quinta-feira, 28 de julho de 2005

O estado da nação

Depois de tanta insistência do Pranchinha, eis que faço um texto político. Ou, melhor dito, um texto sobre a política. Ou, com mais aggiornamento, um texto sobre o Estado da Nação. O Pranchinha mete-me em cada alheada! Todavia, pensando bem, cada um de nós tem a sua percepção sobre o Estado da Nação e dizê-lo, nestas linhas, no café ou no raio que o parta, é a sagrada prerrogativa que nos assiste. Afinal, hoje já somos o Estado da Nação e não, como aliás fomos, a Nação do Estado…

E, fazendo vontade ao Pranchinha (o amor tem destas coisas), direi que esta Nação, cada vez percebida de forma mais lacta e complexa (insularizada, diasporizada, globalizada, enfim), ganhou dimensão irreversível e que ela não se compadece hoje com a pequena política. Não que se dispense o bate-boca das esquinas, pois isso é terapêutico, mas os tempos exigem de nós mais responsabilidade de análise. Mesmo quando aplaudimos. Ou vaiamos…

Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nas minhas crónicas eu sempre demonstrei confiança na governação de José Maria Neves. Quem me leu, deve lembrar-se da minha coluna “Prato do Dia”, na qual escrevera sobre a necessidade de dar o voto de confiança a este Governo. Não por seguidismo político, afã partidário, descrença nos demais, essas coisas que não me roçam a alma, mas por conhecer a dimensão humana do homem. Desde os bancos da escola. Neves dedicou os três primeiros anos da sua governação ao controlo do défice do Estado, pois entendeu que a economia teria de esperar pelo restauro das finanças. Isso correndo sérios riscos de popularidade. Admirei-o por isso também. Anos depois, o MCA confirma essa confiança, o Banco Mundial diz mais que eu algum dia diria e o confrade Manuel Delgado, homem de coragem, laureia-o com um acto de contrição.

Mas nem tudo são rosas. Apesar dos ganhos, Cabo Verde é ainda um país de produto nacional bruto inferior a mil e quinhentos dólares por habitante e com quase 500 mil habitantes, onde 173 mil são pobres, para não falar dos 93 mil que são muito pobres. Não estaremos a pedir, em vez de uma lógica de combate à pobreza, a da promoção e a do alargamento da riqueza tendente à redução da insatisfação social? Que medidas de políticas são agora necessárias para energizar uma população cuja taxa de desemprego se situa em 17% entre a juventude? O que se poderá fazer para perspectivar o bem-estar social e da qualidade de vida nos rincões encravados de Santiago, Santo Antão e Fogo? Ou para dar centralidade às ilhas periféricas como a Brava, São Nicolau ou Maio? Como descortinar condições humanas decentes para as nossas bolsas comunitárias em São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, ou mesmo nos ghettos das cidades do Norte, como Lisboa, Bóston e Paris?

Quer me parecer que uma nova mentalidade de trabalho, de produção, de investimento e de inserção nos seria mister a esta hora. A tal atitude transformacional, já ventilada um pouco pela imprensa, mas ainda não de todo interiorizada pelos cidadãos. Cruzar as vantagens todas – das comparativas às competitivas – e recriar o ideário da riqueza. A ter que escolher uma atitude, entre as muitas necessárias, importaria saber optar pelo “fogo” da riqueza, afinal o que garantirá a glória, segundo o sábio vaticínio de Deng Xiaoping.

Fogo? Indagará o Pranchinha pronto para duvidar dos meus rasgos estilísticos. Conheces aquela do fogo e do poeta francês Jean Cocteau? A sua casa era um verdadeiro museu de relíquias: estatuetas africanas, quadros de artistas famosos, livros raros. E Cocteau guardava tudo, e tinha um profundo amor por cada peça dessa esplendorosa casa. Numa entrevista, a jornalista lhe perguntou: "Se esta casa se incendiasse e o senhor só pudesse levar uma coisa consigo, o que escolheria?". Cocteau respondeu, com sentido de riqueza: "Eu levaria o fogo".

E o Pranchinha bem sabe que, dito isto, regresso aos meus textos sobre os insólitos. A minha praia não é escrever sobre a política, quando há a luz e a sombra, a vida e a morte, enfim. De resto, o Poder tem o seu lado perverso. É uma questão estrutural, note-se. Quem se esqueceu de Calígula, aquele que nomeou o seu cavalo a senador do Império Romano? Pode? O meu herói mesmo era Prometeu que se revoltou contra os deuses e lhes roubou o fogo para ofertá-lo aos homens.

Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nesta hora do Estado da Nação, me apraz antever que JMN mantém o ideário do fogo que se destina aos homens. Adiante…

Catedra

por Filinto Elísio



Algo, quem sabe uma melodia, teria um dia
Fazer da vida uma grande catedral, vitral
Ou algo como uma nogueira, coisa da infância
Tipo de música que dá lágrima e alegria...

Uma grande catedral seria o teu sorriso,
Flor surgida no esquecimento dos pedregais,
Onda levantada e depois estendida na praia
E estarão os teus pézinhos à beira de água...

Seria também fina neblina que nos enovela
Desaparece para os umbrais a portentosa águia
E deixa-nos assim entre a pedra e o mundo...

Algo mais zen do que o próprio silencio, faria
Deste momento mais sublime que a morte
Quem sabe um fumo breve, eterna...de catedral!

Catedral

Catedral

Em olhares de torpor

Em olhares de torpor, onde deambulei perdido,
Quis como quem, de talhante, a carne corta, romper
Os nervos e os músculos, e a revestir os ossos todos
O peso dos verdes musgos pela greta das pedras...

Quis, quase de sina e de seno, o alarde de te viajar
E ter levado a tristeza que me sombreia a tarde
Ou, então, fugir dos cárceres impostas em nós
Como deuses incessantes a cercear-nos a crença...

E o que arde ainda e não se evade do coração,
Assaz quente lacre derretido, tão vazante
Quão segredo no curso obrigatório de um rio

És como eu viagem que jamais se estanca
No estuário do imenso oceano, és como eu
Talhante desta carne enquanto não putrefaça...

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Desejo e sina lapidando o sonho

Ao amigo Zezito de Araújo


Na minha imaginação, apenas uma rede parada, à espera que alguém a balance. Uma rede, aparentemente absurda, como Rosebud, o trenó do Cidadão Kane. Uma rede, envolta de mistério e de silencio ulterior a tudo que a consciência explica. Quem balançaria essa rede? Seria a Nega Fulô, seria?

Do Estado de Alagoas, no Brasil, eu guardava mais pressentimento do que conhecimento. Um pressentimento bom, em combustão interior. Sentimento quase de paixão. O que lateja, mas não descortina. Sabia de Djavan, das suas músicas e poemas. Mostrou-mo um amigo, do tempo do liceu. Sabia-o alagoano, apanhando em toda a rama o meu pressentimento. Tenho acompanhado a frondosa floração da sua carreira artística, com alguma frustração de não o poder trazer para um espectáculo em Cabo Verde. Ver Djavan, na Cidade Velha, partida de muitos escravos para o Brasil, alguns dos quais para Alagoas, seria desejo e sina lapidando o sonho. A mesma comoção de participar, no Fesquintal de Jazz, e de assistir ao concêntrico encontro de Rhoda Scott com a Cidade Velha. E repito o dito em 2003: cruzar gente nossa e gente outra no palco das ilhas realiza a vocação real deste país, que é a de ser o palco do Cosmos. O Fesquintal de Jazz foi, nesse sentido e modéstia à parte, a segunda maior operação triunfo da história de Cabo Verde. A primeira está sendo o 30º Aniversário da Independência Nacional.

Mas, dizia, eu não conhecia o Estado de Alagoas da perspectiva tão afilada e aprofundada quanto desejaria. E reconheço esta falha, se não mesmo esta falência, agora que o governador Ronaldo Lessa e os seus secretários de governo visitam Cabo Verde, num reencontro esperado há séculos. Do Quilombo dos Palmares, a primeira república negra do mundo, eu não sabia quase nada. De Zumbi dos Palmares, uma ou outra leitura bissexta, desaconselhando qualquer discussão sobre a problemática.

Mais pressentimento do que conhecimento, fui me apercebendo que Alagoas tem muito a ver connosco, com a nossa identidade matricial e relacional. É o próprio governador alagoano que o reconhece quando afirma “É o resgate da nossa história e precisamos resgatá-la para dar sentido ao nosso projecto de vida”. É a gente de Jorge de Lima, poeta cujos versos meu pai recitava assim à mesa:

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

E que o actor Chico Assis recria, sem neurastenia, mas com recitado balanço, a poética do grande mestre. Apetece até retribuir com Jorge Barbosa, nosso poeta:

Nem sinal de planta
Nem restos de árvore
No cenário ressequido
Da planície…

O casebre apenas
De pedra solta
E uma lembrança aflitiva.

Neste momento em que os alagoanos chegam a Cabo Verde, será mais do que ocasião para nos revelarmos. Para que possamos fazer coisas em comum, numa cooperação muito digna, entre escravos hoje libertos. Será tempo, já que o espaço nos concede a oportunidade, para fazer cultura, negócios, amizade, amor, essas coisas todas, havendo o céu por limite. Assim, quem sabe o conhecimento se torne primado onde era pressentimento em mim. E já com menos mistério e silêncio ulterior, saio da imaginação para fazer da rede uma realidade. O resto a balançá-la (só poderia) a Nega Fulô…

segunda-feira, 18 de julho de 2005

DAS FRUTAS EM 5 TEMPOS

1.

Direi destes dias os momentos de prumo,
As nuvens que passam e deixam aqui travo,
Os olhares, uns de soslaio, outros de frémito,
Que serenam bem ao viés suas dilectas frutas.

Das metáforas direi o crepitar dos fogos,
Ora de águas, ora de ventos, quando não dos ares,
Pequenos nadas, somatizando febres, reversos,
Destroçadas vidas, fonemas, chispas e poemas.

E de os dizer hás de escutar tu, minha fome,
Aroma das ervas, temperos esquecidos, sais
Na boca de comer tudo, ó meu tanto pecado.

Sangue das trevas tu, ácidos e salivas, halos de ti,
Onde a borbulha das espumas sabe a frutas,
Furtivos beijos, e por dar-te o trevo destes dias...

2.

Todos os poemas são de amor na estação das frutas
Se, da minha gula, de apenas um gole te sorvesse
São tácteis desejos de chuva, outrora vidraças de ver
Tua espraiada partida, mesmo quando versos de solidão.

Todos os poemas são de outra música assim cantada
Em pertinazes versos, palavras quase ondas, viagens,
Chinas por aí, longe de nós a fímbria dos invernos
E estarei bem à porta – direi sempre - de chegada tua.

Os poemas são desenhos largados nas longas estradas
Errantes dos desertos, horas, dias, anos a fio, palavras
Pelas dunas – também direi sempre – do teu corpo.

Navegantes dos oásis, soletradas florestas de sermos,
Na noite e no dia, o esvoaçar das areias em rara clepsidra
De ti, porque doutra glosa não, serei neste silencio cativo...


3.

As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca,
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Silabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémens, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

4.

Tempos houve em que foste meu riso e meu siso,
Meu travesso sonho, de coisa alada, foste meu tudo,
Transeunte em cidade grande, eras meu néon,
À beira mar, a neblina para lá da tarde eras tu.

Também tu eras a réstia do crepúsculo e quase noite
Estrelavas a primeira estrela d´alva pela manhã
Pássaro que voa grande e redondo em torno do mundo
Cântico guardado no baú das lembranças circulares.

Eras sim tu na minha mão de apertar ninguém,
Outro alento quando arfavas à moribunda leoa
Animal caído em descanso, de qualquer remanso.

Eras e não eras nesses tempos tu, minha deusa,
No espelho transfigurado de algum reflexo,
Diletante água, meu sorriso, de coisa alada...





5.

O travo das nuvens que passam, o frenesim
Que somos à batuta dos momentos, na retina
Dá-me conta de bocados de nós, retirantes da vida,
Somente louvados daqueles que se amam.

Entrelinhas salpicadas de folhas, silvestres
Quadras impregnadas de calor e halo, incenso
Incendiado nos seios e nas coxas das flores,
Exalados aromas de quando esfíngica és tu.

Não só de palavras, das belas letras vivemos
Nós os de boca esventrada aos teoremas
Que refazem escalas das fórmulas soltas.

Mas de gestos e actos, de cujas pirâmides somos
Quais vértices onde nelas faz o sol zénite
E não terei outra eternidade senão teu olhar…



FILINTO ELÍSIO

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Coisas e Causas

Aeroporto da Praia

Pediram-me, de joelhos, que (não) escrevesse sobre o Aeroporto da Praia. Para uns, Novo Aeroporto da Praia (NAP, de feia sigla). Para outros, Aeroporto Internacional da Praia (AIP, sem comentários). É que depois de muito (não) dito, estava assente que o Aeroporto da Praia seria inaugurado a 4 de Julho de 2005, data emblemática para se inaugurar qualquer coisa, mormente algo assaz importante (não apenas para a Praia, mas para o país todo). Só que de repente, não mais do que de repente, estará alguém a dizer que talvez não. Faltam alguns requisitos técnicos, entendem? Procedimentos a ultimar, sabem como são essas coisas. Documentos em língua inglesa, por exemplo. O parque automóvel, imaginem só. Os tais constrangimentos, pelo que se pede a santa (santíssima, diga-se de passagem) paciência dos cabo-verdianos, em geral, e dos praienses, em particular. À pergunta, o que tem a ver a inauguração (acto simbólico) com a abertura ao tráfego (acto de gestão), ninguém responde. Em verdade, sem querer pressionar além do normal e do razoável, começa a passar do tempo para se inaugurar o Aeroporto da Praia. Para uns, Novo Aeroporto da Praia (NAP, de feia sigla). Para outros, Aeroporto Internacional da Praia (AIP, sem comentários). Por uma questão de causa. Quando não...de consequência!

Porto da Praia

Leio, com regozijo, que se prevê um grande desenvolvimento do Porto da Praia, de longe o mais movimentado e rentável do país. No quadro do Millenniun Challenge Account (MCA), fundo americano para alavancar o desenvolvimento dos países considerados da boa governança, dos Direitos Humanos e da economia aberta. O facto de Cabo Verde ter ganho o MCA prova, no mínimo, mérito e credibilidade. Cabo Verde vai dispor, nos próximos três anos, de 117,8 milhões de dólares. Mas dizia (com orgulho, verdade seja dita) que, em boa hora, se resolveu investir pesado no Porto da Praia. Fazer dele um dos portos mais apetrechados, seguros e competitivos da África Ocidental é uma decisão estratégica, a merecer o aplauso de todos. Bem, de todos nem por isso, já que o ratio do descontentamento é higiénico em democracia. Temos de ter, e de potenciar, uma opinião pública crítica capaz de analisar os grandes investimentos à luz dos custos/benefícios e das oportunidades multiplicadoras do desenvolvimento. É que a lucidez crítica, além de também higiénica, acabará por ser um grande factor do desenvolvimento...

Turismo e Cultura

Um grande fórum sobre o Turismo tem lugar no Mindelo, nos dias 17 e 18 de Junho. O II Encontro Internacional de Turismo, se não me engano, a envolver a Associação Nacional dos Municípios de Cabo Verde (ANMCV) e a União Nacional dos Operadores Turísticos (UNOTUR). Os painéis cobrem temas interessantes, diria mesmo fundamentais, como formação, transportes, marketing e financiamento. Só que nesta hora de se questionar - Que futuro para o turismo de Cabo Verde? -, importaria trazer para a ordem do dia a questão da Cultura. O Ambiente e a Cultura são hoje elementos essenciais em quaisquer debates de fundo sobre o Turismo. Temas como a bio-diversidade, a diversidade cultural, o eco-turismo e o turismo cultural, deviam ser transversais e permanentes nos fora de tamanha magnitude. Entretanto, saindo um tanto do cenário, numa praia da ilha do Sal um oeste-africano vende a um europeu um jacarézinho como Souvenir du Cap-Vert e, noutra aldeia, em Boa Vista um brasileiro apresenta uma rede índia como Made in Cape Verde. Pode? Isso, para não falar da Cidade Velha, da Cidade de São Filipe, do Ex Campo de Concentração do Tarrafal, das Salinas do Sal, do Maio e da Boa Vista, do Mindelo do Tempo d´Canequinha, enfim...valores fundamentais e de sustentabilidade.

quarta-feira, 8 de junho de 2005

As cidades e os versos

Gás lacrimogéneo

Nessa altura, a cidade cheirava a laranja azeda. Talvez não seja curial, nem romântico, falar desse cheiro nauseabundo que, pressentido assim à distância, sempre dá alguma saudade. De qualquer forma, eram tempos mais heróicos de que hoje e os amigos - tão diferentes outrora!, carregavam em simples gestos a dimensão da aurora. Mas não pretendo aqui falar do perfume daqueles dias sobressaltados, às vezes, de prisões na calada da noite, outras vezes, de amigos evadidos. Nessa infância (sim, porque tive aquela entre tantas outras), eu gostava muito dos versos de Ovídio Martins que os meus pais, insidiosos no educar com a necessária subversão, declamavam à mesa:

Mordaças a um poeta? Impossível!

Seria esta uma excelente ocasião para homenagear o grande poeta da resistência cabo-verdiana. É que a história não se compadece com o esquecimento. E a memória é, no mínimo, um acto de justiça. Acto de justiça. Nessa altura, nós estávamos sob bloqueios e só os homens maiúsculos ousavam ser poetas. Tempos depois, soube que a laranja azeda, pressentida numa manifestação em Belo Horizonte, era o cheiro de gás lacrimogéneo. E, ainda que soe paradoxal, sempre deu alguma saudade...

Fenway Blues

Soubeste dos tempos de Fenway Blues, do imenso parque vis-a-vis Queenbury Street. Os amigos ensaiavam na sala e queriam ser, à força e a eito, um quarteto a tocar no Wally´s . O Ney nos seus intermináveis acordes de Charlie Parker. O nosso apartamento era o Birdland. Quando cheguei a Boston, não tinha sobre a cidade uma opinião propriamente simpática. Só mais tarde, depois de a deambular de fio a pavio, é que me aquiesci de que ali estava a minha segunda cidade. A primeira era – e continua a ser - a Praia. Não por ser a mais limpa, nem a mais bonita. Apenas por ser, nas cem razões do amor, a mais querida. A mais limpa, parecia-me Genebra que conhecera num memorável Natal, e a mais bonita, me perdoem as outras, era Rio de Janeiro que amedrontava ao mesmo tempo que encantava. Mas Boston, dizia-vos, era uma cidade demorada de se amar. Ela deixava-se envolver, a princípio, puritana e austera, depois, comedida e mais solta, e, finalmente, alegremente culta. Por isso, fiz nascer os meus dois filhos – big boys, indeed – nessa cidade: o Denzel, em St Margareth Hospital, e o Pablo, em Beth Israel Hospital. De repente, estou na beirada do Charles River. Para ser mais preciso, do lado de Cambridge, onde a cidade de Boston parece de um dourado singular dos fins da tarde. Canoas a remo e pequenos veleiros passam por mim. E tu, se tanto, ficas agora mais aninhada no meu pensamento. Birdland, não me faças rir. Digo-te Birdland, neste vagar das ondas, como se declamasse os versos de T.S. Eliot:

Não sei muito acerca dos deuses
Mas creio que o rio é um deus castanho...


Livros destes últimos dias

O livro 1421: O Ano em que a China Descobriu o Mundo, de Gavin Manzies, diz que uma grande armada chinesa, constituída por 300 navios e 30 mil homens, partira do Porto de Tanggu, a 5 de Março de 1421 e descobriram as Américas e a África Ocidental, inclusive Cabo Verde, antes dos portugueses. Segundo esse autor, em Santo Antão, há uma pedra de estrutura octagonal, datado de 1421, com caracteres hieroglíficos chineses. Baseando em antigas cartas náuticas e em datas astronómicas, bem como nos despojos de navios nas ilhas atlânticas, ele defende que foram os chineses os primeiros a atingir a Cabo Verde, nessa primeira viagem completa à volta do mundo. Não comento certas “verdades” que desconheço, repto para os historiadores claro está, mas recomendo a leitura, quanto mais não seja ficcional, da obra. E por falar nisso...Não sou um fanático pela Teoria da Conspiração, mas o livro O Código de Da Vinci, de Dan Brown, proporcionou-me uma interessante leitura. Um jogo de chaves escondidas, revelações surpreendentes, enigmas complicados, realidades e fantasias históricas, tudo narrado a um ritmo que leva o leitor ao enigma mais fechado da nossa era. Li-o com prazer e curiosidade...

Hermético

Hermético, quem sabe, se influenciado pelas leituras acima descritas. Deixo-vos a chave dos meus enigmas, que os tenho por dever e direito. Há dias estava feliz por ter visto um passarinho verde e parece que um deus castanho não gostou. Do volante do seu jeep, tentou uma, duas e três voltas, a ver se Alonjo Quijano esquecia a sua Dulcineia. Mas quixotesco da silva, já velho demais para saber tanto acerca desses deuses. Enfim, tudo em horas de conhecer alguém, numa casa não se sabe de quem. Ela olha-o de modo tão uterino que outra melodia aquele encontro não poderia ter tido. E dito isto, meus caros, passem o pudor e a prudência, as mesuras todas da escrita e o que mais queiram, a história vos fica neste ponto final.

quinta-feira, 26 de maio de 2005

Variações VI

Por Filinto Elísio



Glosa, mote et cetera

Estou a vê-los desta janela da alma, como se assistisse ao espectáculo do mundo. Todos desfilam agora que a vida nasceu e ninguém poderá parar este pais nesta dinâmica. Hei-los, jovens do milénio, alegres e ruidosos, no «façam barulho» do Festival do Gamboa. Há uma poesia em tudo isto, há emoção preservada nesta memória de quem soube este pais bem mais deprimido. Quanto caminho percorrido. Estou a vê-los, uns aos beijos, outros aos gritos, e o pais esta cada vez mais na moda. O meu eu existencial fica neste turbilhão de imagens. Exteriores e interiores. A esfera (outra, que não se estratifica) derrama em mim uma estranha contenção. Onde estarás, minha alma plena? O incauto achará que estou numa fase romântica (e se estivesse?), mas não...ando, sim, a recear que o pássaro desenhado deste quadro (reprodução rústica de uma tela de Picasso, explique-se) saia da moldura e se torne realidade. Alguém há de me achar no mínimo esquisito, mas tu saberás que, para lá deste premeditado, eu sou livre. LIVRE!


Belo Horizonte como era

Belo Horizonte era uma cidade linda. Ladeada de serra, num vale verdejante, onde as avenidas corriam ao som da música sacra. Estávamos os dois profanos, sentados no barzinho da Rua Tupis, e lá vinha o repentista com os seus versos de cordel. Ele emparelhava as rimas e vertia o poema com a mesura do garçon no seu serviço de mesa. Ora, ao Parque Municipal a ver os cisnes que lembravam os poemas de Anna Ahknatova, ora, no Palácio das Artes a debater os filmes de Kurosowa. Quando não eram longas conversas sobre a Classificação Decimal Universal ou, então, a professora Janet a jurar que a Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges, era uma síntese entre a antiga Biblioteca de Alexandria e a moderna Biblioteca do Congresso. E aquele professor de História da Arte que só podia ser maluco! Mas que, ao tempo do mundo polarizado com o vergonhoso Muro de Berlim ao meio, dizia existir em cada cultura um capital especifico de valores. A cultura mantém a identidade humana no que ela tem de singular, dizia. Lembras-te do campus da Pampulha? Do Lago da Pampulha e daquele complexo arquitectónico assinado por Oscar Niemayer? Linda era a cidade de Belo Horizonte...

Os fantasmas da nossa voz

Este país começou a comemorar o seu Trigésimo Aniversario da Independência Nacional. Comemora-o, porque, para lá dos jargões políticos, a soberania aqui foi um dos motores do desenvolvimento. Cabo Verde tem, a meu ver, três recursos estratégicos, todos derivados do seu factor humano, nomeadamente, a cultura, a memória sublimada da fome e a boa imagem externa. A configuração geoestrategica é outro recurso importante, mas a historia diz-nos que, por vezes, ela tem servido para o trafico de escravos e para os apetites da planaterização do mundo. Falando nisso, nem te conto que há dias foi aqui apanhado um barco a zarpar com clandestinos da África Ocidental. A canalha chama-os aqui de mandjacos. Algo me perturba nisso tudo. A cena de quase uma centena de homens negros presos, em situação concentracionária e, depois, deportados em decisão sumaria, tudo isso me deixou pensativo. Isso mexeu com os meus insondáveis precipícios, confesso-te. Devo estar só, sozinho, a lamentar a sorte colectiva desses infelizes, embriagada esta opinião publica pela vitoria do Benfica e pela remota, mas masturbante, possibilidade de virarmos Europa. Agora, baixinho para que a rabentoleira não nos ouça, às vezes, tenho medo dos fantasmas da nossa voz. Ou do nosso pensamento. Outras vezes, estou mais positivo e seguro. Como o Esteves sem metafísica, diria Álvaro de Campos, no Tabacaria. Tu não me entendes. Eu também não me entendo tão categoricamente...

Tudo o que arde

Soube, por intuição apenas, que ainda continuas de vigília. Nessa mesma janela que dá para o mundo. Os barcos, presumo, entram e saem da baia. E nem sei se sabes daqueles últimos versos do Ode Marítima, de Álvaro de Campos. Se sabes, queria, agora como nunca, que dissesses cada palavra desse belo poema até ao derradeiro barco na neblina. E o que queres tu que eu diga? De repente, esse pássaro entra no meu calendário e tudo torna-se muito louco. Carregamos todos esta grande complexidade, um tanto ao quanto halográfica, pois vamos sendo, paradoxalmente, sapiens e demens, faber e ludens, empiricus e imaginarius, economicus e consumans, prosaicus e poeticus...Quando Deus fez o Verbo no começo de tudo, a escrita não surgira no seu frontispício. Espero-te em todos os lugares. Quando não te vejo – de ausência minha ou tua -, pressinto-te nos recônditos momentos de estar. E de ti falo o tempo todo, como se fosses tudo o que arde. Mas, se apareces, às vezes, triunfal e poderosa, outras vezes, temerosa como qualquer mortal, dou comigo a inventar metáforas para que nos teus olhos cintilem as estrelas impossíveis. Despeço-me, sem dizer-te adeus, a cada crónica semanal. Teremos quiçá um encontro marcado. Oh, como apetece exorcisar este castelo de hábitos e certezas. O afecto faz o nosso monge. O mapa oculto tem-no escrito algures cá dentro. E tenho-te pressentido, minha alma plena, desde o começo de tudo. Continuas a ser tudo o que arde...

Auto censura, mais cultura e o livro de estilos

Por Filinto Elísio


1.
Participámos há dias num debate televisivo sobre a Imprensa em Cabo Verde, no quadro da programação da TCV sobre os 30 anos da Independência de Cabo Verde. Debate aceso, interessante e necessário, não apenas pelos tópicos desenvolvidos, mas pela parte pedagógica de se debater as diversas grandes questões. Só que num debate de uma hora, com cinco convidados e meia dúzia de reportagens, muito terá ficado por dizer, razão porque quereremos retomar uma ou outra ideia abordada nesse fórum. Às tantas pela discussão ficou a ideia de que a auto censura não existe senão na cabeça dos jornalistas sem carácter, premissa, na minha opinião, viesada já que os mecanismos censurantes devem ser tratados com mais complexidade e delicadeza. Grosso modo, já que ninguém é absolutamente livre, os mecanismos censurantes condicionam a vida de todo o ser humano, em qualquer tempo e/ou lugar. A par disso, em não havendo censura como instituição em Cabo Verde, permanece ainda, e quiçá por muito tempo, o espectro do limite imposto e interiorizado pelo profissional da comunicação social. Ademais, a censura não é apenas a proibição do discurso, mas é, em larga medida, a obrigação de escrever e de reportar um certo discurso. O Dicionário do Jornalismo, de Fernando Cascais, define a auto censura como «mecanismo psicológico provocado directa ou indirectamente pela pressão envolvente que desencadeia limitações na capacidade de expressão do pensamento ou na liberdade de comunicar através dos media. As suas causas são múltiplas, da pressão política velada a instabilidade de emprego, passando pela ameaça económica de anunciantes ou patrocinadores». A partir de tal perspectiva quem dentre nós não lida com este mecanismo insidioso que atire a primeira pedra.

2.
Houve um tempo em que era necessário apontar o dedo para o outro, buscar, no contexto e na conjuntura, as razões para justificar determinadas insuficiências. Sinceramente que não consideramos ser essa a via mais correcta, nem ser essa a melhor estratégia. Importa-nos, antes de mais, identificar o problema e evidenciá-lo a partir da ideia da sublimação. O jornalismo cabo-verdiano evoluiu muito, e bem, nos últimos 30 anos. O campo mediático alargou-se e hoje há relativa liberdade da imprensa – o espectro mediático, pelos órgãos que oferece e pelas linhas editoriais que apresenta, revela que um enorme espaço de manobra para o jornalista e para o cidadão. A velha pergunta: é a liberdade da imprensa ou do jornalista? Por ora, interessa-nos consolidar a liberdade da imprensa, ficando a liberdade do jornalista (no órgão e na sociedade) para uma outra análise.


3.
Só que, como diz a gíria brasileira, “o buraco é mais em baixo”. Em verdade, a classe dos jornalistas precisa de uma profunda introspecção. Como em muitas profissões, os jornalistas precisam estar mais informados para melhor informar, mais especializados em face das áreas especificas do conhecimento, dominar as novas tecnologias de informação e as técnicas de investigação e ser mais competitivos. Os jornalistas precisam ser mais cultos quando abordam a tensão política na Guiné-Bissau ou o campeonato europeu de futebol, passando pela violência doméstica ou pela mecânica do deficit publico em Cabo Verde. Precisam ser mais profundos a tratar da questão da integração ou da parceria europeia, a olhar o espectro político-partidário e a cobrir a carreira artística de Cesária Évora. Pequenas e grandes agendas, mas que exigem tratamento profissional e de qualidade, em prol da informação e do direito do consumidor. Sem simplismo, nem tábua rasa, o grande problema do jornalismo cabo-verdiano ainda reside no próprio jornalista, uma questão mais de forma e de conteúdo do que propriamente de contexto, por mais que este ultimo aspecto interfira na problemática.

4.
Digamos que o grande desafio do jornalismo cabo-verdiano tem a ver com a qualidade, isto é, com o domínio das regras técnicas e deontológicas, que se inspiram em critérios de bom senso, bom gosto e rigor profissional. A introdução dos livros de estilo nas redacções tornou-se um must e um factor na definição da qualidade e da credibilidade de um meio de comunicação social. Os livros de estilo são orientadores de normas linguisticas, técnicas e éticas que, cumpridas, uniformizam um padrão de qualidade, sem por em causa a criatividade e a liberdade do profissional.

sábado, 7 de maio de 2005

Hace falta estar ciego

Rafael Alberti


Hace falta estar ciego,
tener como metidas en los ojos raspaduras de vidrio,
cal viva,
arena hirviendo,
para no ver la luz que salta en nuestros actos,
que ilumina por dentro nuestra lengua,
nuestra diaria palabra.
.
Hace falta querer morir sin estela de gloria y alegría,
sin participación de los himnos futuros,
sin recuerdo en los hombres que juzguen el pasado sombrío de la tierra.
.
Hace falta querer ya en vida ser pasado,
obstáculo sangriento,
cosa muerta,
seco olvido.

Joal, Joal

Leopold Sedar Senghor


Sow, voila Joal.
Joal!
Je me rappelle.
Je me rappelle les signares à l'ombre verte des vérandas
Les signares aux yeux surréels comme un clair de lune sur la grève.
Je me rappelle les fastes du Couchant
Où Koumba N'Dofène voulait faire tailler son manteau royal.
Je me rappelle les festins funèbres fumant du sang des troupeaux égorgés
Du bruit des querelles, des raphsodies des griots.
Je me rappelle les voix paiennes rythmant le Tantum Ergo
Et les processions et les palmes et les arcs de triomphe.
Je me rappelle la danse des filles nubiles
Les choeurs de lutte - oh ! la danse finale des jeunes hommes, buste
Penché élancé, et le pur cri d'amour des femmes _
Kor Siga!
Je me rappelle, je me rappelle...
Ma tête rythmant
Quelle marche lasse le long des jours d'Europe où parfois
Apparait un jazz orphelin qui sanglote sanglote sanglote.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Uma questão de alma moderna

por Filinto Elísio





Em tributo à “alma moderna” de António de Paula Brito, Pedro Cardoso,Eugénio Tavares e Luis Loff de Vasconcelos



Com o coração na mão


Neste processo de oficialização do crioulo, vozes, aqui e acolá, prós e contra, dirão da sua justiça e contribuirão para prossecução do debate necessário que importa revigorar. O dia é agora e o lugar é aqui. E, antes de mais, importa reafirmar que a padronização da língua (não confundir com imposição) pressupõe obviamente, em exacta dimensão e proporção, a ideia de ser a nossa unidade estribada na nossa língua materna, como ela é falada e cultivada em cada espaço e em cada região do nosso país. Mais do que isso até: em cada comunidade mais ao largo da nossa nação. Em todos os tempos e lugares, o afrontamento da língua nacional se coloca em determinado momento do desenvolvimento. Sobretudo, em momentos de pique do desenvolvimento humanista, como é o que se vive hoje em Cabo Verde, 30 anos passados sobre a nossa Independência Nacional. E o processo de afirmação linguística nunca foi feito em águas serenadas. Língua tem a ver com cultura, poder, afirmação e coisas afins, de modo que envolve princípios e interesses, tanto convergentes como divergentes...


Processo que vem do antanho


Na Europa, por exemplo, a oficialização das línguas nacionais deu-se na sua maioria durante o Renascimento, momento no qual os principais países abandonaram as estruturas - económicas, sociais, culturais - feudais e entram na fase moderna. Com o fim da Idade Média os romances falados passam a afirmar-se como línguas escritas e de cultura; o francês, o italiano, o castelhano, assim como o português, passam a ter, por diferentes processos, o estatuto de línguas oficiais. Era o latim a língua escrita por excelência; as línguas nacionais foram se constituindo, como se depreende, em variedades orais. Elas passam por um processo gradual de legitimação que inclui a homogeneização das formas de escrita e a escolha de uma variedade padrão a ser transcrita. Este processo de ‘padronização’ das variedades “nacionais” vai culminar na formação das línguas nacionais. A formação do português como língua nacional está, naturalmente, contextualizada nesse processo mais geral do desenvolvimento renascentista europeu. A língua portuguesa afirma-se no período dos descobrimentos em que Portugal teve um papel central na Europa, especialmente no que tange às inovações técnicas ligadas à navegação e aos conhecimentos geográficos. É nesse contexto de humanismo que surgem as primeiras gramáticas: a de Fernão de Oliveira em 1536, e a de João de Barros em 1539.


E o quiproquó que aquilo deu?


Também em Portugal, a questão não foi pacífica. As peças em defesa da língua portuguesa tinham de passar por três instâncias censórias antes de serem licenciadas: o Santo Ofício, o Ordinário eclesiástico e o Paço. A gramática de Barros foi listada no index de obras proibidas; Fernão de Oliveira foi preso e condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Isso, para desdramatizarmos um ou outro frisson que o processo de afirmação línguística possa provocar nestas paragens...


A palavra dos outros


Este processo de afirmação línguística, desde o antanho, tem defensores respeitáveis. Vejamos, por exemplo, o que diz a voz abalizada de Aristides Lima, Presidente da Assembleia Nacional, sobre a problemática (é de dar a palavra aos outros, note-se): “O poder político tem urgentemente de fazer mais do que fez até agora. Ele está convocado a, eventualmente, fazer o seu exercício de desalienação cultural. Ele está convocado a reconhecer à língua mais falada pela comunidade cabo-verdiana um estatuto de igual dignidade que o português. Ele está convocado a reconhecer a cada um de nós o direito ao ensino em língua cabo-verdiana, ao lado do direito ao ensino em português; a reconhecer o direito do uso do crioulo em correspondências e documentos oficiais e, ainda, o direito a um presença equitativa do crioulo nos meios de comunicação social do Estado. Isto não é nenhum favor. É tão somente escutar o imperativo do direito humano à língua e reconhecer o direito à igualdade das duas línguas que caracterizam a nossa cultura.”


O bilinguismo é uma valência


O processo de afirmação da língua cabo-verdiana, sobretudo, o processo da construção do bilinguismo cabo-verdiano, prima-se pela busca de um consenso amplo, alargado e participado. Um processo que observa sensibilidades e competências, factores socio-linguísticos e histórico-linguísticos, oportunidades identitárias e de desenvolvimento. Um processo construído de há séculos e que atinge o ápice do debate, agora que o país faz 30 anos da Independência Nacional. O bilinguismo não é um dilema, nem uma dicotomia, mas uma realidade ambivalente com soluções para os desafios de Cabo Verde. Por ser uma ambivalência enriquecedora, importa potenciá-la. A padronização escrita do crioulo e a democratização do português são dois passos importantes no processo de construção nacional. Outro passo, não menos importante, seria a elaboração do crioulo-padrão que deverá se sobrepor à multiplicidade de variantes da língua no arquipélago, constituindo-se como um novo símbolo de unidade no país. Por isso, haja diferença, mas com serenidade; contradição, com boa-fé...em face de um desígnio histórico. E o melhor laboratório para tal padronização é a sua socialização no Ensino (o Superior, sobretudo) e na Comunicação Social. E o seu óbvio reconhecimento de língua paritária na Administração Pública. Outrossim, não estamos em tempo de imposições. Nem as da maioria, obviamente. E muito menos as da minoria, como fora norma nestas ilhas, antes, de colonialismo e, depois, de auto-colonialismo. De facto, o grande Albert Einstein tinha razão ao dizer que “é muito mais fácil dissecar o átomo do que desenraizar preconceitos”. Por isso, faça-se o caminho a caminhar, desintegrando o átomo de certos preconceitos. Numa autêntica (e desta feita genuína) largada de consciencialização. Já ninguém aceita ser auto-colonizado nestas ilhas, venha esta maldição sob a roupagem que vier e este vaticínio da boca de quem vier. É que “o dia nasceu”, como diria o poeta Mário Fonseca...

quarta-feira, 20 de abril de 2005

LAURO MOREIRA (em três momentos)

1º Momento (manhosa era a lua, com poesia)

Manhosa era a lua intrometida nas nuvens. Errante, andante, minguante, como nessa música de Princesito. Manhosa a voz de Mayra Andrade, naturalmente. Manhosa a onda que, meia-noite, brincava aos pezinhos nossos na praia do Mangue. Manhosa a manhã que abria, com o sol que ainda nem queimava e cantava o galo imperceptível das recordações. E à cristalina clarabóia que a tarde empresta e à neurastenia barbosiana desta hora, leio agora, com vagar, Poemeto Erótico...de Manuel Bandeira!

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...

Tão bom poder declamar, ali à beira da piscina, entre gente interessada e bonita desta hora, os versos de Manuel Bandeira. Parecia ali estar a musa mais procurada, de repente reencontrada, aninhada entre os presentes. Dona do meu imaginário, com seus olhos de amêndoa verde e sua pele moreníssima, a cintilar cá dentro a minha infância. Esse atónito e obsessivo desejo. Águas a transbordar cá dentro. E nada está certo neste lugar de não estar.

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Ali estava ela, a poesia. Estava ali, consubstanciada em tantas outras, sorridente e poderosa. De Manuel Bandeira, Lauro Moreira, embaixador e director da Agência da Cooperação Brasileira, amigo íntimo, companheiro no vate e na palavra, que fora. Mas de Jorge Barbosa, alma gémea de Bandeira, ele nos confessara pena, muita pena mesmo, de não o ter conhecido em vida.

O Embaixador do Brasil em Cabo Verde, Victor Gobato acabava de “transformar” a sua tão diplomática quão deliciosa residência em centro cultural. Espaço de música e poesia. Tertúlia preto no branco. Se há discurso, ele vem solto. Salpicado de humor. Apetece fazer um grande manifesto cultural e marcar, em definitivo, o lugar. E a hora.

Lauro Moreira manda calar o momento (primeiro, como está aqui nomeado) e declama Navio, de Jorge Barbosa. "Leva-me contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja em todos nós um incessante navio "que nunca partiu, que nunca partirá", a poesia dita, com tanta mestria e coração, nos petrifica no cais da palavra...

2º Momento (Machado de Assis e eu não estou)


Dia seguinte, para ser mais exacto. Percorro a avenida e na rotunda o bronze de um homem nu. Homem de Pedra, chamam-no. Aprimorado por uma noite de vento, desse vento imaterial que galopa. A intensa avenida de crina silenciosa de quando se sai do trabalho. Apetecia-me pastar noutras paragens. E eu esquecido que Lauro Moreira dava um autêntico recital sobre um dos meus favoritos, Machado de Assis, escritor de sanha atenta e de verve de tanta nomeada. Padre António Vieira e Machado de Assis. Dos modernos, se não estou neurasténico, Gabriel Garcia Marquez e parem vocês de se armar em intelectocratas de café. E vou, ao volante do velho Starlet, balbuciando o Soneto de Amor e Sóis, de Ruy Espinheira Filho:

de água cintilante de tão negra,
eram teus olhos de água luminosa
como só umas raras dessas brisas
chamadas alma, eram os teus olhos

Poesia é uma mulher imaginária que dança. Sob o seu véu, mamas sem a artificialidade de um silicone. Ou não?

Chego a casa, com o fim do dia a pesar sobre os ombros. E a necessária réstia de energia para dar mimos ao Pablo. Roubo-me momentos para ler um conto de Machado de Assis – A Mulher de Preto, no caso. Penso no casal Gobato, que a diplomacia brasileira deve muito e a cabo-verdiana mais ainda. E como estaria Lauro Moreira a discorrer sobre Machado de Assis nesse preciso instante, no Palácio da Cultura Ildo Lobo? O mestre que assim escreveria: Por que acabaremos no primeiro capítulo? perguntou ele; um amigo não é coisa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses.

3º Momento (hora quase severina)

Mais um dia, para quem quiser fazer o roteiro deste filme...Pude conversar longamente com Lauro Moreira. Sônia Gobato, embaixatriz e anfitriã, coloca-nos na mesma mesa. Éramos quatro nessa mesa: David Hopffer Almada e Dolores Vasconcelos completavam a quadrilha. Falou-se de tudo um pouco. Do Brasil e de Cabo Verde. Os pergaminhos de uma diplomacia sul-sul. Da complementaridade entre os dois países – um tomado de continentalidade, outro lançado na sua insularidade. Ambos com fome do mundo. Um por ser demasiado grande. E outro, demasiado pequeno. A súmula dos dois mundos. O integracionismo antropofágico das nossas culturas. E, obviamente, da poesia. Dos poetas. Do poeta João Cabral de Melo Neto, em particular...

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida

Embarco, como Jorge Barbosa outrora fizera, numa circundante e nostálgica viagem. Alguns Toureiros, de João Cabral de Melo Neto, com fina entoação e sem poetizar seu poema, dito por Lauro Moreira. Arre que não consigo ser cronista bem comportado! Logo agora que entro (sinto-o a cada pulsar) nesta fase “manhosa”...

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Alguns Toureiros

de João Cabral de Melo Neto


Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema

sábado, 9 de abril de 2005

Cais

de Manuel Lopes



Nunca parti deste cais

e tenho o mundo na mão!

Para mim nunca é demais

responder sim

cinquenta vezes a cada não.



Por cada barco que me negou

cinquenta partem por mim

e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!

O imperativo da voz de Helberto Helder

Sou eu, assimétrico, artesão, anterior / - na infância, no inferno. [...] Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue, / defronte / da massa inóspita ou da massa / mansa de outros nomes. / Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves / nomes, / escrevem-nos os dedos ferozes no papel / pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo / e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que, / gramatical, carnalmente, me reparto...

quarta-feira, 23 de março de 2005

Um tanto de tudo e um pouco de nada

As Mil e Uma Noites

Sheherazade e as Mil e Uma Noites sempre foram as minhas referências literárias fundamentais. As Mil e Uma Noites, porque a outra só se perde, no campo da complexidade estética, apenas pela Bíblia e o Corão. E concorre à minha cabeceira com Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, e Mensagem, de Fernando Pessoa. Exagero um bocado, mas não estou longe da verdade. E Sheherazade, porque retém toda a minha fantasia da musa inspiradora e primordial da verdadeira literatura. Sheherazade, para mim, é o supremo poder da mulher, isto é, sedutora e sensual como a água das fontes na secura dos nossos múltiplos preconceitos. Agora que entramos na Semana da Cultura no Feminino, uma iniciativa do Ministério da Cultura, germinam cá dentro algumas inquietações em torno de conceitos como mulher, homem, feminino, masculino, feminismo, machismo e feminilidade. Grandes questionamentos se impõem. Como é que a mulher pode actuar num mundo masculino de uma forma não masculina? Como é que a mulher, que não produz o conjunto das regras de funcionamento do mundo, pode processar a sua própria emancipação? Antes de mais, a mulher deverá recusar a tentação — de ser homem — esse caminho dominante do "ser". O modelo de actuação masculino baseado neste amálgama milenar, responde a uma imagem legitimada do que é ser e isto tende a ser paradigma para certos feminismos, na linha na monossexualidade do discurso antropológico. Tudo isso, para dizer-vos, caros leitores, que a verdadeira libertação é do género e que todo o ser humano – o macho, na sua condição ulterior – guarda a sua condição feminina. A sua Sheherazade...

Ora Europa, ora África

Cabo Verde, por ser país pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, tem vivido ao longo da sua História a procurar âncoras. As suas elites, desde o antanho, procuram pensar a estabilidade destas ilhas a partir de matrizes exógenas, produtoras de valores materiais e imateriais que, com criatividade e fé no Além, sempre ajudam a sobreviver (e, em períodos mais excepcionais, a desenvolver). Mas essa procura está inscrita na nossa memória genética de um tropismo sincrético, de somatório de várias componentes, que, em certas horas, se afirmam e, noutras horas, se recusam. Ora Europa, ora África, quando não Europa e África. Ou mesmo Euroáfrica, passe o composto. Mas a questão é mais complexa do que parece. As ligações com o Brasil sempre friccionaram os nossos sentimentos mais íntimos. Eu gosto de você, Brasil, diria Jorge Barbosa no seu vate modal. A simbiose com Portugal lateja em nós e se consolida, mesmo quando, a medo da despersonalização, nos sentimos a entregar. Ou quando descobrimos que o negócio da Electra, com os olhos de ver mesmo, foi um grande negócio da China. Os ilustres Mário Soares e Adriano Moreira formulam hipóteses de entrarmos (periféricos ou de cabeça) na União Europeia e aí estamos nós, sem paciência nem tempo para analisar a prenda na sua condição e intenção, a dar vivas e alvíssaras. E a âncora também pode ser a Espanha – afinal já fomos também espanhóis, filipenses da silva, enfim. Pode ser a África do Sul e/ou Angola, pois, estes lá podem ter as suas grandes mazelas, mas são terras de ouro e de petróleo e isto, deixemo-nos de tretas, conta irremediavelmente. A Guiné-Bissau, agora dilacerada pelo momento histórico, será, como já foi aliás, um espaço para nós vital, razão porque temos de olhar para esse país vizinho (e irmão, diga-se pelas nossas informações genéticas, ora) com alguma prudência e proposta de complementaridade. Âncora, ainda que pareça absurdo. País pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, Deus nos há de ajudar nesta vocação de procura. O mundo é redondo afinal...

E agora América

Cabo Verde foi um dos 16 países premiados com os Fundos do MCA Estes países foram escolhidos, segundo o jornal Washington Post, por serem países pobres, mas democráticos, com a capacidade tácita de promover reformas económicas e sociais. A postura adoptada pelo governo de Washington, pode ser analisada como uma retomada das ideias wilsonianas de 1919 em que o conceito de democracia aliado ao conceito de segurança colectiva seria resultante de bons fluídos ao comércio. E nós com isso? Cabo Verde é o único país da África Ocidental que vive na estabilidade, no crescimento saudável e na cultura da paz. O único. Este estatuto nos aproxima naturalmente da América. Os EUA, que estão em guerra contra o terrorismo global, consideram que há uma ameaça sobre os seus cidadãos e sobre o seu território e que, face a ela, é essencial buscar outras sociabilidades e encontrar novos aliados. Tenhamos coragem de analisar as coisas de frente e de despir a lógica não-alinhada do tempo da Guerra Fria. O peso da antiga estrutura mental deve dar lugar a uma leveza de olhar, disposto a reformas e inovação que se impõem. Torna-se mister compreender que a relação entre Cabo Verde e os Estados Unidos deixou de ser a mesma desde o fim da Guerra Fria. Enquanto país de vocação atlântica, precisamos colocar acento na cooperação mais intensa com os EUA, sem pôr em causa os nossos múltiplos interesses. É que, sendo o mundo realmente redondo, se reforça o atavismo estratégico entre Cabo Verde e os EUA. Nem sempre se pode fazer poesia, ao fim e ao cabo...

sábado, 19 de março de 2005

Dia Mundial da Poesia - 21 de Março

Tabacaria





Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos