domingo, 1 de abril de 2007

Para que nada fique na mesma

Para que nada fique na mesma

Saravá, mantenhas & boa nova, meu caro leitorado. Nesta lenta agonia de haver jornal, vamos escrevendo o tempo da ilha e do mundo, cientes de que daqui a dez, cem, mil anos, um terráqueo qualquer há de querer saber destes cumprimentos. Quanto mais não seja pela cultura arqueológica de continuar a haver futuro. Estou entre Fortaleza e Praia, com Bóston atravessado no pensamento, da minha escrita, quer criativa, quer utilitária. Não dou mais detalhes de querer Frei Betto apresentar o livro de Felisberto Vieira, saído da forja e entrado no prelo, com prefácio de Jorge Sampaio. Nem digo aqui do recital de boa música de Fhátima Santos, no Centro Cultural Oboé. Tom Jobin celebrado por uma intérprete da primeiríssima água. Outra novidade, mas só cheirinho, de quem regressa por uns dias. Para que nada fique na mesma…

No Clube do Bode

No Clube do Bode, confraria de intelectuais que se reúne aos sábados sob o comando do livreiro Sérgio Braga, no Florida Bar, acontecem sempre coisas inusitadas. Desta feita, uma princesa vinda das terras helvéticas, entrementes tornada “cabrita”. Outrossim, Filinto Elísio acaba de ingressar o Clube, numa festejada e pantagruélica entronização. A aguardente de Santo Antão, mãe da cachaça como foi ali baptizada, fez boa muito boa figura. Saudada por Sérgio Braga, Audifax Rios, José Tarcísio e Dimas Macedo, entre outros ilustres, essa aguardente fez autêntica diplomacia crioula entre os intelectuais cearenses. Gente conhecidíssima, mas simples mortais, sem as nove-horas dos nossos generais de palanque. O almoço era uma manta de carneiro, com baião-de-dois. Depois, uma feijoada completa, para amanhar o sábado. Como diria o poeta Carlos Augusto Viana, nem só de pão vive o homem. Há também vinhos e finos queijos…

Tricas & futricas

Da Tapadinha, só poderia isto. O cronista apareceu à porta, zangado e sabichão, a mandar vir sobre a carneirada obtusa, hoje pecadora por votar deste e não daquele lado. Escreveu loas e laudas, arrotando sua sapiência em leis e em política, neo-liberal entretanto na sua entortada boca, bem como no seu verbo à-toa. Mercê desse magistério arruinado falou mal do mundo. O Carmo e a Trindade. O fim dos tempos. Vaticinou os ciclos políticos de dez anos. Amaldiçoou os jovens e os aprendizes. Destilou sobre as águas, a sua enormíssima arrogância. E, depois, qual lobisomem no limiar da noite, comeu as mentes ensonadas, à falta das virgens que as lendas rezam. E acordou, apaziguado e sereno, como quem dormisse o sono dos justos. Onde estarão os inocentes e os patuscos em delírio?

segunda-feira, 26 de março de 2007

Com uma capa cinzenta

Não como um rei, mas como um actor,
vestiu uma capa cinzenta em vez das vestes sumptuosas
e ignorado, retirou-se.
Plutarco, Vida de Demétrio




Pura vida

Não sei se escrevo sobre as greves, algumas falhadas, que atravessam o país. Ou se escrevo sobre as tuas impressões de Costa Rica, esse digno país sem exército, onde as pessoas respondem aos cumprimentos com “Pura vida”. Tampouco, se esboço umas linhas sobre a mesa de gala enfarpelada, com o protocolo à altura, pois estava-se a receber Danielle Mitterand, e falava-se da vitoriosa visita do Presidente Pires a Fortaleza. Se respondo a um aprendiz de serviço pela referência negativa, zangado com o Doutor Honoris Causa atribuído ao Presidente pela Universidade Federal do Ceará. Ou se apenas digo que é bom saber de ti – os queijos, os vinhos & os chocolates de sempre – e os anos desta existência. Escrevo, sem vestes sumptuosas. Escrevo tão-somente…

Imprensa em debate

Acompanho, pela Rádio de Cabo Verde, o debate sobre a comunicação social em Cabo Verde. Ouço uns e outros. Em verdade, há acertos e ajustes a fazer no campo mediático. Há aspectos a conseguir, como a qualidade dos serviços públicos da imprensa. Igualmente, a regulação para mediar e fiscalizar a qualidade de toda a imprensa, tanto pública como privada. Não falo do Conselho da Comunicação Social, mas de uma agência reguladora mais eficaz e mais apartada dos partidos políticos. Mas, a par disso, a liberdade de imprensa consagrou-se em Cabo Verde, depois de anos de condicionamento e tormenta, durante o monopartidarismo e a primeira fase da democracia, então exacerbada. Sou amigo e confrade de Jorge Soares, fundador e primeiro director do Jornal A Semana, tendo acompanhado a perseguição politica sofrida e o processo que levou ao seu asilo político nos Estados Unidos. Vários jornalistas foram processados e intimidados, outrora. Que o digam José Vicente Lopes e José Leite, entre vários outros. Longe vai o tempo de dezenas de jornalistas nas barras do Tribunal. Basta de falsa realidade. Basta de má-fé. Interessa sim, o passado e o antecedente, embora não defenda a justiça retroactiva. Queremos uma imprensa melhor, ciente de que a actual situação já é um incremento diante do que fora nos últimos anos. Queremos ouvir os profissionais do sector e não apenas os funcionários da política. Por uma comunicação social cada vez mais livre, mais crítica e plural. Em prol da cidadania…


Para que serve a crónica

O meu leitorado há de perguntar para que serve a crónica. Sem muita certeza, direi que talvez sirva para atestar que nunca me curvei diante dos deuses pés descalços, nem dos palanqueiros de serviço. Queria ter alguma isenção, mas não padeço de neutralidade. Daí não ser indiferente aos ataques que me fazem. Et pour cause, esse aspirante a intelectual, merece pena e complacência. Há distúrbios herdados, pelos quais não temos culpa, ficando Freud para os explicar. Agora certo analfabetismo, não se compreende, nem se desculpa…

Com uma capa de cinza

Enquanto o Jornal Horizonte existir, este cronista estará no convívio do seu leitorado. E quando chegar o derradeiro dia, ele ficará apenas no ninho do seu Blog – www.albatrozberdiano.blogspot.com, para os ainda desavisados. Não como um rei, mas como um actor, importa descer da ribalta. O certo é que o cronista sai da cena, com a morte anunciada deste Jornal. Nenhum drama, apenas a mudança de vestes, como o Rei Demétrio, no dizer de Plutarco.



quinta-feira, 22 de março de 2007

A mando de O Padrinho


Clara idade

Na tertúlia instalada sobre a realização do Simpósio Internacional da Geração Claridosa, parece-me correcta a posição defendida pelo artista Abrãao Vicente. E a razão é simples: a tese da modernidade exclui determinações localistas e regionalistas do fenômeno literário, para apresentá-las como produtos da pura evolução estética universal, mesmo em face do lócus local e regional. Efectivamente, temos de evoluir sobre a visão provinciana e redonda, aprendida pela rama. Renegar assaz simplificação implicaria descer ao plano da experiência estética, que tem que ser entendida como prática social e histórica mais alargada, e não como uma luminária surpreendente e out-of-the-blue, de alguns gênios isolados. A Claridade, pela profundidade nacional que teve e pelo alcance universal que lateja, dispensa que lhe defendam de forma sectária e excludente. Clara idade precisa-se. Façamos pois, no próximo ano, o Simpósio, em Fortaleza. E, se der, na ilha do Maio ou em Macau.

Ideal Clube

Almoço no Ideal Clube, com o Presidente Pedro Pires. Mais três títulos honorifícos. O de Membro da Academia Cearense de Letras, a mais antiga do Brasil, do Clube do Bode e do Ideal Clube. Os melhores intelectuais do Ceará reúnem-se para prestigiar Pires. Quando Casimiro de Pina, vulgo Peninha Mon Petit, disso souber...

Se a insensatez fosse colírio

Mesmo discordando de certo colibri, eu tenho lido as suas crónicas e as suas visitações, quase sempre ligeiras e brejeiras, pelos grandes teóricos da liberdade e da ética. Agora, levianas e desprovidas de senso, inclusive o crítico, serve a barriga de aluguer à maçonaria bem visível. A mando de O Padrinho, logo se vê...

domingo, 18 de março de 2007

Quando se nos escapa o planeta Vénus



Crónica de uma morte anunciada

Já o tinha anunciado. O Jornal Horizonte vai ser desmantelado. O vazio mediático, se não for preenchido, será mesmo perverso. Vamos ficar mais pobres, ainda que o Jornal, como todos os outros no mercado, pudesse ser mais atraente e apetecível. Não se sabe ao certo se há planos para criar algo novo. Oxalá haja, em prol dos estados gerais da imprensa. Faltará ao Estado solução mais criativa do que uma simples crónica de uma morte anunciada. Talvez para agradar a gregos e troianos, mas no descuido da vasta maioria dos leitores, este golpe de misericórdia. Eu já não tenho idade para representar diante de quem quer que seja. Quanta irresponsabilidade, minha gente…


Quando se nos escapa o planeta Vénus

Estou na Biblioteca Publica de Fortaleza, a pesquisar sobre os poetas nordestinos que, de forma incisiva, influenciaram os modernistas cabo-verdianos, mas dou de caras com esses poetas pós modernos e, investigador bissexto, relego para outra hora o desafio da minha claridade. A biblioteca (e também nisso tem razão Jorge Luís Borges) é uma torre de babel, um labirinto onde se perde das coisas pré concebidas. Fica-se tonto de tanto buscar saídas. Quando a saída é aprender a conviver com a condição de labirinto, que é a própria condição borgiana da biblioteca.

Dias de escola

Vem o Carlos Hamelberg a Fortaleza e falamos dos idos tempos do liceu. Para mim, o pior dia de escola era aquele em que a professora, com o olhar de águia-real, clamava no sumário “Revisão do Caderno Diário e da Matéria Dada. Chamadas”. Primeiro, o meu caderno estava cheio de desenhos (ilhas, barcos, aviões, mulheres nuas). Para ela, não podíamos ter mais do que apontamentos e trabalhos de casa nos cadernos, cujas folhas numeradas sofriam dela periódicas inspecções. Segundo, eu odiava o vexame de ir ao quadro, tendo inventado a desculpa pouco convincente de alergia ao giz. Isso, para não vos contar que as ditas Chamadas eram sessões pidescas, feitas para nos fazer humildes diante das colegas da sala. Talvez por isso eu tenha adquirido esta inimizade ao saber provisório e absolutista, bem como do adventício dos nossos pequenos deuses.


Vénus que se esvai

E, como nos conta o poeta cearense Ruy Vasconcelos, “Toda biblioteca é em espiral. Não vemos isto porque a óptica ilude. E somos míopes em graus diversos. E, então, essa espiralidade das bibliotecas nos escapa como nos escapa o planeta Vénus quando o sol surge.”

Ainda sobre a crónica verruguenta

Mais dois emails, do mesmo incontinente da semana passada. Fazer o quê, companheiro? Falai do mau, apontai o pau. Em verdade, queria apenas ver o planeta Vénus e dizer que vou até a morte deste jornal, que alguns abutres já festejam, lembrados da fome e esquecidos da ética. Por mim, tudo não passa de uma imensa gargalhada e sei que V.Excia não é o rei do bom humor. Eu, com humildade, bebo no cântaro de alguns mestres – Luís Loff de Vasconcelos, Pedro Cardoso e Jaime de Figueiredo. Convenhamos, meu caro deputado, que não tenho imunidade (nem impunidade), como afirma, mas sou livre da silva, que nem um albatroz. É a graça de não ter obrigação com o eleitorado, mas apenas este encontro acidental (e quando der) com o meu valioso leitorado…

Poesia tão-somente


Li, em primeira-mão, os teus versos e gostei das metáforas ali contidas. Naturalmente que os melhores poemas estão cá dentro. E também são labirínticos, como toda a Arte, dentro de nós. Nenhuma aparente serventia. Nenhuma bula ou receita médica – pois poesia não seria oráculo para salvar o mundo. Nenhuma serventia, a não ser a loucura para enfrentarmos este excesso de realidade. Já levavas poesia bem antes desses versos. Há poetas que nunca escreveram uma linha, mas pressentiram o labirinto da vida. E da morte…

quinta-feira, 15 de março de 2007

Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 12 de março de 2007

A trans-política




A trans-política de Jean Baudrillard

Ó, gente boa, uma trégua para escrever sobre este homem imprescindível. A morte de Jean Baudrillard, brilhante filósofo contemporâneo, não poderá passar em branco entre nós. Afinal, nem só de bizantinices, greves e riolas bairristas vivemos. Baudrillard, por exemplo, viveu numa sociedade onde o caos fora a melhor estratégia para desmontar o sistema de banalidades. Era preciso desconstruir o simulacro e a engrenagem. Fazer outra viagem – a da trans-política –, em que o pensamento e a Arte ganham, sem adjectivações, o substantivo do Ser.

Bocas

Um deputado, conhecido pelas suas bocas nos cafés da cidade, não gostou da minha escrita sobre o debate parlamentar. Ele acha que os deputados tiveram inteligência, elegância e boas maneiras durante a discussão sobre a corrupção. Não se pretendeu fazer tábua rasa, até porque, nas duas bancadas, há deputados de fina estampa, merecedores da confiança e do salário que recebem. Mas há outros que confundem imunidade com impunidade e alhos com bugalhos. A infra-política. Pobres de espírito e de verbo, ali a beber metros cúbicos de água mineral. Estes, meu caro, são os escabrosos que vamos aturando, mas não silenciosamente. É que aturar também custa…

A economia da droga

Nos dias que se seguiram ao assassinato das italianas – uma execução que nada teve de passional, como pretendiam os pacóvios da aldeia -, não faltaram vozes a exigir a requalificação do turismo. Uma reflexão sobre os impactos desse turismo para a nossa sociedade. O dinheiro tem os seus custos e ele só vale a pena se os lucros também forem sociais e culturais. O assunto terá sido relegado ao segredo da justiça ou à justiça do segredo? E a questão nem é estritamente policial. Precisamos superar a falsa premissa de que a polícia seja o fiel da balança. O equívoco de se interpretar polícia e segurança como sinónimos. Para além do tão urgente quão necessário investimento nos valores sociais e familiares, do civismo e do convívio, importa identificar e desmantelar a “economia da droga” que insistimos em não reconhecer (nós, a sociedade). Uma engrenagem poderosa e insidiosa que já sustenta muita gente na nossa “terra estimada”. Pode?

Feira Internacional da Música


O Mário Lúcio, à frente de uma equipa de boa vontade, organiza a Feira Internacional da Música, em Cabo Verde. O projecto é grandioso, e consistente. Trans-político. Vamos apoiá-lo. São iniciativas do tipo que ressignificam o turismo e clamam por outros investimentos. Se a Cultura é o nosso diamante, há que criar condições de o lapidificar e de o intercambiar. Mário Lúcio entendeu, como poucos, que a melhor forma de proteger e promover a Cultura de Cabo Verde é a abertura para o Mundo. Quanto mais escancaradas as fronteiras, mais as singularidades do local se expressam. Foi assim com o Fesquintal de Jazz, lembram-se? É o se que propõe com esta Feira Internacional. Além de suscitar a instalação, algures, de uma indústria da música. Palmas para o Tchilo…

sexta-feira, 9 de março de 2007

Mulher


Navegações VI


Paulo Okamoto
Presidente do SEBRAE


Rembrandt

Mal chego à Universidade, dou de caras com a exposição “Rembrandt e a arte da gravura”, no Espaço Cultural Unifor. A colecção (de 90 elementos, conforme o catálogo) acaba de chegar directamente da Holanda. Mais uma actividade da Vice-Reitoria da Extensão e Comunidade Universitária. A anterior fora ´Mirabolante Miró!´, algo que, pela sua qualidade, mereceu a atenção deste Blog. Passo parte desta manhã a aprender sobre Rembrandt, o génio…

XI Encontro Internacional de Negócios do Nordeste

Participei, com um grupo de empresários vindos de Cabo Verde, no XI Encontro Internacional de Negócios do Nordeste. Os 244 expositores do Nordeste ofereceram, durante estes dois dias, confecção, alimentos, artesanato, calçados, entre outros itens, aos 76 compradores inscritos, dos quais 14 brasileiros e 62 estrangeiros, de 19 países. O Encontro apresenta-se como um caminho para as pequenas e microempresas chegarem ao mercado externo, sobretudo africano. A expectativa do Sebrae, organismo que educa e orienta as pequenas e médias empresas nas três grandes etapas da realização dos negócios (capacitação, crédito e comercialização), é concretizar 40 milhões de dólares em vendas durante os dois dias do XI Encontro Internacional de Negócios do Nordeste, um crescimento de 48,14% em relação ao de 2006.

Cabo Verde X Ceará

No ano passado, os micros e pequenos empresários do Ceará venderam 5,6 milhões de dólares aos cabo-verdianos. E vale a pena ver a curva ascendente. As vendas pularam de 139 mil dólares (2002) para 4,8 milhões de dólares (2005). Em 2007, apesar das tarifas aéreas elevadas e da desvalorização do dólar, o negócio tende a aumentar. Tempo de se questionar, numa atitude descomplexada e pró negócio, o que o Ceará poderá absorver de Cabo Verde, criando um fluxo de duas vias. O próprio presidente do Sebrae, Paulo Okamoto, uma das figuras mais poderosas do Brasil, assentiu perante uma delegação cabo-verdiana, com a presença do Administrador da CV Investimentos, Manuel Pereira Silva, e do empresário Paulo Lima, da Câmara do Comércio, Industria e Serviços de Sotavento, que a sustentabilidade da relação Ceará X Cabo Verde terá de passar pelo real intercâmbio de vendas. Cabo Verde tornou-se um bom mercado para exportadores cearenses, sobretudo os de menor porte, e estes, chegando a uma fase de parcerias, precisam de redimensionar o circuito. Temos de começar a imaginar e a inovar. As engenharias são sempre possíveis…

Zé Maria

Acompanhei, pela Internet, o colectivo de imprensa organizado pela RCV, com o Primeiro-Ministro, José Maria Neves. Este é de facto o grande capital do PAICV. Excelente administrador público, ele precisaria apenas de uma atitude mais acelerada em favor das pequenas empresas e da real capacitação do sector privado (desburocratização, crédito, empreendedorismo). O País, para crescer a dois dígitos e reduzir o desemprego a um dígito, tem de, primeiro, criar riquezas, e, acto continuo, sublimar as réstias da mediocridade ainda visíveis no paroxismo – mas que ironia – de uma certa oposição. Essa tentativa de buscar sucedâneo ao Caso Enacol não cola. Há coisas que têm a cara do próprio dono…

domingo, 4 de março de 2007

Eu sou da nação de Orlando Pantera...e você?


Jaime de Figueiredo – esse cometa literário



Ao Francisco Fragoso, com admiração


1.
Conheci Jaime de Figueiredo, nos seus últimos dias. Era amigo do meu pai e, nessa condição, frequentava a nossa casa, na rua do Hospital. Lembro-me que batia à porta com sofreguidão, gritava da rua pelo “Senhor Correia e Silva” e levava sempre uma revista ou um livro na mão. E o meu pai explicava-me que aquele era homem de muitos livros, director da Biblioteca Municipal da Praia e correspondente do poeta José Régio.

2.
Num dia de chuva, pouco depois da morte de Jaime de Figueiredo, apupado por imbecis locais que se diziam revolucionários, a minha mãe me lera uns versos de Régio.

(…)
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
(…)


3.
O cometa literário, que Manuel Lopes chamara de “imaginário”, mas que os dados provam ser real, esboçou a criação de uma revista de letras, desde 1931, na cidade da Praia. Ao grupo conhecido por Atlanta, alinhava-se, além de Jaime de Figueiredo, os escritores Jorge Barbosa, Henrique Torres, e José Lopes. O ideário aproximava-se dos modernistas portugueses, em torno da Revista Presença, fundada em 1927, na qual Jaime de Figueiredo era colaborador e alinhado. Este chegou mesmo a ventilar, nas várias tertúlias realizadas, a criação de uma revista de letras avessa ao artificialismo e ao academismo, então prevalecente em Cabo Verde.

4.
Quem por aí não ia era Jaime de Figueiredo, avesso à mediocridade local, que não poupava nem o Governo da Província, nem a edilidade da capital. Nos anos trinta, ele fundara na cidade da Praia, o hábito das tertúlias. Em 1935, chegou a São Vicente com a proposta de uma nova revista, de nome Atlanta. Para Manuel Lopes, a proposta era uma bandeira sem mastro, desgarrada da realidade. Será? É o que importa investigar. Agora ficou patente que a dissidência de Jaime de Figueiredo não terá sido tanto por causa do nome que quis impor ao grupo dos claridosos. Há questões de fundo que reclamam vir à tona da água. Segundo Jaime de Figueredo, no prefácio da Antologia dos Modernos Poetas Cabo-verdianos, a influência estética do grupo Atlanta, sintonizada com a doutrinação da ‘presença’, veio resultar, mais tarde, na criação do grupo e da fundação da revista Claridade.

5.
Com a realização do Seminário Internacional sobre os Claridosos, certame que se quer marcante, esclarecedor e acima das capelinhas provinciais, será mister pegar nas notas, entrevistar pessoas e reler os livros de e sobre a Claridade. Recentemente, uma polémica não conseguiu ser interessante sobre a problemática, na medida em que ficou pela superficialidade e pelo circunstancialismo, quando a questão de fundo ficou relegada ao silêncio.

6.
(…)
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
(…)




Tributo a Paulo Freyre




sábado, 3 de março de 2007

Para lamentar



Que os deputados da oposição queiram questionar e mesmo denunciar o que vai mal na administração, acho bom, higiénico e saudável. Os deputados da situação, em vez de jogarem à defesa, devem ir ao ataque também, criticando o que não está conforme. Afinal, a administração é um corpo institucionalmente próprio e tanto a governação, como a oposição, têm de lhe prestar cuidados especiais. Outrora, agora e sempre. Que não haja veleidade de não acharem coisas escusas e obscuras, meus ilustres. Isso, nem na Finlândia e na Noruega, onde a cultura pública se sublima. Ou mesmo na Singapura, onde há chicotadas e penas de morte na praça. Ou ainda naquele califado, onde o comensal está reservado ao califa e o resto a embriagar-se nas Mil e Uma Noites. Em Cabo Verde, Portugal, América e resto do mundo, é o que se sabe. Basta acompanhar a imprensa, meus ilustres. Mas o debate parlamentar precisava de mais fineza e pedagogia. Provas a dar credibilidade às suspeitas. Sem complacências, entretanto. Toda a administração, por mais moderna e reformada que esteja, tem os seus mandos e desmandos. A proximidade dos amigalhaços, as dívidas e os défices, a contabilidade a meter água, as derrapagens e os desvios. Há contas dos anos noventa por fechar, imaginem. Houve até aquele descaramento da classe empresarial próxima ao partido, coisa brava. Isso, para não falarmos do faroeste da gestão pública e das privatizações danosas numas ilhas, ditas hesperitanas. Tudo isso existe na administração, com mais ou menos requinte. O que diferencia é a governação em sentido amplo (para lá do Governo), o arquétipo político da coisa. A engrenagem do controle e da transparência. O Tribunal de Contas a fazer as contas e a exercer autoridade judicial. A Procuradoria a dar provimento e execução. O Parlamento a questionar e a inquirir. O Governo a nortear, a despachar e a auditar. E a cultura da coisa pública, com rigor e intransigência. A ética weberiana sobre a res publica, com o cidadão consciente (e sem medo) do seu papel. Agora o que está também mal, mesmo mal, malíssimo da silva, é a forma como os nossos parlamentares cortam as mãos, tendo a faca e o queijo. Não é que se queira um Parlamento cheio de mesuras, ademanes e salamaleques, mas assim, de faca amolada, não dá. Aqui, os mortais e contribuintes, queríamos que isso não fosse tanto o feudo dos imunes e dos impunes da democracia, a destilarem maus fígados e más palavras. E quem haverá de julgar os juízes? E os nossos impostos, carago? Está até escrito que tem de ser doutra maneira, meus ilustres. Um pouco mais, uma coisinha de nada, de fineza e pedagogia, que o pessoal agradece…

quinta-feira, 1 de março de 2007

Notas soltas



0.

Grafitado nesse baldio. Morte aos românticos. Pátria ou Morte. Viva Xô Pelada. E outras indecências. E do alto desse baldio, a cidade crescia disforme. Virando metrópole, hipérbole, coisa feia. Mas porque não cantar quão assim te desejo, como se quisesse calar o amor neste tempo? Porque adivinhar o que não se revela e ao resto navegar em busca da lua que resguardas?

1.

Por gáudio ou desgosto das senhorias, o poema anda seu caminho de vida breve e lá solfeja, como quem canta seus males no asfalto. Em si, fanando e doendo deste lado, meu bardo decadente. O poema choca a moral das burguesias. Ele assalta no meio da rua, escandaliza o sol e sodomiza a lua, santa meretriz das noites. Dos açoites, bacanais, orgias e tantas rosas. Sem pedir licenças, quanto mais mesuras, prosas e outras etiquetas. Sem causa nem propósito, pois andar nu, de rei assim de vantagem, é afago natural. Saudar a polpa das frutas e sorrir, pois serenado, às mamas das deusas. Nem gregas, nem troianas, balbuciando seu dorémi & etc…sem rimas.

2.

O poema é aquele que cabe em cada buraco do caminho. Versos em catadupa, a jorra das letras em banho de chuva. A cidade iluminada, simplesmente. Ou quando a lua é nua. De uma nudez só de desejo, assim viscosa. O poema, se medra em pedra, fonema e noutra forma de pão e vinho. De uma ceia como em sagrada mesa. Ou procissão, mas tão profana romaria de viola e sanfona, já no adro. Tudo o que bole nesta quietude é poema – côdeas de tempo, réstias aqui da tarde. O alarde e o sussurro, este quase escuro. Direi ainda o teu corpo e a sua sintaxe, as elípticas sílabas dos teus eixos. O intenso movimento no descaso das frutas. O sopro de tudo e de nada. Até eu neste ocaso…

3.

Como esconder em mim o que se sente? Paz, excitação ou poetaria, esta embriaguês de haver, ora luz e sombra, ora nó da Electra? Cotovia, medo ou bravura, esta ternura? Dançar, de total loucura, se isto fosse uma praça, onde pombos e vagabundos a deambulassem na real fome da poesia. Gritar-te musa na guarita. Olhar-te linda no fontanário liquefeito. Indagar-te apenas, cidade. Porque não te versejar com tanto alarde?

4.

Discorrer sobre as tuas lucubrações. A secção das frutas no supermercado. A gincana boa com os carrinhos do Calú & Angela. Tu és nativista, claridoso ou raio-que-o-parta, mas eu prefiro picanha ou queijo da Serra. Ou tratando-se de fruta, quero os teus lábios. Nem tudo das frutas sabe à melodia, isso sei eu. Nem todas as melopeias desenham encantos com fogueiras e desertos. E dançarinas loucas de sombras. Há toadas ali das maçãs frias, meloas que se evadem das fruteiras. Melaços de tâmaras sem viço. Mangas, mulher, que não eram flores no tempo das águas. Soube dos cajus caídos nas estradas. Do suor dos escravos da cana de Santiago e dos abacaxis perdidos no desejo. Soube, mas nem te conto, das melancias. O vermelho de negras sementes do verde cabo. Dos virgens sucos, como o frémito das ânsias. Lucubrações apenas…
5.

O poema simula uma lágrima. Ou uma gargalhada. Ou ainda uma entrevista televisiva. O poema vem no Telejornal. Mas ele não derrubou o Muro de Berlim, nem as Torres Gémeas. Leu e riu das últimas do cronista local, amigo de Pinochet, o animal que matou Victor Jara. Voltando ao paredon. Ao grafitado do baldio, para ser mais próprio. Suspendo estas notas. Estou farto dos porcos em delírio. Dos quadros em triunfo, sobretudo. E dos neoliberais ao Deus-dará. O poema abomina a pose sem élan. Fica brocha que nem discurso político. Mais luz nessa avenida. Vejo e concordo com que reza o grafitado. Arre, égua. Ali chapado em grande statement…

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Mon pays est une musique

Mário Fonseca
Foto de Mito Elias

Em Claridade



Peace and love

Perdi um grande amigo – Zeca Correia. Ele acaba de falecer em Boston, depois de uma doença prolongada. Morreu lúcido e amigo, como sempre foi. Entre muitas outras coisas, Zeca Correia foi uma figura destacada da comunidade cabo-verdiana. Fundou, com mais companheiros, o Gabinete de Produção Mediática e a Conferência Anual Amílcar Cabral e Martin Luther King Jr., e foi um dos activos no Programa Educacional Bilingue. Uma figura…esse saudoso amigo!

O paradigma de Virgínia

A América continua a dar as cartas em matéria de Direitos e Liberdades. A América profunda, naturalmente. Aquela que nos legou Thomas Jeffersson e Marin Luther King Jr., e que, ainda hoje, atribui Óscar ao senador Al Gore pela Verdade Inconveniente. Esta América dos meus filhos, do jazz e da constitucionalidade. Livre, libertária e, genuinamente, liberal. Leio que o Estado de Virgínia assume desculpas formais devido à Escravatura, o maior atentado contra os Direitos Humanos em toda a História. Assume-o com causa e consequência. Obviamente que haverá algum desconforto entre nós que ainda temos orgulho dos nossos ancestrais escravocratas e nos envergonhados daqueles escravizados. Que veneramos a parte de nós, que é europeia e branca, mas que diluímos a africanidade, a negritude que nos lateja nas veias. Mas este desconforto é uma enorme e necessária terapia. Para que sejamos integralmente nós. Para que possamos discursar no mundo e, depois disso, não se ria de nós, dessa identidade titubeante em “forma de crioulo basofo”. Não por uma questão retrospectiva, mas pela vertente prospectiva. Precisamos ter uma visão futurista da escravatura. Como fazer desse passado, de enorme tragédia humana, uma condição humanista de vida futura. Com soberania, democracia e desenvolvimento. Senão, seremos sempre pós escravizados e pós escravocratas. O prolongamento da tragédia, com o vergonhoso disfarce neo-liberal. Pois é, meus caros, temos de acompanhar (com interesse, pelo menos) o que está a acontecer em Virgínia. Nos Estados Unidos…naturalmente.

Em Claridade

Apreciei a posição do poeta Mário Fonseca sobre a questão da celebração do centenário do Movimento Claridoso. Temos de evitar a capelinha de balcanizar os grandes momentos da história de Cabo Verde. Claridade foi um momento que transcende o tempo e o lugar. Em consequência, ela deve ser celebrada por todos e em todo lugar. Em jeito de assumida provocação, já que os fantasmas deixaram de meter medo, anuncio um encontro sobre os Claridosos, no próximo ano, em Fortaleza, Brasil. A engenharia já está a ser montada. É que os nordestinos do Brasil parecem ter alguma “culpa” em tudo isso. E mesmo que não tivessem. Poderia ser em Pequim, Lisboa, Praia ou Mindelo. Consenso? Mas que palavra feia entre os homens de Cultura. Desnudemo-nos de tiques e preconceitos. Com a modernidade de Mário Fonseca. Cabo-verdiano, cidadão do mundo…

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

CASTLES DREAMS IN MY MIND


Zeca Correia em Copley Place
Foto Mito Elias
Morreu Zeca Correia e a crónica, que esta semana já havia marcado o seu caminho, resolve ser outra. Ele estava doente, muito doente, há algum tempo. Mas a forma brava e estóica como enfrentava o câncer, nos apartava, por vezes, dessa ideia da morte. Esta apanha-nos sempre de surpresa. Absortos no meio da vida. Caídos na amnésia sobre o fim das coisas. Sem condições de fazer a cerimónia do adeus. Há dias, havia mandado uma carta, doando, absurdamente, palavras. Enfim…
Fortaleza, 11 de Fevereiro de 2007

Zeca, meu bom amigo

Há momentos em que as palavras perdem significado. Elas ficam fragilizadas e debilitadas quando as circunstâncias são excessivas. Diante da grandeza da vida e do mistério da morte, as palavras ressoam pequenas, encurtadas e, se calhar, até imprudentes. Entretanto, não tenho senão palavras para te dar força neste momento de privação e de luta corajosa contra a morte. Digo luta corajosa, pois soube, pelos nossos amigos comuns, que és um homem bravo. Enfrentas tudo com fé e estoicismo, o que me dá um enorme orgulho de ti, meu amigo.

Às vezes, revejo aos detalhes os nossos momentos passados juntos. As horas de festa e como celebrávamos a vida com alegria! Quase sempre com alegria exagerada, caríssimo. O bom vinhaço, a comida pantagruélica e a excelente música. Não me esqueço de quando fomos ver juntos Dee Dee Bridgewater, Lou Rawls e Ray Charles, no Waterfront, em Bóston. Nem dos teus olhos de alegria no Newport Jazz Festival.

A tua lembrança estará sempre ligada ao momento quando te desafiei a criarmos um programa de rádio e tu logo topaste a ideia do GPM. E da primeira vez que topámos que a Ambrizeth – Babosinha, para os mais chegados – tinha uma voz de rouxinol e que poderia dar aulas de inglês no nosso programa. E eu escrevia “Factos”, pensando no teu timbre de radialista, meu amigo. Outro momento alto, fora o dia em que criámos a Conferência Amílcar Cabral, na velha casa de Lower Mills. Pelos vistos, o “petit comité” alargou-se e a Conferência está a dar os seus frutos. Grande iniciativa.

Lembro-me do carinho que devotas ao Denzel, que adorava, de fraterna amizade, o “Tio Zeca”, o mesmo carinho que eu devotava ao Nuno, recém-chegado das ilhas. Mas o melhor de ti, meu bom amigo, registei-o hà pouco tempo, e tu já entrado nessa maldita doença que nos perturba a todos, quando a minha mãe faleceu. Eu havia ido do Brasil para Cabo Verde e não é que recebo o teu telefonema, com uma lição de amor e de humildade que jamais esquecerei. Devo-te agradecer por isso. Disse-o a todo o mundo e todos, sabendo do teu quadro de saúde, passaram a te admirar muito. A superioridade das pessoas é de facto moral e o resto é história.

Vou pensando no Dylan, no Nuno e na Nadine, tua e nossa gente, por quem teremos sempre amizade e devoção. Vou pensando nos meus filhos, Denzel e Pablo (havias de conhecer o pequenote, meu velho), a matutar esta vida que deve ser vivida com grandeza moral e muito amor. Como eu receava, meu bom amigo, acabei por escrever uma série de palavras, mais de significante que de significado. A sua semântica fica “debole” diante das circunstâncias. Força, muita força. Coragem e fé. Cada dia de vida é um ganho para todos nós. O jeito é vivermos, para lá da doença e da dor. Tirar o melhor partido de cada momento. E, sobretudo, amar muito.

Pois, vem aí estes ossos para um grande abraço. Eu te amo muito, muitíssimo, meu bom amigo.

Filinto

Eagle


O Poeta e a Musa

Zero

Queimando o S/Cem Margens seus últimos cartuchos, depois do cronista ter lido a lógica daqueles que abominam que um dos tributos ao Movimento Claridoso também se faça na cidade da Praia, apesar de ser Cabo Verde, capital da Nação e terra de Jorge Barbosa, direi sem margens para dúvidas que, em certo sentido, vivemos tempos turvos e lodosos.

Um

Essa polémica, embutida de bizantinice e eivada de má fé, procura levar, mais uma vez (e não por acaso), Manuel Veiga para a fogueira de todos conhecida e que crepita para dividir o país. Curiosamente são os mesmos pirómanos que outrora dividiram o Arquipélago entre as ilhas da macaronésia e as africanas e que, há poucos dias, brindaram com júbilo ignaro e racista um estudo dito genético. O que não nos dizem certas intenções "científicas"?

Por mares nunca dantes navegados

Por razões de trabalho, estou a ler com o meu italiano aquém do básico "Navigazioni", de Luís de Cadamosto. Vou pedir apoio a Pasqualino Settebellezze, personagem bissexta das tertúlias na net, pelos vistos, um crioulo radicado na Itália. Mas voltemos a Cadamosto. Terá o navegador chegado a Cabo Verde antes de Diogo Gomes? Interessaria a Portugal dar o protagonismo dessa descoberta a um “mercador de Veneza”? De qualquer forma, a história, para lá da ciência, é escrita e interpretada ao sabor dos tempos. Outrossim, Luís de Cadamosto fora um renascentista consequente. Curioso, aventureiro e mercador, ele estava fadado a ver e a desbravar novos mundos. Obviamente que teremos de dar descontos aos olhares e aos preconceitos da época. Eram tempos eurocêntricos, com o obscurantismo adveniente disso, em que muitos descobrimentos não passaram de encobrimentos. Isso também é notório no "Navigazioni"…

Neoliberais

Não me fio nos neoliberais que se deixam dominar pelos tentáculos coloniais. O Pranchinha chama-os de deuses de esquina. Cá na minha, os neoliberais terão de ser navegadores, libertadores e libertários. E nunca “entregadores”. Do negócio e Pátria. Lá pelos fins dos 1400, um monte de moradores de Cabo Verde lançava negócios pela costa africana, à revelia das autorizações reais. Uma Carta Regia impedia aos moradores de Santiago traficar na Costa, onde o negócio era rendoso. O nome desse pessoal? Tangomanos (ou "Lançados"). Conta-nos António Carreira que "...Sobre este tipo de relapsos foi promulgada abundante legislação no sentido da sua captura, e até mandando-lhes aplicar a pena de morte, no caso de serem capturados pelas próprias autoridades africanas". Os verdianos, quais albatrozes, foram ao tempo contra o monopólio colonial... Interessante, não? Esses terríveis lançados neoliberais...mais consequentes outrora.

Dois

O cenário poderá ser de um café com letras. Ou dessas muitas livrarias, como o Paraíso de Jorge Luís Borges, onde se possa tomar um bom capuccinno. E o cronista a lembrar de ser poeta. Eu bem que queria navegar no seu mapa astral, disse o Poeta. Mas você já nele navega, respondeu a Musa…

sábado, 24 de fevereiro de 2007

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Arlequim experimental



ê di bidi dó...
ê temterem!

A Arte do Carnaval



A Arte do Carnaval

Fique bem claro que adoro o Carnaval. Não o Carnaval de pacote turístico, dos desfiles plastificados para o inglês ver, mas o autêntico, com originalidade e raça. Tão pouco me alinho nessa exploração comercial da fruição crioula, quão entraria de cabeça nessa imaginação colectiva de transfigurar o dia-a-dia. Nada de moralismos. Meus amigos, não se quedem assim puritanos e furiosos face à perda da fiscalidade do corpo. Ademais, para além da objectividade da carne, da pulsão e da cor, o corpo é uma grande subjectividade da Arte. Fique bem claro que adoro a Arte. Do Carnaval…



Bá timbora, bá timborinha…

O Mito desafia-me de novo a escrever sobre os Carnavais da cidade da Praia. Não em referencia, nem em oposição, aos Carnavais doutras paragens. Até porque Carnaval é sempre diferente em cada lugar e em cada tempo. O melhor Carnaval da minha vida não aconteceu no Rio de Janeiro. Terei largado o desfile do Sambódromo para passar o Fevereiro em São Filipe, na ilha do Fogo. O que a juventude não apronta? Naturalmente que a cidade não estava tão “modernizada” pelo actual génio autárquico, de pronto denunciada pelo meu amigo Fausto de Rosário, razão porque dava gosto acompanhar os mascarados pelo Presídio. Mas o melhor Carnaval da minha vida, passei-o de facto na cidade da Praia. O Mito de cara pintada, como um índio psicadélico. Índividuo de trinta reis, esse aí. A banda louca do Gugas Pastor, Zé Pitadinha e Sanna Pepper. O Teacher e o Eduardo Balula, meu Deus. E a malta do Plateau, ainda não tão esburacado assim, nem tão assaltado pelos “vindos do baile”, a cantar (sobre coisas que ainda hoje precisamos exorcisar): “Polísia associadu, bá timbora, bá timbora, bá timborinha"…

Bloco do Infante

De repente, desfila diante do Pranchinha a ala das caravelas. O Bloco do Infante, com marinheiros e escravos, instrumentos náuticos, coisa e tal. Do promontório de Sagres, a famosa Escola das Navegações, diz o Pranchinha que a História está mal contada. Mestre e administrador da Ordem de Cristo, para substituir a extinta Ordem dos Templários, o Infante Dom Henrique foi, de uma certa perspectiva, um génio. Ele administrou pilotos e cartógrafos, armou frotas de longo curso, obteve o senhorio das ilhas atlânticas e conduziu a expansão lusa até Serra Leoa. Pois é, a ala das caravelas. Nhaku tánbi…

Bloco de mulher pelada

Esse Carnaval de mulher pelada nada tem a ver com a democracia e a modernidade, mas sim com o turismo sexual, pois de há muito que os homens do dinheiro descobriram a mina de ouro que significa a mulher nua. A submissão da identidade em troca de euros e dólares. Importaria não apenas subverter a máscara do folião, mas esta triste realidade de crime e crueldade. Posto isto, difícil é não mirar o que passa pela avenida…

Brincadeira de Carnaval

Carnaval não é brincadeira, mas sim coisa séria. É um fenómeno social anterior à era cristã. Na antiguidade egípcia, grega e romana, as pessoas celebravam o excesso e a libertinagem, bem à maneira do Entrudo. Esse celebrar exigia máscaras e outras transfigurações sócio-culturais. Melhor que isso só a quarta-feira das Cinzas, não porque marca o arranque da Quaresma, mas porque é dia de mel e cuscuz, coco ralado e queijo de cabra, trotchida, peixe seco e legumes cozidos, xerem e axim. Uzul terra! E tudo isso…é lembrança que também guardo da minha mãe.

Love is a conical splash


Bombou na Espanha

Carnaval 2007

Bombou beleza

Carnaval 2007

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Bombou geral

Carnaval 2007

O tigre na empresa



Acompanho, fazendo o papel do Velho de Restelo, os despedimentos em massa na TACV/Cabo Verde Airlines, protagonizados pelos novos gurus da empresa, com a luz verde do Governo e com os aplausos do Banco Mundial. O propósito será nobre com certeza, pois tais reformas estruturais, além de criarem as condições atractivas para a privatização, pretendem trazer mais vantagem competitiva e agregar mais valor à empresa. Mas a questão que se coloca é a seguinte: não seria mais producente um novo «contrato moral» com os trabalhadores e com a sociedade cabo-verdiana, substituindo a administração personalizada e a filosofia da "empregabilidade" por formas mais originais de criação de valor e de lucro? Não terá sido introduzido um tigre no seio da empresa, para o já clássico estilo de downsizing? A TACV/Cabo Verde Airlines teria, neste momento, de recriar valor para a sociedade e para os seus clientes desenvolvendo novos produtos e serviços, e descobrindo formas para melhor apresentar as actuais ofertas. De resto, para se competir no mercado internacional, e no transporte aéreo especificamente, não basta essa visão unilateral e mercadológica da vantagem competitiva. Peter Drucker dizia que é o restabelecimento do capital social que recria valor competitivo e se torna o motor do crescimento para uma empresa, teoria que seria válida para a TACV/Cabo Verde Airlines a estas horas. A empresa é que deve estar no mercado e não este dentro daquela. E, outrossim, nunca deu bons resultados introduzir o tigre dentro da empresa. Sumantra Ghoshal comparara o mercado a um tigre – se o metemos no centro da filosofia interna da empresa, este acabará por devorar a organização. Uns exercícios de pensamento crítico apenas. A necessidade de haver sempre um Velho de Restelo. Nada por aí além…

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Qualquer música.1


Her Master's Choice
Mito

Qualquer música


Qualquer música

Ontem, a noite acabou em grande: com Egberto Gismonti. O Ideal Clube de Fortaleza é aquela coisa só. Nada como a boa música para nos lavar a alma. Nos bastidores, soube que o artista conhece bem a obra de Cesária Évora e as músicas de Bau. Falei também de Kim Alves, Ricardo de Deus e Vasco Martins. Da Mayra, Tcheka, Dudu Araújo e Mário Lúcio. Das coisas que eu gosto, enfim. Não quis acreditar que Horace Silver fosse crioulo e lá tive de contar as coisas. Desde a pesca da baleia. Até Moby Dick, sabiam? Ganhei três CDs do músico e cheguei a casa, eufórico a recitar Pessoa:

(…)
Qualquer música, ah qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
(…)

João Branco

Soube sim da iniciativa do João Branco de querer prestigiar o Centro Cultural do Mindelo com o nome de Orlando Pantera. Também soube da contra iniciativa e das suas razões absurdas. Mais uma perda de oportunidade para se homenagear os grandes da terra. Pantera mostrara de facto ao que vinha, para o odioso dos medíocres que não lhe perdoaram o génio, nem a raça, nem o virtuosismo…nem mesmo o sorriso.

Quanto ao bairrismo

Este país está a deixar de ser provinciano. O bairrismo de pacotilha, protagonizada por pacóvios conhecidos, tem os seus dias contados. Nenhum jovem que se preza pára os seus estudos, namoro ou gameboy para ouvir os ignaros e os atrasados da praça. Cabo Verde está no Desenvolvimento Médio. Não se riam. Arre…

Dança ma mi, criola

Eu gosto muito do Tito Paris, sobretudo da sua música, do seu sorriso e dos seus suspensórios. Adoro vê-lo a cantar Dança ma mi, criola. Um fulano nota 10. Entretanto, ele não soube levar a bom termo o quiproquó com o Ministro da Cultura e fez umas afirmações que não procedem. O orçamento do Ministério da Cultura é curto, tanto ao Norte como ao Sul. Os artistas, criadores, produtores e todos aqueles que fazem Cultura precisavam de “uma outra guerra”. Por um melhor (ou, pelo menos, maior) orçamento do MC. Pela criação do Fundo Nacional da Cultura. Pela instituição de créditos bancários. Pela efectivação da lei do Mecenato. E, acima de tudo, por mais qualidade e competitividade. É que o mercado, o verdadeiro mercado, é o mundo…

Cobrança

O amigo Dimas anda a cobrar-me mais textos poéticos. Pessoalmente, não me atrevo a entrar num onda em que o compromisso será entregar um livro por ano ao editor. Faltam-me o engenho e a arte para tal. Tenho um Mestrado para terminar, compromissos profissionais assumidos e dois filhos menores. E devo pensar em mim. Vou me amar nestes tempos, como diria Rita Lee. Ademais, tenho umas coisas escritas na alijava, mas deixo-as marinar um bocado, que é para apanharem bem o tempero e o fermento. As palavras são ingredientes com que se fazem os pratos da poesia. Perdoem-me tal metáfora, mas eu sou um gourmet antes de tudo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Valentine's Day storm

Quincy, Boston, USA

O Passargadeiro, os Blogs on the block e Saint-Valentin


O Passargadeiro

Híbrido, como naquela música de Gilberto Gil, em que o Mestre cantava (…) Micheal Jackson ainda resiste, porque, além de branco, ficou triste (…), o meu compadre se entregava ao solilóquio. Nenhuma luz, nenhuma claridade, na boca do porto. Estava mergulhado “en detrésse”, dilema de muito crioulo. Ser branco ou preto. Ser branco e preto. Ser colorido. Destoado. Monocromaticamente castanho. Magenta. Mais África ou mais Europa. Nem África, nem Europa. Outrora, mandinga, ora, judeu. Estar Macaronésio. Ou, quem sabe, Atlântico. Precisamente, Atlântico-Médio. Com NATO e tudo. Crioulo sooooooofre, porra!


Dondágu ta ziguina na lagoa

Li, no Blog Son di Santiagu, uns versos de Kaká Barbosa e o meu dia ficou mais claro. Mais luzidio. Há poetas que, mesmo coloquiais, conseguem a imagem das nossas lembranças ulteriores. Não consigo descortinar a poesia de Kaká Barbosa sem uma trilha de música ouvida no antanho. Do som. De uma sonaridade, que só a língua materna e matricial nos empresta. Chorar e rir mesmo, já dizia Jô Soares, só na língua da gente. Pena que, entre nós, falte coragem para a oficialização desta sentimentalidade. Que pacóvios! Dondágu ta ziguina na lagoa…que lindos versos!


Debate blogueiro


Às tantas, no debate blogueiro, alguém conhecido pelas intransigências bairristas, fica fiteiro e tomado de nove horas quando se fala contra as hegemonias. Fazer o quê? Isto faz lembrar aquela velha anedota: "O leão, rei dos animais, juntou toda a bicharada e anunciou: - Iremos exterminar os animais que tenham boca grande!- Coitadinho do crocodilo! - comentou o hipopótamo, entrementes".

Saint-Valentin

No Blog, do jornal Le Monde, minha leitura obrigatória, um homem declarou-se assim: Ma princesse, mon amour, mon tout, mon autre moi-même, je t´aime. Tudo dito…

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem
os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos
germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Anderson

Solidariedade


Hediondo


O crime hediondo


Acompanhei, pela imprensa nacional e internacional, o caso das italianas assassinadas, na ilha do Sal. Achei correcta a atitude do Governo de Cabo Verde em se posicionar prontamente contra esse crime hediondo, a provocar em todos nós repúdio, revolta e vergonha. Igualmente terá sido oportuna a visita imediata de Victor Fidalgo, Presidente da CVInvestimentos, à Ilha do Sal, para ajudar à análise que a situação impõe. Entretanto, a questão exigiria sociólogos, psicólogos e outros cientistas sociais para um estudo mais complexo e multi-disciplinar de um problema que já se emaranhou na sociedade. Sem pretender estragar o negócio de milhões de euros, mas, pelo contrário, requalificar esse potencial que empresta competitividade ao País, ouso admitir que há coisas, muitas coisas, a serem harmonizadas. Não pode é faltar coragem para tomar as medidas necessárias, a vários níveis, depois (repito) de um estudo sério e crítico. O diagnóstico do impacto social da indústria que vai repondo Cabo Verde no circuito internacional…


Terra de sol, praia e não só


Há muito tempo, lendo um folheto sobre o turismo cabo-verdiano, reparei que, para além do apelo ao sol e praia, o mesmo alegava implicitamente ao turismo sexual. Havia uma menininha, com olhos de quem convida, a exibir seios e nádegas provocantemente bonitos, logo ali no frontispício. “Venha visitar Cabo Verde”, dizia o dístico. A mensagem ali estava mais no não-dito do que no dito e era extremamente preocupante. Esse simples e ensolarado folheto era uma espécie de bomba-relógio, isto é, algo com hora marcada para explodir. Igualmente, um jornalista escrevia sobre o Site Electrónico que convidava estrangeiros a conhecerem Cabo Verde e a “conectarem” com rapazes e raparigas “disponíveis”. O mesmo alertava “Da non perdere assolutamente qualche serata in discoteca per scoprire la sensualita' dei balli capoverdiani”. Em verdade, o “perigo” de há muito que já estava instalado. Se o turismo tem as suas vantagens, ele terá com certeza a sua parte perversa. Hedionda mesmo. Recentemente terá havido um assalto à mão armada a um hotelzinho, silenciado para “não espantar a caça”. Outro jornalista terá sido censurado (sem aspas), pois a ninguém interessava “levantar tal poeira”. Que turismo? A de massa? A do inclusive tour? A da prostituição? Da pedofilia e da droga? E da violência? Temos de pensá-lo criticamente. Haverá gente a esquecer – tanta é euforia do negócio ora instalado – que na face invisível do iceberg reside a maior parte do problema. Tempo, se calhar, para repensarmos o tipo de turismo predatório que sub-repticiamente nos foi imposto pela dinâmica do mercado at-large. O questionamento da nossa clara opção entre sermos objectos ou sujeitos do turismo, que não deixa de ser uma das grandes fontes de receita do País. Vamos, sim, a tempo de escrutinar as coisas e de colocar alguma serenidade numa indústria que, se não controlada, os seus ganhos nunca seriam bem lucros. Pelo menos, para a nossa sociedade…


Pura náusea


Humanamente, o crime ocorrido no Sal dá náusea. A sociedade não pode ser uma espécie de “cria corvos”, incapaz de educar bem os seus jovens e de não os reprimir exemplarmente em casos de lesa dignidade humana. Deixemo-nos de complacências. E muito menos de pretensas histórias passionais a relativizar esse crime. O lugar dos assassinos será, no mínimo, a prisão pesada e longa. Perdoem-me a impiedade, mas estes jovens não passam de monstros a consumir o ar que respiramos. Não representam de modo algum a forma de ser e de estar dos cabo-verdianos. E temos de ter a capacidade e a coragem de os escorraçar. Com ou sem turismo, há gente que nos envergonha e que perfeitamente não deveria existir no meio de nós. Eles não fazem falta. Antes pelo contrário: estão cá a mais…

Com Linda Rondstad


sábado, 10 de fevereiro de 2007

Songs of the Badius


Estou a escrever, a pedido do Mito, um artigo sobre Carlos Alberto (Catcháss) Martins, um dos mais importantes activistas, compositores e intérpretes da música popular cabo-verdiana. Passados muitos anos sobre o seu desaparecimento, ainda hoje Catcháss é relembrado pela sua postura de levar a música do interior da Ilha de Santiago aos centros urbanos de Cabo Verde e do mundo. De repente, os citadinos começam a ouvir e a cultivar o Funaná, o Finaçon e o Batuque. E a apreciar também a Morna e a Coladeira, de uma outra toada. Os arranjos já são mais complexos (com importações do Rock, do Blues e do Jazz) e as notas entram em dissonância (a lembrar os desvios do Samba e da Salsa), tudo, tudo, tudo para revelar a alma de uma parte “silenciada” de Cabo Verde. Agora, lembrei-me do documentário Songs of the Badius, do antropólogo americano Gei Zantzinger . Por isso, a mergulhar na obra de Catcháss, diria que também “ami n teni febri di funaná”…

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Ah, Catcháss




Guernica

Pablo Picasso

Sirê

Pastor di Kabra dedu bedju
Nariz di sonbra koku matxu
Kanela sima Saitu Lugar

Kô da-m ku lumi mufinesa
Bida, bida, kô pokenta-m
Kô da-m transtornu na nha bida
Ferver di korpu ka ta kenta-m
Da otu boita na bu bida

Ingratu e ka sô mi
Kalor di korpu N ten tanbé
Tenperatura sta normal
Normal, normal... normal

Buru e sima Nhu Ntoni
Ta kunpra boi ta bendi baka
Ku papelon pa ser jornal
Ta lenbi dedu sô si sirê

Sirê e sabi e sabi
E sabi e sabi
Nhu Ntoni
Sirê e sabi e sabi


(de Orlando Pantera)

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Orlando Pantera
(Foto: Djinho Barbosa)

Guernicada


Boca no Trombone


Na sua origem, a palavra crónica seria “pôr em ordem cronológica”, ou seja, narrar em ordem do tempo. Heródoto fora um exímio cronista, Pêro Vaz de Caminha do se plantado dá, disse tudo. Machado de Assis e Eugénio Tavares, que “bárbaros”. Dos modernos, leio Woody Allen, Luís Fernando Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro. Todos “sinistros”. Entre nós, salvando todas as distancias, Fátima Bettencourt fazia umas notas memoráveis. Mesmo no jornal Horizonte, Manuel Delgado era a marca registada. E eu (Cadê você? Eu vim aqui só para te ver), com o S/Cem Margens, vou botando a boca no trombone. A escrever tudo o que agita a minha mente. De A a Z. De Aterro Sanitário a ZDTI. Passando, naturalmente, pelo G do Gado e mais não digo deste thesaurus. A escrita como respiradouro. Oxigenação necessária. Quando não escrevo, vou à orla do mar e respiro o Atlântico. Uma snifada consequente da maresia. Consolidando amigos e inimigos. Felizmente menos estes do que aqueles. Deus tem…

Crónica

Escrever crónicas é também meditar. Entre a utilidade e a futilidade, em textos que me premeditam e os que me acontecem, vou sendo aprendiz da escrita. Ajoelho-me apenas diante do Verbo, que soubera como génese de tudo. Não me ajoelho diante dos altares, nem face aos venerandos. Curvo-me perante o pôr-do-sol, dou palmas às ondas furibundas e choro de certos luares. Quando estou apaixonado. Sou volúvel face ao Belo. Uma sinfonia invade a fímbria dos meus nervos e mexe comigo cá dentro. E como mexe. Cada pedaço do meu ser ama. Mas não rezo. Nunca em prece. Medito apenas…

O real imaginário

Observar dentro do real todas as possibilidades do fantástico. Conciliar um ao outro é o que tento fazer com o S/Cem Margens. Tentar corresponder ao interesse dos leitores, mas sem grandes concessões. De repente, não farei do Pranchinha um simples pagador do IVA, sem que arranje aquele trinta-e-um sobre a oficialização do Crioulo. Afinal, a vida nasceu ou não, Mário Fonseca? Ou, então, lá porque o Pranchinha, nas suas fraquezas, grama as crónicas de Fátima (a Havardiana), não o alinho aos estudos estratégicos tropicalientes, essa espécie de “único impossível”. Às vezes, é um deus-nos-acuda encontrar realidades, assim com aqueles toques fantasmagóricos de além-mar. A estabilidade do euro, por exemplo, é uma realidade excessiva. Já a paridade do escudo, esse parlapiê da convertibilidade & etc, nos garante uma grande ficção. O sermos periferia europeia ou, no mínimo adjacente, também dava uma crónica louca. Os deslizes do dólar, outro exemplo surrealista, podem induzir a Bagdade em turbulência. A CNN que o diga…

Ressalva

Perdoem-me por esta fase egocêntrica. Deve ser da solidão. Estou a me recompor. O meu psicólogo diz que passa. Se até enxaqueca passa, remata o virtuoso. É uma nuvenzinha passageira isto de se estar em torno ao próprio umbigo, falando ininterruptamente das coisas que nos apanham pela rama. Da próxima vez, hei-de pintar um quadro, já que criar um monumento, mesmo sem ganhar algum, pode bulir com a desordem dos arquitectos. Ou a brocha de certo jornalismo. Uma tela chifruda no visual dos deuses pequenos. Uma “guernicada”, como diria o Pranchinha, exilado nesse além, mas quando aquém, um abusado de primeira apanha. Mas, hoje é dia da caça, amanhã do caçador. Hasta…

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Babel

Rosas, rosas e lírios também

O meu filho Denzel faz quinze anos, no Dia de Iemanjá. Freud explicará porque me recordo de Fernando Pessoa, com o aproximar do dia 2 de Fevereiro. Dai-me rosas, rosas e lírios também…

O jornal

Habituamo-nos tanto a esta coluna que custa viver sem ele. Pieguices e resmunguices à parte, mas não é fácil deixar o S/Cem Margens. Tantos amigos e inimigos de estimação. Alguns leitores fidelizados, a cada semana. Alexandre, o Editor, na sua cobrança de fecho de edição. A teimosia de ficar e o Estado na teimosia de sair. Estamos em contagem decrescente, diz-me uma fonte bem informada. Haverá de nascer qualquer coisa. Se eu entrar nessa, será com outra coluna, outro nome, nova linha. O S/Cem Margens fica no horizonte. Terá sido eterno enquanto durou. Como a chama do amor, aliás. Grande Vinicius…

O insólito dos dias


Há dias que em não estamos épicos. Nem patriotas. Dias em que as vacas atravessam a avenida e tocam a comer as flores do nosso jardim. Dias abastardados, caramba. Já alguém dizia que morávamos em BRV – Bairro Rico com Vacas –, reduto da elite divina. Tomado de neurastenia, o Poeta dedicara seus últimos versos ao insólito dos dias: ó urbe bovina, anestesia local. A manada nunca entendeu a fímbria de tal metáfora, naturalmente…

Babel

Tenho pena da minha amiga Babel (nome escolhido aleatoriamente, para despistar a burguesia) que se ufana de não saber crioulo e que se enche das suas reminiscências inglesas, sugerindo (não se riam) ter nas veias sangue azul. Babel também é imperiosa nos seus tiques. Quer ser capital de alguma coisa. Da cultura, à falta de outra loiça. Faz lobby disfarçado, entra sorrateiramente pela malha das coisas e faz das suas. Com humor e morabeza. Babel é fogo…

Exegese

Temos sido uma geração heróica. Por isso, mesmo quando encalham as coisas, estou contigo. És bravo e perspicaz, és mesmo dos meus. Lembro-me dos teus versos ainda indecisos. Chamaste a reunião de exegese da novíssima literatura. Éramos apenas estudantes do Liceu Domingos Ramos. Disseste que continuo com este olhar subversivo. E agora, José?

Voto

O meu voto, singelo mas sincero, para que saibamos sempre resgatar, preservar e desenvolver o tesouro inalienável desta nossa gente – a sua língua, as suas tradições e a sua arte. O imperativo ético de tais valores transcende quaisquer ímpetos. Babel que me perdoe…

sábado, 27 de janeiro de 2007

Retomando as actividades



1.
Regresso a Fortaleza. O primeiro impacto de uma vida a só. Mais silenciosa. Todavia, mais necessária nesta fase. Revejo todas as minhas notas sobre Jaime Figueiredo. E acrescento umas linhas no texto da conferência que irei proferir em Abril de 2007. Entusiasma-me participar da Conferencia Internacional sobre o Centenário da Primeira Geração dos Claridosos, organizada pelo Ministério da Cultura.

2.
Igualmente, revejo a minha colaboração para uma revista que sairá em breve. Antes, era um número especial da Folha Sopinha de Alfabeto, de Artes e Letras, um periódico de vida breve, mas que lançou poetas importantes da minha geração. Agora, Mito, que adora inovar, transmigra o projecto para uma coisa diferente. Em verdade, já não faria sentido o 20º aniversário do lançamento do 1º número da “folhinha”. Por conseguinte, não me é difícil convencer Chissana “Kamia” Magalhães, Margarida Fontes, Dimas Macedo e Jorge Marmelo, estes, consagradíssimos, e aquelas, excelentes revelações, sobre a transferência dos seus textos para a revista que ora se inaugura.

3.
Durante a manhã, participo de uma reunião na Universidade de Fortaleza. O processo selectivo para Cabo Verde ganha novo fôlego. Torna-se necessária a criação de um ponto focal permanente nas ilhas. Sugiro o nome de uma candidata, a mesma já apresentada há muito tempo. O perfil é de gente com elevada cultura e capacidade de relacionamento social. Os dados foram novamente lançados. Fala-se sobre a necessidade de aprimorar os circuitos. A ninguém abona a imagem de estudantes à porta dos Consulados a “mendigarem” vistos. O processo deve ser tranquilo e com classe. Sem grunhidos…

4.
Tenho saudades de Cabo Verde. Sou um excelente viajante, mas um péssimo exilado. E, na marginal, os coqueiros balançam à breve brisa. Quanta beleza...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

A Flauta Mágica


Notícias de Fortaleza Bela

De Fortaleza, onde estudo, as notícias não poderiam ser mais interessantes. O meu amigo Lira informa-me dos grandes avanços na política e na postura municipais. A nova Lei Orgânica Municipal já permite que 5% dos eleitores do município (cerca de 71 mil pessoas) se unam em abaixo-assinados para propor à Câmara Municipal projectos de lei ou suspender o cumprimento de leis já em vigor. O munícipe ganhou espaços para debater e decidir os rumos de sua própria cidade. Como diz aquele luminoso que vejo do alto do 10º andar: É você, construindo a Fortaleza Bela.

Instituto Pedagógico Hermínia Cardoso

O Instituto Pedagógico, na Achada de Santo António, será baptizado com o nome de Hermínia Cardoso (Dona Mindoca), professora primária e da Escola do Ministério Primário, onde exerceu as funções de Directora. Dona Mindoca também foi inspectora escolar do Ministério da Educação e activista de muitas causas educativas, culturais e sociais. A sua maior virtude era a paixão. Isso também configurava seu defeito. Amava tudo com paixão – o país, a ilha, a cidade, a família, a educação, a natureza, a música e a poesia –, como uma Passionária. Aproveito esta oportunidade, não apenas porque noblesse oblige, mas para, em toda a consequência, agradecer ao Governo de Cabo Verde pelo reconhecimento que faz à memória da minha mãe. Pessoalmente, reconforta-me mostrar ao Denzel e ao Pablo, meus pássaros, essa bela escola onde se formam os professores primários, afinal os que esboçam e modelam o pensamento de gerações e gerações…

Praia – a cidade que nos une

Falando permanente e criticamente com o edil praiense, Felisberto Vieira, que prepara a cidade para fazer 150 anos, ponderámos alguns aspectos que carecem de mudança radical. Não basta a melhoria da recolha e tratamento do lixo, nem satisfaz a alma apenas a repavimentação mista do Plateau e a transformação da Rua 5 de Julho numa artéria pedonal e passeio público. A Praia, dos 150 anos, precisa, para além da segurança pública, o respeito absoluto pelo munícipe e pela lei, a modernização, a reabilitação e o rejuvenescimento da cidade. Outrossim, a simplificação dos serviços, agilizando os procedimentos municipais, é um imperativo. O desafio maior é fazer com que a democracia participativa funcione. É tudo (e todos) a trabalhar pela cidade que nos une. Isto será História. E o resto apenas estória…

Amadeus

Uma cidade que se preze, quando faz anos fechados, deve comemorá-los em Honra Grande. Aqui, do sonho que pode virar realidade, condecoraria Nelson Mandela. Dava-lhe a chave de ouro da nossa cidade. Homenagear um grande nome da Cultura mundial. Que tal a capital do país da música homenagear, por exemplo, Amadeus Wolfgand Mozart, uma figura universal e eterna? Parece não existir uma única cidade de bom porte, um único teatro, uma única sala de concerto, que não inclua Mozart na programação. Os 150 anos da cidade da Praia conjugam-se com os 252 anos de Amadeus Wolfgand Mozart, ícone máximo de um país – a Áustria – que tanto ajuda Cabo Verde. Ocasião magna e simbólica para geminar Praia a Viena e a Salzburgo. Como seria transcendental termos a Filarmónica de Viena, a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Orquestra da Gulbenkian, a homenagear Mozart! Para quem considere isso apenas sonho – sobretudo aquele de misturar as nossas melhores intérpretes com Placido Domingo ou algo parecido –, a realidade exige de nós, na Hora Grande, que a Praia seja uma cidade realmente competitiva. Para isso, as iniciativas têm de ter A Flauta Mágica…

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

O que nada “separa” e outros apartes




O que nada “separa”

Uma notícia de jornal estampa a manchete “Genética ‘separa’ Barlavento e Sotavento”. O trabalho, coordenado por Hélder Spínola, do Laboratório de Genética Populacional da Universidade da Madeira, Portugal., investigou a composição genética de 120 pessoas do Barlavento e Sotavento. O mesmo confirmou o que sabíamos, ou seja que os de Barlavento têm mais haplotipos comuns a Portugal do que os de Sotavento. Esta pequena diferença natural terá a ver com as diferenças históricas de povoamento entre os dois grupos de ilhas. Digo “pequena diferença”, que de forma alguma separaria isto com aquilo, já que todos os estudos sobre as impressões genéticas vêm demonstrando que a variação no interior dos chamados grupos étnicos e outros é infinitamente maior do que a variação entre esses próprios grupos. O estudo, que tem aval científico e beneplácito das autoridades nossas, representaria um contributo para o estudo das doenças dos povos de expressão portuguesa e os dados permitirão descortinar a relação entre a genética da população e várias doenças. Eu nunca acreditei no “Bell Curve”…e o leitor?

Com ciência e consciência

Não é que se queira perder tempo com os reaccionários locais – até porque estes são mais mentecaptos e menos dignos de atenção do que o genérico dos reaccionários –, mas apetece perguntar o que explicaria uma certa visão filogenética de Cabo Verde? Remeto-lhes à leitura da vasta obra do geneticista italiano Luici Cavalli-Sforza que construiu uma colecção de ADN de populações das mais diversas partes do mundo para a realização de estudos comparativos sobre variabilidade genética. A sua obra desmotiva a qualquer interpretação etnocêntrica do processo genético e desmente o subjectivismo da supremacia racial. Ademais, a grande confirmação científica do Projecto Genoma Humano é que o homem surgiu realmente na África e se espalhou pelo resto do planeta. Enfim, é preciso colocar nas meras notícias dos jornais alguma ciência e muita consciência das coisas…

Out of Africa

Sobre a problemática genética, creio ser interessante a posição de Sérgio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e titular da Academia Brasileira de Ciências. Para este ilustre professor o negro tem pele escura porque a sua região de origem tem um sol muito forte. A pele protege-se com a cor escura. Quando os nossos antepassados africanos migraram para a Europa, a pele foi clareando progressivamente para poder absorver uma quantidade maior de raios mais fracos, sem os quais não poderiam sintetizar a vitamina D. Sem essa vitamina, o ser humano ficaria raquítico. É só observar as populações da Europa hoje. Na região do Mediterrâneo, há pessoas com pele mais escura do que na Suécia. São adaptações puramente geográficas. Como os árabes e os judeus, que têm geralmente um nariz grande, necessário para humidificar o ar seco que respiram nos desertos. Então, o que percebemos como diferenças raciais são na verdade adaptações geográficas. Originalmente, o ser humano é um só. Hoje, já há um consenso de que todos os humanos possuem a mesma origem. É a chamada teoria "Out of Africa (saído da África) ": todos viemos de um antepassado africano.

Tatarana

Jorge Marmelo, escritor da melhor verve, escreve assim, no seu Blog:

(…) Se na estepe, ao longe, não me vês ainda – estou a chegar. Sigo diante dos leões e das impalas, das palancas e dos bisontes, das zebras e dos leopardos; vou à cabeça da caravana dos animais que hão-de ir ajoelhar-se à tua volta, senhora nossa, deusa deste chão. Levamos uma nuvem de pó no nosso encalço – hás-de avistá-la ao longe, é a flâmula que por ti erguemos com o vigor dos nossos pés. Levo as pinturas de guerra no corpo nu, a lança de caçar os pequenos roedores do deserto e o colar de contas que não me deste ainda. Espera. Sou teu (…)

A cerimónia do adeus

Não falemos das grandes coisas por uns instantes. Até porque há coisas tão profundas que não têm de ser necessariamente grandes. Falemos antes das circunstâncias que nos dilaceram a alma. A profunda e amarga desilusão perante as coisas. Mas eu sou um Albatroz e não ficarei preso aos grilhões dos navios. Que estranha sina me trespassa? Despeço-me, não sem muita tristeza, dos dias que foram inesquecíveis. É que as despedidas não deviam ser dolorosas (com sonoro bater de porta), mas são...




quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

A passear


Ando pela cidade. Isto aqui é passeio público. Antigamente, era a Praça Grande. Agora é de novo Alexandre Albuquerque. Sem Esplanada da Praça 12 de Setembro, a do poema de Arménio Vieira.

Ando pela cidade. A tarde entra com dignidade. Um telefonema exige-me explicações sobre o Como um Serafim: “Deixa-me em paz”. Já nem tenho idade para ofender alguém.

Ando pela cidade. Entro no Supermercado Fenícia e apanho cogumelos, alcachofras e berbigão. Farei hoje um arroz malandro. Com muito coentro. Quando a lua regressar ao pensamento. A minha irmã Benilde faz anos.

Ando pela cidade. Penso no Denzel e no Pablo. Estes bastam-me. E tenho a produção de filhos fechada. Regresso a casa…

Entro a digitar neste computador. Agora, escuto Andrea Boccelli.

Hoje, estou meio a passear. Sem inspiração…naturalmente.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Como um serafim






"Estou-me a vir/Estou-me a vir/
E tu como é que te tens por dentro?
/Porquê não te vens também?"
(trecho de "Porquê", de Caetano Veloso)





Mote

Não sei dizer o que sinto, mas gosto de percorrer a minha cidade de carro, à meia-noite. A cidade tão-somente, um tanto dormida, entregue aos noctívagos. A frieza da orla. A mucosa maluca da maresia. Prostitutas e bandidos. Polícias e ladrões. Menores e pedófilos. Boémios e desalojados. A falsa quietude da noite. A cidade encanta-me. Excita-me. “E tu como é que te tens por dentro? / Porquê não te vens também?". E, em assaz diapasão, não irei pôr nenhuma vírgula a mais diante desta realidade que falseia. Tendes, Senhor, tal certeza…


Pranchinha em pessoa

O ano começa e é forçoso que vos diga quem sou e ao que venho. Sou poeta. A poesia, que não outra virtude, me salva do infinito. E da arrogância da eternidade. Venho ora cantar-vos (ou seria apenas contar-vos?) das coisas do Pranchinha, essa personagem que me acompanha e que, em desavindas estações, me complica a vida. Rebelde, pelos arrabaldes, ele é o Pranchinha. Eu sou mediano, cidadão como os demais, submetido ao IVA. E à missa profanada dos nossos deuses pequenos. Mas esse aí é um imponderável em pessoa. Pranchinha, minha chuva mais oblíqua…

Frágil

Eu seria frágil. Fragilíssimo. Preso por um fio. Tanto que carregaria nos lábios o balbuciar dos versos de João Cabral de Melo Neto. Num fim de tarde roxa, a rola e o rouxinol voaram no improvável. E terei ido ao teu enterro para morrer também e ali recitaria (sem alarde): A solução é apressar a morte a que se decida. Entrementes, escrevo não para te dizer que o luar é belo, mas porque a minha solidão é desmedida. Como um peregrino do nada. Com esta vastíssima fragilidade…

Que nem um serafim

E a vida continuada…vem ali o garoto – assumidamente testosterona – marcar a sina do macho que se resguarda. Sem machismos. Como um serafim, ele deambula pelo elixir do teu encontro. Não pelo vinho, que é da melhor colheita, mas pelo teu olhar de alba e teu perfume de âmbar. Nas madrugadas híbridas, sobretudo. Nem pelas musas maduras que o vêem a vir e a cruzar o pátio art-deco, mas pela tua alegria que vê quem chega. Tão pouco ele permanece à varanda rente ao mar e desencadeia a cornucópia da tua temperada carne. Ele é vinagre balsâmico, azeite mais virgem e coentros bem frescos. Ou a música que se evade da vizinhança e invade ao sono és tu, nas lembranças dramáticas. Se dependesse de mim, que nem um querubim, isto seria flor e fruta. E esta permanente semântica da fome. Ou da sede…

Remate final

Não fossem por estes afoitos de intertexto que, vez por ora, me apanham, terminaria isto assim à maneira de Pêro Vaz de Caminha, uma das mais poéticas crónicas que já li, rezando que (…) tereis, Senhor, ao menos a certeza/ que nada se afeia nem alinda. / E se não sei dizer o que senti/ não haja aqui de pôr mais do que vi (…). E mais nada…

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Para ganhar um Ano-Novo




Mote


O tempo, como um camaleão, deixa-se mudar de ano. É um São Silvestre felliniano em toda a linha. O novo-riquismo celebra-o, com manifesta mediocridade, à beira de uma grande piscina. Quem lá esteve, adorou: muuuuuuita bebida, farnel à rica e música pimba. Mas chamemo-lo de Reveillon, não vá alguém ficar zangado logo com o Ano a começar. Bom mesmo é ficar, no aconchego de gente próxima e amiga. E de repente, estava uma lua esplêndida. E aquém desse luar alguns caminhos bifurcavam-se. Nesse jardim, naturalmente. Bem à maneira do conto de Jorge Luís Borges. Chega-se à janela e a cidade não perde a sua índole. Boas Festas, ó cidade.


Ano Novo, vida nova

Chegando o Ano Novo, somos levados a reflexões. Matutar sobre quem fomos e o que fizemos no malogrado 2006. Magicar sobre os caminhos a andar nos próximos 12 meses. Essas coisas meio confessionais e pirosas, mas que fazem parte do protocolo de existir. Rever o Blog, por exemplo. E pensar seriamente em acabar com o Albatrozberdiano. Chissana, caríssima amiga, dá sim vontade real de apagar o Blog. O bacalhau no forno, o peru e a champanhe que ficou na saudade. Os disparates da noite de SãoSilvestre que, noutros anos, incluiu um mergulho na Quebra Canela àmeia-noite. A filosofia barata perante mais esta página virada, de novo a esperança no amanhã. Para não falar de hilariantes resoluções: parar de escrever poemas, começar a correr pela Marginal; detestar o enforcamento de alguém, trabalhar menos; deixar as bebidas brancas, ter mais compromisso com esta cidade; gastar menos e poupar mais... E outros abalos continuados de emoção. A hora H de gente que reza, gente que chora, gente que se abraça…

And the winners are...

Os jornais locais – paradoxalmente na divisa da água – elegeram na derradeira semana as Personalidades e os Factos do Ano. O poder do discurso, uma vez mais, é o discurso do poder. Ou de poderes. De governar. E de desgovernar. Mas há uma verdade que emerge: os escolhidos (gentes efactos) são os destacáveis num ano aziago e para esquecer. Ser o melhor, num ano medíocre, realmente não é uma das melhores compensações. Ainda bem que chega o 2007. Espera-se que este venha sem militares, nem clandestinos estrangeiros…pelos mares.

Esse Drummond!

Não perderemos de vista o belo texto de Carlos Drummond de Andrade, que reza deste modo: "Para ganhar um Ano-Novo que mereça este nome,você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo. Eu sei que nãoé fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que oAno-Novo cochila e espera desde sempre". Drummond sabia das coisas. Isso nem o Pranchinha contesta…

Grand Finale

Aqui ficam estas primeiras linhas de 2007. O subentendido fica impregnado no desejo (quando não matizado, qual plástico aderente) dos leitores. Já vamos com sorte. Podermos já dar Boas Entradas a todos é já uma coisa…