo – kanizados das horas substantivas –, a prestarem homenagem a Nhô Mulato.

Com uma longevidade dedicada à Banderona, manifestação cultural dos devotos a São João Baptista, que se realiza anualmente em Campanas, entre os meses de Janeiro e Fevereiro, Nhô Mulato, fora o Kordidjêro, figura com o supremo poder de orquestrar e de dirigir os 24 dias de festa rixa e desabrida, considerada por muitos como a maior e a mais ancestral de Cabo Verde.

Envolvendo uma estrutura complexa, a Banderona, como todas as Bandeiras da Ilha do Fogo, tem os seus arreias e as suas romarias, umas sagradas, outras profanas, mas todas de profundo sincretismo, onde os populares dão largas aos seus sentimentos de devoção e à memória histórica.

Os juízes, os padrinhos, os tamboreiros, os kanizados, os coladores e as coladeras, as cozinheiras, os ladrões, os escravos, os santos e os demónios, bem como os entes vivos e mortos, todos os imprescindíveis do arquétipo e do conteúdo da sociedade de Campanas, choram a partida de Nhô Mulato e festejam a continuidade da Bandeira de São João Baptista, já que a morte é apenas uma etapa da vida, senão mesmo sua continuidade.

O que envolve a Banderona vem do antanho e tem a ver com a nossa espiritualidade. Não valerá a pena seguirmos a estrada dos novos dias, se deixarmos pela caminhada a nossa alma ancestral e o nosso sentido primordial.

Vamos parar tudo, mas tudo, nessa hora grave e ouçamos a voz dos cantores e o rufar dos tambores (todos os tambores de Cabo Verde afinal). Mulato morreu. Estremeça o mundo, como diz a lenda, à procura dos três meninos e os sons do fim do mundo. Venham chuva, raio e trovão. Venham todos. Hora grave. Di kudi baxon. Vamos fincar o Mastro no coração de Cabo Verde!

terça-feira, 25 de março de 2008

NOSSO VERSO

Dos esquecidos versos meus, apenas um,
Pairando sobre as aguardentes, guarda
As margens do que vamos sendo e solta,
No baú dos segredos, nosso reverso…

Tais palavras, como que a desejarem
Metáforas e seus caminhos transviados,
Têm o dom de cantiga, melodioso no travo
E melaço esta pura nuvem de lua em festa…

Fossem, tão confeitos de broa e vinho,
Todo o visco que teu azeite determina,
Quão na carne nua de alhos e pimentos…

Esse haver boca à fome, de encorpado molho,
Que do aipo se suspeita todo o sal-gema,
E em gosto se atreita música o nosso verso…


FILINTO ELÍSIO

PA MUDJERIS KABUVERDIANA

N kre-bu txeu
oh nha dona
mai
irma
spoza
i tudu otu nhas
di sangi o kultura !
N kre-bu txeu
palavras di nhos garganta
ku signifikadu arku-da-bedja
ki ekua na nha kurason
pa txiga di nhos
na konpasu konbersu sabi
na ragas des alfabetu
eransa António de Paula Brito
Nhos e fonti
di nha bida
farol
di nha kaminhu
stimulu
pa nhas luta
lus
di nhas alegria
mas sobritudu
kolegas di trinxera
kunpanheras pa tudu sabura
Nha kurason ta sangra
ku kada dizaforu
izalta
ku kada konkista
pabia tudu nhas
ten ponta nhas
di sangi i papel pasadu
Oh, sin!
ki kes konkista bira digraus
firmi sima rotxa
pa labanta grau
di nos sabura
es e nhas votu
Pa konfins di tenpu
na nha kurason
un roza
na nha mon
un foisi
na nha obra
solidariedadi
na nha pena
N kre-bu txeu


Marsu 2008
Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera

quinta-feira, 20 de março de 2008

For all means

Reafirmo, perante os navegadores, sobretudo perante os mais “sensíveis”, a minha sintonia e a minha convergência em relação a 90% do que tem escrito Abraão Vicente. Reafirmo também, perante todos, os 10% de opinião contrária. Apontei, com ternura e frontalidade, tais opiniões, sem nenhuma pretensão de ser dono de razão alguma. Aliás, ninguém o é. Quanto a Mindelo, cidade linda e simpática, não a considero tão cosmopolita como a Praia neste momento. Isto dito, sem nenhuma conotação bairrista, nem intenção malévola. Não comungando de teses deterministas, baseadas em vocações e predisposições, mormente aquelas dos rincões, defendo – for all means, como diria Malcom X – um Cabo Verde sempre plural, indivisível e harmonioso. Mas vamos ao “180º “, que de Abraão Vicente sou fã (in) condicional, muito mais neste programa do que naquele “Cabo Verde Nha Cretcheu”…
Nota: O "Ala Marginal" alista-se margosa e claramente no BLOG DAKEL BOM...

terça-feira, 18 de março de 2008

Eterna beleza

Leio, sempre com muito agrado, o Blog de Abraão Vicente. O “Ala Marginal”. Geralmente, comungo das suas inquietações e delicio-me com as suas palavras. São desempoeirados e desassombrados os textos de Vicente. Direi o mesmo das suas fotografias e das suas telas. Soltas, soltíssimas da silva. É claro nem tudo que nele reluz para mim é ouro. Desmereceu o álbum de Nancy Vieira e eu adorei o “Lus”. Desancou em Manuel Veiga de forma desproporcionada e eu deplorei esse excesso de razão. Escreveu que Mindelo era cidade mais cosmopolita de Cabo Verde e achei que ele não olhou bem a “movida” da Nova Praia. Escrevo tudo isso para felicitá-lo pelo Programa 180º, na Televisão de Cabo Verde. Espaço de variedade e de faits-divers, de elevada qualidade. Dito isto, discordo, uma vez mais, com o nascimento do fim da beleza. É que, apesar da fugacidade desta tese, beleza tende a ser eterna…

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

As cidades & os versos


Praia de Santa Maria

Gosto de regressar à cidade da Praia, depois de uma temporada no estrangeiro. A aproximação do avião da TACV (que já deixou de ser o “prazer de viajar bem”) sobre a baía da Praia de Santa Maria me deixa sempre em êxtase. A malha urbana desta cidade cresceu e caminha, como uma grande célula, para transbordar o município. Ela torna-se, a olho vivo, uma metrópole. Com os seus problemas e oportunidades. Sou capaz de identificar cada lugar do centro histórico e das envolventes, imaginando as intervenções necessárias nos seus bocados. Assim, num olhar do alto, fica-se com uma visão de conjunto. Um tanto utópica, diga-se em verdade. Mas, já em terra, o relâmpago é outro. Exigindo de mim uma procura qualquer. Quiçá algo mais tangível e imediato. Com toda a causa…

Reflexões bracarenses

Estive há dias em Braga, cidade ancestral. Atravessar uma parte de Portugal, de Lisboa a Braga, com paragem obrigatória pelo Porto, serviu para pensar em muita coisa. Primeiro, confirmar alguma identidade comum, aquela que nos obriga à pertença de hábitos e costumes. Segundo, tomar a consciência das nossas diferenças e ver que isso é uma mais-valia nas nossas relações. E terceiro, fazer imperiosamente novos amigos e novas alianças, já que o mundo sendo grande, torna a terra pequena. Plano é o mundo…

O Mundo é plano

Falando nisso, aconselho a todos a leitura do livro “O Mundo é Plano”, de Thomas L. Friedman. A desmistificar a crítica sistemática de alguma esquerda de serviço, Friedman mostra que os países – como tem feito Cabo Verde, nos últimos anos, precisam ter uma inserção mais dinâmica na economia planetária. A globalização não gera mais pobreza e injustiça. Pelo contrário, ela facilita a vida aos pobres que queiram concorrer no mercado aberto. O que o livro pretende demonstrar é que o mundo está a ficar mais igualitário e nivelado, concedendo aos países atrasados mais oportunidades para entrar em áreas onde antes lhes era impossível participar…

Cidades cabo-verdianas

Tudo está no seu lugar, graças a Deus, como naquele velho samba, inclusive o anúncio de virarem cidades todas as capitais dos municípios de Cabo Verde. Com este upgrade político-administrativo, Cabo Verde urbaniza-se radicalmente. Ou virtualmente. Como esta última me apanhou de surpresa, meio com as calças na mão, passe a expressão, não dou palmas, nem faço a vez de Velho do Restelo. Farei votos para que tudo, à maneira desse samba, continue no seu lugar…

Versos de Fortaleza
Das dezenas de e-mails que recebo quotidianamente, metade vem com dizeres e versos. É uma troca generosa e reconfortante com os meus amigos pelo mundo. Ora, recebi, de Fortaleza, estes versos de Regina Lima Verde: Deixa que os teus dedos percorram as minhas terras e reconheçam o que ainda de belo tenho em mim: os meus rios, as cascatas. / Permite que os teus navios ancorem nos meus portos, teus portos e que amarras fortes os mantenham presos. /Insiste que os meus acidentes sejam os teus caminhos, pois os meus vulcões esperam por explosões.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

12 palavras

Pablo
Denzel
Mother
Cabo Verde
Praia
Santiágu
Love
Abo
Albatroz
Vida
Arte
Lus

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Racismo não

Segui, com horror e indignação, a linguagem racista do deputado da Assembleia Nacional, António Pascoal dos Santos. Aguardo, como qualquer cidadão nacional, que o ilustre deputado, eleito e sustentado com a nossa cidadania, faça retratação pública pela verborreia e que o Partido, que o tem em bancada, se demarque de tamanha ignomínia. Enquanto isso não acontece, é preciso que os nossos deputados não se arvorem em deuses de esquina, nem extravasem tamanha ignorância. A sociedade precisa ensinar aos políticos de que a Política não pode tudo. Não pode transbordar as margens da ética definidas pela sociedade e pela cidadania. Há sentimentos e intenções que não têm espaço num Estado de Direito Democrático. Pascoal não…

Soneto sem nexo



Não direi agora um poema hermético para te falar de amor,
Quando, com a pequena gramática das horas, o não dito faz as vezes de um beijo,
Ou mesmo, assim escorreito, és de soslaio o ardil com que o tempo é lapso,
Relapso canceroso como come a carne o simples desejo na fogueira;
Nem direi aqui, com todo o nexo, o soneto dos teus seios em silício,
O ver-te descoberta, apartada da trincheira em que vais à profana guerra,
O pensar-te folha, verde folha, a de leve e de breve, quase fotossíntese,
Em senso e em sexo, o sensual de te pensar pelos véus de cada noite;
De nada vale, tal quão silenciado como seviciado, desejar a lua,
Se tu, meio nua, seminua ou inteira, cheia de vazio, és flor sem cor,
Ou, se tanto, cor sem flor, rosa-dos-ventos e odor das brisas…
Quiçá assim, em simples dizeres sem poesia, nem metáforas construídas,
O ser, no puzzle das coisas, a simples peça que se aguarda,
O desmontar esse brinquedo, esse ruído, fala dos gâmetas, trombetas quase…
Filinto Elísio

Poeta de certo madrigal




Quiseste-me poeta de certo madrigal,
Vitaminado de sintaxe, realejo e versejo
Semântico em mim próprio, alado cavaleiro
Ou psicadélico e mensageiro, filho da pátria…

Quiseste-me verso, esquecido do perverso,
Homem novo, sua toxicodependência, o texto
E seu contexto de máscara, de uma poesia
Que não espera pelo vento, fará da cotovia…

Todavia, sou doutra leira que não esta
De alaúde romântico e verbo metafísico
Sou das estradas sem eira, nem beira
Apartadas dos cristais e seus desvarios…

Um pouco esse rouco de algumas vozes,
Aquelas de percalços e sombras dissolutas,
Um pouco essa coisa viscosa e lacrimosa,
Escoante dos insones, deserdados e aflitos…


Filinto Elísio

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

COMUNICADO FINAL



Devido ao extravio, nos últimos dias, da sua porqueira (como se pode constatar por imagens de postais dali enviados) situada algures na zona saloia, arredores de lisboa, de uma lunática porcina, portadora duma anomalia altamente contagiosa, as autoridades competentes destacaram uma força de captura e exterminação composta por uma equipa cinotécnica (para detectar o mau cheiro), um psiquiatra (para diagnosticar os sinais de loucura galopante) e um especialista em ondas zoófilas (para rastrear o IP, vulgo impulso porcino).

Depois de apuradas análises, conhecida que é a sua compulsão para a transmutação, chegando mesmo ao ponto de encarnar um ente real conhecido de todos, um médico caboverdiano colunista do jornal A semana online, a força detectou que encarnou nos seguintes clones (sem prejuízo de desanexar da lista, com as respectivas escusas, como manda a grandeza moral, se alguns destes vierem a provar existência humana real, embora seja manifesto o grau de parentesco): A.S. Magro, Filomena Teixeira, Undertaker, Undertaken, Sindicatos, Amílcar, Sabichão, Sampadjudu refilon, Frankelina, I. Faria, L. Semedo, Sodade, Consuelo Betancourt. (A lista não é exaustiva, dado o escasso tempo que a força teve para analisar a quantidade de indícios, isto é, os dejectos ruminados e expelidos nos últimos dias pela perpetrante).

No entanto, segundo notícias confirmadas, a dita foi encontrada já cadáver na mata de Monsanto, onde tentara refugiar-se após feroz perseguição que lhe fora movida por um pitbull de nome Tavares, a quem tentara atirar, numa das suas encarnações (desta feita um negro angolano e uma mestranda em lérias), uma dose da sua costumeira porcaria.

Pela pestilência exalada, confirmou-se tratar da dita, embora com esse curiosíssimo pormenor: apesar do manifesto estado de rigor mortis, a carcaça continuava a emitir uns estranhos sinais IP – impulsos porcinos – que, logo que decifrados e traduzidos para linguagem humana corrente, consistiam no seguinte: «eu sou uma porca, sou uma porca, sou uma porca, mas não estou morta».

Consta que, apesar do valoroso gesto em prol da salubridade pública, o pitbull exterminador foi saudado por muito poucos, pois, apesar da carcaça ter sido mandada para a incineração, alguns nativos temerosos receiam que algum clone tenha sobrevivido, ou que regresse em forma de harpia.

Choupana da Reinação, dia do Carnaval do ano da graça de 2008
Assinado (na ausência do Rei-momo) pelo seu fiel mordomo

José Luiz Tavares

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Amilcar Cabral

1.
Li, com muito interesse, e achei consistente a indignação da historiadora Iva Cabral sobre o papel do Estado de Cabo Verde em relação à figura de Amilcar Cabral. O aparato oficial, resumido à efeméride de 20 de Janeiro, é recorrente e insuficiente. O legado de Amilcar Cabral não deve ser relegado ao arquivo morto, mas sim transportado para as escolas e para o debate cultural, científico, social e político, pelo valor intrínseco que detém. Visto com alguma complexidade, poderemos perceber que Amilcar Cabral continua a ser um activo para a construir o futuro e não um passivo do processo histórico. Não só pela dívida histórica, mas para a estratégia de desenvolvimento, Cabral significa um enorme bónus para os cabo-verdianos. Sejamos coerentes e consequentes…
2.
Excelente a escrita do poeta José Luis Hopffer Almada sobre Amilcar Cabral. Analista superior, JLHA tem uma compreensão complexa do perfil do Fundador da Nacionalidade Cabo-verdiana. Lendo o texto do poeta-analista sobressai a pergunta se não terá chegado a hora de se criar uma cátedra de Estudos Amilcar Cabral. Fica a pergunta aos mais avisados...

10 PETALAS KI TA BOIA-NU

(pa louva Kabu Verdi i ses Erois)


Es fla-m bo e restu
lama dedus nhor Deus
na meiu di Atlantiku spadjadu
frutu sakudidela
na fin di trabadju

Es fla-m bu ka ten apelidu
pa ba ta npalia
vizinhu nprista-bu di sel
dja ten tantus sekulu
ki di bo dja bu skese ranja
konfortadu ku nomi trokoladu

Es fla-m Deus di Ventu
ku Kes Otu makumunadu
na sul di Djabraba ta ragatxa
txuba pa ta tadja
di beija-bu manenti

Es fla-m txeu di nos rais
fuliadu li kontra vontadi
na sekulus butuperiu
skapa pa unha gatu
di noitis sen katxupa
sen rezervas i sen ramus
nen mons amigu

Es fla-m un monti kusas
sabi i ka sabi
dretu i tortu
tudu na kurason es baza-m

Es fla-m bo ke di nos
kunpadru ku suor i sangi
dor i speransa
i ku ponta txopu
sustedu pa nos Erois

N subi na seu
N odja Europa i Afrika
N dixi na txon
N anda Amerika i Azia
N ka kapri bu sodadi
N dizisti di Kanguru i Konpanhia
ka bale pena mas andansas
nha kurason e so pa bo
10 petalas ki ta boia-nu

Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera

domingo, 6 de janeiro de 2008

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Inverno


Inverno

Queria ver os cisnes de regresso ao lago e, para Anna Akhmátova, uma paisagem cavada de brilho, com metáforas de cereja…

Coisas de Eucanaã Ferraz

Talvez porque Lisboa esteja fria e, do hotel onde me alojo, o pessoal esteja em polvorosa. Acabaram de cancelar o Rally Paris-Dakar. Em verdade, a “perna” Lisboa-Dakar e parece que todo o pessoal está alojado neste hotel. Sem que se entenda, deu-me para recitar aquele poema de Eucanaã Ferraz, dedicado a Manuel Bandeira. Era assim: “Também é o beco/ o que vejo. Mas adivinho a Glória, / a baía, o chão do horizonte”…

Estrela

Eis que, de longe, uma estrela, me olha. Entre muitas outras, ela derrama sobre mim uma espécie de luz. O leitor, sem perceber nada disto, há de dizer amiúde: “Demais faz mal”…

Blog de Abraão

O “Crónicas Sujas”, blog de Abraão Vicente, é das coisas mais saudáveis da praça virtual cabo-verdiana. Não porque escreve coisas extraordinárias, mas porque desconstrói essa mania da malta não ser livre…

Navego também

Sempre com agrado os blogs “Os Momentos”, de Margarida Fontes, “Son di Santiagu”, de Djinho Barbosa, e “Tempo dos Lobos”, de Mário V. Almeida (sem crise, meu caro). Pela consistência e pela abertura de espírito. João Branco acaba de colocar no ar um blog com interesse. Confiram “Café Margoso”…

Liberdade

Perdoem-me os poderosos, os deuses de esquina e os sabichões da freguesia, mas tudo isso é uma grande falácia. Não podeis atirar a primeira pedra. Mas…a última?

Figura III

Ainda sobre a cômoda,
colhidas há pouco,
esperam.
Que nome o delas?
Goivos, cravos, narcisos,
gardênias, junquilhos?
Venham a água
e o vaso - esperam.
Serenamente. A urgência
pode ser assim, macia.
O amarelo tem sede.


Eucanaã Ferraz

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Pudesse Eu

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!


Sophia de Mello Breyner Andreson

sábado, 22 de dezembro de 2007

Boas Festas


Mito Elias

Nesta altura do existir


Aprende-se, a duras penas, que a vida continua, mau grado tudo e todos. Naturalmente que, enquanto cá labutamos, será sagrado o nosso direito de espernear, esbracejar e revoltar contra os ditames do destino. Mas nós já somos importantes para a vida. Já afirmava Homero, poeta maior, que " é somente em nós que ocorre o bem e o mal"…

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Faleceu Manuel Delgado

Faleceu Manuel Delgado, o jornalista da prosa fina e cáustica. Domador da sintaxe e da semântica, mesmo quando estas se mostravam indomáveis, Delgado era sim um bravo e um destemido. Dizia de si próprio “cadáver armadilhado”, sempre que os inimigos declarados e aqueles mais velados ousassem alguma ameaça. Tinha o dom de rir dos “imortais” e chamava os nossos burocratas, ainda que encalhados na poltrona do poder, de “deuses da esquina”. Gostei dele, como se quer a um familiar próximo, e com ele aprendi a não seguir fanfarras da tropa fandanga. Gostei dele e, em horas de convívio, líamos os poemas de Alexandre O´Neill. Gostei dele e, em caudalosas discussões, construíamos umas ilhas no lego dos nossos sonhos. É hora, Manuel Delgado. À andaluza…como fora prometido em tempos de estio.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Poema

Há uma hora em que nos decompomos
e indefinidamente vagamos
entre rosas de sangue.

Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.

Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.

Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.

Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.


Dimas Macedo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Natal







Fere de leve a frase...



E esquece... Nada



Convém que se repita...



Só em linguagem amorosa agrada



A mesma coisa cem mil vezes dita.






Mário Quintana


















RAP DI PULÍTIKU

Dj´e subi na palanki
dj´e fina si garganta
dj´e fla m´e ta da tanki
ku vos ki ta inkanta

nu konxe ses trofegu
na buska más un votu:
dipos nós é arnegu
fuliadu la pa (di)sgotu

ku djatu ku tabanka
prumesa sima mel
e kre bu karta branka
bu krus riba papel

un bes fladu «djo baka»
fasedu funeral
mas tudu da kalaka
djuntadu ben ku mal

es tudu é dotoradu
na ngana y da-nu badju
ka ten kusa mariadu
k´es ka ta poi na tadju

é santxu la na rotxa
ki foi ses prufesor
bu ta fika na gotxa
si bu ka skodje un kor

pensa é ka bon
ta po-u na konfuzon
es kre-u sima karneru
po ka odja ses eru

es ka kre sidadon
ta toma puzison:
si agrada bo é di-ses
si nau bo é rabés

povinhu la kobon
ta kodje si sinbron
puleru é pa mondon
ki fla m´e sta na don

mas el go xatiadu si
ku votu e ta durba-l
s´e pensa m´e ka si
manhan e ta purba-l

un bes tinha so pai
dipos ben dios pai mai
es tudu dja es kai
p´es sabe m´es ka rai

gobernu é di povu
ki dja ten liberdadi
na kanpu y na sidadi
si vos é más ki fogu

nhos obi nhos matuta
pulítikus di nha tera
na mei di si labuta
nos povu sa ta spera

JOSÉ LUIZ TAVARES

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Esse siso em cada riso




Na fímbria do tempo

Tomo, com siso, mas não sem riso, essa visão de Cabo Verde que começará no século XIX, quando não mesmo no século XX, sonegando mais de quatrocentos anos da história do povo cabo-verdiano. Não poderemos ir para a aventura do futuro, com a memória comprometida e amordaçada. Nem poderemos ser nós próprios, com essa coisa dissimulada, de diluirmos a nossa componente negra. A aventura crioula, não a de Manuel Ferreira e dos seus admiradores, é de uma ancestralidade que a nossa elite intelectual, por estratégia de classe, recusa a perceber na fímbria do tempo…
Bento, rebento

Encontra-se na capital o amigo Bento Oliveira. Ele expõe a sua criação (plástica) na Reitoria da Universidade de Cabo Verde. Bento Oliveira, que é de Ribeira Grande, ilha de Santo Antão (Sinta 10), faz arte com serenidade e intensidade. Pelo que entendemos dos seus traços, o público praiense irá apreciar, em vários quadrantes, o que Bento Oliveira apresenta nessa mostra. Retiro do Ala Marginal (Blog de Abraão Vicente) um retrato do nosso amigo comum. Bento, rebento de um Cabo Verde novo. Outro…

O vate conseguido

Gostei, uma vez mais, de ler José Luís Tavares, um dos mais talentosos e substantivos da nova poesia cabo-verdiana. O poeta, às tantas, em “o rio quando antilira”, vaza o vate nestes termos:

(…)
Não há, porém, métrica que cinja
a voz de um rio quando suspira nas entranhas
avivando um passado que é cisco na memória.
(…)

Com muito siso e uma dose extra de riso, eis, meus caros, alguém que não derrama seus versos à-toa…

domingo, 2 de dezembro de 2007

Acidente na Sala


Movo a perna esquerda
De mau jeito
E a cabeça do fémur
Atrita
No osso da bacia
Sofro um tranco

E me ouço
Perguntar:
Aconteceu comigo
Ou com meu osso?

E outra pergunta:
Eu sou meu osso?
Ou sou somente a mente
Que a ele não se junta?

E outra:
Se osso não pergunta
Quem pergunta?
Alguém que não é osso
(nem carne)
Em mim habita?
Alguém que nunca ouço
A não ser quando
Em meu corpo
Um osso com outro osso atrita?


Ferreira Gullar

sábado, 1 de dezembro de 2007

Delgado

Mais “Claridade”

Veio e passou “Claridade na Terra da Luz”. Palestras, documentários e feira de livro, no Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar. O evento, que exigiria muito mais público para ser brilhante, serviu para tirar algumas ilações, entre as quais:

1ª A de confirmar que a Revista “Claridade”, bem como todo o Movimento Modernista que a produz, é um facto e um feito incontornáveis na Cultura de Cabo Verde;

2ª A de fazer sentido buscar, a montante e a jusante, as matrizes e os matizes da estética e da temática, assim como as convergências e as cumplicidades, dos Claridosos;

3ª E a de testar o “silêncio dos inocentes”, pois estes, vociferantes e “indignados” com a montagem do Simpósio sobre a Claridade na Cidade da Praia, capital de Cabo Verde, aceitaram e legitimaram a sua feitura em Fortaleza, capital do Ceará.

Cientes de estarmos todos bem acordados e bem acesos, sobretudo, mais preocupados com os desafios de Cabo Verde em face da “parceria especial” com a União Europeia, da recente adesão à Organização Mundial do Comércio e do necessário “estatuto diferenciado” junto à Organização dos Estados da África Ocidental, não deixará de ser importante, se não crucial mesmo, que nos olhemos ao espelho.

Delgado


“Ti Manel”, como lhe chamo, sempre conjugando os verbos no presente, é das prosas mais aparadas, enxutas e bem conseguidas do jornalismo cabo-verdiano. Também dele a maior irreverência, não ajoelhando, nem rezando, diante de ninguém. Outra coisa, que lhe cola como sina, é a condição de polémico. Na velha e fina linha de Pedro Cardoso e Jaime Figueiredo, Manuel Delgado tem o dom de atirar pedras no charco. Apanágio de Eça de Queirós e de pouquíssimos, rol em que tem assento Delgado, a clamar o “acordar o porco” (referindo-se à pátria, naturalmente). Alguns jornais da praça, bem como seus profissionais de serviço, são seus detractores confessos. O melhor a fazerem agora é o remake dos “mimos” ao meu confrade. Alguma política – a mais medíocre da parvónia, diga-se –, se calhar incorre à injustiça de o canonizar a esta hora. “Ti Manel” é dos mais bravos da paróquia e ateia fogo ao verbo como se fosse este seu próprio corpo. À “Andaluza”, como quis Mário Sá-Carneiro, desprendido dos limites. A vida é um grande incêndio, meus amigos, e os incensos (tão pouco o bafo dos bovinos e unções da 25ª Hora) não foram aqui chamados…

Como uma Madrigal

Em nada ficou igual o amanhecer. Nem a luz dourada sob os prédios altos do Mucuripe. Nem os vendedores de água de coco anunciam os mesmos pregões. As ondas, incessantes na Praia do Meireles, têm um lambe-lambe diferente com a areia. E as nuvens, que em Fortaleza eram as mais evidentes do planeta, estão agora ambíguas, entre o cúmulo e o nimbo. Parece até que vai chover. Eu também acho que mudei um pouco. “Estou te estranhando, Poeta”, balbucio diante do espelho.