quinta-feira, 26 de maio de 2005

Variações VI

Por Filinto Elísio



Glosa, mote et cetera

Estou a vê-los desta janela da alma, como se assistisse ao espectáculo do mundo. Todos desfilam agora que a vida nasceu e ninguém poderá parar este pais nesta dinâmica. Hei-los, jovens do milénio, alegres e ruidosos, no «façam barulho» do Festival do Gamboa. Há uma poesia em tudo isto, há emoção preservada nesta memória de quem soube este pais bem mais deprimido. Quanto caminho percorrido. Estou a vê-los, uns aos beijos, outros aos gritos, e o pais esta cada vez mais na moda. O meu eu existencial fica neste turbilhão de imagens. Exteriores e interiores. A esfera (outra, que não se estratifica) derrama em mim uma estranha contenção. Onde estarás, minha alma plena? O incauto achará que estou numa fase romântica (e se estivesse?), mas não...ando, sim, a recear que o pássaro desenhado deste quadro (reprodução rústica de uma tela de Picasso, explique-se) saia da moldura e se torne realidade. Alguém há de me achar no mínimo esquisito, mas tu saberás que, para lá deste premeditado, eu sou livre. LIVRE!


Belo Horizonte como era

Belo Horizonte era uma cidade linda. Ladeada de serra, num vale verdejante, onde as avenidas corriam ao som da música sacra. Estávamos os dois profanos, sentados no barzinho da Rua Tupis, e lá vinha o repentista com os seus versos de cordel. Ele emparelhava as rimas e vertia o poema com a mesura do garçon no seu serviço de mesa. Ora, ao Parque Municipal a ver os cisnes que lembravam os poemas de Anna Ahknatova, ora, no Palácio das Artes a debater os filmes de Kurosowa. Quando não eram longas conversas sobre a Classificação Decimal Universal ou, então, a professora Janet a jurar que a Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges, era uma síntese entre a antiga Biblioteca de Alexandria e a moderna Biblioteca do Congresso. E aquele professor de História da Arte que só podia ser maluco! Mas que, ao tempo do mundo polarizado com o vergonhoso Muro de Berlim ao meio, dizia existir em cada cultura um capital especifico de valores. A cultura mantém a identidade humana no que ela tem de singular, dizia. Lembras-te do campus da Pampulha? Do Lago da Pampulha e daquele complexo arquitectónico assinado por Oscar Niemayer? Linda era a cidade de Belo Horizonte...

Os fantasmas da nossa voz

Este país começou a comemorar o seu Trigésimo Aniversario da Independência Nacional. Comemora-o, porque, para lá dos jargões políticos, a soberania aqui foi um dos motores do desenvolvimento. Cabo Verde tem, a meu ver, três recursos estratégicos, todos derivados do seu factor humano, nomeadamente, a cultura, a memória sublimada da fome e a boa imagem externa. A configuração geoestrategica é outro recurso importante, mas a historia diz-nos que, por vezes, ela tem servido para o trafico de escravos e para os apetites da planaterização do mundo. Falando nisso, nem te conto que há dias foi aqui apanhado um barco a zarpar com clandestinos da África Ocidental. A canalha chama-os aqui de mandjacos. Algo me perturba nisso tudo. A cena de quase uma centena de homens negros presos, em situação concentracionária e, depois, deportados em decisão sumaria, tudo isso me deixou pensativo. Isso mexeu com os meus insondáveis precipícios, confesso-te. Devo estar só, sozinho, a lamentar a sorte colectiva desses infelizes, embriagada esta opinião publica pela vitoria do Benfica e pela remota, mas masturbante, possibilidade de virarmos Europa. Agora, baixinho para que a rabentoleira não nos ouça, às vezes, tenho medo dos fantasmas da nossa voz. Ou do nosso pensamento. Outras vezes, estou mais positivo e seguro. Como o Esteves sem metafísica, diria Álvaro de Campos, no Tabacaria. Tu não me entendes. Eu também não me entendo tão categoricamente...

Tudo o que arde

Soube, por intuição apenas, que ainda continuas de vigília. Nessa mesma janela que dá para o mundo. Os barcos, presumo, entram e saem da baia. E nem sei se sabes daqueles últimos versos do Ode Marítima, de Álvaro de Campos. Se sabes, queria, agora como nunca, que dissesses cada palavra desse belo poema até ao derradeiro barco na neblina. E o que queres tu que eu diga? De repente, esse pássaro entra no meu calendário e tudo torna-se muito louco. Carregamos todos esta grande complexidade, um tanto ao quanto halográfica, pois vamos sendo, paradoxalmente, sapiens e demens, faber e ludens, empiricus e imaginarius, economicus e consumans, prosaicus e poeticus...Quando Deus fez o Verbo no começo de tudo, a escrita não surgira no seu frontispício. Espero-te em todos os lugares. Quando não te vejo – de ausência minha ou tua -, pressinto-te nos recônditos momentos de estar. E de ti falo o tempo todo, como se fosses tudo o que arde. Mas, se apareces, às vezes, triunfal e poderosa, outras vezes, temerosa como qualquer mortal, dou comigo a inventar metáforas para que nos teus olhos cintilem as estrelas impossíveis. Despeço-me, sem dizer-te adeus, a cada crónica semanal. Teremos quiçá um encontro marcado. Oh, como apetece exorcisar este castelo de hábitos e certezas. O afecto faz o nosso monge. O mapa oculto tem-no escrito algures cá dentro. E tenho-te pressentido, minha alma plena, desde o começo de tudo. Continuas a ser tudo o que arde...

Auto censura, mais cultura e o livro de estilos

Por Filinto Elísio


1.
Participámos há dias num debate televisivo sobre a Imprensa em Cabo Verde, no quadro da programação da TCV sobre os 30 anos da Independência de Cabo Verde. Debate aceso, interessante e necessário, não apenas pelos tópicos desenvolvidos, mas pela parte pedagógica de se debater as diversas grandes questões. Só que num debate de uma hora, com cinco convidados e meia dúzia de reportagens, muito terá ficado por dizer, razão porque quereremos retomar uma ou outra ideia abordada nesse fórum. Às tantas pela discussão ficou a ideia de que a auto censura não existe senão na cabeça dos jornalistas sem carácter, premissa, na minha opinião, viesada já que os mecanismos censurantes devem ser tratados com mais complexidade e delicadeza. Grosso modo, já que ninguém é absolutamente livre, os mecanismos censurantes condicionam a vida de todo o ser humano, em qualquer tempo e/ou lugar. A par disso, em não havendo censura como instituição em Cabo Verde, permanece ainda, e quiçá por muito tempo, o espectro do limite imposto e interiorizado pelo profissional da comunicação social. Ademais, a censura não é apenas a proibição do discurso, mas é, em larga medida, a obrigação de escrever e de reportar um certo discurso. O Dicionário do Jornalismo, de Fernando Cascais, define a auto censura como «mecanismo psicológico provocado directa ou indirectamente pela pressão envolvente que desencadeia limitações na capacidade de expressão do pensamento ou na liberdade de comunicar através dos media. As suas causas são múltiplas, da pressão política velada a instabilidade de emprego, passando pela ameaça económica de anunciantes ou patrocinadores». A partir de tal perspectiva quem dentre nós não lida com este mecanismo insidioso que atire a primeira pedra.

2.
Houve um tempo em que era necessário apontar o dedo para o outro, buscar, no contexto e na conjuntura, as razões para justificar determinadas insuficiências. Sinceramente que não consideramos ser essa a via mais correcta, nem ser essa a melhor estratégia. Importa-nos, antes de mais, identificar o problema e evidenciá-lo a partir da ideia da sublimação. O jornalismo cabo-verdiano evoluiu muito, e bem, nos últimos 30 anos. O campo mediático alargou-se e hoje há relativa liberdade da imprensa – o espectro mediático, pelos órgãos que oferece e pelas linhas editoriais que apresenta, revela que um enorme espaço de manobra para o jornalista e para o cidadão. A velha pergunta: é a liberdade da imprensa ou do jornalista? Por ora, interessa-nos consolidar a liberdade da imprensa, ficando a liberdade do jornalista (no órgão e na sociedade) para uma outra análise.


3.
Só que, como diz a gíria brasileira, “o buraco é mais em baixo”. Em verdade, a classe dos jornalistas precisa de uma profunda introspecção. Como em muitas profissões, os jornalistas precisam estar mais informados para melhor informar, mais especializados em face das áreas especificas do conhecimento, dominar as novas tecnologias de informação e as técnicas de investigação e ser mais competitivos. Os jornalistas precisam ser mais cultos quando abordam a tensão política na Guiné-Bissau ou o campeonato europeu de futebol, passando pela violência doméstica ou pela mecânica do deficit publico em Cabo Verde. Precisam ser mais profundos a tratar da questão da integração ou da parceria europeia, a olhar o espectro político-partidário e a cobrir a carreira artística de Cesária Évora. Pequenas e grandes agendas, mas que exigem tratamento profissional e de qualidade, em prol da informação e do direito do consumidor. Sem simplismo, nem tábua rasa, o grande problema do jornalismo cabo-verdiano ainda reside no próprio jornalista, uma questão mais de forma e de conteúdo do que propriamente de contexto, por mais que este ultimo aspecto interfira na problemática.

4.
Digamos que o grande desafio do jornalismo cabo-verdiano tem a ver com a qualidade, isto é, com o domínio das regras técnicas e deontológicas, que se inspiram em critérios de bom senso, bom gosto e rigor profissional. A introdução dos livros de estilo nas redacções tornou-se um must e um factor na definição da qualidade e da credibilidade de um meio de comunicação social. Os livros de estilo são orientadores de normas linguisticas, técnicas e éticas que, cumpridas, uniformizam um padrão de qualidade, sem por em causa a criatividade e a liberdade do profissional.

sábado, 7 de maio de 2005

Hace falta estar ciego

Rafael Alberti


Hace falta estar ciego,
tener como metidas en los ojos raspaduras de vidrio,
cal viva,
arena hirviendo,
para no ver la luz que salta en nuestros actos,
que ilumina por dentro nuestra lengua,
nuestra diaria palabra.
.
Hace falta querer morir sin estela de gloria y alegría,
sin participación de los himnos futuros,
sin recuerdo en los hombres que juzguen el pasado sombrío de la tierra.
.
Hace falta querer ya en vida ser pasado,
obstáculo sangriento,
cosa muerta,
seco olvido.

Joal, Joal

Leopold Sedar Senghor


Sow, voila Joal.
Joal!
Je me rappelle.
Je me rappelle les signares à l'ombre verte des vérandas
Les signares aux yeux surréels comme un clair de lune sur la grève.
Je me rappelle les fastes du Couchant
Où Koumba N'Dofène voulait faire tailler son manteau royal.
Je me rappelle les festins funèbres fumant du sang des troupeaux égorgés
Du bruit des querelles, des raphsodies des griots.
Je me rappelle les voix paiennes rythmant le Tantum Ergo
Et les processions et les palmes et les arcs de triomphe.
Je me rappelle la danse des filles nubiles
Les choeurs de lutte - oh ! la danse finale des jeunes hommes, buste
Penché élancé, et le pur cri d'amour des femmes _
Kor Siga!
Je me rappelle, je me rappelle...
Ma tête rythmant
Quelle marche lasse le long des jours d'Europe où parfois
Apparait un jazz orphelin qui sanglote sanglote sanglote.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Uma questão de alma moderna

por Filinto Elísio





Em tributo à “alma moderna” de António de Paula Brito, Pedro Cardoso,Eugénio Tavares e Luis Loff de Vasconcelos



Com o coração na mão


Neste processo de oficialização do crioulo, vozes, aqui e acolá, prós e contra, dirão da sua justiça e contribuirão para prossecução do debate necessário que importa revigorar. O dia é agora e o lugar é aqui. E, antes de mais, importa reafirmar que a padronização da língua (não confundir com imposição) pressupõe obviamente, em exacta dimensão e proporção, a ideia de ser a nossa unidade estribada na nossa língua materna, como ela é falada e cultivada em cada espaço e em cada região do nosso país. Mais do que isso até: em cada comunidade mais ao largo da nossa nação. Em todos os tempos e lugares, o afrontamento da língua nacional se coloca em determinado momento do desenvolvimento. Sobretudo, em momentos de pique do desenvolvimento humanista, como é o que se vive hoje em Cabo Verde, 30 anos passados sobre a nossa Independência Nacional. E o processo de afirmação linguística nunca foi feito em águas serenadas. Língua tem a ver com cultura, poder, afirmação e coisas afins, de modo que envolve princípios e interesses, tanto convergentes como divergentes...


Processo que vem do antanho


Na Europa, por exemplo, a oficialização das línguas nacionais deu-se na sua maioria durante o Renascimento, momento no qual os principais países abandonaram as estruturas - económicas, sociais, culturais - feudais e entram na fase moderna. Com o fim da Idade Média os romances falados passam a afirmar-se como línguas escritas e de cultura; o francês, o italiano, o castelhano, assim como o português, passam a ter, por diferentes processos, o estatuto de línguas oficiais. Era o latim a língua escrita por excelência; as línguas nacionais foram se constituindo, como se depreende, em variedades orais. Elas passam por um processo gradual de legitimação que inclui a homogeneização das formas de escrita e a escolha de uma variedade padrão a ser transcrita. Este processo de ‘padronização’ das variedades “nacionais” vai culminar na formação das línguas nacionais. A formação do português como língua nacional está, naturalmente, contextualizada nesse processo mais geral do desenvolvimento renascentista europeu. A língua portuguesa afirma-se no período dos descobrimentos em que Portugal teve um papel central na Europa, especialmente no que tange às inovações técnicas ligadas à navegação e aos conhecimentos geográficos. É nesse contexto de humanismo que surgem as primeiras gramáticas: a de Fernão de Oliveira em 1536, e a de João de Barros em 1539.


E o quiproquó que aquilo deu?


Também em Portugal, a questão não foi pacífica. As peças em defesa da língua portuguesa tinham de passar por três instâncias censórias antes de serem licenciadas: o Santo Ofício, o Ordinário eclesiástico e o Paço. A gramática de Barros foi listada no index de obras proibidas; Fernão de Oliveira foi preso e condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Isso, para desdramatizarmos um ou outro frisson que o processo de afirmação línguística possa provocar nestas paragens...


A palavra dos outros


Este processo de afirmação línguística, desde o antanho, tem defensores respeitáveis. Vejamos, por exemplo, o que diz a voz abalizada de Aristides Lima, Presidente da Assembleia Nacional, sobre a problemática (é de dar a palavra aos outros, note-se): “O poder político tem urgentemente de fazer mais do que fez até agora. Ele está convocado a, eventualmente, fazer o seu exercício de desalienação cultural. Ele está convocado a reconhecer à língua mais falada pela comunidade cabo-verdiana um estatuto de igual dignidade que o português. Ele está convocado a reconhecer a cada um de nós o direito ao ensino em língua cabo-verdiana, ao lado do direito ao ensino em português; a reconhecer o direito do uso do crioulo em correspondências e documentos oficiais e, ainda, o direito a um presença equitativa do crioulo nos meios de comunicação social do Estado. Isto não é nenhum favor. É tão somente escutar o imperativo do direito humano à língua e reconhecer o direito à igualdade das duas línguas que caracterizam a nossa cultura.”


O bilinguismo é uma valência


O processo de afirmação da língua cabo-verdiana, sobretudo, o processo da construção do bilinguismo cabo-verdiano, prima-se pela busca de um consenso amplo, alargado e participado. Um processo que observa sensibilidades e competências, factores socio-linguísticos e histórico-linguísticos, oportunidades identitárias e de desenvolvimento. Um processo construído de há séculos e que atinge o ápice do debate, agora que o país faz 30 anos da Independência Nacional. O bilinguismo não é um dilema, nem uma dicotomia, mas uma realidade ambivalente com soluções para os desafios de Cabo Verde. Por ser uma ambivalência enriquecedora, importa potenciá-la. A padronização escrita do crioulo e a democratização do português são dois passos importantes no processo de construção nacional. Outro passo, não menos importante, seria a elaboração do crioulo-padrão que deverá se sobrepor à multiplicidade de variantes da língua no arquipélago, constituindo-se como um novo símbolo de unidade no país. Por isso, haja diferença, mas com serenidade; contradição, com boa-fé...em face de um desígnio histórico. E o melhor laboratório para tal padronização é a sua socialização no Ensino (o Superior, sobretudo) e na Comunicação Social. E o seu óbvio reconhecimento de língua paritária na Administração Pública. Outrossim, não estamos em tempo de imposições. Nem as da maioria, obviamente. E muito menos as da minoria, como fora norma nestas ilhas, antes, de colonialismo e, depois, de auto-colonialismo. De facto, o grande Albert Einstein tinha razão ao dizer que “é muito mais fácil dissecar o átomo do que desenraizar preconceitos”. Por isso, faça-se o caminho a caminhar, desintegrando o átomo de certos preconceitos. Numa autêntica (e desta feita genuína) largada de consciencialização. Já ninguém aceita ser auto-colonizado nestas ilhas, venha esta maldição sob a roupagem que vier e este vaticínio da boca de quem vier. É que “o dia nasceu”, como diria o poeta Mário Fonseca...

quarta-feira, 20 de abril de 2005

LAURO MOREIRA (em três momentos)

1º Momento (manhosa era a lua, com poesia)

Manhosa era a lua intrometida nas nuvens. Errante, andante, minguante, como nessa música de Princesito. Manhosa a voz de Mayra Andrade, naturalmente. Manhosa a onda que, meia-noite, brincava aos pezinhos nossos na praia do Mangue. Manhosa a manhã que abria, com o sol que ainda nem queimava e cantava o galo imperceptível das recordações. E à cristalina clarabóia que a tarde empresta e à neurastenia barbosiana desta hora, leio agora, com vagar, Poemeto Erótico...de Manuel Bandeira!

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...

Tão bom poder declamar, ali à beira da piscina, entre gente interessada e bonita desta hora, os versos de Manuel Bandeira. Parecia ali estar a musa mais procurada, de repente reencontrada, aninhada entre os presentes. Dona do meu imaginário, com seus olhos de amêndoa verde e sua pele moreníssima, a cintilar cá dentro a minha infância. Esse atónito e obsessivo desejo. Águas a transbordar cá dentro. E nada está certo neste lugar de não estar.

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Ali estava ela, a poesia. Estava ali, consubstanciada em tantas outras, sorridente e poderosa. De Manuel Bandeira, Lauro Moreira, embaixador e director da Agência da Cooperação Brasileira, amigo íntimo, companheiro no vate e na palavra, que fora. Mas de Jorge Barbosa, alma gémea de Bandeira, ele nos confessara pena, muita pena mesmo, de não o ter conhecido em vida.

O Embaixador do Brasil em Cabo Verde, Victor Gobato acabava de “transformar” a sua tão diplomática quão deliciosa residência em centro cultural. Espaço de música e poesia. Tertúlia preto no branco. Se há discurso, ele vem solto. Salpicado de humor. Apetece fazer um grande manifesto cultural e marcar, em definitivo, o lugar. E a hora.

Lauro Moreira manda calar o momento (primeiro, como está aqui nomeado) e declama Navio, de Jorge Barbosa. "Leva-me contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja em todos nós um incessante navio "que nunca partiu, que nunca partirá", a poesia dita, com tanta mestria e coração, nos petrifica no cais da palavra...

2º Momento (Machado de Assis e eu não estou)


Dia seguinte, para ser mais exacto. Percorro a avenida e na rotunda o bronze de um homem nu. Homem de Pedra, chamam-no. Aprimorado por uma noite de vento, desse vento imaterial que galopa. A intensa avenida de crina silenciosa de quando se sai do trabalho. Apetecia-me pastar noutras paragens. E eu esquecido que Lauro Moreira dava um autêntico recital sobre um dos meus favoritos, Machado de Assis, escritor de sanha atenta e de verve de tanta nomeada. Padre António Vieira e Machado de Assis. Dos modernos, se não estou neurasténico, Gabriel Garcia Marquez e parem vocês de se armar em intelectocratas de café. E vou, ao volante do velho Starlet, balbuciando o Soneto de Amor e Sóis, de Ruy Espinheira Filho:

de água cintilante de tão negra,
eram teus olhos de água luminosa
como só umas raras dessas brisas
chamadas alma, eram os teus olhos

Poesia é uma mulher imaginária que dança. Sob o seu véu, mamas sem a artificialidade de um silicone. Ou não?

Chego a casa, com o fim do dia a pesar sobre os ombros. E a necessária réstia de energia para dar mimos ao Pablo. Roubo-me momentos para ler um conto de Machado de Assis – A Mulher de Preto, no caso. Penso no casal Gobato, que a diplomacia brasileira deve muito e a cabo-verdiana mais ainda. E como estaria Lauro Moreira a discorrer sobre Machado de Assis nesse preciso instante, no Palácio da Cultura Ildo Lobo? O mestre que assim escreveria: Por que acabaremos no primeiro capítulo? perguntou ele; um amigo não é coisa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses.

3º Momento (hora quase severina)

Mais um dia, para quem quiser fazer o roteiro deste filme...Pude conversar longamente com Lauro Moreira. Sônia Gobato, embaixatriz e anfitriã, coloca-nos na mesma mesa. Éramos quatro nessa mesa: David Hopffer Almada e Dolores Vasconcelos completavam a quadrilha. Falou-se de tudo um pouco. Do Brasil e de Cabo Verde. Os pergaminhos de uma diplomacia sul-sul. Da complementaridade entre os dois países – um tomado de continentalidade, outro lançado na sua insularidade. Ambos com fome do mundo. Um por ser demasiado grande. E outro, demasiado pequeno. A súmula dos dois mundos. O integracionismo antropofágico das nossas culturas. E, obviamente, da poesia. Dos poetas. Do poeta João Cabral de Melo Neto, em particular...

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida

Embarco, como Jorge Barbosa outrora fizera, numa circundante e nostálgica viagem. Alguns Toureiros, de João Cabral de Melo Neto, com fina entoação e sem poetizar seu poema, dito por Lauro Moreira. Arre que não consigo ser cronista bem comportado! Logo agora que entro (sinto-o a cada pulsar) nesta fase “manhosa”...

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Alguns Toureiros

de João Cabral de Melo Neto


Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema

sábado, 9 de abril de 2005

Cais

de Manuel Lopes



Nunca parti deste cais

e tenho o mundo na mão!

Para mim nunca é demais

responder sim

cinquenta vezes a cada não.



Por cada barco que me negou

cinquenta partem por mim

e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!

O imperativo da voz de Helberto Helder

Sou eu, assimétrico, artesão, anterior / - na infância, no inferno. [...] Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue, / defronte / da massa inóspita ou da massa / mansa de outros nomes. / Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves / nomes, / escrevem-nos os dedos ferozes no papel / pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo / e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que, / gramatical, carnalmente, me reparto...

quarta-feira, 23 de março de 2005

Um tanto de tudo e um pouco de nada

As Mil e Uma Noites

Sheherazade e as Mil e Uma Noites sempre foram as minhas referências literárias fundamentais. As Mil e Uma Noites, porque a outra só se perde, no campo da complexidade estética, apenas pela Bíblia e o Corão. E concorre à minha cabeceira com Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, e Mensagem, de Fernando Pessoa. Exagero um bocado, mas não estou longe da verdade. E Sheherazade, porque retém toda a minha fantasia da musa inspiradora e primordial da verdadeira literatura. Sheherazade, para mim, é o supremo poder da mulher, isto é, sedutora e sensual como a água das fontes na secura dos nossos múltiplos preconceitos. Agora que entramos na Semana da Cultura no Feminino, uma iniciativa do Ministério da Cultura, germinam cá dentro algumas inquietações em torno de conceitos como mulher, homem, feminino, masculino, feminismo, machismo e feminilidade. Grandes questionamentos se impõem. Como é que a mulher pode actuar num mundo masculino de uma forma não masculina? Como é que a mulher, que não produz o conjunto das regras de funcionamento do mundo, pode processar a sua própria emancipação? Antes de mais, a mulher deverá recusar a tentação — de ser homem — esse caminho dominante do "ser". O modelo de actuação masculino baseado neste amálgama milenar, responde a uma imagem legitimada do que é ser e isto tende a ser paradigma para certos feminismos, na linha na monossexualidade do discurso antropológico. Tudo isso, para dizer-vos, caros leitores, que a verdadeira libertação é do género e que todo o ser humano – o macho, na sua condição ulterior – guarda a sua condição feminina. A sua Sheherazade...

Ora Europa, ora África

Cabo Verde, por ser país pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, tem vivido ao longo da sua História a procurar âncoras. As suas elites, desde o antanho, procuram pensar a estabilidade destas ilhas a partir de matrizes exógenas, produtoras de valores materiais e imateriais que, com criatividade e fé no Além, sempre ajudam a sobreviver (e, em períodos mais excepcionais, a desenvolver). Mas essa procura está inscrita na nossa memória genética de um tropismo sincrético, de somatório de várias componentes, que, em certas horas, se afirmam e, noutras horas, se recusam. Ora Europa, ora África, quando não Europa e África. Ou mesmo Euroáfrica, passe o composto. Mas a questão é mais complexa do que parece. As ligações com o Brasil sempre friccionaram os nossos sentimentos mais íntimos. Eu gosto de você, Brasil, diria Jorge Barbosa no seu vate modal. A simbiose com Portugal lateja em nós e se consolida, mesmo quando, a medo da despersonalização, nos sentimos a entregar. Ou quando descobrimos que o negócio da Electra, com os olhos de ver mesmo, foi um grande negócio da China. Os ilustres Mário Soares e Adriano Moreira formulam hipóteses de entrarmos (periféricos ou de cabeça) na União Europeia e aí estamos nós, sem paciência nem tempo para analisar a prenda na sua condição e intenção, a dar vivas e alvíssaras. E a âncora também pode ser a Espanha – afinal já fomos também espanhóis, filipenses da silva, enfim. Pode ser a África do Sul e/ou Angola, pois, estes lá podem ter as suas grandes mazelas, mas são terras de ouro e de petróleo e isto, deixemo-nos de tretas, conta irremediavelmente. A Guiné-Bissau, agora dilacerada pelo momento histórico, será, como já foi aliás, um espaço para nós vital, razão porque temos de olhar para esse país vizinho (e irmão, diga-se pelas nossas informações genéticas, ora) com alguma prudência e proposta de complementaridade. Âncora, ainda que pareça absurdo. País pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, Deus nos há de ajudar nesta vocação de procura. O mundo é redondo afinal...

E agora América

Cabo Verde foi um dos 16 países premiados com os Fundos do MCA Estes países foram escolhidos, segundo o jornal Washington Post, por serem países pobres, mas democráticos, com a capacidade tácita de promover reformas económicas e sociais. A postura adoptada pelo governo de Washington, pode ser analisada como uma retomada das ideias wilsonianas de 1919 em que o conceito de democracia aliado ao conceito de segurança colectiva seria resultante de bons fluídos ao comércio. E nós com isso? Cabo Verde é o único país da África Ocidental que vive na estabilidade, no crescimento saudável e na cultura da paz. O único. Este estatuto nos aproxima naturalmente da América. Os EUA, que estão em guerra contra o terrorismo global, consideram que há uma ameaça sobre os seus cidadãos e sobre o seu território e que, face a ela, é essencial buscar outras sociabilidades e encontrar novos aliados. Tenhamos coragem de analisar as coisas de frente e de despir a lógica não-alinhada do tempo da Guerra Fria. O peso da antiga estrutura mental deve dar lugar a uma leveza de olhar, disposto a reformas e inovação que se impõem. Torna-se mister compreender que a relação entre Cabo Verde e os Estados Unidos deixou de ser a mesma desde o fim da Guerra Fria. Enquanto país de vocação atlântica, precisamos colocar acento na cooperação mais intensa com os EUA, sem pôr em causa os nossos múltiplos interesses. É que, sendo o mundo realmente redondo, se reforça o atavismo estratégico entre Cabo Verde e os EUA. Nem sempre se pode fazer poesia, ao fim e ao cabo...

sábado, 19 de março de 2005

Dia Mundial da Poesia - 21 de Março

Tabacaria





Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos

quinta-feira, 17 de março de 2005

Difícil ser funcionário

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.


João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 15 de março de 2005

Blog Nota 6

Mais alma!!!

A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras. Até porque ela precedeu a pátria. Tanto que no miasma da nação diasporizada, ela circula livre no espaço global, quando erigir, fará cair, o Muro de Berlim, ainda nem era sonho. Leiam Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luis Loff de Vasconcelos. Leiam os de hoje: Mário Lúcio Sousa, João Varela, Onésimo Silveira e António Correia e Silva. Cabo Verde se afirma pela sua dimensão cultural, que não é grande, no sentido do peso e da medida, mas que é profunda e diversa. A peculiaridade da cultura cabo-verdiana reside, pois, no seu sincretismo antropofágico. Desde sempre. Muito antes do Movimento Claridoso, que, de repente, quase por decreto, virou nossa independência cultural. A cultura cabo-verdiana, para mim, sempre foi uma entidade que “come” todos os elementos culturais e processa-os de molde reinventado e, de certa forma, autónomo. Fê-lo desde a barbosiana “hora inicial” e a língua crioula é disso prova maior. Assim, a cultura cabo-verdiana nunca foi uma pedra de Sísifo, mas sim uma janela para o mundo, que é a nosso identidade lacto senso, imunizados que somos contra os zéfiros da descaracterização. A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras, mormente quando afirmativas e patrulheiras. Precisa, sim, de cada vez mais espaço para a alma, como diria o imenso Orlando Pantera, nesta continuada afirmação da estética...

E a nossa estrutura desejante?

E o cabo-verdiano precisa mais do que nunca da estética, tanto como do pão para a boca. Mostra-nos a psicanálise que a função do belo perturba a estrutura do ser desejante diante do enigmático e inacessível. Para o ser psíquico a criatividade estética se configura como um acto e símbolo da realização. Bem dizia Diderot que a perfeição de um espectáculo consiste no seu poder de evocar uma aura da realização. Agora, o busílis da questão é sabermos, com firmeza, o que é a realização. Dou um doce. O debate ainda vai no adro. O dramaturgo João Branco disse-nos aquilo das crianças encantadas (e, quem sabe, transformadas) pelos encantos do teatro, uma realização que talvez transcenda à bizantinice de certas discussões. Gostei desse rasgo no Konbersu Sabi, da jornalista Matilde Dias. Os ilustrados e os iluminados que deixem os acantonados becos sem saída e venham à praça (pode até ser virtual) do diálogo. Vale escujurarmos a sina dos meios pequenos. Ou mesmo tacanhos, para que saibamos destrinçar o trigo do joio. Se, vez por outra, surgem tiradas brilhantes, aqui quase sempre o verbo tem sido chulo. Verborreia pelo esculacho. Quando não descamba para um bairrismo incompetente. Estamos literalmente naquele dilema de ou vai, ou racha. Dum lado, ficamos arreigados, orgulhosamente agarrados à pedra da tradição. Doutro, já sabemos que a cultura não pode ser a pedra de Sísifo, e a queremos solta como uma ave que voa. Pior são aqueles que vêm ao debate com a pedra na mão. E no coração, meu Deus. Assim fica difícil pensar que este país é de morabeza...

En souffrance

Eu seria um ser humano en souffrance, se me fosse privado saber de Nácia Gomi e de William Shakspeare, de José Luis Tavares e de Pablo Picasso, de Vasco Martins e de Wole Soyinka. Deixem-me curtir Kwame Kondé! Não se “avexem” que a 5ª Sinfonia de Beethoven me emociona! Aceso, integral e crítico, me sinto pronto para o grande diálogo. Pronto, porque estou descomplexado. De coração na mão. Pronto para dar e receber. Para apreender de tudo. Com todos. Mas palavra que não entendi aquilo sobre o índice de civilização. Falta-me entendimento em relação a certas questões. E, em remate final, indagaria: espelho, espelho meu, existirá alguma civilização “mais civilizada” do que a minha? Já Lévi-Strauss nos ensinara que a diferença cultural, não deve ser percebida como uma ameaça a ser destruída mas como alternativa a ser inter-cambiada. E eis que à negativa do espelho, meu espelho, se adensa a anuência da antropologia. Ou, aqui no âmago, a antropofagia...

sexta-feira, 11 de março de 2005

O mar tão-só à justa

Tão sentado quão me deslavo, vejo-te,
Tardos dos meus olhos, seja tempo
Esmaecido das nuvens ou das flores peregrinas,
Assim clepsidra musa das que crepita…

Aonde o périplo leva, ao tento breve e fogo,
Sobressalta na noite esta chama dos olhares,
Pedra em cripta que não sabes já, a rebrilhar
Quais estrelas lá longe da tua sombra…

Dou-te mais do que o mar para dar,
As praias íntimas de conchas mais secretas,
As gretas que sabem ao desponte da noite…

As luas que sobem ao musgo das grutas,
O escorrer impúdico nas veias das águas,
O mar tão-só à justa dos nossos corpos…


Filinto Elísio

Blog Nota 5

Fragoso e Branco

Do debate…bem, do pretenso debate sobre o teatro em Cabo Verde, iniciado em boa hora, e com polémica, por Francisco Fragoso, salva-se, dum lado, a impressão de que novas luzes e outras dinâmicas começam a germinar; doutro lado, fica o travo de que continuamos provincianos e tacanhos. Numa rotação mais lenta da que este mundializado planeta, diga-se. Tanto Francisco Fragoso como João Branco muito fizeram, e fazem, pelo teatro em Cabo Verde. Torna-se, por isso, normal que, diante de tanta convergência, existam entre eles pontos (e pomos) de discórdia. Mas o inferno…são os claquistas de parte a parte. Estes continuam saudosistas, dependentes e bairristas, quando não racistas. E trocam farpas de levar por casa. Um verdadeiro festival do maniqueísmo e da mediocridade. Debater teatro é saudável e é isto que o país precisa. De um amplo debate cultural ao fim e ao cabo…

Espuma que já bateu na praia

Outro debate que desponta é sobre a oficialização do crioulo. E tudo indica que, contrariamente à Igreja Católica que, há muitos anos, deu à língua materna o estatuto litúrgico, a nossa dita intelectualidade treme nas bases. Muitos consagrados e com lugares marcados nos pequeníssimos pedestais, temem introduzir algo que os obrigue a repensar, a reaprender e a revalorizar. Será demasiado trabalho para uma intelectualidade que vê o mundo de um horizonte pequeno. Só que a oficialização do crioulo deixou de ser uma onda que se adensa, mas uma espuma que já bateu na praia…

Agora que a vida nasceu

Em verdade, Cabo Verde, agora que a vida nasceu, precisava ter disto tudo (e bem à Eduardo Pitta): os artistas «nascidos de cu para a lua», os «funcionários», os «mediáticos», os «velhíssimos», os «novos», os «novíssimos», os «urbanóides», os «do Partido», os «picantes», os «malditos», os «marginais», os «tardo-Dada», as «socialites-escritoras», os «laterais», os «colunistas», os «candidatos», os «jornalistas», os «psicoterapeutas», os «académicos», os «S/M», os «políticos», as «feministas», as «professoras», os «deputados», as «escritoras do Graal», os «gay off the record», os «palopianos», os «venéreos», os «crioulistas», os «fedorentos radical-chic», etc.


Da paz era o nome do largo

O largo por ironia chamava-se da paz. E eu, por redundância, quis fazer as pazes entre dois amigos. As circunstâncias (não importam aqui as razões) fizeram com que estivessem de costas voltadas. Nem conto nesta terra onde tudo se sabe. Mas estamos em tempo de criação, que diabo! E tempo não haverá para odiar tanto. O que sobra será do amor. Da amizade. Ledo o meu engano. Vociferantes e maldizentes, prontos para a primeira pedra. Para mim, bastou. O meu teatro é de tirar, e não colocar, a máscara. Saio para o Largo da Paz e sinto-me mais livre que nunca, embora triste pela perda. Por ironia, balbucio o nome da placa que dá nome ao largo…

Dá Fala

A revista Dá Fala foi lançada, com sublinhado frisson cultural, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. É uma revista com gráfica solta, que desafia laudas, margens e sequências. Com um conteúdo múltiplo, ainda não totalmente definido, mas que se orienta para as artes, letras e ideias. Por tudo isso, é uma iniciativa bem-vinda que me lembrou, primeiro, a revista Ponto & Vírgula e, segundo, a folha cultural Sopinha do Alfabeto. Com Artiletra, já no mercado cultural há década e meia, Dá Fala é mais uma valência editorial. Num tempo em que as novas tecnologias também se derivam para o campo gravítico da cultura. Os blogs que o confirmem - Lantuna, Os Momentos e Aulil, entre os mais dinâmicos…

quarta-feira, 9 de março de 2005

Gestos escusados





Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Pablo Neruda



Nosso fórum

O mundo está amedrontado pela justificada fúria da riqueza e do terror. E a questão essencial tem a ver com a Humanidade. E não apenas, como pretendem alguns, com a geo-política. E o sistema doutrinal (hoje globalitário e com filiação entre nós), que com a ideologia não se confunde, é aquele que legitima, sempre e a qualquer preço, a ordem dominante. Ora, temos de ser mais complexos e analisar, com parcimónia e sem fantasmas, este mundo que se arma em cão. É possível sim, nas ilhas e no cosmos, um novo mundo.

Adão desconhecido

Sempre que a Electra, por excesso de zelo ou de competência, nos falta com a energia eléctrica, facto frequente, pelo menos na capital do país, revejo mentalmente “Virgens Loucas”, de António Aurélio Gonçalves (o mestre da boa prosa) e fico à varanda, horas esquecidas, a ver as constelações. E tem sido assim, às escuras perante o firmamento, que me sinto grão de areia neste Universo e que me apetece escrever poesia. Na sala de visitas, a televisão apagada e a vela fragilmente acesa, exala um silêncio existencial. E, entre o ridículo que é o blackout da Electra (logo nesta cidade de maior demanda e de melhor receita!) e o romântico destas mãos para o vácuo, procuro, como no famoso quadro de Miguel Angelo, tocar os meus dedos aos de um Adão desconhecido...

Os astros de Neruda

Um dia, escrever-te-ei textos elegantes e excelentes. A minha literatura, então, será redimensionada pelo imperativo da beleza. Pela estética mais pura. As Belas Letras. Caudalosas prosas que, correndo o curso de um rio, extravasem suas águas no mar das palavras. Quem escreve, caro Pranchinha, quer no seu epitáfio apenas as datas de nascimento e de passamento; no seu obituário, acrescente-se-lhe que amou os seus filhos e as frutas serenadas da poesia. Quem escreve precisa de remanso e de descanso, algo como uma paz interior na seiva dos momentos. Um dia, havendo espaço para tanto, dir-te-ei como tiritam azuis os astros ao longe...

Doce Guerra

Apesar dos grandes avanços nestes 30 anos bem contados (e bem vividos), Cabo Verde - Doce Guerra, como vaticinou Antero Simas – continua a ser um país sob stress e sob o espectro da incerteza. Que os merecidos elogios, não nos façam esquecer esta secular contingência face à conjuntura internacional. No mundo interdependente e global, os frágeis, pequenos e pobres são menos iguais do que os outros. A esta hora importaria uma largada diferente, mais centrada na solidez endogénica e menos voltada para modismos importados. País insular, nação diasporizada e povo escolarizado, qual a próxima questão? Sustentabilidade parece ser a palavra-chave e a necessária procura. E qualidade a palavra de ordem (onde já ouvi isso?). Para o grande salto colectivo...

Slightly single

Caro amigo, nesta respiração assistida da solidão procuro sorrir. Para a manhã radiante. Ou, simplesmente, para o bom dia de um transeunte. Eu queria sentir agora, como nos versos de Fernando Assis Pacheco, uma paz assim fresca/ sem grandes gestos/ escusados. E eis que Neruda termina assim o lindo pórtico: Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa/ y éstos los últimos versos que yo le escribo.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos

quarta-feira, 2 de março de 2005

O Primeiro Dia

“O meticuloso exercício da escrita pode ser a nossa salvação”
Paula. Isabel Allende


O sinal da cruz

Tenho acompanhado, com angústia e admiração, as privações de João Paulo II. Como um asceta, ele aproxima-se da janela e faz o sinal da cruz à multidão vigilante. O gesto ritual ganha outro significado, porque, lá no fundo, todos sabem que o Santo Padre está na vertiginosa contagem decrescente. E, no âmago, ninguém sabe se para o salto noutra vida, dimensionada, crê-se, de mais pureza e santidade. Ou, se apenas regresso ao pó, vaticínio, algo como um destino, iniciado no Primeiro Dia. Angústia, não pela morte, axiomática como a luz, mas pela interrogação que traz a esta solidão peregrina. E admiração, porque na vida – e longe de mim a morbidez –, nada soa tão cristalina como um salto para o cronos e o caos da eterna idade…

Cavalheiro de fina estampa

Escrever, à minha resposta mais íntima, seria falar-vos aqui dos astros, dos vulcões e dos oceanos. Se o meu avô estivesse ainda vivo, o desfecho do meu livro seria outro. Intenso como era ele, havia de ter peso e espaço nesta história. O narrador teria até de pedir licença para vos conceder aos detalhes, pois, em termos de mesuras, o avô era mesmo um exímio. “Um cavalheiro de fina estampa”, repetia a minha tia mais velha. Rigoroso e erudito, o avô declamava, de cor e salteado, os cantos d´Os Lusíadas, de Luís de Camões, e contava, em miúdos, a tragédia da Assistência. E na minha história, introduzia-o como personagem central das incursões pelos inter-textos. A trama far-se-ia passear pelos 24 cantos e 12.000 versos hexâmetros com que Homero construiu o Odisseia. E daria, como ele sonhara, outro destino a Ulisses, náufrago recolhido na praia pela princesa Nausicaa. Havia de ter peso e espaço nesta história, porque, esquecido do primeiro dia, a minha mais recuada lembrança vê o avô na sua cadeira de baloiço, à porta da velha casa. E nesse quadro, ora ruidoso de meninos, ora bucólico de lua vaga, eu ali ficava a querer saber dos astros, dos vulcões e dos oceanos. E da seiva que, imperceptível, subia pelo tronco da velha espinheira, mais raquítica de que velha, diga-se. De ser esta saudade a minha grande metáfora…

Versos hexâmetros

Cada número uma palavra, assim faz o homem o seu próprio Oráculo, memorizando mesmo, no espaço, a sua memória do começo. E esta geometria lhe permite os versos hexâmetros com que vai vivendo os limites ou termos das coisas. O finito e o infinito, o limitado e o ilimitado, tudo geometricamente em harmonia, dirá o homem para que possa sonhar e criar. E vai sabendo isto do Génese: No princípio Deus criou a terra. A terra achava-se vazia, as trevas cobriam o abismo e o vento de Deus girava sobre as águas. Então, Deus disse “Exista a luz” e assim se cumpriu. Deus viu que a luz era boa, apartou-a das trevas, chamou à lua “dia” e às trevas “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia…

O poderoso vinho

O Pranchinha, sempre a profanar a crónica, entra no texto e mostra-me um pasquim desta praça. O jornaleco vomita, da primeira à última página, a sua pestilência. Meu amor, morri ontem quando o tempo abrasado ao sol cambava atrás dos montes. Ísis, recolhe-me em pedaços e sopra os meus lábios de retorno à vida. Sou zapping desse espectáculo dos mitos. E quando se ama a matemática, o primeiro dia passa a ser uma condição incessante e quase sempre aleatória. No corredor tríade da vida, o primeiro dia é a impressão da memória. Os números não passam de uma feiticeira chamada Circe que, com o seu poderoso vinho, tem o dom de transformar os homens em bestas. E vice-versa…

Suma Teológica

Como diria São Tomás de Aquino, o número é a multitudo mensurata per unum. O Papa aproxima-se novamente da janela e faz o sinal da cruz à multidão…




Filinto Elísio

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Blog Nota 4

Adriana Calcanhoto

Estamos a preparar o lançamento do “Das Frutas Serenadas”, na cidade da Praia. Mano Preto introduz a ideia de uma dança de corpos pintados. Ele e a dançarina italiana Frederica. Além da pintura corporal, vamos inflectir mais a ideia da percussão no corpo. Fizemo-lo no Mindelo e o efeito foi bonito. Ouvi Adriana Calcanhoto a cantar Jornal de Serviço, um poema musicado de Carlos Drummond de Andrade, e fiquei maravilhado. Ela não utiliza os instrumentos considerados normais, apenas o som das Páginas Amarelas folheadas. Uma coisa inovadora e com um incrível impacto sonoro.


A pintura corporal dos índios Xerente

Achei tão interessante a ideia de Mano Prato que fui analisar o universo artístico (e antropológico) das pinturas corporais. Adorei as informações sobre as causas e os motivos da pintura corporal dos índios Xerente. Estes, quando dançam (também palavras, note-se), re-confeccionam o corpo com os seguintes elementos: carvão misturado com pau-de-leite faz o preto; sementes de urucum fazem o vermelho e o branco é completado com penugem de periquito ou algodão. Antes da pintura, os corpos são untados com óleo de babaçu. Os detalhes - círculo ou traços - são esculpidos em pedaços de miolo de tora de buriti, e utilizados como uma espécie de "carimbo". O resto é dançar as palavras…

Mês de teatro

Em Março, o Mindelact assinalará o mês de teatro. Esta será mais uma oportunidade de intercâmbio entre as várias dramaturgias, como também seria importante prestar uma atenção maior à produção cabo-verdiana que, em função das dificuldades conjunturais, ainda não ganhou a dinâmica desejada. O teatro protagoniza o nosso surto de pertença cultural e é, em permanência, deflagrador do nosso processo identitário. Por isso, sejamos simbiótica e intermitentemente destas ilhas e deste mundo. Naturalmente que as grandes peças universais importam ser montadas em Cabo Verde, porque não faz o menor sentido ficarmos isolados em matéria da arte, qualquer que seja ela. E é preciso reconhecer que, graças ao Mindelact, a ponte da dramaturgia cabo-verdiana continuou de pé.

Celeumas (sempre) necessárias

Uma pequena celeuma corre sobre a existência ou não do genuíno teatro cabo-verdiano. É interessante reparar que hoje as atenções voltam para a discussão do teatro. Antes disso, estávamos um tanto intoxicados pelas celeumas futeboleiras e/ou partidárias. Tirando uma ou outra posição mais extremada, também parte do show (e de um bairrismo, aqui e acolá, parte da nossa mediocridade), o que importa é o regresso de Kwame Kondé ao teatro activo. Agora que já renascem vários grupos cénicos na capital, o retorno de Kondé pode ser encarado como algo emblemático, além da operação de charme. Mais do que as múltiplas aparências, façamos coisas essenciais. Este país precisa de qualidade. Em tudo. E depois, como ensinou Platão, o mundo das imagens é também o da efemeridade. Até para o mantermos, enquanto realidade encantatória, precisaríamos desta reinvenção. Pela essência, naturalmente…


Tcheka

Tcheka Andrade, imenso músico, por si só, configura-nos uma noite diferente. O espectáculo do sábado passado, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, foi algo diferente, bonito e bem apanhado. O profundamente tradicional mesclado a um arranjo para lá de moderno. Às tantas, viajei para as batidas de Baba Maal, as melodias Al di Meola e o “remelexo” de Jonathan Butler. Parei também nos lamentos de Codé di Dona, na graça de Bibinha Cabral e na alma eterna de Orlando Pantera. Em suma, um show e tanto, com o brinde da poderosa Lura, em dueto transcendente com Tcheka. E a banda – ele, mais Kizó, Raul e Hernâni – é a nata de uma geração que já deu muito e mais ainda tem para dar a Cabo Verde. O som pesado do quarteto não deixa ninguém indiferente. A mim, deu-me ganas de gritar – a risco de dar vexame na ambiência intimista: viva a música!

Nota e anota: o guitarrista Hernâni é de facto uma preciosidade. O Cyber Sofia e o Tera estão, uma vez mais, de parabéns. Façam barulho, apesar dos guardiães do velho templo…

Tâmaras

Das janelas, olhávamos o abraço da baía
Os mastros entrados pelas enseadas,
O movimento dos corpos soluçantes
A exaustão das horas que se abraçam…

Olhávamos também, amor, o sol a pique
Que, das manhãs, dourava todas as frutas,
Era tua rua de infância, e estavas nua,
Molhada chuva e eu, ali, liquefeito…

Conta-me um pouco de haverem deuses,
Só um bocado desse paraíso de bocas
Fá-lo sem medo, assim como as loucas…

Toca-me, pelo fundo, amor, tão frágil
Quão poderosa, foste, num só momento,
E ter aquilo sido toda a eternidade…

Filinto Elísio

In: “Das Frutas Serenadas”