sábado, 30 de setembro de 2006

Eu era poeta, dizias


Eu era poeta, dizias,
Devido ao halo dos pães, das broas e dos bolos,
E dos recém saídos do forno, os pastéis de massa fina
Davam-me sonetos pastosos regados
Ao vinhaço de Alentejo…

Poeta, porque eu dançava
Aos teus riscos e rabiscos, e sorria
Dos bonecos que, da magenta do quadro,
Corriam pelos becos – sem frutos, repetias,
Sem pecados de expulsão divina…

E às vezes, pedia-te um lapso de atenção:
Pousada na flor, a borboleta em tons laranja
E o gato azeviche, com olhares verdes, rasgava-lhe
As pequenas sombras da tarde…


Tu juravas ser eu poeta
Pelos meus neurónios cor-de-rosa
E a cinza dos meus olhos viam
(sem alarde) a rua amarela…

E escutavam também os meus sentidos
A melodia com que um girassol prateado
Volteava (embriagado e tonto) seus seios
No fantástico zen da lua…

Filinto Elísio

Fenway Park


It's a wonderful thing, like entering into an Easter egg.
John Updike

O Outono entrava devagar,
de folhas caídas, em Fenway Park
e tu (a cores) parecias um ovo de Páscoa
e levavas no coração uma canção desesperada:
Pablo (seria o nome) -,
não se sabe se de Neruda
ou de Picasso, que também amavas…


Filinto Elísio

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Lugares (sempre)


Lugare...bridge

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos

(...)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
(...)


Álvaro de Campos

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Neurótico


Feedback…em síntese

Podem chamar-me de neurótico. Tragam mais adjectivos de má qualificação. Não seja por masoquismo, mas eu mereço. Dir-se-ia que meço as coisas pelo meu estado da alma e isso não pode ser assim. Levei uma vida para ter 45 anos e não abro mão deste estatuto. E, para que não fiquemos assim impunes, valham-me a barriga já proeminente e este olhar de quem já viu o mundo pelo avesso. Por mim passava horas esquecidas diante do calçadão da Praia de Santa Maria da Vitória. Digo-lhe o nome assim corrido, com quem vinga desta coisa imerecida. É isto o S/Cem Margem, meus amores…

A cidade merecida, a realidade e duas horas históricas

É dos livros que a realidade nem sempre tem casos com a verdade. O que não tem faltado é realidade sem verdade. Um pouco por todo o lado. Sobretudo, nesta minha cidade, onde os gregos e troianos assaltaram e querem que nós, os praienses, lhes façamos as graças. Continuo hermético? Ali no cais, na rampa de São Januário, viera Vasco da Gama em 1498 a caminho da Índia, e o lugar em vez de ser santuário histórico e turístico, virou mictório público dos transeuntes. Estes nem respeitam o obelisco à tragédia da Assistência e às vítimas da Fome. Já sei ainda não estou a ser suficientemente claro. Já viram a Praia Negra, esse crime ecológico? Ela não era assim, mas um parque natural frondoso e bonito, onde os citadinos iam passar os seus fins-de-semana. Além da natureza, ela tem história interessante, não fosse ali um dos grandes espantos científicos de Charles Darwin, em Janeiro de 1832. It was on Santiago that Darwin made his first curious discovery. O cientista colhera ali as suas primeiras impressões tropicais, de plantas e animais, que determinaram sobremaneira a sua ciência futura. O lugar foi transformado em lugar de memória? Qual quê? Mas sim num escoadouro de excrementos urbanos, lixeira hospitalar e dejecto de industrias duvidosas, além de ancoradouro das velharias e barcos encalhados. Na baía onde ancorara o navio Beagle, imaginem. É que eu não poderia ser mais claro e directo. Não procuro a realidade, mas a verdade. A não ser que, em vez de crónica, prefiram prescrição médica. Com os seus efeitos colaterais. Naturalmente…

SMS

Estava ali a piscar no telemóvel: + chuva em CV, bjs, té +. Dos emails que recebi, um me deixou pensativo. Dizia assim: I don't think you have any idea of what I went through those days. Albatroz era o meu título no blog e Filas o meu nick no ICQ. Isto é para quando estou virtual…Continuem a mandar as vossas críticas. Acho que a Constituição prevê tais liberdades. Ela já tem 14 anos…pudera!

O Papa e o colunista

As opiniões de Ratzinger não deviam condicionar Bento XVI, que tem outras responsabilidades. Mas elas não justificam ameaças, tensões e guerras. Religiosas, ainda por cima. Pior do que isso é o bombardeamento e a destruição do Líbano. Ou então, o colunista local que o defende, confundindo barbárie com liberalismo. Fui…






domingo, 24 de setembro de 2006

De quinta a domingo: Zebra Entrance e “Silent Prayer”


Quinta-feira


(…)

Ainda não escolhi o meu orientador. Tenho tempo. No iPod, escuto New York State of Mind, de Billy Joel, enquanto procuro o livro “O Marketing das Nações”, de Phillip Kotler. Um telefonema de Cabo Verde. Não digo de quem, mas pergunto, Qual a sistemática para a declaração do estado da calamidade pública? Em situações de desastres ou de caos, torna-se mister tomar medidas excepcionais e de urgência, a vários níveis. Olha, fiz-te estes sonetos incompletos:

O azeite aloirando a cebola
Onde a batata palha e o bacalhau
Refogam no alho e na salsa
Um Natal onde se era feliz…

Diante do tacho, estavas tu
Ares de deusa, perfume de rosa,
O meu Édipo de noz-moscada
Ao teu olhar de mesa farta…

Desculpa-me que perdi os tercetos, mas os versos eram também inconsequentes. Como o apagão recorrente da Electra. Aqui, em Fortaleza não há apagões, nem dia de água. Mas sente-se saudades de Cabo Verde. Que está verde, verdíssimo, havias de dizer…

(…)

A Praia caminha para 120 mil habitantes, cerca de ¼ da população de Cabo Verde e tem uma população flutuante de mais de 20 mil diariamente, sem contar com a crescente imigração estrangeira, não recenseada. A pressão demográfica ultrapassa de longe a capacidade de resposta e, em face disso, as pessoas vivem mal na cidade, sem espaço para a qualidade de vida. Nos últimos anos aumentaram o tráfico e o consumo da droga, o furto e o assalto, a casa clandestina e o comércio na calçada, o lixo e a doença pública. Aumentaram também o desemprego, a pobreza e a mendicância. Com a época das chuvas, a cidade apresenta-se fétida, doente e impraticável. A zona baixa tornou-se um verdadeiro pântano, o paredão que sustentava a zona do Brasil ruiu e as casas nas encostam correm riscos de desabamento.


Sexta-feira

(…)

Aulas na Universidade. Estudar, estudar, estudar…na biblioteca apinhada de jovens. A maior parte, delicia-se no chat. Uma minoria estuda. Ou pensa que estuda. Eu penso nos meus filhos e no que fazem. À tarde, vou ter com o Prof. Anastácio, na Federal. Ele está a caminho de Cabo Verde, a convite da Câmara Municipal da Praia. Na sexta-feira à noite, jantei no Colher de Pau, em Varjota. Além do pão de alho, a entrar, havia boa música, ao violão. O jovem solitário imitava Djavan. O prato principal foi um salteado de cordeiro com mandioca – que tu adorarias! - e a sobremesa de papaia do nosso livro da imaginação: receitas e versos…

(…)

Leio nalguns blogs a campanha para “desmistificar” Orlando Pantera, o que não deixa de ser uma enorme falácia. O nosso reconhecimento em relação ao grande génio já falecido ainda está aquém do merecido. Orlando Pantera, para lá de exímio compositor, era um hardcore de alta voltagem. Disposto a mexer com os vários géneros da nossa música — morna, coladeira, funaná, choro, batuque, ele fez…uma revolução. O Pantera, apesar de vida meteórica, nos disse ao que veio, com as suas novas texturas sonoras, os seus arranjos de outra alquimia, a sua marcação dissonante e as suas letras de quem reinventava a poesia. E ele mantém ainda a sua marca de água impressa na voz e na atitude (sobretudo, na atitude) dos mais novos, mesmo daqueles que, por despeito ou ressentimento, o recusam. Que eternize a sua alma de criador. Só nos resta agradecer a Deus e sair de fininho por Cabo Verde ter tido Orlando Pantera.
Viva Pantera! Sempre…


Sábado

(…)

O filme "O Diabo Veste Prada" é interessante. Uma comédia sobre o mundo da moda e uma interpretação sobre o quotidiano de Anna Wintour (a directora da Revista Vogue América). Como estou a estudar a hiper competitividade, sou fã de Meryl Strip e das músicas de Madonna, gostei do filme. Nada que me fizesse cair na reflexão existencial, mas algo que me ajudou a passar este sábado à tarde. Longa espera e uma esperança. Eye of beholder. Com um sorriso ainda triste…

(…)

Não faltarão aqueles a dizer que a população não ajuda. Um palavreado jurássico e dito para desresponsabilizar alguns. “O praiense não tem civismo” – não é o que se ouve por aí? O Bispo alertou que a Praia “está uma lixeira”. Muito antes disso, Mário Fonseca (poeta e lúcido) afirmara que a cidade estava “uma cloaca”. E a culpa é da população? Que preconceito! E o preconceito é o pensamento sem juízo, nem ethos. Incapaz de formatar alternativas, mergulhado no breu da fatalidade. Criminalizar a população é uma estratégia discursiva que esconde os mandantes e só revela dos mandados. Lá chegaremos…

Domingo

(…)

Domingo foi de muito estudo. Tenho um exame cabeludo para breve e tenho de estar com o Micheal Porter, com a sua teoria das cinco forças, na ponta da língua. Mas à noite, não muito longe do meu apartamento, pude reconfirmar que a Peixada do Meio tem a melhor badejo no forno da cidade. Badejo com aboborinhas e arroz de coentro. Um cortejo de campanha eleitoral passou diante do meu 10° andar e não me emocionei nem um pouco. Já não tenho idade para pornografias…

(…)

O que fazer? De imediato, era o decretar o estado da calamidade pública. Quanto custaria fazê-lo? E quanto seria não o fazer? A longo prazo, as soluções teriam de ser encontradas de molde mais sustentável. Elas passariam pelo debate (mais sério e consequente) sobre o Plano Urbano Director, o Estatuto Especial e os Custos da Capitalidade. Mas vê-se que em relação a tais aspectos prevalece um estranho silêncio, quase uma conspiração. A quem interessa tudo isso? É que há mais perversão no status quo do que supõe o nosso ingénuo ideal republicano…


P/S: Noite branca, como há mais de 16 anos. A casa vitoriana. O Franklyn Park. Zebra Entrance. Era uma cidade em Outono, folhas caídas e o coração aquecido. Como nesse conto de Woody Allen, ele dormia com a amada e amanhecia no guarda-roupa. Olha, que está a tocar “Silent Prayer”, de Doky Bros. Naturalmente…

sábado, 23 de setembro de 2006

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Do Emmanuel College...




Olhavas para lá das pedras
Terras e mares, outros ares,
Medras de amoras em flor,
Tua tralha de cada viagem…

E ao fim desse cipreste,
Qual ave turbulenta, contas
Moinhos, monstros e tantas
Robustas sombras de ti…

Caindo a noite, nesse parque
Como em teu coração, choravas,
Baixinho, o apanágio divino,
Flagrantes de outros amores…

E depois, em nada, puro vazio,
A paisagem se anulando longe,
Pétala caindo de tua figura breve
Fugaz de um amor sem limites…

Filinto Elísio

Um sonho

lua na folha molhada
brilho azul-branco
olho-água, vermelho da calha nua
tua ilharga lhana

mamilos de rosa-fagulha
fios de ouro velho na nuca
estrela-boca de milhões de beijos-luz

lua
fruta flor folhuda
ah! a trilha de alcançar-te
galho, mulher, folho, filhos
malha de galáxias
tua pele se espalha
ao som de minha mão

traçar-lhe rotas
teu talho, meu malho
teu talho, meu malho

o ir e vir de tua
o ir e vir de tua ilha

lua
toda a minha chuva
todo o meu orvalho
caí sobre ti
se desabas e espelhas da cama
a maravilha-luz do meu céu
jabuticaba branca

Caetano Veloso, in Cê

A um toureiro morto

Edouard Manet, "Toureiro Morto" (1864)

Sou a camisa do toureiro morto,/a cal magra, a casca, a casa que ele vestia/à maneira de um pássaro/que o calçasse inteiro/e protegesse, de modo que/seu peito já não se lembrasse

que o maciço compacto de minha alvenaria/era só uma fiada e outra/de algodão e fresta,/nó e fenda./Sou o muro/estreito

e bem cortado, o reboco, a parede/delgada, a camisa que morreu/com ele, o muro, o metro/exato e reto que, no entanto,/ já não pode tal corpo/ que, extático, parece alastrar-se

como árvore, ao avesso, porque morta,/rio, ao avesso, morto, poça/de terra e não de água, de terra/que se derramou para voltar à terra./O que em mim era casa/deixou fugir as vigas, descolou-se, emagreceu dos ossos, tornou-se aéreo./Um morto é inquilino que não me serve e já/ outras paredes vêm chegando:o paletó/ de pinho ostenta cadeados definitivos,/colarinho de barro e lata.Morto,/nenhum veludo orna as ruas

sinuosas de seu intestino; músculos nus,/açúcar o que era arame. Sou a camisa/ encharcada de água em que se ferveu a carne,/o peixe, o adubo gorduroso da cabeça,/da língua, dos olhos daquele que amei, que amei/como uma casa ama a chama de sua régua.
Eucanaã Ferraz, no livro Rua do Mundo (ed. Cia. das Letras)

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Love her

SON DI SANTIAGU

China Town não, obrigado


Recentemente, falando com um amigo e vizinho, voltamos à velha, mas cada vez mais necessária ideia da Associação dos Moradores e Amigos do Plateau. Não apenas para abordarmos a lástima que se tornou o Ribal Praia, mas para reflectirmos sobre as soluções e as alternativas existentes. Para já, o exorcizarmos a premissa de que o Plateau seja um problema (ou mesmo uma problemática), quando ele é uma grande oportunidade (de cultura, turismo, negócios, finanças, educação, etc). Falando amiúde com o meu amigo chegamos à conclusão de que o Plateau corre sérios riscos de degradação e de ostracismo. Em verdade, não se percebe que uma das áreas mais preciosas de Cabo Verde seja “abandonada” à descaracterização e ao avanço desenfreado do comércio especulativo e outro, bem como da venda ambulante (diria até, rabidante) dos informais. A continuar esse ritmo desenfreado, dentro de cinco anos, viveremos numa autêntica China Town. Esta não é do Pranchinha, coitado, mas vaticínio de todos quantos abordam a questão. Não que eu tenha algo contra a presença dinâmica dos estrangeiros e dos forasteiros na cidade. Antes pelo contrário, Praia tem uma vocação metropolitana e cosmopolita e há que ser coerente em relação aos seus caminhos. Entretanto, chamaria aqui a atenção no tocante ao controlo e à gestão dos fluxos migratórios e à necessidade de gentrização do espaço, transformando completamente a forma e o conteúdo social da cidade. A questão é humana, em todos os seus quadrantes, Eis a pergunta abismal: existe Plateau fora do horário comercial e administrativo? Existência, no significado profundo do termo. Diga-se em abono da realidade que essa fatia urbana precisa de urgente reabilitação, tarefa que envolve tudo e todos, sobretudo a edilidade e o governo. O papel do Estado como indutor torna-se extremamente relevante. Aliás, a opção de plantar ali a Reitoria da Universidade de Cabo Verde, por exemplo, foi mais que bem pensada. A de praça digital também. Mas é preciso algo mais. É preciso um processo integrado de recuperação da área que se pretende salvaguardar, implicando o restauro dos edifícios e a revitalização do tecido económico e social, no sentido de tornar a área atractiva e dinâmica, com mais competitividade e melhor condições de habitabilidade. À margem, mas não neutro, diante da euforia imobiliária, urbanística e outra que toma conta de alguns espíritos, reafirmo ao meu amigo e vizinho sobre a premência da nossa Associação. Estou crente que todos (os de boa fé e boa-vontade) irão aderir. Tem a ver com requalificar Cabo Verde, pela cidadania ora. Em prol do Plateau. Sem saudosismos em relação ao passado, mas com assumida saudade do futuro...

sábado, 16 de setembro de 2006

Xoo em cumpre anos






Eres tan sólo un sueño,
pero en ti sueña el mundo
y su mudez habla con tus palabras
Octavio Paz

Eros, como a noite, também faz anos
Brisa vagarosa de praia deserta
Onde eu também fora Deus
Antes do Verbo

Eras ontológica, sereia
Arenosa aos meus passeios
De solilóquio e assim
Soletrava-te em sonhos

Eres tan solo versos de Paz
Uma vez, lua, outra vez estrela
Palavras daqui soletradas
E tântricas do teu corpo…

Eros, eras, eres…esses e efes
Todas as letras tatuadas
No balbuciante dos teus lábios
Quando não beijam…

Filinto Elísio

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Roteiro de Dimas Macedo

Ontem, participei da missa na Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Mucuripe, homenagem aos 50 anos do meu amigo e poeta Dimas Macedo. Um recital de Acção de Graças, baseado em peças de Beethoven e Mozart, como merece o "parnaso de Lavras". Mas não vou escrever, uma vez mais, sobre este camarada das andanças pela Belle Époque, de Fortaleza. Apenas transcrevo um texto de Fenando Ferraz, poeta e jurista do Piauí.


Roteiro de Dimas Macedo


Natural de Lavras da Mangabeira (CE), Dimas Macedo é professor da Universidade Federal do Ceará, Procurador do Estado do Ceará e membro da Academia Cearense de Letras. São de sua autoria os seguintes livros de poemas: A Distância de Todas as Coisas (1980; 3ª edição: 2001), Lavoura Úmida (1990; 2ª edição: 1996), Estrela de Pedra (1994; 2ª edição: 2005), Liturgia do Caos (1996) e Vozes do Silêncio (2003).

Como jurista e cientista político, publicou: Política e Constituição (Rio de Janeiro: Ed. Lúmen Júris, 2003). E no campo da crítica ou do ensaio, é autor de: Leitura e Conjuntura (1984; 3ª edição: 2004), A Metáfora do Sol (1989; 3ª edição: 2003), Ossos do Ofício (1992), Crítica Imperfeita (2001) e Marxismo e Crítica Literária (Florianópolis, 2001).

Dimas Macedo integra o Conselho Editorial de vários jornais e revistas culturais: Espiral e Literapia (Fortaleza), Literatura (Brasília) e Morcego Cego (Santa Catarina), entre outros. Compõe também o Conselho Editorial das Edições da UFC, o Conselho de Publicações da Editora Códice e o Conselho Editorial do Museu – Arquivo da Poesia Manuscrita. Participou, com poetas e estudantes do Curso de Direito da UFC, da criação da revista e do movimento literário Molec.

Poemas e textos literários de sua autoria foram vertidos para o inglês e o espanhol e publicados em Portugal, Espanha, Inglaterra, Argentina e Estados Unidos, tendo trabalhos de sua autoria divulgados nos principais jornais e revistas do Ceará e do Brasil. A sua produção no campo da cultura literária ou da reflexão filosófica abrange um conjunto de trinta livros editados e mais de trezentos artigos, versando a maioria deles sobre literatura e autores de língua portuguesa.

Desenvolvendo uma intensa atividade literária, cultural e artística, que se projeta no campo editorial e na área da defesa da cidadania e da justiça, Dimas Macedo, além do livro Política e Constituição, acima referido, publicou o livro A Face do Enigma (2002), este último sobre a trajetória biográfica e a obra literária do grande escritor cearense José Alcides Pinto.

Presidente da Comissão de Direito Ambiental da Procuradoria Geral do Estado do Ceará e membro da Comissão de Direitos Humanos, da Comissão de Estudos Constitucionais e Vice-Presidente da Comissão de Ensino Jurídico da OAB-CE, Dimas Macedo tem artigos publicados em revistas jurídicas especializadas, entre elas, a revista Nomos, do Curso de Mestrado em Direito da UFC; a Revista de Humanidades, do Centro de Ciências Humanas da UNIFOR; a Revista de Informação Legislativa, do Senado Federal; a Revista da Faculdade de Direito da UFC; a Revista dos Tribunais – Cadernos de Direito Constitucional e Ciência Política, da Editora RT; e a Revista Trimestral de Direito Público, da Editora Malheiros, São Paulo; sendo ainda autor dos livros Ensaios de Teoria do Direito (1985), O Discurso Constituinte/Uma Abordagem Crítica (1987), ambos já em segunda edição, e Pesquisas de Direito Público (2001), onde discute, respectivamente, temas de Filosofia do Direito, Sociologia Política e Direito Constitucional.

Na área específica da Pós-Graduação, além do Mestrado em Direito da UFC, tem lecionado as disciplinas Teoria do Estado, Organização Federativa do Estado e Normas e Princípios Constitucionais, nos Cursos de Especialização em Direito Tributário e Direito Constitucional, na Universidade de Fortaleza; Processo Constitucional e Teoria dos Direitos Fundamentais nos Cursos de Aperfeiçoamento de Magistrados e Pós-Graduação em Processo Civil, na Universidade Federal do Ceará; e Direito Constitucional Ambiental, no Curso de Pós-Graduação em Direito Ambiental, na Universidade Estadual do Ceará. Por dois mandatos exerceu as funções de chefe do Departamento de Direito Público da Faculdade de Direito da UFC.

Com toda esta multiplicidade de funções e cargos, Dimas Macedo se auto-intitula como poeta. E afirma que “esse mundo fantástico do imponderável, essa transcendência cristã e divina que borbulha em cada um de nós como uma rocha, compreende, em essência, os sentidos daquilo que pedimos e daquilo que achamos a cada passo de nossa caminhada. Aceitar Deus é ouvir a alegoria mais pura da palavra, é sentir a pulsação dos humildes, é ancorar uma nuvem nas areias móveis do deserto, porque os móbiles de sal do pensamento já são, em sua unidade suprema, os códigos de luz de todas as idades do homem”.

Em seu livro Marxismo e Crítica Literária, Dimas Macedo, com propriedade, afirma que “a realidade social concreta, não podemos esquecer, esconde-se por trás de uma cortina de mentiras e falsificações, de forma que assim, gradativamente, a sua face vai se tornando invisível. E se ela não se concentra captada numa obra literária, como exige, aliás, o pronunciamento de Milan Kundera, ela termina aventurando-se a não ser reconhecida pelo leitor, que não tem mais o hábito de conviver com o concreto real. (...) Para libertar a literatura desse processo de escamoteação do real, faz-se preciso que o crítico esteja consciente de que o exercício de sua atividade de decodificador de linguagens está subordinado à compreensão de que a obra literária, assim como o autor e o leitor, encontram-se inseridos num universo conhecido pela designação de contexto social”.

Como bem observa Rodrigo Marques, “os símbolos da infância de cada poeta permanecem vivos e sempre estão a reclamar um poema e a despertar eternas saudades e lembranças”. Não poderia ser diferente com o poeta Dimas Macedo, que homenageia sua cidade natal, Lavras da Mangabeira(CE), com o poema “Lavras”, publicado em seu livro A Distância de Todas as Coisas:

“Longe daqui do tumulto,
lá no meio das coisas,
prostrada para o universo,
posto que existe,
Lavras é a cidade mais bela do mundo,
pois em cada rua
nasce uma saudade
que termina em meu corpo”.

No poema “Elegia Lavrense”, Dimas Macedo conversa com sua cidade que o fez nascer de suas entranhas, e que um dia o viu partir em silêncio. Quantos de nós nos identificamos com este auto exílio da cidade que nos gerou e abrigou em seu berço desde quando nascemos e que, muitas vezes no mudismo de sua história, guarda em suas ruas, parques, avenidas, escolas, clubes e residências o registro de nossa existência com a ilusão juvenil de que morávamos no centro do universo? Como um casulo, ela bem sabe que um dia a borboleta parte e que, por mais que deseje, não mais terá condições de acolher em seu ventre de casulo sua larva que se fez borboleta e que aprendeu a voar. Será, caros irmãos Cineas Santos e Genuíno Sales, que, ao lerem “Elegia Lavrense”, vocês não se lembrarão de Campo Formoso, município de Caracol/PI, ou da fazenda Tamboril dos Sales, ao sopé da serra do sertão de Pedro II, como eu me lembro da minha Parnaíba? Vejam como o poeta Dimas canta a sua terra de berço:

“Lavras,
ainda não quero transformar-te em canto,
quero apenas denunciar-te com uma elegia
para que rememores teu passado
de poemas ainda não escritos,
mas que escreveste
para o contentamento dos teus filhos.
Moléculas desgarradas do teu seio,
lentas para os sonhos de amor
que conquistaste.
Histórias paridas de tuas entranhas,
serenas como o caminhar dos teus transeuntes
na beleza cantante de tuas ruas
e de tuas praças,
ou com a solidão que ostentas
em tuas madrugadas,
com tua avenida enluarada,
serena para a inquietação que te dominava outrora.
II
Lavras, as tuas ruas agora silenciaram,
não mais choram com a sinfonia
dos violões plangentes dos teus seresteiros.
Tudo até parece que dorme sobre ti
pairando entre a timidez paralela de tuas casas.
Teus líderes
ainda acalentam em ti uma esperança,
sim, porém muitos partiram,
aliás, todos.
...
Teu corpo repousa virgem,
envolvido pela monotonia de tua solidão.
E é com essa paz, Lavras,
que te desejo.
Quero-te com as tuas manhãs de domingo,
nostálgicas para mim nas festas do padroeiro,
ou com as tuas tardes tristes
ao som da velha banda que não conheci
mas cuja harmonia
ouço a cada instante
tocando dobrados que ferem a alma.
Quero-te na tua calma,
perdida na tua agonia,
sobretudo quando sofrias a crueldade
dos teus poderosos
e eu não podia te socorrer
na minha fragilidade de criança”.

Reviver o passado é, como bem expressa Dimas Macedo, a nossa própria vida como “uma sucessão de dias e de noites”. O sonho, a angústia, a desilusão, a alegria, a tristeza, a esperança, o desejo, as paixões, e o amor alimentam a própria existência deste grande poeta que se autodenomina como “poeta apenas (...) com as mãos calejadas de versos”, a guardar no olhar “uma imaginação entre planícies”.
Para mim, é o próprio poeta que homenageio no poema que lhe presenteei em 1º/9/2003, intitulado “Poeta de Lavras”:

“Nas ondas perenes do mar
alternando calmaria com arrebentação
navega o barco do poeta
sem porto onde atracar
Tem como norte a luz
que afugenta a morte
iluminando a alma
nos labirintos da vida
Nos caminhos d’água
segue o homem que sonha
harmonizar direito com justiça
humanizando o mundo com poesia”.

Finalizando minhas modestas palavras, escolhidas que foram para fazer uma breve apreciação sobre a extensa obra do poeta Dimas Macedo, socorro-me de Mário Quintana em sua versão da felicidade, invocando aqui o poema de sua autoria intitulado “A Idade de Ser Feliz”:

“Existe somente uma idade para a gente ser feliz,
somente uma época na vida
de cada pessoa em que é possível sonhar
e fazer planos e ter energia
bastante para realizá-los a despeito de
todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com
a vida e viver apaixonadamente e
desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar
a vida à nossa própria imagem e semelhança e
vestir-se com todas as cores e experimentar todos os
sabores e entregar-se a todos os amores sem
preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda disposição de tentar
algo NOVO, de NOVO e de NOVO,
e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz
na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração
do instante que passa”.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Haikus

1
Mano en la noche.
Un pájaro sombrío,
Sombra de pájaro.

2
La muerte bebe

Su oscuro vino amargo,
Y luego sigue.

3
Fugaz crepúsculo

Que alumbras por las tardes,
Lámpara breve

4
Canto en la noche.

Las sirenas me llaman;
Sueñan mi muerte.

5
Sueño mi muerte,

Los clavos, la madera.
Cuelgo del sueño.


6Piedra o espada.
Excalibur soñado.
Mano que duda.

Carlos Pintado