Boas lembranças para todos, bons festejos. E, sobretudo, um Ano Novo, com muita prosperidade, paz e amor.
Nota: Arte é a condição sine qua non para uma resolução alternativa.
sábado, 31 de dezembro de 2005
sexta-feira, 30 de dezembro de 2005
INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado
- Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
- A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
FERNANDO PESSOA
Que raras deusas têm escutado
- Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
- A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
FERNANDO PESSOA
quinta-feira, 29 de dezembro de 2005
Soneto desviado
Soletrava ela ou ele – não importa,
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe –, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.
E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.
Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.
E saberão (dele ou dela) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto…
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe –, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.
E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.
Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.
E saberão (dele ou dela) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto…
Passaja d’óne
Uma espécie de nuvem atravessa a manhã e se instala, nublada e cinzenta, na minha alma. Não sei se da geofísica ou se da minha tristeza, mas o certo é que jamais verei a águia que por mim passou e, se calhar por leviano romantismo, me deixou este travo de saudade. Também confesso que a divisa entre um ano que finda e outro que começa me deixa entre a euforia e a nostalgia. Quem dera poder, como os demais espantar os fantasmas que, noite e dia, invadem cá dentro as minhas catedrais. Tudo se esvai. Inexorável é a areia que vai com o vento. Insustentável este sentimento de perda que a pertença, quase sempre, não processa. Estou na beirada do rio Charles, em Boston. Numa ruidosa rua de São Paulo. Ou, no alto do Monte Verde nesta friorenta manhã, onde a águia atravessa o meu estado da alma. Não sei se da geofísica ou se da minha tristeza…
quinta-feira, 22 de dezembro de 2005
NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI
por Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
Nota do Blogueiro:
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
Nota do Blogueiro:
Natal: rebuliço do vento
Venta. Lembro-me da minha tia-avó Mamazinha a discorrer sobre o equinócio. Lá fora o rebuliço do vento. Aquele redemoinho. O silvo de uma melopeia triste. Dos que cortam na alma. E o fino corte na fímbria da tristeza. Das que se revelam apenas num olhar de soslaio. Relance de transeunte. Fugaz estrela. Ou tão-só cadente. A riscar o céu. As luzes, os sons, as gargalhadas, a mesa farta e o pinheiro enfarpelado se esvaem na retina desse espelho. De nada adianta a multidão se cá dentro deambula, alheio ao vento, um homem só…
quarta-feira, 21 de dezembro de 2005
Os juízes e os nossos deuses de esquina
(O Salão Abílio Duarte está cheio e a multidão celebra a chegada do candidato. Nos bastidores, é tudo adrenalina. Mayra Andrade está em Cabo Verde a emprestar poesia a este Natal de rebuliço comercial. No Senegal, faleceu a minha tia Ivone. Ainda estou por saber quem julgará os juízes. E os nossos deuses de esquina…)
Pórtico
As Festas aproximam-se vertiginosamente, mas a minha alma está triste com o falecimento da tia Ivone, irmã da minha mãe, pertença do que somos e do que temos em termos dos valores familiares. Naturalmente que não irei discorrer sobre este doloroso facto íntimo no S/Cem Margens que, modéstia à parte e mau grado o próprio autor, é referência pública. Entrementes, dando contas à vida, devo sublinhar que a morte é o grande reconstrutor das coisas. Relativizando tudo, mas tudo, nada se sobrepõe à perda (irreversível) de uma pessoa querida e próxima. É como se uma espécie de sol partisse para todo o sempre. Dói muito, muitíssimo…
Glosa
As Festas aproximam-se vertiginosamente, dizia, e a azáfama natalícia é consumista. O comércio é o grande ganhador de haver Natal e os pobres ficam mais deprimidos do que nunca. Sempre achei que o Natal daria uma excelente ocasião para o debate sobre o desequilíbrio social. Paradoxalmente, a celebração do nascimento de Cristo (a grande esperança dos deserdados) se transformou na exuberância dos poderosos. Pode? Não que eu seja contra a celebração e o encanto natalícios. Quem chega em casa e não encontra a Árvore de Natal, não se considere feliz, nem benquisto. Há rituais que valem a pena, porque o ritualismo faz parte do ser antropológico. De resto, cai bem sair pela Avenida Cidade de Lisboa e pela Avenida dos Combatentes pela Liberdade da Pátria e ver as luzes da cidade. Melhor, só a voz de Nat King Cole a cantar “Merry Christmas To You”, no rádio do automóvel. Vertiginosamente, e de um só gesto, apetece-me abraçar a todas as pessoas que amo…
Deliberações & milénio
Uma decisão das autoridades eleitorais, sem efeitos práticos, que o Falecido comentaria “apenas para o inglês ver”, manda um partido político retirar cartazes de propaganda eleitoral colocados há três meses. Esse ilícito, que já teve o seu impacto danoso, está a ser reparado tardia e morosamente, permitindo à opinião pública pensar que a impunidade reina e que há uma tendência de “bananização” da República. E, já agora, porque “o cujo nada tem a ver com as calças”, aproveito para expressar solidariedade ao jornalista José Leite, do Noite Ilustrada, diante do acto censurante (sem aspas, meus senhores) a uma peça feita com isenção e deontologia jornalísticas e que não belisca os princípios que enformam o sistema e a lei eleitorais. Estamos a entrar em 2006, caríssimos. Há coisas que não cabem no milénio!
Com Cabo Verde no coração
Estive na Assembleia Nacional a ponderar a nossa sala cheia. O candidato Pedro Pires dizia, às tantas no seu discurso de apresentação, que a questão de fundo já não é a de haver ou não a democracia, mas sim da qualidade da democracia que existe no país. E, se a conversa antes era a sala composta do adversário, o que se dirá agora da transbordante multidão que ali estava a apoiar o “Amigo Comandante”? Mas o tema recorrente terá de ser adiado novamente, já que é impossível não pensar na minha tia Ivone, recém falecida, cuja alegria de viver merece, aqui e agora, a recitara da minha imensa saudade…
Pórtico
As Festas aproximam-se vertiginosamente, mas a minha alma está triste com o falecimento da tia Ivone, irmã da minha mãe, pertença do que somos e do que temos em termos dos valores familiares. Naturalmente que não irei discorrer sobre este doloroso facto íntimo no S/Cem Margens que, modéstia à parte e mau grado o próprio autor, é referência pública. Entrementes, dando contas à vida, devo sublinhar que a morte é o grande reconstrutor das coisas. Relativizando tudo, mas tudo, nada se sobrepõe à perda (irreversível) de uma pessoa querida e próxima. É como se uma espécie de sol partisse para todo o sempre. Dói muito, muitíssimo…
Glosa
As Festas aproximam-se vertiginosamente, dizia, e a azáfama natalícia é consumista. O comércio é o grande ganhador de haver Natal e os pobres ficam mais deprimidos do que nunca. Sempre achei que o Natal daria uma excelente ocasião para o debate sobre o desequilíbrio social. Paradoxalmente, a celebração do nascimento de Cristo (a grande esperança dos deserdados) se transformou na exuberância dos poderosos. Pode? Não que eu seja contra a celebração e o encanto natalícios. Quem chega em casa e não encontra a Árvore de Natal, não se considere feliz, nem benquisto. Há rituais que valem a pena, porque o ritualismo faz parte do ser antropológico. De resto, cai bem sair pela Avenida Cidade de Lisboa e pela Avenida dos Combatentes pela Liberdade da Pátria e ver as luzes da cidade. Melhor, só a voz de Nat King Cole a cantar “Merry Christmas To You”, no rádio do automóvel. Vertiginosamente, e de um só gesto, apetece-me abraçar a todas as pessoas que amo…
Deliberações & milénio
Uma decisão das autoridades eleitorais, sem efeitos práticos, que o Falecido comentaria “apenas para o inglês ver”, manda um partido político retirar cartazes de propaganda eleitoral colocados há três meses. Esse ilícito, que já teve o seu impacto danoso, está a ser reparado tardia e morosamente, permitindo à opinião pública pensar que a impunidade reina e que há uma tendência de “bananização” da República. E, já agora, porque “o cujo nada tem a ver com as calças”, aproveito para expressar solidariedade ao jornalista José Leite, do Noite Ilustrada, diante do acto censurante (sem aspas, meus senhores) a uma peça feita com isenção e deontologia jornalísticas e que não belisca os princípios que enformam o sistema e a lei eleitorais. Estamos a entrar em 2006, caríssimos. Há coisas que não cabem no milénio!
Com Cabo Verde no coração
Estive na Assembleia Nacional a ponderar a nossa sala cheia. O candidato Pedro Pires dizia, às tantas no seu discurso de apresentação, que a questão de fundo já não é a de haver ou não a democracia, mas sim da qualidade da democracia que existe no país. E, se a conversa antes era a sala composta do adversário, o que se dirá agora da transbordante multidão que ali estava a apoiar o “Amigo Comandante”? Mas o tema recorrente terá de ser adiado novamente, já que é impossível não pensar na minha tia Ivone, recém falecida, cuja alegria de viver merece, aqui e agora, a recitara da minha imensa saudade…
sexta-feira, 16 de dezembro de 2005
A hora íntima
por Vinícius de Moraes
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Rio de Janeiro, 1950
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Rio de Janeiro, 1950
quarta-feira, 14 de dezembro de 2005
Pinóquio ou Ronda nº 2
Contextualizando
(Uma hora depois de rodarmos os bares da cidade da Praia em busca da paz de espírito: Motcha, fechado; Pirilampo: fechado; Petu Pomba, fechado; chegamos ao Paulino, no Palmarejo. Acesa discussão. A escravatura foi abolida há 169 anos. Alguns dos nossos bisavós foram escravos. Mas até esta não discutimos a fundo a questão. Temos falado do Holocausto, outra tragédia, mas acontecida há menos tempo. As luzes na avenida prenunciam o Natal. Fala-se da escrita. O poeta é um fingidor, glosou alguém Fernando Pessoa. Eu queria tanto contar aos meus filhos a história do Pinóquio. Festival marginalizado, dizes no teu Blog)
Zero
Amiga, a grande verdade é que o mundo começou sem o homem e há de terminar sem ele. O ciclo completo não é necessariamente antropológico. Leio o teu Blog e gosto das tuas razões. Um dia, hás de entender que o mundo é um grande paradoxo às voltas. Vale termos os Raiz di Polon, Amiga. Gostei daquela: Está tudo a ver um Benfica – Manchester, um Porto – Artimedia. Ou então, a encher avenidas em passeatas...
Boa nova…lufada de ar fresco
Soube, há dias, pelo meu pai que Arménio Vieira lança em breve um livro de poemas. Nessa mesma tarde, encontro o Poeta por acaso e este confirma-me ter na calha o documento. Venha o livro, agora ou nunca. Quero ler boa poesia e não a versalhada que pulula por cá. Aguardo, com expectativa, o livro de poemas do Conde de Silvenius, um veneno contra a monotonia…e a mediocridade!
Natal a ser…
Aproxima-se o Natal e ficamos entre tristes e contentes. As luzes e as cores trepidantes trazem-nos algo como uma nostalgia e, mesmo calados cá dentro, a nossa alma chora de alguma perda. Viver é perder. Perder-se, para ser mais próprio. E no Natal, na azáfama natalícia, que nos sentimos mais sós no mundo. Ou a sós com ele, como tu predizias quando era luar o que nos encantava à beira das horas…
Cinematografia nacional
Parece ter chegado a hora de abordarmos o cinema e o audiovisual em Cabo Verde. A questão de fundo não é este ou aquele festival de cinema. Não coloquemos o carro diante dos bois. Está fora de questão adiarmos o debate. Importa, a bem da nossa cultura e identidade, uma cinematografia nacional. Para já, temos de criar as infra-estruturas institucionais que possam, via cooperação internacional e outros canais, fomentar a Sétima Arte. O cinema criou um manancial de obras-primas em pouco mais de um século. Tornou-se a mais popular e mágica linguagem antes da multimédia e fixou imagens transcendentais na retina da humanidade. Só que não se faz cinema com o aparato e os significantes. É preciso tocar no ponto certo. O Ministério da Cultura não poderá aderir ao cinema apenas por uma questão de marketing. Ele tem de se reestruturar organicamente para que o cabo-verdiano veja e produza cinema. A cadeia tem de ser montada. Aqui e agora…
Cinema Paradiso e o festival
Acontece o Festival de Cinema. Sem público, o que não é dramático em qualquer mostra de qualidade. A qualidade é hermética, me perdoem os populistas e demagogos. O meu amigo sente-se nervoso, perdido e sem estribeiras. Começa-se a procurar culpados. Típico de pessoas que não possuem referencial e tentam justificar a sua mediocridade diante da crise. Raramente a qualidade é pão que agrada todas as bocas. Mas, dizia, o festival acontece com alguns gatos-pingados e os burocratas ficam descontentes. Queriam ter público, imprensa, secretário de estado, ministro, fogo de artifício, gala, Hollywood, a ver se era daquela que o comboio entrava nos trilhos. Mas ainda é prematuro…
A propósito do cabaret no Ilhéu dos Pássaros
Ocupação do Ilhéu de Santa Maria? Eu também tenho as minhas reticências. Não que eu seja contra o investimento do magnata David Chow. Cabo Verde precisa é de mais e mais investimentos. Mas quando as coisas são de fundo, elas merecem ser socializadas com os cidadãos. Queremos saber a natureza de tal investimento no Ilhéu de Santa Maria, escrutinar criticamente os prós e os contras. Afinal trata-se de um formidável património histórico, paisagístico e ecológico. Por isso, as intervenções estruturais demandam, no mínimo, algum consenso da cidadania. O crescimento económico é bem-vindo, mas não o queremos a qualquer custo…
Sim, falávamos de Pinóquio
O escritor é uma espécie de Pinóquio. De tudo o que escreve, cresce-lhe este nariz. E os leitores já sabem nada é verdade. Nem mesmo a verdade. Escrever, dizia Pessoa, é fingir tão completamente a dor deveras. Bem criança, entre os meus seis e sete anos, eu ouvia contar a história do Pinóquio e ficava numa pilha de meditações existenciais. Era uma história, não se sabe se de rir, se de chorar. Como era bom ser Pinóquio e equilibrar sobre os ombros de outros bonecos. A vida é um show de marionetas…
(Uma hora depois de rodarmos os bares da cidade da Praia em busca da paz de espírito: Motcha, fechado; Pirilampo: fechado; Petu Pomba, fechado; chegamos ao Paulino, no Palmarejo. Acesa discussão. A escravatura foi abolida há 169 anos. Alguns dos nossos bisavós foram escravos. Mas até esta não discutimos a fundo a questão. Temos falado do Holocausto, outra tragédia, mas acontecida há menos tempo. As luzes na avenida prenunciam o Natal. Fala-se da escrita. O poeta é um fingidor, glosou alguém Fernando Pessoa. Eu queria tanto contar aos meus filhos a história do Pinóquio. Festival marginalizado, dizes no teu Blog)
Zero
Amiga, a grande verdade é que o mundo começou sem o homem e há de terminar sem ele. O ciclo completo não é necessariamente antropológico. Leio o teu Blog e gosto das tuas razões. Um dia, hás de entender que o mundo é um grande paradoxo às voltas. Vale termos os Raiz di Polon, Amiga. Gostei daquela: Está tudo a ver um Benfica – Manchester, um Porto – Artimedia. Ou então, a encher avenidas em passeatas...
Boa nova…lufada de ar fresco
Soube, há dias, pelo meu pai que Arménio Vieira lança em breve um livro de poemas. Nessa mesma tarde, encontro o Poeta por acaso e este confirma-me ter na calha o documento. Venha o livro, agora ou nunca. Quero ler boa poesia e não a versalhada que pulula por cá. Aguardo, com expectativa, o livro de poemas do Conde de Silvenius, um veneno contra a monotonia…e a mediocridade!
Natal a ser…
Aproxima-se o Natal e ficamos entre tristes e contentes. As luzes e as cores trepidantes trazem-nos algo como uma nostalgia e, mesmo calados cá dentro, a nossa alma chora de alguma perda. Viver é perder. Perder-se, para ser mais próprio. E no Natal, na azáfama natalícia, que nos sentimos mais sós no mundo. Ou a sós com ele, como tu predizias quando era luar o que nos encantava à beira das horas…
Cinematografia nacional
Parece ter chegado a hora de abordarmos o cinema e o audiovisual em Cabo Verde. A questão de fundo não é este ou aquele festival de cinema. Não coloquemos o carro diante dos bois. Está fora de questão adiarmos o debate. Importa, a bem da nossa cultura e identidade, uma cinematografia nacional. Para já, temos de criar as infra-estruturas institucionais que possam, via cooperação internacional e outros canais, fomentar a Sétima Arte. O cinema criou um manancial de obras-primas em pouco mais de um século. Tornou-se a mais popular e mágica linguagem antes da multimédia e fixou imagens transcendentais na retina da humanidade. Só que não se faz cinema com o aparato e os significantes. É preciso tocar no ponto certo. O Ministério da Cultura não poderá aderir ao cinema apenas por uma questão de marketing. Ele tem de se reestruturar organicamente para que o cabo-verdiano veja e produza cinema. A cadeia tem de ser montada. Aqui e agora…
Cinema Paradiso e o festival
Acontece o Festival de Cinema. Sem público, o que não é dramático em qualquer mostra de qualidade. A qualidade é hermética, me perdoem os populistas e demagogos. O meu amigo sente-se nervoso, perdido e sem estribeiras. Começa-se a procurar culpados. Típico de pessoas que não possuem referencial e tentam justificar a sua mediocridade diante da crise. Raramente a qualidade é pão que agrada todas as bocas. Mas, dizia, o festival acontece com alguns gatos-pingados e os burocratas ficam descontentes. Queriam ter público, imprensa, secretário de estado, ministro, fogo de artifício, gala, Hollywood, a ver se era daquela que o comboio entrava nos trilhos. Mas ainda é prematuro…
A propósito do cabaret no Ilhéu dos Pássaros
Ocupação do Ilhéu de Santa Maria? Eu também tenho as minhas reticências. Não que eu seja contra o investimento do magnata David Chow. Cabo Verde precisa é de mais e mais investimentos. Mas quando as coisas são de fundo, elas merecem ser socializadas com os cidadãos. Queremos saber a natureza de tal investimento no Ilhéu de Santa Maria, escrutinar criticamente os prós e os contras. Afinal trata-se de um formidável património histórico, paisagístico e ecológico. Por isso, as intervenções estruturais demandam, no mínimo, algum consenso da cidadania. O crescimento económico é bem-vindo, mas não o queremos a qualquer custo…
Sim, falávamos de Pinóquio
O escritor é uma espécie de Pinóquio. De tudo o que escreve, cresce-lhe este nariz. E os leitores já sabem nada é verdade. Nem mesmo a verdade. Escrever, dizia Pessoa, é fingir tão completamente a dor deveras. Bem criança, entre os meus seis e sete anos, eu ouvia contar a história do Pinóquio e ficava numa pilha de meditações existenciais. Era uma história, não se sabe se de rir, se de chorar. Como era bom ser Pinóquio e equilibrar sobre os ombros de outros bonecos. A vida é um show de marionetas…
segunda-feira, 12 de dezembro de 2005
Porque...
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
segunda-feira, 5 de dezembro de 2005
Não há praia para ninguém, madame
As boas e as más da Tapadinha
Há coisas que só acontecem aqui na Tapadinha. Umas boas, como a cachupa refogada ou o funaná lento. E outras horríveis, como o outdoor eleitoral antes da campanha ou, pior ainda, a covardia de o tirar. A jeito ou a eito, como diria o falecido no seu tratado “Oito ou Ointenta, as Dicas da Malandragem!”. Pelas coisas boas, vamos ficando nesta paragem e, nas entrelinhas, empunhando a bandeirola, mesmo que a dita pareça um pouco o logótipo daquela lata de banha da CEE. Pelas más, me perdoem as muito feias, mas beleza é fundamental, estaremos dispostos à lida contra a malvadeza e a carniça que envergonham a malta.
A Avenida enfarpelada
A Avenida, enfarpelada de luzes, prepara-se para a inauguração. Por uns instantes, somos já cosmopolitas. Por outros, continuamos provincianos. Cosmopolitas, quando pensamos a cidade de molde integrado e competitivo. Uma urbe disposta a ser um espaço equipado, com cidadãos qualificados. O binómio do desenvolvimento. E o resto, tretas. E provincianos, quando temos a sensação de trabalho acabado, obra fechada. Nivelando a cidade por baixo, comparando com outras da região ou, pior ainda, com o passado. O muito que já se fez, é pouco. O cidadão quer melhor aeroporto, porto, circular, avenida, rotunda, universidade, praça, mercado, parque, centro comercial, centro cultural, enfim, melhor tudo. Bem-estar e qualidade de vida, no mote dessa inauguração bonita. Ora, a cidade compara-se com o futuro. A saudade que se tem é do futuro…
Ao leitor atento
Mal abro a caixa-de-correio do Hotmail, dou de caras com uma mensagem indignada. Alguém que se assume apreciador do S/Cem Margens protesta contra a minha última crónica. Impõem-se-me uma resposta, noblesse oblige. Tive de explicar ao leitor que eu jamais seria pau-mandado. Se estou a apoiar este ou aquele é por pura convicção política. Melhor dizendo, convicção cultural. Acredito que este será capaz de ter sentido histórico e não se vender ao desbarato a um punhado de estrangeiros. E aquele tomará providências cautelares contra a máfia instalada na vizinhança. Pau-mandado é o apoiante acrítico que não destrinça aquele que governa daquele que se governa, porra. Agora, gostar mesmo, gosto da poesia e de coisas mais elegantes. Política não resiste à idealização. Arte, sim senhor. Paixão. Em matéria de coração, sou leviano assumido. Apaixono-me aos 44. Um caso sério…
O Plateau e o Monte Vermelho escavado
Dou uma volta pelo Plateau e tenho a impressão de que alguém anda a sabotar este lugar. Desconfio que seja ódio social, coisa parecida. Vingança histórica. Ou simplesmente incompetência. Nossa, naturalmente. De todos nós. Que não temos nem força, nem resistência, para dizer basta. Cidadania também seria afirmar o Plateau. Protegê-lo e fomentá-lo a ser o lugar de referência e memória de uma cidade, menina do mar. Só que o Plateau não é um problema só dos nascidos e residentes, dos munícipes direi, da Praia, mas uma questão que interpela a todos os cabo-verdianos. Desde a segunda metade do século XVIII que este espaço urbano é matricial da cabo-verdianidade. Não reconhecer isso é inibir a nossa memória e votar o nosso passado ao esquecimento. Não reconfigurar esta trajectória, que tudo alberga de identitária, significará uma perda colectiva com consequências imprevisíveis. O Falecido, que Deus o tenha, do alto do seu exagero, vaticinava a premonição da merda generalizada. Já não será só a falta de água e da energia eléctrica, dizia. Mas os esgotos vão encanar e o Monte Vermelho, escavado como está, cairá por terra. E os extractores de areia, além de matarem as tartarugas e de salgarem os lençóis freáticos, acabarão com as praias. Dentro de pouco tempo, já não há praia para ninguém, madame. O caos…
Há coisas que só acontecem aqui na Tapadinha. Umas boas, como a cachupa refogada ou o funaná lento. E outras horríveis, como o outdoor eleitoral antes da campanha ou, pior ainda, a covardia de o tirar. A jeito ou a eito, como diria o falecido no seu tratado “Oito ou Ointenta, as Dicas da Malandragem!”. Pelas coisas boas, vamos ficando nesta paragem e, nas entrelinhas, empunhando a bandeirola, mesmo que a dita pareça um pouco o logótipo daquela lata de banha da CEE. Pelas más, me perdoem as muito feias, mas beleza é fundamental, estaremos dispostos à lida contra a malvadeza e a carniça que envergonham a malta.
A Avenida enfarpelada
A Avenida, enfarpelada de luzes, prepara-se para a inauguração. Por uns instantes, somos já cosmopolitas. Por outros, continuamos provincianos. Cosmopolitas, quando pensamos a cidade de molde integrado e competitivo. Uma urbe disposta a ser um espaço equipado, com cidadãos qualificados. O binómio do desenvolvimento. E o resto, tretas. E provincianos, quando temos a sensação de trabalho acabado, obra fechada. Nivelando a cidade por baixo, comparando com outras da região ou, pior ainda, com o passado. O muito que já se fez, é pouco. O cidadão quer melhor aeroporto, porto, circular, avenida, rotunda, universidade, praça, mercado, parque, centro comercial, centro cultural, enfim, melhor tudo. Bem-estar e qualidade de vida, no mote dessa inauguração bonita. Ora, a cidade compara-se com o futuro. A saudade que se tem é do futuro…
Ao leitor atento
Mal abro a caixa-de-correio do Hotmail, dou de caras com uma mensagem indignada. Alguém que se assume apreciador do S/Cem Margens protesta contra a minha última crónica. Impõem-se-me uma resposta, noblesse oblige. Tive de explicar ao leitor que eu jamais seria pau-mandado. Se estou a apoiar este ou aquele é por pura convicção política. Melhor dizendo, convicção cultural. Acredito que este será capaz de ter sentido histórico e não se vender ao desbarato a um punhado de estrangeiros. E aquele tomará providências cautelares contra a máfia instalada na vizinhança. Pau-mandado é o apoiante acrítico que não destrinça aquele que governa daquele que se governa, porra. Agora, gostar mesmo, gosto da poesia e de coisas mais elegantes. Política não resiste à idealização. Arte, sim senhor. Paixão. Em matéria de coração, sou leviano assumido. Apaixono-me aos 44. Um caso sério…
O Plateau e o Monte Vermelho escavado
Dou uma volta pelo Plateau e tenho a impressão de que alguém anda a sabotar este lugar. Desconfio que seja ódio social, coisa parecida. Vingança histórica. Ou simplesmente incompetência. Nossa, naturalmente. De todos nós. Que não temos nem força, nem resistência, para dizer basta. Cidadania também seria afirmar o Plateau. Protegê-lo e fomentá-lo a ser o lugar de referência e memória de uma cidade, menina do mar. Só que o Plateau não é um problema só dos nascidos e residentes, dos munícipes direi, da Praia, mas uma questão que interpela a todos os cabo-verdianos. Desde a segunda metade do século XVIII que este espaço urbano é matricial da cabo-verdianidade. Não reconhecer isso é inibir a nossa memória e votar o nosso passado ao esquecimento. Não reconfigurar esta trajectória, que tudo alberga de identitária, significará uma perda colectiva com consequências imprevisíveis. O Falecido, que Deus o tenha, do alto do seu exagero, vaticinava a premonição da merda generalizada. Já não será só a falta de água e da energia eléctrica, dizia. Mas os esgotos vão encanar e o Monte Vermelho, escavado como está, cairá por terra. E os extractores de areia, além de matarem as tartarugas e de salgarem os lençóis freáticos, acabarão com as praias. Dentro de pouco tempo, já não há praia para ninguém, madame. O caos…
terça-feira, 29 de novembro de 2005
Ronda nº 1
(Seis imigrantes africanos morrem afogados a sul das ilhas Canárias, devido ao naufrágio da embarcação clandestina. Livros lidos e desafios à vista. Amanhece na cidade da Praia. Ontem, houve fogo de artifício. E eu numa melancolia de bom tamanho)
Zero
O editor e o leitor me perdoem a impertinência, mas hoje queria escrever em retrospectiva. Prometo ir e vir ao sabor do vento. Ao bom gosto do teclado, direi. Assim, como quem não quer a coisa….Uma das personagens do meu tempo era Balela (nome trocado, naturalmente), que fez grande carreira de vagabundo na cidade e tinha um português muito parecido a alguns deputados de hoje, teimosos em não levarem a oratória para o crioulo. Balela dançava no meio da praça, ao som da Banda Municipal, que, ao tempo, chamávamos de “musguêros”. Venham ver Balela a bailar o cha-cha-cha! E era a felicidade da meninada vê-lo dançar. A malta trocava o lanche de casa pela passada do dito e ficava a desoras a aprender as piruetas que o mesmo ensinava. Naquele tempo, a praça era um lugar bonito, ajardinado e alinhado. E o coreto ali imponente e o chafariz com repuxo de água. Outro tempo, aziago em muita coisa, mas em que o calcetamento não demandava cooperação internacional e outros trâmites cabeludos, sabe o leitor como são. E Balela era o rei e o senhor de tudo, porque elegante e amigo das crianças, vagabundo da primeira apanha, gente finíssima. Lembrei-me dele de repente e acho que estou a ficar velho. Ou, se tanto, a ficar mais rabugento e impaciente comigo próprio. Ou tão-só a morrer devagar. Arre, que estou numa melancolia de bom tamanho…
Amanhecendo
O amanhecer é um espanto. Da janela, temperados pela insónia, pedaços do luar banham o bocejar das horas. É-se feliz em lapsos de tempo. O resto é a mesmice que nos força à vigília. Apetece flutuar no imponderável e no improvável. Apetece saltar o cerco, correr, fugir e fazer dos confins um refúgio que seja…sonho. Ou, então, ficar calado, sereno e quieto à espera que as nuvens se dissipem sobre a manhã. Tremeluzem estrelas, ora em bocados de luz, ora em danças distantes. O que dirá o Zodíaco desta minha vida? O que será traduzido nos horóscopos e noutras leituras de premonição? Silva o vento, uiva o cão e canta o galo. Este último canta para contrariar a ideia de ser cosmopolita esta cidade. O gajo canta como um desaforado bardo e as galinhas, ensonadas ainda, convencem-se do atavismo entre o canto e o amanhecer. Mas as manhãs não cantam, mesmo que os nossos pequenos deuses prometam, de mãos juntas, acordes, ritmos e melodias. Tudo não passa de um ciclo que a cada volta de expande e deixa na minha solidão o travo da morte. Tudo é falso, falácia, ilusão. Ou, quem sabe, incandescente verdade que não interessa. Enquanto isso, cá estou a testemunhar as horas que, monocórdicas, marcam o caminho das coisas. Espreito, da fresta da minha alma, e vejo a rua ainda deserta. Amanhecendo…
Leituras do mês
Embora Novembro tenha sido um mês estressante, pude ler três livros interessantes. Li, e recomendo, "Animal Tropical", de Pedro Juan Gutiérrez, escritor que afirma, em máxima irreverência que, mau grado o “global player” e o seu embargo arrogante, o povo cubano continua a fazer amor, a andar de bicicleta, a dançar salsa e a comer arroz com feijão. Outro livro excelente é “Os Limites da Interpretação”, de Umberto Eco, em discurso directo para o leitor semântico e o leitor crítico. O livro é composto de vários ensaios sobre a semiótica como instrumento matricial da interpretação. O terceiro livro (oferta do meu irmão António) é “Historias Mal Contadas”, de Silviano Santiago, crónicas saborosas, meio densas, meio soltas, como só uma certa geração de brasileiros sabe contar. Um dia, quando for grande, hei de escrever as minhas histórias mal contadas. Prometo-vos…
Desafios
Faltam cumprir dois momentos essenciais, duas eleições importantes. À nossa maneira, apoiaremos os nossos candidatos, dando o máximo de nós, onde eventualmente sejamos mais úteis. Seria bom que cada cabo-verdiano defendesse a sua dama e consolidasse com isso o processo democrático. Pessoalmente, somos pelo PAICV e pelo Presidente Pedro Pires. Pelas bandeiras que defendem. Em prol de Cabo Verde. Não seria hora de falarmos nisso, pois o tempo das campanhas ainda não começou. Mas já há cartazes na rua, por incongruência ou provocação. O jeito é soltarmos todas – TODAS – as amarras. Uipooooooooo!
A festa acabou
E a festa acabou. Com muito cansaço e alguma saudade. Qualquer pecador teria o seu merecido descanso. Sombra e água fresca. Mas não. A vida continua. Dura, rasca e marra. Faltam erguer estátuas na minha cidade. Levantar vigas rente aos céus e desafiar a paisagem urbana. Aturdido pelo turbilhão de gente, entro no carro a cortar a marginal. O mar descansa um bocado. O imenso azul, o iodo nauseabundo e a espuma na areia. Uma ave marinha, branca, branca, branca. E, de regresso, passo em frente ao ilhéu de Santa Maria e a sua silhueta lambida na baía. É uma espécie de adeus. Dizem que em breve os chineses tomarão conta daquilo – uma decisão historicamente irresponsável e um negócio, no mínimo, da China. De facto, a festa acabou. Deixou de fazer sentido. Mas estou exausto. Na semana que vem continuo…
Zero
O editor e o leitor me perdoem a impertinência, mas hoje queria escrever em retrospectiva. Prometo ir e vir ao sabor do vento. Ao bom gosto do teclado, direi. Assim, como quem não quer a coisa….Uma das personagens do meu tempo era Balela (nome trocado, naturalmente), que fez grande carreira de vagabundo na cidade e tinha um português muito parecido a alguns deputados de hoje, teimosos em não levarem a oratória para o crioulo. Balela dançava no meio da praça, ao som da Banda Municipal, que, ao tempo, chamávamos de “musguêros”. Venham ver Balela a bailar o cha-cha-cha! E era a felicidade da meninada vê-lo dançar. A malta trocava o lanche de casa pela passada do dito e ficava a desoras a aprender as piruetas que o mesmo ensinava. Naquele tempo, a praça era um lugar bonito, ajardinado e alinhado. E o coreto ali imponente e o chafariz com repuxo de água. Outro tempo, aziago em muita coisa, mas em que o calcetamento não demandava cooperação internacional e outros trâmites cabeludos, sabe o leitor como são. E Balela era o rei e o senhor de tudo, porque elegante e amigo das crianças, vagabundo da primeira apanha, gente finíssima. Lembrei-me dele de repente e acho que estou a ficar velho. Ou, se tanto, a ficar mais rabugento e impaciente comigo próprio. Ou tão-só a morrer devagar. Arre, que estou numa melancolia de bom tamanho…
Amanhecendo
O amanhecer é um espanto. Da janela, temperados pela insónia, pedaços do luar banham o bocejar das horas. É-se feliz em lapsos de tempo. O resto é a mesmice que nos força à vigília. Apetece flutuar no imponderável e no improvável. Apetece saltar o cerco, correr, fugir e fazer dos confins um refúgio que seja…sonho. Ou, então, ficar calado, sereno e quieto à espera que as nuvens se dissipem sobre a manhã. Tremeluzem estrelas, ora em bocados de luz, ora em danças distantes. O que dirá o Zodíaco desta minha vida? O que será traduzido nos horóscopos e noutras leituras de premonição? Silva o vento, uiva o cão e canta o galo. Este último canta para contrariar a ideia de ser cosmopolita esta cidade. O gajo canta como um desaforado bardo e as galinhas, ensonadas ainda, convencem-se do atavismo entre o canto e o amanhecer. Mas as manhãs não cantam, mesmo que os nossos pequenos deuses prometam, de mãos juntas, acordes, ritmos e melodias. Tudo não passa de um ciclo que a cada volta de expande e deixa na minha solidão o travo da morte. Tudo é falso, falácia, ilusão. Ou, quem sabe, incandescente verdade que não interessa. Enquanto isso, cá estou a testemunhar as horas que, monocórdicas, marcam o caminho das coisas. Espreito, da fresta da minha alma, e vejo a rua ainda deserta. Amanhecendo…
Leituras do mês
Embora Novembro tenha sido um mês estressante, pude ler três livros interessantes. Li, e recomendo, "Animal Tropical", de Pedro Juan Gutiérrez, escritor que afirma, em máxima irreverência que, mau grado o “global player” e o seu embargo arrogante, o povo cubano continua a fazer amor, a andar de bicicleta, a dançar salsa e a comer arroz com feijão. Outro livro excelente é “Os Limites da Interpretação”, de Umberto Eco, em discurso directo para o leitor semântico e o leitor crítico. O livro é composto de vários ensaios sobre a semiótica como instrumento matricial da interpretação. O terceiro livro (oferta do meu irmão António) é “Historias Mal Contadas”, de Silviano Santiago, crónicas saborosas, meio densas, meio soltas, como só uma certa geração de brasileiros sabe contar. Um dia, quando for grande, hei de escrever as minhas histórias mal contadas. Prometo-vos…
Desafios
Faltam cumprir dois momentos essenciais, duas eleições importantes. À nossa maneira, apoiaremos os nossos candidatos, dando o máximo de nós, onde eventualmente sejamos mais úteis. Seria bom que cada cabo-verdiano defendesse a sua dama e consolidasse com isso o processo democrático. Pessoalmente, somos pelo PAICV e pelo Presidente Pedro Pires. Pelas bandeiras que defendem. Em prol de Cabo Verde. Não seria hora de falarmos nisso, pois o tempo das campanhas ainda não começou. Mas já há cartazes na rua, por incongruência ou provocação. O jeito é soltarmos todas – TODAS – as amarras. Uipooooooooo!
A festa acabou
E a festa acabou. Com muito cansaço e alguma saudade. Qualquer pecador teria o seu merecido descanso. Sombra e água fresca. Mas não. A vida continua. Dura, rasca e marra. Faltam erguer estátuas na minha cidade. Levantar vigas rente aos céus e desafiar a paisagem urbana. Aturdido pelo turbilhão de gente, entro no carro a cortar a marginal. O mar descansa um bocado. O imenso azul, o iodo nauseabundo e a espuma na areia. Uma ave marinha, branca, branca, branca. E, de regresso, passo em frente ao ilhéu de Santa Maria e a sua silhueta lambida na baía. É uma espécie de adeus. Dizem que em breve os chineses tomarão conta daquilo – uma decisão historicamente irresponsável e um negócio, no mínimo, da China. De facto, a festa acabou. Deixou de fazer sentido. Mas estou exausto. Na semana que vem continuo…
terça-feira, 22 de novembro de 2005
Da última marcha
Seja esta a última marcha e venha depois outro tempo. Em fila e em parada, como se fossemos militares. Blocos e mais blocos. Bandeiras. Cores e hinos. Seja esta a última revista e desça depois sobre nós a estação das flores. E de repente, termos sido o halo de uma breve fumaça. Esvoaçante. Livre. Para dançarmos ao crepitar dos fogos. Hirtos, lá vão eles a cantar o novelo dos dias. Cidade erguida agora com monumentos. Cidade de ruas incaracterísticas, onde a canalha urina e defeca nas esquinas. Cidade que amamos com, se necessário, sangue, acima de todas as outras. Cidade, toda ela útero, tomada de visco dos transeuntes. E dos automóveis enlouquecidos nas rotundas. Venha depois outro tempo e sejas para mim a dançarina misteriosa na praça vazia. E o resto, lua, luar, tua dança nua. Dessa nudez de última marcha…
Monte Birianda
Estive e nunca estive neste lugar. Há qualquer coisa de topo do mundo. Para além do falso horizonte das achadas e das várzeas. Vi o teu olhar nos olhos de muitas mulheres. E de muitos homens que, de soslaio, também miravam o desfiladeiro. Mentalmente declamei poemas desconexos. Bocados de Pessoa salpicados aos de Borges e os meus pobres versos de permeio. Este lugar tem música. Cada pedra guarda acordes inaudíveis e tu sabes o que significa música nas pedras.
segunda-feira, 21 de novembro de 2005
Monte Verde
Deu-me um branco. Um blackout na mente e, de repente, não vejo nada. Nesse relapso, o mundo parou. E tudo deixa de fazer sentido. Nem a tua mão faz sentido. Nem a rosa friorenta no alto do Monte Verde. Nem a portentosa baía e a frenética malha urbana. Nem o Vasco no seu tibetano exílio. Nem os falcões, nem as águias. Os corvos que grasnam pelas encostas. As pedras silenciosas à mercê da ventania. As nuvens vagarosas. Tudo a marcar o instante de nada. E esvai-se o branco. As cores regressam aos céus e algumas ilhas, e ilhéus, aparecem no painel do meu pensamento. E a tua mão recomeça a fazer sentido…
quarta-feira, 16 de novembro de 2005
Crónica tardia ou ninguém escreve ao coronel
(A campanha eleitoral aproxima-se. Tcheka ganha prémio em Dakar. José Maria Neves reafirma em Lisboa o papel geoestratégico de Cabo Verde. Chove. Chovendo mansamente, menina. Em Paris, nada está tão líquido. Há uma música de Caetano Veloso que não me sai do pensamento. Haverias de dizer que o desamparinho imortaliza. A nós, pelo menos…)
Monte Babosa
A solidão é uma espécie de espelho. Esse tempo que demora uma estrela cadente nos meus olhos. Mirada de transeuntes apressados, diria. Hora do rush. O sol a pôr-se em cores estivais. Pensar, de relance, em alguém. Fugaz o dia que acaba. E nunca mais regressa. Mesmo que na boca, sinta ainda o gosto do retorno impossível. No meio das pedras, uma insistente flor. A cidade estendida, do monte até ao mar. Sou andarilho de muitos mundos. Retirante…
Geração Pantera
A candura, a competência e o amor parecem ser os ingredientes de uma nova geração que, a força de expressão e a poesia deste tempo, chamaria de Geração Pantera. Orlando Pantera, o profundo Pantera, estivera uma vez no Instituto Cabo-verdiano de Menores à procura de emprego. A directora do ICM quis saber o seu currículo académico e ele respondeu não ter grandes estudos, mas que amava as crianças. Conta-o José Vicente Lopes num memorável texto sobre esse artista que mudou a música cabo-verdiana. Não estarei a exagerar se disser que há um antes e um depois Orlando Pantera, nem estarei a brincar se sublinhar de que mudou o tropos do cabo-verdiano. Quem é da Geração Pantera? Apenas músicos? Artistas? Penso que a malha é mais alargada. Em tempos, Mário Lúcio me dissera, na plena azáfama do Fesquintal de Jazz, que a revolução já estava instalada. Em todos os cantos do país. Em todos os quadrantes da nação. Basta ouvir José Maria Neves a discursar, a falar de amor, como um novo paradigma político. Experimente-se ver os quadros novos a projectarem o futuro. Até mesmo na economia o fenómeno está instalado. Geração da Independência. Noutra pauta, Geração Pantera…
Je danse avec l’ amour
Mayra Andrade, em dueto com Charles Aznavour, é simplesmente um luxo. Parcerias do tipo também ajudam a internacionalizar Cabo Verde. A multiculturalidade de um encontro assim traz à superfície uma série de coisas. Encontro de gerações, de géneros, de culturas, de estilos. Mayra Andrade e Charles Aznavour interpretam juntos Je danse avec l’amour. Album de Charles Aznavour. O da Mayra Andrade começou a ser produzido agora, em Paris. Aznavour canta o amor. Canta-o com beleza e sentimento. No melhor da canção romântica francesa. E hoje, como nunca, o amor deixou de ser meiguice para se afirmar como uma subversão do mundo. Estamos em tempos de terrorismos. Do Estado e do anti-Estado. Por isso, cantar o amor é cantar a paz, a existência, a vida. O amor de todas as formas. Agora veio-me à lembrança aquele conto de Woody Allen em que um professor da City College se evade para uma edição de bolso do Madame Bovary, de Flaubert, tanta era sua paixão por Emma. O protagonista sai de Manhattan contemporâneo para se refugiar em Yonville do século XIX. De todas as formas, dizia. Uma amiga confessava-me que todo o ser humano precisa fazer amor em Veneza. Quando não, em Porto Seguro onde a natureza é mais pródiga e o dólar vale muito mais. O ser humano precisa voar, rematava. Ícaro tinha razão. Ou, pelo menos, emoção…
Objectos transcendentes
Retirante, emociona-me que Tcheka tenha ganho o Prémio “Músicas do Mundo”, da RFI, em Dakar. A candura, a competência e o amor, Tcheka em pessoa. O resto, havendo campanha, ninguém escreve ao coronel. Agora que o sol morreu ou, quem sabe, ele seja vida noutro lugar, sei que a canção de Caetano Veloso se intitula Livros. Eis um cheirinho:
(…)
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
(…)
Monte Babosa
A solidão é uma espécie de espelho. Esse tempo que demora uma estrela cadente nos meus olhos. Mirada de transeuntes apressados, diria. Hora do rush. O sol a pôr-se em cores estivais. Pensar, de relance, em alguém. Fugaz o dia que acaba. E nunca mais regressa. Mesmo que na boca, sinta ainda o gosto do retorno impossível. No meio das pedras, uma insistente flor. A cidade estendida, do monte até ao mar. Sou andarilho de muitos mundos. Retirante…
Geração Pantera
A candura, a competência e o amor parecem ser os ingredientes de uma nova geração que, a força de expressão e a poesia deste tempo, chamaria de Geração Pantera. Orlando Pantera, o profundo Pantera, estivera uma vez no Instituto Cabo-verdiano de Menores à procura de emprego. A directora do ICM quis saber o seu currículo académico e ele respondeu não ter grandes estudos, mas que amava as crianças. Conta-o José Vicente Lopes num memorável texto sobre esse artista que mudou a música cabo-verdiana. Não estarei a exagerar se disser que há um antes e um depois Orlando Pantera, nem estarei a brincar se sublinhar de que mudou o tropos do cabo-verdiano. Quem é da Geração Pantera? Apenas músicos? Artistas? Penso que a malha é mais alargada. Em tempos, Mário Lúcio me dissera, na plena azáfama do Fesquintal de Jazz, que a revolução já estava instalada. Em todos os cantos do país. Em todos os quadrantes da nação. Basta ouvir José Maria Neves a discursar, a falar de amor, como um novo paradigma político. Experimente-se ver os quadros novos a projectarem o futuro. Até mesmo na economia o fenómeno está instalado. Geração da Independência. Noutra pauta, Geração Pantera…
Je danse avec l’ amour
Mayra Andrade, em dueto com Charles Aznavour, é simplesmente um luxo. Parcerias do tipo também ajudam a internacionalizar Cabo Verde. A multiculturalidade de um encontro assim traz à superfície uma série de coisas. Encontro de gerações, de géneros, de culturas, de estilos. Mayra Andrade e Charles Aznavour interpretam juntos Je danse avec l’amour. Album de Charles Aznavour. O da Mayra Andrade começou a ser produzido agora, em Paris. Aznavour canta o amor. Canta-o com beleza e sentimento. No melhor da canção romântica francesa. E hoje, como nunca, o amor deixou de ser meiguice para se afirmar como uma subversão do mundo. Estamos em tempos de terrorismos. Do Estado e do anti-Estado. Por isso, cantar o amor é cantar a paz, a existência, a vida. O amor de todas as formas. Agora veio-me à lembrança aquele conto de Woody Allen em que um professor da City College se evade para uma edição de bolso do Madame Bovary, de Flaubert, tanta era sua paixão por Emma. O protagonista sai de Manhattan contemporâneo para se refugiar em Yonville do século XIX. De todas as formas, dizia. Uma amiga confessava-me que todo o ser humano precisa fazer amor em Veneza. Quando não, em Porto Seguro onde a natureza é mais pródiga e o dólar vale muito mais. O ser humano precisa voar, rematava. Ícaro tinha razão. Ou, pelo menos, emoção…
Objectos transcendentes
Retirante, emociona-me que Tcheka tenha ganho o Prémio “Músicas do Mundo”, da RFI, em Dakar. A candura, a competência e o amor, Tcheka em pessoa. O resto, havendo campanha, ninguém escreve ao coronel. Agora que o sol morreu ou, quem sabe, ele seja vida noutro lugar, sei que a canção de Caetano Veloso se intitula Livros. Eis um cheirinho:
(…)
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
(…)
segunda-feira, 14 de novembro de 2005
Monte Babosa
A solidão é uma espécie de espelho. Esse tempo que demora uma estrela cadente nos meus olhos. Mirada de transeuntes apressados, diria. Hora do rush. O sol a pôr-se em cores estivais. Pensar, de relance, em alguém. Fugaz o dia que acaba. E nunca mais regressa. Mesmo que na boca, sinta ainda o gosto do retorno impossível. No meio das pedras, uma insistente flor. A cidade estendida, do monte até ao mar. Sou andarilho de muitos mundos. Retirante…
quinta-feira, 10 de novembro de 2005
Crónica tardia ou versos de estradas
(Lia-se Fernando Pessoa e a noite estava cálida, mas havia vento, um ventar que sabia à música, fiozinho de nada por onde as palavras navegam. Tirando o relógio, tudo era um conversar ao sabor dos momentos. O autor, serenado de tantas uvas, dirá que o vinho é tinto e que tudo é o que vem depois do Verbo. Assim diz o Livro, sabias?)
Estradas
Mas devo? Já estradas andado, começar a minha crónica tardia assim:
(…)
Alcantilado amarelo,
crua miragem, passei
crente do amor e alma
que haviam de jorrar
para os inocentes.
Mas quem me dava
inocência ou magia?
(…)
Não apenas pelos versos, estes últimos de Fiama Hasse Pais Brandão. Mas há estradas que marcam. O perder lugares tão-somente. E as paragens. Em momentos onde a lua se deleita na noite. Ou apenas suscitam madrugadas a desaguar em sol. É que há lugares parecidos connosco. Estradas andado, reparo que as tuas mãos seriam de atar pela jornada. E, quem sabe a dois (ou a sós, como tu dizes), eu sentisse menos náusea em tudo que seja vida. Mas adiante que há reaccionários reabilitados…
Os ditos reaccionários e as ditosas rosas
Ricardo Reis, dos muitos versos imortais, escreveu estes que são da minha cabeceira: Prefiro rosas, meu amor, à pátria/ E antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude. Ora, isto é redutor, meus caros. Chegará a hora de zerar a dinâmica binária dos ditos e entender o mundo na sua complexidade reconciliadora. Os causídicos perdoem esta minha incursão por seara alheia, mas, convenhamos, que céu é grandi, mundu é largu. Este desabafo nada tem a ver com a nossa reconciliação, a desmerecer alguma verdade. Os heróis não se decretam. De resto, os reaccionários saíram mesmo de moda. E não se confunda mátria com pátria. Mas nem por isso deixarei eu de preferir as rosas. Quão ditosas. E de amar as magnólias…
Último acto
O velho continuava enfim o solilóquio. Agora saíste da varanda e entras no quarto. Não queres que te repita como foi, como não foi. Dizes que estou obcecado com isto. Talvez esteja, na minha pobre dimensão humana. Somos tão frágeis! Do pó viemos e ao pó iremos, inexoravelmente. Mas adiante. Resumia-se aquilo ao vemo-nos por aí. Uma frase sem grandeza para o adeus de qualquer coisa. E a foto de um farol. Mais precisamente do Farol D. Maria Pia. E seria preciso colocar as fichas sobre a mesa e estar na vida com alguma poesia. Não poderia ter sido apenas frisson, essa coisa na pele, o arrepio na espinha. Teria de ser mais compromisso. Com a vida. Naturalmente…
Mensagem II
Mas antes do encerrar da cortina, um intervalo para te contar do álbum Mensagem II, agora editado no Brasil, com os versos de Fernando Pessoa. Ao Mário Lúcio, músico nosso celebrado pela crítica internacional e, em paradoxo, apedrejado pela mediocridade caseira, coube a faixa D. Diniz, musicada pelo artista brasileiro, André Luis Oliveira. Pessoa escrevia, em Mensagem, e Mário Lúcio canta-o nessa linha:
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro comsigo:
é o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar,
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro,
é a voz da terra anciando pelo mar.
E porque já estamos mesmo no fim desta crónica tardia, queria inaugurar daqui uma nova fase de escrita. Corpo e alma renovados pelo sopro da poesia. Ou da Arte, que é a melhor forma de amor. A melhor forma de achar um oceano qualquer…
Estradas
Mas devo? Já estradas andado, começar a minha crónica tardia assim:
(…)
Alcantilado amarelo,
crua miragem, passei
crente do amor e alma
que haviam de jorrar
para os inocentes.
Mas quem me dava
inocência ou magia?
(…)
Não apenas pelos versos, estes últimos de Fiama Hasse Pais Brandão. Mas há estradas que marcam. O perder lugares tão-somente. E as paragens. Em momentos onde a lua se deleita na noite. Ou apenas suscitam madrugadas a desaguar em sol. É que há lugares parecidos connosco. Estradas andado, reparo que as tuas mãos seriam de atar pela jornada. E, quem sabe a dois (ou a sós, como tu dizes), eu sentisse menos náusea em tudo que seja vida. Mas adiante que há reaccionários reabilitados…
Os ditos reaccionários e as ditosas rosas
Ricardo Reis, dos muitos versos imortais, escreveu estes que são da minha cabeceira: Prefiro rosas, meu amor, à pátria/ E antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude. Ora, isto é redutor, meus caros. Chegará a hora de zerar a dinâmica binária dos ditos e entender o mundo na sua complexidade reconciliadora. Os causídicos perdoem esta minha incursão por seara alheia, mas, convenhamos, que céu é grandi, mundu é largu. Este desabafo nada tem a ver com a nossa reconciliação, a desmerecer alguma verdade. Os heróis não se decretam. De resto, os reaccionários saíram mesmo de moda. E não se confunda mátria com pátria. Mas nem por isso deixarei eu de preferir as rosas. Quão ditosas. E de amar as magnólias…
Último acto
O velho continuava enfim o solilóquio. Agora saíste da varanda e entras no quarto. Não queres que te repita como foi, como não foi. Dizes que estou obcecado com isto. Talvez esteja, na minha pobre dimensão humana. Somos tão frágeis! Do pó viemos e ao pó iremos, inexoravelmente. Mas adiante. Resumia-se aquilo ao vemo-nos por aí. Uma frase sem grandeza para o adeus de qualquer coisa. E a foto de um farol. Mais precisamente do Farol D. Maria Pia. E seria preciso colocar as fichas sobre a mesa e estar na vida com alguma poesia. Não poderia ter sido apenas frisson, essa coisa na pele, o arrepio na espinha. Teria de ser mais compromisso. Com a vida. Naturalmente…
Mensagem II
Mas antes do encerrar da cortina, um intervalo para te contar do álbum Mensagem II, agora editado no Brasil, com os versos de Fernando Pessoa. Ao Mário Lúcio, músico nosso celebrado pela crítica internacional e, em paradoxo, apedrejado pela mediocridade caseira, coube a faixa D. Diniz, musicada pelo artista brasileiro, André Luis Oliveira. Pessoa escrevia, em Mensagem, e Mário Lúcio canta-o nessa linha:
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro comsigo:
é o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar,
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro,
é a voz da terra anciando pelo mar.
E porque já estamos mesmo no fim desta crónica tardia, queria inaugurar daqui uma nova fase de escrita. Corpo e alma renovados pelo sopro da poesia. Ou da Arte, que é a melhor forma de amor. A melhor forma de achar um oceano qualquer…
quarta-feira, 2 de novembro de 2005
Variações em torno do Zero
A José Luís Tavares, poeta
Zero
Presumo que não tenhas entendido o nosso diálogo no 11º andar. Em verdade, era um solilóquio, do tipo que, a cada manhã, se tem diante do espelho. A multiplicidade da interpretação é o grande achado da crónica. E, depois, texto literário não pode ser tão óbvio feito receita médica. Faz parte do encanto trazer a realidade e a fantasia para a leitura, pois ambos são o mister do equilíbrio do leitor. E, já agora, do escritor. É no inusitado que consegues sorrir. Esse sorriso de sol a nascer, que eu gosto e me ajuda a viver. Confesso-te que, vez por outra, tenho tentações de escrever sobre o lixo na cidade da Praia, as crianças que mendigam à porta dos restaurantes e das prostitutas que animam a indústria da noite. Quando não, de escrever sobre as máquinas, em ode triunfal, a cortarem os caminhos da Circular da Praia, da necessidade imperiosa de termos nesta cidade um campus universitário ou de fazermos disto um “porto digital”. A cada quarta-feira, à beira da entrega do texto, o meu dilema é atroz. Estou sempre entre Março e Abril. Mas nada como a sensação de te fazer sorrir ensolaradamente. E, se me permites, recomeça a ler isto como se fosse um intervalo. De qualquer coisa. Por acontecer…
Intervalo
...Não, eu não quero apartar a acidez do fogo/ que me intranqüiliza e me devora/. Eu não quero ofertar em súplicas/ e depois morrer por uns olhos/ que me sugerem messalinas e lambris/ e depois me enforcam. Não. Eu não quero o suicida/ que se despenca do alto da torre. Eu me quero vida para te ofertar rosas/ e te colher a plenitude de espigas maduras. Eu me quero vida para semear o trigo do teu corpo/ e me ceifar em messes de espumas/ e sóis de hipocampos sazonados. (Dimas Macedo, poeta brasileiro)
Starbucks Frappuccino
Falei-vos já (sem a palanquina arrogância do General) de Satyricon, do grande Petrónio – a novela erótica, a menipéia sátira, o mimo da fábula milésia. Leiam-no, pois. Um livro referencial que nos ensina como a civilização romana sucumbiu aos seus próprios vícios. Um verdadeiro afresco contra a sandice do poder. Devia ser pré requisito para a política. Leiam-no e deixam dessa santa ingenuidade que, nestes dias, se tornou vil e aziago. Li-o, por acaso, num Café Starbucks, em Old Boston. Há algum tempo. Entre um frappuccino quente e uns biscoitos inocentes. Numa das tardes em que me apetecia falar com desconhecidos sobre o aquecimento global. Ou, simplesmente, as trafulhas de Nero. O Imperador…
Em tempos de Electra, arre
Mau, mau, mau. Chegou o tão esperado 31 de Outubro e nada de voo internacional directo no Aeroporto Internacional da Praia. Precisamos ter um observatório para saber o que falha. Quem falha. E porque falha. Nadou o oceano inteiro para morrer na praia? Que absurdo! Agora a sério, somos dois, três, mais de centenas de milhar com olho vivo nesse aeroporto de parto difícil. Agora, mais do que nunca, a questão é mesmo séria. Seríssima. E dela dependerá o sol. Dito assim com metáfora para que os chacais não tomem conta do menino. Mas, meu caros, demais faz mal.
Campanha à porta
Mal ou bem já se vive o ambiente da pré campanha. Está tudo a postos para o grande arranque. As sondagens, umas próximas da verdade, outras próximas da mentira, aparecem nas ruas. Apesar dos sinais contrários na Assembleia Nacional, espera-se uma campanha cívica, serena e elevada. Sem maledicência, nem terrorismos verbais. Apenas com projectos e programas para debater. Por isso, vai ser um Natal simplesmente e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r! Desta banda, o pessoal prepara-se para vitaminar a campanha e vassourar, uma vez mais, aqueles de triste memória. A festa promete ser bonita, pá. Não vá o diabo tecê-las…
Acontece
Neste momento, o XIº Colóquio Internacional dos Estudos Crioulos. Uma centena de estudiosos (crioulófonos e crioulistas) sobre a crioulística. De várias partes do mundo. Por uma semana, a Praia será a capital cultural da crioulística. Hora de reflectir sobre a oportunidade de valorização consequente da língua crioula, em prol da nossa identidade e cultura. Já agora introduzir a questão sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, afrontamento cultural que demanda coerência política. Quais os entraves para a oficialização? A Constituição? A falta da padronização? O não consenso de um alfabeto? O conservadorismo de uma classe dominante? A ignorância das coisas? Os resquícios da colonização? A falta da vontade política? O bairrismo? Imposição da maioria? Imposição da minoria? Quaisquer sejam as razões (mesmo aquelas que a Razão não explica), temos de colocar as ideias em cima da mesa para um grande debate. Luzes, luzes, luzes. Por uma questão da cidadania…
Zero
Presumo que não tenhas entendido o nosso diálogo no 11º andar. Em verdade, era um solilóquio, do tipo que, a cada manhã, se tem diante do espelho. A multiplicidade da interpretação é o grande achado da crónica. E, depois, texto literário não pode ser tão óbvio feito receita médica. Faz parte do encanto trazer a realidade e a fantasia para a leitura, pois ambos são o mister do equilíbrio do leitor. E, já agora, do escritor. É no inusitado que consegues sorrir. Esse sorriso de sol a nascer, que eu gosto e me ajuda a viver. Confesso-te que, vez por outra, tenho tentações de escrever sobre o lixo na cidade da Praia, as crianças que mendigam à porta dos restaurantes e das prostitutas que animam a indústria da noite. Quando não, de escrever sobre as máquinas, em ode triunfal, a cortarem os caminhos da Circular da Praia, da necessidade imperiosa de termos nesta cidade um campus universitário ou de fazermos disto um “porto digital”. A cada quarta-feira, à beira da entrega do texto, o meu dilema é atroz. Estou sempre entre Março e Abril. Mas nada como a sensação de te fazer sorrir ensolaradamente. E, se me permites, recomeça a ler isto como se fosse um intervalo. De qualquer coisa. Por acontecer…
Intervalo
...Não, eu não quero apartar a acidez do fogo/ que me intranqüiliza e me devora/. Eu não quero ofertar em súplicas/ e depois morrer por uns olhos/ que me sugerem messalinas e lambris/ e depois me enforcam. Não. Eu não quero o suicida/ que se despenca do alto da torre. Eu me quero vida para te ofertar rosas/ e te colher a plenitude de espigas maduras. Eu me quero vida para semear o trigo do teu corpo/ e me ceifar em messes de espumas/ e sóis de hipocampos sazonados. (Dimas Macedo, poeta brasileiro)
Starbucks Frappuccino
Falei-vos já (sem a palanquina arrogância do General) de Satyricon, do grande Petrónio – a novela erótica, a menipéia sátira, o mimo da fábula milésia. Leiam-no, pois. Um livro referencial que nos ensina como a civilização romana sucumbiu aos seus próprios vícios. Um verdadeiro afresco contra a sandice do poder. Devia ser pré requisito para a política. Leiam-no e deixam dessa santa ingenuidade que, nestes dias, se tornou vil e aziago. Li-o, por acaso, num Café Starbucks, em Old Boston. Há algum tempo. Entre um frappuccino quente e uns biscoitos inocentes. Numa das tardes em que me apetecia falar com desconhecidos sobre o aquecimento global. Ou, simplesmente, as trafulhas de Nero. O Imperador…
Em tempos de Electra, arre
Mau, mau, mau. Chegou o tão esperado 31 de Outubro e nada de voo internacional directo no Aeroporto Internacional da Praia. Precisamos ter um observatório para saber o que falha. Quem falha. E porque falha. Nadou o oceano inteiro para morrer na praia? Que absurdo! Agora a sério, somos dois, três, mais de centenas de milhar com olho vivo nesse aeroporto de parto difícil. Agora, mais do que nunca, a questão é mesmo séria. Seríssima. E dela dependerá o sol. Dito assim com metáfora para que os chacais não tomem conta do menino. Mas, meu caros, demais faz mal.
Campanha à porta
Mal ou bem já se vive o ambiente da pré campanha. Está tudo a postos para o grande arranque. As sondagens, umas próximas da verdade, outras próximas da mentira, aparecem nas ruas. Apesar dos sinais contrários na Assembleia Nacional, espera-se uma campanha cívica, serena e elevada. Sem maledicência, nem terrorismos verbais. Apenas com projectos e programas para debater. Por isso, vai ser um Natal simplesmente e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r! Desta banda, o pessoal prepara-se para vitaminar a campanha e vassourar, uma vez mais, aqueles de triste memória. A festa promete ser bonita, pá. Não vá o diabo tecê-las…
Acontece
Neste momento, o XIº Colóquio Internacional dos Estudos Crioulos. Uma centena de estudiosos (crioulófonos e crioulistas) sobre a crioulística. De várias partes do mundo. Por uma semana, a Praia será a capital cultural da crioulística. Hora de reflectir sobre a oportunidade de valorização consequente da língua crioula, em prol da nossa identidade e cultura. Já agora introduzir a questão sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, afrontamento cultural que demanda coerência política. Quais os entraves para a oficialização? A Constituição? A falta da padronização? O não consenso de um alfabeto? O conservadorismo de uma classe dominante? A ignorância das coisas? Os resquícios da colonização? A falta da vontade política? O bairrismo? Imposição da maioria? Imposição da minoria? Quaisquer sejam as razões (mesmo aquelas que a Razão não explica), temos de colocar as ideias em cima da mesa para um grande debate. Luzes, luzes, luzes. Por uma questão da cidadania…
quarta-feira, 19 de outubro de 2005
A boca da tarde parece uma festa
Escrita 1
Debruças na varanda do 11º andar e olhas o imenso calçadão, o arreal e o mundo. Assim de repente, questionas a vida e a lida sabe-te sempre a pouco. Devias ter ido por ali. Ou talvez nem isso. Que outro norte haveria? A sensação do imponderável. A vertigem. Está aí algo que te embriaga e te excita. O escritor tem veias abertas. Profissão mais hemorrágica, tens de o admitir. Cronicar – lá estás tu – é fazer a comédia dos costumes. A canalha fica toda eriçada, mas o que se pode fazer? São para esquecer os nossos deuses pequenos. Mesmo os grandes são aquilo que a gente sabe. Retratar a falência dos dias que passam é a tua sina. Estás lixado…
A boca da tarde parece uma festa
Assim, as coisas bem vistas, o mundo é uma espécie de harmonia. O vasto azul do mar e um navio desliza para o cais de Mucuripe. O pessoano cais da hora marítima. Ao longo da avenida Beira-mar, o tremeluzir dos automóveis e do neón da publicidade. Faz algum sentido. Ou sentido nenhum. A boca da tarde parece uma festa. Apetecia estar num carrossel. Aquele da infância, outro nunca. Sei-o pela nostalgia com que olhas o vácuo do 11º andar. Uma harmonia e tu, em transe, assobias uma morna neurasténica. És tu ali, em pessoa, sem tirar nem pôr. Quixote vicioso e gracejas da tua Dulcineia…
Escrita 2
Preferias que eu escrevesse trivialidades. A escrita não pode perder a sua finalidade de passatempo. Depois, é sempre menos arriscado. O cronista tem este dilema: a inglória da salvação ou a morte sublime. Entre uma e outra coisa, preferias que eu pedisse uma cerveja “estupidamente”, como aliás sugeriu o garçon. Agora, mais a sério, querias que eu destilasse um veneno contra a monotonia, mas leve, levezinho, que deixasse tudo na santa paz. Prometo pensar no teu caso. Com carinho. E sentido de sobrevivência. Quase a exaltar as manhãs que cantam. Inocente, cândido e simples. Uma espécie de harmonia. Os teus olhos são lindos de morrer. E o teu afago é tudo o que reclama a minha vida. És a minha praia, sabias? Todavia, não meço bem todas as distâncias e tem horas que perco a compostura. Acho que a Constituição me garante tal direito. Se não o garante, que garantisse. Ia até dizer um palavrão…
A caminho
O Bastonário sobe ao palanque e começa a mandar vir. É tudo tão absurdo que nos desatamos a rir. Devíamos, a rigor, chorar. Mas não. Tornamo-nos imunes à invasão da nossa cidadania. Digam o que disserem, continuamos os flagelados do vento leste. Democracia é o menos indecente dos regimes, consolamo-nos com a máxima de Churchill, chiça. Mas demais faz mal, como diria um grande profeta marciano. Vemo-lo confuso se deve e trôpego se pode dar tantos pontapés na lei. Acho que a Constituição reprova. Se não o reprova, que reprovasse. O que me espanta mais são os seus pares, paradíssimos da silva, a medo de serem postos na ordem. Não vá o diabo tecê-las. Tem horas que apetece mandar um manguito concêntrico e fechar a loja para férias. Um absurdo. Igual só a gripe das aves que, inexoravelmente, desponta. A caminho…
Debruças na varanda do 11º andar e olhas o imenso calçadão, o arreal e o mundo. Assim de repente, questionas a vida e a lida sabe-te sempre a pouco. Devias ter ido por ali. Ou talvez nem isso. Que outro norte haveria? A sensação do imponderável. A vertigem. Está aí algo que te embriaga e te excita. O escritor tem veias abertas. Profissão mais hemorrágica, tens de o admitir. Cronicar – lá estás tu – é fazer a comédia dos costumes. A canalha fica toda eriçada, mas o que se pode fazer? São para esquecer os nossos deuses pequenos. Mesmo os grandes são aquilo que a gente sabe. Retratar a falência dos dias que passam é a tua sina. Estás lixado…
A boca da tarde parece uma festa
Assim, as coisas bem vistas, o mundo é uma espécie de harmonia. O vasto azul do mar e um navio desliza para o cais de Mucuripe. O pessoano cais da hora marítima. Ao longo da avenida Beira-mar, o tremeluzir dos automóveis e do neón da publicidade. Faz algum sentido. Ou sentido nenhum. A boca da tarde parece uma festa. Apetecia estar num carrossel. Aquele da infância, outro nunca. Sei-o pela nostalgia com que olhas o vácuo do 11º andar. Uma harmonia e tu, em transe, assobias uma morna neurasténica. És tu ali, em pessoa, sem tirar nem pôr. Quixote vicioso e gracejas da tua Dulcineia…
Escrita 2
Preferias que eu escrevesse trivialidades. A escrita não pode perder a sua finalidade de passatempo. Depois, é sempre menos arriscado. O cronista tem este dilema: a inglória da salvação ou a morte sublime. Entre uma e outra coisa, preferias que eu pedisse uma cerveja “estupidamente”, como aliás sugeriu o garçon. Agora, mais a sério, querias que eu destilasse um veneno contra a monotonia, mas leve, levezinho, que deixasse tudo na santa paz. Prometo pensar no teu caso. Com carinho. E sentido de sobrevivência. Quase a exaltar as manhãs que cantam. Inocente, cândido e simples. Uma espécie de harmonia. Os teus olhos são lindos de morrer. E o teu afago é tudo o que reclama a minha vida. És a minha praia, sabias? Todavia, não meço bem todas as distâncias e tem horas que perco a compostura. Acho que a Constituição me garante tal direito. Se não o garante, que garantisse. Ia até dizer um palavrão…
A caminho
O Bastonário sobe ao palanque e começa a mandar vir. É tudo tão absurdo que nos desatamos a rir. Devíamos, a rigor, chorar. Mas não. Tornamo-nos imunes à invasão da nossa cidadania. Digam o que disserem, continuamos os flagelados do vento leste. Democracia é o menos indecente dos regimes, consolamo-nos com a máxima de Churchill, chiça. Mas demais faz mal, como diria um grande profeta marciano. Vemo-lo confuso se deve e trôpego se pode dar tantos pontapés na lei. Acho que a Constituição reprova. Se não o reprova, que reprovasse. O que me espanta mais são os seus pares, paradíssimos da silva, a medo de serem postos na ordem. Não vá o diabo tecê-las. Tem horas que apetece mandar um manguito concêntrico e fechar a loja para férias. Um absurdo. Igual só a gripe das aves que, inexoravelmente, desponta. A caminho…
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