Escrita 1
Debruças na varanda do 11º andar e olhas o imenso calçadão, o arreal e o mundo. Assim de repente, questionas a vida e a lida sabe-te sempre a pouco. Devias ter ido por ali. Ou talvez nem isso. Que outro norte haveria? A sensação do imponderável. A vertigem. Está aí algo que te embriaga e te excita. O escritor tem veias abertas. Profissão mais hemorrágica, tens de o admitir. Cronicar – lá estás tu – é fazer a comédia dos costumes. A canalha fica toda eriçada, mas o que se pode fazer? São para esquecer os nossos deuses pequenos. Mesmo os grandes são aquilo que a gente sabe. Retratar a falência dos dias que passam é a tua sina. Estás lixado…
A boca da tarde parece uma festa
Assim, as coisas bem vistas, o mundo é uma espécie de harmonia. O vasto azul do mar e um navio desliza para o cais de Mucuripe. O pessoano cais da hora marítima. Ao longo da avenida Beira-mar, o tremeluzir dos automóveis e do neón da publicidade. Faz algum sentido. Ou sentido nenhum. A boca da tarde parece uma festa. Apetecia estar num carrossel. Aquele da infância, outro nunca. Sei-o pela nostalgia com que olhas o vácuo do 11º andar. Uma harmonia e tu, em transe, assobias uma morna neurasténica. És tu ali, em pessoa, sem tirar nem pôr. Quixote vicioso e gracejas da tua Dulcineia…
Escrita 2
Preferias que eu escrevesse trivialidades. A escrita não pode perder a sua finalidade de passatempo. Depois, é sempre menos arriscado. O cronista tem este dilema: a inglória da salvação ou a morte sublime. Entre uma e outra coisa, preferias que eu pedisse uma cerveja “estupidamente”, como aliás sugeriu o garçon. Agora, mais a sério, querias que eu destilasse um veneno contra a monotonia, mas leve, levezinho, que deixasse tudo na santa paz. Prometo pensar no teu caso. Com carinho. E sentido de sobrevivência. Quase a exaltar as manhãs que cantam. Inocente, cândido e simples. Uma espécie de harmonia. Os teus olhos são lindos de morrer. E o teu afago é tudo o que reclama a minha vida. És a minha praia, sabias? Todavia, não meço bem todas as distâncias e tem horas que perco a compostura. Acho que a Constituição me garante tal direito. Se não o garante, que garantisse. Ia até dizer um palavrão…
A caminho
O Bastonário sobe ao palanque e começa a mandar vir. É tudo tão absurdo que nos desatamos a rir. Devíamos, a rigor, chorar. Mas não. Tornamo-nos imunes à invasão da nossa cidadania. Digam o que disserem, continuamos os flagelados do vento leste. Democracia é o menos indecente dos regimes, consolamo-nos com a máxima de Churchill, chiça. Mas demais faz mal, como diria um grande profeta marciano. Vemo-lo confuso se deve e trôpego se pode dar tantos pontapés na lei. Acho que a Constituição reprova. Se não o reprova, que reprovasse. O que me espanta mais são os seus pares, paradíssimos da silva, a medo de serem postos na ordem. Não vá o diabo tecê-las. Tem horas que apetece mandar um manguito concêntrico e fechar a loja para férias. Um absurdo. Igual só a gripe das aves que, inexoravelmente, desponta. A caminho…
quarta-feira, 19 de outubro de 2005
sexta-feira, 14 de outubro de 2005
O rei e o poeta
Ao senhor Walter, em Fortaleza
O rei e o poeta
O que Petronius não suportava mesmo nada era a prerrogativa de Nero de condenar ou de absolver os romanos. Era excessivo, pensava o filósofo ao esboçar Satiricom, o melhor dos textos. Reduzir Nero a nada seria sua secreta obsessão e, pensando bem, legitima obsessão de qualquer intelectual face a certos aparatos. Nessa linha de pensamento, o adágio de Chinua Achebe: o poeta que não tem problemas com o rei, terá problemas com a sua poesia. Lá estás tu, ó minha sombra, a dizer-me que não somos romanos! Enquanto, de lés a lés, percorremos a estrada, sei já do que não queria. Era ter problemas com a minha poesia…
Luzes na ribalta
Acaba de ganhar o Grande Prémio Cidade Velha, o académico Gabriel Fernandes. Estou eufórico. A mesma euforia sentida aquando Ludgero Correia ganhou o Prémio Sonangol. Ou, quando há um ano, José Luís Tavares recebeu o Prémio Mário Cláudio, da Gulbenkian. Algo está a acontecer, enquanto o mundo é este paradoxo às voltas. Novos actores entram em cena e damos início a um novo acto. Estou mesmo eufórico. Novos paradigmas circulam no palco cultural cabo-verdiano, com causa e consequência. Os teus óculos não olham por essa perspectiva que eu sei. Viciosos esses óculos teus. Tão eufórico que estou. Luzes na ribalta. Música, maestro!
Noites grávidas de punhais
Pessoalmente achei de bonito gesto (já nem direi necessário) da verdade e da reconciliação. Todas as revoluções têm o seu residual de excesso e a nossa, por não ter sido à nossa medida, teve apenas travessuras acidentais. Havia que rever tudo, branquear o que for preciso, sublimar uma ou outra culpa e tocar o barco para a frente. O tempo é o grande moldador das vontades. E já faz algum tempo, diga-se de passagem. Isso lembra-me as amnistias depois das noites grávidas de punhais. Mas é preciso não inverter as coisas. É que, mau grado o vendilhão, a maioria quis e quer a Independência destas ilhas. As comemorações do 30º Aniversário são disso prova…
Ainda às escuras…
E, por falar nisso, está aí uma coisa que eu desconhecia: ninguém pode nada contra a Electra. Literalmente ninguém. Não me leves a mal, mas tu também, como eu, estás lébi-lébi. Isso nos ultrapassa. Assim, nesta impotência generalizada, que lembra ao sanatório geral, temos de esperar para ver o fim dessa história. Por estas e por outras que o falecido nunca acreditou nessa carochinha das privatizações…
À espera de Godot
Vi a tua lista e os magníficos nele alinhados. Uns, por mérito. Outros, por demérito. Direi mesmo, e sem papas na língua, por demagogia. Demonstrando em plena praça o teu mau gosto e o teu côvado afinal não sublimado. Senti pena, muita pena de ti, e estás perdoado por tudo. Pelo feito. E pelo não feito. Sem drama nenhum. Como escrevi numa crónica, não se deve fazer drama com a falta de sentido estético. O prezadíssimo Pranchinha morreu deveras e nada mais natural do que a morte. Morreu cá dentro, palavra. E não há grandes razões para os epitáfios. Nem para as caudalosas guisas. Ele apenas diria (se vivo estivesse) que é preciso partir como se chegou – sem alarde…
O rei e o poeta
O que Petronius não suportava mesmo nada era a prerrogativa de Nero de condenar ou de absolver os romanos. Era excessivo, pensava o filósofo ao esboçar Satiricom, o melhor dos textos. Reduzir Nero a nada seria sua secreta obsessão e, pensando bem, legitima obsessão de qualquer intelectual face a certos aparatos. Nessa linha de pensamento, o adágio de Chinua Achebe: o poeta que não tem problemas com o rei, terá problemas com a sua poesia. Lá estás tu, ó minha sombra, a dizer-me que não somos romanos! Enquanto, de lés a lés, percorremos a estrada, sei já do que não queria. Era ter problemas com a minha poesia…
Luzes na ribalta
Acaba de ganhar o Grande Prémio Cidade Velha, o académico Gabriel Fernandes. Estou eufórico. A mesma euforia sentida aquando Ludgero Correia ganhou o Prémio Sonangol. Ou, quando há um ano, José Luís Tavares recebeu o Prémio Mário Cláudio, da Gulbenkian. Algo está a acontecer, enquanto o mundo é este paradoxo às voltas. Novos actores entram em cena e damos início a um novo acto. Estou mesmo eufórico. Novos paradigmas circulam no palco cultural cabo-verdiano, com causa e consequência. Os teus óculos não olham por essa perspectiva que eu sei. Viciosos esses óculos teus. Tão eufórico que estou. Luzes na ribalta. Música, maestro!
Noites grávidas de punhais
Pessoalmente achei de bonito gesto (já nem direi necessário) da verdade e da reconciliação. Todas as revoluções têm o seu residual de excesso e a nossa, por não ter sido à nossa medida, teve apenas travessuras acidentais. Havia que rever tudo, branquear o que for preciso, sublimar uma ou outra culpa e tocar o barco para a frente. O tempo é o grande moldador das vontades. E já faz algum tempo, diga-se de passagem. Isso lembra-me as amnistias depois das noites grávidas de punhais. Mas é preciso não inverter as coisas. É que, mau grado o vendilhão, a maioria quis e quer a Independência destas ilhas. As comemorações do 30º Aniversário são disso prova…
Ainda às escuras…
E, por falar nisso, está aí uma coisa que eu desconhecia: ninguém pode nada contra a Electra. Literalmente ninguém. Não me leves a mal, mas tu também, como eu, estás lébi-lébi. Isso nos ultrapassa. Assim, nesta impotência generalizada, que lembra ao sanatório geral, temos de esperar para ver o fim dessa história. Por estas e por outras que o falecido nunca acreditou nessa carochinha das privatizações…
À espera de Godot
Vi a tua lista e os magníficos nele alinhados. Uns, por mérito. Outros, por demérito. Direi mesmo, e sem papas na língua, por demagogia. Demonstrando em plena praça o teu mau gosto e o teu côvado afinal não sublimado. Senti pena, muita pena de ti, e estás perdoado por tudo. Pelo feito. E pelo não feito. Sem drama nenhum. Como escrevi numa crónica, não se deve fazer drama com a falta de sentido estético. O prezadíssimo Pranchinha morreu deveras e nada mais natural do que a morte. Morreu cá dentro, palavra. E não há grandes razões para os epitáfios. Nem para as caudalosas guisas. Ele apenas diria (se vivo estivesse) que é preciso partir como se chegou – sem alarde…
domingo, 2 de outubro de 2005
Qualquer música e outras notas
No dia mundial da música
Só pode ser coincidência feliz que o Pablo, meu filho, tenha nascido no Dia Mundial da Música. Pablo Casales e Pablo Milanês me inspiraram na escolha do nome, quando o miúdo nascia há 3 anos, em Boston. Neruda também (outro Pablo!) serviu de mote, pois o que é a poesia senão música a determinada freqüência. Aliás, tanto Pablo como Denzel (meu filho mais velho) amam a música, inumerável, diversa e variável. Naturalmente que temos com a música uma relação meramente passional. Agora mesmo, o sol a pôr-se na praia, um repentista canta, em rima de “ena” decassílabas para o meu coração. Estou esotérico e hermético que eu sei. Deve ser da morte do Pranchinha. Aniversário do Pablo, será? Ou de eu ter saltado para o lado de lá. Peço desculpas, mas eu vou com a música...
Maskrinha
Não me alinho no pensamento ideológico, preferindo antes refletir por caminhos oblíquos, como diria Jean Baudrillard. As sondagens aparecidas ultimamente (por boca e por escrito) são pouco transparentes e nada respeitáveis. Não é assim, de modo rasca e sub-reptício, que se apresentam sondagens ao cidadão. Nós já passamos desta fase. As capelinhas, umas e outras, precisam ter uma visão mais apropriada das nossas demandas. As percentagens surgidas (para um espectáculo mais do que falacioso, diga-se) só irão enganar os incautos. O inusitado e o insólito é sermos ainda bombardeados por métodos arcaicos e fraudulentos em plena dinâmica do milênio. Maskinha djan konxebu...
A manifestação do Pró Praia
A manifestação dos praienses contra a Electra parece ser um acto refundador da cidadania municipal. Ausente do país, não poderei participar da passeata que, em boa verdade, merece a adesão de todos. Menos dos masoquistas que gostam de ficar no escuro. Ou daqueles que, tendo feito da situação um negócio da China, estão sem moral para dar a cara. Não podemos admitir crédito ilimitado às circunstâncias. Trata-se de uma questão política? É algo mais profundo. Tem a ver com a necessidade de transpolitização do cidadão. A electricidade de há muito que passou a ser produto de primeira necessidade. E, neste particular, a Electra tem sido o grau zero em matéria de respeito ao cliente. Trata-se de um abuso, de uma operação de chantagem. E isso não deve ficar impune. De maneira alguma, caríssimos praienses...
Pôr-do-sol em Fortaleza
Estou em Fortaleza. Diante do mar. No calçadão, uma bonita feira de artesanato. Alguém canta, no realejo, uma musica distante. De Gilberto Gil. Diante desta profusão de gente, coisas e lembranças, tudo começa a fazer sentido. Vou aproveitar para dar uma “revisada” na saúde. Percebe-se que o espaço é uma metáfora para a estrutura da nossa existência. Uma vez ouvi esta idéia da artista plástica francesa Louise Bourgois, outra que gostava de música. De resto, no Brasil, apesar de todos os problemas, vigora o charme, a sensualidade e a alegria de viver.
Só pode ser coincidência feliz que o Pablo, meu filho, tenha nascido no Dia Mundial da Música. Pablo Casales e Pablo Milanês me inspiraram na escolha do nome, quando o miúdo nascia há 3 anos, em Boston. Neruda também (outro Pablo!) serviu de mote, pois o que é a poesia senão música a determinada freqüência. Aliás, tanto Pablo como Denzel (meu filho mais velho) amam a música, inumerável, diversa e variável. Naturalmente que temos com a música uma relação meramente passional. Agora mesmo, o sol a pôr-se na praia, um repentista canta, em rima de “ena” decassílabas para o meu coração. Estou esotérico e hermético que eu sei. Deve ser da morte do Pranchinha. Aniversário do Pablo, será? Ou de eu ter saltado para o lado de lá. Peço desculpas, mas eu vou com a música...
Maskrinha
Não me alinho no pensamento ideológico, preferindo antes refletir por caminhos oblíquos, como diria Jean Baudrillard. As sondagens aparecidas ultimamente (por boca e por escrito) são pouco transparentes e nada respeitáveis. Não é assim, de modo rasca e sub-reptício, que se apresentam sondagens ao cidadão. Nós já passamos desta fase. As capelinhas, umas e outras, precisam ter uma visão mais apropriada das nossas demandas. As percentagens surgidas (para um espectáculo mais do que falacioso, diga-se) só irão enganar os incautos. O inusitado e o insólito é sermos ainda bombardeados por métodos arcaicos e fraudulentos em plena dinâmica do milênio. Maskinha djan konxebu...
A manifestação do Pró Praia
A manifestação dos praienses contra a Electra parece ser um acto refundador da cidadania municipal. Ausente do país, não poderei participar da passeata que, em boa verdade, merece a adesão de todos. Menos dos masoquistas que gostam de ficar no escuro. Ou daqueles que, tendo feito da situação um negócio da China, estão sem moral para dar a cara. Não podemos admitir crédito ilimitado às circunstâncias. Trata-se de uma questão política? É algo mais profundo. Tem a ver com a necessidade de transpolitização do cidadão. A electricidade de há muito que passou a ser produto de primeira necessidade. E, neste particular, a Electra tem sido o grau zero em matéria de respeito ao cliente. Trata-se de um abuso, de uma operação de chantagem. E isso não deve ficar impune. De maneira alguma, caríssimos praienses...
Pôr-do-sol em Fortaleza
Estou em Fortaleza. Diante do mar. No calçadão, uma bonita feira de artesanato. Alguém canta, no realejo, uma musica distante. De Gilberto Gil. Diante desta profusão de gente, coisas e lembranças, tudo começa a fazer sentido. Vou aproveitar para dar uma “revisada” na saúde. Percebe-se que o espaço é uma metáfora para a estrutura da nossa existência. Uma vez ouvi esta idéia da artista plástica francesa Louise Bourgois, outra que gostava de música. De resto, no Brasil, apesar de todos os problemas, vigora o charme, a sensualidade e a alegria de viver.
quarta-feira, 28 de setembro de 2005
Mil práticas alegres se tocavam
Mil práticas alegres se tocavam;
Risos doces, sutis e argutos ditos,
Que entre um e outro manjar se alevantavam,
Despertando os alegres apetitos;
Luis de Camões. Os Lusíadas. Canto X
Acto de Cultura
Milhares e milhares de estudantes retornam às escolas para o ano lectivo 2005/06. É impressionante o contingente de professores e alunos em Cabo Verde. A educação é o grande leitmotiv do desenvolvimento deste país. Desde sempre e, agora, mais do que nunca. Diante deste novo patamar, em que a quantidade fala alto e a bom som, importa pensar na qualidade da nossa educação. Por uma educação que articule os valores da Cultura e da Cidadania. O desafio que se coloca à educação para a cidadania consistirá em determinar quais as necessidades dos indivíduos em termos da informação, dos saberes, das competências e capacidades para que estes se tornem socialmente empenhados. Da pré-escola ao ensino superior, o desenvolvimento é uma problemática cabralista, pois a luta continua a ser um acto de Cultura.
Últimas Notícias da Solidão
Quando Omar Camilo me convidou a dizer estas palavras sobre «Últimas Notícias da Solidão». Confesso que não aceitei o desafio à primeira. A fotografia não é área que eu domine. Tão pouco tenho sido dono do meu próprio tempo. Só que a estética é um argumento forte. Tem a força de uma requisição civil, se me permitem. E, porque estamos em tempos de emergência da estética, aceitei apresentar o meu amigo Omar Camilo. É forçoso nestes tempos transformacionais que tenhamos, em cada reflexão e acto um sentido de estética, para não vivermos condicionados ao grotesco, ao tosco e ao rude, à ruína do mau gosto e da escuridão da Electra, e o seu blakout no espírito que ele provoca. São 23 trabalhos fotográficos que têm subjacentes, a captação de «pormenores esquecidos do quotidiano das cidades», onde o tempo e a solidão são o contexto temático, como aliás adiantou à imprensa o adido cultural da Embaixada de Portugal, o meu amigo João Neves. «Ultimas notícias da solidão» é a quarta mostra fotográfica que Omar Camilo realiza em Cabo Verde, onde reside desde 2002, desenvolvendo trabalho artístico e de colaboração com instituições cabo-verdianas. As primeiras exposições aconteceram em 2003, mais precisamente em Abril, no Palácio da Cultura, nomeadamente “Luz de Cabo Verde” e “Os barcos regressam em silêncio”. A última exposição, também aconteceu em Abril, mas desde ano. Intitulada “A la puerta de mis sueños”, ela foi apresentada no Centro Cultural Francês da Praia. Com estas palavras fica o meu testemunho sobre a iniciativa deste artista cubano de fino recorte estético.
Na morte do Pranchinha
Acaba de morrer, de causa conhecida, mas mantida sob segredo, o parabólico Pranchinha, esse que, pelas mãos do colunista, dourava os leitores com ditos insubordinados, acto consagrado na própria Constituição quando a ordem vem aziaga e malparada. O defunto, que Deus o tenha, sabia destrinçar quem se governa de quem governa e o Momo, quase bobo, desse cortejo carnavalesco. Incomodativo, fazendo das tripas coração a ver se o bicho pega, ele era na verdade incapaz de matar uma mosca. A máxima do extinto: Deus há de me castigar pela soberba e a arrogância, mas ficar horas a fio a ruminar com o vulgo tamanha demagogia, isso nunca. Arre! Os seus detractores, um dia redimidos, hão de ter a cortesia de lhe visitar o epitáfio. Noblesse oblige…
Safiatu
O Mito, parabólico como sempre, manda-me uma selecção musical interessante. Safiatu, interpretado por Herbie Hancock, Angelique Kidjo e Santana. É tudo o que um pecador precisa para sublimar esta fina mediocridade dos dias. Excelente prenda para o Dia Mundial da Música, já a 1º de Outubro. Prometo fazer uma crónica sobre a música, a mãe de todas as artes. Entrementes, minha musa, deixo-te os versos de Camões que, às tantas pela rama, dizem assim:
Músicos instrumentos não faltavam
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
Fizeram descansar da eterna pena)
Cua voz dua angélica Sirena.
Risos doces, sutis e argutos ditos,
Que entre um e outro manjar se alevantavam,
Despertando os alegres apetitos;
Luis de Camões. Os Lusíadas. Canto X
Acto de Cultura
Milhares e milhares de estudantes retornam às escolas para o ano lectivo 2005/06. É impressionante o contingente de professores e alunos em Cabo Verde. A educação é o grande leitmotiv do desenvolvimento deste país. Desde sempre e, agora, mais do que nunca. Diante deste novo patamar, em que a quantidade fala alto e a bom som, importa pensar na qualidade da nossa educação. Por uma educação que articule os valores da Cultura e da Cidadania. O desafio que se coloca à educação para a cidadania consistirá em determinar quais as necessidades dos indivíduos em termos da informação, dos saberes, das competências e capacidades para que estes se tornem socialmente empenhados. Da pré-escola ao ensino superior, o desenvolvimento é uma problemática cabralista, pois a luta continua a ser um acto de Cultura.
Últimas Notícias da Solidão
Quando Omar Camilo me convidou a dizer estas palavras sobre «Últimas Notícias da Solidão». Confesso que não aceitei o desafio à primeira. A fotografia não é área que eu domine. Tão pouco tenho sido dono do meu próprio tempo. Só que a estética é um argumento forte. Tem a força de uma requisição civil, se me permitem. E, porque estamos em tempos de emergência da estética, aceitei apresentar o meu amigo Omar Camilo. É forçoso nestes tempos transformacionais que tenhamos, em cada reflexão e acto um sentido de estética, para não vivermos condicionados ao grotesco, ao tosco e ao rude, à ruína do mau gosto e da escuridão da Electra, e o seu blakout no espírito que ele provoca. São 23 trabalhos fotográficos que têm subjacentes, a captação de «pormenores esquecidos do quotidiano das cidades», onde o tempo e a solidão são o contexto temático, como aliás adiantou à imprensa o adido cultural da Embaixada de Portugal, o meu amigo João Neves. «Ultimas notícias da solidão» é a quarta mostra fotográfica que Omar Camilo realiza em Cabo Verde, onde reside desde 2002, desenvolvendo trabalho artístico e de colaboração com instituições cabo-verdianas. As primeiras exposições aconteceram em 2003, mais precisamente em Abril, no Palácio da Cultura, nomeadamente “Luz de Cabo Verde” e “Os barcos regressam em silêncio”. A última exposição, também aconteceu em Abril, mas desde ano. Intitulada “A la puerta de mis sueños”, ela foi apresentada no Centro Cultural Francês da Praia. Com estas palavras fica o meu testemunho sobre a iniciativa deste artista cubano de fino recorte estético.
Na morte do Pranchinha
Acaba de morrer, de causa conhecida, mas mantida sob segredo, o parabólico Pranchinha, esse que, pelas mãos do colunista, dourava os leitores com ditos insubordinados, acto consagrado na própria Constituição quando a ordem vem aziaga e malparada. O defunto, que Deus o tenha, sabia destrinçar quem se governa de quem governa e o Momo, quase bobo, desse cortejo carnavalesco. Incomodativo, fazendo das tripas coração a ver se o bicho pega, ele era na verdade incapaz de matar uma mosca. A máxima do extinto: Deus há de me castigar pela soberba e a arrogância, mas ficar horas a fio a ruminar com o vulgo tamanha demagogia, isso nunca. Arre! Os seus detractores, um dia redimidos, hão de ter a cortesia de lhe visitar o epitáfio. Noblesse oblige…
Safiatu
O Mito, parabólico como sempre, manda-me uma selecção musical interessante. Safiatu, interpretado por Herbie Hancock, Angelique Kidjo e Santana. É tudo o que um pecador precisa para sublimar esta fina mediocridade dos dias. Excelente prenda para o Dia Mundial da Música, já a 1º de Outubro. Prometo fazer uma crónica sobre a música, a mãe de todas as artes. Entrementes, minha musa, deixo-te os versos de Camões que, às tantas pela rama, dizem assim:
Músicos instrumentos não faltavam
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
Fizeram descansar da eterna pena)
Cua voz dua angélica Sirena.
sexta-feira, 9 de setembro de 2005
Soletrado vinho
Mote
Correndo riscos de um dia acabar debaixo da ponte, o escritor escreve, como diria Niechstch, para não morrer de excesso de realidade. Pessoalmente, sem nenhuma pretensão, nem pedantismo, questiono muito a razão por que escrevo. Se calhar, para não ficares impune desta grande tragédia, disse-me Pranchinha. Em verdade, não consigo descortinar de onde veio o meu texto nem para onde vai. Como os números, ele não tem princípio nem fim. Mas garanto-vos que não é um verbo à-toa. Hermético, eu? Ás vezes, com muito visualismo, outras vezes, cheio das zonas de sombra, quando não o fulgor dos instantes, tudo aqui é verdade. Até mesmo a fantasia. Por isso, estou ciente de haver química e cumplicidade com os leitores. Quem lê um texto não o faz impunemente, ora. O amor é o único elemento estruturante em tudo isso. Por sinal, leio, num extraordinário livro, de Ana Luísa Amaral, estes versos: "Talvez só este abismo/Interrompo no mapa o precipício?/No traço dos teus dedos,/rota onde quase cabem: sereia,/o alaúde, o tempo,/ Nessa rota/o suspendo". É que a boa poesia recusa linha programática ou ideológica. Ela é simplesmente (musas somente) o espaço das belas letras. Não há impunidade possível, ó gente amiga!
Soletrado nesse vinho
Impunemente, uma taça desse vinho para a festa do corpo. E o recriar de tantas almas pelos lagares. Muitos lugares de passagem, onde os teus pézinhos, imperceptíveis de tão ágeis, saltitam sobre as hordas das vindimas. No fascínio que seria o vir a melodia, o teu olhar que nem sabe quão de mim é paz, sina e salvação, essas coisas vagarosas que se instalam em nós como uma grude. E mais, esse lacre quente de puro chocolate, que é o meu desejo. Até nas pedras, nas mais puras e nas quase nuas, calhaus apenas que estiram os nossos corpos no tapete dos sonhos. Textura, nervura, o que mais queiras, nada que não roube no coração todo este silêncio que temos sido...
Nova Orleãns
Dá pena ver crianças e velhos a chorarem entre os escombros do que restou de Nova Orleãns, cidade de Louis Armstrong e de Wynton Marsalis, para falar de dois imortais da música americana. As vítimas do furacão Katrina são a fase visível da incompetência, da incúria e do racismo. Não foi o furacão que lhes trouxe a calema. Ele apenas pôs a nu algo que se escondia nos ghettos, numa cidade que se veste de música e de carnaval para o consumo dos turistas. A tragédia há muito que tinha chegado ao delta do Mississipi, desde o vergonhoso tempo da escravatura. E da subsequente segregação. E da actual proletarização do negro. A escravatura, pelo resquícios de hoje, continua pior, muito pior do que o holocausto e é preciso que alguém o diga, sem medo de desagradar os senhores deste mundo. Este inferno, mercê de uma negligência franciscana e ulterior, deve merecer o repúdio de todos. Até porque os furacões têm algo a ver com o aquecimento global e esta catástrofe há de nos lembrar que é preciso assinar o Protocolo de Quioto. Problema mais sério do que o descalabro no mercado petrolífero e na economia globalitária reinante. Haja Humanidade!
Porto da Praia e a segurança nacional
O Porto da Praia, de longe o mais vital do país, está bloqueado, mercê de um quiproquó laboral entre o patronato (Enapor) e o sindicato (SIACSA). Enquanto isso, a fazer jus à Comunidade Portuária da Praia, o país encontra-se à beira de uma ruptura. Os prejuízos são enormes e o cidadão começa a pagar na pele o desentendimento no cais da Praia. Uma crónica de Péricles Barros descreve o caso de um diabético em risco de vida, porque os trabalhadores não autorizam o embarque da carga (entre ela o remédio vital) para a Brava. Nesse excelente artigo, Barros escreveu o seguinte: Imaginem se o presidente do sindicato dos estivadores tivesse um pai a morrer na Brava hoje, por falta de um vaso dilatador? Aí os déreis ou mil-réis a mais, o raio do PCCS, o novo sistema de remuneração que reivindicam deixavam imediatamente de ser uma prioridade; este homem era capaz de matar para enviar as ampolas do medicamento que o pai carece. A par disso, os empresários estão desesperados. E os investidores começam a torcer o nariz. Fala-se em legitimidade dos trabalhadores. Fala-se também da coerência do patronato. Mas nada disso resolve o problema do cidadão contribuinte e eleitor (e muito menos do diabético na Brava). Muitas questões emergem desse cenário, a merecer cuidadoso inquérito sobre as razões e as causas, algumas muito obscuras. E a realidade vai sendo esta: muitos navios aguardam ao largo para a descarga. As ilhas do Fogo, Brava, Maio e Boavista estão desabastecidas e há ruptura de produtos. Alguns navios rumaram à Guiné-Bissau por não poderem fazer operações no porto da capital. Outros foram desviados para São Vicente. Estranhamente, apesar das regulamentações e das práticas serem as mesmas no Porto Grande, as reivindicações dos trabalhadores ali não têm sido paralisantes. Será que há lodo no cais da Praia? Razão para dizer, com o humor a doer, mandem o pai do desgraçado para a ilha da Brava a ver se dói, carago! Havendo esse lodo, seria mais do que hora de o Governo intervir. O Porto da Praia é, no mínimo, uma questão de segurança nacional!
Correndo riscos de um dia acabar debaixo da ponte, o escritor escreve, como diria Niechstch, para não morrer de excesso de realidade. Pessoalmente, sem nenhuma pretensão, nem pedantismo, questiono muito a razão por que escrevo. Se calhar, para não ficares impune desta grande tragédia, disse-me Pranchinha. Em verdade, não consigo descortinar de onde veio o meu texto nem para onde vai. Como os números, ele não tem princípio nem fim. Mas garanto-vos que não é um verbo à-toa. Hermético, eu? Ás vezes, com muito visualismo, outras vezes, cheio das zonas de sombra, quando não o fulgor dos instantes, tudo aqui é verdade. Até mesmo a fantasia. Por isso, estou ciente de haver química e cumplicidade com os leitores. Quem lê um texto não o faz impunemente, ora. O amor é o único elemento estruturante em tudo isso. Por sinal, leio, num extraordinário livro, de Ana Luísa Amaral, estes versos: "Talvez só este abismo/Interrompo no mapa o precipício?/No traço dos teus dedos,/rota onde quase cabem: sereia,/o alaúde, o tempo,/ Nessa rota/o suspendo". É que a boa poesia recusa linha programática ou ideológica. Ela é simplesmente (musas somente) o espaço das belas letras. Não há impunidade possível, ó gente amiga!
Soletrado nesse vinho
Impunemente, uma taça desse vinho para a festa do corpo. E o recriar de tantas almas pelos lagares. Muitos lugares de passagem, onde os teus pézinhos, imperceptíveis de tão ágeis, saltitam sobre as hordas das vindimas. No fascínio que seria o vir a melodia, o teu olhar que nem sabe quão de mim é paz, sina e salvação, essas coisas vagarosas que se instalam em nós como uma grude. E mais, esse lacre quente de puro chocolate, que é o meu desejo. Até nas pedras, nas mais puras e nas quase nuas, calhaus apenas que estiram os nossos corpos no tapete dos sonhos. Textura, nervura, o que mais queiras, nada que não roube no coração todo este silêncio que temos sido...
Nova Orleãns
Dá pena ver crianças e velhos a chorarem entre os escombros do que restou de Nova Orleãns, cidade de Louis Armstrong e de Wynton Marsalis, para falar de dois imortais da música americana. As vítimas do furacão Katrina são a fase visível da incompetência, da incúria e do racismo. Não foi o furacão que lhes trouxe a calema. Ele apenas pôs a nu algo que se escondia nos ghettos, numa cidade que se veste de música e de carnaval para o consumo dos turistas. A tragédia há muito que tinha chegado ao delta do Mississipi, desde o vergonhoso tempo da escravatura. E da subsequente segregação. E da actual proletarização do negro. A escravatura, pelo resquícios de hoje, continua pior, muito pior do que o holocausto e é preciso que alguém o diga, sem medo de desagradar os senhores deste mundo. Este inferno, mercê de uma negligência franciscana e ulterior, deve merecer o repúdio de todos. Até porque os furacões têm algo a ver com o aquecimento global e esta catástrofe há de nos lembrar que é preciso assinar o Protocolo de Quioto. Problema mais sério do que o descalabro no mercado petrolífero e na economia globalitária reinante. Haja Humanidade!
Porto da Praia e a segurança nacional
O Porto da Praia, de longe o mais vital do país, está bloqueado, mercê de um quiproquó laboral entre o patronato (Enapor) e o sindicato (SIACSA). Enquanto isso, a fazer jus à Comunidade Portuária da Praia, o país encontra-se à beira de uma ruptura. Os prejuízos são enormes e o cidadão começa a pagar na pele o desentendimento no cais da Praia. Uma crónica de Péricles Barros descreve o caso de um diabético em risco de vida, porque os trabalhadores não autorizam o embarque da carga (entre ela o remédio vital) para a Brava. Nesse excelente artigo, Barros escreveu o seguinte: Imaginem se o presidente do sindicato dos estivadores tivesse um pai a morrer na Brava hoje, por falta de um vaso dilatador? Aí os déreis ou mil-réis a mais, o raio do PCCS, o novo sistema de remuneração que reivindicam deixavam imediatamente de ser uma prioridade; este homem era capaz de matar para enviar as ampolas do medicamento que o pai carece. A par disso, os empresários estão desesperados. E os investidores começam a torcer o nariz. Fala-se em legitimidade dos trabalhadores. Fala-se também da coerência do patronato. Mas nada disso resolve o problema do cidadão contribuinte e eleitor (e muito menos do diabético na Brava). Muitas questões emergem desse cenário, a merecer cuidadoso inquérito sobre as razões e as causas, algumas muito obscuras. E a realidade vai sendo esta: muitos navios aguardam ao largo para a descarga. As ilhas do Fogo, Brava, Maio e Boavista estão desabastecidas e há ruptura de produtos. Alguns navios rumaram à Guiné-Bissau por não poderem fazer operações no porto da capital. Outros foram desviados para São Vicente. Estranhamente, apesar das regulamentações e das práticas serem as mesmas no Porto Grande, as reivindicações dos trabalhadores ali não têm sido paralisantes. Será que há lodo no cais da Praia? Razão para dizer, com o humor a doer, mandem o pai do desgraçado para a ilha da Brava a ver se dói, carago! Havendo esse lodo, seria mais do que hora de o Governo intervir. O Porto da Praia é, no mínimo, uma questão de segurança nacional!
quarta-feira, 31 de agosto de 2005
Alta do petróleo, karma, mantra & etc
O dó das estrelas
Cansado de uma ronda de reuniões, queria lidar a esta hora com a poesia, as artes, coisas realmente mais sublimes e mais sintonizadas com a alma. Para alguns, este frenesim é excitante e, por isso, adrenalina pura. Para mim, o cargo tem a ver com o encargo. A pesada canga da responsabilidade, condicionada ao odor bafiento dos gabinetes. Queria, se me permites, ouvir agora As Quatro Estações, de Vivaldi (Primavera, sobretudo) e, de olhos cerrados, visualizar o Roger Williams Park com os seus cisnes a deslizar na água. Hás de perguntar o que se passa comigo. Às vezes, quero perceber os versos de Fernando Pessoa: tenho dó das estrelas, luzindo há tanto tempo. Outras vezes, vou à Ponta Temerosa, que é o extremo desta minha cidade, e olho, com neurastenia, para o vasto e azulado vão. É que cansa, cansa mesmo, não poder contemplar o mundo. Há dias, em São Vicente, passei horas esquecidas com o Vasco Martins e o Tchalé Figueira, dilectos amigos, na grandeza silenciosa do Monte Verde. Silenciosa vírgula, pois, vez por outra, a beleza do mundo era invadida pelo grasnar de um corvo ou pelo piar de um falcão. Tão bom ouvir, ante o grande silêncio que a montanha exala, o ciciar dos bichos no nosso cansaço! Dirás que é meu karma. Ou simples questão de mantra este meu lado espiritual que atenta à perfeita sintonia e à curiosa clave entre o cantar de galo e as peixeiras madrugadoras a pregoar “cavala fresta”. Sim, fiquemos por esses nadas que – fumo violeta deste incenso –, vagam o meu pensamento para o além. E, antes que tarde mais no meu coração, te suplico que sejas poesia …
A surfar pelos blogs
Roubo tempo à burocracia, arre, e navego um bocado pelos blogs. Ultimamente, andamos todos bissextos nesta praça. Leio algo sobre o Tcheka Andrade, outro que admiro, e me sinto apaziguado. Se isto tudo fosse padrão Mayra & Tcheka! Temos de pensar no grande salto de qualidade para a nossa Cultura. O by-pass para a excelência não se compadece com algum assistencialismo artístico, um tanto ao quanto difícil de se desacelerar. Tão pouco significa marcar passo no tosco, quando o segredo é o bom acabamento e a apresentação de marca. E muito menos ficarmos a repisar o já visto, numa hora de inovação e competição. Obviamente, mais alma, como diria o matricial Orlando Pantera. Mas falava dos blogs e, desta feita, vou deixar algumas opiniões. Modestíssimas e exclusivas opiniões, diga-se. Posições nada a ver, mas ditas ao sabor do tempo, que a crónica, ela sim, tem a ver com o cronos e o resto é história. A propósito, com respeito às susceptibilidades e trocadilhos rascas, as "Alegrias" trazidas para esta "Praça" foram-nos impostas pelo monstro da incompetência, que a todos domina. Se para o mau entendedor, meia palavra besta; para aquele que vê alguma graça na desgraça, este vaticínio de que humor é um acto de inteligência. Ou seja, tem de ser cultivado, ora…
The Big Easy
Não posso pensar em Nova Orleães sem ouvir, remotamente, a música de Sidney Bechet. La vie en rose, executado em clarinete. Uma vez, em pleno Carnaval da cidade – The Big Easy, diz-se –, alguém tocara essa música, que é um pouco a minha infância, e eu não posso deixar de ligar uma coisa com outra. Depois, vejo-te a comer, com tanta gana, o Cajun Combination (jambalaya, gumbo, ostras, you may name it…), nesse restaurante da Bourbon St. E a fazeres fila, por umas horinhas de blues e zydeco, na House of Blues. O que será feita da House of Blues, na Decatur St? Pois é, estou triste. Triste, triste, triste, como no poema de Valentinous Velhinho. Acompanhei, com consternação, os estragos que o Furacão Katrina fez à cidade de Nova Orleães. Gente morta, desalojada, desesperada. Os diques e as comportas já não resultam. O saque saiu à ordem do dia. E a pobreza, muitas vezes escondida pelas imagens fabricadas, grita alto para todo o mundo ouvir. A cidade histórica ficou submersa. Um grande património mundial em perigo. A crioulidade ficou ferida. Entrementes, as antenas internacionais dizem que o preço do barril de petróleo fechou terça-feira nos 70,45 dólares no mercado de Nova Iorque, mercê da quebra na produção de 1,4 milhões de barris de petróleo. La vie en rose, é melodia que não sai do meu pensamento. Antes que tarde mais, vem em poesia…
Li na lém di Mulato
Tempo apenas para repisar: o Aeroporto Internacional da Praia é para ontem. O Platô Digital é projecto que merece o nosso aplauso. A circular é obra com letras maiúsculas. A pavimentação do Platô – de asfalto ou de pedra, ou, mesmo, o misto destes dois elementos –, já tarda. A capital enlameada, sitiada de chuva, é feia e dá para esquecer. Di-lo, com propriedade, José António dos Reis. Vamos todos, ciosos dos nossos republicanos direitos, ficar atentos. Construtivamente, diga-se. Já dizia Nho Naxu: ka nu sunha kordadu, pa nu ka durmi na forma…
Cansado de uma ronda de reuniões, queria lidar a esta hora com a poesia, as artes, coisas realmente mais sublimes e mais sintonizadas com a alma. Para alguns, este frenesim é excitante e, por isso, adrenalina pura. Para mim, o cargo tem a ver com o encargo. A pesada canga da responsabilidade, condicionada ao odor bafiento dos gabinetes. Queria, se me permites, ouvir agora As Quatro Estações, de Vivaldi (Primavera, sobretudo) e, de olhos cerrados, visualizar o Roger Williams Park com os seus cisnes a deslizar na água. Hás de perguntar o que se passa comigo. Às vezes, quero perceber os versos de Fernando Pessoa: tenho dó das estrelas, luzindo há tanto tempo. Outras vezes, vou à Ponta Temerosa, que é o extremo desta minha cidade, e olho, com neurastenia, para o vasto e azulado vão. É que cansa, cansa mesmo, não poder contemplar o mundo. Há dias, em São Vicente, passei horas esquecidas com o Vasco Martins e o Tchalé Figueira, dilectos amigos, na grandeza silenciosa do Monte Verde. Silenciosa vírgula, pois, vez por outra, a beleza do mundo era invadida pelo grasnar de um corvo ou pelo piar de um falcão. Tão bom ouvir, ante o grande silêncio que a montanha exala, o ciciar dos bichos no nosso cansaço! Dirás que é meu karma. Ou simples questão de mantra este meu lado espiritual que atenta à perfeita sintonia e à curiosa clave entre o cantar de galo e as peixeiras madrugadoras a pregoar “cavala fresta”. Sim, fiquemos por esses nadas que – fumo violeta deste incenso –, vagam o meu pensamento para o além. E, antes que tarde mais no meu coração, te suplico que sejas poesia …
A surfar pelos blogs
Roubo tempo à burocracia, arre, e navego um bocado pelos blogs. Ultimamente, andamos todos bissextos nesta praça. Leio algo sobre o Tcheka Andrade, outro que admiro, e me sinto apaziguado. Se isto tudo fosse padrão Mayra & Tcheka! Temos de pensar no grande salto de qualidade para a nossa Cultura. O by-pass para a excelência não se compadece com algum assistencialismo artístico, um tanto ao quanto difícil de se desacelerar. Tão pouco significa marcar passo no tosco, quando o segredo é o bom acabamento e a apresentação de marca. E muito menos ficarmos a repisar o já visto, numa hora de inovação e competição. Obviamente, mais alma, como diria o matricial Orlando Pantera. Mas falava dos blogs e, desta feita, vou deixar algumas opiniões. Modestíssimas e exclusivas opiniões, diga-se. Posições nada a ver, mas ditas ao sabor do tempo, que a crónica, ela sim, tem a ver com o cronos e o resto é história. A propósito, com respeito às susceptibilidades e trocadilhos rascas, as "Alegrias" trazidas para esta "Praça" foram-nos impostas pelo monstro da incompetência, que a todos domina. Se para o mau entendedor, meia palavra besta; para aquele que vê alguma graça na desgraça, este vaticínio de que humor é um acto de inteligência. Ou seja, tem de ser cultivado, ora…
The Big Easy
Não posso pensar em Nova Orleães sem ouvir, remotamente, a música de Sidney Bechet. La vie en rose, executado em clarinete. Uma vez, em pleno Carnaval da cidade – The Big Easy, diz-se –, alguém tocara essa música, que é um pouco a minha infância, e eu não posso deixar de ligar uma coisa com outra. Depois, vejo-te a comer, com tanta gana, o Cajun Combination (jambalaya, gumbo, ostras, you may name it…), nesse restaurante da Bourbon St. E a fazeres fila, por umas horinhas de blues e zydeco, na House of Blues. O que será feita da House of Blues, na Decatur St? Pois é, estou triste. Triste, triste, triste, como no poema de Valentinous Velhinho. Acompanhei, com consternação, os estragos que o Furacão Katrina fez à cidade de Nova Orleães. Gente morta, desalojada, desesperada. Os diques e as comportas já não resultam. O saque saiu à ordem do dia. E a pobreza, muitas vezes escondida pelas imagens fabricadas, grita alto para todo o mundo ouvir. A cidade histórica ficou submersa. Um grande património mundial em perigo. A crioulidade ficou ferida. Entrementes, as antenas internacionais dizem que o preço do barril de petróleo fechou terça-feira nos 70,45 dólares no mercado de Nova Iorque, mercê da quebra na produção de 1,4 milhões de barris de petróleo. La vie en rose, é melodia que não sai do meu pensamento. Antes que tarde mais, vem em poesia…
Li na lém di Mulato
Tempo apenas para repisar: o Aeroporto Internacional da Praia é para ontem. O Platô Digital é projecto que merece o nosso aplauso. A circular é obra com letras maiúsculas. A pavimentação do Platô – de asfalto ou de pedra, ou, mesmo, o misto destes dois elementos –, já tarda. A capital enlameada, sitiada de chuva, é feia e dá para esquecer. Di-lo, com propriedade, José António dos Reis. Vamos todos, ciosos dos nossos republicanos direitos, ficar atentos. Construtivamente, diga-se. Já dizia Nho Naxu: ka nu sunha kordadu, pa nu ka durmi na forma…
sexta-feira, 26 de agosto de 2005
Viciosa chuva
O que à vigília cinzela o plúmbeo do céu,
Tu, e os outros, nesta acústica da pétala,
Só de saudades sois silêncio agora em mim
Ou de caos tão-somente no cosmos desta voz…
Todos os átomos e todas as poeiras giram
Suspensos no maluco carrossel das horas
E como relógios destravados de música
Soltam-se o alarme e o alarde na quietude…
Pura gota, minúscula que seja, de chuva
Que me desperta para o reencontro das coisas
E me olha das pedras que à vidraça soletra…
Escorrendo parte em meu corpo, de alma
Aqui liquefeita de uma viscosa boca tua
Que nos degusta o sal, fruto de poemas nós…
Filinto Elísio
Tu, e os outros, nesta acústica da pétala,
Só de saudades sois silêncio agora em mim
Ou de caos tão-somente no cosmos desta voz…
Todos os átomos e todas as poeiras giram
Suspensos no maluco carrossel das horas
E como relógios destravados de música
Soltam-se o alarme e o alarde na quietude…
Pura gota, minúscula que seja, de chuva
Que me desperta para o reencontro das coisas
E me olha das pedras que à vidraça soletra…
Escorrendo parte em meu corpo, de alma
Aqui liquefeita de uma viscosa boca tua
Que nos degusta o sal, fruto de poemas nós…
Filinto Elísio
quarta-feira, 24 de agosto de 2005
Insólitos ou nem isso
Fidalgo Preto
Fico feliz e eufórico, pois desta feita ganhou o Prémio Sonangol da Literatura – 2005, o amigo e confrade Álvaro Ludgero Correia, com o pseudónimo literário Fidalgo Preto. O romance intitula-se “Baban – O Ladino” e alarga a bibliografia cabo-verdiana com o romanesco. Ludgero Correia sabia-o bom cronista, dos que dizem as verdades com laivos de humor. Como intelectual que se preza provoca reacções mil, umas de amor, outras de ódio, mas nenhuma de indiferença. E como cidadão, ele faz presença, diria mesmo que é dos tais que tem peso e ocupa espaço. Espera-se que Cabo Verde se dê conta de quanto o prémio a todos prestigia. Ano do trigésimo, do milénio, do PDM, da universidade, do Grammy…palmas para Cabo Verde. Com perdão às vossas senhorias do Pró Praia (bem como da outra comandita mais estreita), palmas para Álvaro Ludgero Correia, nosso Fidalgo Preto!
Livro e festival
Olha, terminei o último verso do livro Das Frutas Serenadas. Fiquei mais leve, quase a flutuar. Ou a levitar. Escrever um livro tão íntimo que, já feito, nos fica este travo de melancolia. O mundo é um grande leviatã, sabes. Uma antropofagia que nos engole lentamente. Depois passei horas esquecidas a ver, pela televisão, o directo do Festival da Baía das Gatas. Boa moldura humana, excelente civismo e homenagem merecida. Luís Morais, a quem tive o privilégio de apresentar no Fesquintal de Jazz, na cidade da Praia, é um instrumentista que transcende. Voltando à Baía das Gatas, gostei demais de Dulce Pontes e os rappers vindos da França detestei. Já, ao amanhecer, reli os manuscritos do meu livro e revi as ilustrações do Mito que irão também separar os respectivos cadernos internos. Não sei se por urgência desta vigília, ou se por insónia mesmo
Pedrada no charco
Uma pedrada inconsequente, de pura rebeldia ou perturbação juvenil, contra as vidraças da Câmara Municipal de São Vicente quase roubou o show da Baía das Gatas, não fosse a providencial Dulce Pontes, e já o feito levava o arzinho de mais um quiproquó político entre a edilidade e o governo. Ai, o peso das pedras! Enquanto o circo recolhe a sua tenda e a procissão regressa ao adro, há alguma gente – aquela que Arménio Vieira caracterizaria de “gente oca, cabecinha de alfinete” – pronta para do insólito tirar um bocado de partido. Em verdade, esse quase incidente, lamentável, diga-se de passagem, servirá (já agora) como uma chamada de atenção, uma pedrada no charco de todos nós. O que o insólito não provoca! Agora, devagar, devagarinho, à maneira do samba, não seria outra loisa, uns e outros, nos olharmos todos de frente, olhos nos olhos…sem pedra na mão?
Despertar
Acordo indisposto. Alguém pragueja e esconjura a madrugada. Já não suporto tamanha ignomínia. Apetece-me gritar, voar, fugir. Apetece-me desaparecer do mapa. Andar noutra geografia. Ouvir som de flauta, beber água pura, ter paz. Choveu toda a noite. Ainda quis ver algo na televisão, mas a emissão foi-se. Isto é muito precário. Uma boa pancada de chuva e não há emissão televisiva. O jeito é ouvir música. Não na rádio que, a esta hora, se ajeita a programação com zoukada e o barulho afim. Pode? Adiante que a canalha dá cartas…
Mindelact
O 11º Festival Internacional de Teatro do Mindelo estará em cena de 8 a 18 de Setembro e não participar dele, mesmo como mero espectador, é perder. Quando digo perder, estarei a querer dizer o perder a oportunidade de ver as obras em desfile, o ambiente festivo e a organização que nos diz a todos de que a qualidade, mais do que uma porrada de patrocínios, tem a ver com engajamento e inovação. Mais do que teatro em si, o Mindelact é excelência de organização. O resto será este depois da chuva. O céu, em cambiantes ainda de cinzento, anuncia o fim da tarde. Na fímbria desta hora, entre a luzinha da alba e a minha solidão, alguém assobia ao longe uma velha melodia. A crónica da cidade fica para depois. Nunca é tarde, nunca é demais…
Fico feliz e eufórico, pois desta feita ganhou o Prémio Sonangol da Literatura – 2005, o amigo e confrade Álvaro Ludgero Correia, com o pseudónimo literário Fidalgo Preto. O romance intitula-se “Baban – O Ladino” e alarga a bibliografia cabo-verdiana com o romanesco. Ludgero Correia sabia-o bom cronista, dos que dizem as verdades com laivos de humor. Como intelectual que se preza provoca reacções mil, umas de amor, outras de ódio, mas nenhuma de indiferença. E como cidadão, ele faz presença, diria mesmo que é dos tais que tem peso e ocupa espaço. Espera-se que Cabo Verde se dê conta de quanto o prémio a todos prestigia. Ano do trigésimo, do milénio, do PDM, da universidade, do Grammy…palmas para Cabo Verde. Com perdão às vossas senhorias do Pró Praia (bem como da outra comandita mais estreita), palmas para Álvaro Ludgero Correia, nosso Fidalgo Preto!
Livro e festival
Olha, terminei o último verso do livro Das Frutas Serenadas. Fiquei mais leve, quase a flutuar. Ou a levitar. Escrever um livro tão íntimo que, já feito, nos fica este travo de melancolia. O mundo é um grande leviatã, sabes. Uma antropofagia que nos engole lentamente. Depois passei horas esquecidas a ver, pela televisão, o directo do Festival da Baía das Gatas. Boa moldura humana, excelente civismo e homenagem merecida. Luís Morais, a quem tive o privilégio de apresentar no Fesquintal de Jazz, na cidade da Praia, é um instrumentista que transcende. Voltando à Baía das Gatas, gostei demais de Dulce Pontes e os rappers vindos da França detestei. Já, ao amanhecer, reli os manuscritos do meu livro e revi as ilustrações do Mito que irão também separar os respectivos cadernos internos. Não sei se por urgência desta vigília, ou se por insónia mesmo
Pedrada no charco
Uma pedrada inconsequente, de pura rebeldia ou perturbação juvenil, contra as vidraças da Câmara Municipal de São Vicente quase roubou o show da Baía das Gatas, não fosse a providencial Dulce Pontes, e já o feito levava o arzinho de mais um quiproquó político entre a edilidade e o governo. Ai, o peso das pedras! Enquanto o circo recolhe a sua tenda e a procissão regressa ao adro, há alguma gente – aquela que Arménio Vieira caracterizaria de “gente oca, cabecinha de alfinete” – pronta para do insólito tirar um bocado de partido. Em verdade, esse quase incidente, lamentável, diga-se de passagem, servirá (já agora) como uma chamada de atenção, uma pedrada no charco de todos nós. O que o insólito não provoca! Agora, devagar, devagarinho, à maneira do samba, não seria outra loisa, uns e outros, nos olharmos todos de frente, olhos nos olhos…sem pedra na mão?
Despertar
Acordo indisposto. Alguém pragueja e esconjura a madrugada. Já não suporto tamanha ignomínia. Apetece-me gritar, voar, fugir. Apetece-me desaparecer do mapa. Andar noutra geografia. Ouvir som de flauta, beber água pura, ter paz. Choveu toda a noite. Ainda quis ver algo na televisão, mas a emissão foi-se. Isto é muito precário. Uma boa pancada de chuva e não há emissão televisiva. O jeito é ouvir música. Não na rádio que, a esta hora, se ajeita a programação com zoukada e o barulho afim. Pode? Adiante que a canalha dá cartas…
Mindelact
O 11º Festival Internacional de Teatro do Mindelo estará em cena de 8 a 18 de Setembro e não participar dele, mesmo como mero espectador, é perder. Quando digo perder, estarei a querer dizer o perder a oportunidade de ver as obras em desfile, o ambiente festivo e a organização que nos diz a todos de que a qualidade, mais do que uma porrada de patrocínios, tem a ver com engajamento e inovação. Mais do que teatro em si, o Mindelact é excelência de organização. O resto será este depois da chuva. O céu, em cambiantes ainda de cinzento, anuncia o fim da tarde. Na fímbria desta hora, entre a luzinha da alba e a minha solidão, alguém assobia ao longe uma velha melodia. A crónica da cidade fica para depois. Nunca é tarde, nunca é demais…
quarta-feira, 17 de agosto de 2005
Monumenta
Monumenta
O Memorial à Fome e às Vítimas da Tragédia da Assistência, a ser construído na rotunda de São Januário, orla marítima da cidade da Praia, é um monumento que fazia falta a Cabo Verde. A Fome (com letra bem maiúscula) é algo que deve ser sublimado e exorcizado, não a através do esquecimento, mas pela via da memória. Tal como os judeus fazem com o Holocausto. E os africanos (e sua diáspora) pretendem fazer com a Escravatura. Um obelisco, em tríade multidimensional, dirá sempre aos cabo-verdianos de que a tragédia pode ser a alavanca de um grande futuro. Vimo-lo há dias nas cerimónias do 60º aniversário da bomba atómica (inédita selvajaria humana, diga-se de passagem) sobre Hiroshima. Haveremos de correr a marginal e problematizar a Fome como um recurso para o futuro. Esta também é uma grande contribuição do 30º aniversário da Independência Nacional…
Nós e a cidade
Deixa andar, que a cidade não há de notar a nossa ausência. Tudo corre, como tem mesmo de correr, sem nós. Ou apesar de nós. E, se somos importantes – ainda que a enorme cloaca urbana isso desconheça –, somo-lo no remanso de que uma simples borboleta também o seja. Deixa andar e canta-me nesta caminhada aquela quadra já liberta das palavras. Ser cronista é ser deste tempo testemunha e deste lugar narrador da acta. O que sobra é ledo engano e o sol, por mais que os deuses pequenos esbracejem, nascerá sempre no mesmo lugar. Não te preocupes se A, B ou C, veja nestas linhas um puro cantar de galo. Em democracia, cada um tem direito a seu delírio e, se não está constitucionalizado, chamam ao intelectocrata para que introduza mais este disparate. Quanto à estética, bem isso exige cuidado adicional. A Poesis não surge por acaso. Mas, deixa andar… a cidade não há de notar a nossa ausência.
Do grande Pranchinha
Arguto e desperto, parecendo sempre de vigília, ei-lo o grande Pranchinha que a canalha julga de somenos importância. Mas haverá gente tão essencial quão nossa própria sombra? Aquela assaz interior que, perdidos no labirinto da vida, nos apresenta o fio de Ariadne? Claro está que a personagem estará pintada de fresco. Uma primeira demão para animar a malta, pois sob a resina da comédia inventaram gregos antigos a tragédia. Dizia, é o Pranchinha sempre atento que dá prumo às minhas vertigens e, quando me sente D. Quixote, se arma comigo em Sancho Pança. Por isso, vossas senhorias perdoem-me este à parte, mas falar deste meu alter-ego, como do vosso uso dizer, é condição sine qua non…
Promessa
Jamais deixarei morrer cá dentro o viés que transforma esta amargura em poesia. O grito que me teima, mas que tu guardas no instante dos sentidos, saberá sempre em mim como um sopro de vida. E, se não vou à noite como quem vai à maresia, começarás tu a dissipar a neblina no horizonte dos caminhos por andar. É-nos pouco o tempo, mas naveguemos numa alegria sem demora. Diante do mundo, algo mais do que esta enseada de águas mansas, não quererá a eternidade ser parte do abalo ou do desvario. Simplicidade apenas, de remanso com que as horas são batidas monocórdicas no relógio. E todos os fados são universos de cada transeunte.
Mas poeta és tu
Não te posso dizer que nesta estação somos felizes. Nem que, ao espectáculo do mundo, temos razões para aplaudir. A cada dia, nessa idade de Cristo em que tu andas, fazes melopeia à vileza do quotidiano. Poeta és tu e o resto é treta. A palavra disposta em fila, rima e métrica. Verso saído do quadrado aceite pela praça. Metáforas de acordo com a Constituição. Ingénuo quem pense com o verbo tão-somente sanear a alfurja dessa gente. A mediocridade que se obstina, querendo seja esta uma hora minguada, demanda aqui ingente luta e o poeta, de solilóquio como estás apanhada, nada pode contra a língua vesícula de peçonha, que era como o grande Eugénio Tavares retratava os burocratas. Poeta és tu que não abres mão à beleza de um sol a pôr-se…
O Memorial à Fome e às Vítimas da Tragédia da Assistência, a ser construído na rotunda de São Januário, orla marítima da cidade da Praia, é um monumento que fazia falta a Cabo Verde. A Fome (com letra bem maiúscula) é algo que deve ser sublimado e exorcizado, não a através do esquecimento, mas pela via da memória. Tal como os judeus fazem com o Holocausto. E os africanos (e sua diáspora) pretendem fazer com a Escravatura. Um obelisco, em tríade multidimensional, dirá sempre aos cabo-verdianos de que a tragédia pode ser a alavanca de um grande futuro. Vimo-lo há dias nas cerimónias do 60º aniversário da bomba atómica (inédita selvajaria humana, diga-se de passagem) sobre Hiroshima. Haveremos de correr a marginal e problematizar a Fome como um recurso para o futuro. Esta também é uma grande contribuição do 30º aniversário da Independência Nacional…
Nós e a cidade
Deixa andar, que a cidade não há de notar a nossa ausência. Tudo corre, como tem mesmo de correr, sem nós. Ou apesar de nós. E, se somos importantes – ainda que a enorme cloaca urbana isso desconheça –, somo-lo no remanso de que uma simples borboleta também o seja. Deixa andar e canta-me nesta caminhada aquela quadra já liberta das palavras. Ser cronista é ser deste tempo testemunha e deste lugar narrador da acta. O que sobra é ledo engano e o sol, por mais que os deuses pequenos esbracejem, nascerá sempre no mesmo lugar. Não te preocupes se A, B ou C, veja nestas linhas um puro cantar de galo. Em democracia, cada um tem direito a seu delírio e, se não está constitucionalizado, chamam ao intelectocrata para que introduza mais este disparate. Quanto à estética, bem isso exige cuidado adicional. A Poesis não surge por acaso. Mas, deixa andar… a cidade não há de notar a nossa ausência.
Do grande Pranchinha
Arguto e desperto, parecendo sempre de vigília, ei-lo o grande Pranchinha que a canalha julga de somenos importância. Mas haverá gente tão essencial quão nossa própria sombra? Aquela assaz interior que, perdidos no labirinto da vida, nos apresenta o fio de Ariadne? Claro está que a personagem estará pintada de fresco. Uma primeira demão para animar a malta, pois sob a resina da comédia inventaram gregos antigos a tragédia. Dizia, é o Pranchinha sempre atento que dá prumo às minhas vertigens e, quando me sente D. Quixote, se arma comigo em Sancho Pança. Por isso, vossas senhorias perdoem-me este à parte, mas falar deste meu alter-ego, como do vosso uso dizer, é condição sine qua non…
Promessa
Jamais deixarei morrer cá dentro o viés que transforma esta amargura em poesia. O grito que me teima, mas que tu guardas no instante dos sentidos, saberá sempre em mim como um sopro de vida. E, se não vou à noite como quem vai à maresia, começarás tu a dissipar a neblina no horizonte dos caminhos por andar. É-nos pouco o tempo, mas naveguemos numa alegria sem demora. Diante do mundo, algo mais do que esta enseada de águas mansas, não quererá a eternidade ser parte do abalo ou do desvario. Simplicidade apenas, de remanso com que as horas são batidas monocórdicas no relógio. E todos os fados são universos de cada transeunte.
Mas poeta és tu
Não te posso dizer que nesta estação somos felizes. Nem que, ao espectáculo do mundo, temos razões para aplaudir. A cada dia, nessa idade de Cristo em que tu andas, fazes melopeia à vileza do quotidiano. Poeta és tu e o resto é treta. A palavra disposta em fila, rima e métrica. Verso saído do quadrado aceite pela praça. Metáforas de acordo com a Constituição. Ingénuo quem pense com o verbo tão-somente sanear a alfurja dessa gente. A mediocridade que se obstina, querendo seja esta uma hora minguada, demanda aqui ingente luta e o poeta, de solilóquio como estás apanhada, nada pode contra a língua vesícula de peçonha, que era como o grande Eugénio Tavares retratava os burocratas. Poeta és tu que não abres mão à beleza de um sol a pôr-se…
sexta-feira, 12 de agosto de 2005
Viagem
Em torno da odisseia das ilhas, creio levar
Neste puro desejo que me transcende, a senha
E a palavra-chave de os labirintos serem aqui
Simples lugares de passagem, apenas paisagem…
O andarilho palmilha todas as dunas, areias
De intermináveis desertos e todas as ondas
Que os oceanos concedem, quando furibundas
Ou, mesmo, serenadas e das praias acariciadas…
Sem culpa, nem sina – ou de Job puro devedor –,
Percorro de lés a lés o mapa que é de ti e do mundo
Como quem responde à morte o saldo estival…
Como quem salta para a eterna idade da vida
E fica suspenso entre a estrela e sua cadência
A riscar, de viajar tão-somente, o céu da noite…
Filinto Elísio
Neste puro desejo que me transcende, a senha
E a palavra-chave de os labirintos serem aqui
Simples lugares de passagem, apenas paisagem…
O andarilho palmilha todas as dunas, areias
De intermináveis desertos e todas as ondas
Que os oceanos concedem, quando furibundas
Ou, mesmo, serenadas e das praias acariciadas…
Sem culpa, nem sina – ou de Job puro devedor –,
Percorro de lés a lés o mapa que é de ti e do mundo
Como quem responde à morte o saldo estival…
Como quem salta para a eterna idade da vida
E fica suspenso entre a estrela e sua cadência
A riscar, de viajar tão-somente, o céu da noite…
Filinto Elísio
Côdea de sal
A José Luís Tavares
Corpo áspero de sal que aos meus dedos crispa
Cada cristal e, quase que nuvem feita pedra,
Brilha qual diamante ao sol, e, do seu zénite,
Deixo transcorrer o sonho pela água…
Saberás sempre que, em mim, se resume
À poesia esta motriz do vento e do moinho,
E a matriz que alinha, no mais puro linho,
O fiar das palavras no pano das metáforas…
Hás de me ver passar, em sepulcral silêncio,
Onde os ruídos e as ruínas quedam-se inertes,
Mister do Verbo ou de quão soberbo apanágio…
E deste simples ritual – dedos na côdea de sal –,
Aprenderemos nele o siso e o cisco das pedras,
Corpos das musas, errantes nós das geografias…
Filinto Elísio
Corpo áspero de sal que aos meus dedos crispa
Cada cristal e, quase que nuvem feita pedra,
Brilha qual diamante ao sol, e, do seu zénite,
Deixo transcorrer o sonho pela água…
Saberás sempre que, em mim, se resume
À poesia esta motriz do vento e do moinho,
E a matriz que alinha, no mais puro linho,
O fiar das palavras no pano das metáforas…
Hás de me ver passar, em sepulcral silêncio,
Onde os ruídos e as ruínas quedam-se inertes,
Mister do Verbo ou de quão soberbo apanágio…
E deste simples ritual – dedos na côdea de sal –,
Aprenderemos nele o siso e o cisco das pedras,
Corpos das musas, errantes nós das geografias…
Filinto Elísio
quinta-feira, 11 de agosto de 2005
Correspondências
Podia escrever sobre as ilhas e o cosmos. Mas hoje, dou-vos um cheirinho das minhas correspondências – três enviadas por mim e uma recebida do Luís Araújo. São milhares de cartas, round trip, a cronicar a vida, quase sempre de forma não autorizada e não publicável. Não é segredo do Estado, mas é o estado do segredo, o que dá às coisas mais recato e parcimónia. Uma ressalva apenas: não será por falta de assunto que deito mão às correspondências. Será por excesso dele. E uma estranha saudade do futuro. Ou, tão-só ganas de regressar à “estrada”. Vamos, então, a isso:
A. Flashes de três enviadas:
1. Caríssima Ambi,
(…) Pois é, continuo a escrever crónicas. Sem alguma pretensão de imparcialidade. Antes pelo contrário, não me concedo aqui à hipocrisia. Liberdade total. Não confundir com totalitária, pleaaaaase. Comentário e crítica são bem-vindos. Mas que o pessoal não exagere. Sou neto de António Leão Correia e Silva (o pai e não o filho do meu pai, entendes) e de João Henriques de Almeida Cardoso (pelo lado da mãe), razão bastante para ter nervos, fibra, ganas e raiva. A par deste muito amor aquariano. Para o que der e vier (…)
2. Prezado Crisolino,
(…) Neoliberal eu? Às tantas, hás de indagar se ajoelho e rezo diante dos altares. A riqueza é feita por todos. Cada um à sua maneira. Mas ela é distribuída só para alguns e aí o busílis. Alinho-me com Jorge Luís Borges quando afirma que é uma “irreligiosidade” crer no inferno. Infelizmente, eu acredito em duendes, mas não tenho ganho nada com isso. Pode? O Pranchinha diz que não. Mas para o Pranchinha, a humanidade só existe como pano de fundo longínquo, evanescente e irreal. Arre…(…)
3. Baixinha
Manhã azul, Baixinha. Como um peixinho mágico de riscas verdes, ele dá voltas no teu aquário. Sei que gostas do luar e das praias. Aposto mesmo que saibas cantar ao silêncio das noites caladas. Dizes que sou maluco. Meio real e meio ficção. Podes dizer que ando repetitivo, mas hoje estou com ganas de balbuciar o famoso poema de Vinícius de Moraes:
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
B. Flash da recebida de Luís Araújo
1. Caro amigo Filinto,
(…) Adoro a alegoria do David e Golias de que te serviste para chamar a atenção sobre os perigos que me espreitam. Desde que, ainda criança, a ouvi pela primeira vez a minha simpatia pelos Davids deste mundo foi imediata e, convocado pelo fantástico da proeza de David, tratei logo de arranjar também uma fisga para abater o primeiro Golias que me aparecesse. Já adulto, alguns foram os "meus Golias" que, também, consegui "arrumar", e tu os conheces bem (…)
(…) Realmente feijão com arroz hoje e arroz com feijão amanhã, outra vez, mesmo que servido com outras cores e odores em outra mesa, presidida por outro senhor, como resultado da alternância dos cozinheiros e príncipes da corte, torna-se um exercício semelhante ao do marcar passo da tropa na parada e a sociedade não é propriamente uma tropa subordinada a clubs de generais (…)
(…) Por isso, a mudança tem que ser sempre , essencialmente, o resultado criativo dum processo sistemático de rupturas culturais consecutivas que, com maior ou menor velocidade e grau de alteridade, irreversivelmente transforme a situação institucionalizando uma nova estética geradora duma norma que consiga fazer dos valores que a constituem as fundações dum universo institucional que a sustente e reproduza (…)
A. Flashes de três enviadas:
1. Caríssima Ambi,
(…) Pois é, continuo a escrever crónicas. Sem alguma pretensão de imparcialidade. Antes pelo contrário, não me concedo aqui à hipocrisia. Liberdade total. Não confundir com totalitária, pleaaaaase. Comentário e crítica são bem-vindos. Mas que o pessoal não exagere. Sou neto de António Leão Correia e Silva (o pai e não o filho do meu pai, entendes) e de João Henriques de Almeida Cardoso (pelo lado da mãe), razão bastante para ter nervos, fibra, ganas e raiva. A par deste muito amor aquariano. Para o que der e vier (…)
2. Prezado Crisolino,
(…) Neoliberal eu? Às tantas, hás de indagar se ajoelho e rezo diante dos altares. A riqueza é feita por todos. Cada um à sua maneira. Mas ela é distribuída só para alguns e aí o busílis. Alinho-me com Jorge Luís Borges quando afirma que é uma “irreligiosidade” crer no inferno. Infelizmente, eu acredito em duendes, mas não tenho ganho nada com isso. Pode? O Pranchinha diz que não. Mas para o Pranchinha, a humanidade só existe como pano de fundo longínquo, evanescente e irreal. Arre…(…)
3. Baixinha
Manhã azul, Baixinha. Como um peixinho mágico de riscas verdes, ele dá voltas no teu aquário. Sei que gostas do luar e das praias. Aposto mesmo que saibas cantar ao silêncio das noites caladas. Dizes que sou maluco. Meio real e meio ficção. Podes dizer que ando repetitivo, mas hoje estou com ganas de balbuciar o famoso poema de Vinícius de Moraes:
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
B. Flash da recebida de Luís Araújo
1. Caro amigo Filinto,
(…) Adoro a alegoria do David e Golias de que te serviste para chamar a atenção sobre os perigos que me espreitam. Desde que, ainda criança, a ouvi pela primeira vez a minha simpatia pelos Davids deste mundo foi imediata e, convocado pelo fantástico da proeza de David, tratei logo de arranjar também uma fisga para abater o primeiro Golias que me aparecesse. Já adulto, alguns foram os "meus Golias" que, também, consegui "arrumar", e tu os conheces bem (…)
(…) Realmente feijão com arroz hoje e arroz com feijão amanhã, outra vez, mesmo que servido com outras cores e odores em outra mesa, presidida por outro senhor, como resultado da alternância dos cozinheiros e príncipes da corte, torna-se um exercício semelhante ao do marcar passo da tropa na parada e a sociedade não é propriamente uma tropa subordinada a clubs de generais (…)
(…) Por isso, a mudança tem que ser sempre , essencialmente, o resultado criativo dum processo sistemático de rupturas culturais consecutivas que, com maior ou menor velocidade e grau de alteridade, irreversivelmente transforme a situação institucionalizando uma nova estética geradora duma norma que consiga fazer dos valores que a constituem as fundações dum universo institucional que a sustente e reproduza (…)
quarta-feira, 3 de agosto de 2005
Angelus Novus
1.
Gosto de passear pela orla marítima da cidade da Praia. Ver a baía, o apelo uterino da paisagem, o seu abrigo que antevê o mundo com um certo vagar. Ando pela calçada da marginal, os transeuntes circulam em azáfama de fim do dia e um bando de aves pousa na areia da Praia da Gambôa. Gosto de passear, assim sozinho, pela orla marítima e é quase certo que andamos sempre em espiral.
2.
De repente, percebe-se que a identidade existe não só pela origem comum, mas pelo destino comum. O vivermos colectivamente como destino é o grande leimotiv do desenvolvimento. E esta consciência interpela a todos e, no âmago, a cada um particular, para a saga colectiva. Tudo não passa de um grande périplo rumo ao infinito afinal. Entrementes, o tempo existencial do indivíduo pode ajustar-se ao percurso épico de um povo. Senti isso, na pele, ao participar nas comemorações do 30º Aniversário da Independência Nacional. Parafraseando Padre António Vieira: a festa mais de todos e a festa mais de cada um. Dir-se-ia que o vento trans-histórico bafejou a minha face e me deixou marcas por fora. Já nem direi do que me vai cá dentro. O tempo, que nasce com o homem, não pode ser compreendido de molde apenas objectivo. Deve ser visto crítica e historicamente no modo como ele é vivido pela complexidade do sujeito. Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Vale a pena conhecê-lo. Ele representa um anjo a afastar-se de algo que encara fixamente. Os vários elementos desse quadro dão a ideia da Fortuna, mas o Anjo encara-os como uma catástrofe única, à qual é preciso fixar os olhos com consciência de que toda a construção carrega a sua própria ruína. Assim, estes foram dias reais, mas com quê de metafísico. E, como diria Jorge Luís Borges, em El Aleph, o final da história só se pode contar em metáforas pois passa-se no Reino dos Céus, onde o tempo não existe…
3.
Escuto, com causa, o último disco de Tcheka Andrade. Este entendeu que a diversidade cultural é preciso. Cabo Verde só chegará à internacionalização e à globalização se conseguir apresentar, com qualidade e excelência, a sua Cultura. Isso de forma mais diversa possível. A sociedade cabo-verdiana reflecte, em sua própria génese, o pluralismo cultural. Somos uma síntese inter cultural e não apenas um mosaico de culturas. A nossa idiossincrasia está no aceitar a diversidade e transformá-la em matriz da nossa identidade cultural. Esta realidade intrínseca é a verdadeira teia que mantém a rede da nação cabo-verdiana, cerzida na sua geografia insular e da diáspora. Tcheka Andrade entendeu-o como poucos. Já agora, seria importante que a sociedade cabo-verdiana se inteirasse dos debates em curso sobre a diversidade cultural.
Gosto de passear pela orla marítima da cidade da Praia. Ver a baía, o apelo uterino da paisagem, o seu abrigo que antevê o mundo com um certo vagar. Ando pela calçada da marginal, os transeuntes circulam em azáfama de fim do dia e um bando de aves pousa na areia da Praia da Gambôa. Gosto de passear, assim sozinho, pela orla marítima e é quase certo que andamos sempre em espiral.
2.
De repente, percebe-se que a identidade existe não só pela origem comum, mas pelo destino comum. O vivermos colectivamente como destino é o grande leimotiv do desenvolvimento. E esta consciência interpela a todos e, no âmago, a cada um particular, para a saga colectiva. Tudo não passa de um grande périplo rumo ao infinito afinal. Entrementes, o tempo existencial do indivíduo pode ajustar-se ao percurso épico de um povo. Senti isso, na pele, ao participar nas comemorações do 30º Aniversário da Independência Nacional. Parafraseando Padre António Vieira: a festa mais de todos e a festa mais de cada um. Dir-se-ia que o vento trans-histórico bafejou a minha face e me deixou marcas por fora. Já nem direi do que me vai cá dentro. O tempo, que nasce com o homem, não pode ser compreendido de molde apenas objectivo. Deve ser visto crítica e historicamente no modo como ele é vivido pela complexidade do sujeito. Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Vale a pena conhecê-lo. Ele representa um anjo a afastar-se de algo que encara fixamente. Os vários elementos desse quadro dão a ideia da Fortuna, mas o Anjo encara-os como uma catástrofe única, à qual é preciso fixar os olhos com consciência de que toda a construção carrega a sua própria ruína. Assim, estes foram dias reais, mas com quê de metafísico. E, como diria Jorge Luís Borges, em El Aleph, o final da história só se pode contar em metáforas pois passa-se no Reino dos Céus, onde o tempo não existe…
3.
Escuto, com causa, o último disco de Tcheka Andrade. Este entendeu que a diversidade cultural é preciso. Cabo Verde só chegará à internacionalização e à globalização se conseguir apresentar, com qualidade e excelência, a sua Cultura. Isso de forma mais diversa possível. A sociedade cabo-verdiana reflecte, em sua própria génese, o pluralismo cultural. Somos uma síntese inter cultural e não apenas um mosaico de culturas. A nossa idiossincrasia está no aceitar a diversidade e transformá-la em matriz da nossa identidade cultural. Esta realidade intrínseca é a verdadeira teia que mantém a rede da nação cabo-verdiana, cerzida na sua geografia insular e da diáspora. Tcheka Andrade entendeu-o como poucos. Já agora, seria importante que a sociedade cabo-verdiana se inteirasse dos debates em curso sobre a diversidade cultural.
quinta-feira, 28 de julho de 2005
O estado da nação
Depois de tanta insistência do Pranchinha, eis que faço um texto político. Ou, melhor dito, um texto sobre a política. Ou, com mais aggiornamento, um texto sobre o Estado da Nação. O Pranchinha mete-me em cada alheada! Todavia, pensando bem, cada um de nós tem a sua percepção sobre o Estado da Nação e dizê-lo, nestas linhas, no café ou no raio que o parta, é a sagrada prerrogativa que nos assiste. Afinal, hoje já somos o Estado da Nação e não, como aliás fomos, a Nação do Estado…
E, fazendo vontade ao Pranchinha (o amor tem destas coisas), direi que esta Nação, cada vez percebida de forma mais lacta e complexa (insularizada, diasporizada, globalizada, enfim), ganhou dimensão irreversível e que ela não se compadece hoje com a pequena política. Não que se dispense o bate-boca das esquinas, pois isso é terapêutico, mas os tempos exigem de nós mais responsabilidade de análise. Mesmo quando aplaudimos. Ou vaiamos…
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nas minhas crónicas eu sempre demonstrei confiança na governação de José Maria Neves. Quem me leu, deve lembrar-se da minha coluna “Prato do Dia”, na qual escrevera sobre a necessidade de dar o voto de confiança a este Governo. Não por seguidismo político, afã partidário, descrença nos demais, essas coisas que não me roçam a alma, mas por conhecer a dimensão humana do homem. Desde os bancos da escola. Neves dedicou os três primeiros anos da sua governação ao controlo do défice do Estado, pois entendeu que a economia teria de esperar pelo restauro das finanças. Isso correndo sérios riscos de popularidade. Admirei-o por isso também. Anos depois, o MCA confirma essa confiança, o Banco Mundial diz mais que eu algum dia diria e o confrade Manuel Delgado, homem de coragem, laureia-o com um acto de contrição.
Mas nem tudo são rosas. Apesar dos ganhos, Cabo Verde é ainda um país de produto nacional bruto inferior a mil e quinhentos dólares por habitante e com quase 500 mil habitantes, onde 173 mil são pobres, para não falar dos 93 mil que são muito pobres. Não estaremos a pedir, em vez de uma lógica de combate à pobreza, a da promoção e a do alargamento da riqueza tendente à redução da insatisfação social? Que medidas de políticas são agora necessárias para energizar uma população cuja taxa de desemprego se situa em 17% entre a juventude? O que se poderá fazer para perspectivar o bem-estar social e da qualidade de vida nos rincões encravados de Santiago, Santo Antão e Fogo? Ou para dar centralidade às ilhas periféricas como a Brava, São Nicolau ou Maio? Como descortinar condições humanas decentes para as nossas bolsas comunitárias em São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, ou mesmo nos ghettos das cidades do Norte, como Lisboa, Bóston e Paris?
Quer me parecer que uma nova mentalidade de trabalho, de produção, de investimento e de inserção nos seria mister a esta hora. A tal atitude transformacional, já ventilada um pouco pela imprensa, mas ainda não de todo interiorizada pelos cidadãos. Cruzar as vantagens todas – das comparativas às competitivas – e recriar o ideário da riqueza. A ter que escolher uma atitude, entre as muitas necessárias, importaria saber optar pelo “fogo” da riqueza, afinal o que garantirá a glória, segundo o sábio vaticínio de Deng Xiaoping.
Fogo? Indagará o Pranchinha pronto para duvidar dos meus rasgos estilísticos. Conheces aquela do fogo e do poeta francês Jean Cocteau? A sua casa era um verdadeiro museu de relíquias: estatuetas africanas, quadros de artistas famosos, livros raros. E Cocteau guardava tudo, e tinha um profundo amor por cada peça dessa esplendorosa casa. Numa entrevista, a jornalista lhe perguntou: "Se esta casa se incendiasse e o senhor só pudesse levar uma coisa consigo, o que escolheria?". Cocteau respondeu, com sentido de riqueza: "Eu levaria o fogo".
E o Pranchinha bem sabe que, dito isto, regresso aos meus textos sobre os insólitos. A minha praia não é escrever sobre a política, quando há a luz e a sombra, a vida e a morte, enfim. De resto, o Poder tem o seu lado perverso. É uma questão estrutural, note-se. Quem se esqueceu de Calígula, aquele que nomeou o seu cavalo a senador do Império Romano? Pode? O meu herói mesmo era Prometeu que se revoltou contra os deuses e lhes roubou o fogo para ofertá-lo aos homens.
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nesta hora do Estado da Nação, me apraz antever que JMN mantém o ideário do fogo que se destina aos homens. Adiante…
E, fazendo vontade ao Pranchinha (o amor tem destas coisas), direi que esta Nação, cada vez percebida de forma mais lacta e complexa (insularizada, diasporizada, globalizada, enfim), ganhou dimensão irreversível e que ela não se compadece hoje com a pequena política. Não que se dispense o bate-boca das esquinas, pois isso é terapêutico, mas os tempos exigem de nós mais responsabilidade de análise. Mesmo quando aplaudimos. Ou vaiamos…
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nas minhas crónicas eu sempre demonstrei confiança na governação de José Maria Neves. Quem me leu, deve lembrar-se da minha coluna “Prato do Dia”, na qual escrevera sobre a necessidade de dar o voto de confiança a este Governo. Não por seguidismo político, afã partidário, descrença nos demais, essas coisas que não me roçam a alma, mas por conhecer a dimensão humana do homem. Desde os bancos da escola. Neves dedicou os três primeiros anos da sua governação ao controlo do défice do Estado, pois entendeu que a economia teria de esperar pelo restauro das finanças. Isso correndo sérios riscos de popularidade. Admirei-o por isso também. Anos depois, o MCA confirma essa confiança, o Banco Mundial diz mais que eu algum dia diria e o confrade Manuel Delgado, homem de coragem, laureia-o com um acto de contrição.
Mas nem tudo são rosas. Apesar dos ganhos, Cabo Verde é ainda um país de produto nacional bruto inferior a mil e quinhentos dólares por habitante e com quase 500 mil habitantes, onde 173 mil são pobres, para não falar dos 93 mil que são muito pobres. Não estaremos a pedir, em vez de uma lógica de combate à pobreza, a da promoção e a do alargamento da riqueza tendente à redução da insatisfação social? Que medidas de políticas são agora necessárias para energizar uma população cuja taxa de desemprego se situa em 17% entre a juventude? O que se poderá fazer para perspectivar o bem-estar social e da qualidade de vida nos rincões encravados de Santiago, Santo Antão e Fogo? Ou para dar centralidade às ilhas periféricas como a Brava, São Nicolau ou Maio? Como descortinar condições humanas decentes para as nossas bolsas comunitárias em São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, ou mesmo nos ghettos das cidades do Norte, como Lisboa, Bóston e Paris?
Quer me parecer que uma nova mentalidade de trabalho, de produção, de investimento e de inserção nos seria mister a esta hora. A tal atitude transformacional, já ventilada um pouco pela imprensa, mas ainda não de todo interiorizada pelos cidadãos. Cruzar as vantagens todas – das comparativas às competitivas – e recriar o ideário da riqueza. A ter que escolher uma atitude, entre as muitas necessárias, importaria saber optar pelo “fogo” da riqueza, afinal o que garantirá a glória, segundo o sábio vaticínio de Deng Xiaoping.
Fogo? Indagará o Pranchinha pronto para duvidar dos meus rasgos estilísticos. Conheces aquela do fogo e do poeta francês Jean Cocteau? A sua casa era um verdadeiro museu de relíquias: estatuetas africanas, quadros de artistas famosos, livros raros. E Cocteau guardava tudo, e tinha um profundo amor por cada peça dessa esplendorosa casa. Numa entrevista, a jornalista lhe perguntou: "Se esta casa se incendiasse e o senhor só pudesse levar uma coisa consigo, o que escolheria?". Cocteau respondeu, com sentido de riqueza: "Eu levaria o fogo".
E o Pranchinha bem sabe que, dito isto, regresso aos meus textos sobre os insólitos. A minha praia não é escrever sobre a política, quando há a luz e a sombra, a vida e a morte, enfim. De resto, o Poder tem o seu lado perverso. É uma questão estrutural, note-se. Quem se esqueceu de Calígula, aquele que nomeou o seu cavalo a senador do Império Romano? Pode? O meu herói mesmo era Prometeu que se revoltou contra os deuses e lhes roubou o fogo para ofertá-lo aos homens.
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nesta hora do Estado da Nação, me apraz antever que JMN mantém o ideário do fogo que se destina aos homens. Adiante…
Catedra
por Filinto Elísio
Algo, quem sabe uma melodia, teria um dia
Fazer da vida uma grande catedral, vitral
Ou algo como uma nogueira, coisa da infância
Tipo de música que dá lágrima e alegria...
Uma grande catedral seria o teu sorriso,
Flor surgida no esquecimento dos pedregais,
Onda levantada e depois estendida na praia
E estarão os teus pézinhos à beira de água...
Seria também fina neblina que nos enovela
Desaparece para os umbrais a portentosa águia
E deixa-nos assim entre a pedra e o mundo...
Algo mais zen do que o próprio silencio, faria
Deste momento mais sublime que a morte
Quem sabe um fumo breve, eterna...de catedral!
Algo, quem sabe uma melodia, teria um dia
Fazer da vida uma grande catedral, vitral
Ou algo como uma nogueira, coisa da infância
Tipo de música que dá lágrima e alegria...
Uma grande catedral seria o teu sorriso,
Flor surgida no esquecimento dos pedregais,
Onda levantada e depois estendida na praia
E estarão os teus pézinhos à beira de água...
Seria também fina neblina que nos enovela
Desaparece para os umbrais a portentosa águia
E deixa-nos assim entre a pedra e o mundo...
Algo mais zen do que o próprio silencio, faria
Deste momento mais sublime que a morte
Quem sabe um fumo breve, eterna...de catedral!
Em olhares de torpor
Em olhares de torpor, onde deambulei perdido,
Quis como quem, de talhante, a carne corta, romper
Os nervos e os músculos, e a revestir os ossos todos
O peso dos verdes musgos pela greta das pedras...
Quis, quase de sina e de seno, o alarde de te viajar
E ter levado a tristeza que me sombreia a tarde
Ou, então, fugir dos cárceres impostas em nós
Como deuses incessantes a cercear-nos a crença...
E o que arde ainda e não se evade do coração,
Assaz quente lacre derretido, tão vazante
Quão segredo no curso obrigatório de um rio
És como eu viagem que jamais se estanca
No estuário do imenso oceano, és como eu
Talhante desta carne enquanto não putrefaça...
Quis como quem, de talhante, a carne corta, romper
Os nervos e os músculos, e a revestir os ossos todos
O peso dos verdes musgos pela greta das pedras...
Quis, quase de sina e de seno, o alarde de te viajar
E ter levado a tristeza que me sombreia a tarde
Ou, então, fugir dos cárceres impostas em nós
Como deuses incessantes a cercear-nos a crença...
E o que arde ainda e não se evade do coração,
Assaz quente lacre derretido, tão vazante
Quão segredo no curso obrigatório de um rio
És como eu viagem que jamais se estanca
No estuário do imenso oceano, és como eu
Talhante desta carne enquanto não putrefaça...
quarta-feira, 20 de julho de 2005
Desejo e sina lapidando o sonho
Ao amigo Zezito de Araújo
Na minha imaginação, apenas uma rede parada, à espera que alguém a balance. Uma rede, aparentemente absurda, como Rosebud, o trenó do Cidadão Kane. Uma rede, envolta de mistério e de silencio ulterior a tudo que a consciência explica. Quem balançaria essa rede? Seria a Nega Fulô, seria?
Do Estado de Alagoas, no Brasil, eu guardava mais pressentimento do que conhecimento. Um pressentimento bom, em combustão interior. Sentimento quase de paixão. O que lateja, mas não descortina. Sabia de Djavan, das suas músicas e poemas. Mostrou-mo um amigo, do tempo do liceu. Sabia-o alagoano, apanhando em toda a rama o meu pressentimento. Tenho acompanhado a frondosa floração da sua carreira artística, com alguma frustração de não o poder trazer para um espectáculo em Cabo Verde. Ver Djavan, na Cidade Velha, partida de muitos escravos para o Brasil, alguns dos quais para Alagoas, seria desejo e sina lapidando o sonho. A mesma comoção de participar, no Fesquintal de Jazz, e de assistir ao concêntrico encontro de Rhoda Scott com a Cidade Velha. E repito o dito em 2003: cruzar gente nossa e gente outra no palco das ilhas realiza a vocação real deste país, que é a de ser o palco do Cosmos. O Fesquintal de Jazz foi, nesse sentido e modéstia à parte, a segunda maior operação triunfo da história de Cabo Verde. A primeira está sendo o 30º Aniversário da Independência Nacional.
Mas, dizia, eu não conhecia o Estado de Alagoas da perspectiva tão afilada e aprofundada quanto desejaria. E reconheço esta falha, se não mesmo esta falência, agora que o governador Ronaldo Lessa e os seus secretários de governo visitam Cabo Verde, num reencontro esperado há séculos. Do Quilombo dos Palmares, a primeira república negra do mundo, eu não sabia quase nada. De Zumbi dos Palmares, uma ou outra leitura bissexta, desaconselhando qualquer discussão sobre a problemática.
Mais pressentimento do que conhecimento, fui me apercebendo que Alagoas tem muito a ver connosco, com a nossa identidade matricial e relacional. É o próprio governador alagoano que o reconhece quando afirma “É o resgate da nossa história e precisamos resgatá-la para dar sentido ao nosso projecto de vida”. É a gente de Jorge de Lima, poeta cujos versos meu pai recitava assim à mesa:
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
E que o actor Chico Assis recria, sem neurastenia, mas com recitado balanço, a poética do grande mestre. Apetece até retribuir com Jorge Barbosa, nosso poeta:
Nem sinal de planta
Nem restos de árvore
No cenário ressequido
Da planície…
O casebre apenas
De pedra solta
E uma lembrança aflitiva.
Neste momento em que os alagoanos chegam a Cabo Verde, será mais do que ocasião para nos revelarmos. Para que possamos fazer coisas em comum, numa cooperação muito digna, entre escravos hoje libertos. Será tempo, já que o espaço nos concede a oportunidade, para fazer cultura, negócios, amizade, amor, essas coisas todas, havendo o céu por limite. Assim, quem sabe o conhecimento se torne primado onde era pressentimento em mim. E já com menos mistério e silêncio ulterior, saio da imaginação para fazer da rede uma realidade. O resto a balançá-la (só poderia) a Nega Fulô…
Na minha imaginação, apenas uma rede parada, à espera que alguém a balance. Uma rede, aparentemente absurda, como Rosebud, o trenó do Cidadão Kane. Uma rede, envolta de mistério e de silencio ulterior a tudo que a consciência explica. Quem balançaria essa rede? Seria a Nega Fulô, seria?
Do Estado de Alagoas, no Brasil, eu guardava mais pressentimento do que conhecimento. Um pressentimento bom, em combustão interior. Sentimento quase de paixão. O que lateja, mas não descortina. Sabia de Djavan, das suas músicas e poemas. Mostrou-mo um amigo, do tempo do liceu. Sabia-o alagoano, apanhando em toda a rama o meu pressentimento. Tenho acompanhado a frondosa floração da sua carreira artística, com alguma frustração de não o poder trazer para um espectáculo em Cabo Verde. Ver Djavan, na Cidade Velha, partida de muitos escravos para o Brasil, alguns dos quais para Alagoas, seria desejo e sina lapidando o sonho. A mesma comoção de participar, no Fesquintal de Jazz, e de assistir ao concêntrico encontro de Rhoda Scott com a Cidade Velha. E repito o dito em 2003: cruzar gente nossa e gente outra no palco das ilhas realiza a vocação real deste país, que é a de ser o palco do Cosmos. O Fesquintal de Jazz foi, nesse sentido e modéstia à parte, a segunda maior operação triunfo da história de Cabo Verde. A primeira está sendo o 30º Aniversário da Independência Nacional.
Mas, dizia, eu não conhecia o Estado de Alagoas da perspectiva tão afilada e aprofundada quanto desejaria. E reconheço esta falha, se não mesmo esta falência, agora que o governador Ronaldo Lessa e os seus secretários de governo visitam Cabo Verde, num reencontro esperado há séculos. Do Quilombo dos Palmares, a primeira república negra do mundo, eu não sabia quase nada. De Zumbi dos Palmares, uma ou outra leitura bissexta, desaconselhando qualquer discussão sobre a problemática.
Mais pressentimento do que conhecimento, fui me apercebendo que Alagoas tem muito a ver connosco, com a nossa identidade matricial e relacional. É o próprio governador alagoano que o reconhece quando afirma “É o resgate da nossa história e precisamos resgatá-la para dar sentido ao nosso projecto de vida”. É a gente de Jorge de Lima, poeta cujos versos meu pai recitava assim à mesa:
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
E que o actor Chico Assis recria, sem neurastenia, mas com recitado balanço, a poética do grande mestre. Apetece até retribuir com Jorge Barbosa, nosso poeta:
Nem sinal de planta
Nem restos de árvore
No cenário ressequido
Da planície…
O casebre apenas
De pedra solta
E uma lembrança aflitiva.
Neste momento em que os alagoanos chegam a Cabo Verde, será mais do que ocasião para nos revelarmos. Para que possamos fazer coisas em comum, numa cooperação muito digna, entre escravos hoje libertos. Será tempo, já que o espaço nos concede a oportunidade, para fazer cultura, negócios, amizade, amor, essas coisas todas, havendo o céu por limite. Assim, quem sabe o conhecimento se torne primado onde era pressentimento em mim. E já com menos mistério e silêncio ulterior, saio da imaginação para fazer da rede uma realidade. O resto a balançá-la (só poderia) a Nega Fulô…
segunda-feira, 18 de julho de 2005
DAS FRUTAS EM 5 TEMPOS
1.
Direi destes dias os momentos de prumo,
As nuvens que passam e deixam aqui travo,
Os olhares, uns de soslaio, outros de frémito,
Que serenam bem ao viés suas dilectas frutas.
Das metáforas direi o crepitar dos fogos,
Ora de águas, ora de ventos, quando não dos ares,
Pequenos nadas, somatizando febres, reversos,
Destroçadas vidas, fonemas, chispas e poemas.
E de os dizer hás de escutar tu, minha fome,
Aroma das ervas, temperos esquecidos, sais
Na boca de comer tudo, ó meu tanto pecado.
Sangue das trevas tu, ácidos e salivas, halos de ti,
Onde a borbulha das espumas sabe a frutas,
Furtivos beijos, e por dar-te o trevo destes dias...
2.
Todos os poemas são de amor na estação das frutas
Se, da minha gula, de apenas um gole te sorvesse
São tácteis desejos de chuva, outrora vidraças de ver
Tua espraiada partida, mesmo quando versos de solidão.
Todos os poemas são de outra música assim cantada
Em pertinazes versos, palavras quase ondas, viagens,
Chinas por aí, longe de nós a fímbria dos invernos
E estarei bem à porta – direi sempre - de chegada tua.
Os poemas são desenhos largados nas longas estradas
Errantes dos desertos, horas, dias, anos a fio, palavras
Pelas dunas – também direi sempre – do teu corpo.
Navegantes dos oásis, soletradas florestas de sermos,
Na noite e no dia, o esvoaçar das areias em rara clepsidra
De ti, porque doutra glosa não, serei neste silencio cativo...
3.
As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca,
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.
Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Silabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.
De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémens, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.
Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.
4.
Tempos houve em que foste meu riso e meu siso,
Meu travesso sonho, de coisa alada, foste meu tudo,
Transeunte em cidade grande, eras meu néon,
À beira mar, a neblina para lá da tarde eras tu.
Também tu eras a réstia do crepúsculo e quase noite
Estrelavas a primeira estrela d´alva pela manhã
Pássaro que voa grande e redondo em torno do mundo
Cântico guardado no baú das lembranças circulares.
Eras sim tu na minha mão de apertar ninguém,
Outro alento quando arfavas à moribunda leoa
Animal caído em descanso, de qualquer remanso.
Eras e não eras nesses tempos tu, minha deusa,
No espelho transfigurado de algum reflexo,
Diletante água, meu sorriso, de coisa alada...
5.
O travo das nuvens que passam, o frenesim
Que somos à batuta dos momentos, na retina
Dá-me conta de bocados de nós, retirantes da vida,
Somente louvados daqueles que se amam.
Entrelinhas salpicadas de folhas, silvestres
Quadras impregnadas de calor e halo, incenso
Incendiado nos seios e nas coxas das flores,
Exalados aromas de quando esfíngica és tu.
Não só de palavras, das belas letras vivemos
Nós os de boca esventrada aos teoremas
Que refazem escalas das fórmulas soltas.
Mas de gestos e actos, de cujas pirâmides somos
Quais vértices onde nelas faz o sol zénite
E não terei outra eternidade senão teu olhar…
FILINTO ELÍSIO
Direi destes dias os momentos de prumo,
As nuvens que passam e deixam aqui travo,
Os olhares, uns de soslaio, outros de frémito,
Que serenam bem ao viés suas dilectas frutas.
Das metáforas direi o crepitar dos fogos,
Ora de águas, ora de ventos, quando não dos ares,
Pequenos nadas, somatizando febres, reversos,
Destroçadas vidas, fonemas, chispas e poemas.
E de os dizer hás de escutar tu, minha fome,
Aroma das ervas, temperos esquecidos, sais
Na boca de comer tudo, ó meu tanto pecado.
Sangue das trevas tu, ácidos e salivas, halos de ti,
Onde a borbulha das espumas sabe a frutas,
Furtivos beijos, e por dar-te o trevo destes dias...
2.
Todos os poemas são de amor na estação das frutas
Se, da minha gula, de apenas um gole te sorvesse
São tácteis desejos de chuva, outrora vidraças de ver
Tua espraiada partida, mesmo quando versos de solidão.
Todos os poemas são de outra música assim cantada
Em pertinazes versos, palavras quase ondas, viagens,
Chinas por aí, longe de nós a fímbria dos invernos
E estarei bem à porta – direi sempre - de chegada tua.
Os poemas são desenhos largados nas longas estradas
Errantes dos desertos, horas, dias, anos a fio, palavras
Pelas dunas – também direi sempre – do teu corpo.
Navegantes dos oásis, soletradas florestas de sermos,
Na noite e no dia, o esvoaçar das areias em rara clepsidra
De ti, porque doutra glosa não, serei neste silencio cativo...
3.
As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca,
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.
Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Silabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.
De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémens, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.
Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.
4.
Tempos houve em que foste meu riso e meu siso,
Meu travesso sonho, de coisa alada, foste meu tudo,
Transeunte em cidade grande, eras meu néon,
À beira mar, a neblina para lá da tarde eras tu.
Também tu eras a réstia do crepúsculo e quase noite
Estrelavas a primeira estrela d´alva pela manhã
Pássaro que voa grande e redondo em torno do mundo
Cântico guardado no baú das lembranças circulares.
Eras sim tu na minha mão de apertar ninguém,
Outro alento quando arfavas à moribunda leoa
Animal caído em descanso, de qualquer remanso.
Eras e não eras nesses tempos tu, minha deusa,
No espelho transfigurado de algum reflexo,
Diletante água, meu sorriso, de coisa alada...
5.
O travo das nuvens que passam, o frenesim
Que somos à batuta dos momentos, na retina
Dá-me conta de bocados de nós, retirantes da vida,
Somente louvados daqueles que se amam.
Entrelinhas salpicadas de folhas, silvestres
Quadras impregnadas de calor e halo, incenso
Incendiado nos seios e nas coxas das flores,
Exalados aromas de quando esfíngica és tu.
Não só de palavras, das belas letras vivemos
Nós os de boca esventrada aos teoremas
Que refazem escalas das fórmulas soltas.
Mas de gestos e actos, de cujas pirâmides somos
Quais vértices onde nelas faz o sol zénite
E não terei outra eternidade senão teu olhar…
FILINTO ELÍSIO
Subscrever:
Mensagens (Atom)