domingo, 4 de março de 2007

Jaime de Figueiredo – esse cometa literário



Ao Francisco Fragoso, com admiração


1.
Conheci Jaime de Figueiredo, nos seus últimos dias. Era amigo do meu pai e, nessa condição, frequentava a nossa casa, na rua do Hospital. Lembro-me que batia à porta com sofreguidão, gritava da rua pelo “Senhor Correia e Silva” e levava sempre uma revista ou um livro na mão. E o meu pai explicava-me que aquele era homem de muitos livros, director da Biblioteca Municipal da Praia e correspondente do poeta José Régio.

2.
Num dia de chuva, pouco depois da morte de Jaime de Figueiredo, apupado por imbecis locais que se diziam revolucionários, a minha mãe me lera uns versos de Régio.

(…)
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
(…)


3.
O cometa literário, que Manuel Lopes chamara de “imaginário”, mas que os dados provam ser real, esboçou a criação de uma revista de letras, desde 1931, na cidade da Praia. Ao grupo conhecido por Atlanta, alinhava-se, além de Jaime de Figueiredo, os escritores Jorge Barbosa, Henrique Torres, e José Lopes. O ideário aproximava-se dos modernistas portugueses, em torno da Revista Presença, fundada em 1927, na qual Jaime de Figueiredo era colaborador e alinhado. Este chegou mesmo a ventilar, nas várias tertúlias realizadas, a criação de uma revista de letras avessa ao artificialismo e ao academismo, então prevalecente em Cabo Verde.

4.
Quem por aí não ia era Jaime de Figueiredo, avesso à mediocridade local, que não poupava nem o Governo da Província, nem a edilidade da capital. Nos anos trinta, ele fundara na cidade da Praia, o hábito das tertúlias. Em 1935, chegou a São Vicente com a proposta de uma nova revista, de nome Atlanta. Para Manuel Lopes, a proposta era uma bandeira sem mastro, desgarrada da realidade. Será? É o que importa investigar. Agora ficou patente que a dissidência de Jaime de Figueiredo não terá sido tanto por causa do nome que quis impor ao grupo dos claridosos. Há questões de fundo que reclamam vir à tona da água. Segundo Jaime de Figueredo, no prefácio da Antologia dos Modernos Poetas Cabo-verdianos, a influência estética do grupo Atlanta, sintonizada com a doutrinação da ‘presença’, veio resultar, mais tarde, na criação do grupo e da fundação da revista Claridade.

5.
Com a realização do Seminário Internacional sobre os Claridosos, certame que se quer marcante, esclarecedor e acima das capelinhas provinciais, será mister pegar nas notas, entrevistar pessoas e reler os livros de e sobre a Claridade. Recentemente, uma polémica não conseguiu ser interessante sobre a problemática, na medida em que ficou pela superficialidade e pelo circunstancialismo, quando a questão de fundo ficou relegada ao silêncio.

6.
(…)
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
(…)




Tributo a Paulo Freyre




sábado, 3 de março de 2007

Para lamentar



Que os deputados da oposição queiram questionar e mesmo denunciar o que vai mal na administração, acho bom, higiénico e saudável. Os deputados da situação, em vez de jogarem à defesa, devem ir ao ataque também, criticando o que não está conforme. Afinal, a administração é um corpo institucionalmente próprio e tanto a governação, como a oposição, têm de lhe prestar cuidados especiais. Outrora, agora e sempre. Que não haja veleidade de não acharem coisas escusas e obscuras, meus ilustres. Isso, nem na Finlândia e na Noruega, onde a cultura pública se sublima. Ou mesmo na Singapura, onde há chicotadas e penas de morte na praça. Ou ainda naquele califado, onde o comensal está reservado ao califa e o resto a embriagar-se nas Mil e Uma Noites. Em Cabo Verde, Portugal, América e resto do mundo, é o que se sabe. Basta acompanhar a imprensa, meus ilustres. Mas o debate parlamentar precisava de mais fineza e pedagogia. Provas a dar credibilidade às suspeitas. Sem complacências, entretanto. Toda a administração, por mais moderna e reformada que esteja, tem os seus mandos e desmandos. A proximidade dos amigalhaços, as dívidas e os défices, a contabilidade a meter água, as derrapagens e os desvios. Há contas dos anos noventa por fechar, imaginem. Houve até aquele descaramento da classe empresarial próxima ao partido, coisa brava. Isso, para não falarmos do faroeste da gestão pública e das privatizações danosas numas ilhas, ditas hesperitanas. Tudo isso existe na administração, com mais ou menos requinte. O que diferencia é a governação em sentido amplo (para lá do Governo), o arquétipo político da coisa. A engrenagem do controle e da transparência. O Tribunal de Contas a fazer as contas e a exercer autoridade judicial. A Procuradoria a dar provimento e execução. O Parlamento a questionar e a inquirir. O Governo a nortear, a despachar e a auditar. E a cultura da coisa pública, com rigor e intransigência. A ética weberiana sobre a res publica, com o cidadão consciente (e sem medo) do seu papel. Agora o que está também mal, mesmo mal, malíssimo da silva, é a forma como os nossos parlamentares cortam as mãos, tendo a faca e o queijo. Não é que se queira um Parlamento cheio de mesuras, ademanes e salamaleques, mas assim, de faca amolada, não dá. Aqui, os mortais e contribuintes, queríamos que isso não fosse tanto o feudo dos imunes e dos impunes da democracia, a destilarem maus fígados e más palavras. E quem haverá de julgar os juízes? E os nossos impostos, carago? Está até escrito que tem de ser doutra maneira, meus ilustres. Um pouco mais, uma coisinha de nada, de fineza e pedagogia, que o pessoal agradece…

quinta-feira, 1 de março de 2007

Notas soltas



0.

Grafitado nesse baldio. Morte aos românticos. Pátria ou Morte. Viva Xô Pelada. E outras indecências. E do alto desse baldio, a cidade crescia disforme. Virando metrópole, hipérbole, coisa feia. Mas porque não cantar quão assim te desejo, como se quisesse calar o amor neste tempo? Porque adivinhar o que não se revela e ao resto navegar em busca da lua que resguardas?

1.

Por gáudio ou desgosto das senhorias, o poema anda seu caminho de vida breve e lá solfeja, como quem canta seus males no asfalto. Em si, fanando e doendo deste lado, meu bardo decadente. O poema choca a moral das burguesias. Ele assalta no meio da rua, escandaliza o sol e sodomiza a lua, santa meretriz das noites. Dos açoites, bacanais, orgias e tantas rosas. Sem pedir licenças, quanto mais mesuras, prosas e outras etiquetas. Sem causa nem propósito, pois andar nu, de rei assim de vantagem, é afago natural. Saudar a polpa das frutas e sorrir, pois serenado, às mamas das deusas. Nem gregas, nem troianas, balbuciando seu dorémi & etc…sem rimas.

2.

O poema é aquele que cabe em cada buraco do caminho. Versos em catadupa, a jorra das letras em banho de chuva. A cidade iluminada, simplesmente. Ou quando a lua é nua. De uma nudez só de desejo, assim viscosa. O poema, se medra em pedra, fonema e noutra forma de pão e vinho. De uma ceia como em sagrada mesa. Ou procissão, mas tão profana romaria de viola e sanfona, já no adro. Tudo o que bole nesta quietude é poema – côdeas de tempo, réstias aqui da tarde. O alarde e o sussurro, este quase escuro. Direi ainda o teu corpo e a sua sintaxe, as elípticas sílabas dos teus eixos. O intenso movimento no descaso das frutas. O sopro de tudo e de nada. Até eu neste ocaso…

3.

Como esconder em mim o que se sente? Paz, excitação ou poetaria, esta embriaguês de haver, ora luz e sombra, ora nó da Electra? Cotovia, medo ou bravura, esta ternura? Dançar, de total loucura, se isto fosse uma praça, onde pombos e vagabundos a deambulassem na real fome da poesia. Gritar-te musa na guarita. Olhar-te linda no fontanário liquefeito. Indagar-te apenas, cidade. Porque não te versejar com tanto alarde?

4.

Discorrer sobre as tuas lucubrações. A secção das frutas no supermercado. A gincana boa com os carrinhos do Calú & Angela. Tu és nativista, claridoso ou raio-que-o-parta, mas eu prefiro picanha ou queijo da Serra. Ou tratando-se de fruta, quero os teus lábios. Nem tudo das frutas sabe à melodia, isso sei eu. Nem todas as melopeias desenham encantos com fogueiras e desertos. E dançarinas loucas de sombras. Há toadas ali das maçãs frias, meloas que se evadem das fruteiras. Melaços de tâmaras sem viço. Mangas, mulher, que não eram flores no tempo das águas. Soube dos cajus caídos nas estradas. Do suor dos escravos da cana de Santiago e dos abacaxis perdidos no desejo. Soube, mas nem te conto, das melancias. O vermelho de negras sementes do verde cabo. Dos virgens sucos, como o frémito das ânsias. Lucubrações apenas…
5.

O poema simula uma lágrima. Ou uma gargalhada. Ou ainda uma entrevista televisiva. O poema vem no Telejornal. Mas ele não derrubou o Muro de Berlim, nem as Torres Gémeas. Leu e riu das últimas do cronista local, amigo de Pinochet, o animal que matou Victor Jara. Voltando ao paredon. Ao grafitado do baldio, para ser mais próprio. Suspendo estas notas. Estou farto dos porcos em delírio. Dos quadros em triunfo, sobretudo. E dos neoliberais ao Deus-dará. O poema abomina a pose sem élan. Fica brocha que nem discurso político. Mais luz nessa avenida. Vejo e concordo com que reza o grafitado. Arre, égua. Ali chapado em grande statement…

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Mon pays est une musique

Mário Fonseca
Foto de Mito Elias

Em Claridade



Peace and love

Perdi um grande amigo – Zeca Correia. Ele acaba de falecer em Boston, depois de uma doença prolongada. Morreu lúcido e amigo, como sempre foi. Entre muitas outras coisas, Zeca Correia foi uma figura destacada da comunidade cabo-verdiana. Fundou, com mais companheiros, o Gabinete de Produção Mediática e a Conferência Anual Amílcar Cabral e Martin Luther King Jr., e foi um dos activos no Programa Educacional Bilingue. Uma figura…esse saudoso amigo!

O paradigma de Virgínia

A América continua a dar as cartas em matéria de Direitos e Liberdades. A América profunda, naturalmente. Aquela que nos legou Thomas Jeffersson e Marin Luther King Jr., e que, ainda hoje, atribui Óscar ao senador Al Gore pela Verdade Inconveniente. Esta América dos meus filhos, do jazz e da constitucionalidade. Livre, libertária e, genuinamente, liberal. Leio que o Estado de Virgínia assume desculpas formais devido à Escravatura, o maior atentado contra os Direitos Humanos em toda a História. Assume-o com causa e consequência. Obviamente que haverá algum desconforto entre nós que ainda temos orgulho dos nossos ancestrais escravocratas e nos envergonhados daqueles escravizados. Que veneramos a parte de nós, que é europeia e branca, mas que diluímos a africanidade, a negritude que nos lateja nas veias. Mas este desconforto é uma enorme e necessária terapia. Para que sejamos integralmente nós. Para que possamos discursar no mundo e, depois disso, não se ria de nós, dessa identidade titubeante em “forma de crioulo basofo”. Não por uma questão retrospectiva, mas pela vertente prospectiva. Precisamos ter uma visão futurista da escravatura. Como fazer desse passado, de enorme tragédia humana, uma condição humanista de vida futura. Com soberania, democracia e desenvolvimento. Senão, seremos sempre pós escravizados e pós escravocratas. O prolongamento da tragédia, com o vergonhoso disfarce neo-liberal. Pois é, meus caros, temos de acompanhar (com interesse, pelo menos) o que está a acontecer em Virgínia. Nos Estados Unidos…naturalmente.

Em Claridade

Apreciei a posição do poeta Mário Fonseca sobre a questão da celebração do centenário do Movimento Claridoso. Temos de evitar a capelinha de balcanizar os grandes momentos da história de Cabo Verde. Claridade foi um momento que transcende o tempo e o lugar. Em consequência, ela deve ser celebrada por todos e em todo lugar. Em jeito de assumida provocação, já que os fantasmas deixaram de meter medo, anuncio um encontro sobre os Claridosos, no próximo ano, em Fortaleza, Brasil. A engenharia já está a ser montada. É que os nordestinos do Brasil parecem ter alguma “culpa” em tudo isso. E mesmo que não tivessem. Poderia ser em Pequim, Lisboa, Praia ou Mindelo. Consenso? Mas que palavra feia entre os homens de Cultura. Desnudemo-nos de tiques e preconceitos. Com a modernidade de Mário Fonseca. Cabo-verdiano, cidadão do mundo…

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

CASTLES DREAMS IN MY MIND


Zeca Correia em Copley Place
Foto Mito Elias
Morreu Zeca Correia e a crónica, que esta semana já havia marcado o seu caminho, resolve ser outra. Ele estava doente, muito doente, há algum tempo. Mas a forma brava e estóica como enfrentava o câncer, nos apartava, por vezes, dessa ideia da morte. Esta apanha-nos sempre de surpresa. Absortos no meio da vida. Caídos na amnésia sobre o fim das coisas. Sem condições de fazer a cerimónia do adeus. Há dias, havia mandado uma carta, doando, absurdamente, palavras. Enfim…
Fortaleza, 11 de Fevereiro de 2007

Zeca, meu bom amigo

Há momentos em que as palavras perdem significado. Elas ficam fragilizadas e debilitadas quando as circunstâncias são excessivas. Diante da grandeza da vida e do mistério da morte, as palavras ressoam pequenas, encurtadas e, se calhar, até imprudentes. Entretanto, não tenho senão palavras para te dar força neste momento de privação e de luta corajosa contra a morte. Digo luta corajosa, pois soube, pelos nossos amigos comuns, que és um homem bravo. Enfrentas tudo com fé e estoicismo, o que me dá um enorme orgulho de ti, meu amigo.

Às vezes, revejo aos detalhes os nossos momentos passados juntos. As horas de festa e como celebrávamos a vida com alegria! Quase sempre com alegria exagerada, caríssimo. O bom vinhaço, a comida pantagruélica e a excelente música. Não me esqueço de quando fomos ver juntos Dee Dee Bridgewater, Lou Rawls e Ray Charles, no Waterfront, em Bóston. Nem dos teus olhos de alegria no Newport Jazz Festival.

A tua lembrança estará sempre ligada ao momento quando te desafiei a criarmos um programa de rádio e tu logo topaste a ideia do GPM. E da primeira vez que topámos que a Ambrizeth – Babosinha, para os mais chegados – tinha uma voz de rouxinol e que poderia dar aulas de inglês no nosso programa. E eu escrevia “Factos”, pensando no teu timbre de radialista, meu amigo. Outro momento alto, fora o dia em que criámos a Conferência Amílcar Cabral, na velha casa de Lower Mills. Pelos vistos, o “petit comité” alargou-se e a Conferência está a dar os seus frutos. Grande iniciativa.

Lembro-me do carinho que devotas ao Denzel, que adorava, de fraterna amizade, o “Tio Zeca”, o mesmo carinho que eu devotava ao Nuno, recém-chegado das ilhas. Mas o melhor de ti, meu bom amigo, registei-o hà pouco tempo, e tu já entrado nessa maldita doença que nos perturba a todos, quando a minha mãe faleceu. Eu havia ido do Brasil para Cabo Verde e não é que recebo o teu telefonema, com uma lição de amor e de humildade que jamais esquecerei. Devo-te agradecer por isso. Disse-o a todo o mundo e todos, sabendo do teu quadro de saúde, passaram a te admirar muito. A superioridade das pessoas é de facto moral e o resto é história.

Vou pensando no Dylan, no Nuno e na Nadine, tua e nossa gente, por quem teremos sempre amizade e devoção. Vou pensando nos meus filhos, Denzel e Pablo (havias de conhecer o pequenote, meu velho), a matutar esta vida que deve ser vivida com grandeza moral e muito amor. Como eu receava, meu bom amigo, acabei por escrever uma série de palavras, mais de significante que de significado. A sua semântica fica “debole” diante das circunstâncias. Força, muita força. Coragem e fé. Cada dia de vida é um ganho para todos nós. O jeito é vivermos, para lá da doença e da dor. Tirar o melhor partido de cada momento. E, sobretudo, amar muito.

Pois, vem aí estes ossos para um grande abraço. Eu te amo muito, muitíssimo, meu bom amigo.

Filinto

Eagle


O Poeta e a Musa

Zero

Queimando o S/Cem Margens seus últimos cartuchos, depois do cronista ter lido a lógica daqueles que abominam que um dos tributos ao Movimento Claridoso também se faça na cidade da Praia, apesar de ser Cabo Verde, capital da Nação e terra de Jorge Barbosa, direi sem margens para dúvidas que, em certo sentido, vivemos tempos turvos e lodosos.

Um

Essa polémica, embutida de bizantinice e eivada de má fé, procura levar, mais uma vez (e não por acaso), Manuel Veiga para a fogueira de todos conhecida e que crepita para dividir o país. Curiosamente são os mesmos pirómanos que outrora dividiram o Arquipélago entre as ilhas da macaronésia e as africanas e que, há poucos dias, brindaram com júbilo ignaro e racista um estudo dito genético. O que não nos dizem certas intenções "científicas"?

Por mares nunca dantes navegados

Por razões de trabalho, estou a ler com o meu italiano aquém do básico "Navigazioni", de Luís de Cadamosto. Vou pedir apoio a Pasqualino Settebellezze, personagem bissexta das tertúlias na net, pelos vistos, um crioulo radicado na Itália. Mas voltemos a Cadamosto. Terá o navegador chegado a Cabo Verde antes de Diogo Gomes? Interessaria a Portugal dar o protagonismo dessa descoberta a um “mercador de Veneza”? De qualquer forma, a história, para lá da ciência, é escrita e interpretada ao sabor dos tempos. Outrossim, Luís de Cadamosto fora um renascentista consequente. Curioso, aventureiro e mercador, ele estava fadado a ver e a desbravar novos mundos. Obviamente que teremos de dar descontos aos olhares e aos preconceitos da época. Eram tempos eurocêntricos, com o obscurantismo adveniente disso, em que muitos descobrimentos não passaram de encobrimentos. Isso também é notório no "Navigazioni"…

Neoliberais

Não me fio nos neoliberais que se deixam dominar pelos tentáculos coloniais. O Pranchinha chama-os de deuses de esquina. Cá na minha, os neoliberais terão de ser navegadores, libertadores e libertários. E nunca “entregadores”. Do negócio e Pátria. Lá pelos fins dos 1400, um monte de moradores de Cabo Verde lançava negócios pela costa africana, à revelia das autorizações reais. Uma Carta Regia impedia aos moradores de Santiago traficar na Costa, onde o negócio era rendoso. O nome desse pessoal? Tangomanos (ou "Lançados"). Conta-nos António Carreira que "...Sobre este tipo de relapsos foi promulgada abundante legislação no sentido da sua captura, e até mandando-lhes aplicar a pena de morte, no caso de serem capturados pelas próprias autoridades africanas". Os verdianos, quais albatrozes, foram ao tempo contra o monopólio colonial... Interessante, não? Esses terríveis lançados neoliberais...mais consequentes outrora.

Dois

O cenário poderá ser de um café com letras. Ou dessas muitas livrarias, como o Paraíso de Jorge Luís Borges, onde se possa tomar um bom capuccinno. E o cronista a lembrar de ser poeta. Eu bem que queria navegar no seu mapa astral, disse o Poeta. Mas você já nele navega, respondeu a Musa…

sábado, 24 de fevereiro de 2007

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Arlequim experimental



ê di bidi dó...
ê temterem!

A Arte do Carnaval



A Arte do Carnaval

Fique bem claro que adoro o Carnaval. Não o Carnaval de pacote turístico, dos desfiles plastificados para o inglês ver, mas o autêntico, com originalidade e raça. Tão pouco me alinho nessa exploração comercial da fruição crioula, quão entraria de cabeça nessa imaginação colectiva de transfigurar o dia-a-dia. Nada de moralismos. Meus amigos, não se quedem assim puritanos e furiosos face à perda da fiscalidade do corpo. Ademais, para além da objectividade da carne, da pulsão e da cor, o corpo é uma grande subjectividade da Arte. Fique bem claro que adoro a Arte. Do Carnaval…



Bá timbora, bá timborinha…

O Mito desafia-me de novo a escrever sobre os Carnavais da cidade da Praia. Não em referencia, nem em oposição, aos Carnavais doutras paragens. Até porque Carnaval é sempre diferente em cada lugar e em cada tempo. O melhor Carnaval da minha vida não aconteceu no Rio de Janeiro. Terei largado o desfile do Sambódromo para passar o Fevereiro em São Filipe, na ilha do Fogo. O que a juventude não apronta? Naturalmente que a cidade não estava tão “modernizada” pelo actual génio autárquico, de pronto denunciada pelo meu amigo Fausto de Rosário, razão porque dava gosto acompanhar os mascarados pelo Presídio. Mas o melhor Carnaval da minha vida, passei-o de facto na cidade da Praia. O Mito de cara pintada, como um índio psicadélico. Índividuo de trinta reis, esse aí. A banda louca do Gugas Pastor, Zé Pitadinha e Sanna Pepper. O Teacher e o Eduardo Balula, meu Deus. E a malta do Plateau, ainda não tão esburacado assim, nem tão assaltado pelos “vindos do baile”, a cantar (sobre coisas que ainda hoje precisamos exorcisar): “Polísia associadu, bá timbora, bá timbora, bá timborinha"…

Bloco do Infante

De repente, desfila diante do Pranchinha a ala das caravelas. O Bloco do Infante, com marinheiros e escravos, instrumentos náuticos, coisa e tal. Do promontório de Sagres, a famosa Escola das Navegações, diz o Pranchinha que a História está mal contada. Mestre e administrador da Ordem de Cristo, para substituir a extinta Ordem dos Templários, o Infante Dom Henrique foi, de uma certa perspectiva, um génio. Ele administrou pilotos e cartógrafos, armou frotas de longo curso, obteve o senhorio das ilhas atlânticas e conduziu a expansão lusa até Serra Leoa. Pois é, a ala das caravelas. Nhaku tánbi…

Bloco de mulher pelada

Esse Carnaval de mulher pelada nada tem a ver com a democracia e a modernidade, mas sim com o turismo sexual, pois de há muito que os homens do dinheiro descobriram a mina de ouro que significa a mulher nua. A submissão da identidade em troca de euros e dólares. Importaria não apenas subverter a máscara do folião, mas esta triste realidade de crime e crueldade. Posto isto, difícil é não mirar o que passa pela avenida…

Brincadeira de Carnaval

Carnaval não é brincadeira, mas sim coisa séria. É um fenómeno social anterior à era cristã. Na antiguidade egípcia, grega e romana, as pessoas celebravam o excesso e a libertinagem, bem à maneira do Entrudo. Esse celebrar exigia máscaras e outras transfigurações sócio-culturais. Melhor que isso só a quarta-feira das Cinzas, não porque marca o arranque da Quaresma, mas porque é dia de mel e cuscuz, coco ralado e queijo de cabra, trotchida, peixe seco e legumes cozidos, xerem e axim. Uzul terra! E tudo isso…é lembrança que também guardo da minha mãe.

Love is a conical splash


Bombou na Espanha

Carnaval 2007

Bombou beleza

Carnaval 2007

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Bombou geral

Carnaval 2007

O tigre na empresa



Acompanho, fazendo o papel do Velho de Restelo, os despedimentos em massa na TACV/Cabo Verde Airlines, protagonizados pelos novos gurus da empresa, com a luz verde do Governo e com os aplausos do Banco Mundial. O propósito será nobre com certeza, pois tais reformas estruturais, além de criarem as condições atractivas para a privatização, pretendem trazer mais vantagem competitiva e agregar mais valor à empresa. Mas a questão que se coloca é a seguinte: não seria mais producente um novo «contrato moral» com os trabalhadores e com a sociedade cabo-verdiana, substituindo a administração personalizada e a filosofia da "empregabilidade" por formas mais originais de criação de valor e de lucro? Não terá sido introduzido um tigre no seio da empresa, para o já clássico estilo de downsizing? A TACV/Cabo Verde Airlines teria, neste momento, de recriar valor para a sociedade e para os seus clientes desenvolvendo novos produtos e serviços, e descobrindo formas para melhor apresentar as actuais ofertas. De resto, para se competir no mercado internacional, e no transporte aéreo especificamente, não basta essa visão unilateral e mercadológica da vantagem competitiva. Peter Drucker dizia que é o restabelecimento do capital social que recria valor competitivo e se torna o motor do crescimento para uma empresa, teoria que seria válida para a TACV/Cabo Verde Airlines a estas horas. A empresa é que deve estar no mercado e não este dentro daquela. E, outrossim, nunca deu bons resultados introduzir o tigre dentro da empresa. Sumantra Ghoshal comparara o mercado a um tigre – se o metemos no centro da filosofia interna da empresa, este acabará por devorar a organização. Uns exercícios de pensamento crítico apenas. A necessidade de haver sempre um Velho de Restelo. Nada por aí além…

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Qualquer música.1


Her Master's Choice
Mito

Qualquer música


Qualquer música

Ontem, a noite acabou em grande: com Egberto Gismonti. O Ideal Clube de Fortaleza é aquela coisa só. Nada como a boa música para nos lavar a alma. Nos bastidores, soube que o artista conhece bem a obra de Cesária Évora e as músicas de Bau. Falei também de Kim Alves, Ricardo de Deus e Vasco Martins. Da Mayra, Tcheka, Dudu Araújo e Mário Lúcio. Das coisas que eu gosto, enfim. Não quis acreditar que Horace Silver fosse crioulo e lá tive de contar as coisas. Desde a pesca da baleia. Até Moby Dick, sabiam? Ganhei três CDs do músico e cheguei a casa, eufórico a recitar Pessoa:

(…)
Qualquer música, ah qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
(…)

João Branco

Soube sim da iniciativa do João Branco de querer prestigiar o Centro Cultural do Mindelo com o nome de Orlando Pantera. Também soube da contra iniciativa e das suas razões absurdas. Mais uma perda de oportunidade para se homenagear os grandes da terra. Pantera mostrara de facto ao que vinha, para o odioso dos medíocres que não lhe perdoaram o génio, nem a raça, nem o virtuosismo…nem mesmo o sorriso.

Quanto ao bairrismo

Este país está a deixar de ser provinciano. O bairrismo de pacotilha, protagonizada por pacóvios conhecidos, tem os seus dias contados. Nenhum jovem que se preza pára os seus estudos, namoro ou gameboy para ouvir os ignaros e os atrasados da praça. Cabo Verde está no Desenvolvimento Médio. Não se riam. Arre…

Dança ma mi, criola

Eu gosto muito do Tito Paris, sobretudo da sua música, do seu sorriso e dos seus suspensórios. Adoro vê-lo a cantar Dança ma mi, criola. Um fulano nota 10. Entretanto, ele não soube levar a bom termo o quiproquó com o Ministro da Cultura e fez umas afirmações que não procedem. O orçamento do Ministério da Cultura é curto, tanto ao Norte como ao Sul. Os artistas, criadores, produtores e todos aqueles que fazem Cultura precisavam de “uma outra guerra”. Por um melhor (ou, pelo menos, maior) orçamento do MC. Pela criação do Fundo Nacional da Cultura. Pela instituição de créditos bancários. Pela efectivação da lei do Mecenato. E, acima de tudo, por mais qualidade e competitividade. É que o mercado, o verdadeiro mercado, é o mundo…

Cobrança

O amigo Dimas anda a cobrar-me mais textos poéticos. Pessoalmente, não me atrevo a entrar num onda em que o compromisso será entregar um livro por ano ao editor. Faltam-me o engenho e a arte para tal. Tenho um Mestrado para terminar, compromissos profissionais assumidos e dois filhos menores. E devo pensar em mim. Vou me amar nestes tempos, como diria Rita Lee. Ademais, tenho umas coisas escritas na alijava, mas deixo-as marinar um bocado, que é para apanharem bem o tempero e o fermento. As palavras são ingredientes com que se fazem os pratos da poesia. Perdoem-me tal metáfora, mas eu sou um gourmet antes de tudo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Valentine's Day storm

Quincy, Boston, USA

O Passargadeiro, os Blogs on the block e Saint-Valentin


O Passargadeiro

Híbrido, como naquela música de Gilberto Gil, em que o Mestre cantava (…) Micheal Jackson ainda resiste, porque, além de branco, ficou triste (…), o meu compadre se entregava ao solilóquio. Nenhuma luz, nenhuma claridade, na boca do porto. Estava mergulhado “en detrésse”, dilema de muito crioulo. Ser branco ou preto. Ser branco e preto. Ser colorido. Destoado. Monocromaticamente castanho. Magenta. Mais África ou mais Europa. Nem África, nem Europa. Outrora, mandinga, ora, judeu. Estar Macaronésio. Ou, quem sabe, Atlântico. Precisamente, Atlântico-Médio. Com NATO e tudo. Crioulo sooooooofre, porra!


Dondágu ta ziguina na lagoa

Li, no Blog Son di Santiagu, uns versos de Kaká Barbosa e o meu dia ficou mais claro. Mais luzidio. Há poetas que, mesmo coloquiais, conseguem a imagem das nossas lembranças ulteriores. Não consigo descortinar a poesia de Kaká Barbosa sem uma trilha de música ouvida no antanho. Do som. De uma sonaridade, que só a língua materna e matricial nos empresta. Chorar e rir mesmo, já dizia Jô Soares, só na língua da gente. Pena que, entre nós, falte coragem para a oficialização desta sentimentalidade. Que pacóvios! Dondágu ta ziguina na lagoa…que lindos versos!


Debate blogueiro


Às tantas, no debate blogueiro, alguém conhecido pelas intransigências bairristas, fica fiteiro e tomado de nove horas quando se fala contra as hegemonias. Fazer o quê? Isto faz lembrar aquela velha anedota: "O leão, rei dos animais, juntou toda a bicharada e anunciou: - Iremos exterminar os animais que tenham boca grande!- Coitadinho do crocodilo! - comentou o hipopótamo, entrementes".

Saint-Valentin

No Blog, do jornal Le Monde, minha leitura obrigatória, um homem declarou-se assim: Ma princesse, mon amour, mon tout, mon autre moi-même, je t´aime. Tudo dito…

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem
os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos
germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Anderson

Solidariedade


Hediondo


O crime hediondo


Acompanhei, pela imprensa nacional e internacional, o caso das italianas assassinadas, na ilha do Sal. Achei correcta a atitude do Governo de Cabo Verde em se posicionar prontamente contra esse crime hediondo, a provocar em todos nós repúdio, revolta e vergonha. Igualmente terá sido oportuna a visita imediata de Victor Fidalgo, Presidente da CVInvestimentos, à Ilha do Sal, para ajudar à análise que a situação impõe. Entretanto, a questão exigiria sociólogos, psicólogos e outros cientistas sociais para um estudo mais complexo e multi-disciplinar de um problema que já se emaranhou na sociedade. Sem pretender estragar o negócio de milhões de euros, mas, pelo contrário, requalificar esse potencial que empresta competitividade ao País, ouso admitir que há coisas, muitas coisas, a serem harmonizadas. Não pode é faltar coragem para tomar as medidas necessárias, a vários níveis, depois (repito) de um estudo sério e crítico. O diagnóstico do impacto social da indústria que vai repondo Cabo Verde no circuito internacional…


Terra de sol, praia e não só


Há muito tempo, lendo um folheto sobre o turismo cabo-verdiano, reparei que, para além do apelo ao sol e praia, o mesmo alegava implicitamente ao turismo sexual. Havia uma menininha, com olhos de quem convida, a exibir seios e nádegas provocantemente bonitos, logo ali no frontispício. “Venha visitar Cabo Verde”, dizia o dístico. A mensagem ali estava mais no não-dito do que no dito e era extremamente preocupante. Esse simples e ensolarado folheto era uma espécie de bomba-relógio, isto é, algo com hora marcada para explodir. Igualmente, um jornalista escrevia sobre o Site Electrónico que convidava estrangeiros a conhecerem Cabo Verde e a “conectarem” com rapazes e raparigas “disponíveis”. O mesmo alertava “Da non perdere assolutamente qualche serata in discoteca per scoprire la sensualita' dei balli capoverdiani”. Em verdade, o “perigo” de há muito que já estava instalado. Se o turismo tem as suas vantagens, ele terá com certeza a sua parte perversa. Hedionda mesmo. Recentemente terá havido um assalto à mão armada a um hotelzinho, silenciado para “não espantar a caça”. Outro jornalista terá sido censurado (sem aspas), pois a ninguém interessava “levantar tal poeira”. Que turismo? A de massa? A do inclusive tour? A da prostituição? Da pedofilia e da droga? E da violência? Temos de pensá-lo criticamente. Haverá gente a esquecer – tanta é euforia do negócio ora instalado – que na face invisível do iceberg reside a maior parte do problema. Tempo, se calhar, para repensarmos o tipo de turismo predatório que sub-repticiamente nos foi imposto pela dinâmica do mercado at-large. O questionamento da nossa clara opção entre sermos objectos ou sujeitos do turismo, que não deixa de ser uma das grandes fontes de receita do País. Vamos, sim, a tempo de escrutinar as coisas e de colocar alguma serenidade numa indústria que, se não controlada, os seus ganhos nunca seriam bem lucros. Pelo menos, para a nossa sociedade…


Pura náusea


Humanamente, o crime ocorrido no Sal dá náusea. A sociedade não pode ser uma espécie de “cria corvos”, incapaz de educar bem os seus jovens e de não os reprimir exemplarmente em casos de lesa dignidade humana. Deixemo-nos de complacências. E muito menos de pretensas histórias passionais a relativizar esse crime. O lugar dos assassinos será, no mínimo, a prisão pesada e longa. Perdoem-me a impiedade, mas estes jovens não passam de monstros a consumir o ar que respiramos. Não representam de modo algum a forma de ser e de estar dos cabo-verdianos. E temos de ter a capacidade e a coragem de os escorraçar. Com ou sem turismo, há gente que nos envergonha e que perfeitamente não deveria existir no meio de nós. Eles não fazem falta. Antes pelo contrário: estão cá a mais…

Com Linda Rondstad


sábado, 10 de fevereiro de 2007

Songs of the Badius


Estou a escrever, a pedido do Mito, um artigo sobre Carlos Alberto (Catcháss) Martins, um dos mais importantes activistas, compositores e intérpretes da música popular cabo-verdiana. Passados muitos anos sobre o seu desaparecimento, ainda hoje Catcháss é relembrado pela sua postura de levar a música do interior da Ilha de Santiago aos centros urbanos de Cabo Verde e do mundo. De repente, os citadinos começam a ouvir e a cultivar o Funaná, o Finaçon e o Batuque. E a apreciar também a Morna e a Coladeira, de uma outra toada. Os arranjos já são mais complexos (com importações do Rock, do Blues e do Jazz) e as notas entram em dissonância (a lembrar os desvios do Samba e da Salsa), tudo, tudo, tudo para revelar a alma de uma parte “silenciada” de Cabo Verde. Agora, lembrei-me do documentário Songs of the Badius, do antropólogo americano Gei Zantzinger . Por isso, a mergulhar na obra de Catcháss, diria que também “ami n teni febri di funaná”…

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Ah, Catcháss




Guernica

Pablo Picasso

Sirê

Pastor di Kabra dedu bedju
Nariz di sonbra koku matxu
Kanela sima Saitu Lugar

Kô da-m ku lumi mufinesa
Bida, bida, kô pokenta-m
Kô da-m transtornu na nha bida
Ferver di korpu ka ta kenta-m
Da otu boita na bu bida

Ingratu e ka sô mi
Kalor di korpu N ten tanbé
Tenperatura sta normal
Normal, normal... normal

Buru e sima Nhu Ntoni
Ta kunpra boi ta bendi baka
Ku papelon pa ser jornal
Ta lenbi dedu sô si sirê

Sirê e sabi e sabi
E sabi e sabi
Nhu Ntoni
Sirê e sabi e sabi


(de Orlando Pantera)

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Orlando Pantera
(Foto: Djinho Barbosa)

Guernicada


Boca no Trombone


Na sua origem, a palavra crónica seria “pôr em ordem cronológica”, ou seja, narrar em ordem do tempo. Heródoto fora um exímio cronista, Pêro Vaz de Caminha do se plantado dá, disse tudo. Machado de Assis e Eugénio Tavares, que “bárbaros”. Dos modernos, leio Woody Allen, Luís Fernando Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro. Todos “sinistros”. Entre nós, salvando todas as distancias, Fátima Bettencourt fazia umas notas memoráveis. Mesmo no jornal Horizonte, Manuel Delgado era a marca registada. E eu (Cadê você? Eu vim aqui só para te ver), com o S/Cem Margens, vou botando a boca no trombone. A escrever tudo o que agita a minha mente. De A a Z. De Aterro Sanitário a ZDTI. Passando, naturalmente, pelo G do Gado e mais não digo deste thesaurus. A escrita como respiradouro. Oxigenação necessária. Quando não escrevo, vou à orla do mar e respiro o Atlântico. Uma snifada consequente da maresia. Consolidando amigos e inimigos. Felizmente menos estes do que aqueles. Deus tem…

Crónica

Escrever crónicas é também meditar. Entre a utilidade e a futilidade, em textos que me premeditam e os que me acontecem, vou sendo aprendiz da escrita. Ajoelho-me apenas diante do Verbo, que soubera como génese de tudo. Não me ajoelho diante dos altares, nem face aos venerandos. Curvo-me perante o pôr-do-sol, dou palmas às ondas furibundas e choro de certos luares. Quando estou apaixonado. Sou volúvel face ao Belo. Uma sinfonia invade a fímbria dos meus nervos e mexe comigo cá dentro. E como mexe. Cada pedaço do meu ser ama. Mas não rezo. Nunca em prece. Medito apenas…

O real imaginário

Observar dentro do real todas as possibilidades do fantástico. Conciliar um ao outro é o que tento fazer com o S/Cem Margens. Tentar corresponder ao interesse dos leitores, mas sem grandes concessões. De repente, não farei do Pranchinha um simples pagador do IVA, sem que arranje aquele trinta-e-um sobre a oficialização do Crioulo. Afinal, a vida nasceu ou não, Mário Fonseca? Ou, então, lá porque o Pranchinha, nas suas fraquezas, grama as crónicas de Fátima (a Havardiana), não o alinho aos estudos estratégicos tropicalientes, essa espécie de “único impossível”. Às vezes, é um deus-nos-acuda encontrar realidades, assim com aqueles toques fantasmagóricos de além-mar. A estabilidade do euro, por exemplo, é uma realidade excessiva. Já a paridade do escudo, esse parlapiê da convertibilidade & etc, nos garante uma grande ficção. O sermos periferia europeia ou, no mínimo adjacente, também dava uma crónica louca. Os deslizes do dólar, outro exemplo surrealista, podem induzir a Bagdade em turbulência. A CNN que o diga…

Ressalva

Perdoem-me por esta fase egocêntrica. Deve ser da solidão. Estou a me recompor. O meu psicólogo diz que passa. Se até enxaqueca passa, remata o virtuoso. É uma nuvenzinha passageira isto de se estar em torno ao próprio umbigo, falando ininterruptamente das coisas que nos apanham pela rama. Da próxima vez, hei-de pintar um quadro, já que criar um monumento, mesmo sem ganhar algum, pode bulir com a desordem dos arquitectos. Ou a brocha de certo jornalismo. Uma tela chifruda no visual dos deuses pequenos. Uma “guernicada”, como diria o Pranchinha, exilado nesse além, mas quando aquém, um abusado de primeira apanha. Mas, hoje é dia da caça, amanhã do caçador. Hasta…

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Babel

Rosas, rosas e lírios também

O meu filho Denzel faz quinze anos, no Dia de Iemanjá. Freud explicará porque me recordo de Fernando Pessoa, com o aproximar do dia 2 de Fevereiro. Dai-me rosas, rosas e lírios também…

O jornal

Habituamo-nos tanto a esta coluna que custa viver sem ele. Pieguices e resmunguices à parte, mas não é fácil deixar o S/Cem Margens. Tantos amigos e inimigos de estimação. Alguns leitores fidelizados, a cada semana. Alexandre, o Editor, na sua cobrança de fecho de edição. A teimosia de ficar e o Estado na teimosia de sair. Estamos em contagem decrescente, diz-me uma fonte bem informada. Haverá de nascer qualquer coisa. Se eu entrar nessa, será com outra coluna, outro nome, nova linha. O S/Cem Margens fica no horizonte. Terá sido eterno enquanto durou. Como a chama do amor, aliás. Grande Vinicius…

O insólito dos dias


Há dias que em não estamos épicos. Nem patriotas. Dias em que as vacas atravessam a avenida e tocam a comer as flores do nosso jardim. Dias abastardados, caramba. Já alguém dizia que morávamos em BRV – Bairro Rico com Vacas –, reduto da elite divina. Tomado de neurastenia, o Poeta dedicara seus últimos versos ao insólito dos dias: ó urbe bovina, anestesia local. A manada nunca entendeu a fímbria de tal metáfora, naturalmente…

Babel

Tenho pena da minha amiga Babel (nome escolhido aleatoriamente, para despistar a burguesia) que se ufana de não saber crioulo e que se enche das suas reminiscências inglesas, sugerindo (não se riam) ter nas veias sangue azul. Babel também é imperiosa nos seus tiques. Quer ser capital de alguma coisa. Da cultura, à falta de outra loiça. Faz lobby disfarçado, entra sorrateiramente pela malha das coisas e faz das suas. Com humor e morabeza. Babel é fogo…

Exegese

Temos sido uma geração heróica. Por isso, mesmo quando encalham as coisas, estou contigo. És bravo e perspicaz, és mesmo dos meus. Lembro-me dos teus versos ainda indecisos. Chamaste a reunião de exegese da novíssima literatura. Éramos apenas estudantes do Liceu Domingos Ramos. Disseste que continuo com este olhar subversivo. E agora, José?

Voto

O meu voto, singelo mas sincero, para que saibamos sempre resgatar, preservar e desenvolver o tesouro inalienável desta nossa gente – a sua língua, as suas tradições e a sua arte. O imperativo ético de tais valores transcende quaisquer ímpetos. Babel que me perdoe…

sábado, 27 de janeiro de 2007

Retomando as actividades



1.
Regresso a Fortaleza. O primeiro impacto de uma vida a só. Mais silenciosa. Todavia, mais necessária nesta fase. Revejo todas as minhas notas sobre Jaime Figueiredo. E acrescento umas linhas no texto da conferência que irei proferir em Abril de 2007. Entusiasma-me participar da Conferencia Internacional sobre o Centenário da Primeira Geração dos Claridosos, organizada pelo Ministério da Cultura.

2.
Igualmente, revejo a minha colaboração para uma revista que sairá em breve. Antes, era um número especial da Folha Sopinha de Alfabeto, de Artes e Letras, um periódico de vida breve, mas que lançou poetas importantes da minha geração. Agora, Mito, que adora inovar, transmigra o projecto para uma coisa diferente. Em verdade, já não faria sentido o 20º aniversário do lançamento do 1º número da “folhinha”. Por conseguinte, não me é difícil convencer Chissana “Kamia” Magalhães, Margarida Fontes, Dimas Macedo e Jorge Marmelo, estes, consagradíssimos, e aquelas, excelentes revelações, sobre a transferência dos seus textos para a revista que ora se inaugura.

3.
Durante a manhã, participo de uma reunião na Universidade de Fortaleza. O processo selectivo para Cabo Verde ganha novo fôlego. Torna-se necessária a criação de um ponto focal permanente nas ilhas. Sugiro o nome de uma candidata, a mesma já apresentada há muito tempo. O perfil é de gente com elevada cultura e capacidade de relacionamento social. Os dados foram novamente lançados. Fala-se sobre a necessidade de aprimorar os circuitos. A ninguém abona a imagem de estudantes à porta dos Consulados a “mendigarem” vistos. O processo deve ser tranquilo e com classe. Sem grunhidos…

4.
Tenho saudades de Cabo Verde. Sou um excelente viajante, mas um péssimo exilado. E, na marginal, os coqueiros balançam à breve brisa. Quanta beleza...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

A Flauta Mágica


Notícias de Fortaleza Bela

De Fortaleza, onde estudo, as notícias não poderiam ser mais interessantes. O meu amigo Lira informa-me dos grandes avanços na política e na postura municipais. A nova Lei Orgânica Municipal já permite que 5% dos eleitores do município (cerca de 71 mil pessoas) se unam em abaixo-assinados para propor à Câmara Municipal projectos de lei ou suspender o cumprimento de leis já em vigor. O munícipe ganhou espaços para debater e decidir os rumos de sua própria cidade. Como diz aquele luminoso que vejo do alto do 10º andar: É você, construindo a Fortaleza Bela.

Instituto Pedagógico Hermínia Cardoso

O Instituto Pedagógico, na Achada de Santo António, será baptizado com o nome de Hermínia Cardoso (Dona Mindoca), professora primária e da Escola do Ministério Primário, onde exerceu as funções de Directora. Dona Mindoca também foi inspectora escolar do Ministério da Educação e activista de muitas causas educativas, culturais e sociais. A sua maior virtude era a paixão. Isso também configurava seu defeito. Amava tudo com paixão – o país, a ilha, a cidade, a família, a educação, a natureza, a música e a poesia –, como uma Passionária. Aproveito esta oportunidade, não apenas porque noblesse oblige, mas para, em toda a consequência, agradecer ao Governo de Cabo Verde pelo reconhecimento que faz à memória da minha mãe. Pessoalmente, reconforta-me mostrar ao Denzel e ao Pablo, meus pássaros, essa bela escola onde se formam os professores primários, afinal os que esboçam e modelam o pensamento de gerações e gerações…

Praia – a cidade que nos une

Falando permanente e criticamente com o edil praiense, Felisberto Vieira, que prepara a cidade para fazer 150 anos, ponderámos alguns aspectos que carecem de mudança radical. Não basta a melhoria da recolha e tratamento do lixo, nem satisfaz a alma apenas a repavimentação mista do Plateau e a transformação da Rua 5 de Julho numa artéria pedonal e passeio público. A Praia, dos 150 anos, precisa, para além da segurança pública, o respeito absoluto pelo munícipe e pela lei, a modernização, a reabilitação e o rejuvenescimento da cidade. Outrossim, a simplificação dos serviços, agilizando os procedimentos municipais, é um imperativo. O desafio maior é fazer com que a democracia participativa funcione. É tudo (e todos) a trabalhar pela cidade que nos une. Isto será História. E o resto apenas estória…

Amadeus

Uma cidade que se preze, quando faz anos fechados, deve comemorá-los em Honra Grande. Aqui, do sonho que pode virar realidade, condecoraria Nelson Mandela. Dava-lhe a chave de ouro da nossa cidade. Homenagear um grande nome da Cultura mundial. Que tal a capital do país da música homenagear, por exemplo, Amadeus Wolfgand Mozart, uma figura universal e eterna? Parece não existir uma única cidade de bom porte, um único teatro, uma única sala de concerto, que não inclua Mozart na programação. Os 150 anos da cidade da Praia conjugam-se com os 252 anos de Amadeus Wolfgand Mozart, ícone máximo de um país – a Áustria – que tanto ajuda Cabo Verde. Ocasião magna e simbólica para geminar Praia a Viena e a Salzburgo. Como seria transcendental termos a Filarmónica de Viena, a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Orquestra da Gulbenkian, a homenagear Mozart! Para quem considere isso apenas sonho – sobretudo aquele de misturar as nossas melhores intérpretes com Placido Domingo ou algo parecido –, a realidade exige de nós, na Hora Grande, que a Praia seja uma cidade realmente competitiva. Para isso, as iniciativas têm de ter A Flauta Mágica…

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

O que nada “separa” e outros apartes




O que nada “separa”

Uma notícia de jornal estampa a manchete “Genética ‘separa’ Barlavento e Sotavento”. O trabalho, coordenado por Hélder Spínola, do Laboratório de Genética Populacional da Universidade da Madeira, Portugal., investigou a composição genética de 120 pessoas do Barlavento e Sotavento. O mesmo confirmou o que sabíamos, ou seja que os de Barlavento têm mais haplotipos comuns a Portugal do que os de Sotavento. Esta pequena diferença natural terá a ver com as diferenças históricas de povoamento entre os dois grupos de ilhas. Digo “pequena diferença”, que de forma alguma separaria isto com aquilo, já que todos os estudos sobre as impressões genéticas vêm demonstrando que a variação no interior dos chamados grupos étnicos e outros é infinitamente maior do que a variação entre esses próprios grupos. O estudo, que tem aval científico e beneplácito das autoridades nossas, representaria um contributo para o estudo das doenças dos povos de expressão portuguesa e os dados permitirão descortinar a relação entre a genética da população e várias doenças. Eu nunca acreditei no “Bell Curve”…e o leitor?

Com ciência e consciência

Não é que se queira perder tempo com os reaccionários locais – até porque estes são mais mentecaptos e menos dignos de atenção do que o genérico dos reaccionários –, mas apetece perguntar o que explicaria uma certa visão filogenética de Cabo Verde? Remeto-lhes à leitura da vasta obra do geneticista italiano Luici Cavalli-Sforza que construiu uma colecção de ADN de populações das mais diversas partes do mundo para a realização de estudos comparativos sobre variabilidade genética. A sua obra desmotiva a qualquer interpretação etnocêntrica do processo genético e desmente o subjectivismo da supremacia racial. Ademais, a grande confirmação científica do Projecto Genoma Humano é que o homem surgiu realmente na África e se espalhou pelo resto do planeta. Enfim, é preciso colocar nas meras notícias dos jornais alguma ciência e muita consciência das coisas…

Out of Africa

Sobre a problemática genética, creio ser interessante a posição de Sérgio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e titular da Academia Brasileira de Ciências. Para este ilustre professor o negro tem pele escura porque a sua região de origem tem um sol muito forte. A pele protege-se com a cor escura. Quando os nossos antepassados africanos migraram para a Europa, a pele foi clareando progressivamente para poder absorver uma quantidade maior de raios mais fracos, sem os quais não poderiam sintetizar a vitamina D. Sem essa vitamina, o ser humano ficaria raquítico. É só observar as populações da Europa hoje. Na região do Mediterrâneo, há pessoas com pele mais escura do que na Suécia. São adaptações puramente geográficas. Como os árabes e os judeus, que têm geralmente um nariz grande, necessário para humidificar o ar seco que respiram nos desertos. Então, o que percebemos como diferenças raciais são na verdade adaptações geográficas. Originalmente, o ser humano é um só. Hoje, já há um consenso de que todos os humanos possuem a mesma origem. É a chamada teoria "Out of Africa (saído da África) ": todos viemos de um antepassado africano.

Tatarana

Jorge Marmelo, escritor da melhor verve, escreve assim, no seu Blog:

(…) Se na estepe, ao longe, não me vês ainda – estou a chegar. Sigo diante dos leões e das impalas, das palancas e dos bisontes, das zebras e dos leopardos; vou à cabeça da caravana dos animais que hão-de ir ajoelhar-se à tua volta, senhora nossa, deusa deste chão. Levamos uma nuvem de pó no nosso encalço – hás-de avistá-la ao longe, é a flâmula que por ti erguemos com o vigor dos nossos pés. Levo as pinturas de guerra no corpo nu, a lança de caçar os pequenos roedores do deserto e o colar de contas que não me deste ainda. Espera. Sou teu (…)

A cerimónia do adeus

Não falemos das grandes coisas por uns instantes. Até porque há coisas tão profundas que não têm de ser necessariamente grandes. Falemos antes das circunstâncias que nos dilaceram a alma. A profunda e amarga desilusão perante as coisas. Mas eu sou um Albatroz e não ficarei preso aos grilhões dos navios. Que estranha sina me trespassa? Despeço-me, não sem muita tristeza, dos dias que foram inesquecíveis. É que as despedidas não deviam ser dolorosas (com sonoro bater de porta), mas são...




quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

A passear


Ando pela cidade. Isto aqui é passeio público. Antigamente, era a Praça Grande. Agora é de novo Alexandre Albuquerque. Sem Esplanada da Praça 12 de Setembro, a do poema de Arménio Vieira.

Ando pela cidade. A tarde entra com dignidade. Um telefonema exige-me explicações sobre o Como um Serafim: “Deixa-me em paz”. Já nem tenho idade para ofender alguém.

Ando pela cidade. Entro no Supermercado Fenícia e apanho cogumelos, alcachofras e berbigão. Farei hoje um arroz malandro. Com muito coentro. Quando a lua regressar ao pensamento. A minha irmã Benilde faz anos.

Ando pela cidade. Penso no Denzel e no Pablo. Estes bastam-me. E tenho a produção de filhos fechada. Regresso a casa…

Entro a digitar neste computador. Agora, escuto Andrea Boccelli.

Hoje, estou meio a passear. Sem inspiração…naturalmente.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Como um serafim






"Estou-me a vir/Estou-me a vir/
E tu como é que te tens por dentro?
/Porquê não te vens também?"
(trecho de "Porquê", de Caetano Veloso)





Mote

Não sei dizer o que sinto, mas gosto de percorrer a minha cidade de carro, à meia-noite. A cidade tão-somente, um tanto dormida, entregue aos noctívagos. A frieza da orla. A mucosa maluca da maresia. Prostitutas e bandidos. Polícias e ladrões. Menores e pedófilos. Boémios e desalojados. A falsa quietude da noite. A cidade encanta-me. Excita-me. “E tu como é que te tens por dentro? / Porquê não te vens também?". E, em assaz diapasão, não irei pôr nenhuma vírgula a mais diante desta realidade que falseia. Tendes, Senhor, tal certeza…


Pranchinha em pessoa

O ano começa e é forçoso que vos diga quem sou e ao que venho. Sou poeta. A poesia, que não outra virtude, me salva do infinito. E da arrogância da eternidade. Venho ora cantar-vos (ou seria apenas contar-vos?) das coisas do Pranchinha, essa personagem que me acompanha e que, em desavindas estações, me complica a vida. Rebelde, pelos arrabaldes, ele é o Pranchinha. Eu sou mediano, cidadão como os demais, submetido ao IVA. E à missa profanada dos nossos deuses pequenos. Mas esse aí é um imponderável em pessoa. Pranchinha, minha chuva mais oblíqua…

Frágil

Eu seria frágil. Fragilíssimo. Preso por um fio. Tanto que carregaria nos lábios o balbuciar dos versos de João Cabral de Melo Neto. Num fim de tarde roxa, a rola e o rouxinol voaram no improvável. E terei ido ao teu enterro para morrer também e ali recitaria (sem alarde): A solução é apressar a morte a que se decida. Entrementes, escrevo não para te dizer que o luar é belo, mas porque a minha solidão é desmedida. Como um peregrino do nada. Com esta vastíssima fragilidade…

Que nem um serafim

E a vida continuada…vem ali o garoto – assumidamente testosterona – marcar a sina do macho que se resguarda. Sem machismos. Como um serafim, ele deambula pelo elixir do teu encontro. Não pelo vinho, que é da melhor colheita, mas pelo teu olhar de alba e teu perfume de âmbar. Nas madrugadas híbridas, sobretudo. Nem pelas musas maduras que o vêem a vir e a cruzar o pátio art-deco, mas pela tua alegria que vê quem chega. Tão pouco ele permanece à varanda rente ao mar e desencadeia a cornucópia da tua temperada carne. Ele é vinagre balsâmico, azeite mais virgem e coentros bem frescos. Ou a música que se evade da vizinhança e invade ao sono és tu, nas lembranças dramáticas. Se dependesse de mim, que nem um querubim, isto seria flor e fruta. E esta permanente semântica da fome. Ou da sede…

Remate final

Não fossem por estes afoitos de intertexto que, vez por ora, me apanham, terminaria isto assim à maneira de Pêro Vaz de Caminha, uma das mais poéticas crónicas que já li, rezando que (…) tereis, Senhor, ao menos a certeza/ que nada se afeia nem alinda. / E se não sei dizer o que senti/ não haja aqui de pôr mais do que vi (…). E mais nada…

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Para ganhar um Ano-Novo




Mote


O tempo, como um camaleão, deixa-se mudar de ano. É um São Silvestre felliniano em toda a linha. O novo-riquismo celebra-o, com manifesta mediocridade, à beira de uma grande piscina. Quem lá esteve, adorou: muuuuuuita bebida, farnel à rica e música pimba. Mas chamemo-lo de Reveillon, não vá alguém ficar zangado logo com o Ano a começar. Bom mesmo é ficar, no aconchego de gente próxima e amiga. E de repente, estava uma lua esplêndida. E aquém desse luar alguns caminhos bifurcavam-se. Nesse jardim, naturalmente. Bem à maneira do conto de Jorge Luís Borges. Chega-se à janela e a cidade não perde a sua índole. Boas Festas, ó cidade.


Ano Novo, vida nova

Chegando o Ano Novo, somos levados a reflexões. Matutar sobre quem fomos e o que fizemos no malogrado 2006. Magicar sobre os caminhos a andar nos próximos 12 meses. Essas coisas meio confessionais e pirosas, mas que fazem parte do protocolo de existir. Rever o Blog, por exemplo. E pensar seriamente em acabar com o Albatrozberdiano. Chissana, caríssima amiga, dá sim vontade real de apagar o Blog. O bacalhau no forno, o peru e a champanhe que ficou na saudade. Os disparates da noite de SãoSilvestre que, noutros anos, incluiu um mergulho na Quebra Canela àmeia-noite. A filosofia barata perante mais esta página virada, de novo a esperança no amanhã. Para não falar de hilariantes resoluções: parar de escrever poemas, começar a correr pela Marginal; detestar o enforcamento de alguém, trabalhar menos; deixar as bebidas brancas, ter mais compromisso com esta cidade; gastar menos e poupar mais... E outros abalos continuados de emoção. A hora H de gente que reza, gente que chora, gente que se abraça…

And the winners are...

Os jornais locais – paradoxalmente na divisa da água – elegeram na derradeira semana as Personalidades e os Factos do Ano. O poder do discurso, uma vez mais, é o discurso do poder. Ou de poderes. De governar. E de desgovernar. Mas há uma verdade que emerge: os escolhidos (gentes efactos) são os destacáveis num ano aziago e para esquecer. Ser o melhor, num ano medíocre, realmente não é uma das melhores compensações. Ainda bem que chega o 2007. Espera-se que este venha sem militares, nem clandestinos estrangeiros…pelos mares.

Esse Drummond!

Não perderemos de vista o belo texto de Carlos Drummond de Andrade, que reza deste modo: "Para ganhar um Ano-Novo que mereça este nome,você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo. Eu sei que nãoé fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que oAno-Novo cochila e espera desde sempre". Drummond sabia das coisas. Isso nem o Pranchinha contesta…

Grand Finale

Aqui ficam estas primeiras linhas de 2007. O subentendido fica impregnado no desejo (quando não matizado, qual plástico aderente) dos leitores. Já vamos com sorte. Podermos já dar Boas Entradas a todos é já uma coisa…

sábado, 30 de dezembro de 2006

Cabo Verde a partir do Espaço

Casulo


Te amo sobretudo os lábios
e a resina viscosa dos teus seios,
pois a vulva dos teus olhos enlaça
a sedução invisível dos meus pêlos,
onde começo a viver e me embaraço,
porque me mato de amor quando te vejo.
Dimas Macedo

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

A LUA (dizem os ingleses)

A LUA (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.

E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De... não sei se é desejar.

Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando
Fernando Pessoa

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Praia de Santa Maria, regimentar o Regime & Boas Festas

Mote


Em conversa trivial com um confrade a política veio ao de cima. Para variar. Nem sempre falamos de poesia, infelizmente. Mas isso não deixa de ser um exercício de cidadania. Até porque especular sobre as suas latitudes, sobretudo a jeito de “jogar conversa fora”, não é apanágio e muito menos monopólio dos arrogantes da praça. Discorrer sobre a política deve ser direito e dever de todos. Havendo por baliza apenas o cavalheirismo e a elegância. Até porque, como diria alguém que bem conheço: ordi mata ka tem…

A cidadania municipal

Chegou a hora de os cidadãos da Cidade da Praia almejarem mais direitos políticos. O Estatuto Especial não poderá ser meramente administrativo. Ele terá de ter consistência política. Poder de decisão e de barganha, sobretudo. É preciso complementar a democracia representativa, praticada actualmente, com mecanismos de democracia directa. A cidadania municipal deverá vir à ordem do dia. Assim os cidadãos, através de iniciativas populares, teriam direito a fazer petições e a convocar plebiscitos, a embargar realizações lesivas à comunidade. Os cidadãos estariam a intervir directamente em vários aspectos da gestão municipal. As mudanças de nome dos bairros, ruas e logradouros seriam realizadas com o aval e a aprovação prévia da população interessada, através de petições expressivas, por exemplo. Uma inovação e tanto, mas que significaria apenas o cumprimento da Constituição Nacional, a rezar que estes poderes emanam do povo…
Ombudsman para o cidadão
E a mudança poderia ir mais longe. Que tal a Praia passar a contarcom a figura de um Ouvidor Municipal (chamado noutras paragens de Ombudsman) para defender os direitos dos cidadãos municipais, cobrando providências e coerência às autoridades? Um Ouvidor Municipal com voz e vez na Assembleia Municipal. Um Ouvidor Municipal que não estivesse filiado a partido político durante o exercício da função e olhasse tão-somente para a Praia que começa a ganhar velocidade e já não pode parar…


Uma questão de regime

Neste século, ou a democracia é participativa, ou o regime democrático, como nos é servido, será cada vez mais esvaziado, posto que não passa de um jogo formal no qual a cidadania só tem acesso decorativo. Para já é preciso ir além dos partidos e permitir espaço real aos cidadãos. Ademais, mesmo no “framework” dos partidos, precisamos de novas realidades de política activa que não apenas o bipartidarismo instalado, um tanto subliminarmente entre nós. Não que o bipartidarismo não tenha sido testado, com relativo sucesso, noutros lugares e noutras circunstância. Todavia, entre nós ele é empobrecedor. Ele não configura virtudes, nem galvaniza os rudimentos do nosso modelo constitucional que demandariam um mosaico parlamentar mais diverso e colorido, mais compatível com a natureza do regime que se quer…


Boas Festas


Leitores, não seria redundante afirmar quantas felicidades e venturas, quanta saúde, vos desejo a todos neste ano que vem aí a começar?

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

I got you (I feel good)



(...)
I feel nice
Like sugar and spice
(...)

Numa manhã de Natal, morria Charles Chaplin, o Charlot, em 1988. Agora, neste ano de 2006, para mim o mais aziago de todos, faz das suas também no Natal. Morreu James Brown, o pai da soul music. Mister Dynamite. O homem que, sem perder a áurea do gospel e do rhythm and blues, dedicou a sua vida a sonoridades mais energéticas. Se Charlot fazia rir e chorar, Brown fazia cantar e dançar. Ele era considerado o criador do rap, do funk e do “disco”. Mas era sobretudo alegria e movimento. It´s a man´s world. Ou Sex Machine…

domingo, 24 de dezembro de 2006

Praia Maria di Speransa bó ki é di meu

Natal na praia

Um Pai Natal com 30 metros de comprimento foi esculpido no areal da praia de Puri,
no estado indiano de Orissa.
Foto: Biswaranjan Rout/AP

sábado, 23 de dezembro de 2006

Santa Claus

Quis Deus
Que este momento
Fosse de ti apartado
E serenamente
Sonho
O dia
De
te olhar de novo
Aqui
, ali ou na morte
Assim
ou doutra forma
Tua
sombra ou fiapos de ti
Algo que me lembre outrora
Quando
Deus também quis e eu
Servo
de ti celebrava o dia soletrado…

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Boston Mood

Natal



Os Sinos de Natal
são cristalinos
testemunhos de Deus
e fazem bem.

Os Sinos de Natal
nas Torres de Belém
tocam matinas de luz
para um menino.

Nos Sinos de Natal
bronzes divinos
se fundem
e fazem hinos de amor
ao Santo Graal.

Nos Sinos de Natal
a minha infância adolesce
e em seus badalos de ouro
eu ponho a minha prece.

Ouço Jesus falando
em suas partituras.

Teço escrituras de luz
às notas musicais
dos Sinos de Belém.
Dimas Macedo

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Faltou luz em casa


Fotografia de Hélder Paz Monteiro
Mostra na Reitoria da Universidade de Cabo Verde
Dezembro de 2006

Notas soltas de Natal


0.
Em ocasião natalícia, o pessoal não devia fazer greve por tempo indeterminado. Há momentos que são de trégua. Há outros que são de paz e concórdia. Venham todos, familiares, amigos, afectos e desafectos, para a cristandade do momento. A Cidade da Praia já está cheia de luzes. O frenético das lojas, para o gáudio dos comerciantes, revela a dinâmica da hora. Ninguém ficará indiferente. E que ninguém leve as minhas coisas a mal. Sou sempre, mesmo na incapacidade, um ser de boa vontade. Mas estou triste, triste, triste…

1.
Este é um Natal onde não estás. A vida continuará, frenética e festiva, mas a tua ausência é triste e eterna. Jamais haverá Natal no meu coração, ainda que os feitos, tais como as orgias, reguem do melhor vinho outros encontros. As crianças brincam ruidosas. Os Natais têm a ver com elas de facto. E tu ficarás sempre ali, nas coisas que nunca digo, a velar por todos. Cada detalhe, és tu. Cada pequeno nada deste Natal onde não estás, é o teu desmedido amor…

2.
Herdei da minha mãe a ternura de ver as coisas. Com o meu pai, aprendi a duvidar do Verbo ser o primeiro acto. Soube que a Poesia é o Criador, a palavra, morfológica e concreta, é sua pura criatura. Com os meus filhos, vou aprendendo as malhas do mundo e vou deixando neles a minha marca indelével. Pressinto-os no latejar das minhas veias e queria que, um dia, me cerrassem os olhos. Sem liturgias, mas com perfumada poesia…

3.
Ajudei a organizar um Fórum. Falava-se ali sobre o Desenvolvimento Regional da Ilha de Santiago. Era uma coisa generosa, inclusiva e aberta. Era mais Cabo Verde. Tão diferente do sentido hegemónico de certos desacertos, que, ao longo dos anos, nos têm imposto elitezinhas levianas, desesperadas e bairristas. Tão à margem das conspirações regionalistas, e seus lobbies assombrosos, que desviam mundos e fundos para que não se desencravem os moradores de Santiago nos seus rincões e cutelos, achadas e fajãs, nossas leiras de terra enfim, sonho incisivo e visionário do poeta António Nunes. O Fórum de todos os cidadãos ciosos desta ilha maior e matricial, onde nasceu e tomou corpo a aventura crioula. Santiago, meu santo de todas as sementeiras, aqui me encontro. Estamos aqui. Por Cabo Verde…

4.
Com estas palavras vou sendo eu perante o mundo. Escrever, para mim, é deixar vestígios do pensamento e das andanças. É mostrar-vos as minhas máscaras, umas que levo aos bailes, outras que apresento nos velórios. Outrora, poeta pela contestação. Agora, contestatário ainda, mas pelas mais poéticas razões. Escrever, na alvura deste linha, é trazer pontos especiais do azul. E nesta solidão de mágoa sem cura, o azul da eterna idade é o que aqui desejo…

5.
Ficam, aqui e agora, os meus votos de Boas Festas. Aos familiares, amigos, afectos e desafectos…


sábado, 16 de dezembro de 2006

NATAL



Dou dos dados metáforas que tenho,
Até dava a larva que a vida trava,
Tudo soletrado em soneto, palavra
E o que me encrava, desde o antanho…

Dou também, como daria, verbos,
Interstícios e garbos, só vícios de mim,
Misérias sim, natalícios desencontros,
Outrora eras Musa, agora solstícios assim…

Se desse, já que algures darei, o corpo
À terra de estar contigo, Senhor permita
Que tramita em lacre meu pensamento…

E de tudo dado, e desse dar ali sobrasse,
Contentamento e, por ti, doce momento,
Errante nuvem, e eu aqui em viagem…


Filinto Elísio

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

D I Á R I O




Na agitação dos dias
e nos dias que são gastos
a vida esvai-se
e a vida se faz tudo.
E a morte se fez medo
onde lancei os dados
e ofertei os dedos
e afaguei
o tecido polido destas rugas.
E a sensibilidade da vida se fez surda
e a metafísica do mundo se fez mágica
e a magia do sonho em mim se fez abstração
porque a expressão do corpo é a verdade
e a claridade da alma é a paixão.
O sentido da vida: a liberdade.
A arte: minha suprema realização.
Dimas Macedo

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

O Fórum da hora

O Fórum da hora

Chegou a hora de reflectir e debater Santiago. Sem complexos, mas com complexidade. Ver Santiago em números e pensá-lo à luz das suas potencialidades. Pressentir Santiago em História e projectá-lo para um futuro de desenvolvimento. Amar Santiago em perspectiva e levá-lo para o ponto (mais que necessário, ó céus) da regionalização. Chegou a hora de dar um passo em frente e esquecer os fantasmas do quotidiano. De fazer a catarse essencial, para não dizer a exorcização necessária. Um problema tão complexo não deve ser encarado com simplismo para não resultar em complicação. Por isso, o Fórum é mister. É must. É hora...


Praia imparável

Falando, mais de perto e mais frequente, com Felisberto Vieira (Filú), Presidente da Câmara Municipal da Praia, entendo a razão de haver optado pela Praia ao invés da liderança partidária. Em verdade, pouco tempo depois desse recuo temporário, mas estratégico, Filú apresenta uma nova dinâmica, aliás prontamente reconhecida pela imprensa. A Praia começa a ganhar pinta e velocidade. Uns aplaudem, outros reclamam. Estes e aqueles são necessários para aquecer a locomotiva, diga-se. A dialéctica é o tónico para avançar as coisas. E as prioridades parecem estar definidas. A prioridade das prioridades, é o Estatuto Especial, esperando que desta feita a classe política não venha apoucar, por tão poucas razões, a capital de Cabo Verde. E, almejando que a edilidade até então morna e apática face aos desafios autárquicos ora surpreenda a todos pela positiva, pergunto: Significa que vamos desengatilhar todos os projectos e fazer a Praia entrar na rampa do desenvolvimento? A expectativa é que 2007 seja o ano em que muita coisa saia do papel. Queremos, com sentido de causa e de consequência, uma Praia moderna, competitiva e imparável…

Paixão Atlântica

Prestes a deflagrar o que pretende seja um sistema municipal de excelência, Filú terá que conciliar a busca da modernização com a superação de alguns atrasos estruturais da Praia (e de Santiago) que beiram o descaso e o escândalo. Uma realidade incompatível com o século XXI, e que não cabe numa capital que se quer Paixão Atlântica.

Livros

O bom livro é aquele que me agrada. Não me interessa se é de consagrado ou de novato, literatura clássica ou contemporânea, prosa ou poesia, texto definitivo ou descartável. Estes predicados somente têm importância em relação à ocasião, com espírito de o degustar, folha por folha e a cada momento. Caetano Veloso diria amar os livros com amor táctil. Gostar de tocá-los, na fímbria com que se devota tocar nos maços de cigarros. Cada escrita tem a sua hora certa e quando isso é verdade, como agora que leio Zadie Smith, os livros são momentos inesquecíveis.

Discos

O que é válido para livro, também o é para disco. De repente, em surpreendente e positivo espanto, escuto em primeira-mão o disco de Frederico Hopffer Almada, arquitecto que responde aos amigos e conhecidos por Nhonhó Hopffer. Antes de mais, prevalece aqui o bom gosto das músicas seleccionadas (e dos compositores da mais fina estampa nacional). Depois, o arranjo impecável de Kim Alves que extravasa na música, o que não afirma no discurso (e nem tem de o fazer, diga-se de passagem). Finalmente, o próprio Nhonhó, afinadíssimo da silva, a introduzir uma toada rouca e lamentosa, dolência de um certo cantar nas profundezas de Santiago, ilha maternal e matricial. Sinceramente, gostei. E recomendo o disco a todos. Este foi o ano do “Navega”, de Mayra Andrade, “Ao vivo e aos outros”, de Mário Lúcio, “Traz di Son”, de Ângelo Barbosa, “Dança das Ilhas”, de Kim Alves, e “Fragmentos”, de Ricardo de Deus. Será que entrámos na espiral do bom gosto? Quem dera…

domingo, 10 de dezembro de 2006

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.


Jorge de Sena

O Beijo...de Picasso

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Liberalização

A liberalização não se faz assim. Chegar com o mínimo e entrar no ar? Não devia ser assim, mas às vezes é. Não ponho em causa o mérito das televisões concorrentes. Todavia, estranhei que o processo se ajeite numa entrega de alvará a todas as proponentes, cabendo ao mercado fazer a regulamentação do sector televisivo. Parece-me haver alguma confusão nos espíritos, meus senhores. Uma meia dúzia de concorrentes alinha-se para a atribuição de licenças de televisão em sinal aberto, nomeadamente TV Record Cabo Verde, RTI, Media Press, Tiver, Nôs TV e TV Lacacan. Aparentemente é boa nova. Mas, pensando crítica e analiticamente, a liberalização deve ser mais processual e mais criteriosa. O concurso devia limitar, antes de mais, uma quota de entrada gradual e faseada, tendo como parâmetros as “máximas” e não as “mínimas” condições para operar. Assim como está sendo feito, prevaleceram todos, pois “Não deparámos com nenhuma irregularidade no processo. Todos cumpriram com os requisitos mínimos”. Ademais, democracia não é quantidade, mas qualidade. Ora, isto é empobrecedor e sub nivelado, deixando a impressão de que, em breve, haverá arrependimento por tanta pressa e alguma demagogia…

sábado, 2 de dezembro de 2006

Tamareira



Tristeza, minha Tamareira? Assim como “os frutos dos coqueiros não são só cocos”, o amor vai para lá das tâmaras. Não direi aqui das coisas veladas. Nem mostrarei o fio de Ariana no labirinto em que te encontras. Olha-te ao espelho, meu tudo. Acaricia-te até que o Narciso quede ali de quatro. Sacia-te da fome e sede, das coisas por dizer e por fazer. Lambuza-te das flores e dos frutos. Broas, vinhos, uvas, azeitonas e alcaparras. O pão saloio das mesas de vime e crepitem no pensamento os teus imortais pecados. Solta-te, do âmago, das profundezas de ti. Pródiga festa de ti própria. Fica nas dunas, em beleza tão-somente. Tu és bela, Tamareira. E fique tudo em melindre, inclusive as coisas que não digo. Inclusive, as noites de lua. As noites sem os dias indexados. E agora é Música…