quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para o meu filho Pablo

Meus oito anos


Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar - é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Casimiro de Abreu

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

20 poemas de amor y una canción desesperada

Poema 1





Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.


Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.


Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!


Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.


Pablo Neruda

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Aguares

Os bulícios, bocados de quietude, são poemas
mesmo quando nem versos, sejam só fonemas,
verbos diversos, acaso das flores, outras cores,
abelhas de medrar mel, aguares e eu nisto tudo...

Filinto Elísio

sábado, 21 de agosto de 2010

Mãe Ilha


Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.
A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam
De azáleas lívidas a ilha se cercou.
A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.
E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina.


 Natália Correia

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Girassol

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente

Girassol!
 
Corsino Fortes

domingo, 1 de agosto de 2010

Ventana sobre el cuerpo

La Iglesia dice: El cuerpo es una culpa.
La ciencia dice: El cuerpo es una máquina.
La publicidad dice: El cuerpo es un negocio.
El cuerpo dice: Yo soy una fiesta.

Eduardo Galeano

sábado, 31 de julho de 2010

Beethoven é um erro perfeito



Beethoven é um erro perfeito


De repente, vejo o Pranchinha a comer papel na rua. A chatear a tribo sentada no café. A esmolar ao pessoal que joga xadrez. E, pior ainda, a declamar poemas de Manoel de Barros. Tipo assim:

Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

O Pranchinha a comer papel na rua. A Semana, A Nação, Expresso das Ilhas. Outros papéis. A brochura da Constituição. Tudo é comestível. A sua amada é vegetariana, mas ele assumiu-se ruminante de papel. Como os caprinos que, vez por outra, ludibriam o cosmopolitismo desta cidade e passeiam pelo Plateau. Come até Bíblia e Alcorão. Menos fruto proibido. E no café, um primata que faz as vezes de segurança, diz que os malucos têm de ficar a sete léguas. Para não cansar os clientes. Nada de roçar as intimidades dos homens que bebem a bica sem aurora. Outrora, os bichos eram entendidos sobre o convívio das lagartixas. Agora, talvez porque anda a mandar o aedis egipty, tempo da dengue, das estradas asfaltadas, das águas por virem, fumava uma beata esquecida no chão imundo. A chatear a tribo sentada no café, imaginem. E se ele se banhasse em querosene e deitasse fogo ao seu andrajoso corpo? Para lá do alarido, dos gritos e dos sirenes, de ficar tudo a tresandar churrasco e os não canibais atirarem a primeira pedra, voltaria tudo ao princípio. Ao descomeço…e o cronista que, para enriquecer esta língua de Camões, se entrega a inventar palavras escabrosas. Beethoven é um erro perfeito. E o Pranchinha a comer papel na rua!

Mumificado em Paris

Andando sozinho pelas tortuosas ruas, como fosse magicando que a poesia tenha, por nascente, as sintaxes sem certeza. Tê-la-á, em crescente, também por esta solidão em que se deslumbra o pensamento. Aperceber-me, não por ser Paris, qualquer cidade do mundo ou teus olhos pretos, o quanto se desabrocha o meu sentimento neste tempo. Sou extraído do lugar, mas contido, diria mesmo embebido, no tempo. Perdoa-me, se ao poeta for isto: o verbo abstrair-se-lhe do começo bíblico. Ele vem de não sei onde e vai para o infinito da incerteza. Nenhuma matemática. Gramática nenhuma. Deus tão pouco. Isto é oco e meio à-toa. Leio-te alguns trechos de “A Morte do Ouvidor”, de Germano Almeida, e bebo um pouco de água que trago no cantil. Um grupo de turistas japoneses sai do autocarro e começa a fazer fotografias. O bas-fond de Paris sabe defender-se. O turismo jamais vai conseguir domá-lo. Olho para os pombos que disputam e debicam pequeníssimas côdeas de pão. Mas, afinal, o que se passa aqui? Ando assim, mumificado em Paris (é o que dá rever Tutankhamon, no Museu do Louvre) ou me entrego ao agrafo dos outros cantos? A múmia do jovem faraó será um serial killer? Bem, por aqui fico: mumificado mesmo. Não gosto de dar muita confiança à cidade grande…

Os calares das casas

De repente, as casas começam a morrer. Uma a uma. Vai a turma à urna. Inexoravelmente. Quero dizer, as casas lá ficam, mesmo quando se arruínam. Os lares é que nascem, crescem e morrem. Podem até parir. Crescer e multiplicar. São lagares do ciclo desta vida descontente. À noite, ratos e morcegos roem o silêncio que delas restam. Réstias de nada, com fantasmas. Coaxos de sapos e ladrares de cães vagabundo. E vaga-lumes, grilos e baratas. Bichos pelas brenhas e gravanhas. Espumas ressequidas de onde as vozes são ruidosas. Os lugares são a sua própria decadência. Agora é o formigueiro que se abeira das portas. Pode o poeta pintá-los a fresco, retocá-los com metáforas. As letras, quais blocos de cimento das almas, são o recurso da indigência. No café, sentados à ruminação das horas, a tribo provinciana afoita-se às últimas da Copa do Mundo. It’ s time for Africa, o providencial golo espanhol a lixar a Holanda e o pintor de frescos (um barrilzinho de encomenda) a chatear. Arre que é tão inútil a poesia de os recensear todos. Casas que começam a morrer. Lares, queria eu dizer-vos…

sábado, 24 de julho de 2010

Proposição

Ano a ano
crânio a crânio
Rostos contornam
o olho da ilha
Com poços de pedra
abertos
no olho da cabra

E membros de terra
Explodem
Na boca das ruas
Estátua de pão s6
Estátuas de pão sol
Ano a ano
crânio a crânio
Tambores rompem
a promessa da terra Com pedras
Devolvendo às bocas
As suas veias
De muitos remos

Corsino Fortes

sábado, 10 de julho de 2010

Je t'aime

Je t'aime pour toutes les femmes que je n'ai pas connues
Je t'aime pour tous les temps où je n'ai pas vécu
Pour l'odeur du grand large et l'odeur du pain chaud
Pour la neige qui fond pour les premières fleurs
Pour les animaux purs que l'homme n'effraie pas
Je t'aime pour aimer
Je t'aime pour toutes les femmes que je n'aime pas


Qui me reflète sinon toi-même je me vois si peu
Sans toi je ne vois rien qu'une étendue déserte
Entre autrefois et aujourd'hui
Il y a eu toutes ces morts que j'ai franchies sur de la paille
Je n'ai pas pu percer le mur de mon miroir
Il m'a fallu apprendre mot par mot la vie
Comme on oublie


Je t'aime pour ta sagesse qui n'est pas la mienne
Pour la santé
Je t'aime contre tout ce qui n'est qu'illusion
Pour ce coeur immortel que je ne détiens pas
Tu crois être le doute et tu n'es que raison
Tu es le grand soleil qui me monte à la tête
Quand je suis sûr de moi.

Paul Éluard

domingo, 27 de junho de 2010

Palavra

(interpretado por Mayra Andrade)




Palavra:
Cruzado é jogo
Trocado é intriga
Dado é cumprido
Faltado é falsia
D´amor é poesia


De Rei é Lei
De Senhor, Ámen
Mal scrito é erro
Bem scrito é arte
Firmado é promessa
Di bô é simplesmente um língua na nha boca


Palavra:
De vivo é vento
De morto é herança
De honra é aval
Às vezes é lamento
De ordi é pa grita


Gritado é força
Às vez é fraqueza
Rimado é beleza
Rumado é blá-blá
Xintido é oraçon
Di bô é simplesmente um língua na nha boca


Palavra:
A favor é argumento
Cantado é finaçon
Titubeado é gaguez
Truncado é mudez
Calado, hmm! Desconfia


De Romeu é Julieta
De Quixote é loucura
De Buda é sapiência
De Fidel, persistência
Di meu podi ser banal
Ma di bô é simplesmente um língua na nha boca

Mário Lúcio Sousa

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Haï-kaï

Une plume donne au chapeau

Un air de légèreté
La cheminée fume.

Paul Éluard

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Parâmetro

Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.
Isto sim, é consolo.

Adélia Prado

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Memorial do Convento

«Entram com el-rei dois camaristas que o aliviam das roupas supérfluas, e o mesmo faz a marquesa à rainha, de mulher para mulher, com ajuda doutra dama, condessa, mais uma camareira-mor não menos graduada que veio da Áustria, está o quarto uma assembleia, as majestades fazem mútuas vénias, nunca mais acaba o cerimonial, enfim lá se retiram os camaristas por uma porta, as damas por outra, e nas antecâmaras ficarão esperando que termine a função, para que el-rei regresse acompanhado ao seu quarto (...) e venham as damas a este aconchegar D. Maria Ana (...).

Vestem a rainha e o rei camisas compridas, que pelo chão arrastam (...). D. João V conduz D. Maria Ana ao leito, leva-a pela mão como no baile o cavaleiro à dama, e antes de subirem os degrauzinhos, cada um de seu lado, ajoelham-se e dizem as orações acautelantes necessárias, para que não morram no momento do acto carnal, sem confissão, para que desta nova tentativa venha a resultar fruto (...)»


José Saramago
in Memorial do Convento

quarta-feira, 16 de junho de 2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

O último poema

“O último poema deve ser muito parecido ao susto do primeiro”

Airton Monte

 
Me_xendo no baú

Mal termino o último poema do “Me_xendo no baú. Vasculhando o U”, ponho-me à trepidação de to enviar, esperando que nele te revejas em cada palavra dita e em cada sentença ainda por dizer. A sintaxe do desejo, afoita à saga da solidão, permite-se também ao tantra contigo e eu (dizê-lo de a Caixa da Pandora estar aberta) não tem o limite da compostura. Os tais labirintos de água, terra, fogo, ar, de que fala José Luís Peixoto. É o sentimento que vira e mexe, sem pieguice, todavia. É apenas uma pluma suspensa no ar e isso não se explica. Nem mesmo ao leitor…


O seu ao seu dono

Está-se a mesa a falar da religiosidade. Somos todos de fé - muita, demorada e sincrética fé. Dispensando liturgias. Alguém propõe falar o Criador e a criatura. A sua cria. O meu amigo Crisolino, “glamouroso” de papel passado, dizia que Deus operou meio milagre ao criar o homem. Já no caso da mulher, o seu ao seu dono, Ele operou milagre e meio. Fê-lo, mais por cálculo da costela do que ilusão de obra-prima. Fê-lo e deixou a obra fazer seu percurso sozinho. Existencialmente…


Morreu-me Lisboa Ramos

À beira de lançar um romance em Lisboa (estava mesmo a falar com os jornalistas sobre ser ou não ser romance), morre-me Aguinaldo Lisboa Ramos, cabo-verdiano de primeira água e cavalheiro de finíssima estampa. Quando me morre alguém – gente de trato amigo, ainda que esparso e caldeado na diferença etária, como é o caso -, as aves da metáfora arribam à minha igreja. Não a dos altares pesarosos, mas aquela interior que se levita para o vão da Beleza. Apesar de agnóstico juramentado e avassalado, tenho os meus momentos de crença e agora, com esta triste notícia de falecimento, os dias ficam-me cada vez mais pobres. Saio para a primaveril varanda lisboeta e identifico, entre vários cravos, um que (por crença genitora de poeta) deve ser o “belo espírito” de Aguinaldo Lisboa Ramos…

domingo, 13 de junho de 2010

la_dainha

novena
açucena de três vozes
ó la_dainha que o mundo é longe;


música
o que é do U
vasculhado na língua das águas
no ín_fimo de cada gota
e no c_ardume dos peixes de tanto mar


que ao di_luviano e va_zante líquido
de placenta silen_ciosa tudo se resume?


- vozes de vasculhando o U!

Filinto Elísio
in Me_xendo no baú. Vascilhando o U

quinta-feira, 10 de junho de 2010

São Vi_cente

versejo-te com o v_ento e a t_erra
na sombra vã de que já foi luz;

versejo-te sendo este desejo
uma estranha forma de cruz;

(pedaço de céu & braço de mar
coxas da ilha polegares de nada)

versejo-te como um vagabundo
que ronda a cidade e mata a fome;
em qualquer esquina e canta
(na boca da noite) esse hino
que faz relinchar mulheres
donas de um cio de chicotes
vibra_dores & de_cotes:

ó sedosa lua efémera
ó la_pso de tempo
ó la_pso de tento
tentações…

Filinto Elísio
in Me_xendo no baú. Vasculhando o U

Sa_l

cruci_fixo

colar caído em teu deco_te
fosse teu cangote esta encruzilhada
o meu primeiro projecto de sombra
o de perscrutar luz em ti
escondida antes da aurora


no areal da Hera
alcova de algum peca_do


montava eu o puzzle de outrora
- incauto da morte achei-a
desta eternidade -
e teus demónios foram apanhados de súbito


lar_gados como bode ao sabor do monte
queríamos nós cabriolar fêmeas em tempo de es_tio


morreu-me tão estival momento


punha-me nele de cabra_lina pedra
meus geni_tais em clementina
o que explicava à idade de cardeal
um espelho fatal derramado à face
e as rugas me aboca_nharem olhos
ba_nharem também minha sede de pajem
& garga_lharem que a vida são dois dias


sois deuses escondidos que eu sei
sois tantos orixás em fila


os búzios jogado_s sobre os panos
dizem-me lobo-guará perdido na cidade
cansada fera
suplicando à lua esmaecida
lá onde o mar des_gasta a ilha
mas a pedra car_comida sobra
des_nuda-se ela que nem puta
pulsando a tarde com poesia


sois mais que anjo atrás da porta
sois aquele que salva no armário


sinto-te
& não temas o traído en_raivecido
te imponha
& revire o jogo de cartas marcadas


não me olhes tão assim
meu cúmplice
que o espelho é isso: vermo-nos nele


esse vaivém de mar
mar que me banha b_enta e s_agrada
pressinto-o a cada gota
[oceano tanto – infinita água tua
canto à-toa teu mar_ulhar
sois quanta escondida em banho
cristais de espuma nos meus cantos
meu navio sulca tuas nuvens]


alado navio este meu
e sa_l tem disso:
miragens enfim!

Filinto Elísio
in Me_xendo no baú. Vasculhando o U

quarta-feira, 9 de junho de 2010

San_tiago

por primeiro
(antes do verbo)
último te quer_ia
tiago profa_no
ao sabor da carne;


louvo-te homem
como um to_milho
pão que sai do for_no
e tosta_do
no aguar da fome;


de tanta boca
sugar teu corpo
teus me_andros
tuas grutas
sorver teus poços
demo_rar no osso
e no caroço;


morrer sempre
aos teus montes
serras e cutelos
morrer às achadas tuas
e fajãs querendo ao verde
(ó minha festa!)
morrer ao teu regaço;


(lamber-te à fome
com ânsia mais que à fome)
com ciência que suga
essência do S
de sant_o
e de pecad_o;

diz-me das especiarias
com que te como
ó portentoso
diz-me dos tem_peros
com que te de_voro
meu apolo
(antes do verbo)
sussurra-me tudo;


o que me cani_baliza
e me incendeia à vida:


ser filho teu
e da poesia…

Filinto Elísio
in Me_xendo no baú. Vasculhando o U

terça-feira, 8 de junho de 2010

En_luada

despes-me

en_luada
(postos astros em zodíaco)


entalas-me
encruada
(canibalizado de tua carne)


…e não dirás contra-pecados
que não sejam novenas
estas;


despes-me
como quem navega
(que não tem outro sossego)


assaltas-me
assim à desarmada
(tanto me despenham sucos
quanto me salpicam rugas)


…guardarás luas e suas luzes
que as sombras estas lhe são
árvores;


frondosas folhas
tê-las em nós
- da copa à raiz, amplexo
que é da terra ao céu


meu nó do S
meu nu do U
nódulo 
e
verde frutal
V de nó vital


- menu
de te deli_ciar.

Filinto Elísio
in Me_xendo no baú. Vasculhando o U