quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2009


AS COISAS SÃO COMO SÃO

As coisas são como são – umas sim,
outras sopa. Por acaso as moreias
não são cobras. Pescam-se no mar,
como as lulas. O camaleão é
um assombro: tem todas as cores
e não tem nenhuma. O helicóptero
e a borboleta não são aves.
O cisne é, mas não gosta de voar.

Algumas cobras têm veneno,
tal-qual o escorpião e a cicuta.
A girafa chega aos altos ramos,
a toupeira come no chão.
O Sol abrasa, a Lua não queima.
Uma circunferência é redonda,
um triângulo não é. Nenhum albino é preto,
todos os pigmeus são pequeninos.
Eu sei que geito se escreve
com jota, da esquerda para
a direita. Há quem dê erros
de ortografia, da direita para a
esquerda. Os pinguins do Pólo Sul
vivem de cabeça para cima,
tal-qual os esquimós,
que vivem no Pólo Norte.
As coisas são como são.


ARMÉNIO VIEIRA

5, 4, 3, 2, 1, 1, 0... 2009


Uma mulher manifesta-se contra os bombardeamentos de Israel na Faixa de Gaza, junto da embaixada israelita em Lima, no Peru.
Fotografia: Enrique Castro-Mendivil /Reuters.

NAS COLINAS DO DESTERRO


(APÓCRIFO DE MAHMOUD DARWICH
DIRIGINDO-SE A UM POETA JUDEU)

Matam e morrem — desde as alturas
de guedá que sabem que só o sangue
cheira a sangue. Mesmo com voz exangue,
louvam o porvir. Mesmo se pelas agruras

feridos. Mas porque nenhum destino se tece
com apenas uma meada, matam e morrem.
O fim dos tempos não temem, mas correm
com leves pés de potro ante o dia que fenece.

A rosa e o aço conhecem. A lisa geometria
e a áspera desmesura. Tão distantes do grego
legado, porém — aprender pelo sofrimento.

Do tempo conhecem o sulco e a estria.
E porque irmãos humanos essoutros, digo-
-lhe: nosso também o horror e o lamento.


JOSÉ LUIZ TAVARES

31 de Dezembro

Mona Lisa
Jean-Michel Basquiat

Kind of Blue

O dia 31 de Dezembro de 2008, último deste ano em que Baraka Obama ganhou a presidência dos EUA e os israelitas destroem a Faixa de Gaza, na cidade da Praia, o tempo amanhece nublado e a brisa é fresca. Escuto, ainda na cama, "Kind of Blue", de Miles Davis. Folheio um livro que conta as "travessuras" de Basquiat e Diaz. Uma vez, em Nova Iorque, deambulei pelas ruas com os graffites de SAMO. Ainda hoje procuro os poemas que escrevi sobre Village. Perdi-os nas andanças entre Boston e Providence. Doravante, farei sketchs humorísticos dos políticos locais. Deixar sair "em liberdade" os assassinos das duas italianas, por incompetência do STJ, é o fim da macacada. Pessoalmente, estou farto da incompetência assassina. Há aqui uma mecânica de lesa moral e sociedade, que nos permite viver entre assassinos e traficantes, alguns até mascarados de polícias. Que verguenza! Riscos? Corro tais riscos fazendo um documentário sobre Eugénio Tavares. Em Janeiro, irei a Santiago de Compostela, Espanha, acertar com os galegos essa possibilidade. Aproveitarei a viagem para também acertar a publicação do Li Cores & Ad Vinhos, em Lisboa. Outros riscos? Trabalhar nos meus projectos, fazer 48 anos aninhados em ti e olhar-me ao espelho demoradamente. O dia 31 de Dezembro de 2008 é um pouco esta loucura. Pedes a Deus que me abençoe. Mas nunca se pode banhar na mesma água desse rio. O tempo é um estuário, uma veia aberta, kind of blue...

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Mirror


Standing Nude
Joan Miró
1.
Queres que te conte histórias? Inventa-me aí uma soleira, sem porta que seja, e o teu regaço já me é de bom tamanho. Os bíblicos? Ou os para-bíblicos, que são os mais sensuais? Conta a lenda que, no século XVI, em Praga, um rabino-cabalista construiu um ser artificial, o Golem. Esse feito, às margens do rio Moldava, elevava o homem à condição do Criador. Através da areia e do barro, e com recurso à magia, a Criatura se tornava corpo e espírito. O poeta Jorge Luis Borges fizera uma grande homenagem a essa lenda judaica:
(...)
Si (como el griego afirma em ei Cratilo)
El nombre es arquétipo de la cosa
En las letras de rosa está la rosa
Y todo el Nílo en la palabra Nílo.
(...)
2.
Sim, quando morrer, queria morrer como Borges, à beira do rio Ródano.
3.
Li, às gargalhadas, com o Best Of, onde estrelas se fazem só porque nos comeram no calambeque preto. Insones madrugadas!Borboletas amarelas que se desmacham na violeta. Ou estarei a confundir as cores? Ou tudo não passa de um arco-íris, psicadélico e louco, e não se sabe de mais nada?

PORCO, CHAMPANHE & SERPENTINA



1.
O Ano Novo, por mais que não queiramos, é de um simbolismo que nos transcende. De um lado da fronteira temporal, o ano passado com as suas alegrias e tristezas. Quantas gargalhadas e quantas lágrimas. O peso insustentável das vitórias e das derrotas. Doutro lado da fronteira, o ano a começar, um rio de 12 meses, com margens ainda incertas, mas prometendo novas alegrias e novas tristezas. Chega-se a ficar filósofo neste período de balanço, em que nos obrigam a retrospectiva e a prospectiva de tudo e de nada. Pessoalmente, vivo sempre a percepção de um recomeço a cada Ano Novo. Não vou ao Reveillon me deliciar no cortejo das vaidades e ao baile das máscaras. Nem me perco no artifício dos fogos que engana a cidade à meia-noite. Quedo-me só, apartado de tudo e de todos, alheio ao turbilhão de convivas que trilha a orgia do porco, champanhe & serpentina, e silenciado dessa música de Boas Festas que não me galvaniza.

2.
Maria Helena de Morais Sato, poeta cabo-verdiana que conheci há dias em São Paulo, escreveu o seguinte: Peço/estrelas/tão-somente…Constelações/eu mesma/traço! Não é bonito? Passar o tempo a lê-la ou a ver, pelo DVD, a série Prison Break (que também andam a dar na TCV), admirador que sou de Wentworth Miller. O leitor gosta de Lenny Kravitz? K, nome de código, gosta de grafite e desenha na parede um homem crucificado. Algures, dança-se Guantanamera. K é um exímio dançarino. Moi, non plus…

3.
Uma senhora foi assaltada e violada na zona de Quebra-Canela. Esse tipo de crime violento e intolerável vem acontecendo de forma recorrente em Cabo Verde, sobretudo na cidade da Praia. Não nos furtamos de um olhar sociológico sobre a criminalidade e de reconhecer que nada acontece por acaso. Os criminosos, tal como as vítimas, são produtos de uma engrenagem social perversa. O sistema social, em seu reverso, gera a sua violência, bla-bla-bla. Aliado a isso, um Código Penal “bunda mole” (estou mesmo a ver a ira dos bundões!). Entretanto, não apenas por esse crime hediondo (não mais que os outros menos mediáticos por envolver vitimas menos socialites, diga-se), temos de produzir, antes que seja demasiado tarde, um discurso e uma acção mais veementes e mais indignados contra a insegurança. Não nos podemos quedar como “cordeiros silenciosos” à mercê do delírio dos criminosos.

4.
Na Califórnia, Estados Unidos, um assassino, disfarçado de Pai Natal, entra numa casa e dispara contra a família. É a grande tragédia natalícia. Vai se ver que o homem entrara em casa da ex-mulher e estava tresloucado com a separação. Crime passional, dirão alguns. Premeditado, é o que nos parece. Uma tragédia enorme, ao fim e ao cabo. Na África, milhões de pessoas morrem de fome, de doença e de violência. No mundo dito desenvolvido, os neoliberais dão o berro à banca e pedem ao Estado (outrora amaldiçoado pela teoria económica) que seja forte e lhes salve da bancarrota. Karl Marx, o Rimbaud da filosofia económica, dá uma gargalhada. O mundo não é plano, ó Thomas. É amarrotado.

5.
De repente, neste PDM, fala-se da língua. Da língua cabo-verdiana. Uma língua que é a cara mestiça dos cabo-verdianos. Do Alupec-se quem puder (e souber), como se a oficialização da língua cabo-verdiana tivesse que depender de uma ortografia acabada. O português foi oficializado no tempo em que física era “phisica” e farmácia era “pharmacia”. D. Diniz não esperou pela “ortografia” acabada para dar o mote oficial. Fê-lo com sentido de soberania e consciência cultural. É o mesmo espírito que nos desafia. JMN prometera a oficialização ainda no seu mandato governamental. A ver se é desta que me orgulharei dos deputados da Nação…

6.
K., nome de código, esperava pela madrugada a chegada dos quatro rapazes. Frio, muito frio, este amanhecer de Ano Novo. Esperava-os na moita da noite, que era esquina do bairro adormecido, com um revólver na mão. A intenção era fuzilar tais animais, regá-los com gasolina e jogar fogo na trouxa. Que linda fogueira na aurora de 2009. Feita a obra-prima, entraria no Toyota Prado, e seguiria para dançar as últimas do baile. Ou será que deveria castrar os filhos da mãe? Mas não. Um telefonema da companheira (preocupada com o sumiço depois das Boas Entradas) reclamava a sua presença. Ficção? Talvez seja. Depois de uns uísques, tudo se ficciona. Somos todos uns vampiros? E que País é este que não cabe num soneto? Um haicai desleixado e estaria tudo dito. Estou a ver daqui a cara das secretárias, dos burocratas, dos bloguistas, dos assessores, dos acessórios, dos filhos da pátria…

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Suástica, amor & novela


1.
Desde que Paraíso Tropical, a novela das oito da TCV, matou a personagem Edivaldo (pequena ousadia global de botar negro na tela) que fiquei zangado. Sem ser viciado, sou daqueles que assiste a TCV, das oito ao fim da edição. Nada religioso, diga-se de passagem. Mas, dizia, fiquei chateado, meio margoso, com a ideia de terem tirado o crioulo Edivaldo da cena, o único na trama que era Artista. A novela ficou sem artista e, de certa forma, sem Arte. Minto: ficou só um - Cássio, com as suas receitas pantagruélicas no restaurante Frigideira Carioca (motivo do meu interesse pela novela, confesso). Mas, sem Edivaldo não dá para ser feliz. E retalio contra tamanha desconsideração, contando o fim do mistério aos mais aficionados. Essa merda terminará assim: Olavo mata Taís. Olavo e Ivan se matam. Camila manda Fred levar na curva e reata namoro com Mateus. Iracema e Virginia, por causa da eleições, não atingem consenso. Dinorá e Gustavo se casam . Marion vira rabidante e é expulsa do Plateau. Bebel - que fruta! - posa nua. Para que o finzinho seja meloso, piroso e zouk, porra, Paula e Daniel são pais de gémeas. Quanta mediocridade! Estou vingado...
2.
Agora, a sério, que o amor é bonito. Aposto que metade do meu leitorado não conhece o poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. É assim:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
3.
Estou meio besta hoje. A escrever asneiras, a postar à-toa. O resto é um absurdo a nos ultrapassar as medidas. O raïd aéreo do exército israelita contra a Faixa de Gaza é um acto neo-nazi. A esses genocidas só falta a suástica...

dezembro

Foto: Reuters/Ammar Awad






Não esperes por dezembro
para que sejam felizes as festas
e prósperos os anos
que dezembro pode ser tarde
para quem se guarda até tão tarde.
Quero pertencer a um país de alegria
para que dezembro não seja hipocrisia
mas o que tiver que ser, chuva e vento
gelo e neve pelas ruas desertas,
mas não frio agreste a habitar
o desamparado coração dos homens.
Não esperes por dezembro
dezembro pode ser longe
dezembro pode ser tarde
dezembro, dizem, só é longe
para quem tarda o coração.





Alex
(José Cunha)
dez/08

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

EL ÁNGEL AVARO

Gentes de las esquinas
de pueblos y naciones que no están en el mapa
comentaban.
—Ese hombre está muerto
y no lo sabe.
Quiere asaltar la banca,
robar nubes, estrellas, cometas de oro,
comprar lo más difícil:
el cielo:
Y ese hombre está muerto.
Temblores subterráneos le sacuden la frente.
Tumbos de tierra desprendida,
ecos desvariados,
sones confusos de piquetas y azadas,
los oídos.
Los ojos, luces de acetileno,
húmedas, áureas galerías.
El corazón,
explosiones de piedras, júbilos, dinamita.
Sueña con las minas.



Praia, Natal & Naomi de presente



Ouso sair-te pelas ruas e vejo as pessoas na ferocidade das compras. Penso na bomba termo-nuclear dos versos de Arménio Vieira, poeta que joga xadrês no antigo Flor de Liz. Sou suspeito quando falo da Praia de Santa Maria, que a quero com amor uterino. Que lhe quero pessoanamente como "o rio que passa pela minha aldeia". E, repetindo à exaustão desejo-lhe "maior que o Tejo". Mas a cidade está feia e desfeita. Um Natal a cair aos pedaços e umas lojas chinesas a facturarem algum. Os ambulantes foram acontonados no largo dos rabidantes, mas o Plateau continua asfaltadamente absurdo: com menos árvores, com os mesmos lixos e, nesse reverso, os mesmos luxos. Este Plateau asfixiante, mas viciante que só! Habito-lhe todos os recônditos. Preencho-lhe os buracos todos. Acaricio-lhe a face, faço-lhe poemas, metaforizo-lhe realidades de pura pedra (vou ao ponto de amar suas ruas sem sentido). Às vezes, canto-lhe a partida, ou dela quero ser uma nau enlouquecida. Incendeio-lhe seus pequenos deuses. E, no começo das noites, esqueço-lhe as mágoas. Outras vezes, odeio-lhe o tempo monocórdico, o Cronos que devora seus filhos e limpa os beiços com guardanapos de cetim, o relógio que nos é interior neste lugar. Odeio-lhe o tempo e o vento, e onde pára este e quando acaba aquele. Tudo isso porque é Natal. Faz Natal na minha alma. E na tua , cidade. Querias Naomi Campbel de presente? Estás-te a rir, que eu te conheço. PRAIA. Por favor, não partas, deixa-te estar ao meu lado.

domingo, 21 de dezembro de 2008


Nu couché jouant avec un chat
Pablo Picasso

sábado, 20 de dezembro de 2008

Querubim ou lago sem cisnes



Faz frio. Ou venta apenas. Agora deu de ventar, Poeta. Não tenho paciência para as canções de Pedro Abrunhosa, mas guardo dele, como se fosse um talismã, aqueles versos que (me) dizem: Quero que saibas/Que sem ti não há lua,/Nem as árvores crescem,/Ou as mãos amanhecem/Entre as sombras da rua. Armando a Árvore, comprando as prendas, indo aos jantares profissionais e fazendo os cartões de Natal, tudo isso me desnorteia um bocado. Se calhar, isso me intertextualize (mas isto existe?) a cantarolar, quando o meu quarto amanhece, Vou ficar mais despido/Que um corpo vencido,/Perdido em desejo. Em tempos de Natal - e estou com Abraão Vicente quando suspira É Natal, fodas! -, estou mais triste, mais inho e mais "menino de sua mãe". Tempo que me enevoa, de uma neblina que me desce da montanha, como essa paisagem transalpina que desagua em Itália, e se acanha cá dentro, friorento, tictac de relógio sem cuco, baque de coração que verseja, em vate de Mário Fonseca, o Morrer Devagar. Sei de um amigo recém-falecido. Desancou-se de um oitavo andar e estatelou-se, exangue, no trottoir parisiense. Balbuciante, devo-lhe os poemas de Rui Reininho, em "líricas come on & anas", pedaços do vate, diga-se, A pena pequena é pena de morte/Que pena este grito não chegar a Marte. Quereria ele ver a baía da Gamboa, o arco de raro recife da Praia de Santa Maria, antes de partir desta? Ficarei sempre nesta dúvida atroz e incessante. Será que neva? Ou sou eu apenas? Sem ti, Poeta, não há lua...

ode doméstica

tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas

um riso, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor

eu
vou pensando em coisas velhas
- sem sombra de desdém! -
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem

e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado

e declina, o dia

o pequeno pastor já não vem


(Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Assírio & Alvim)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sapatear


Horn 2
Fumio Yamazaki
O sapato de Muntadar al-Zaidi continua a ser a grande estrela de 2008. Que Obama nos perdoe, mas certo sapato é fundamental. Merece capa da revista Time. Ou dessa revista, parte integrante do jornal A Semana, que não pode ser vendida separadamente. Uhau...sapato! Vote-se a lista dos parvinhos, com deuses locais à mistura, mas the price goes to...sapato. E al-Zaidi, tornando-se griffe, passará a ser marca de perfume, carteira, caneta, colar e charruto. De tanga, fio dental, imaginem. Artigo de boutique de moda e de Duty Free Shop. Alá pode ser grande, mas sapato cotado na bolsa é outra loiça. António Alçada Baptista foi a grande perda de 2008. E o maior mentiroso do ano é cabo-verdiano e político local. Não digo o nome do mentecapto. A maralha quer que eu seja apenas Poeta. Tapoé, companheiros. Poeta dos Pés Descalços: Petit Pays, je t´aime beaucoup, tralalá, tralalá. Só me faltava agora interiorizar essa merda de Morabeza. Fui...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Com K & Batina


K & Batina
(Revista Fragmentos)
Mito

Luas de cada noite



Cabo-verdiano: uma questão de futuro

A língua cabo-verdiana, ainda chamada Crioulo de Cabo Verde, entra no “pole position” da sua oficialização. Tudo indicará que os nossos deputados conseguirão o consenso necessário para que o Artigo 9º da Constituição Nacional seja reescrito em termos de instituir “as línguas oficiais da República de Cabo Verde são o Cabo-verdiano e o Português”. Bilinguismo assumido. Soberania assumida. ALUPEC? Ou tão-somente, o alfabeto cabo-verdiano que, como o da língua portuguesa, se submeterá aos ajustes regionais e temporais. Estaremos, neste tempo histórico, a fazer a grande descolonização psíquica e cultural de que falava Darcy Ribeiro, o antropólogo brasileiro. É que, mais do que passado, o Cabo-verdiano é uma questão de futuro…

Amplexos da língua

As realidades linguísticas são complexas. É Natal, com o seu frufru, mas a coisa é mesmo complicada. Só de pensar que em cada 10 lusófonos, 9 são brasileiros, universo da língua no qual 0,22 cabo-verdiano e, mesmo este, mais lusógrafo que lusófono e, acima de tudo (quando ri e chora, odeia, ama ou mama), crioulófono. Curto e grosso, companheiro: será que somos realmente bilingues, porra? Eu acho que sim. Pessoalmente, as línguas de Camões e João Cabral de Melo Neto, e as de Pedro Cardoso e de Felisberto Vieira Lopes são minhas. Mas, às vezes neste destro, fico sinistro com a anarquia das vírgulas e companhia. Todos os santos dias (bem como os dias pagãos), acompanho a vianda dessa flor do lácio, tanto na escrita como na fala, dos nossos professores, deputados, funcionários e bloguistas (blogueiros também) em naipes repletas de “sapatadas”, das que mandam a ortografia, a pontuação, a sintaxe, o vocabulário, todo esse desassombro vocálico e verbal, tudo, tudinho - el amplejo todo al carajo, como diria o bolivarista Hugo Chávez.

Estatuto Administrativo Especial

Está ali na Constituição Nacional, mas nunca foi aplicado em virtude do laxismo, do desleixo e da irresponsabilidade do pessoal. A capital tem os seus custos e os seus fardos que não devem ser onerados apenas aos munícipes da Praia, mas a todos os cidadãos da República. Não apenas porque a “cidade de todos nós” alberga mais de ¼ dos residentes no Arquipélago, numa ilha que totaliza 53% do mapa demográfico de Cabo Verde, mas porque, numa convergência natural e que não se quer macrocéfala, acumula o grande potencial do (sub) desenvolvimento do País. Quais os argumentos fortes para a revisão constitucional nesta matéria? Sejamos coerentes. A Praia, não sendo dos praienses, nem dos praianos, mas de todos os cabo-verdianos, na sua dimensão capitalina, deverá ser assumida em toda a causa e consequência. Ou não será assim? Mesmo algum pessoal que costuma ser mais antenado, acertando sempre na medra e no bingo das ideias, no referente a este assunto anda a obrar fora do penico. Nem toda a escuridão é culpa da Electra, convenhamos. Há muito blackout mental por aí. Túnel…
Crise
A crise do neoliberalismo, que se deve a um verdadeiro assalto à mão armada para dentro do sistema, não significa desmercantelização. O capitalismo vai continuar sob novas máscaras e novos arreais para a dança dos vampiros e com esta mesma essência que reduz valor à mercadoria. É Natal, o dólar levando na peida, Bush esquivando sapato, o nascimento do Menino Jesus, coisa e tal, frufruzada pelas lojas chinesas do Plateau e, sejas tu a minha borboleta (de flor em flor venenosa), não será hora de gritar abaixo a riqueza não socializada!, que, neste turbilhão tomada de pequena burguesia burra, no bacanal dos deuses locais e eu lendo Tristes Trópicos, vivam, por isso, as luas de cada noite, arre...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Outras sapatadas

1. Escreve Ludgero Correia:
(...) Vou querer para o Nhelas, para o Nhoné, e para o resto da malta, que a Constituição política da República de Cabo Verde apareça revista nos moldes seguintes, conforme os artigos abaixo:
1. Artigo 10º: que a Capital da República passe a ser a Cidade do Mindelo, na ilha de Sanvicente e que, em decorrência da nova função, passe a ter um estatuto político-administrativo especial, nos termos da lei;
2. Artigo 42º: que se possa invadir o domicílio de qualquer cidadão, a qualquer hora da noite ou do dia, sem mandato judicial. Excepção feita aos políticos profissionais, familiares e amásias; empresários que financiem os partidos; e traficantes;
3. Artigo 43º: fica permitido aos superiores hierárquicos, de qualquer nível, invadir as caixas de correio electrónico de seus subordinados, sempre que suspeitem que este não os tenha em grande conta...Leia mais no Blog http://ludgerocv.blogspot.com
2. Escreveu também Eileen Barbosa:
(...) Confesso que vingança é o que me ocorre primeiro à cabeça. Não essa do meu amigo que disse que pagaria uns tipos para lhes dar uns tiros. Nada disso. Eu pensei foi em tortura.Há que haver penas muito, muito pesadas para crimes como estes. Se só a razão não impede estes bandidos de actuar, então o medo de represálias devia fazer esse papel. Represálias que se sintam na pele, e não apenas ir comer de graça à custa no meu dinheiro, do teu dinheiro, e pior, do dinheiro da vítima... Mais sobre isso no http://www.soncent.blogspot.com/