Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
sexta-feira, 4 de março de 2005
quarta-feira, 2 de março de 2005
O Primeiro Dia
“O meticuloso exercício da escrita pode ser a nossa salvação”
Paula. Isabel Allende
O sinal da cruz
Tenho acompanhado, com angústia e admiração, as privações de João Paulo II. Como um asceta, ele aproxima-se da janela e faz o sinal da cruz à multidão vigilante. O gesto ritual ganha outro significado, porque, lá no fundo, todos sabem que o Santo Padre está na vertiginosa contagem decrescente. E, no âmago, ninguém sabe se para o salto noutra vida, dimensionada, crê-se, de mais pureza e santidade. Ou, se apenas regresso ao pó, vaticínio, algo como um destino, iniciado no Primeiro Dia. Angústia, não pela morte, axiomática como a luz, mas pela interrogação que traz a esta solidão peregrina. E admiração, porque na vida – e longe de mim a morbidez –, nada soa tão cristalina como um salto para o cronos e o caos da eterna idade…
Cavalheiro de fina estampa
Escrever, à minha resposta mais íntima, seria falar-vos aqui dos astros, dos vulcões e dos oceanos. Se o meu avô estivesse ainda vivo, o desfecho do meu livro seria outro. Intenso como era ele, havia de ter peso e espaço nesta história. O narrador teria até de pedir licença para vos conceder aos detalhes, pois, em termos de mesuras, o avô era mesmo um exímio. “Um cavalheiro de fina estampa”, repetia a minha tia mais velha. Rigoroso e erudito, o avô declamava, de cor e salteado, os cantos d´Os Lusíadas, de Luís de Camões, e contava, em miúdos, a tragédia da Assistência. E na minha história, introduzia-o como personagem central das incursões pelos inter-textos. A trama far-se-ia passear pelos 24 cantos e 12.000 versos hexâmetros com que Homero construiu o Odisseia. E daria, como ele sonhara, outro destino a Ulisses, náufrago recolhido na praia pela princesa Nausicaa. Havia de ter peso e espaço nesta história, porque, esquecido do primeiro dia, a minha mais recuada lembrança vê o avô na sua cadeira de baloiço, à porta da velha casa. E nesse quadro, ora ruidoso de meninos, ora bucólico de lua vaga, eu ali ficava a querer saber dos astros, dos vulcões e dos oceanos. E da seiva que, imperceptível, subia pelo tronco da velha espinheira, mais raquítica de que velha, diga-se. De ser esta saudade a minha grande metáfora…
Versos hexâmetros
Cada número uma palavra, assim faz o homem o seu próprio Oráculo, memorizando mesmo, no espaço, a sua memória do começo. E esta geometria lhe permite os versos hexâmetros com que vai vivendo os limites ou termos das coisas. O finito e o infinito, o limitado e o ilimitado, tudo geometricamente em harmonia, dirá o homem para que possa sonhar e criar. E vai sabendo isto do Génese: No princípio Deus criou a terra. A terra achava-se vazia, as trevas cobriam o abismo e o vento de Deus girava sobre as águas. Então, Deus disse “Exista a luz” e assim se cumpriu. Deus viu que a luz era boa, apartou-a das trevas, chamou à lua “dia” e às trevas “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia…
O poderoso vinho
O Pranchinha, sempre a profanar a crónica, entra no texto e mostra-me um pasquim desta praça. O jornaleco vomita, da primeira à última página, a sua pestilência. Meu amor, morri ontem quando o tempo abrasado ao sol cambava atrás dos montes. Ísis, recolhe-me em pedaços e sopra os meus lábios de retorno à vida. Sou zapping desse espectáculo dos mitos. E quando se ama a matemática, o primeiro dia passa a ser uma condição incessante e quase sempre aleatória. No corredor tríade da vida, o primeiro dia é a impressão da memória. Os números não passam de uma feiticeira chamada Circe que, com o seu poderoso vinho, tem o dom de transformar os homens em bestas. E vice-versa…
Suma Teológica
Como diria São Tomás de Aquino, o número é a multitudo mensurata per unum. O Papa aproxima-se novamente da janela e faz o sinal da cruz à multidão…
Filinto Elísio
Paula. Isabel Allende
O sinal da cruz
Tenho acompanhado, com angústia e admiração, as privações de João Paulo II. Como um asceta, ele aproxima-se da janela e faz o sinal da cruz à multidão vigilante. O gesto ritual ganha outro significado, porque, lá no fundo, todos sabem que o Santo Padre está na vertiginosa contagem decrescente. E, no âmago, ninguém sabe se para o salto noutra vida, dimensionada, crê-se, de mais pureza e santidade. Ou, se apenas regresso ao pó, vaticínio, algo como um destino, iniciado no Primeiro Dia. Angústia, não pela morte, axiomática como a luz, mas pela interrogação que traz a esta solidão peregrina. E admiração, porque na vida – e longe de mim a morbidez –, nada soa tão cristalina como um salto para o cronos e o caos da eterna idade…
Cavalheiro de fina estampa
Escrever, à minha resposta mais íntima, seria falar-vos aqui dos astros, dos vulcões e dos oceanos. Se o meu avô estivesse ainda vivo, o desfecho do meu livro seria outro. Intenso como era ele, havia de ter peso e espaço nesta história. O narrador teria até de pedir licença para vos conceder aos detalhes, pois, em termos de mesuras, o avô era mesmo um exímio. “Um cavalheiro de fina estampa”, repetia a minha tia mais velha. Rigoroso e erudito, o avô declamava, de cor e salteado, os cantos d´Os Lusíadas, de Luís de Camões, e contava, em miúdos, a tragédia da Assistência. E na minha história, introduzia-o como personagem central das incursões pelos inter-textos. A trama far-se-ia passear pelos 24 cantos e 12.000 versos hexâmetros com que Homero construiu o Odisseia. E daria, como ele sonhara, outro destino a Ulisses, náufrago recolhido na praia pela princesa Nausicaa. Havia de ter peso e espaço nesta história, porque, esquecido do primeiro dia, a minha mais recuada lembrança vê o avô na sua cadeira de baloiço, à porta da velha casa. E nesse quadro, ora ruidoso de meninos, ora bucólico de lua vaga, eu ali ficava a querer saber dos astros, dos vulcões e dos oceanos. E da seiva que, imperceptível, subia pelo tronco da velha espinheira, mais raquítica de que velha, diga-se. De ser esta saudade a minha grande metáfora…
Versos hexâmetros
Cada número uma palavra, assim faz o homem o seu próprio Oráculo, memorizando mesmo, no espaço, a sua memória do começo. E esta geometria lhe permite os versos hexâmetros com que vai vivendo os limites ou termos das coisas. O finito e o infinito, o limitado e o ilimitado, tudo geometricamente em harmonia, dirá o homem para que possa sonhar e criar. E vai sabendo isto do Génese: No princípio Deus criou a terra. A terra achava-se vazia, as trevas cobriam o abismo e o vento de Deus girava sobre as águas. Então, Deus disse “Exista a luz” e assim se cumpriu. Deus viu que a luz era boa, apartou-a das trevas, chamou à lua “dia” e às trevas “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia…
O poderoso vinho
O Pranchinha, sempre a profanar a crónica, entra no texto e mostra-me um pasquim desta praça. O jornaleco vomita, da primeira à última página, a sua pestilência. Meu amor, morri ontem quando o tempo abrasado ao sol cambava atrás dos montes. Ísis, recolhe-me em pedaços e sopra os meus lábios de retorno à vida. Sou zapping desse espectáculo dos mitos. E quando se ama a matemática, o primeiro dia passa a ser uma condição incessante e quase sempre aleatória. No corredor tríade da vida, o primeiro dia é a impressão da memória. Os números não passam de uma feiticeira chamada Circe que, com o seu poderoso vinho, tem o dom de transformar os homens em bestas. E vice-versa…
Suma Teológica
Como diria São Tomás de Aquino, o número é a multitudo mensurata per unum. O Papa aproxima-se novamente da janela e faz o sinal da cruz à multidão…
Filinto Elísio
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005
Blog Nota 4
Adriana Calcanhoto
Estamos a preparar o lançamento do “Das Frutas Serenadas”, na cidade da Praia. Mano Preto introduz a ideia de uma dança de corpos pintados. Ele e a dançarina italiana Frederica. Além da pintura corporal, vamos inflectir mais a ideia da percussão no corpo. Fizemo-lo no Mindelo e o efeito foi bonito. Ouvi Adriana Calcanhoto a cantar Jornal de Serviço, um poema musicado de Carlos Drummond de Andrade, e fiquei maravilhado. Ela não utiliza os instrumentos considerados normais, apenas o som das Páginas Amarelas folheadas. Uma coisa inovadora e com um incrível impacto sonoro.
A pintura corporal dos índios Xerente
Achei tão interessante a ideia de Mano Prato que fui analisar o universo artístico (e antropológico) das pinturas corporais. Adorei as informações sobre as causas e os motivos da pintura corporal dos índios Xerente. Estes, quando dançam (também palavras, note-se), re-confeccionam o corpo com os seguintes elementos: carvão misturado com pau-de-leite faz o preto; sementes de urucum fazem o vermelho e o branco é completado com penugem de periquito ou algodão. Antes da pintura, os corpos são untados com óleo de babaçu. Os detalhes - círculo ou traços - são esculpidos em pedaços de miolo de tora de buriti, e utilizados como uma espécie de "carimbo". O resto é dançar as palavras…
Mês de teatro
Em Março, o Mindelact assinalará o mês de teatro. Esta será mais uma oportunidade de intercâmbio entre as várias dramaturgias, como também seria importante prestar uma atenção maior à produção cabo-verdiana que, em função das dificuldades conjunturais, ainda não ganhou a dinâmica desejada. O teatro protagoniza o nosso surto de pertença cultural e é, em permanência, deflagrador do nosso processo identitário. Por isso, sejamos simbiótica e intermitentemente destas ilhas e deste mundo. Naturalmente que as grandes peças universais importam ser montadas em Cabo Verde, porque não faz o menor sentido ficarmos isolados em matéria da arte, qualquer que seja ela. E é preciso reconhecer que, graças ao Mindelact, a ponte da dramaturgia cabo-verdiana continuou de pé.
Celeumas (sempre) necessárias
Uma pequena celeuma corre sobre a existência ou não do genuíno teatro cabo-verdiano. É interessante reparar que hoje as atenções voltam para a discussão do teatro. Antes disso, estávamos um tanto intoxicados pelas celeumas futeboleiras e/ou partidárias. Tirando uma ou outra posição mais extremada, também parte do show (e de um bairrismo, aqui e acolá, parte da nossa mediocridade), o que importa é o regresso de Kwame Kondé ao teatro activo. Agora que já renascem vários grupos cénicos na capital, o retorno de Kondé pode ser encarado como algo emblemático, além da operação de charme. Mais do que as múltiplas aparências, façamos coisas essenciais. Este país precisa de qualidade. Em tudo. E depois, como ensinou Platão, o mundo das imagens é também o da efemeridade. Até para o mantermos, enquanto realidade encantatória, precisaríamos desta reinvenção. Pela essência, naturalmente…
Tcheka
Tcheka Andrade, imenso músico, por si só, configura-nos uma noite diferente. O espectáculo do sábado passado, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, foi algo diferente, bonito e bem apanhado. O profundamente tradicional mesclado a um arranjo para lá de moderno. Às tantas, viajei para as batidas de Baba Maal, as melodias Al di Meola e o “remelexo” de Jonathan Butler. Parei também nos lamentos de Codé di Dona, na graça de Bibinha Cabral e na alma eterna de Orlando Pantera. Em suma, um show e tanto, com o brinde da poderosa Lura, em dueto transcendente com Tcheka. E a banda – ele, mais Kizó, Raul e Hernâni – é a nata de uma geração que já deu muito e mais ainda tem para dar a Cabo Verde. O som pesado do quarteto não deixa ninguém indiferente. A mim, deu-me ganas de gritar – a risco de dar vexame na ambiência intimista: viva a música!
Nota e anota: o guitarrista Hernâni é de facto uma preciosidade. O Cyber Sofia e o Tera estão, uma vez mais, de parabéns. Façam barulho, apesar dos guardiães do velho templo…
Estamos a preparar o lançamento do “Das Frutas Serenadas”, na cidade da Praia. Mano Preto introduz a ideia de uma dança de corpos pintados. Ele e a dançarina italiana Frederica. Além da pintura corporal, vamos inflectir mais a ideia da percussão no corpo. Fizemo-lo no Mindelo e o efeito foi bonito. Ouvi Adriana Calcanhoto a cantar Jornal de Serviço, um poema musicado de Carlos Drummond de Andrade, e fiquei maravilhado. Ela não utiliza os instrumentos considerados normais, apenas o som das Páginas Amarelas folheadas. Uma coisa inovadora e com um incrível impacto sonoro.
A pintura corporal dos índios Xerente
Achei tão interessante a ideia de Mano Prato que fui analisar o universo artístico (e antropológico) das pinturas corporais. Adorei as informações sobre as causas e os motivos da pintura corporal dos índios Xerente. Estes, quando dançam (também palavras, note-se), re-confeccionam o corpo com os seguintes elementos: carvão misturado com pau-de-leite faz o preto; sementes de urucum fazem o vermelho e o branco é completado com penugem de periquito ou algodão. Antes da pintura, os corpos são untados com óleo de babaçu. Os detalhes - círculo ou traços - são esculpidos em pedaços de miolo de tora de buriti, e utilizados como uma espécie de "carimbo". O resto é dançar as palavras…
Mês de teatro
Em Março, o Mindelact assinalará o mês de teatro. Esta será mais uma oportunidade de intercâmbio entre as várias dramaturgias, como também seria importante prestar uma atenção maior à produção cabo-verdiana que, em função das dificuldades conjunturais, ainda não ganhou a dinâmica desejada. O teatro protagoniza o nosso surto de pertença cultural e é, em permanência, deflagrador do nosso processo identitário. Por isso, sejamos simbiótica e intermitentemente destas ilhas e deste mundo. Naturalmente que as grandes peças universais importam ser montadas em Cabo Verde, porque não faz o menor sentido ficarmos isolados em matéria da arte, qualquer que seja ela. E é preciso reconhecer que, graças ao Mindelact, a ponte da dramaturgia cabo-verdiana continuou de pé.
Celeumas (sempre) necessárias
Uma pequena celeuma corre sobre a existência ou não do genuíno teatro cabo-verdiano. É interessante reparar que hoje as atenções voltam para a discussão do teatro. Antes disso, estávamos um tanto intoxicados pelas celeumas futeboleiras e/ou partidárias. Tirando uma ou outra posição mais extremada, também parte do show (e de um bairrismo, aqui e acolá, parte da nossa mediocridade), o que importa é o regresso de Kwame Kondé ao teatro activo. Agora que já renascem vários grupos cénicos na capital, o retorno de Kondé pode ser encarado como algo emblemático, além da operação de charme. Mais do que as múltiplas aparências, façamos coisas essenciais. Este país precisa de qualidade. Em tudo. E depois, como ensinou Platão, o mundo das imagens é também o da efemeridade. Até para o mantermos, enquanto realidade encantatória, precisaríamos desta reinvenção. Pela essência, naturalmente…
Tcheka
Tcheka Andrade, imenso músico, por si só, configura-nos uma noite diferente. O espectáculo do sábado passado, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, foi algo diferente, bonito e bem apanhado. O profundamente tradicional mesclado a um arranjo para lá de moderno. Às tantas, viajei para as batidas de Baba Maal, as melodias Al di Meola e o “remelexo” de Jonathan Butler. Parei também nos lamentos de Codé di Dona, na graça de Bibinha Cabral e na alma eterna de Orlando Pantera. Em suma, um show e tanto, com o brinde da poderosa Lura, em dueto transcendente com Tcheka. E a banda – ele, mais Kizó, Raul e Hernâni – é a nata de uma geração que já deu muito e mais ainda tem para dar a Cabo Verde. O som pesado do quarteto não deixa ninguém indiferente. A mim, deu-me ganas de gritar – a risco de dar vexame na ambiência intimista: viva a música!
Nota e anota: o guitarrista Hernâni é de facto uma preciosidade. O Cyber Sofia e o Tera estão, uma vez mais, de parabéns. Façam barulho, apesar dos guardiães do velho templo…
Tâmaras
Das janelas, olhávamos o abraço da baía
Os mastros entrados pelas enseadas,
O movimento dos corpos soluçantes
A exaustão das horas que se abraçam…
Olhávamos também, amor, o sol a pique
Que, das manhãs, dourava todas as frutas,
Era tua rua de infância, e estavas nua,
Molhada chuva e eu, ali, liquefeito…
Conta-me um pouco de haverem deuses,
Só um bocado desse paraíso de bocas
Fá-lo sem medo, assim como as loucas…
Toca-me, pelo fundo, amor, tão frágil
Quão poderosa, foste, num só momento,
E ter aquilo sido toda a eternidade…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
Os mastros entrados pelas enseadas,
O movimento dos corpos soluçantes
A exaustão das horas que se abraçam…
Olhávamos também, amor, o sol a pique
Que, das manhãs, dourava todas as frutas,
Era tua rua de infância, e estavas nua,
Molhada chuva e eu, ali, liquefeito…
Conta-me um pouco de haverem deuses,
Só um bocado desse paraíso de bocas
Fá-lo sem medo, assim como as loucas…
Toca-me, pelo fundo, amor, tão frágil
Quão poderosa, foste, num só momento,
E ter aquilo sido toda a eternidade…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
Uvas
Esplêndidas delícias de acariciadas mãos,
Navegantes das fomes e contemplativas das sedes,
Eras tu pelas alamedas dos abacateiros em flor
E caminhavas, nua, pela rua profanada…
E o resto era eu, minha fruta serenada,
À tua incessante procura, de mim, errante lua,
Seios de duna, à beira do oásis da loucura
E de abrir os olhos, na areia, e estás evadida…
Perdidas as mágoas, açucena das nuvens,
Em madrigais de amor a tua voz flutua assim
Como em furtivas dentadas na fruta enfim…
Ou como que a língua lambe o dentro das uvas
As catedrais, minha Eva luna, dos gemidos
Ser a cópula o decoro sobre os altares…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
Navegantes das fomes e contemplativas das sedes,
Eras tu pelas alamedas dos abacateiros em flor
E caminhavas, nua, pela rua profanada…
E o resto era eu, minha fruta serenada,
À tua incessante procura, de mim, errante lua,
Seios de duna, à beira do oásis da loucura
E de abrir os olhos, na areia, e estás evadida…
Perdidas as mágoas, açucena das nuvens,
Em madrigais de amor a tua voz flutua assim
Como em furtivas dentadas na fruta enfim…
Ou como que a língua lambe o dentro das uvas
As catedrais, minha Eva luna, dos gemidos
Ser a cópula o decoro sobre os altares…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
sábado, 26 de fevereiro de 2005
Intervalo 1: Guillermo Cabrera Infante
Faleceu o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, em Londres, aos 75 anos. Vencedor do Prémio Cervantes em 1997, dissidente do regime de Cuba, país de onde se exilou na Europa em 1965, o autor de Três Tristes Tigres vivia em Londres há mais de três décadas.
Admirador de Borges, apaixonado pelo cinema - foi o fundador da Cinemateca de Cuba, em 1951 - amante de boleros, Cabrera Infante nasceu em 22 de Abril de 1929, em Gibara, província de Oriente, Cuba. Em 1960, publicou seu primeiro livro importante, chamado Assim na Paz como na Guerra. Em 1962, o escritor viajou à Bélgica como adido cultural do governo cubano. Esta saída de seu país, do qual não parou de escrever apesar do longo exílio, o levou a questionar a revolução cubana, passando a ser um dos mais duros críticos do governo de Fidel Castro.
Em 1964, Infante ganhou seu primeiro prémio internacional com Vista do Amanhecer no Trópico, o Prémio Biblioteca Breve, de Seix Barral. Em 1967, publicou Três Tristes..., o romance experimental que o tornou conhecido em todo o planeta, no qual utiliza a fala popular cubana, muitos jogos de palavras, paródias e sua grande erudição.
Confira a obra completa:
Romances:
- Vista del amanecer en el trópico (1965)
- Tres Tristes Tigres (1967)
- La Habana para un Infante difunto (1979)
- Holly Smoke (1995)
- Delito por bailar chachachá (1995)
- Ella cantaba boleros (1996)
- La Amazona (1996)
- Mi música extremada (1996)
Ensaios:
- Así en la paz como en la guerra (1960)
- Un oficio del siglo XX (1973)
- Exorcismos de Esti(l)o (1976)
- Mea Cuba (1992)
- Arcadia todas las noches (1995)
- Cine o sardina (1997)
Também escreveu a adaptação do romance Bajo el volcán, de Malcolm Lowry, para o cinema.
Admirador de Borges, apaixonado pelo cinema - foi o fundador da Cinemateca de Cuba, em 1951 - amante de boleros, Cabrera Infante nasceu em 22 de Abril de 1929, em Gibara, província de Oriente, Cuba. Em 1960, publicou seu primeiro livro importante, chamado Assim na Paz como na Guerra. Em 1962, o escritor viajou à Bélgica como adido cultural do governo cubano. Esta saída de seu país, do qual não parou de escrever apesar do longo exílio, o levou a questionar a revolução cubana, passando a ser um dos mais duros críticos do governo de Fidel Castro.
Em 1964, Infante ganhou seu primeiro prémio internacional com Vista do Amanhecer no Trópico, o Prémio Biblioteca Breve, de Seix Barral. Em 1967, publicou Três Tristes..., o romance experimental que o tornou conhecido em todo o planeta, no qual utiliza a fala popular cubana, muitos jogos de palavras, paródias e sua grande erudição.
Confira a obra completa:
Romances:
- Vista del amanecer en el trópico (1965)
- Tres Tristes Tigres (1967)
- La Habana para un Infante difunto (1979)
- Holly Smoke (1995)
- Delito por bailar chachachá (1995)
- Ella cantaba boleros (1996)
- La Amazona (1996)
- Mi música extremada (1996)
Ensaios:
- Así en la paz como en la guerra (1960)
- Un oficio del siglo XX (1973)
- Exorcismos de Esti(l)o (1976)
- Mea Cuba (1992)
- Arcadia todas las noches (1995)
- Cine o sardina (1997)
Também escreveu a adaptação do romance Bajo el volcán, de Malcolm Lowry, para o cinema.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
Blog Nota 3
Realismo interior
De repente, tive a necessidade existencial de incluir no livro “Das Frutas Serenadas”, um caderno sobre as pedras, assumindo um caminho contrário da ascese fenomenológica. De forma consciente, em vez de procurar partir das pedras até à esfera da metafísica, “viajo” do abstracto (emoções, lembranças, sensações, movimentos da consciência) para incarnar nas pedras, como um concentrado de objectos, “coisas” que acumulam espaço e peso na minha existência. O ideal seria chegar à poética “expressionista”, tirando a conotação histórica do termo, e revelar o tal realismo interior…
O sujeito-eu
Fazer poesia é conceder-me ao sujeito-eu, revelar-me ao mundo e para o mundo. Não falo aqui da salvação, essa coisa judaico-cristã da salvação… mas quando consigo um poema, experimento um prazer sensual, carnal, erótico: consegui chegar a uma êxtase em mim próprio e sou, ainda que por lapsos, feliz. Nada a ver com a ascese… Escrever é poder desnudar a coisa, tirar o véu, a roupa, o preconceito, o tabu, sorver a luz e a sombra das coisas. A essência das frutas, quando reveladas ou mesmo serenadas pelo desejo humano.
Além da gramática
Não sou um obcecado pela gramática, pela métrica que até muito tempo dourava os versos. Os versos de há muito que desceram do panthéon e caíram na sarjeta. Prefiro a sensualidade da língua: usar uma língua sem afectações ou citações, podendo até recriar termos que se adaptem à ambiência. A poesia fala do Ser, relacional consigo, com o Outro e com as coisas e, por isso, transcende os cânones. O canto é um limite inatingível porque subverte tudo, inclusive a própria estética. O processo criativo sugere a duplicidade e a ambiguidade sempre. A poesia, mesmo quando recupera emoções singelas, subverte o instituído. O quadro Mona Lisa de Gioconda, de Leonardo Da Vinci grita tanto quanto Guernica, de Pablo Picasso.
A bater desvairado
Regresso à Praia, com Mário Lúcio e Mano Preto, dois artistas que me acompanharam na montagem e no desempenho do espectáculo «Das Frutas Serenadas», apresentado, sábado passado, no pub do Mindel Hotel. Na ilha do Porto Grande, ficaram Tchalé Figueira e João Branco, ambos integrantes do projecto, com a promessa de se nos juntarem na capital para a reconstituição da peça, algures em Março. O avião da TACV fez uma aproximação apressada e o touch down foi de acordar tudo e todos. A noite está serena e meio fria neste meu regresso. E penso nas coisas passadas no Mindelo. Já está na hora de eu me despir, de libertar a sensualidade que guardava nesta minha mão…
Viés da pesada
Revejo mentalmente o espectáculo. A parte do altar profanado. O fogo ateado à fresta dos poemas. O sanatório de repente criado. A descontinuidade do recital. Ninguém a sair ileso. Abstenho-me cada vez mais das brigas por reconhecer minhas limitações. Estou perplexo: engavetou-se a sensualidade. O necessário debate cultural caiu em saco roto. Em prol das luzes, nada. Erigiram-se a maledicência e a ignorância para o centro do debate. Quanto pior, melhor. As aspirações foram redimensionadas para baixo. Quando podíamos expressar as grandes ambições em relação às possibilidades estéticas desta nossa geração.
O sujeito-outro
Toda a minha poesia tem mote nesta frase de Clarice Lispector: “Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne e osso”. Sou múltiplo e individuar isso é o grande desafio. A consciência de também carregar o sujeito-outro. E diante do espelho confessar – à Poesis, que outro valor ali fenece – que tenho um nó da tua gravata no meu coração
De repente, tive a necessidade existencial de incluir no livro “Das Frutas Serenadas”, um caderno sobre as pedras, assumindo um caminho contrário da ascese fenomenológica. De forma consciente, em vez de procurar partir das pedras até à esfera da metafísica, “viajo” do abstracto (emoções, lembranças, sensações, movimentos da consciência) para incarnar nas pedras, como um concentrado de objectos, “coisas” que acumulam espaço e peso na minha existência. O ideal seria chegar à poética “expressionista”, tirando a conotação histórica do termo, e revelar o tal realismo interior…
O sujeito-eu
Fazer poesia é conceder-me ao sujeito-eu, revelar-me ao mundo e para o mundo. Não falo aqui da salvação, essa coisa judaico-cristã da salvação… mas quando consigo um poema, experimento um prazer sensual, carnal, erótico: consegui chegar a uma êxtase em mim próprio e sou, ainda que por lapsos, feliz. Nada a ver com a ascese… Escrever é poder desnudar a coisa, tirar o véu, a roupa, o preconceito, o tabu, sorver a luz e a sombra das coisas. A essência das frutas, quando reveladas ou mesmo serenadas pelo desejo humano.
Além da gramática
Não sou um obcecado pela gramática, pela métrica que até muito tempo dourava os versos. Os versos de há muito que desceram do panthéon e caíram na sarjeta. Prefiro a sensualidade da língua: usar uma língua sem afectações ou citações, podendo até recriar termos que se adaptem à ambiência. A poesia fala do Ser, relacional consigo, com o Outro e com as coisas e, por isso, transcende os cânones. O canto é um limite inatingível porque subverte tudo, inclusive a própria estética. O processo criativo sugere a duplicidade e a ambiguidade sempre. A poesia, mesmo quando recupera emoções singelas, subverte o instituído. O quadro Mona Lisa de Gioconda, de Leonardo Da Vinci grita tanto quanto Guernica, de Pablo Picasso.
A bater desvairado
Regresso à Praia, com Mário Lúcio e Mano Preto, dois artistas que me acompanharam na montagem e no desempenho do espectáculo «Das Frutas Serenadas», apresentado, sábado passado, no pub do Mindel Hotel. Na ilha do Porto Grande, ficaram Tchalé Figueira e João Branco, ambos integrantes do projecto, com a promessa de se nos juntarem na capital para a reconstituição da peça, algures em Março. O avião da TACV fez uma aproximação apressada e o touch down foi de acordar tudo e todos. A noite está serena e meio fria neste meu regresso. E penso nas coisas passadas no Mindelo. Já está na hora de eu me despir, de libertar a sensualidade que guardava nesta minha mão…
Viés da pesada
Revejo mentalmente o espectáculo. A parte do altar profanado. O fogo ateado à fresta dos poemas. O sanatório de repente criado. A descontinuidade do recital. Ninguém a sair ileso. Abstenho-me cada vez mais das brigas por reconhecer minhas limitações. Estou perplexo: engavetou-se a sensualidade. O necessário debate cultural caiu em saco roto. Em prol das luzes, nada. Erigiram-se a maledicência e a ignorância para o centro do debate. Quanto pior, melhor. As aspirações foram redimensionadas para baixo. Quando podíamos expressar as grandes ambições em relação às possibilidades estéticas desta nossa geração.
O sujeito-outro
Toda a minha poesia tem mote nesta frase de Clarice Lispector: “Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne e osso”. Sou múltiplo e individuar isso é o grande desafio. A consciência de também carregar o sujeito-outro. E diante do espelho confessar – à Poesis, que outro valor ali fenece – que tenho um nó da tua gravata no meu coração
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Breaking news (para leitura)
Simone de Beauvoir, escritora e feminista francesa
por Rubem Queiroz Cobra
A escritora francesa e feminista, Simone De Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro de 1908, e faleceu a 14 de Abril de 1986, em Paris. Participante do grupo dos filósofos que deram uma transcrição literária aos temas do Existencialismo, ela é conhecida primeiramente pelo seu tratado Le Deuxième Sexe (1949 - O Segundo Sexo), um apelo intelectual e apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta notável obra tornou-se um clássico da literatura feminista.
Educada em instituições privadas, Simone depois freqüentou a Sorbone onde, em 1929, concluiu filosofia e conheceu Jean-Paul Sartre, começando com ele um companheirismo por todo o resto da vida. Ela leccionou em várias escolas (1931-43) antes de voltar para a escrita. Em 1945, ela e Sartre fundaram e começaram a editar Les Temps modernes, uma revista mensal, da qual eles próprios eram os principais colaboradores.
As suas novelas abordavam os principais temas existencialistas, demonstrando o compromisso do escritor com sua época. L'Invitée (1943 - "A convidada") descreve a destruição do relacionamento de um casal subtilmente provocada pela permanência prolongada de uma jovem na própria casa, e também trata do difícil problema de relacionamento da consciência individual com a outra. A sua obra mais conhecida talvez seja é Les Mandarins (1954; Os mandarins), uma crónica sobre os intelectuais do pós-guerra, "mandarins", em face ao engajamento ao ativismo político, uma lição que os intelectuais de esquerda e seus admiradores aprenderam com rapidez em todo o mundo.
Ela também escreveu quatro livros de filosofia, Pour une Morale de l'ambiguité (1947 - "A ética da ambigüidade"); livros de viagens sobre a China La Longue Marche: essai sur la Chine (1957 - A Longa Marcha: ensaio sobre a China) e L'Amérique au jour de jour (1948 - "A América dia a dia), e vários outros ensaios, dos quais o mais conhecido é o referido "O Segundo Sexo".
Vários volumes de sua obra são devotados à autobiografia. Esses incluem Mémoires d'une jeune fille rangée (1958 - Memórias de uma filha diligente), La Force de l'âge (1960 - O vigor da idade), La Force des choses (1963 - A força das coisas), e Tout compte fait (1972 - Tudo dito e feito). Esses trabalhos mostram um retrato claro e significativo da vida intelectual francesa dos anos 30 aos anos 70.
Preocupada também com o problema da velhice, que ela aborda em Une Mort très douce (1964 - "Uma morte suave"), sobre a morte de sua mãe num hospital, e La Vieillesse (1970; Old Age), uma amarga reflexão sobre a indiferença da sociedade pelos velhos. Em 1981 ela escreveu La Cérémonie des adieux ("Cerimônia do adeus"), um doloroso relato dos últimos anos de Sartre. Considerada uma mulher corajosa e íntegra, Simone de Beauvoir viveu de acordo com sua própria tese de que as opções básicas de um indivíduo devem ser feitas sobre a premissa e uma vocação igual para o homem e a mulher fundadas na estrutura comum de seus seres, independentemente de sua sexualidade.
por Rubem Queiroz Cobra
A escritora francesa e feminista, Simone De Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro de 1908, e faleceu a 14 de Abril de 1986, em Paris. Participante do grupo dos filósofos que deram uma transcrição literária aos temas do Existencialismo, ela é conhecida primeiramente pelo seu tratado Le Deuxième Sexe (1949 - O Segundo Sexo), um apelo intelectual e apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta notável obra tornou-se um clássico da literatura feminista.
Educada em instituições privadas, Simone depois freqüentou a Sorbone onde, em 1929, concluiu filosofia e conheceu Jean-Paul Sartre, começando com ele um companheirismo por todo o resto da vida. Ela leccionou em várias escolas (1931-43) antes de voltar para a escrita. Em 1945, ela e Sartre fundaram e começaram a editar Les Temps modernes, uma revista mensal, da qual eles próprios eram os principais colaboradores.
As suas novelas abordavam os principais temas existencialistas, demonstrando o compromisso do escritor com sua época. L'Invitée (1943 - "A convidada") descreve a destruição do relacionamento de um casal subtilmente provocada pela permanência prolongada de uma jovem na própria casa, e também trata do difícil problema de relacionamento da consciência individual com a outra. A sua obra mais conhecida talvez seja é Les Mandarins (1954; Os mandarins), uma crónica sobre os intelectuais do pós-guerra, "mandarins", em face ao engajamento ao ativismo político, uma lição que os intelectuais de esquerda e seus admiradores aprenderam com rapidez em todo o mundo.
Ela também escreveu quatro livros de filosofia, Pour une Morale de l'ambiguité (1947 - "A ética da ambigüidade"); livros de viagens sobre a China La Longue Marche: essai sur la Chine (1957 - A Longa Marcha: ensaio sobre a China) e L'Amérique au jour de jour (1948 - "A América dia a dia), e vários outros ensaios, dos quais o mais conhecido é o referido "O Segundo Sexo".
Vários volumes de sua obra são devotados à autobiografia. Esses incluem Mémoires d'une jeune fille rangée (1958 - Memórias de uma filha diligente), La Force de l'âge (1960 - O vigor da idade), La Force des choses (1963 - A força das coisas), e Tout compte fait (1972 - Tudo dito e feito). Esses trabalhos mostram um retrato claro e significativo da vida intelectual francesa dos anos 30 aos anos 70.
Preocupada também com o problema da velhice, que ela aborda em Une Mort très douce (1964 - "Uma morte suave"), sobre a morte de sua mãe num hospital, e La Vieillesse (1970; Old Age), uma amarga reflexão sobre a indiferença da sociedade pelos velhos. Em 1981 ela escreveu La Cérémonie des adieux ("Cerimônia do adeus"), um doloroso relato dos últimos anos de Sartre. Considerada uma mulher corajosa e íntegra, Simone de Beauvoir viveu de acordo com sua própria tese de que as opções básicas de um indivíduo devem ser feitas sobre a premissa e uma vocação igual para o homem e a mulher fundadas na estrutura comum de seus seres, independentemente de sua sexualidade.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005
À andaluza
por Filinto Elísio
Em memória de Lúcia Dias
1.
Faleceu Lúcia Dias. E a morte, uma vez mais, tem destas. Apanha-me de surpresa. E, entre o espanto e a tristeza, uma espécie de fúria invadiu a minha alma, cada vez mais metafísica. Não quero conhecer detalhes, nem ouvir explicações, agora que algo me diz da irreversibilidade que é a ausência desta minha amiga. Só queria recitar, entre dentes e para os meus botões, os versos Quando eu morrer batam em latas. Muitos foram os momentos em que me privei com Lúcia Dias. Em verdade, éramos amigos desde a infância. De então até ontem, a sua alegria fazia transbordar a minha vida, ora de riso, ora de reflexão. De riso, porque Lúcia, mesmo no siso, era inteligentemente bem humorada. E de reflexão, porque, pessoanamente falando, tinha na mais pueril gargalhada uma essência taciturna que me perturbava. Lembro-me dela, há quase trinta anos, confessar – a brincar bem me parecia - que tinha um coração grande e eu – dado a trocadilhos ali sem consequências – que ela tinha, sim, um grande coração.
2.
Uma vez, nos Estados Unidos, encontrei-me com Lúcia Dias, parte de uma delegação governamental. Se não me engano, ela acompanhava a visita do então primeiro-ministro Carlos Veiga a Nova Inglaterra. Reza a história de uma manifestação que preparávamos na época, chamando atenção para o Armazém de Cabo Verde, na cidade baleeira de New Bedford. Mas ela, distinguindo sempre o trigo do joio, quis um encontro onde pudéssemos falar de tudo. E de nada. Jantámos juntos num restaurante, em Cambridge, de onde a envidraçada cidade de Boston parecia um poema monumental. E, mais de que encantamento, ambos ficamos de repente nostálgicos. E quis que, por razões misteriosas, eu a recitasse, nesse difuso de luzes ao fundo, o poema Fim, de Mário Sá-Carneiro. Por isso...
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
3.
Saudei, com alegria, que Lúcia Dias abraçasse o jornalismo. Ela sempre fora comunicativa, condição para ser, antes de mais, uma comunicóloga. E que tivesse ido estudar a Cuba, país radioso e radiante, onde a revolução não conseguiu matar a religiosidade, nem o bloqueio serenou a ânsia das artes. Ela apostara no jornalismo como forma de vida, pela razão de que o jornalismo deve (por imperativo ético) assumir a preocupação do homem no espaço e no tempo. Fê-la até ontem, com sentido de causa e consequência. Nas mais variadas funções que ocupou, ela foi fiel e leal ao imperativo ético da sua profissão. Que o digam os colegas...
4.
Tive a dita de almoçar com Lúcia Dias, há um mês e tanto, no Mindelo. Participávamos num encontro sobre a comunicação social e a diáspora cabo-verdiana, promovido pelo Instituto das Comunidades. Falava-se de tudo um pouco. Da necessidade de uma Rádio Global Cabo-verdiana. De maior integração mediática das comunidades. De uma central de notícias. Um almoço ruidoso. E do restaurante, envidraçava a linda baía do Porto Grande e recortava de, um ponto, a ilha de Santo Antão, e, doutro ponto, o Monte Cara. E com um olhar, entre a alegria e a reflexão, Lúcia Dias quis recordar...como era mesmo o poema de Mário Sá-Carneiro. Assim, minha amiga...
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
Em memória de Lúcia Dias
1.
Faleceu Lúcia Dias. E a morte, uma vez mais, tem destas. Apanha-me de surpresa. E, entre o espanto e a tristeza, uma espécie de fúria invadiu a minha alma, cada vez mais metafísica. Não quero conhecer detalhes, nem ouvir explicações, agora que algo me diz da irreversibilidade que é a ausência desta minha amiga. Só queria recitar, entre dentes e para os meus botões, os versos Quando eu morrer batam em latas. Muitos foram os momentos em que me privei com Lúcia Dias. Em verdade, éramos amigos desde a infância. De então até ontem, a sua alegria fazia transbordar a minha vida, ora de riso, ora de reflexão. De riso, porque Lúcia, mesmo no siso, era inteligentemente bem humorada. E de reflexão, porque, pessoanamente falando, tinha na mais pueril gargalhada uma essência taciturna que me perturbava. Lembro-me dela, há quase trinta anos, confessar – a brincar bem me parecia - que tinha um coração grande e eu – dado a trocadilhos ali sem consequências – que ela tinha, sim, um grande coração.
2.
Uma vez, nos Estados Unidos, encontrei-me com Lúcia Dias, parte de uma delegação governamental. Se não me engano, ela acompanhava a visita do então primeiro-ministro Carlos Veiga a Nova Inglaterra. Reza a história de uma manifestação que preparávamos na época, chamando atenção para o Armazém de Cabo Verde, na cidade baleeira de New Bedford. Mas ela, distinguindo sempre o trigo do joio, quis um encontro onde pudéssemos falar de tudo. E de nada. Jantámos juntos num restaurante, em Cambridge, de onde a envidraçada cidade de Boston parecia um poema monumental. E, mais de que encantamento, ambos ficamos de repente nostálgicos. E quis que, por razões misteriosas, eu a recitasse, nesse difuso de luzes ao fundo, o poema Fim, de Mário Sá-Carneiro. Por isso...
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
3.
Saudei, com alegria, que Lúcia Dias abraçasse o jornalismo. Ela sempre fora comunicativa, condição para ser, antes de mais, uma comunicóloga. E que tivesse ido estudar a Cuba, país radioso e radiante, onde a revolução não conseguiu matar a religiosidade, nem o bloqueio serenou a ânsia das artes. Ela apostara no jornalismo como forma de vida, pela razão de que o jornalismo deve (por imperativo ético) assumir a preocupação do homem no espaço e no tempo. Fê-la até ontem, com sentido de causa e consequência. Nas mais variadas funções que ocupou, ela foi fiel e leal ao imperativo ético da sua profissão. Que o digam os colegas...
4.
Tive a dita de almoçar com Lúcia Dias, há um mês e tanto, no Mindelo. Participávamos num encontro sobre a comunicação social e a diáspora cabo-verdiana, promovido pelo Instituto das Comunidades. Falava-se de tudo um pouco. Da necessidade de uma Rádio Global Cabo-verdiana. De maior integração mediática das comunidades. De uma central de notícias. Um almoço ruidoso. E do restaurante, envidraçava a linda baía do Porto Grande e recortava de, um ponto, a ilha de Santo Antão, e, doutro ponto, o Monte Cara. E com um olhar, entre a alegria e a reflexão, Lúcia Dias quis recordar...como era mesmo o poema de Mário Sá-Carneiro. Assim, minha amiga...
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
terça-feira, 22 de fevereiro de 2005
O sabor erudito das palavras eróticas
O OURO DO RISO CONTRA A NOITE
de Elson Froes
Se te corta o ouro do riso contra a noite
o agonizante membro exibe a distração que
daí envolta um espelho dos raios os dedos
torceu com um frágil arco a paisagem
engloba lábios brandidos ao redor
atravessada não mais nem sequer à invasão
dos olhos depois da quente chuva primeiro
refracta de branco estanque deixando
dentro de seu tremular que pensa o impulso
de espuma congelada senão sustida ou sem
pousar-se no campo da memória aterrissa se
te sobe eletrizado instante ao levitar e
sair o motor de sucessivos agoras um mar
que as realidades ou a luz desperta com
seu giro transpasso a voar no cenário se
reação nem tanto à velocidade da visão a
língua no zênite de pernas às vezes onde
segue até por via de multiplicar ao brilho
de estrelas o ouro do riso contra a noite
de Elson Froes
Se te corta o ouro do riso contra a noite
o agonizante membro exibe a distração que
daí envolta um espelho dos raios os dedos
torceu com um frágil arco a paisagem
engloba lábios brandidos ao redor
atravessada não mais nem sequer à invasão
dos olhos depois da quente chuva primeiro
refracta de branco estanque deixando
dentro de seu tremular que pensa o impulso
de espuma congelada senão sustida ou sem
pousar-se no campo da memória aterrissa se
te sobe eletrizado instante ao levitar e
sair o motor de sucessivos agoras um mar
que as realidades ou a luz desperta com
seu giro transpasso a voar no cenário se
reação nem tanto à velocidade da visão a
língua no zênite de pernas às vezes onde
segue até por via de multiplicar ao brilho
de estrelas o ouro do riso contra a noite
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005
Soneto da Separação
Vinicius de Moraes
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005
El Alfarero
Pablo Neruda
Todo tu cuerpo tiene
copa o dulzura destinada a mí.
Cuando subo la mano
encuentro en cada sitio una paloma
que me buscaba, como
si te hubieran, amor, hecho de arcilla
para mis propias manos de alfarero.
Tus rodillas, tus senos
tu cintura
faltan en mí como en el hueco
de una tierra sedienta
de la que desprendieron
una forma,
y juntos
somos completos como un solo río,
como una sola arena.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005
Maria full of grace
(...)
Immigrant communities may retain the language, music, and customs of their homeland, but the harsh realities of the old country often fade as people put down roots in the United States. Listening to the buoyant, often celebratory songs of Los Angeles-based Cape Verdean singer Maria de Barros and the ache-filled music of her famous godmother, Cesaria Evora, it's clear that while they're united by a common culture, America's affluence and West Africa's poverty have set their sounds on divergent paths.
"Cesaria's life is a morna," de Barros says during a phone conversation from Los Angeles, referring to the blueslike musical form popular in Cape Verde's bars and cantinas. "She is someone who has suffered a lot, and now, thank God, she has been given everything she merits. My life is a completely different picture than hers. I came to the US and I had a wonderful life here, so I can't only be singing mornas. I wanted to show people the other side of Cape Verde."
De Barros performs at Scullers on Wednesday as part of a Cape Verdean Music Festival, sharing the bill with Tito Paris, a gifted Cape Verdean guitarist, arranger, and songwriter now based in Portugal who has collaborated with revered Cape Verdean performers such as Bana and Evora. In 2003, de Barros became the first American Cape Verdean artist signed to a major label.It was Evora who introduced the world to Cape Verdean music in the early 1990s, with her ineffably graceful, minor-key mornas describing lives of hardship, heartbreak, and longing for absent loved ones.
(...)
In the early '90s, de Barros and her husband, bassist Mel Wilson Jr., moved to Los Angeles. At the time, he was playing with reggae pioneer Toots and the Maytals and was coaxed to LA to perform with Cuban-born singer/actor Steve Bauer, best known as Al Pacino's sidekick in "Scarface." Without a Cape Verdean community to plug into, de Barros gravitated toward Southern California's thriving Mexican music scene, singing boleros and rancheras in Spanish. She hooked up with producer Daniel Luchansky and spent several years on a Spanish-language album; when it didn't jell, she heeded his advice to explore her roots.
The result was her 2003 debut "Nha Mundo: Music of Cabo Verde," on Narada World (a jazz/world music label owned by Virgin Records), a seductive album featuring an array of appealing grooves, from reggae and samba to bossa nova and coladeira, a sprightly Cape Verdean dance rhythm. Singing mostly in the Cape Verdean Creole language of Criolu, which blends Portuguese with West African languages, she effortlessly communicates joy and pleasure with her cool, lustrous voice, whether one understands the lyrics or not.
Her music has spread even further via Putumayo, the world music label that has transformed the way international pop and roots music is presented and distributed in the US. "Riberonzinha," the first track of "Nha Mundo," is featured on the Putumayo compilation "World Reggae," and the song "Mi Nada Um Ca Tem" has gained widespread notice as part of last year's popular "Women of Africa" CD.
Dan Storper, Putumayo's founder and CEO, notes that de Barros's presence on the two compilations has provoked a considerable reaction.
"We've received more positive comments about her songs than any others," he writes in an e-mail. "She has a beautiful voice, exquisite phrasing, and is a talented songwriter."
De Barros's second CD, "Danca Ma Mi," is slated for release on Narada World next month. She celebrates the release March 26 at Venus de Milo in Swansea. For her performance this week at Scullers, she'll perform with her working band, featuring mostly Cape Verdean musicians, and focus on material from her first album.
De Barros hopes her upbeat music will introduce the world to a different perspective on the little-known West African nation.
"We have music in our lives all the time, and for me music is celebration," de Barros says. "It's not just the mornas, where we talk about sadness and our romantic lives. We're also about coladeiras, about having fun and dancing. You're partying all night long. You should go, you'll see, you'll come back needing a vacation."
© Copyright 2005 Globe Newspaper Company.
Immigrant communities may retain the language, music, and customs of their homeland, but the harsh realities of the old country often fade as people put down roots in the United States. Listening to the buoyant, often celebratory songs of Los Angeles-based Cape Verdean singer Maria de Barros and the ache-filled music of her famous godmother, Cesaria Evora, it's clear that while they're united by a common culture, America's affluence and West Africa's poverty have set their sounds on divergent paths.
"Cesaria's life is a morna," de Barros says during a phone conversation from Los Angeles, referring to the blueslike musical form popular in Cape Verde's bars and cantinas. "She is someone who has suffered a lot, and now, thank God, she has been given everything she merits. My life is a completely different picture than hers. I came to the US and I had a wonderful life here, so I can't only be singing mornas. I wanted to show people the other side of Cape Verde."
De Barros performs at Scullers on Wednesday as part of a Cape Verdean Music Festival, sharing the bill with Tito Paris, a gifted Cape Verdean guitarist, arranger, and songwriter now based in Portugal who has collaborated with revered Cape Verdean performers such as Bana and Evora. In 2003, de Barros became the first American Cape Verdean artist signed to a major label.It was Evora who introduced the world to Cape Verdean music in the early 1990s, with her ineffably graceful, minor-key mornas describing lives of hardship, heartbreak, and longing for absent loved ones.
(...)
In the early '90s, de Barros and her husband, bassist Mel Wilson Jr., moved to Los Angeles. At the time, he was playing with reggae pioneer Toots and the Maytals and was coaxed to LA to perform with Cuban-born singer/actor Steve Bauer, best known as Al Pacino's sidekick in "Scarface." Without a Cape Verdean community to plug into, de Barros gravitated toward Southern California's thriving Mexican music scene, singing boleros and rancheras in Spanish. She hooked up with producer Daniel Luchansky and spent several years on a Spanish-language album; when it didn't jell, she heeded his advice to explore her roots.
The result was her 2003 debut "Nha Mundo: Music of Cabo Verde," on Narada World (a jazz/world music label owned by Virgin Records), a seductive album featuring an array of appealing grooves, from reggae and samba to bossa nova and coladeira, a sprightly Cape Verdean dance rhythm. Singing mostly in the Cape Verdean Creole language of Criolu, which blends Portuguese with West African languages, she effortlessly communicates joy and pleasure with her cool, lustrous voice, whether one understands the lyrics or not.
Her music has spread even further via Putumayo, the world music label that has transformed the way international pop and roots music is presented and distributed in the US. "Riberonzinha," the first track of "Nha Mundo," is featured on the Putumayo compilation "World Reggae," and the song "Mi Nada Um Ca Tem" has gained widespread notice as part of last year's popular "Women of Africa" CD.
Dan Storper, Putumayo's founder and CEO, notes that de Barros's presence on the two compilations has provoked a considerable reaction.
"We've received more positive comments about her songs than any others," he writes in an e-mail. "She has a beautiful voice, exquisite phrasing, and is a talented songwriter."
De Barros's second CD, "Danca Ma Mi," is slated for release on Narada World next month. She celebrates the release March 26 at Venus de Milo in Swansea. For her performance this week at Scullers, she'll perform with her working band, featuring mostly Cape Verdean musicians, and focus on material from her first album.
De Barros hopes her upbeat music will introduce the world to a different perspective on the little-known West African nation.
"We have music in our lives all the time, and for me music is celebration," de Barros says. "It's not just the mornas, where we talk about sadness and our romantic lives. We're also about coladeiras, about having fun and dancing. You're partying all night long. You should go, you'll see, you'll come back needing a vacation."
© Copyright 2005 Globe Newspaper Company.
sábado, 12 de fevereiro de 2005
Blog Nota 2
Parabéns a você
É big, é big, é big, é big...Hoje a aniversariante é Telma, uma amiga dilecta, poetisa e amante do jazz. Estou a vê-la no restaurante da Gallery. Como sempre o jambalaya era o meu prato predilecto. O que custou convencer ao Jean, cozinheiro, que eu era crioulo de Cabo Verde e não da Louisiana. Depois, quem sabe no Wally´s – jazz, blues, zydeco, gospel, rhythm n' blues, soul e brass band – para uma sessão de champanhe no gelo.
Zydeco
Dentre os géneros musicais de Nova Orleans , sobressai o dançante zydeco (ritmo criado pelos negros da Louisiana nos anos 30). Há tempos, vi um documentário televisivo, do jornalista Júlio Rodrigues, em que reportava o encontro do conjunto Ferro Gaita com o zydeco, revelando as afinidades entre os dois estilos e a sintonia (ou sinfonia?) da grande diáspora africana. Um acordeão (levado por imigrantes alemães) e acompanhado do típico frattoir, também chamado de washboard, nada mais que uma tábua de lavar roupa usada como instrumento de percussão, lembra em tudo a gaita e o ferrinho do interior de Santiago.
Wally´s
Já vos falei de Wally´s, pela certa. É um pub, em plena Mass. Ave, que fica não muito longe da 10th Queensbury Street, meu estúdio dos primeiros anos da América. Gostava de lá ir às sextas-feiras para curtir a jam session, uma das facetas mais admiráveis da música. É o resultado evidente da maturidade criativa dos músicos de jazz. É uma maneira de transgredir o estabelecido e abrir caminho ao inesperado. Uma jam session é uma ocasião única, pois o estado de ânimo nem sempre é o mesmo.
No A Semana
Li, há duas semanas atrás, um excelente artigo assinado pelo meu amigo José Vicente Lopes sobre a situação da justiça em Cabo Verde. A situação é deveras brava e reclama uma mudança profunda. Mais até que nas Alfandegas, onde há coisas assaz cabeludas. Mas no que toca ao meu caso, ou melhor ao caso do senhor advogado José Manuel Pinto Monteiro contra mim, a situação é mais caricata e para lá de cabeluda. Primeiro, o processo foi acelerado, contrariando a franciscana morosidade da justiça cabo-verdiana. Depois, montou-se uma grande falácia, já que o artigo do Visaoonline, jornal americano e digital, hoje extinto, que provocou o quiproquó, não foi escrito por mim, nem estava assinado, além de que, na altura, eu não era director e/ou editor desse órgão. Só que não devo, nem temo. E estou mesmo pronto para acompanhar a palhaçada até ao fim. Haja saco!!!
É big, é big, é big, é big...Hoje a aniversariante é Telma, uma amiga dilecta, poetisa e amante do jazz. Estou a vê-la no restaurante da Gallery. Como sempre o jambalaya era o meu prato predilecto. O que custou convencer ao Jean, cozinheiro, que eu era crioulo de Cabo Verde e não da Louisiana. Depois, quem sabe no Wally´s – jazz, blues, zydeco, gospel, rhythm n' blues, soul e brass band – para uma sessão de champanhe no gelo.
Zydeco
Dentre os géneros musicais de Nova Orleans , sobressai o dançante zydeco (ritmo criado pelos negros da Louisiana nos anos 30). Há tempos, vi um documentário televisivo, do jornalista Júlio Rodrigues, em que reportava o encontro do conjunto Ferro Gaita com o zydeco, revelando as afinidades entre os dois estilos e a sintonia (ou sinfonia?) da grande diáspora africana. Um acordeão (levado por imigrantes alemães) e acompanhado do típico frattoir, também chamado de washboard, nada mais que uma tábua de lavar roupa usada como instrumento de percussão, lembra em tudo a gaita e o ferrinho do interior de Santiago.
Wally´s
Já vos falei de Wally´s, pela certa. É um pub, em plena Mass. Ave, que fica não muito longe da 10th Queensbury Street, meu estúdio dos primeiros anos da América. Gostava de lá ir às sextas-feiras para curtir a jam session, uma das facetas mais admiráveis da música. É o resultado evidente da maturidade criativa dos músicos de jazz. É uma maneira de transgredir o estabelecido e abrir caminho ao inesperado. Uma jam session é uma ocasião única, pois o estado de ânimo nem sempre é o mesmo.
No A Semana
Li, há duas semanas atrás, um excelente artigo assinado pelo meu amigo José Vicente Lopes sobre a situação da justiça em Cabo Verde. A situação é deveras brava e reclama uma mudança profunda. Mais até que nas Alfandegas, onde há coisas assaz cabeludas. Mas no que toca ao meu caso, ou melhor ao caso do senhor advogado José Manuel Pinto Monteiro contra mim, a situação é mais caricata e para lá de cabeluda. Primeiro, o processo foi acelerado, contrariando a franciscana morosidade da justiça cabo-verdiana. Depois, montou-se uma grande falácia, já que o artigo do Visaoonline, jornal americano e digital, hoje extinto, que provocou o quiproquó, não foi escrito por mim, nem estava assinado, além de que, na altura, eu não era director e/ou editor desse órgão. Só que não devo, nem temo. E estou mesmo pronto para acompanhar a palhaçada até ao fim. Haja saco!!!
Orpheu
"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou. "
Fernando Pessoa
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou. "
Fernando Pessoa
Blog Nota
0.
Das duas, uma: o país cresce, vira PDM e atrai investimentos internacionais ou encolhe-se, gere a miséria e vive orgulhosamente isolado. Não há grandes opções. A bolsa ou a vida? E o pior é que não há tempo para grandes angústias. As coisas hoje em dia funcionam a tempo real e a cultura deve ser aquele de resultados. Esta fase transformacional exige de todos uma profunda revisão cultural. Acredito mesmo que a verdadeira e necessária mudança terá de ser educacional e cultural. A vez é do softpower…
1.
Qual o papel do ministério da Cultura? Qual a sua filosofia? Qual a sua efectiva capacidade de intervenção? Que percentagem do Orçamento de Estado está sob a sua gestão? Quais são as necessidades e os recursos para incrementar e elevar a cultura a este dado momento? Esses são apenas alguns dos assuntos que importariam debater no Programa Konbersu Sabi. O nosso debate, para ser rico e produtivo, deveria também realçar o papel das artes e das manifestações culturais no desenvolvimento da economia, na criação de novos parâmetros educacionais e no cultivo da diversidade.
2.
Estaremos entre uma visão patrimonialista e outra de apoio à criação. Se é necessário preservar e memorizar, também é importante lembrar que o património futuro só é possível com o apoio presente à criação. O Estado, além de facilitador, deve ter um papel supletivo, em áreas onde o mecenato não cobre. Nas circunstâncias actuais, o mecenato não cobre muitas áreas da criatividade. Sem dinheiro público, não existirá, em devida dimensão, cinema, teatro, pintura ou dança.
3.
Não sou muito afoito a polémicas estéreis, e algumas vezes histéricas, sobre o bairrismo, facto que precisa ser debelado e desencorajado do nosso dia-a-dia. Defendo, com radicalismo consequente, um Cabo Verde indivisível. Há que acabar de vez com disparates de hegemonias regionais, centralidades culturais e concentrações administrativas, a bem do desenvolvimento equilibrado e saudável. Os castiços que me perdoem, mas céu é grande, mundo é largo.
4.
Germina entre nossa gente alguma animosidade em relação aos artistas e operadores culturais da diáspora. Torna-se forçoso entender que, pela configuração nacional, Cabo Verde ficaria amputado sem a sua dimensão da diáspora, entendida como as suas comunidades espalhadas pelo mundo. Além da força cultural (e demográfica), tanto em quantidade como em qualidade, que a diáspora representa, vale ter em conta o peso real da emigração no PIB do nosso país. E já agora, democracia oblige, nem seria descabido rever a disparidade do peso político, que não acompanha as outras dinâmicas. Vamos debater, minha gente. Cabeça não foi feita apenas para mediar as orelhas, arre!
Das duas, uma: o país cresce, vira PDM e atrai investimentos internacionais ou encolhe-se, gere a miséria e vive orgulhosamente isolado. Não há grandes opções. A bolsa ou a vida? E o pior é que não há tempo para grandes angústias. As coisas hoje em dia funcionam a tempo real e a cultura deve ser aquele de resultados. Esta fase transformacional exige de todos uma profunda revisão cultural. Acredito mesmo que a verdadeira e necessária mudança terá de ser educacional e cultural. A vez é do softpower…
1.
Qual o papel do ministério da Cultura? Qual a sua filosofia? Qual a sua efectiva capacidade de intervenção? Que percentagem do Orçamento de Estado está sob a sua gestão? Quais são as necessidades e os recursos para incrementar e elevar a cultura a este dado momento? Esses são apenas alguns dos assuntos que importariam debater no Programa Konbersu Sabi. O nosso debate, para ser rico e produtivo, deveria também realçar o papel das artes e das manifestações culturais no desenvolvimento da economia, na criação de novos parâmetros educacionais e no cultivo da diversidade.
2.
Estaremos entre uma visão patrimonialista e outra de apoio à criação. Se é necessário preservar e memorizar, também é importante lembrar que o património futuro só é possível com o apoio presente à criação. O Estado, além de facilitador, deve ter um papel supletivo, em áreas onde o mecenato não cobre. Nas circunstâncias actuais, o mecenato não cobre muitas áreas da criatividade. Sem dinheiro público, não existirá, em devida dimensão, cinema, teatro, pintura ou dança.
3.
Não sou muito afoito a polémicas estéreis, e algumas vezes histéricas, sobre o bairrismo, facto que precisa ser debelado e desencorajado do nosso dia-a-dia. Defendo, com radicalismo consequente, um Cabo Verde indivisível. Há que acabar de vez com disparates de hegemonias regionais, centralidades culturais e concentrações administrativas, a bem do desenvolvimento equilibrado e saudável. Os castiços que me perdoem, mas céu é grande, mundo é largo.
4.
Germina entre nossa gente alguma animosidade em relação aos artistas e operadores culturais da diáspora. Torna-se forçoso entender que, pela configuração nacional, Cabo Verde ficaria amputado sem a sua dimensão da diáspora, entendida como as suas comunidades espalhadas pelo mundo. Além da força cultural (e demográfica), tanto em quantidade como em qualidade, que a diáspora representa, vale ter em conta o peso real da emigração no PIB do nosso país. E já agora, democracia oblige, nem seria descabido rever a disparidade do peso político, que não acompanha as outras dinâmicas. Vamos debater, minha gente. Cabeça não foi feita apenas para mediar as orelhas, arre!
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005
Walt Whitman (1819-1892)
1.
Out of the rolling ocean, the crowd, came a drop gently to me,
Whispering, I love you, before long I die,
I have travel’d a long way, merely to look on you,
to touch you,
For I could not die till I once look’d on you,
For I fear’d I might afterward lose you.
2.
(Now we have met, we have look’d, we are safe;
Return in peace to the ocean, my love;
I too am part of that ocean, my love —we are not so much separated;
Behold the great rondure —the cohesion of all, how perfect!
But as for me, for you, the irresistible sea is to separate us,
As for an hour, carrying us diverse —yet cannot carry us diverse for ever;
Be not impatient —a little space— Know you, I salute the air, the ocean and the land,
Every day, at sundown, for your dear sake, my love.)
Out of the rolling ocean, the crowd, came a drop gently to me,
Whispering, I love you, before long I die,
I have travel’d a long way, merely to look on you,
to touch you,
For I could not die till I once look’d on you,
For I fear’d I might afterward lose you.
2.
(Now we have met, we have look’d, we are safe;
Return in peace to the ocean, my love;
I too am part of that ocean, my love —we are not so much separated;
Behold the great rondure —the cohesion of all, how perfect!
But as for me, for you, the irresistible sea is to separate us,
As for an hour, carrying us diverse —yet cannot carry us diverse for ever;
Be not impatient —a little space— Know you, I salute the air, the ocean and the land,
Every day, at sundown, for your dear sake, my love.)
BREAKING NEWS
Para vos dizer que (re) leiam D. Quixote, de Cervantes. Não percam tanto tempo a ver o tempo de antenas dos partidos, porra. E os tradicionalistas não estão com nada. Nada como um excelente livro para exorcizar fantasmas. E a canga da mediocridade… Free your balls and your mind will follow.
O Transitário
por Filinto Elísio
O Transitário
Há uma linha divisória que transparece e Freud há de explicar o nascimento de uma nova geração. Não uma geração no sentido clássico do termo, mas algo transitário a uma atitude cultural que, 30 anos sobre a Independência Nacional, quer um reordenamento. Mário Lúcio disse-o abertamente numa entrevista. Reafirmou-o na Carta de Salvador que ele redigiu, a pedido de Gilberto Gil e a consenso dos delegados culturais da CPLP. O melhor tributo a um Cabo Verde deveras independente, democrático e em desenvolvimento, seria um marcante manifesto que assumisse a política como um objecto compósito e lábil, não se reduzindo a um conjunto de medidas públicas, nem a um mero reordenamento republicano das actividades culturais. Precisamos de um amplo movimento cultural, uma movida centrada na sociedade civil que produza cultura como a radicalização da cidadania. A cultura pode ser agente da prosperidade, da coexistência e do desenvolvimento deste país. Para isso, é urgente redefinir o papel do poder público na vida cultural. A Kultura. Não apenas o local e nacional, mas universal e global. Chegou a hora de universalizar o batuque, o grogue de Santo Antão e os sobrados de São Filipe. Mas também de trazer para o palco das ilhas a excelência da cultura universal. Eis a próxima fronteira. Urge tal antropofagia…
Ricardo…de Deus
Na sexta-feira passada, à noite, tive a grata oportunidade de assistir a um excelente recital de piano do músico brasileiro Ricardo de Deus, no Pátio do Palácio da Cultura Ildo Lobo. Um repertório de bom gosto, passeando da bossa-nova para o jazz, sem esquecer a música cabo-verdiana à qual o pianista parece ter aderido. Momentos altos, como aquele de «Leãozinho», de Caetano Veloso, recriado ao estilo jazzy. Momentos da jamm session, em que participaram dois exímios executantes, o Raul e o Kizó, nomeadamente baterista e baixista da banda Arkorá. Aliás, segundo o Lantuna, Ricardo de Deus trocou o Brasil por Cabo Verde há seis anos. De 1999 a 2001, integrou do grupo Arkora, período durante o qual acompanhou, juntamente com o grupo, o malogrado artista Orlando Pantera. Mas, já que nada acontece por acaso e a boa música tem muito de árdua, vale dizer que Ricardo de Deus começou a estudar piano em 1991. É bacharel em música, pela Universidade Cruzeiro do Sul e ainda frequentou o Curso de Piano Erudito na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e o Curso de Musicalização Infantil e Piano Popular, na Universidade Livre de Música Tom Jobim – São Paulo. Mais uma boa escolha da já obrigatória programação cultural desta cidade, com o carimbo do Ciber Bar Palácio/TERA.
Carnaval tá aí, vamos vadiar
Dizem os saudosistas que já tivemos nesta cidade Carnaval que valesse a pena. Outros tempos, bem distantes, pois, desde o antanho, nunca aqui presenciei Carnaval exuberante, digno deste retumbante nome. Das minhas lembranças, apenas o elogio ao feio, ao grotesco e ao indecoroso. Salvaria um ou outro baile que, a pretexto do Olha a cabeleira do vovô, se visionavam novas amizades. Nunca entrei amiúde nessa desfilaria, ficando-me até frouxo o traje dos corsários e rasca a casaca dos benquistos. O Rei Momo exigiria do devoto, além de boa lata, entoado ritmo e pernas de maratonista. Por isso, terça-feira de Carnaval, para mim, foi um dia irritante e atípico, com a chalaça de cantar sambas de quinta e o cortejo a merecer prémio de desolação. Talvez eu não esteja a ser politicamente correcto. Mea culpa. Os saudosistas não me levem a mal, nem queiram ser mais papistas do que o Papa. Mas estou a ser sincero, ultrajado de tanta falta de civismo num pequeno troço da Marginal. Urinar na via pública e estragar as plantas dos canteiros, deixemo-nos de demagogias, é sintoma de mau carácter e, enquanto o delicioso civismo não chega, para a santa democracia era baixar autoridade aos sacristas. Quem sabe, eu me tornei rabugento, lobo uivante ao luar esplêndido. Ontem à noite, o chá de tília já não me soube tão bem. Estava com um gosto de agro tóxico, mas não há de ser nada. Lembrei-me do Pranchinha que, ao levar à boca a pior aguardente, sussurrava Tende piedade de nós! Um cristão e peras, esse meu amigo! Cabe escrever, em abono da verdade, que o cronista também sofre agruras da solidão. Uma dor que dilacera como a brasa adormecida nas cinzas.
Haja Teatro sempre
De que teatro precisa Cabo Verde? Qual é a essência de um teatro nacional para a sociedade de hoje? Para já, são questões necessárias que não obrigam a respostas definitivas. Interessante, pela apresentação e subsequente debate, foi a palestra «O Teatro em Desenvolvimento», proferida por Francisco Fragoso, no Palácio da Cultura. O frisson criado revelou, uma vez mais, que os gostos são livres. E todos legítimos. Que a intolerância não atropele o diálogo. Se todos tivéssemos o mesmo gosto, que seria da cor amarela? E as opiniões, mais do que os gostos, são livres e necessárias. Ademais, não existe teatro em sentido absoluto, com normas permanentes e estáticas, mas vários teatros, muito diferentes, de diversas épocas e quanto mais remotos tanto menos operantes em épocas seguintes. Cada geração engendra a sua própria estética, colocando uma pedra no importante edifício a construir. Indo ao âmago da questão, a Associação Mindelact tem feito muito para a elevação das artes cénicas em Cabo Verde. Além de manter viva, e de boa saúde, um dos maiores festivais de teatro do continente africano, ela colocou o nosso país na rota mundial do teatro. Perante este ganho todo, há que fazer referência ao dramaturgo João Branco. A César o que é de César, pois. Quanto à capital, que já teve o seu momento áureo no zénite do Grupo Korda Kaoberdi, melhores dias hão de vir, pois o teatro é uma arte necessária e urgente. Fala-se, e ainda bem, do ressurgimento do Grupo Korda Kaoberdi. A par disso, precisamos descortinar algumas deficiências estruturais que vêm condicionando o evoluir, com o vigor esperado, o teatro na cidade da Praia. Tais condicionalismos, querem me parecer, são de uma política não muito coerente de facilitação, estreiteza da mentalidade empresarial, insuficiência de debates, projectos não elaborados, enfim, um pouco de tudo isso contribuindo para uma baixa intensidade de iniciativas teatrais.
--------------------------------------------------------------------------------
O Transitário
Há uma linha divisória que transparece e Freud há de explicar o nascimento de uma nova geração. Não uma geração no sentido clássico do termo, mas algo transitário a uma atitude cultural que, 30 anos sobre a Independência Nacional, quer um reordenamento. Mário Lúcio disse-o abertamente numa entrevista. Reafirmou-o na Carta de Salvador que ele redigiu, a pedido de Gilberto Gil e a consenso dos delegados culturais da CPLP. O melhor tributo a um Cabo Verde deveras independente, democrático e em desenvolvimento, seria um marcante manifesto que assumisse a política como um objecto compósito e lábil, não se reduzindo a um conjunto de medidas públicas, nem a um mero reordenamento republicano das actividades culturais. Precisamos de um amplo movimento cultural, uma movida centrada na sociedade civil que produza cultura como a radicalização da cidadania. A cultura pode ser agente da prosperidade, da coexistência e do desenvolvimento deste país. Para isso, é urgente redefinir o papel do poder público na vida cultural. A Kultura. Não apenas o local e nacional, mas universal e global. Chegou a hora de universalizar o batuque, o grogue de Santo Antão e os sobrados de São Filipe. Mas também de trazer para o palco das ilhas a excelência da cultura universal. Eis a próxima fronteira. Urge tal antropofagia…
Ricardo…de Deus
Na sexta-feira passada, à noite, tive a grata oportunidade de assistir a um excelente recital de piano do músico brasileiro Ricardo de Deus, no Pátio do Palácio da Cultura Ildo Lobo. Um repertório de bom gosto, passeando da bossa-nova para o jazz, sem esquecer a música cabo-verdiana à qual o pianista parece ter aderido. Momentos altos, como aquele de «Leãozinho», de Caetano Veloso, recriado ao estilo jazzy. Momentos da jamm session, em que participaram dois exímios executantes, o Raul e o Kizó, nomeadamente baterista e baixista da banda Arkorá. Aliás, segundo o Lantuna, Ricardo de Deus trocou o Brasil por Cabo Verde há seis anos. De 1999 a 2001, integrou do grupo Arkora, período durante o qual acompanhou, juntamente com o grupo, o malogrado artista Orlando Pantera. Mas, já que nada acontece por acaso e a boa música tem muito de árdua, vale dizer que Ricardo de Deus começou a estudar piano em 1991. É bacharel em música, pela Universidade Cruzeiro do Sul e ainda frequentou o Curso de Piano Erudito na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e o Curso de Musicalização Infantil e Piano Popular, na Universidade Livre de Música Tom Jobim – São Paulo. Mais uma boa escolha da já obrigatória programação cultural desta cidade, com o carimbo do Ciber Bar Palácio/TERA.
Carnaval tá aí, vamos vadiar
Dizem os saudosistas que já tivemos nesta cidade Carnaval que valesse a pena. Outros tempos, bem distantes, pois, desde o antanho, nunca aqui presenciei Carnaval exuberante, digno deste retumbante nome. Das minhas lembranças, apenas o elogio ao feio, ao grotesco e ao indecoroso. Salvaria um ou outro baile que, a pretexto do Olha a cabeleira do vovô, se visionavam novas amizades. Nunca entrei amiúde nessa desfilaria, ficando-me até frouxo o traje dos corsários e rasca a casaca dos benquistos. O Rei Momo exigiria do devoto, além de boa lata, entoado ritmo e pernas de maratonista. Por isso, terça-feira de Carnaval, para mim, foi um dia irritante e atípico, com a chalaça de cantar sambas de quinta e o cortejo a merecer prémio de desolação. Talvez eu não esteja a ser politicamente correcto. Mea culpa. Os saudosistas não me levem a mal, nem queiram ser mais papistas do que o Papa. Mas estou a ser sincero, ultrajado de tanta falta de civismo num pequeno troço da Marginal. Urinar na via pública e estragar as plantas dos canteiros, deixemo-nos de demagogias, é sintoma de mau carácter e, enquanto o delicioso civismo não chega, para a santa democracia era baixar autoridade aos sacristas. Quem sabe, eu me tornei rabugento, lobo uivante ao luar esplêndido. Ontem à noite, o chá de tília já não me soube tão bem. Estava com um gosto de agro tóxico, mas não há de ser nada. Lembrei-me do Pranchinha que, ao levar à boca a pior aguardente, sussurrava Tende piedade de nós! Um cristão e peras, esse meu amigo! Cabe escrever, em abono da verdade, que o cronista também sofre agruras da solidão. Uma dor que dilacera como a brasa adormecida nas cinzas.
Haja Teatro sempre
De que teatro precisa Cabo Verde? Qual é a essência de um teatro nacional para a sociedade de hoje? Para já, são questões necessárias que não obrigam a respostas definitivas. Interessante, pela apresentação e subsequente debate, foi a palestra «O Teatro em Desenvolvimento», proferida por Francisco Fragoso, no Palácio da Cultura. O frisson criado revelou, uma vez mais, que os gostos são livres. E todos legítimos. Que a intolerância não atropele o diálogo. Se todos tivéssemos o mesmo gosto, que seria da cor amarela? E as opiniões, mais do que os gostos, são livres e necessárias. Ademais, não existe teatro em sentido absoluto, com normas permanentes e estáticas, mas vários teatros, muito diferentes, de diversas épocas e quanto mais remotos tanto menos operantes em épocas seguintes. Cada geração engendra a sua própria estética, colocando uma pedra no importante edifício a construir. Indo ao âmago da questão, a Associação Mindelact tem feito muito para a elevação das artes cénicas em Cabo Verde. Além de manter viva, e de boa saúde, um dos maiores festivais de teatro do continente africano, ela colocou o nosso país na rota mundial do teatro. Perante este ganho todo, há que fazer referência ao dramaturgo João Branco. A César o que é de César, pois. Quanto à capital, que já teve o seu momento áureo no zénite do Grupo Korda Kaoberdi, melhores dias hão de vir, pois o teatro é uma arte necessária e urgente. Fala-se, e ainda bem, do ressurgimento do Grupo Korda Kaoberdi. A par disso, precisamos descortinar algumas deficiências estruturais que vêm condicionando o evoluir, com o vigor esperado, o teatro na cidade da Praia. Tais condicionalismos, querem me parecer, são de uma política não muito coerente de facilitação, estreiteza da mentalidade empresarial, insuficiência de debates, projectos não elaborados, enfim, um pouco de tudo isso contribuindo para uma baixa intensidade de iniciativas teatrais.
--------------------------------------------------------------------------------
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005
Cabo Verde na União Europeia
Pelo que o texto tem de interessante e de polémico, creio que vale a pena uma leitura descomplexada e crítica. E que provoque um aceso e necessário debate, diferente daquele, eivado de bizantinices e de fundamentalismos, que às vezes grassa pela nossa praça. Eis o texto do Professor Adriano Moreira:
A integração de Cabo Verde na União Europeia
Os temas europeus não estão muito presentes nos debates em curso, como se a dependência do País em relação às orientações da União não fosse de uma importância crescente.
Uma dependência que tem que ver com as políticas sabidas e também com as políticas furtivas que se vão concretizando sem a participação dos Parlamentos nacionais e informação à opinião pública.
Uma das vertentes que parecem exigir maior atenção, pelos reflexos que tem nos interesses dos restantes membros, é a do alargamento, agora a caminho de se transformar num ritual, com ponto final predeterminado, as negociações para a admissão da Turquia.
O alargamento para leste parece inspirado pelo objectivo, não declarado, de recolher toda a herança da NATO com adaptação do seu conceito estratégico de levar a libertação do Atlântico aos Urales, articulando sem grande meditação as definições de comunidade e de aliança.
Talvez seja oportuno, e necessário, olhar criticamente para o Atlântico de onde partiu o movimento, dando atenção ao risco de afastamento entre o europeísmo e o americanismo, considerar a necessidade de continuar a tentar modelar a articulação entre a segurança do Atlântico Norte e a do Atlântico Sul, e repensar o estatuto dos arquipélagos que pontuam a linha divisória.
Os arquipélagos portugueses estão por isso na Europa, assim como as Canárias estão na Europa por serem parte da Espanha.
Todavia Cabo Verde, um Estado independente, parece nunca ter despertado a atenção dos órgãos institucionais, no sentido de serem iniciadas negociações para ser admitido na União.
Do ponto de vista do conceito comunitário, é indiscutível que a sua sociedade civil incorporou na identidade cultural os valores que são denominadores comuns dos europeus, sendo uma das expressões mais bem sucedidas das sínteses culturais a partir de um multiculturalismo derivado do modelo de povoamento.
A sua literatura é das mais enriquecedoras do espaço lusíada, e no que respeita à intervenção portuguesa, no processo euromundista da colonização, uma realidade que acompanha o milagre que foi a criação do Brasil.
No conjunto dos Estados que se tornaram independentes em resultado do movimento geral descolonizador impulsionado pela ONU, Cabo Verde, limitado de recursos, é um exemplo de Estado de Direito, cumpridor escrupuloso das obrigações internacionais, confiável se atendermos aos critérios que orientam a Administração republicana dos EUA.
Existe um movimento, ainda mal sustentado, no sentido de organizar uma espécie de unidade cooperativa dos arquipélagos atlânticos, e Cabo Verde nunca está ausente dos comentários publicados e das intervenções.
Mas, por outro lado, e voltando às questões da segurança, não é possível sugerir qualquer modelo de organização do Atlântico Sul, e de articulação entre a sua segurança e a do Atlântico Norte, sem incluir Cabo Verde no processo, supondo que não recusará o consentimento e a colaboração.
Por outro lado, a Europa é forçada a ter posição nesse projecto, que apelará ao interesse português, tantas são as soberanias de língua oficial portuguesa que se encontram nas duas margens.
Cabo Verde tem uma identidade e um desempenho que fazem do seu povo e da sua política uma referência segura de diálogo com todas as soberanias africanas, uma mais- -valia para a União Europeia.
Trata-se de um povo com uma importante diáspora, com comunidades instaladas em países europeus e nos EUA, sempre com integração sem problemas.
As autoridades portuguesas estão indicadas e legitimadas para terem a iniciativa de propor a abertura de um processo de adesão de Cabo Verde à União Europeia.
A integração de Cabo Verde na União Europeia
Os temas europeus não estão muito presentes nos debates em curso, como se a dependência do País em relação às orientações da União não fosse de uma importância crescente.
Uma dependência que tem que ver com as políticas sabidas e também com as políticas furtivas que se vão concretizando sem a participação dos Parlamentos nacionais e informação à opinião pública.
Uma das vertentes que parecem exigir maior atenção, pelos reflexos que tem nos interesses dos restantes membros, é a do alargamento, agora a caminho de se transformar num ritual, com ponto final predeterminado, as negociações para a admissão da Turquia.
O alargamento para leste parece inspirado pelo objectivo, não declarado, de recolher toda a herança da NATO com adaptação do seu conceito estratégico de levar a libertação do Atlântico aos Urales, articulando sem grande meditação as definições de comunidade e de aliança.
Talvez seja oportuno, e necessário, olhar criticamente para o Atlântico de onde partiu o movimento, dando atenção ao risco de afastamento entre o europeísmo e o americanismo, considerar a necessidade de continuar a tentar modelar a articulação entre a segurança do Atlântico Norte e a do Atlântico Sul, e repensar o estatuto dos arquipélagos que pontuam a linha divisória.
Os arquipélagos portugueses estão por isso na Europa, assim como as Canárias estão na Europa por serem parte da Espanha.
Todavia Cabo Verde, um Estado independente, parece nunca ter despertado a atenção dos órgãos institucionais, no sentido de serem iniciadas negociações para ser admitido na União.
Do ponto de vista do conceito comunitário, é indiscutível que a sua sociedade civil incorporou na identidade cultural os valores que são denominadores comuns dos europeus, sendo uma das expressões mais bem sucedidas das sínteses culturais a partir de um multiculturalismo derivado do modelo de povoamento.
A sua literatura é das mais enriquecedoras do espaço lusíada, e no que respeita à intervenção portuguesa, no processo euromundista da colonização, uma realidade que acompanha o milagre que foi a criação do Brasil.
No conjunto dos Estados que se tornaram independentes em resultado do movimento geral descolonizador impulsionado pela ONU, Cabo Verde, limitado de recursos, é um exemplo de Estado de Direito, cumpridor escrupuloso das obrigações internacionais, confiável se atendermos aos critérios que orientam a Administração republicana dos EUA.
Existe um movimento, ainda mal sustentado, no sentido de organizar uma espécie de unidade cooperativa dos arquipélagos atlânticos, e Cabo Verde nunca está ausente dos comentários publicados e das intervenções.
Mas, por outro lado, e voltando às questões da segurança, não é possível sugerir qualquer modelo de organização do Atlântico Sul, e de articulação entre a sua segurança e a do Atlântico Norte, sem incluir Cabo Verde no processo, supondo que não recusará o consentimento e a colaboração.
Por outro lado, a Europa é forçada a ter posição nesse projecto, que apelará ao interesse português, tantas são as soberanias de língua oficial portuguesa que se encontram nas duas margens.
Cabo Verde tem uma identidade e um desempenho que fazem do seu povo e da sua política uma referência segura de diálogo com todas as soberanias africanas, uma mais- -valia para a União Europeia.
Trata-se de um povo com uma importante diáspora, com comunidades instaladas em países europeus e nos EUA, sempre com integração sem problemas.
As autoridades portuguesas estão indicadas e legitimadas para terem a iniciativa de propor a abertura de um processo de adesão de Cabo Verde à União Europeia.
Konbersu Sabi: Política Cultural
No dia 14 de Fevereiro, estarei num painel do Programa Televisivo Konbersu Sabi (TCV), da jornalista Matilde Dias, com Manuel Veiga, linguista e actual ministro da Cultura e Leão Lopes, artista plástico e antigo ministro da Cultura. O tema em destaque será a Política Cultural. Consta-me que iremos debater as políticas públicas da cultura, o sector cultural em si e a cultura como problematização global e específica. A política cultural, na minha modesta opinião, deve ser entendida como um objecto compósito e lábil, não se reduzindo a um conjunto de medidas públicas, nem a um mero reordenamento republicano das actividades culturais. É algo mais, muito mais, complexo. Deveríamos falar da política cultural ou das políticas culturais? Não estando certo sobre a melhor formulação da questão, quer-me parecer que iremos debater o arcabouço jurídico existente, os incentivos e a protecção a bens culturais, os organismos e as estruturas administrativas, a gestão das instituições, os programas e os projectos, a preservação dos bens patrimoniais e a emergência de uma indústria cultural, entre outros aspectos.
Quem sabe Matilde Dias nos permita um browsing comparativo sobre alguns modelos de Estado vis-a-vis Cultura, a saber:
• O Estado facilitador, financiador das artes e das criações intelectuais por recursos indirectos, de ordem fiscal, oferecidos à iniciativa privada (pessoas, fundações, empresas), caso típico dos Estados Unidos;
• O Estado-mecenas, que transfere recursos próprios, isto é, dotações orçamentárias, para organismos autónomos, como fundações, institutos e conselhos. São exemplos deste caso a Inglaterra, a Austrália ou a Nova Zelândia;
• O Estado-arquitecto é aquele que dita orientações ou toma medidas práticas e directas sobre a dinâmica cultural por meio de estruturas políticas (ministério, câmaras municipais, comissões). Juntamente com as subvenções oferecidas, exigem-se critérios técnicos e burocráticos a serem seguidos pelos beneficiários. Aqui se encontra a maior parte dos países europeus, latino-americanos e alguns africanos;
• o Estado-engenheiro que governa integralmente a vida cultural do país, como aquele das ditaduras políticas (de esquerda e de direita) e das comunidades fundamentalistas ou teocráticas.
E já agora, abordar o tipo de Estado que temos ou queremos ter vis-a-vis a nossa dinâmica cultural. Reconhecer que, em Cabo Verde, devido aos condicionalismos socio-económicos do país e à configuração estrutural da nação, a cultura se insere no âmbito das obrigações do Estado. É um campo em que o Estado deve intervir, mas de molde mitigado, delicado e híbrido. Intervir não para fazer cultura, mas para criar condições para o seu acesso universal. Para proporcionar condições necessárias à criação e à produção de bens culturais. Para promover o desenvolvimento cultural geral da sociedade e do cidadão. Como um direito básico. Estamos com Alexis de Tocqueville quando diz que a política e a cultura são «duas paixões gerais e dominantes». Por isso, elas devem ser pensadas (e debatidas) de modo democrático e participativo…
Quem sabe Matilde Dias nos permita um browsing comparativo sobre alguns modelos de Estado vis-a-vis Cultura, a saber:
• O Estado facilitador, financiador das artes e das criações intelectuais por recursos indirectos, de ordem fiscal, oferecidos à iniciativa privada (pessoas, fundações, empresas), caso típico dos Estados Unidos;
• O Estado-mecenas, que transfere recursos próprios, isto é, dotações orçamentárias, para organismos autónomos, como fundações, institutos e conselhos. São exemplos deste caso a Inglaterra, a Austrália ou a Nova Zelândia;
• O Estado-arquitecto é aquele que dita orientações ou toma medidas práticas e directas sobre a dinâmica cultural por meio de estruturas políticas (ministério, câmaras municipais, comissões). Juntamente com as subvenções oferecidas, exigem-se critérios técnicos e burocráticos a serem seguidos pelos beneficiários. Aqui se encontra a maior parte dos países europeus, latino-americanos e alguns africanos;
• o Estado-engenheiro que governa integralmente a vida cultural do país, como aquele das ditaduras políticas (de esquerda e de direita) e das comunidades fundamentalistas ou teocráticas.
E já agora, abordar o tipo de Estado que temos ou queremos ter vis-a-vis a nossa dinâmica cultural. Reconhecer que, em Cabo Verde, devido aos condicionalismos socio-económicos do país e à configuração estrutural da nação, a cultura se insere no âmbito das obrigações do Estado. É um campo em que o Estado deve intervir, mas de molde mitigado, delicado e híbrido. Intervir não para fazer cultura, mas para criar condições para o seu acesso universal. Para proporcionar condições necessárias à criação e à produção de bens culturais. Para promover o desenvolvimento cultural geral da sociedade e do cidadão. Como um direito básico. Estamos com Alexis de Tocqueville quando diz que a política e a cultura são «duas paixões gerais e dominantes». Por isso, elas devem ser pensadas (e debatidas) de modo democrático e participativo…
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005
Salvé, Rei Momo
Surgido no Egipto, às margens do Rio Nilo, para comemorar os cultos agrários, há cerca de seis mil anos, o Carnaval ganhou força ao longo da história. A comemoração, criada para agradecer à fertilidade do solo e aos frutos da colheita, ganhou grande importância na Roma e Grécia, entre os séculos VII a.C. e VI d.C.O ritual logo caiu no gosto popular e a ele foram acrescidos bebida e sexo em tributo ao Deus Dionísio, na Grécia . Para celebrar os Deuses Baco, Saturno e Pã, os romanos realizavam os famosos bacanais, lupercais e saturnais. Nesse último, homens e mulheres desfilavam nus na Avenida com carros, os chamados carrum navalis. Daí a expressão carnevale. Contrária ao culto ao corpo e fundamentada na abstinência aos prazeres terrenos, a civilização judaico cristã condenou os actos sexuais nas manifestações. Com isso, a festa ganha uma mudança estética e também comportamental. Orgia e bebidas, marcas do festejo nas civilizações romana e grega, dão lugar a máscaras, fantasias, bailes e desfiles alegóricos.O Carnaval vai ao Brasil, em 1723, por meio dos portugueses, que levaram a tradição dos festejos realizados nas ilhas portuguesas da Madeira, Açores e Cabo Verde. Ali, a festa ganhou adeptos e se tornou uma das maiores festas de rua do mundo, além de uma grande indústria, com grandes centrais de produção.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005
Amoras
Filinto Elísio
Tem horas que embarco ao sabor de amoras
e o travo deste meu corpo é fome soluçada,
gotas salpicadas, perfumadas ervas, banhos
de espuma e bolhas que são aqui beijos;
Tem horas que percorro todos os amores,
dos que me aquecem no frio e, entre a morna
& o violão, seus olhares furtivos abraçam
esta solidão, e eu uma concha de vontades;
Apaziguadas frutas comem nas amoras
este caminhar pelos vértices das musas,
onde, coordenadas, as horas cantam;
E, jogadas ao leito da vida, fomos deleite,
e de tudo ter sido – semén, suor e sangue -,
pétalas de qualquer coisa assim viscosa…
in «Das Frutas Serenadas»
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005
O regresso da mulher morena
Vinícius de Moraes
Meus amigos, meus irmãos,
cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!
Rio de Janeiro, 1935
Flores
Arthur Rimbaud
De um pequeno degrau dourado -, entre os cordões
de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos verdes
e os discos de cristal que enegrecem como bronze
ao sol -, vejo a digital abrir-se sobre um tapete de filigranas
de prata, de olhos e de cabeleiras.
Peças ae ouro amarelo espalhadas sobre a ágata, pilastras
de mogno sustentando uma cúpula de esmeraldas,
buquês de cetim branco e de finas varas de rubis
rodeiam a rosa d'água.
Como um deus de enormes olhos azuis e de formas
de neve, o mar e o céu atraem aos terraços de mármore
a multidão das rosas fortes e jovens.
Snail Poem
Peter Orlovsky
Make my grave shape of heart so like a flower be free aired
& handsome felt,
Grave root pillow, tung up from grave & wigle at
blown up clowd.
Ear turnes close to under
layer of green felt moss & soundof rain dribble thru this layer
down to the roots that will tickle my ear.
Hay grave, my toes need cutting so file away
in sound curve or
Garbage grave, way above my head, blood will soon
trickle in my ear -
no choise but the grave, so cat & sheep are daisey
turned.
Train will tug my grave, my breath hueing gentil vapor
between weel & track.
So kitten string & ball, jumpe over this mound so
gently & cutely
So my toe can curl & become a snail & go curiously
on its way.
Nova Iorque, 1958
Prenúncio
Poema visual
Poema concreto
Poema processo
A desconstrução poética
Rimbaud em banho-maria
Jorge Barbosa no liquificador
E um suco de hip-pop
De poesia instantânea
Basta da esclerose
Da gramática nacionalista
Semântica mal passada
Ao molho da anarquia
Atire-se tudo para o alto
E leia-se Ferreira Goulart
Abaixo a incompetência
Folclórica!
Poema concreto
Poema processo
A desconstrução poética
Rimbaud em banho-maria
Jorge Barbosa no liquificador
E um suco de hip-pop
De poesia instantânea
Basta da esclerose
Da gramática nacionalista
Semântica mal passada
Ao molho da anarquia
Atire-se tudo para o alto
E leia-se Ferreira Goulart
Abaixo a incompetência
Folclórica!
Prenúncio
E já que este blog também se abriu a radicalidade cultural necessária, vale lembrar que há diferenças marcantes entre os novos e os velhos. Nem sempre são diferenças cordiais, mas, neste espaço, as diferenças são vistas de forma criativa e/ou produtiva. E nós reportamo-las com uma certa dose de humor.
Prenúncio
E já que este blog também se abriu para a radicalidade cultural necessária, vale lembrar que há diferenças marcantes entre os novos e os velhos. Nem sempre são diferenças cordiais, mas, neste espaço, as diferenças são pressentidas de forma criativa e/ou produtiva. E nós reportamo-las com uma certa dose de humor.
Engrenagens para uma contra cultura
Allen Ginsberg foi um dos líderes da chamada beat generation, que, antes de ser um movimento literário, era um manifesto pela liberdade poética e existencial. O jovem poeta do pós-guerra, nascido em 1926, se opunha à ditadura das rimas - debochava dizendo que procurar rimas era como fazer ginástica - e fazia apologia das drogas alucinarias. O seu livro Howl and other poems (Uivo), de 1956, tornou-se a bíblia do movimento beat. Ginsberg foi o porta-voz de vários clamores públicos: lutou contra a censura, a guerra do Vietname, as armas nucleares e pela preservação da natureza. Ele deixou 17 livros de poesia e 11 de prosa e gravou nove discos, em que canta blues e declama poemas. Nos últimos dez anos, antes de morrer em 1997, ele leccionava literatura no Brooklyn College, em Nova York, e vivia no East Village, bairro de Manhattan, com seu companheiro dos últimos 40 anos, o poeta Peter Orlovsky. Além de Ginsberg, outros grandes poetas do movimento beat foram Kerouac e Burroughs.
domingo, 30 de janeiro de 2005
Maça
Por Filinto Elísio
Ao beijo dado numa rama da infância, beijo dado à tarde
- por ter sido das lembranças, Paraíso expulso, diria. Guardo-o,
amiúde, a ver se ele nos torna o que foi outrora. Não o levarei
pelas apressadas escadas onde me perco. Nem dele farei meu talismã,
sombra, só de água que reflecte, espelho, mas não conta,
e o mundo não basta aqui nos lábios , serás tu a serpentearia,
a dança que se enrosca nesta maça e nela não são músicas os silêncios
com que tu lanças olhos às coisas que se estremecem, lascivos, em mim
só de terem mãos de afagar e língua pelos mamilos, evado-me
mil e uma noites, pernas, braços, sexo, olhos, espasmos, corro
e não olho se percorro o dia, a noite ou a morte. Quem sabe outro,
outrora, flor de macieira, quasar desse perfume, e volátil
nas cores e nos líquidos, no que cede assim e rompe, e transborda,
extravasado beijo – numa rama da infância – e eu, distraído…
Ao beijo dado numa rama da infância, beijo dado à tarde
- por ter sido das lembranças, Paraíso expulso, diria. Guardo-o,
amiúde, a ver se ele nos torna o que foi outrora. Não o levarei
pelas apressadas escadas onde me perco. Nem dele farei meu talismã,
sombra, só de água que reflecte, espelho, mas não conta,
e o mundo não basta aqui nos lábios , serás tu a serpentearia,
a dança que se enrosca nesta maça e nela não são músicas os silêncios
com que tu lanças olhos às coisas que se estremecem, lascivos, em mim
só de terem mãos de afagar e língua pelos mamilos, evado-me
mil e uma noites, pernas, braços, sexo, olhos, espasmos, corro
e não olho se percorro o dia, a noite ou a morte. Quem sabe outro,
outrora, flor de macieira, quasar desse perfume, e volátil
nas cores e nos líquidos, no que cede assim e rompe, e transborda,
extravasado beijo – numa rama da infância – e eu, distraído…
Maçã
Por Filinto Elísio
Ao beijo dado numa rama da infância, beijo dado à tarde
- por ter sido das lembranças, Paraíso expulso, diria. Guardo-o,
amiúde, a ver se ele nos torna o que foi outrora. Não o levarei
pelas apressadas escadas onde me perco. Nem dele farei meu talismã,
sombra, só de água que reflecte, espelho, mas não conta,
e o mundo não basta aqui nos lábios , serás tu a serpentearia,
a dança que se enrosca nesta maça e nela não são músicas os silêncios
com que tu lanças olhos às coisas que se estremecem, lascivos, em mim
só de terem mãos de afagar e língua pelos mamilos, evado-me
mil e uma noites, pernas, braços, sexo, olhos, espasmos, corro
e não olho se percorro o dia, a noite ou a morte. Quem sabe outro,
outrora, flor de macieira, quasar desse perfume, e volátil
nas cores e nos líquidos, no que cede assim e rompe, e transborda,
extravasado beijo – numa rama da infância – e eu, distraído…
Ao beijo dado numa rama da infância, beijo dado à tarde
- por ter sido das lembranças, Paraíso expulso, diria. Guardo-o,
amiúde, a ver se ele nos torna o que foi outrora. Não o levarei
pelas apressadas escadas onde me perco. Nem dele farei meu talismã,
sombra, só de água que reflecte, espelho, mas não conta,
e o mundo não basta aqui nos lábios , serás tu a serpentearia,
a dança que se enrosca nesta maça e nela não são músicas os silêncios
com que tu lanças olhos às coisas que se estremecem, lascivos, em mim
só de terem mãos de afagar e língua pelos mamilos, evado-me
mil e uma noites, pernas, braços, sexo, olhos, espasmos, corro
e não olho se percorro o dia, a noite ou a morte. Quem sabe outro,
outrora, flor de macieira, quasar desse perfume, e volátil
nas cores e nos líquidos, no que cede assim e rompe, e transborda,
extravasado beijo – numa rama da infância – e eu, distraído…
segunda-feira, 24 de janeiro de 2005
Pedras
Filinto Elísio
Espumas que eras
A borbulhar nas espumas, tu
e eu, esquecidos dos enganos,
de serem as horas plácidas
e os lugares incaracterísticos;
Dos frutos olvidaremos os umbrais
com que das falésias uivam, de silvarem,
as brisas e os lobos e, de cantarem,
os lobisomens evadidos das tocas;
Seremos, noite e dia, este mistério
de haver olhar, como o luar, que se esvai
num mergulhado banho de nuvem;
Esta coisa não dita, apenas e um pedaço,
pressentidos corpos, fugaz encontro,
quando - o que existe - é tudo viagem…
Das pedras noutra margem
Soube das pedras – das mais preciosas, diria -,
e era-o topázio no teu peito e no elevador,
de onde se via Nova Iorque envidraçado,
pensei a vida toda dos teus seios;
Quis, a cada paragem, cantar as pedras
e, num manifesto, fazer das pedras meus versos,
a cor furtada ao brilho dos meus olhos
e o néon tremeluzente, tuas mãos;
Soube-as em dedos cuidados doutras musas,
em brincos e piercings fabulosos, no trote das deusas,
pelas montras e avenidas fabulosas, soube-as lindas;
Horas que se escapam das clepsidras e são areias,
inertes que se evaporam no néon da cidade
- topázio! – e continuam pedra, das pedras, em mim…
domingo, 23 de janeiro de 2005
Idade meio porn
Filinto Elísio
Eterna idade
Pronto! De nada adianta fingir, dizer que tudo vai bem e que a lida anda a fluir cor-de-rosssima. Fao anos e no estou preparado para a canga da idade. Releio os versos de Mrio Fonseca e concordo com o poeta: viver devia ser at vinte. Mais do que isso, sobreviver aos barrancos e trancas. Dizes que eu devia estar contente, ufano e glorioso, at aqui de trabalho, aceso na ribalta dos aplausos. Mas qual qu? Onde j se viu um poeta virar vaidoso por ter subido num pedestal qualquer? Onde j se viu um andarilho gramar os louros que enfeitam a leviana fronte dos heris? Crise dos quarenta, te confesso. Afrontas-me com isso de gostar dos frutos e deles soletrar os amores trespassados. Fingir que tudo vai bem debaixo do sol, o tanas. Os livros j escritos (meus e teus) demandam um auto-de-f. Os no prelo, j no me do gozo antes mesmo de virem ao pblico. E ainda hei de escrever outros tantos, mais por desaforo intelectual do que pelo engenho e arte. Um pecador precisa da mo de me na cabea, banho de ervas e bno de pai-de-santo, que ningum de ferro. Depois, o astral por aqui no lembra ao diabo
Falando em cumprir anos
Diz-me o Pranchinha (sempre a provocar) que o pior dos anos a festa de aniversrio. No falo do arroz de pato da dona Mindoca, que divino. Ou, de um certo prisma, profano. Nem falo da famlia que o nico abrao existencial que Deus permite ao pecador. Mas da pirosa vela acesa, como um farol, no topo do bolo. Do ambiente ruidoso, numa hora que se quer zen, paz, nirvana. E dos vrios tipos de amigos que o prprio Pranchinha descreve assim: amigos simples, amigos verdadeiros e amigos da ona. Os amigos simples levam uma garrafa de tintol para festa. Os amigos verdadeiros chegam mais cedo, ajudam a cozinhar e ficam at mais tarde para ajudar a limpar. E os amigos da ona fazem tudo isso, e ainda arrasam a garrafeira, vomitam no tapete e dormem atrs do sof at o day after pela manh, quando a empregada os encontra. E a s faltaria mesmo o General Palanque a danar sapateado em cima da mesinha da sala. Ou, ento, o D.J., em vez de msica, a soltar no rdio as discusses acesas e outros reportrios do Parlamento. Pode? O pior dos anos de facto a festa de aniversrio
Filhos e livros ou vice-versa
Mas no me liguem muito, nem me levem tanto a srio. Foi uma nuvenzinha que passou. Coisas da idade. Ademais, isto de viver apartado do Denzel (este j quase um adolescente) tem muito que se lhe diga. O Pablo ocupa-me uma metade, mas a outra metade fica-me vazia. Ou to-somente cheia de nostalgia. Copo meio cheio ou meio vazio, eis a questo. Recolho dados para uma antologia potica a sair em torno do 5 de Julho. O ttulo ser 30 anos da poesia moderna cabo-verdiana. Ou A potica de quando a vida nasceu. Quero perfilar os melhores poemas cabo-verdianos das ltimas trs dcadas e deixar isso como uma obra singela, em tributo Independncia Nacional. Outrossim, est pronto o livro Das Hesprides (fotografia, verso e prosa) sobre Cabo Verde, editado pela Universal Frontier. O livro ser distribudo no mercado portugus pela Caminho. Ainda para este ano o livro S/Cem Margens ou quando o Zero faz das suas. Para dar sada, em formato livreiro, estas crnicas descontnuas. Quanto ao resto, tudo continua ao Deus-dar.
Domingo
De manh, vi um show de Toquinho e de Chico Buarque no DVD, em casa do meu pai. Falou-se de tudo e de nada, mas ficou aquela passagem sobre Eduardo Loureno. Falou-se tambm da estratgia para a antologia, com paralelos nos j feitos, aos quais devo reverncia. Durante a tarde, o Pablo virou o dono da festa. Passeamos pelos stios que nem conto. Numa de mano a mano.
noite, hora light de tomar uma caipirinha, sumo de caju ou de tudo que se possa imaginar, e de jogar xadrez, ou domin, ou pacincia, ou simplesmente declamar versos de Fernando Pessoa. Mas no se preocupem (coisas do Pranchinha, meio porn o gajo), nem tudo isto exactamente verdade
segunda-feira, 17 de janeiro de 2005
Das frutas serenadas
Romãs
“Não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!”
David Mourão-Ferreira
Amor, não tarda que as romãs
sejam aqui frutas da época
e o irmos à loja da esquina
- do Ambrósio, como sabes –
flagrantes agora de lilases
(tão simplesmente frísias, lá estás tu)
ou framboesas das que também comíamos.
Não tarda, Amor, que, alados,
desmedidos no alarde das sombras,
nos tornemos destas apenas névoa,
quem sabe se nesta ou noutra vida
saibam aos beijos este travo das maçãs,
e o que se debruça no peitoril aos gritos
- os teus seios de ver, as tuas mãos nas minhas,
as romãs – e, tão rente à boca, tanta fome
(ou, Amor, sede, diria) que te guardo…
sejam aqui frutas da época
e o irmos à loja da esquina
- do Ambrósio, como sabes –
flagrantes agora de lilases
(tão simplesmente frísias, lá estás tu)
ou framboesas das que também comíamos.
Não tarda, Amor, que, alados,
desmedidos no alarde das sombras,
nos tornemos destas apenas névoa,
quem sabe se nesta ou noutra vida
saibam aos beijos este travo das maçãs,
e o que se debruça no peitoril aos gritos
- os teus seios de ver, as tuas mãos nas minhas,
as romãs – e, tão rente à boca, tanta fome
(ou, Amor, sede, diria) que te guardo…
Mangas
Não te quis contar tudo das mangas,
antes balbuciei aos teus ouvidos o luar
que, da fresta dos coqueiros, banhava
o areal silencioso, pedaços de notas
com que a brisa desejava as ondas,
o termos sido, mano a mano, essa loucura!
Das mangas não, Amor. Tão íntimas de nós,
pedras soletradas, tão de toda a fruta
(cá dentro) como foram os abraços
e a nudez que não nos acabava, senão
nas pétalas de uma flor serenada
e nesses murmúrios (soubeste-os sempre)
das mangas…
Filinto Elísio
antes balbuciei aos teus ouvidos o luar
que, da fresta dos coqueiros, banhava
o areal silencioso, pedaços de notas
com que a brisa desejava as ondas,
o termos sido, mano a mano, essa loucura!
Das mangas não, Amor. Tão íntimas de nós,
pedras soletradas, tão de toda a fruta
(cá dentro) como foram os abraços
e a nudez que não nos acabava, senão
nas pétalas de uma flor serenada
e nesses murmúrios (soubeste-os sempre)
das mangas…
Filinto Elísio
sábado, 15 de janeiro de 2005
Amor e Sexo
Rita Lee
Amor é um livro - Sexo é esporte
Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos
Amor é cristão - Sexo é pagão
Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval
Amor é para sempre - Sexo também
Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade
Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois S
exo vem dos outros e vai embora
Amor vem de nós e demora
segunda-feira, 10 de janeiro de 2005
Além Alma
Paulo Leminsky
Meu coração lá de longefaz sinal que quer voltar.Já no peito trago em bronze:NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.Pra que me serve um negócioque não cessa de bater?Mais parece um relógioque acaba de enlouquecer.Pra que é que eu quero quem chora,se estou tão bem assim,e o vazio que vai lá foracai macio dentro de mim?
As Tábuas de Madeira
por José António Gonçalves
Dêem-me as tábuas,
Essas tábuas de madeira firme
Com que se constróem os barcos.
Dêem-me as tábuas rijas do tempo,
As tábuas livres e cantantes de madeira
Com que se erguem os muros fortes
das cidades inexpugnáveis.
Deixem-me juntá-las às folhagens
Do despojamento da sua condição de árvores.
Com elas, prometo,
Irei vigorosamente alicerçar,
No entrelaçar das tempestades
Que se lêem nos intervalos das nuvens invernais,
As jangadas calmas
Que respondem nas manhãs de nevoeiro
Pelo simples nome de casas.
Depois, se verdadeiramente me apetecer,
Decoro-as com dois pares de asas
e deixo-as voar.
A promessa permanece no poema.
Deixemos as casas, na sua condição de jangadas,
Cumprir com a sua missão de navegar.
Dêem-me as tábuas,
Essas tábuas de madeira firme
Com que se constróem os barcos.
Dêem-me as tábuas rijas do tempo,
As tábuas livres e cantantes de madeira
Com que se erguem os muros fortes
das cidades inexpugnáveis.
Deixem-me juntá-las às folhagens
Do despojamento da sua condição de árvores.
Com elas, prometo,
Irei vigorosamente alicerçar,
No entrelaçar das tempestades
Que se lêem nos intervalos das nuvens invernais,
As jangadas calmas
Que respondem nas manhãs de nevoeiro
Pelo simples nome de casas.
Depois, se verdadeiramente me apetecer,
Decoro-as com dois pares de asas
e deixo-as voar.
A promessa permanece no poema.
Deixemos as casas, na sua condição de jangadas,
Cumprir com a sua missão de navegar.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
Receita de Mulher
Vinícius de Moraes
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível.
É preciso
Que tudo isso seja belo.
É preciso que súbito T
enha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens.
É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado.
É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde.
Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo.
Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente.
Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes.
Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério.
Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos.
A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau.
Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar.
Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida.
Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Blue skies smiling at me
Blue skies smiling at me
Nothing but blue skies do I see
Bluebirds singing a song
Nothing but bluebirds all day long
Never saw the sun shining so bright
Never saw things going so right
Noticing the days hurrying by
When you're in love, my, how they fly
Blue days, all of them gone
Nothing but blue skies from now on
Nothing but blue skies do I see
Bluebirds singing a song
Nothing but bluebirds all day long
Never saw the sun shining so bright
Never saw things going so right
Noticing the days hurrying by
When you're in love, my, how they fly
Blue days, all of them gone
Nothing but blue skies from now on
terça-feira, 28 de dezembro de 2004
As palavras que me cercam
Filinto Elísio
Zero
Tem dias (seria verbo ter ou haver?) em que escrevo por uma afronta da alma – uma imperiosa necessidade de trazer para fora o que me vai cá dentro. E não venha algum leitor reclamar que isto é tribuna pública e não um muro das lamentações. Mas valha-nos Deus que tudo o vai na escrita, por mais colectiva que pareça, são interstícios existenciais. Depois, estamos às voltas com o fim-do-ano. É tempo de fazer balanços, reflexões, seminários da alma, coffee breaks das paixões, essas coisas. E, quem sabe, preparar o espírito para a cavalgadura de 2005, ora terna e cheia de crença, ora aziaga e tomada de oportunistas, como já se antevê deste computador.
Um
Olho para dentro de mim e sinto uma saudade inexplicável, uma lágrima que rola do nada e não sai aqui reflectida na solidão dos espelhos. Foguetes, buzinões, serpentinas, gargalhadas. Na televisão, o último despacho sobre a tragédia no sudoeste asiático. Pode ser um mau presságio? O que me deu agora para a fantasia de vidente? Leio uma crónica de Millôr Fernandes e desato numa grande gargalhada. Este país vai ser PDM e o Pranchinha mune-se de engenho e arte para escrever a grande saga. Este país é imparável, meu companheiro. Rumo às praias de um futuro aberto, como diria Gilberto Gil. Dentro de mim, há mais livros de poesia, palavras turbinadas e metáforas fervilhantes, textos e mais textos, nesta fuga substantiva. Uma musa, projectada desta saudade inexplicável, haverá de ler, mais sancionada pelo destino que impressionada com o desatino, os sonetos por vir. Os leitores (no arrasta-pé do fim-do-ano) que me perdoem a decadência…
Dois
Quer dizer que as idas às crónicas eram mais uma questão de exercício de ódio do que a higiénica leitura dos semanários à sexta-feira. A dita pegava nos jornais e folheava-os até à última página. Depois, Freud explica, confidenciava-se com a amiga: ei-lo, o atrevido, convencidíssimo da silva, armado em carapau de corrida, só pode. Está visto que ela – musa eterna ou feiticeira de cor morena – não morria de amores pelo colunista e declarara uma guerra-fria e surda ao coitado do Pranchinha que, alheio ao fastio que provocava, ia dizendo das suas sobre o país real. O Pranchinha, ó infeliz, foi formatado como um decalque de Sancho Pança, mas de tanto frequentar os cafés da capital, onde todos viram experts de qualquer coisa, arma-se vez por outra em Dom Quixote, o sonhador. E isso irritava a musa que o lia por toxicodependência, mas acto contínuo vomitava, pois, tirando o General Palanque, nas ilhas nada que reluz é ouro. E dizia, que ela ia às crónicas por uma questão de exercício de ódio. Entrementes, e agora a vender o peixe pelo preço que comprei, estou a escrever a tal crónica no jornal Horizonte em que a leitora procura odiar o cronista, porque no fundo, no inconsciente está apanhada na alma, e este sai da fotografia e dá-lhe um beijo de cinema. Amar é submeter-se ao êxtase do simples, ora. Um beijo daqueles, em que nos filmes de cowboys desemboca em The End!
Três
Ás vezes, escrevo coisas que eu próprio não subscrevo, depois de as ler. Para quê tanto azedume, num mundo já de si pornográfico de guerra e miséria? Outras vezes, no esconderijo deste computador, reconstruo letras, sílabas, palavras, frases, a ver se me sai um texto de acariciar os espíritos. Al Berto, na tecitura da escrita, confessara que: aceito ainda o mistério das palavras que me cercam e não coincidem, em nada, com a realidade. Mas fiquemos, pelo menos agora, com este travo de realidade. Bonita é a abelha que rouba o pólen à flor. O resto…são as horas que desaguam, transbordantes, em 2005!
quinta-feira, 23 de dezembro de 2004
Guardanapos de Papel
por Filinto Elísio
Ceia
Estaremos todos, adultos, adolescentes e crianças, na noite da consoada que a dona Mindoca nos prepara. A tribo reunida (netos, filhos, pais, irmãos, tios, primos e amigos) a comemorar, sob o pretexto da natividade divina, o sermos uma família. Em certos momentos, tudo o que reluz é ouro. Os olhos das crianças diante das prendas, o sorriso dos mais velhos e a voz que vem de um silêncio que não conto. Estariam cá os que já partiram, mas que na moldura maior são parte da festa. Inevitável uma certa tristeza pelas crianças de Falluja. Por todas as crianças do mundo que, devido às circunstâncias, enfrentam a guerra, a miséria e a doença. Enquanto Santa (Pai Natal ou raio que o parta), escolhe uns poucos para a comédia do costume. Arrepia um bocado…e não é do friozinho que, do terraço da dona Mindoca, afirma estar o ano a dar o berro…
Ano – encontros e desencontros
Estiveram apenas por um lapso de tempo. Um ponto. Coisinha de nada. Não deu para falarem sobre os anos que, como as ondas, rolam ainda nas praias da memória. Nem deu para juntos olharem a lua e a sua esplêndida beleza. Os encontros são marcados pelos desencontros. Se alguém faz trocadilho dos termos, palavra que não é este que assina a crónica…
Se oriente, rapaz
2004 foi um ano daqueles (Simpósio Internacional Amílcar Cabral, MCA e PDM). A ventura de estar com Gilberto Gil. Eu o conhecia desde a infância. De nome, de estória e de música. A criançada a cantar Oriente: (…) Pela curiosidade de ver/Onde o sol se esconde/Vê se compreende/Pela simples razão de que tudo depende/De determinação (…). Ver Gil e Veiga (Manuel, naturalmente) a dançar na Praça Alexandre Albuquerque deixou cá dentro uma impressão bonita. Uma luzinha bonita acende-se no fundo do túnel. É pela cultura (deixemo-nos de tretas) que este país tem caminho para andar…
Revelados
Os Rabelados de Espinho Branco gravaram as suas ladainhas em CD, uma produção da Comissão para os Direitos Humanos e Cidadania. As ladainhas são rezas cantadas que os Rabelados entoam a pedir graça aos santos. Pela importância cultural da iniciativa, vale aqui dar os parabéns a duas amigas imprescindíveis: Mizá e Vera Duarte.
Mar & Luz, vidas paralelas
Quem somos senão vasculhadores das nossas partes deixadas aos lugares e aos tempos? O regresso é entrar num espelho e caminhar numa espiral inversa. O teu nome diz tudo, pré figura o instante que és e o resto é o resto. E nessa procura somos parte daquela música cantada por Milton Nascimento (Guardanapos de Papel): (…) Na minha cidade tem poetas, poetas/Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas/E sempre aparecem quando menos aguardados, guardados/Entre livros e sapatos, em baús empoeirados (…). O que sobra, Mário, são as notícias do bloqueio. Elas existem…
Para o menino Tony
Há quem confunda alhos com bugalhos e tome nuvem por Juno. Há de tudo neste mundo de Deus: desde santo que não faz milagre a gente que queima santo. Há também gente que com o diabo fez contrato. Assessorou o demo nas suas travessuras e caboverduras. Isto é assim: ou dizemos «olá, como vai» e vamos à vida, ou nem todos são filhos da santa. Haja estômago! De resto, tudo não passa de fábula. Lobos, cabras, leões, tubarões, todos no palanque da brincadeira. E não faltam ratos, bodes e burros, gregos e troianos, arianos e plebeus, um grande Carnaval de generais, para a grande alegoria (direi mesmo ironia) que o destino nos reservou. E a raposa (o menino sabe), nas suas deambulações, topou um saboroso e abandonado cacho de uvas a cair da videira. Lobo armado em cordeiro, o gajo haveria de dizer «estão verdes». Era mais ou menos nesta linha a fábula de La Fontaine. Além do mais, tudo vale a pena quando a alma é pequena, dirá o menino Tony…
Resolução do Ano Novo
Ler a colecção completa de Eduardo Lourenço, que me ofereceram. Ser escandalosamente feliz. Reunir a tribo sempre que possível. Sentir Cabo Verde como parte do mundo. Ser tudo, menos claridoso. Escrever um ou dois livros. Continuar a dar mais, muito mais, do que a receber…
Boas Festas
E venha daí aquele abraço. O leitor tem sempre razão. É cliente, ao fim e ao cabo…
Estaremos todos, adultos, adolescentes e crianças, na noite da consoada que a dona Mindoca nos prepara. A tribo reunida (netos, filhos, pais, irmãos, tios, primos e amigos) a comemorar, sob o pretexto da natividade divina, o sermos uma família. Em certos momentos, tudo o que reluz é ouro. Os olhos das crianças diante das prendas, o sorriso dos mais velhos e a voz que vem de um silêncio que não conto. Estariam cá os que já partiram, mas que na moldura maior são parte da festa. Inevitável uma certa tristeza pelas crianças de Falluja. Por todas as crianças do mundo que, devido às circunstâncias, enfrentam a guerra, a miséria e a doença. Enquanto Santa (Pai Natal ou raio que o parta), escolhe uns poucos para a comédia do costume. Arrepia um bocado…e não é do friozinho que, do terraço da dona Mindoca, afirma estar o ano a dar o berro…
Ano – encontros e desencontros
Estiveram apenas por um lapso de tempo. Um ponto. Coisinha de nada. Não deu para falarem sobre os anos que, como as ondas, rolam ainda nas praias da memória. Nem deu para juntos olharem a lua e a sua esplêndida beleza. Os encontros são marcados pelos desencontros. Se alguém faz trocadilho dos termos, palavra que não é este que assina a crónica…
Se oriente, rapaz
2004 foi um ano daqueles (Simpósio Internacional Amílcar Cabral, MCA e PDM). A ventura de estar com Gilberto Gil. Eu o conhecia desde a infância. De nome, de estória e de música. A criançada a cantar Oriente: (…) Pela curiosidade de ver/Onde o sol se esconde/Vê se compreende/Pela simples razão de que tudo depende/De determinação (…). Ver Gil e Veiga (Manuel, naturalmente) a dançar na Praça Alexandre Albuquerque deixou cá dentro uma impressão bonita. Uma luzinha bonita acende-se no fundo do túnel. É pela cultura (deixemo-nos de tretas) que este país tem caminho para andar…
Revelados
Os Rabelados de Espinho Branco gravaram as suas ladainhas em CD, uma produção da Comissão para os Direitos Humanos e Cidadania. As ladainhas são rezas cantadas que os Rabelados entoam a pedir graça aos santos. Pela importância cultural da iniciativa, vale aqui dar os parabéns a duas amigas imprescindíveis: Mizá e Vera Duarte.
Mar & Luz, vidas paralelas
Quem somos senão vasculhadores das nossas partes deixadas aos lugares e aos tempos? O regresso é entrar num espelho e caminhar numa espiral inversa. O teu nome diz tudo, pré figura o instante que és e o resto é o resto. E nessa procura somos parte daquela música cantada por Milton Nascimento (Guardanapos de Papel): (…) Na minha cidade tem poetas, poetas/Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas/E sempre aparecem quando menos aguardados, guardados/Entre livros e sapatos, em baús empoeirados (…). O que sobra, Mário, são as notícias do bloqueio. Elas existem…
Para o menino Tony
Há quem confunda alhos com bugalhos e tome nuvem por Juno. Há de tudo neste mundo de Deus: desde santo que não faz milagre a gente que queima santo. Há também gente que com o diabo fez contrato. Assessorou o demo nas suas travessuras e caboverduras. Isto é assim: ou dizemos «olá, como vai» e vamos à vida, ou nem todos são filhos da santa. Haja estômago! De resto, tudo não passa de fábula. Lobos, cabras, leões, tubarões, todos no palanque da brincadeira. E não faltam ratos, bodes e burros, gregos e troianos, arianos e plebeus, um grande Carnaval de generais, para a grande alegoria (direi mesmo ironia) que o destino nos reservou. E a raposa (o menino sabe), nas suas deambulações, topou um saboroso e abandonado cacho de uvas a cair da videira. Lobo armado em cordeiro, o gajo haveria de dizer «estão verdes». Era mais ou menos nesta linha a fábula de La Fontaine. Além do mais, tudo vale a pena quando a alma é pequena, dirá o menino Tony…
Resolução do Ano Novo
Ler a colecção completa de Eduardo Lourenço, que me ofereceram. Ser escandalosamente feliz. Reunir a tribo sempre que possível. Sentir Cabo Verde como parte do mundo. Ser tudo, menos claridoso. Escrever um ou dois livros. Continuar a dar mais, muito mais, do que a receber…
Boas Festas
E venha daí aquele abraço. O leitor tem sempre razão. É cliente, ao fim e ao cabo…
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
2 days to christmas.....
yesterday the weather was so damn hot can.
muahahahha yesterday carol came my house so early sia.
when she come my house i was still sleeping.
so nice of nat cause she make tang yuan for all of us.
at my house carol helped me to wrap my books and she helped me with my chinese and my accounts.
there is something which hit my mind after what she said.
after what she said.
oman Pro Football Player - Part III
yesterday the weather was so damn hot can.
muahahahha yesterday carol came my house so early sia.
when she come my house i was still sleeping.
so nice of nat cause she make tang yuan for all of us.
at my house carol helped me to wrap my books and she helped me with my chinese and my accounts.
there is something which hit my mind after what she said.
after what she said.
oman Pro Football Player - Part III
Breeding got into professional football last August when she responded to an ad for try-outs and was selected as backup quarterback for the 38-woman team.
The job is truly professional. The players are paid according to ticket sales, plus shares of any net revenue surplus at the end of the season, although all the players still have to keep their day jobs.
"I know a lot of the other players from the other sports I play," Breeding said. "We all work during the day, so the hardest part is making practice every day while still playing other sports. Working here at Huntsville Center and having to travel so much also makes it difficult for me, but it's worth it!"
Football:
terça-feira, 21 de dezembro de 2004
O CAPTAIN! my Captain!
O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather¿d every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up¿for you the flag is flung¿for you the bugle trills;
For you bouquets and ribbon¿d wreaths¿for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You¿ve fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor¿d safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;
Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
The ship has weather¿d every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up¿for you the flag is flung¿for you the bugle trills;
For you bouquets and ribbon¿d wreaths¿for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You¿ve fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor¿d safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;
Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
terça-feira, 14 de dezembro de 2004
Santa´s
Santa´s coming to town
Em época natalícia, eu fico mais sensível. É algo que vem de trás, da infância mesmo. Encanta-me a orla marítima enfeitada de luzes, as bermas e as paredes caiadas. Vejo, com fina nostalgia, a azáfama das compras. É tempo em que abraçar os mais próximos ganha outra dimensão. E fico em dúvida se sou ateu ou devoto. E só não declamo versos de Fernando Pessoa pelas ruas, a medo de ser tachado de maluco. Valha-me Deus que homem também chora. Valha-lhe a mim próprio o dom de cantar, sem arrogância dos donos da verdade, estes dias que passam. E amar, sempre e de todas as formas, legitima o mistério de viver. Aproveito a quadra para desejar Boas Festas aos leitores do S/Cem Margens. Dizer-lhes que tem valido a pena o convívio, apesar dos riscos. Escrever nunca foi um acto inocente, mas uma afirmação existencial que tem peso e ocupa espaço. E esta hiper sensibilidade – que ora desagrada aos gregos, ora aos troianos – me dá gozo e responsabilidade. Ademais, será como cantar aos meus filhos (Denzel e Pablo): Santa´s coming…
Grito, logo existo
O atentado contra o Procurador da República Arlindo Figueiredo e a sua família provoca a todos vivo repúdio e obriga-nos a pensar. Estamos em guerra? Em estado de sítio? Ou de medo? Quem ousa gritar contra o estado das coisas? Quem ousa existir? O Estado não pode ficar vulnerável face à criminalidade. A democracia, contrariamente ao vaticínio de alguma gente, não é o Estado frágil, banana e desautorizado. É antes um Estado ágil, bastião e autorizado. Em nome do cidadão. Em nome daquele que produz, vota e paga impostos. E exige o bem-estar e o estar bem. O atentado contra o magistrado e a sua família significa apenas e tão-só que a criminalidade foi longe de mais. E que declarou guerra ao Estado e ao cidadão. Obriga-nos a pensar no Estado da Nação. Na segurança colectiva. Nos nossos filhos. Neste país que queremos todos ver transformado para melhor. Tomemos a capital por exemplo. Praia é hoje uma cidade a pedir medidas urgentes. Vende-se tudo e mais alguma coisa nas ruas: alimentos, animais, remédios e CD piratas. A população alivia-se em qualquer lugar e os becos fedem a urina e fezes. Os arruaceiros brigam pelas ruas e as prostitutas vendem o corpo à porta dos hotéis e das boates. Na calada da noite, os impiedosos assaltam os transeuntes; os veículos são saqueados à porta de casa. As moradias são fortificadas e as empresas cercadas de guardas-nocturnos. E o quadro completa-se com a apatia do cidadão: olha, dá em doido e cumpre o seu destino de pagar o IVA. E o criminoso tenta impor um way of life. Ora, isto está tomado de jeep em pó. Está cheio de miudagem que, como quem não quer a coisa, deposita milhares de contos nos bancos sem verificação de origem. Está abarrotado da basófia dos homens da farinha que fazem e desfazem, ante à impotência colectiva. Está assim de gente que mata por dar aqui aquela palha. Mas importa quebrar o silêncio. Gritar para poder existir. Contra o estado das coisas. O cidadão que conhece o drama da toxicodependência a cada esquina tem de legitimar e dar «carta branca» às autoridades para um combate radical e sem misericórdia ao narcotráfico. Em nenhum lugar se combate a droga com indiferença, paninhos quentes ou morabeza! Há que declarar guerra…no mínimo!
Nanda na varanda
Na varanda do meu apartamento, releio Antes que anoiteça, de Reinaldo Arenas. Antes havíamos discutido (eu, tu e o Pranchinha) as questões políticas em Portugal, país que não nos é tão distante. Há dias, falando com Casimiro de Pina, tive a grata impressão de que uma geração já encara a democracia a partir da perspectiva cultural. Democracia como processo de civilidade. Os Estados Gerais dos partidos que enformam a nossa constitucionalidade, nem sempre rompem em nós a primordial liberdade. Releio Arenas e penso na homossexualidade reprimida na nossa sociedade. Somos capazes de deflagrar problemas noutras paragens do mundo, mas não conseguimos enxergar a ignomínia que bate às nossas portas. Ora, isto está tomado ainda de alguma mediocridade. Lá longe, o barulho, piroso e encardido, de um colazouk.
Em época natalícia, eu fico mais sensível. É algo que vem de trás, da infância mesmo. Encanta-me a orla marítima enfeitada de luzes, as bermas e as paredes caiadas. Vejo, com fina nostalgia, a azáfama das compras. É tempo em que abraçar os mais próximos ganha outra dimensão. E fico em dúvida se sou ateu ou devoto. E só não declamo versos de Fernando Pessoa pelas ruas, a medo de ser tachado de maluco. Valha-me Deus que homem também chora. Valha-lhe a mim próprio o dom de cantar, sem arrogância dos donos da verdade, estes dias que passam. E amar, sempre e de todas as formas, legitima o mistério de viver. Aproveito a quadra para desejar Boas Festas aos leitores do S/Cem Margens. Dizer-lhes que tem valido a pena o convívio, apesar dos riscos. Escrever nunca foi um acto inocente, mas uma afirmação existencial que tem peso e ocupa espaço. E esta hiper sensibilidade – que ora desagrada aos gregos, ora aos troianos – me dá gozo e responsabilidade. Ademais, será como cantar aos meus filhos (Denzel e Pablo): Santa´s coming…
Grito, logo existo
O atentado contra o Procurador da República Arlindo Figueiredo e a sua família provoca a todos vivo repúdio e obriga-nos a pensar. Estamos em guerra? Em estado de sítio? Ou de medo? Quem ousa gritar contra o estado das coisas? Quem ousa existir? O Estado não pode ficar vulnerável face à criminalidade. A democracia, contrariamente ao vaticínio de alguma gente, não é o Estado frágil, banana e desautorizado. É antes um Estado ágil, bastião e autorizado. Em nome do cidadão. Em nome daquele que produz, vota e paga impostos. E exige o bem-estar e o estar bem. O atentado contra o magistrado e a sua família significa apenas e tão-só que a criminalidade foi longe de mais. E que declarou guerra ao Estado e ao cidadão. Obriga-nos a pensar no Estado da Nação. Na segurança colectiva. Nos nossos filhos. Neste país que queremos todos ver transformado para melhor. Tomemos a capital por exemplo. Praia é hoje uma cidade a pedir medidas urgentes. Vende-se tudo e mais alguma coisa nas ruas: alimentos, animais, remédios e CD piratas. A população alivia-se em qualquer lugar e os becos fedem a urina e fezes. Os arruaceiros brigam pelas ruas e as prostitutas vendem o corpo à porta dos hotéis e das boates. Na calada da noite, os impiedosos assaltam os transeuntes; os veículos são saqueados à porta de casa. As moradias são fortificadas e as empresas cercadas de guardas-nocturnos. E o quadro completa-se com a apatia do cidadão: olha, dá em doido e cumpre o seu destino de pagar o IVA. E o criminoso tenta impor um way of life. Ora, isto está tomado de jeep em pó. Está cheio de miudagem que, como quem não quer a coisa, deposita milhares de contos nos bancos sem verificação de origem. Está abarrotado da basófia dos homens da farinha que fazem e desfazem, ante à impotência colectiva. Está assim de gente que mata por dar aqui aquela palha. Mas importa quebrar o silêncio. Gritar para poder existir. Contra o estado das coisas. O cidadão que conhece o drama da toxicodependência a cada esquina tem de legitimar e dar «carta branca» às autoridades para um combate radical e sem misericórdia ao narcotráfico. Em nenhum lugar se combate a droga com indiferença, paninhos quentes ou morabeza! Há que declarar guerra…no mínimo!
Nanda na varanda
Na varanda do meu apartamento, releio Antes que anoiteça, de Reinaldo Arenas. Antes havíamos discutido (eu, tu e o Pranchinha) as questões políticas em Portugal, país que não nos é tão distante. Há dias, falando com Casimiro de Pina, tive a grata impressão de que uma geração já encara a democracia a partir da perspectiva cultural. Democracia como processo de civilidade. Os Estados Gerais dos partidos que enformam a nossa constitucionalidade, nem sempre rompem em nós a primordial liberdade. Releio Arenas e penso na homossexualidade reprimida na nossa sociedade. Somos capazes de deflagrar problemas noutras paragens do mundo, mas não conseguimos enxergar a ignomínia que bate às nossas portas. Ora, isto está tomado ainda de alguma mediocridade. Lá longe, o barulho, piroso e encardido, de um colazouk.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2004
Divagações
Filinto Elísio
Campo de Concentração
Prometi ficar atento ao Tarrafal, de Santiago, graças à Festa da Juventude Graciosa, causa próxima. Convencido de que se torna preciso e urgente um outro olhar sobre esse Concelho, vou escrevendo, de forma bissexta, mas resoluta, sobre as realidades que importam (do meu ponto de vista, naturalmente) mudar. Sem entrar no âmago das turras políticas que fazem o nosso quotidiano neste país e têm especial tempero nos meios pequenos, terei sobre o Tarrafal um olhar amigo, solidário e crítico. Deu-me para pensar no Campo de Concentração, em Chão Bom, criado há mais de 70 anos e que conta muito da história colonial de Cabo Verde. Das outras ex colónias portuguesas e de Portugal. Olho para o Campo de Concentração e para o seu grito – ainda silencioso – de reinvenção do real. Importava perceber (mas com acções concretas, minha gente) que o Tarrafal é também espaço de lembranças, quinquilharias e reminiscências. Coisas que não cabem senão no velho baú da memória. Incomodam? Que incomodem! O grande capital do futuro é o homem…
Kafuka – Cine-clube da Praia
Os amantes do cinema já podem ver, mais do que olhar, para a tela. Um grupo de jovens quadros cria um Cineclube, na cidade da Praia. Algo alternativo ao cinema dos circuitos comerciais e das videotecas da capital. Seja esta iniciativa uma antevisão da cultura cinemateca. A importância de um clube de cinema na formação de plateias, de um núcleo difusor da cultura cinematográfica e na deflagração de uma geração cinemateca é inquestionável. Em verdade, precisamos reinventar uma geração capaz de pressentir cinema como um veículo de expressão artística. Vivemos, aqui e agora, sem a possibilidade de contemplação de outras linguagens cinematográficas, porque este nosso mercado, cifronista e medíocre, não oferece outra opção senão o espectáculo narrativo simplista, imperando a idolatria do mau com efeitos especiais. Precisamos reinventar uma geração capaz de ver Ford, Kurosawa, Buñuel, Eisenstein, Resnais, Fellini, De Sicca, Pasolini, Scolla, Welles, Wilder, Truffaut, Renoir, Bergman, Allen, Almodôvar e outros cineastas de fina estampa. Como diria José Lino Grünewald, «Cinema se aprende indo ao cinema». Agora ou nunca. Numa época em que a indústria do vídeo (e os seus cânones narrativos), qual metástase doentia, tenta estrangular a estética do cinema, há que reinventar espaços e ambientes para se ver filmes de qualidade. Por isso, palmas para essa juventude que ousa dar uma pedrada no charco. E eis que o cineclubismo reentra para a vida da cidade. Já não era sem tempo…
Frank
Encontrava-se, aqui há dias, em visita privada, Francisco L. Borges, mais conhecido nos Estados Unidos, por Frank L. Borges. Figura proeminente nas esferas académicas, políticas e financeiras, Borges é secretário-geral de uma das grandes empresas imobiliárias americanas, a Landmark Partners. Especialista em finanças, mais precisamente nas estratégias, nos investimentos e no desenvolvimento do capital aplicado, Frank deveria ser paradigma, não apenas em Wall Street, mas neste Cabo Verde de esperança e a querer Millenniun. Mas Frank, vê-se logo que a nossa imprensa estava desatenta, pautou a sua trajectória em defesa de causas civis e políticas, não só como tesoureiro da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), maior associação americana para a defesa das minorias raciais, como na direcção da Hartford Foundation for Public Giving, da University of Connecticut Foundation e da companhia Highland Hospitality. Borges serviu, por dois mandados, como o Secretário de Tesouro do Estado de Connecticut (de 1986 a 1993), antes de ser apontado como director e membro do conselho da administração do poderoso grupo financeiro e segurador GE Capital’s Financial Guaranty Insurance Corporation, em Nova Iorque. Ele também já foi vice-presidente da câmara de Hartford, capital do estado de Connecticut, perto de onde nasceu o pianista Horace Silver, outro ilustre de origem cabo-verdiana. Esta aparente resenha biográfica pretende apenas chamar atenção aos incautos e repetir que o grande capital do futuro é o homem…
Prometi ficar atento ao Tarrafal, de Santiago, graças à Festa da Juventude Graciosa, causa próxima. Convencido de que se torna preciso e urgente um outro olhar sobre esse Concelho, vou escrevendo, de forma bissexta, mas resoluta, sobre as realidades que importam (do meu ponto de vista, naturalmente) mudar. Sem entrar no âmago das turras políticas que fazem o nosso quotidiano neste país e têm especial tempero nos meios pequenos, terei sobre o Tarrafal um olhar amigo, solidário e crítico. Deu-me para pensar no Campo de Concentração, em Chão Bom, criado há mais de 70 anos e que conta muito da história colonial de Cabo Verde. Das outras ex colónias portuguesas e de Portugal. Olho para o Campo de Concentração e para o seu grito – ainda silencioso – de reinvenção do real. Importava perceber (mas com acções concretas, minha gente) que o Tarrafal é também espaço de lembranças, quinquilharias e reminiscências. Coisas que não cabem senão no velho baú da memória. Incomodam? Que incomodem! O grande capital do futuro é o homem…
Kafuka – Cine-clube da Praia
Os amantes do cinema já podem ver, mais do que olhar, para a tela. Um grupo de jovens quadros cria um Cineclube, na cidade da Praia. Algo alternativo ao cinema dos circuitos comerciais e das videotecas da capital. Seja esta iniciativa uma antevisão da cultura cinemateca. A importância de um clube de cinema na formação de plateias, de um núcleo difusor da cultura cinematográfica e na deflagração de uma geração cinemateca é inquestionável. Em verdade, precisamos reinventar uma geração capaz de pressentir cinema como um veículo de expressão artística. Vivemos, aqui e agora, sem a possibilidade de contemplação de outras linguagens cinematográficas, porque este nosso mercado, cifronista e medíocre, não oferece outra opção senão o espectáculo narrativo simplista, imperando a idolatria do mau com efeitos especiais. Precisamos reinventar uma geração capaz de ver Ford, Kurosawa, Buñuel, Eisenstein, Resnais, Fellini, De Sicca, Pasolini, Scolla, Welles, Wilder, Truffaut, Renoir, Bergman, Allen, Almodôvar e outros cineastas de fina estampa. Como diria José Lino Grünewald, «Cinema se aprende indo ao cinema». Agora ou nunca. Numa época em que a indústria do vídeo (e os seus cânones narrativos), qual metástase doentia, tenta estrangular a estética do cinema, há que reinventar espaços e ambientes para se ver filmes de qualidade. Por isso, palmas para essa juventude que ousa dar uma pedrada no charco. E eis que o cineclubismo reentra para a vida da cidade. Já não era sem tempo…
Frank
Encontrava-se, aqui há dias, em visita privada, Francisco L. Borges, mais conhecido nos Estados Unidos, por Frank L. Borges. Figura proeminente nas esferas académicas, políticas e financeiras, Borges é secretário-geral de uma das grandes empresas imobiliárias americanas, a Landmark Partners. Especialista em finanças, mais precisamente nas estratégias, nos investimentos e no desenvolvimento do capital aplicado, Frank deveria ser paradigma, não apenas em Wall Street, mas neste Cabo Verde de esperança e a querer Millenniun. Mas Frank, vê-se logo que a nossa imprensa estava desatenta, pautou a sua trajectória em defesa de causas civis e políticas, não só como tesoureiro da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), maior associação americana para a defesa das minorias raciais, como na direcção da Hartford Foundation for Public Giving, da University of Connecticut Foundation e da companhia Highland Hospitality. Borges serviu, por dois mandados, como o Secretário de Tesouro do Estado de Connecticut (de 1986 a 1993), antes de ser apontado como director e membro do conselho da administração do poderoso grupo financeiro e segurador GE Capital’s Financial Guaranty Insurance Corporation, em Nova Iorque. Ele também já foi vice-presidente da câmara de Hartford, capital do estado de Connecticut, perto de onde nasceu o pianista Horace Silver, outro ilustre de origem cabo-verdiana. Esta aparente resenha biográfica pretende apenas chamar atenção aos incautos e repetir que o grande capital do futuro é o homem…
Pinceladas do Natal
por Filinto Elísio
Mote
Escrevesse sobre o Natal na Praia de Santa Maria da Vitória. Mais precisamente, a natividade doutros tempos em que a cidade era uma urbe deste tamanho e eu, criança de esventrar suas ruelas, achava conhecer todos os seus moradores. Contasse a azáfama que era o mercado municipal na antevéspera da festa: os grunhidos dos leitões, os pregões das vendedeiras e o movimento perpétuo das compras. Retratasse o cheiro às fornadas, as montras luminosas e os coros ensaiados nas igrejas. E segredasse (aqui entre nós, ó pessoal) que o Natal do meu tempo era mais sabe, um presépio instalado na memória, quase um beijo furtado à inocência. E a cidade não tinha via rápida, centros comerciais, lojas chinesas, Sucupira, urbanizações modernas, essas coisas. Nem tinha a ambição de abraçar a Cidade Velha. Ou de fugir para o interior da ilha de Santiago. A Praia que cabia, pitoresca e no seu canto, nesta palma da mão…
Introduzindo a dúvida
E este desafio de escrever algo que não seja piegas, nem alienado. Ciente de que os tempos não são positivos: abusos, corrupção desenfreada, crises, violência, doenças, analfabetismo...o diabo? Sem muito Pai Natal, Reis Magos e veados na manjedoura, burrinhos romantizados remoendo palha, Estrela de Belém e quadros afins. Uma escrita na viagem da alma, se der....
Coda 1
Não queria também escrever de molde nostálgico e desanimado que o sentido do Natal está quebrado. Dizer-vos que tudo ficou hoje tão comercializado e calculista que já são inaudíveis os sinos a badalar na minha infância. Antes, ponho os olhos no telescópico de brinquedo e revejo, em caleidoscópio, o Natal de outros tempos. A Praia do antigamente! Prendas, cartões, bolos, decorações, festas, reuniões de família e Missa do Galo – ora, na Igreja Matriz, onde a liturgia era mais intensa; ora, na Igreja Nazarena, onde os cânticos tinham mais a ver com a alegria. Aliás, os Evangelhos rezam que o Nascimento de Cristo, cujo aniversário se comemora no Natal como nova de grande alegria…
Reverso
O peru, matava-se o gajo às bofetadas, depois de embriagado a vinho branco. Até certo ponto, e considerando o etílico, era morte desejada por muitos vagabundos da cidade. A meninada, porém, ficava horrorizada. O mesmo horror diante do leitão, assadíssimo da silva, com duas azeitonas nos olhos e umas salsas no colorau lodoso. E, para quem morava como eu na Rua do Hospital, o pior eram os gritos dos cabritos, arrastados pelas cordas na Rua da Horta, que pareciam crianças agonizantes. Como um gemido de escravo, sei lá, que por estas ruas aconteceu. Ou uma virgem, que nunca celebrou, a ver o poente em que o sol se torna regaço. Em Serpi, contou-me alguém, havia a tradição de sacrificar uma pessoa a cada festa (de preferência uma mulher). Mas antes do sacrifício, purificavam-na! E, de certa forma, escrever isto exorciza as súplicas que atravessam o passado…
Noite de Paz
Noite de Amor. E do Vinho do Porto. Das rabanadas, das azevias, dos filhoses de abóbora, ou das broas de mel. Os frutos. Entrementes, no gira-discos, Nat King Cole canta uma música natalícia. O bacalhau à Gomes de Sá, o leitão assado e o peru recheado eram a ementa preferida na noite da consoada. E à mesa, salpicada de rebuçados, eram as aletrias, nozes, figos, broas, amêndoas, castanhas e passas que faziam crescer água na boca dos convivas. Pais, irmãos, avós, tios, amigos, vizinhos, Noite de Paz num disco de vynil…
Luzes de néon
Tal qual o crepon dos papeis. A seda viscosa da solidão antiga. Pelas fraldas, como quem deambula pelas empenas da cidade, alguém está sozinho. Um belo dia, anos depois, uma grande avenida haveria de rasgar a noite mais fria. E tudo seria ornamentado de luzes de néon, com dizeres natalícios e cores alusivas. Alguém está perdido na cidade e no mundo. E come o pão que o diabo amassou. Dissonante da música e do júbilo pelo nascimento de Cristo. Distante dos jovens que tiram as Boas Festas. Estes dançam, pulam, rodopiam e fazem algazarra. Nho San José, Sagrada da Maria, tralalá e etc…Anos depois, a cidade haveria de cortar as amarras para se assumir metrópole, disforme, conforme o figurino da polis. E a solidão acentuada desse homem permaneceria numa estátua de pedra, absurda e feia, à beira dos dias!
Bedjo Natal ou tão-somente sonho
É claro que as crianças sonhavam com o Bedjo Natal. O Pai Natal, velhote, boémio, alegre de barba branca, associado a São Nicolau, bispo turco. Este, segundo a lenda, ajudava os pobres e as crianças, oferecendo-lhes presentes e dinheiro. A sua generosidade deu origem ao sonho segundo o qual visitaria a casa das crianças no dia do Natal para lhes deixar prendas. E um outro mote diz:
(…) Cantam anjos lá nos céus; trazem novas de perdão, graça eterna, salvação (…)
Coda 2
Para alguns, não há Natal sem prendas aos pés do pinheiro. É um culto comercial que rende muito dinheiro. Mas para a maioria, prendas é algo surrealista. Mais da metade do mundo vive na pobreza. E no nosso mundo, nesta nossa cidade queria dizer, também a pobreza grassa. De modo que o Natal tem de ser visto noutro prisma. Com óculos da realidade. O Natal, digam o que disserem, é um ritual do amor. A centralidade da vivência cristã está na festa da Ressurreição, Páscoa, mas é no Natal que o ar fica mais leve, as ruas ganham outras cores e as pessoas que se amam se tornam mais lindas. Os Evangelhos relatam que anjo anunciara: Não temais, porquanto vos trago novas de grande alegria. Nada está quebrado na Praia de Santa Maria da Vitória. Por isso, Boas festas, pessoal! Pois ainda há sempre o que comemorar…
Subscrever:
Mensagens (Atom)