sábado, 14 de fevereiro de 2009

Cronópios



Valentine´s Day


Tão estrambólica quão escalafabética é a cidade em dia de São Valentim. O cosmopolitismo? O gajo transmigra-se para o provincianismo. Tirando-lhe o West Side Story, ora em cartaz, e a exposição sobre Charles Darwin, na Fundação Calouste Gulbenkian, tudo isto é uma grande província. Os saldos voltam-se-lhe para os namorados. Os casais saem por aí a comer nos restaurantes. As floristas facturam mais do que no resto do ano. E os cinemas estão cheios. Lamechas e pieguices para dar e vender. Zouk love pelas ruas. Ou boleros antigos, do tempo da Maria Caxuxa. Triste fado. É pá, piroso...


Marginal


O amor é uma zona marginal. Não se compadece com as tricas comerciais, nem se assume consumista. É coisa de "maldito", de quem se expulsa do Paraíso e vai feliz à sua condenação à morte. O amor é uma zona subversiva...


Crise pela Tapadinha


A crise já nos bate à porta. Basta toparmos os resultados do desempenho da economia. Quando o vendavel nos leva a pedra, do balaio nem queiramos saber. O governo tem de começar a agir, em caracter de urgência, para libertar a economia do encolhimento dos bancos, estimular novos empregos e reduzir a pobreza. A situação é extremamente preocupante, embora a elite crioula esteja ainda preocupada com a eventual ida de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid. Precisávamos promover o investimento público a sério e buscar novos emissores de turismo. Que ninguém se impertigue comigo, mas o que mereceria agora uma reflexão conjunta e cruzada era a crise. Por Júpiter...


Matar tudo o que mexe


Enquanto isso, skinheads atacam em Zurique, Roma e Londres. A crise económica torna-os mais raivosos. Poderoso era aquele general angolano que, em pândega rixa, mandava a força aérea matar tudo o que mexe. Aqui dito em sentido figurado, bem entendido. Mas, às vezes, contra a raivosa do racismo, apetece ter power...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Bosão, tetrápodes e sujas


Lisboa revisitada

Entre uma obrigação e outra, escrevo este post. Oferecem-me "Quente, Plano e Cheio", de Thomas L. Friedman. Nesta Lisboa revisitada, receio que me tomem por um freak excêntrico, quando o meu dilecto é arroz de atum, caprichado nos pimentos. Coentros e alhinhos, que são um must. E aninhado no cúbiculo na cidade da Praia. Quando não somos freaks, somos histéricos. Existencialistas histéricos. Um pacotinho de Doritos, um molho de tomate, salsa e malagueta e uma cerveja de pressão. Há dias que basta isso. Outros dias, poderá ser frango ao molho pardo, com arroz branco e umas aletrias. Por motivos de força maior, é sexta-feira, 13. Mas podia ser 14, que os números são infinitos...


Extravagância

Entro de repente na FNAC e com sofreguidão de um assaltante (confesso-vos a adrenalina), apanho livros de Jakobson, Althusser, Derrida, Barthes e Saïd. A biografia não autorizada de Michelle Obama não me interessa, minha senhora. Tivesse eu o dom da ubiquidade haveria de ler de lés-a-lés tudo de Mia Couto, mas, sou apenas um chato, preferindo devorar Nietzsche. Exalto-me com Susan Fiske. Não há como sustentar tanta estravagância...


Criação

Na minha bola de cristal, bem como nesta franciscana igonorância, Charles Darwin tem razão. Vale animalizar os homens todos. E, quem sabe, humanizar os macacos. Não estou para eugenias dos betinhos, mesmo quando bloguistas compulsivos, carago. Tão pouco tenho paciência para criacionistas do fim da estação. Estais a patuscar ad nauseam os 200 anos de Charles Darwin? Tendes o meu modesto aplauso e o meu saravá que não vai à feira. Eh, pá, tá quieto. O próprio conceito da efeméride, obscurantista e burguês, é que me desinteressa. Atentemo-nos à hermenêutica que é um motivo perene. Diante do transmutativo de uns percebes e de uns mexilhões, quando não de outras lengalengas aqui no cataplana, importaria que, de macaco ridente a porco triunfante, passando pelo Homo Politicus de AK-47 em punho, apenas fossemos honestos com o Tempo...

Penso, logo inexisto

Meninos,

O fim do neoliberalismo traz-nos a marca da besta na testa. Terá sido o recuo para o mercantilismo com as suas medidas proteccionistas. É a Idade dos Média e dos capitalistas medíocres que já levavam o barco à pedra. Nada de Pierrot, nada de Pigmalião. O Teatro acabou. Ninguém pode ou deve estar eufórico (e muito menos alegre) nesta era do inexistencialismo. Nem os pin-up ambientalistas, nem os bestas das marinas sobre a ecologia. O fulgurante colunista de serviço decretou morte aos poetas. Aos artífices da palavra, em que, pela rama das metáforas, se arriscavam Cristo e Anti-Cristo. Blog também pode ser fascista. Ai, pode. Será que poderemos descortinar luz no fundo desse túnel do egoísmo? Não briguem porque nada valerá mais a pena. Deus é um verbo à-toda, propalava-nos esse maluco do Sal. Era Woody Allen a dizer: “E se nada existir?! Neste caso, paguei caro demais pelo tapete da sala”...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A quem possa interessar



A quem interessar possa

Uns queriam que escrevesse sobre as presidenciais. Do arranque prematuro (mas legítimo) de alguém, num festim onde há figuras que, por incompatibilidade institucional, devessem estar ausentes. Outros insistiriam que cronicasse sobre a revisão constitucional, mas eu, desavindo e nas minhas limitações, surfo nas ondas existenciais. Uns e outros chateiam-se. Hihihihi. E isso até me “energiza”. Escrever sobre outras loisas. A quem interessar possa…


Dança das Ilhas

Depois do telejornal (a melhorar, diga-se de passagem) e da novela (como assumido telespectador bissexto), saio da TCV e vou para o TIVER, onde Manuel Inocêncio Sousa dá uma excelente entrevista. As infra-estruturas têm de ser sustentadas. No meu browsing televisivo, assisto a um show de Kim Alves, pela RTP África. A produção não é interessante. Mas Kim Alves é um património…


Melhor Idade

Lindo é ver Manoel de Oliveira, que atribui os seus 100 anos a um capricho da natureza, na Berlinale. Vi-o, pela televisão, cheio de crença e de graça, a instituir – que Arte! – a Terceira Idade como a Melhor Idade…


Tão lindo quanto

Cesária Évora, artista que não canta em países em guerra, recebeu em Paris, das mãos da ministra francesa da Cultura, Christine Albanel, a Legião de Honra de França, condecoração que lhe foi atribuída, em 2007, pelo então presidente francês, Jacques Chirac. Tão lindo quanto o feito de Manoel de Oliveira, será este da nossa "diva dos pés descalços"…


E por falar nisso

O meu pai cumprirá 80 anos neste 2009. É um dos homens de quem gosto muito. Muitíssimo. Dono de uma erudição incomum, o senhor Anastácio Filinto prende a minha atenção com a sua conversa interessante, o seu sentido de humor e o seu encarar a vida com rara poesia.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


Blog


Blog é site de autor. Às vezes, pode ser animado por colectivo. Outras vezes, prestar-se-á a joint. Mas, estruturalmente, Blog é para o ego meeeeesmo. E depois? Jorge Tolentino escreveu isto: cada Blog tem a sua razão de ser e estar. Que é fundamental que cada um se sinta bem. Com descontracção, sobretudo. Sempre que escrevo um post, digo para os meus botões merde à celui qui lira. Que dimensão cósmica nos empresta este Fevereiro, por exemplo? Vejamos todo o insólito, dir-se-ia explosão de uma supernova. Viemos de Deus? Dos deuses? Dos não deuses? Do Big-Bag? Ou do Rebond? Quem sabe ainda nem tenhamos vindo. Que frio na cidade da Praia. Entro num Starbucks imaginário e du café, beaucoup de café. Du Café Margoso. Diante da Gare, os clowns e os robocops confrontavam-se. Enquanto isso, benjamins de merda preparam-nos a constituinte. A actualidade vampiriza a realidade. Hay que endureserse...


Turismo


Quanto ao Turismo, eis o sector que precisa ser requalificado em Cabo Verde. Com urgência. Não apenas para transcender o binómio sol & praia, mas para acrescentar melhor e mais diversificada oferta. Este País tem potencialidades ambientais, paisagísticas, culturais e históricas. Potencialidades humanas, sobretudo. A promoção turística deverá passar por mais complexidade e mais ousadia. Reinventemos a nossa opção pelo Turismo. Crioulizemos o Turismo! Alupekemo-lo. Distanciemo-nos dos caminhos tomados no Sal e na Boavista posto que, soberanos da silva, não nos contentamos chulos, putas, passadores de droga e vendedores ambulantes. O importante é recolocarmos o eixo no Arquipélago e não nos aderirmos ao circuito de forma atávica e acrítica. Não podemos aceitar o estatuto do indigenato recauchutado, nem levar a cabeça para o altar dos novos canibalismos do capital. O Turismo é, antes de mais, diálogo e conhecimento. É, antes de mais, afã antropológico. E que seja sustentável, no que a semântica empresta força a tal sentença…

sábado, 7 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Scarlett Monumenta

Be-Skeptical!


Low probability of occurrence

Nas primeiras leituras deste dia, em que os meus alabastros se reforçam e as minhas aldravas se amanham, soube que o Procurador da República levantou uma "fiscalização sucessiva abstracta da constitucionalidade e legalidade". A avançada idade de um Juiz-Conselheiro - 83 anos - é o motivo que leva o Ministério Público a tal iniciativa. The lies come crashing down…


Skeptoid 1

Pago para ver no que vai dar a impugnação do PR. Fico da arquibancada de ver passar o Carnaval. O bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevard, como diria Chico Buarque. A Caixa da Pandora foi aberta. Que tal faça escola e jurisprudência. E, se eu chegar aos noventa, bisnetado e gagá, queria também ser “nomeado” Presidente do STJ. O giro que tal não seria…


Blogaria

Os Blogs, da joint ou fora dela, mesmo que dos Blogtrotters, devem ser encarados como uma franja importante da opinião pública. Que as verdades, relativíssimas da silva, se proliferem. Verdades para dar e vender. Saldos de verdade. Sold out. Deboles. Tutti deboles. Isso de haver egos à mistura é normal e saudável. Vivam os egos, baluartes de cada um para que não se torne totalmente infeliz. O problema do mundo nunca foi o ego, mas o egoísmo. Bloge-se quem puder…


Ó Balentin, óóóó

Não se compraz o amor com a indiferença, razão porque me dilacera a dor de uma simples rosa…

Argila

Em duas partes
a vida se divide
e em duas artes
o imponderável
do corpo se revela.

Pela primeira arte
o rito do amor é chamas;
pela segunda
o mito da paixão é dádiva.

E a dor de não amar
o amor é devaneio torpe
porque o prazer inflama
a dor de não doar
o corpo ao precipício.

E tudo que tu dizes
o barro dos teus olhos
o brilho do teu rosto
o sal dos teus dedos
de marfim e tédio
tudo é impasse
pois tudo está exposto
à liturgia da divisão das partes.

Dimas Macedo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

When the saints go marching in

We are trav'ling in the footsteps
Of those who've gone before,
And we'll all be reunited,
On a new and sunlit shore,
Oh, when the saints go marching in
Oh, when the saints go marching in
Lord, how I want to be in that number
When the saints go marching in
And when the sun refuse to shine
And when the sun refuse to shine
Lord, how I want to be in that number
When the sun refuse to shine
And when the moon turns red with blood
And when the moon turns red with blood
Lord, how I want to be in that number
When the moon turns red with blood
Oh, when the trumpet sounds its call
Oh, when the trumpet sounds its call
Lord, how I want to be in that number
When the trumpet sounds its call
Some say this world of trouble,
Is the only one we need,
But I'm waiting for that morning,
When the new world is revealed.

(Popular)

Have you met Miss Jones

dos versos, como dos vates, nos alpes,
tal qual à neve, apaixonada tu das névoas,
das paisagens baças, que das metáforas,
direi, sopro dos pubs, mesmo que proves,
brisas dos beirais, choupos e janeiras,
este amor de vida toda, o mirar o tibre,
o sol atreito de uma tarde que parte
o alarde pretérito das horas impúdicas,
e tu, ouvindo blues, sejas noite infinda,
fria...

filinto elísio

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ventania

balint zsako


Quando venta


Venta em Cabo Verde. Às vezes, com o pó de terra. Outras vezes, com o friozinho da boca-da-noite. Quando venta, lembro-me do conto “Noite de Vento”, de António Aurélio Gonçalves, prosa crioula insuperável. O vento, na Fonte de Filipe, vem de longe, de terras desconhecidas. Aflora a Assomada de João d´Évora com um rumor de fornalha, crepitando por uma linha de cumeadas. Belíssimo! Venta. Ventania. E alguém me diz que, diante de tamanho apagão, deveríamos pensar na energia eólica a sério, pois esta alimária dependência dos fósseis inibe qualquer pretensão competitiva. Venta e isto me sugere um campeonato de windsurf. Do kitesurf. E isto, bem feito e com parcimónia, já seria economia. Nem sempre economia é hard, podendo no nosso caso ser soft – dos serviços. Do conhecimento. E do entretenimento. Venta em Cabo Verde. E o cata-vento, no cimo desse telhado, me ensina que mudar de rumo (do País, que não há meias-medidas) é sisma de povo heróico…


Suprematura


Dos 33 aos 83… refiro-me obviamente ao STJ. Ou da absoluta inocência à absoluta falta dela, passando pelo pacto partidário a nos impor juízes, e a desvirtuar, uma vez mais, o espírito constitucional que ora reclama, como pão para a boca, urgente revisão. A amplitude etária de 33 a 83, que é do imberbe brio ao caducado relator, é o intervalo com que a nossa Justiça doravante se assenta, estando metade do País a deplorar a promíscua confusão entre o pacto e o conluio. E deste novo arquétipo, cuja desnatura espanta o nosso demónio aquiescido, só nos restará o refrão do hilariante poema de Arménio Vieira – somos animais de capoeira! – vate que reflectirá a zoomórfica sensação diante dos dados lançados. Por que teremos de passar aos nossos deuses tamanho cheque em branco?! Dizer mais que isso não será apanágio de cronista, mas de toda a cidadania deste arquipélago que, a estas horas, deveria ocupar as ruas…


Esse “ntufato”


Tal como um “entremeio de calcinhas” ou um “ciccioto di mezzanote”, assim a imitar o Setebelezas, o Prancinha gozava dos “novos revolucionários”. Os rapazes e as raparigas resolveram, depois de algum espavento, matar-nos o velho. Seria para amanhã. Mas a estória que broxou a História, já que a intenção era mais risível que o siso, fora de o velho estar morto desde ontem. Diante de assaz desprimor que o florilégio da leviandade permite, essa rapaziada resolve, de uma assentada, emigrar-se para o novo território da semântica. Estou hermético? Não se riam, mas, no começo, era o Verbo… (mas só sintaxe, companheiros).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Dos Navegantes

Quando o meu filho Denzel nasceu, há exactamente 17 anos, uma amiga, aficionada pelos oráculos, quis que o baptizasse com o nome de Iemanjá (Yèyé omo ejá, em Iorubá), orixá que semantiza a mãe das águas. Há bocado, em chat com o Mito, este me manda os versos de Arlequim Desconhecido, de Ivan Lins. Mais ou menos assim (só um cheirinho):Quem brincará?/Quem dançará?/Quem sairá de arlequim?/Quem tocará?/Quem chorará?/Quem gemerá seu bandolim? Acabei por escolher Denzel como o do menino, pela forma como Denzel Washington representara sua personagem no filme Mo Better Blues, de Spike Lee, e porque nesse dia nevava tanto em Boston, e havíamos ido, eu e o Vadinho (poeta Valentinous Velhinho) curtir o Harlem Blues, no Wally´s, que era nossa catedral. Era o dia em que Dona Mindoca virava avó. Era também dia da Nossa Senhora da Conceição. A dos Navegantes. Quem terá o trabalho louvado?/Quem terá o destino sagrado/pra fazer minha gente feliz novamente?

Regresso


Michelangelo Buonarroti


Cheguei. Tô chegando, companheiros. Venta na cidade da Praia, alternando calor & frio. Os dias passados foram de caleidoscópicos. Vi cores invertidas e a minha mente repassa os momentos em carrossel. Com música. Em allegro. Andante sempre. Como na minha infância: Ainsi font, font, font/Les petites marionnettes,/Ainsi font, font, font/Trois p'tits tours et puis s'en vont. Cheguei outro. Melhor dito: chegou-me o outro. Em casa do meu editor - do editor do Li Cores & Ad Vinhos, diria -, faz-se uma noite de cachupa, vinho & poesia. A mesa, quando é semanticamente mesa, vira um Banquete de Platão. Ou uma ceia, para lá da derradeira, onde se trai o situacionismo. Hoje, estou nos meus dias...é do regresso!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

JANEIRO/FEVEREIRO

Calendário Philips 1980

Nem só a cav
idade da boca

Nem só a língua

Nem só os dentes
e os lábios

fazem a língua

Ouça
as mãos
tecendo a língua
e sua linguagem

É a língua
têxtil

O texto que sai das
mãos
sem palavras


Décio Pignatari

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Santa's & etc

1.
Gosturdia, era o aniversário do Poeta. Nem toda a gente se lembrou dos seus 48, mas, também, nem toda a gente lhe deu prendas pelo Natal. Santa Claus didan't come to his fuckin' town. Nem toda a gente gosta de poesia, arre. O Poeta, saiba-se, apenas faz versos, mesmo nos reversos da sua conversa aquariana. E não se está aqui a falar de Robert Mugabe, de W. Bush ou do Killer da Holanda. Nem desse habeas corpus da porra. Está-se a discorrer sobre as frutas serenadas. Mas, para que o seu sábado, mau grado a neve, não fosse branco, levaram o Poeta aos aposentos de Calígula e foi aprendendo que a mãe do Nero já era louca e devassa, posto que freudiana terá sido sua Roma incendiada. Grande é Santiago de Compostella. Grandes são os desertos, como Pessoa os pressentiu. Sagradíssimos até mais não. Um lauto jantar no Chinês da Fontana e uns trechos de "Gomorra", de Roberto Saviano, excelente tratado sobre a máfia napolitana. Conversa caudalosa. Na semana passada, o Poeta era o menino dos anos, enfim...
2.
Abraão Vicente, no seu melhor, escreve "Precisamos urgentemente de um mediador. Um mediador entre nós e os nossos egos, entre a banalidade e a arte, entre a mediocridade e a excelência". Subscrevo este discurso indignado, pois estamos fartos, fartíssimos, de falsos poetas, romancistas, pintores, fotógrafos, dramaturgos, actores, compositores, cantores, dançarinos, críticos de arte, estudiosos, mestres e doutores. O discurso crítico, por exemplo, parace o do mudo a falar a surdos. A pretexto da semântica nos dão a consumir textos sem sintaxe, porra. De incompetentes estamos mesmo fartos. Nem sujeito, nem predicado e complemento directo na pqp. Pode? Por supuesto, como arranca cada sentença do meu amigo Hernandez, reina uma enorme mediocridade nas Afortunadas. Estilhaços de um espelho que não vê ninguém, se não um Narciso de merda, masturbante como o raio nestas horas minguadas. Precisamos desse mediador, sim. Entrementes, excelência, cadê você, meu bem?

Arlequim



O Arlequim , persona de pierrot e maskrinha de carnaval, meio maluco y un tanto drogadito, indignado com a sacanagem de no velho ninguém toca e a porra louca de se transformar isto em base militar; o Arlecas, como diria o Pranchinha, ordem do vulcão et satiricom, chateado si com tudo e com todos, a mostrar nhonhozinho às debutantes em plena praça alexandre albuquerque e a unhir deputados à saída da AN; l’Arlequin, mon petit, o dono da via imperial, teatro de Nero starting local actors, trocando a cidade por duas romas e três lisboas ou um paris bem apanhado, tão apartada da bomba fosforescente de gaza, urbe poética de haicai, de haicu, tomar no cu...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009



O Supremo Tribunal de Justiça indeferiu o pedido de ‘habeas corpus’ apresentado por José Varela Barbosa, através do seu advogado Eurico Monteiro. Este solicitara que se desse cumprimento à ordem de soltura emitida pelo juiz conselheiro Raul Querido Varela e ainda não executada pelo Procurador Geral da República. A carochinha, com laivos de cambalacho, de que o processo havia passado do prazo afinal não colou. O assassino da Holanda continuará na choça para a higiene da nossa sociedade. Quanto ao juiz conselheiro Raul Querido Varela consta que há gente que o quer por mais tempo no STJ. Mudando...hoje, ressuscitou-nos cá o Pranchinha, destemido e sem papas na língua, gritou em plena plenária legislativa: "Abaixo a Putaria!"....Esse Pranchinha vale ouro.

Breakfast


Cedo, cedíssimo, ah se os galos cantasem nas cidades grandes como cantam na aldeia do meu coração! ou, então, que nem as varinas do Mindelo eles solfejassem "cavala fresca", assim em meio-tons e dissonantes - cedíssimo, dizia, de orvalhadas vidraças dos automóveis adormecidos e de bocejantes palavras diante de um capuccino, algures repicariam os sinos que a igreja, pedra de Pedro, medra aquém da fé, e alhures seriam teus olhos grandes como se o Poeta os mirasse demoradamente ao espelho. Dos poemas que não se explicam, como dos amores inusitados ou das angústias que nos revisitam, balbucio-te o conto do D dos dados e os versos cabalísticos que, em Arménio Vieira, flor nesse deserto, nos aclama o C da cotovia. E não nos será despicienda quando as horas param e nos mostram o frontispício do Verbo, primeiríssimo de tudo, antes até do pensamento. Onde para ti não eram moínhos, posto que monstros e mastadontes, para os outros, confrades de Sancho Pança, moínhos tão-somente, pachorrentos e cartesianos como uma equação mais simples. Cedo é o rio, o frio, o cio, o ciciar das cigarras, silentes quando as perscruto nas gretas, e o silvo do vento, por cá glaciar, mas brisante nas ilhas...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Catacumbas


Catacumbas

De tanta saudade e em terra estranha (onde até neva em seus cumes), deu-me a matutar o feito de São Calisto I, antes escravo de Aurelius Carpoforus, e , depois, aclamado em Roma, como Papa. Apreende-se disto que o ser humano, mais que grandeza nos pergaminhos da toga, é profundo no seu rito de existir. De bandido e arrivista, Calisto tornou-se santo e defensor da fé comunal, a mais amiga dos deserdados, que é a essência da Igreja Primitiva. Assumiu o trono pontífice com graça e humildade, simples missionário afinal, como atestam as Catacumbas da Via Ápice, exemplo que, a meu ver , deveria extrapolar o templo e o tempo e assentar, cá entre nós e nesta altura, uma jurisprudência circundante. Os nossos deuses descalços, ocos e vetustos, narcisistas, mas cegos ao engodo dos espelhos, alheios franciscanos deste labirinto, deveriam tomar tento ao feito de Calisto, sucessor de São Zeferino...

Renascimento

A tomada de posse do Presidente Barack Obama, a 20 de Janeiro, foi para mim um renascimento florescente. Não que eu veja isso com ilusões e utopia. O mundo não continuará aberrante e paradoxal. O centro abastado e a periferia abastardada. Mas se o novo Presidente reduzir a exclusão e assimetrias, a pobreza e a doença; se Obama fechar Guantánamo e assinar o Protocolo de Quioto; se aumentar a autoestima dos deserdados da Terra...valerá afinal a pena renascer!

Janeiro

Janeiro, venerando rio, mas de sina, deságua em mim. Mar acima. Tanto que fiz anos em Janeiro. Quarenta e oito anos, bem contados e assumidos, ora com riso, ora com siso. Igualmente, fez-me pensar na vida e na morte. Na luz e na sombra. E aproveito, já que me é dado o “dom” (sem tremeliques) da escrita e o jus do escriba, para pedir desculpas ao leitor (ao leitorado, como diria Dimas Macedo, iconoclasta, meu amigo de peito) pela dita viragem (ou terá sido viagem?) dos meus textos. É que os caminhos têm suas encruzilhadas. Percorro-os sem bússola. E, valha-me o verbo, que pontos alguns são cardeais para a escrita. Janeiro é assim...

Dia Solene da República

A República tem datas importantes. O 13 de Janeiro, Dia da Democracia (dizê-lo da Liberdade seria baralhar a semântica da História), e o 20 de Janeiro, Dia dos Heróis Nacionais (igualmente tê-lo como da Nacionalidade, ao invés de Pátrio, me complicaria os conceitos) são efemérides interiorizadas pela cidadania cabo-verdiana. Estas duas datas não estão indexadas aos partidos políticos, que não podem ter por elas ares de patronos. São datas republicanas em toda a linha e devem ser celebradas pela gramática constitucional vigente. Dito isto, queria, no mais pleno respeito por outras opiniões, afirmar que o Dia Solene da República, por sentido e alma, corpo e forma, é 5 de Julho, Dia da Independência Nacional. Temos de tratar a República, com a ponderação histórica das suas datas e efemérides...


Carta abierta a Cesária Évora, la diva de los pies descalzos





Querida Cesária,


Le escribo esta carta mientras escucho “Sodade” [1]. Como admirador de su voz y sus pies descalzos, me quedé perplejo al saber que, ni un mes después de la masacre de Israel, cuyas imágenes han recorrido todo el mundo, va a dar un concierto en Tel Aviv y otro en Jerusalén a finales del mes de enero. Entiendo que estos conciertos quizá ya estuviesen contratados con bastante antelación. Sin embargo, no entiendo cómo, después de lo sucedido, va a continuar cumpliendo su agenda y a cantar en Israel. En poco más de tres semanas, 1.300 palestinos han muerto en manos del ejército israelí, entre ellos más de 300 niños y 400 mujeres y ancianos. Lo más triste de todo esto es que, lamentablemente, la gran mayoría de la población de Israel, ya sea por ignorancia, por represión o por pura convicción, después de lo sucedido, continúa a favor de la ofensiva militar que ejecutó su gobierno. Además, el bloqueo en los pasos fronterizos continúa, dejando a la población palestina en condiciones infrahumanas.


Perdone, Cesária, pero no la consigo imaginar cantando “Sodade” mientras que en el otro lado del muro aún huele a sangre y fósforo blanco. Cuando en sus mornas canta el aislamiento y la diáspora de Cabo Verde, ¿también piensa en países como Palestina?


Por todo lo dicho, me gustaría que usted, a quien tanto admiro sin idolatraría, se pronuncie sobre los dos conciertos que va a dar en Israel. Y, en el caso de que el rígido programa de conciertos valga más que la masacre, me gustaría que, cuando cante el tema “Sodade” en Tel Aviv y Jerusalén, además de pensar en las víctimas caboverdianas e israelíes, piense en Palestina, en los palestinos de ahora y en los de antes de 1948.


Me despido de usted oyéndola cantar “Flor di Nha Esperança”:


Se m’sabia
K’gente novo ta morrê
M’ka tava ama
Ninguem
Ness mundo…[2]



Atentamente,




Àlex Tarradellas, en nombre de Tlaxcala




Notas:


[1] Sodade (en criollo) o Saudade (en portugués) significan morriña, añoranza.
[2] Si hubiera sabido / que la gente joven también moría / no habría amado / a nadie / en este mundo.