1º Momento (manhosa era a lua, com poesia)
Manhosa era a lua intrometida nas nuvens. Errante, andante, minguante, como nessa música de Princesito. Manhosa a voz de Mayra Andrade, naturalmente. Manhosa a onda que, meia-noite, brincava aos pezinhos nossos na praia do Mangue. Manhosa a manhã que abria, com o sol que ainda nem queimava e cantava o galo imperceptível das recordações. E à cristalina clarabóia que a tarde empresta e à neurastenia barbosiana desta hora, leio agora, com vagar, Poemeto Erótico...de Manuel Bandeira!
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Tão bom poder declamar, ali à beira da piscina, entre gente interessada e bonita desta hora, os versos de Manuel Bandeira. Parecia ali estar a musa mais procurada, de repente reencontrada, aninhada entre os presentes. Dona do meu imaginário, com seus olhos de amêndoa verde e sua pele moreníssima, a cintilar cá dentro a minha infância. Esse atónito e obsessivo desejo. Águas a transbordar cá dentro. E nada está certo neste lugar de não estar.
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...
Ali estava ela, a poesia. Estava ali, consubstanciada em tantas outras, sorridente e poderosa. De Manuel Bandeira, Lauro Moreira, embaixador e director da Agência da Cooperação Brasileira, amigo íntimo, companheiro no vate e na palavra, que fora. Mas de Jorge Barbosa, alma gémea de Bandeira, ele nos confessara pena, muita pena mesmo, de não o ter conhecido em vida.
O Embaixador do Brasil em Cabo Verde, Victor Gobato acabava de “transformar” a sua tão diplomática quão deliciosa residência em centro cultural. Espaço de música e poesia. Tertúlia preto no branco. Se há discurso, ele vem solto. Salpicado de humor. Apetece fazer um grande manifesto cultural e marcar, em definitivo, o lugar. E a hora.
Lauro Moreira manda calar o momento (primeiro, como está aqui nomeado) e declama Navio, de Jorge Barbosa. "Leva-me contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja em todos nós um incessante navio "que nunca partiu, que nunca partirá", a poesia dita, com tanta mestria e coração, nos petrifica no cais da palavra...
2º Momento (Machado de Assis e eu não estou)
Dia seguinte, para ser mais exacto. Percorro a avenida e na rotunda o bronze de um homem nu. Homem de Pedra, chamam-no. Aprimorado por uma noite de vento, desse vento imaterial que galopa. A intensa avenida de crina silenciosa de quando se sai do trabalho. Apetecia-me pastar noutras paragens. E eu esquecido que Lauro Moreira dava um autêntico recital sobre um dos meus favoritos, Machado de Assis, escritor de sanha atenta e de verve de tanta nomeada. Padre António Vieira e Machado de Assis. Dos modernos, se não estou neurasténico, Gabriel Garcia Marquez e parem vocês de se armar em intelectocratas de café. E vou, ao volante do velho Starlet, balbuciando o Soneto de Amor e Sóis, de Ruy Espinheira Filho:
de água cintilante de tão negra,
eram teus olhos de água luminosa
como só umas raras dessas brisas
chamadas alma, eram os teus olhos
Poesia é uma mulher imaginária que dança. Sob o seu véu, mamas sem a artificialidade de um silicone. Ou não?
Chego a casa, com o fim do dia a pesar sobre os ombros. E a necessária réstia de energia para dar mimos ao Pablo. Roubo-me momentos para ler um conto de Machado de Assis – A Mulher de Preto, no caso. Penso no casal Gobato, que a diplomacia brasileira deve muito e a cabo-verdiana mais ainda. E como estaria Lauro Moreira a discorrer sobre Machado de Assis nesse preciso instante, no Palácio da Cultura Ildo Lobo? O mestre que assim escreveria: Por que acabaremos no primeiro capítulo? perguntou ele; um amigo não é coisa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses.
3º Momento (hora quase severina)
Mais um dia, para quem quiser fazer o roteiro deste filme...Pude conversar longamente com Lauro Moreira. Sônia Gobato, embaixatriz e anfitriã, coloca-nos na mesma mesa. Éramos quatro nessa mesa: David Hopffer Almada e Dolores Vasconcelos completavam a quadrilha. Falou-se de tudo um pouco. Do Brasil e de Cabo Verde. Os pergaminhos de uma diplomacia sul-sul. Da complementaridade entre os dois países – um tomado de continentalidade, outro lançado na sua insularidade. Ambos com fome do mundo. Um por ser demasiado grande. E outro, demasiado pequeno. A súmula dos dois mundos. O integracionismo antropofágico das nossas culturas. E, obviamente, da poesia. Dos poetas. Do poeta João Cabral de Melo Neto, em particular...
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida
Embarco, como Jorge Barbosa outrora fizera, numa circundante e nostálgica viagem. Alguns Toureiros, de João Cabral de Melo Neto, com fina entoação e sem poetizar seu poema, dito por Lauro Moreira. Arre que não consigo ser cronista bem comportado! Logo agora que entro (sinto-o a cada pulsar) nesta fase “manhosa”...
quarta-feira, 20 de abril de 2005
segunda-feira, 18 de abril de 2005
Alguns Toureiros
de João Cabral de Melo Neto
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema
sábado, 9 de abril de 2005
Cais
de Manuel Lopes
Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.
Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!
Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.
Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!
O imperativo da voz de Helberto Helder
Sou eu, assimétrico, artesão, anterior / - na infância, no inferno. [...] Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue, / defronte / da massa inóspita ou da massa / mansa de outros nomes. / Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves / nomes, / escrevem-nos os dedos ferozes no papel / pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo / e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que, / gramatical, carnalmente, me reparto...
quarta-feira, 23 de março de 2005
Um tanto de tudo e um pouco de nada
As Mil e Uma Noites
Sheherazade e as Mil e Uma Noites sempre foram as minhas referências literárias fundamentais. As Mil e Uma Noites, porque a outra só se perde, no campo da complexidade estética, apenas pela Bíblia e o Corão. E concorre à minha cabeceira com Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, e Mensagem, de Fernando Pessoa. Exagero um bocado, mas não estou longe da verdade. E Sheherazade, porque retém toda a minha fantasia da musa inspiradora e primordial da verdadeira literatura. Sheherazade, para mim, é o supremo poder da mulher, isto é, sedutora e sensual como a água das fontes na secura dos nossos múltiplos preconceitos. Agora que entramos na Semana da Cultura no Feminino, uma iniciativa do Ministério da Cultura, germinam cá dentro algumas inquietações em torno de conceitos como mulher, homem, feminino, masculino, feminismo, machismo e feminilidade. Grandes questionamentos se impõem. Como é que a mulher pode actuar num mundo masculino de uma forma não masculina? Como é que a mulher, que não produz o conjunto das regras de funcionamento do mundo, pode processar a sua própria emancipação? Antes de mais, a mulher deverá recusar a tentação — de ser homem — esse caminho dominante do "ser". O modelo de actuação masculino baseado neste amálgama milenar, responde a uma imagem legitimada do que é ser e isto tende a ser paradigma para certos feminismos, na linha na monossexualidade do discurso antropológico. Tudo isso, para dizer-vos, caros leitores, que a verdadeira libertação é do género e que todo o ser humano – o macho, na sua condição ulterior – guarda a sua condição feminina. A sua Sheherazade...
Ora Europa, ora África
Cabo Verde, por ser país pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, tem vivido ao longo da sua História a procurar âncoras. As suas elites, desde o antanho, procuram pensar a estabilidade destas ilhas a partir de matrizes exógenas, produtoras de valores materiais e imateriais que, com criatividade e fé no Além, sempre ajudam a sobreviver (e, em períodos mais excepcionais, a desenvolver). Mas essa procura está inscrita na nossa memória genética de um tropismo sincrético, de somatório de várias componentes, que, em certas horas, se afirmam e, noutras horas, se recusam. Ora Europa, ora África, quando não Europa e África. Ou mesmo Euroáfrica, passe o composto. Mas a questão é mais complexa do que parece. As ligações com o Brasil sempre friccionaram os nossos sentimentos mais íntimos. Eu gosto de você, Brasil, diria Jorge Barbosa no seu vate modal. A simbiose com Portugal lateja em nós e se consolida, mesmo quando, a medo da despersonalização, nos sentimos a entregar. Ou quando descobrimos que o negócio da Electra, com os olhos de ver mesmo, foi um grande negócio da China. Os ilustres Mário Soares e Adriano Moreira formulam hipóteses de entrarmos (periféricos ou de cabeça) na União Europeia e aí estamos nós, sem paciência nem tempo para analisar a prenda na sua condição e intenção, a dar vivas e alvíssaras. E a âncora também pode ser a Espanha – afinal já fomos também espanhóis, filipenses da silva, enfim. Pode ser a África do Sul e/ou Angola, pois, estes lá podem ter as suas grandes mazelas, mas são terras de ouro e de petróleo e isto, deixemo-nos de tretas, conta irremediavelmente. A Guiné-Bissau, agora dilacerada pelo momento histórico, será, como já foi aliás, um espaço para nós vital, razão porque temos de olhar para esse país vizinho (e irmão, diga-se pelas nossas informações genéticas, ora) com alguma prudência e proposta de complementaridade. Âncora, ainda que pareça absurdo. País pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, Deus nos há de ajudar nesta vocação de procura. O mundo é redondo afinal...
E agora América
Cabo Verde foi um dos 16 países premiados com os Fundos do MCA Estes países foram escolhidos, segundo o jornal Washington Post, por serem países pobres, mas democráticos, com a capacidade tácita de promover reformas económicas e sociais. A postura adoptada pelo governo de Washington, pode ser analisada como uma retomada das ideias wilsonianas de 1919 em que o conceito de democracia aliado ao conceito de segurança colectiva seria resultante de bons fluídos ao comércio. E nós com isso? Cabo Verde é o único país da África Ocidental que vive na estabilidade, no crescimento saudável e na cultura da paz. O único. Este estatuto nos aproxima naturalmente da América. Os EUA, que estão em guerra contra o terrorismo global, consideram que há uma ameaça sobre os seus cidadãos e sobre o seu território e que, face a ela, é essencial buscar outras sociabilidades e encontrar novos aliados. Tenhamos coragem de analisar as coisas de frente e de despir a lógica não-alinhada do tempo da Guerra Fria. O peso da antiga estrutura mental deve dar lugar a uma leveza de olhar, disposto a reformas e inovação que se impõem. Torna-se mister compreender que a relação entre Cabo Verde e os Estados Unidos deixou de ser a mesma desde o fim da Guerra Fria. Enquanto país de vocação atlântica, precisamos colocar acento na cooperação mais intensa com os EUA, sem pôr em causa os nossos múltiplos interesses. É que, sendo o mundo realmente redondo, se reforça o atavismo estratégico entre Cabo Verde e os EUA. Nem sempre se pode fazer poesia, ao fim e ao cabo...
Sheherazade e as Mil e Uma Noites sempre foram as minhas referências literárias fundamentais. As Mil e Uma Noites, porque a outra só se perde, no campo da complexidade estética, apenas pela Bíblia e o Corão. E concorre à minha cabeceira com Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, e Mensagem, de Fernando Pessoa. Exagero um bocado, mas não estou longe da verdade. E Sheherazade, porque retém toda a minha fantasia da musa inspiradora e primordial da verdadeira literatura. Sheherazade, para mim, é o supremo poder da mulher, isto é, sedutora e sensual como a água das fontes na secura dos nossos múltiplos preconceitos. Agora que entramos na Semana da Cultura no Feminino, uma iniciativa do Ministério da Cultura, germinam cá dentro algumas inquietações em torno de conceitos como mulher, homem, feminino, masculino, feminismo, machismo e feminilidade. Grandes questionamentos se impõem. Como é que a mulher pode actuar num mundo masculino de uma forma não masculina? Como é que a mulher, que não produz o conjunto das regras de funcionamento do mundo, pode processar a sua própria emancipação? Antes de mais, a mulher deverá recusar a tentação — de ser homem — esse caminho dominante do "ser". O modelo de actuação masculino baseado neste amálgama milenar, responde a uma imagem legitimada do que é ser e isto tende a ser paradigma para certos feminismos, na linha na monossexualidade do discurso antropológico. Tudo isso, para dizer-vos, caros leitores, que a verdadeira libertação é do género e que todo o ser humano – o macho, na sua condição ulterior – guarda a sua condição feminina. A sua Sheherazade...
Ora Europa, ora África
Cabo Verde, por ser país pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, tem vivido ao longo da sua História a procurar âncoras. As suas elites, desde o antanho, procuram pensar a estabilidade destas ilhas a partir de matrizes exógenas, produtoras de valores materiais e imateriais que, com criatividade e fé no Além, sempre ajudam a sobreviver (e, em períodos mais excepcionais, a desenvolver). Mas essa procura está inscrita na nossa memória genética de um tropismo sincrético, de somatório de várias componentes, que, em certas horas, se afirmam e, noutras horas, se recusam. Ora Europa, ora África, quando não Europa e África. Ou mesmo Euroáfrica, passe o composto. Mas a questão é mais complexa do que parece. As ligações com o Brasil sempre friccionaram os nossos sentimentos mais íntimos. Eu gosto de você, Brasil, diria Jorge Barbosa no seu vate modal. A simbiose com Portugal lateja em nós e se consolida, mesmo quando, a medo da despersonalização, nos sentimos a entregar. Ou quando descobrimos que o negócio da Electra, com os olhos de ver mesmo, foi um grande negócio da China. Os ilustres Mário Soares e Adriano Moreira formulam hipóteses de entrarmos (periféricos ou de cabeça) na União Europeia e aí estamos nós, sem paciência nem tempo para analisar a prenda na sua condição e intenção, a dar vivas e alvíssaras. E a âncora também pode ser a Espanha – afinal já fomos também espanhóis, filipenses da silva, enfim. Pode ser a África do Sul e/ou Angola, pois, estes lá podem ter as suas grandes mazelas, mas são terras de ouro e de petróleo e isto, deixemo-nos de tretas, conta irremediavelmente. A Guiné-Bissau, agora dilacerada pelo momento histórico, será, como já foi aliás, um espaço para nós vital, razão porque temos de olhar para esse país vizinho (e irmão, diga-se pelas nossas informações genéticas, ora) com alguma prudência e proposta de complementaridade. Âncora, ainda que pareça absurdo. País pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, Deus nos há de ajudar nesta vocação de procura. O mundo é redondo afinal...
E agora América
Cabo Verde foi um dos 16 países premiados com os Fundos do MCA Estes países foram escolhidos, segundo o jornal Washington Post, por serem países pobres, mas democráticos, com a capacidade tácita de promover reformas económicas e sociais. A postura adoptada pelo governo de Washington, pode ser analisada como uma retomada das ideias wilsonianas de 1919 em que o conceito de democracia aliado ao conceito de segurança colectiva seria resultante de bons fluídos ao comércio. E nós com isso? Cabo Verde é o único país da África Ocidental que vive na estabilidade, no crescimento saudável e na cultura da paz. O único. Este estatuto nos aproxima naturalmente da América. Os EUA, que estão em guerra contra o terrorismo global, consideram que há uma ameaça sobre os seus cidadãos e sobre o seu território e que, face a ela, é essencial buscar outras sociabilidades e encontrar novos aliados. Tenhamos coragem de analisar as coisas de frente e de despir a lógica não-alinhada do tempo da Guerra Fria. O peso da antiga estrutura mental deve dar lugar a uma leveza de olhar, disposto a reformas e inovação que se impõem. Torna-se mister compreender que a relação entre Cabo Verde e os Estados Unidos deixou de ser a mesma desde o fim da Guerra Fria. Enquanto país de vocação atlântica, precisamos colocar acento na cooperação mais intensa com os EUA, sem pôr em causa os nossos múltiplos interesses. É que, sendo o mundo realmente redondo, se reforça o atavismo estratégico entre Cabo Verde e os EUA. Nem sempre se pode fazer poesia, ao fim e ao cabo...
sábado, 19 de março de 2005
Dia Mundial da Poesia - 21 de Março
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos
quinta-feira, 17 de março de 2005
Difícil ser funcionário
Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
João Cabral de Melo Neto
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
João Cabral de Melo Neto
terça-feira, 15 de março de 2005
Blog Nota 6
Mais alma!!!
A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras. Até porque ela precedeu a pátria. Tanto que no miasma da nação diasporizada, ela circula livre no espaço global, quando erigir, fará cair, o Muro de Berlim, ainda nem era sonho. Leiam Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luis Loff de Vasconcelos. Leiam os de hoje: Mário Lúcio Sousa, João Varela, Onésimo Silveira e António Correia e Silva. Cabo Verde se afirma pela sua dimensão cultural, que não é grande, no sentido do peso e da medida, mas que é profunda e diversa. A peculiaridade da cultura cabo-verdiana reside, pois, no seu sincretismo antropofágico. Desde sempre. Muito antes do Movimento Claridoso, que, de repente, quase por decreto, virou nossa independência cultural. A cultura cabo-verdiana, para mim, sempre foi uma entidade que “come” todos os elementos culturais e processa-os de molde reinventado e, de certa forma, autónomo. Fê-lo desde a barbosiana “hora inicial” e a língua crioula é disso prova maior. Assim, a cultura cabo-verdiana nunca foi uma pedra de Sísifo, mas sim uma janela para o mundo, que é a nosso identidade lacto senso, imunizados que somos contra os zéfiros da descaracterização. A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras, mormente quando afirmativas e patrulheiras. Precisa, sim, de cada vez mais espaço para a alma, como diria o imenso Orlando Pantera, nesta continuada afirmação da estética...
E a nossa estrutura desejante?
E o cabo-verdiano precisa mais do que nunca da estética, tanto como do pão para a boca. Mostra-nos a psicanálise que a função do belo perturba a estrutura do ser desejante diante do enigmático e inacessível. Para o ser psíquico a criatividade estética se configura como um acto e símbolo da realização. Bem dizia Diderot que a perfeição de um espectáculo consiste no seu poder de evocar uma aura da realização. Agora, o busílis da questão é sabermos, com firmeza, o que é a realização. Dou um doce. O debate ainda vai no adro. O dramaturgo João Branco disse-nos aquilo das crianças encantadas (e, quem sabe, transformadas) pelos encantos do teatro, uma realização que talvez transcenda à bizantinice de certas discussões. Gostei desse rasgo no Konbersu Sabi, da jornalista Matilde Dias. Os ilustrados e os iluminados que deixem os acantonados becos sem saída e venham à praça (pode até ser virtual) do diálogo. Vale escujurarmos a sina dos meios pequenos. Ou mesmo tacanhos, para que saibamos destrinçar o trigo do joio. Se, vez por outra, surgem tiradas brilhantes, aqui quase sempre o verbo tem sido chulo. Verborreia pelo esculacho. Quando não descamba para um bairrismo incompetente. Estamos literalmente naquele dilema de ou vai, ou racha. Dum lado, ficamos arreigados, orgulhosamente agarrados à pedra da tradição. Doutro, já sabemos que a cultura não pode ser a pedra de Sísifo, e a queremos solta como uma ave que voa. Pior são aqueles que vêm ao debate com a pedra na mão. E no coração, meu Deus. Assim fica difícil pensar que este país é de morabeza...
En souffrance
Eu seria um ser humano en souffrance, se me fosse privado saber de Nácia Gomi e de William Shakspeare, de José Luis Tavares e de Pablo Picasso, de Vasco Martins e de Wole Soyinka. Deixem-me curtir Kwame Kondé! Não se “avexem” que a 5ª Sinfonia de Beethoven me emociona! Aceso, integral e crítico, me sinto pronto para o grande diálogo. Pronto, porque estou descomplexado. De coração na mão. Pronto para dar e receber. Para apreender de tudo. Com todos. Mas palavra que não entendi aquilo sobre o índice de civilização. Falta-me entendimento em relação a certas questões. E, em remate final, indagaria: espelho, espelho meu, existirá alguma civilização “mais civilizada” do que a minha? Já Lévi-Strauss nos ensinara que a diferença cultural, não deve ser percebida como uma ameaça a ser destruída mas como alternativa a ser inter-cambiada. E eis que à negativa do espelho, meu espelho, se adensa a anuência da antropologia. Ou, aqui no âmago, a antropofagia...
A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras. Até porque ela precedeu a pátria. Tanto que no miasma da nação diasporizada, ela circula livre no espaço global, quando erigir, fará cair, o Muro de Berlim, ainda nem era sonho. Leiam Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luis Loff de Vasconcelos. Leiam os de hoje: Mário Lúcio Sousa, João Varela, Onésimo Silveira e António Correia e Silva. Cabo Verde se afirma pela sua dimensão cultural, que não é grande, no sentido do peso e da medida, mas que é profunda e diversa. A peculiaridade da cultura cabo-verdiana reside, pois, no seu sincretismo antropofágico. Desde sempre. Muito antes do Movimento Claridoso, que, de repente, quase por decreto, virou nossa independência cultural. A cultura cabo-verdiana, para mim, sempre foi uma entidade que “come” todos os elementos culturais e processa-os de molde reinventado e, de certa forma, autónomo. Fê-lo desde a barbosiana “hora inicial” e a língua crioula é disso prova maior. Assim, a cultura cabo-verdiana nunca foi uma pedra de Sísifo, mas sim uma janela para o mundo, que é a nosso identidade lacto senso, imunizados que somos contra os zéfiros da descaracterização. A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras, mormente quando afirmativas e patrulheiras. Precisa, sim, de cada vez mais espaço para a alma, como diria o imenso Orlando Pantera, nesta continuada afirmação da estética...
E a nossa estrutura desejante?
E o cabo-verdiano precisa mais do que nunca da estética, tanto como do pão para a boca. Mostra-nos a psicanálise que a função do belo perturba a estrutura do ser desejante diante do enigmático e inacessível. Para o ser psíquico a criatividade estética se configura como um acto e símbolo da realização. Bem dizia Diderot que a perfeição de um espectáculo consiste no seu poder de evocar uma aura da realização. Agora, o busílis da questão é sabermos, com firmeza, o que é a realização. Dou um doce. O debate ainda vai no adro. O dramaturgo João Branco disse-nos aquilo das crianças encantadas (e, quem sabe, transformadas) pelos encantos do teatro, uma realização que talvez transcenda à bizantinice de certas discussões. Gostei desse rasgo no Konbersu Sabi, da jornalista Matilde Dias. Os ilustrados e os iluminados que deixem os acantonados becos sem saída e venham à praça (pode até ser virtual) do diálogo. Vale escujurarmos a sina dos meios pequenos. Ou mesmo tacanhos, para que saibamos destrinçar o trigo do joio. Se, vez por outra, surgem tiradas brilhantes, aqui quase sempre o verbo tem sido chulo. Verborreia pelo esculacho. Quando não descamba para um bairrismo incompetente. Estamos literalmente naquele dilema de ou vai, ou racha. Dum lado, ficamos arreigados, orgulhosamente agarrados à pedra da tradição. Doutro, já sabemos que a cultura não pode ser a pedra de Sísifo, e a queremos solta como uma ave que voa. Pior são aqueles que vêm ao debate com a pedra na mão. E no coração, meu Deus. Assim fica difícil pensar que este país é de morabeza...
En souffrance
Eu seria um ser humano en souffrance, se me fosse privado saber de Nácia Gomi e de William Shakspeare, de José Luis Tavares e de Pablo Picasso, de Vasco Martins e de Wole Soyinka. Deixem-me curtir Kwame Kondé! Não se “avexem” que a 5ª Sinfonia de Beethoven me emociona! Aceso, integral e crítico, me sinto pronto para o grande diálogo. Pronto, porque estou descomplexado. De coração na mão. Pronto para dar e receber. Para apreender de tudo. Com todos. Mas palavra que não entendi aquilo sobre o índice de civilização. Falta-me entendimento em relação a certas questões. E, em remate final, indagaria: espelho, espelho meu, existirá alguma civilização “mais civilizada” do que a minha? Já Lévi-Strauss nos ensinara que a diferença cultural, não deve ser percebida como uma ameaça a ser destruída mas como alternativa a ser inter-cambiada. E eis que à negativa do espelho, meu espelho, se adensa a anuência da antropologia. Ou, aqui no âmago, a antropofagia...
sexta-feira, 11 de março de 2005
O mar tão-só à justa
Tão sentado quão me deslavo, vejo-te,
Tardos dos meus olhos, seja tempo
Esmaecido das nuvens ou das flores peregrinas,
Assim clepsidra musa das que crepita…
Aonde o périplo leva, ao tento breve e fogo,
Sobressalta na noite esta chama dos olhares,
Pedra em cripta que não sabes já, a rebrilhar
Quais estrelas lá longe da tua sombra…
Dou-te mais do que o mar para dar,
As praias íntimas de conchas mais secretas,
As gretas que sabem ao desponte da noite…
As luas que sobem ao musgo das grutas,
O escorrer impúdico nas veias das águas,
O mar tão-só à justa dos nossos corpos…
Filinto Elísio
Tardos dos meus olhos, seja tempo
Esmaecido das nuvens ou das flores peregrinas,
Assim clepsidra musa das que crepita…
Aonde o périplo leva, ao tento breve e fogo,
Sobressalta na noite esta chama dos olhares,
Pedra em cripta que não sabes já, a rebrilhar
Quais estrelas lá longe da tua sombra…
Dou-te mais do que o mar para dar,
As praias íntimas de conchas mais secretas,
As gretas que sabem ao desponte da noite…
As luas que sobem ao musgo das grutas,
O escorrer impúdico nas veias das águas,
O mar tão-só à justa dos nossos corpos…
Filinto Elísio
Blog Nota 5
Fragoso e Branco
Do debate…bem, do pretenso debate sobre o teatro em Cabo Verde, iniciado em boa hora, e com polémica, por Francisco Fragoso, salva-se, dum lado, a impressão de que novas luzes e outras dinâmicas começam a germinar; doutro lado, fica o travo de que continuamos provincianos e tacanhos. Numa rotação mais lenta da que este mundializado planeta, diga-se. Tanto Francisco Fragoso como João Branco muito fizeram, e fazem, pelo teatro em Cabo Verde. Torna-se, por isso, normal que, diante de tanta convergência, existam entre eles pontos (e pomos) de discórdia. Mas o inferno…são os claquistas de parte a parte. Estes continuam saudosistas, dependentes e bairristas, quando não racistas. E trocam farpas de levar por casa. Um verdadeiro festival do maniqueísmo e da mediocridade. Debater teatro é saudável e é isto que o país precisa. De um amplo debate cultural ao fim e ao cabo…
Espuma que já bateu na praia
Outro debate que desponta é sobre a oficialização do crioulo. E tudo indica que, contrariamente à Igreja Católica que, há muitos anos, deu à língua materna o estatuto litúrgico, a nossa dita intelectualidade treme nas bases. Muitos consagrados e com lugares marcados nos pequeníssimos pedestais, temem introduzir algo que os obrigue a repensar, a reaprender e a revalorizar. Será demasiado trabalho para uma intelectualidade que vê o mundo de um horizonte pequeno. Só que a oficialização do crioulo deixou de ser uma onda que se adensa, mas uma espuma que já bateu na praia…
Agora que a vida nasceu
Em verdade, Cabo Verde, agora que a vida nasceu, precisava ter disto tudo (e bem à Eduardo Pitta): os artistas «nascidos de cu para a lua», os «funcionários», os «mediáticos», os «velhíssimos», os «novos», os «novíssimos», os «urbanóides», os «do Partido», os «picantes», os «malditos», os «marginais», os «tardo-Dada», as «socialites-escritoras», os «laterais», os «colunistas», os «candidatos», os «jornalistas», os «psicoterapeutas», os «académicos», os «S/M», os «políticos», as «feministas», as «professoras», os «deputados», as «escritoras do Graal», os «gay off the record», os «palopianos», os «venéreos», os «crioulistas», os «fedorentos radical-chic», etc.
Da paz era o nome do largo
O largo por ironia chamava-se da paz. E eu, por redundância, quis fazer as pazes entre dois amigos. As circunstâncias (não importam aqui as razões) fizeram com que estivessem de costas voltadas. Nem conto nesta terra onde tudo se sabe. Mas estamos em tempo de criação, que diabo! E tempo não haverá para odiar tanto. O que sobra será do amor. Da amizade. Ledo o meu engano. Vociferantes e maldizentes, prontos para a primeira pedra. Para mim, bastou. O meu teatro é de tirar, e não colocar, a máscara. Saio para o Largo da Paz e sinto-me mais livre que nunca, embora triste pela perda. Por ironia, balbucio o nome da placa que dá nome ao largo…
Dá Fala
A revista Dá Fala foi lançada, com sublinhado frisson cultural, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. É uma revista com gráfica solta, que desafia laudas, margens e sequências. Com um conteúdo múltiplo, ainda não totalmente definido, mas que se orienta para as artes, letras e ideias. Por tudo isso, é uma iniciativa bem-vinda que me lembrou, primeiro, a revista Ponto & Vírgula e, segundo, a folha cultural Sopinha do Alfabeto. Com Artiletra, já no mercado cultural há década e meia, Dá Fala é mais uma valência editorial. Num tempo em que as novas tecnologias também se derivam para o campo gravítico da cultura. Os blogs que o confirmem - Lantuna, Os Momentos e Aulil, entre os mais dinâmicos…
Do debate…bem, do pretenso debate sobre o teatro em Cabo Verde, iniciado em boa hora, e com polémica, por Francisco Fragoso, salva-se, dum lado, a impressão de que novas luzes e outras dinâmicas começam a germinar; doutro lado, fica o travo de que continuamos provincianos e tacanhos. Numa rotação mais lenta da que este mundializado planeta, diga-se. Tanto Francisco Fragoso como João Branco muito fizeram, e fazem, pelo teatro em Cabo Verde. Torna-se, por isso, normal que, diante de tanta convergência, existam entre eles pontos (e pomos) de discórdia. Mas o inferno…são os claquistas de parte a parte. Estes continuam saudosistas, dependentes e bairristas, quando não racistas. E trocam farpas de levar por casa. Um verdadeiro festival do maniqueísmo e da mediocridade. Debater teatro é saudável e é isto que o país precisa. De um amplo debate cultural ao fim e ao cabo…
Espuma que já bateu na praia
Outro debate que desponta é sobre a oficialização do crioulo. E tudo indica que, contrariamente à Igreja Católica que, há muitos anos, deu à língua materna o estatuto litúrgico, a nossa dita intelectualidade treme nas bases. Muitos consagrados e com lugares marcados nos pequeníssimos pedestais, temem introduzir algo que os obrigue a repensar, a reaprender e a revalorizar. Será demasiado trabalho para uma intelectualidade que vê o mundo de um horizonte pequeno. Só que a oficialização do crioulo deixou de ser uma onda que se adensa, mas uma espuma que já bateu na praia…
Agora que a vida nasceu
Em verdade, Cabo Verde, agora que a vida nasceu, precisava ter disto tudo (e bem à Eduardo Pitta): os artistas «nascidos de cu para a lua», os «funcionários», os «mediáticos», os «velhíssimos», os «novos», os «novíssimos», os «urbanóides», os «do Partido», os «picantes», os «malditos», os «marginais», os «tardo-Dada», as «socialites-escritoras», os «laterais», os «colunistas», os «candidatos», os «jornalistas», os «psicoterapeutas», os «académicos», os «S/M», os «políticos», as «feministas», as «professoras», os «deputados», as «escritoras do Graal», os «gay off the record», os «palopianos», os «venéreos», os «crioulistas», os «fedorentos radical-chic», etc.
Da paz era o nome do largo
O largo por ironia chamava-se da paz. E eu, por redundância, quis fazer as pazes entre dois amigos. As circunstâncias (não importam aqui as razões) fizeram com que estivessem de costas voltadas. Nem conto nesta terra onde tudo se sabe. Mas estamos em tempo de criação, que diabo! E tempo não haverá para odiar tanto. O que sobra será do amor. Da amizade. Ledo o meu engano. Vociferantes e maldizentes, prontos para a primeira pedra. Para mim, bastou. O meu teatro é de tirar, e não colocar, a máscara. Saio para o Largo da Paz e sinto-me mais livre que nunca, embora triste pela perda. Por ironia, balbucio o nome da placa que dá nome ao largo…
Dá Fala
A revista Dá Fala foi lançada, com sublinhado frisson cultural, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. É uma revista com gráfica solta, que desafia laudas, margens e sequências. Com um conteúdo múltiplo, ainda não totalmente definido, mas que se orienta para as artes, letras e ideias. Por tudo isso, é uma iniciativa bem-vinda que me lembrou, primeiro, a revista Ponto & Vírgula e, segundo, a folha cultural Sopinha do Alfabeto. Com Artiletra, já no mercado cultural há década e meia, Dá Fala é mais uma valência editorial. Num tempo em que as novas tecnologias também se derivam para o campo gravítico da cultura. Os blogs que o confirmem - Lantuna, Os Momentos e Aulil, entre os mais dinâmicos…
quarta-feira, 9 de março de 2005
Gestos escusados
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pablo Neruda
Nosso fórum
O mundo está amedrontado pela justificada fúria da riqueza e do terror. E a questão essencial tem a ver com a Humanidade. E não apenas, como pretendem alguns, com a geo-política. E o sistema doutrinal (hoje globalitário e com filiação entre nós), que com a ideologia não se confunde, é aquele que legitima, sempre e a qualquer preço, a ordem dominante. Ora, temos de ser mais complexos e analisar, com parcimónia e sem fantasmas, este mundo que se arma em cão. É possível sim, nas ilhas e no cosmos, um novo mundo.
Adão desconhecido
Sempre que a Electra, por excesso de zelo ou de competência, nos falta com a energia eléctrica, facto frequente, pelo menos na capital do país, revejo mentalmente “Virgens Loucas”, de António Aurélio Gonçalves (o mestre da boa prosa) e fico à varanda, horas esquecidas, a ver as constelações. E tem sido assim, às escuras perante o firmamento, que me sinto grão de areia neste Universo e que me apetece escrever poesia. Na sala de visitas, a televisão apagada e a vela fragilmente acesa, exala um silêncio existencial. E, entre o ridículo que é o blackout da Electra (logo nesta cidade de maior demanda e de melhor receita!) e o romântico destas mãos para o vácuo, procuro, como no famoso quadro de Miguel Angelo, tocar os meus dedos aos de um Adão desconhecido...
Os astros de Neruda
Um dia, escrever-te-ei textos elegantes e excelentes. A minha literatura, então, será redimensionada pelo imperativo da beleza. Pela estética mais pura. As Belas Letras. Caudalosas prosas que, correndo o curso de um rio, extravasem suas águas no mar das palavras. Quem escreve, caro Pranchinha, quer no seu epitáfio apenas as datas de nascimento e de passamento; no seu obituário, acrescente-se-lhe que amou os seus filhos e as frutas serenadas da poesia. Quem escreve precisa de remanso e de descanso, algo como uma paz interior na seiva dos momentos. Um dia, havendo espaço para tanto, dir-te-ei como tiritam azuis os astros ao longe...
Doce Guerra
Apesar dos grandes avanços nestes 30 anos bem contados (e bem vividos), Cabo Verde - Doce Guerra, como vaticinou Antero Simas – continua a ser um país sob stress e sob o espectro da incerteza. Que os merecidos elogios, não nos façam esquecer esta secular contingência face à conjuntura internacional. No mundo interdependente e global, os frágeis, pequenos e pobres são menos iguais do que os outros. A esta hora importaria uma largada diferente, mais centrada na solidez endogénica e menos voltada para modismos importados. País insular, nação diasporizada e povo escolarizado, qual a próxima questão? Sustentabilidade parece ser a palavra-chave e a necessária procura. E qualidade a palavra de ordem (onde já ouvi isso?). Para o grande salto colectivo...
Slightly single
Caro amigo, nesta respiração assistida da solidão procuro sorrir. Para a manhã radiante. Ou, simplesmente, para o bom dia de um transeunte. Eu queria sentir agora, como nos versos de Fernando Assis Pacheco, uma paz assim fresca/ sem grandes gestos/ escusados. E eis que Neruda termina assim o lindo pórtico: Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa/ y éstos los últimos versos que yo le escribo.
sexta-feira, 4 de março de 2005
Poema em linha recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
quarta-feira, 2 de março de 2005
O Primeiro Dia
“O meticuloso exercício da escrita pode ser a nossa salvação”
Paula. Isabel Allende
O sinal da cruz
Tenho acompanhado, com angústia e admiração, as privações de João Paulo II. Como um asceta, ele aproxima-se da janela e faz o sinal da cruz à multidão vigilante. O gesto ritual ganha outro significado, porque, lá no fundo, todos sabem que o Santo Padre está na vertiginosa contagem decrescente. E, no âmago, ninguém sabe se para o salto noutra vida, dimensionada, crê-se, de mais pureza e santidade. Ou, se apenas regresso ao pó, vaticínio, algo como um destino, iniciado no Primeiro Dia. Angústia, não pela morte, axiomática como a luz, mas pela interrogação que traz a esta solidão peregrina. E admiração, porque na vida – e longe de mim a morbidez –, nada soa tão cristalina como um salto para o cronos e o caos da eterna idade…
Cavalheiro de fina estampa
Escrever, à minha resposta mais íntima, seria falar-vos aqui dos astros, dos vulcões e dos oceanos. Se o meu avô estivesse ainda vivo, o desfecho do meu livro seria outro. Intenso como era ele, havia de ter peso e espaço nesta história. O narrador teria até de pedir licença para vos conceder aos detalhes, pois, em termos de mesuras, o avô era mesmo um exímio. “Um cavalheiro de fina estampa”, repetia a minha tia mais velha. Rigoroso e erudito, o avô declamava, de cor e salteado, os cantos d´Os Lusíadas, de Luís de Camões, e contava, em miúdos, a tragédia da Assistência. E na minha história, introduzia-o como personagem central das incursões pelos inter-textos. A trama far-se-ia passear pelos 24 cantos e 12.000 versos hexâmetros com que Homero construiu o Odisseia. E daria, como ele sonhara, outro destino a Ulisses, náufrago recolhido na praia pela princesa Nausicaa. Havia de ter peso e espaço nesta história, porque, esquecido do primeiro dia, a minha mais recuada lembrança vê o avô na sua cadeira de baloiço, à porta da velha casa. E nesse quadro, ora ruidoso de meninos, ora bucólico de lua vaga, eu ali ficava a querer saber dos astros, dos vulcões e dos oceanos. E da seiva que, imperceptível, subia pelo tronco da velha espinheira, mais raquítica de que velha, diga-se. De ser esta saudade a minha grande metáfora…
Versos hexâmetros
Cada número uma palavra, assim faz o homem o seu próprio Oráculo, memorizando mesmo, no espaço, a sua memória do começo. E esta geometria lhe permite os versos hexâmetros com que vai vivendo os limites ou termos das coisas. O finito e o infinito, o limitado e o ilimitado, tudo geometricamente em harmonia, dirá o homem para que possa sonhar e criar. E vai sabendo isto do Génese: No princípio Deus criou a terra. A terra achava-se vazia, as trevas cobriam o abismo e o vento de Deus girava sobre as águas. Então, Deus disse “Exista a luz” e assim se cumpriu. Deus viu que a luz era boa, apartou-a das trevas, chamou à lua “dia” e às trevas “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia…
O poderoso vinho
O Pranchinha, sempre a profanar a crónica, entra no texto e mostra-me um pasquim desta praça. O jornaleco vomita, da primeira à última página, a sua pestilência. Meu amor, morri ontem quando o tempo abrasado ao sol cambava atrás dos montes. Ísis, recolhe-me em pedaços e sopra os meus lábios de retorno à vida. Sou zapping desse espectáculo dos mitos. E quando se ama a matemática, o primeiro dia passa a ser uma condição incessante e quase sempre aleatória. No corredor tríade da vida, o primeiro dia é a impressão da memória. Os números não passam de uma feiticeira chamada Circe que, com o seu poderoso vinho, tem o dom de transformar os homens em bestas. E vice-versa…
Suma Teológica
Como diria São Tomás de Aquino, o número é a multitudo mensurata per unum. O Papa aproxima-se novamente da janela e faz o sinal da cruz à multidão…
Filinto Elísio
Paula. Isabel Allende
O sinal da cruz
Tenho acompanhado, com angústia e admiração, as privações de João Paulo II. Como um asceta, ele aproxima-se da janela e faz o sinal da cruz à multidão vigilante. O gesto ritual ganha outro significado, porque, lá no fundo, todos sabem que o Santo Padre está na vertiginosa contagem decrescente. E, no âmago, ninguém sabe se para o salto noutra vida, dimensionada, crê-se, de mais pureza e santidade. Ou, se apenas regresso ao pó, vaticínio, algo como um destino, iniciado no Primeiro Dia. Angústia, não pela morte, axiomática como a luz, mas pela interrogação que traz a esta solidão peregrina. E admiração, porque na vida – e longe de mim a morbidez –, nada soa tão cristalina como um salto para o cronos e o caos da eterna idade…
Cavalheiro de fina estampa
Escrever, à minha resposta mais íntima, seria falar-vos aqui dos astros, dos vulcões e dos oceanos. Se o meu avô estivesse ainda vivo, o desfecho do meu livro seria outro. Intenso como era ele, havia de ter peso e espaço nesta história. O narrador teria até de pedir licença para vos conceder aos detalhes, pois, em termos de mesuras, o avô era mesmo um exímio. “Um cavalheiro de fina estampa”, repetia a minha tia mais velha. Rigoroso e erudito, o avô declamava, de cor e salteado, os cantos d´Os Lusíadas, de Luís de Camões, e contava, em miúdos, a tragédia da Assistência. E na minha história, introduzia-o como personagem central das incursões pelos inter-textos. A trama far-se-ia passear pelos 24 cantos e 12.000 versos hexâmetros com que Homero construiu o Odisseia. E daria, como ele sonhara, outro destino a Ulisses, náufrago recolhido na praia pela princesa Nausicaa. Havia de ter peso e espaço nesta história, porque, esquecido do primeiro dia, a minha mais recuada lembrança vê o avô na sua cadeira de baloiço, à porta da velha casa. E nesse quadro, ora ruidoso de meninos, ora bucólico de lua vaga, eu ali ficava a querer saber dos astros, dos vulcões e dos oceanos. E da seiva que, imperceptível, subia pelo tronco da velha espinheira, mais raquítica de que velha, diga-se. De ser esta saudade a minha grande metáfora…
Versos hexâmetros
Cada número uma palavra, assim faz o homem o seu próprio Oráculo, memorizando mesmo, no espaço, a sua memória do começo. E esta geometria lhe permite os versos hexâmetros com que vai vivendo os limites ou termos das coisas. O finito e o infinito, o limitado e o ilimitado, tudo geometricamente em harmonia, dirá o homem para que possa sonhar e criar. E vai sabendo isto do Génese: No princípio Deus criou a terra. A terra achava-se vazia, as trevas cobriam o abismo e o vento de Deus girava sobre as águas. Então, Deus disse “Exista a luz” e assim se cumpriu. Deus viu que a luz era boa, apartou-a das trevas, chamou à lua “dia” e às trevas “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia…
O poderoso vinho
O Pranchinha, sempre a profanar a crónica, entra no texto e mostra-me um pasquim desta praça. O jornaleco vomita, da primeira à última página, a sua pestilência. Meu amor, morri ontem quando o tempo abrasado ao sol cambava atrás dos montes. Ísis, recolhe-me em pedaços e sopra os meus lábios de retorno à vida. Sou zapping desse espectáculo dos mitos. E quando se ama a matemática, o primeiro dia passa a ser uma condição incessante e quase sempre aleatória. No corredor tríade da vida, o primeiro dia é a impressão da memória. Os números não passam de uma feiticeira chamada Circe que, com o seu poderoso vinho, tem o dom de transformar os homens em bestas. E vice-versa…
Suma Teológica
Como diria São Tomás de Aquino, o número é a multitudo mensurata per unum. O Papa aproxima-se novamente da janela e faz o sinal da cruz à multidão…
Filinto Elísio
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005
Blog Nota 4
Adriana Calcanhoto
Estamos a preparar o lançamento do “Das Frutas Serenadas”, na cidade da Praia. Mano Preto introduz a ideia de uma dança de corpos pintados. Ele e a dançarina italiana Frederica. Além da pintura corporal, vamos inflectir mais a ideia da percussão no corpo. Fizemo-lo no Mindelo e o efeito foi bonito. Ouvi Adriana Calcanhoto a cantar Jornal de Serviço, um poema musicado de Carlos Drummond de Andrade, e fiquei maravilhado. Ela não utiliza os instrumentos considerados normais, apenas o som das Páginas Amarelas folheadas. Uma coisa inovadora e com um incrível impacto sonoro.
A pintura corporal dos índios Xerente
Achei tão interessante a ideia de Mano Prato que fui analisar o universo artístico (e antropológico) das pinturas corporais. Adorei as informações sobre as causas e os motivos da pintura corporal dos índios Xerente. Estes, quando dançam (também palavras, note-se), re-confeccionam o corpo com os seguintes elementos: carvão misturado com pau-de-leite faz o preto; sementes de urucum fazem o vermelho e o branco é completado com penugem de periquito ou algodão. Antes da pintura, os corpos são untados com óleo de babaçu. Os detalhes - círculo ou traços - são esculpidos em pedaços de miolo de tora de buriti, e utilizados como uma espécie de "carimbo". O resto é dançar as palavras…
Mês de teatro
Em Março, o Mindelact assinalará o mês de teatro. Esta será mais uma oportunidade de intercâmbio entre as várias dramaturgias, como também seria importante prestar uma atenção maior à produção cabo-verdiana que, em função das dificuldades conjunturais, ainda não ganhou a dinâmica desejada. O teatro protagoniza o nosso surto de pertença cultural e é, em permanência, deflagrador do nosso processo identitário. Por isso, sejamos simbiótica e intermitentemente destas ilhas e deste mundo. Naturalmente que as grandes peças universais importam ser montadas em Cabo Verde, porque não faz o menor sentido ficarmos isolados em matéria da arte, qualquer que seja ela. E é preciso reconhecer que, graças ao Mindelact, a ponte da dramaturgia cabo-verdiana continuou de pé.
Celeumas (sempre) necessárias
Uma pequena celeuma corre sobre a existência ou não do genuíno teatro cabo-verdiano. É interessante reparar que hoje as atenções voltam para a discussão do teatro. Antes disso, estávamos um tanto intoxicados pelas celeumas futeboleiras e/ou partidárias. Tirando uma ou outra posição mais extremada, também parte do show (e de um bairrismo, aqui e acolá, parte da nossa mediocridade), o que importa é o regresso de Kwame Kondé ao teatro activo. Agora que já renascem vários grupos cénicos na capital, o retorno de Kondé pode ser encarado como algo emblemático, além da operação de charme. Mais do que as múltiplas aparências, façamos coisas essenciais. Este país precisa de qualidade. Em tudo. E depois, como ensinou Platão, o mundo das imagens é também o da efemeridade. Até para o mantermos, enquanto realidade encantatória, precisaríamos desta reinvenção. Pela essência, naturalmente…
Tcheka
Tcheka Andrade, imenso músico, por si só, configura-nos uma noite diferente. O espectáculo do sábado passado, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, foi algo diferente, bonito e bem apanhado. O profundamente tradicional mesclado a um arranjo para lá de moderno. Às tantas, viajei para as batidas de Baba Maal, as melodias Al di Meola e o “remelexo” de Jonathan Butler. Parei também nos lamentos de Codé di Dona, na graça de Bibinha Cabral e na alma eterna de Orlando Pantera. Em suma, um show e tanto, com o brinde da poderosa Lura, em dueto transcendente com Tcheka. E a banda – ele, mais Kizó, Raul e Hernâni – é a nata de uma geração que já deu muito e mais ainda tem para dar a Cabo Verde. O som pesado do quarteto não deixa ninguém indiferente. A mim, deu-me ganas de gritar – a risco de dar vexame na ambiência intimista: viva a música!
Nota e anota: o guitarrista Hernâni é de facto uma preciosidade. O Cyber Sofia e o Tera estão, uma vez mais, de parabéns. Façam barulho, apesar dos guardiães do velho templo…
Estamos a preparar o lançamento do “Das Frutas Serenadas”, na cidade da Praia. Mano Preto introduz a ideia de uma dança de corpos pintados. Ele e a dançarina italiana Frederica. Além da pintura corporal, vamos inflectir mais a ideia da percussão no corpo. Fizemo-lo no Mindelo e o efeito foi bonito. Ouvi Adriana Calcanhoto a cantar Jornal de Serviço, um poema musicado de Carlos Drummond de Andrade, e fiquei maravilhado. Ela não utiliza os instrumentos considerados normais, apenas o som das Páginas Amarelas folheadas. Uma coisa inovadora e com um incrível impacto sonoro.
A pintura corporal dos índios Xerente
Achei tão interessante a ideia de Mano Prato que fui analisar o universo artístico (e antropológico) das pinturas corporais. Adorei as informações sobre as causas e os motivos da pintura corporal dos índios Xerente. Estes, quando dançam (também palavras, note-se), re-confeccionam o corpo com os seguintes elementos: carvão misturado com pau-de-leite faz o preto; sementes de urucum fazem o vermelho e o branco é completado com penugem de periquito ou algodão. Antes da pintura, os corpos são untados com óleo de babaçu. Os detalhes - círculo ou traços - são esculpidos em pedaços de miolo de tora de buriti, e utilizados como uma espécie de "carimbo". O resto é dançar as palavras…
Mês de teatro
Em Março, o Mindelact assinalará o mês de teatro. Esta será mais uma oportunidade de intercâmbio entre as várias dramaturgias, como também seria importante prestar uma atenção maior à produção cabo-verdiana que, em função das dificuldades conjunturais, ainda não ganhou a dinâmica desejada. O teatro protagoniza o nosso surto de pertença cultural e é, em permanência, deflagrador do nosso processo identitário. Por isso, sejamos simbiótica e intermitentemente destas ilhas e deste mundo. Naturalmente que as grandes peças universais importam ser montadas em Cabo Verde, porque não faz o menor sentido ficarmos isolados em matéria da arte, qualquer que seja ela. E é preciso reconhecer que, graças ao Mindelact, a ponte da dramaturgia cabo-verdiana continuou de pé.
Celeumas (sempre) necessárias
Uma pequena celeuma corre sobre a existência ou não do genuíno teatro cabo-verdiano. É interessante reparar que hoje as atenções voltam para a discussão do teatro. Antes disso, estávamos um tanto intoxicados pelas celeumas futeboleiras e/ou partidárias. Tirando uma ou outra posição mais extremada, também parte do show (e de um bairrismo, aqui e acolá, parte da nossa mediocridade), o que importa é o regresso de Kwame Kondé ao teatro activo. Agora que já renascem vários grupos cénicos na capital, o retorno de Kondé pode ser encarado como algo emblemático, além da operação de charme. Mais do que as múltiplas aparências, façamos coisas essenciais. Este país precisa de qualidade. Em tudo. E depois, como ensinou Platão, o mundo das imagens é também o da efemeridade. Até para o mantermos, enquanto realidade encantatória, precisaríamos desta reinvenção. Pela essência, naturalmente…
Tcheka
Tcheka Andrade, imenso músico, por si só, configura-nos uma noite diferente. O espectáculo do sábado passado, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, foi algo diferente, bonito e bem apanhado. O profundamente tradicional mesclado a um arranjo para lá de moderno. Às tantas, viajei para as batidas de Baba Maal, as melodias Al di Meola e o “remelexo” de Jonathan Butler. Parei também nos lamentos de Codé di Dona, na graça de Bibinha Cabral e na alma eterna de Orlando Pantera. Em suma, um show e tanto, com o brinde da poderosa Lura, em dueto transcendente com Tcheka. E a banda – ele, mais Kizó, Raul e Hernâni – é a nata de uma geração que já deu muito e mais ainda tem para dar a Cabo Verde. O som pesado do quarteto não deixa ninguém indiferente. A mim, deu-me ganas de gritar – a risco de dar vexame na ambiência intimista: viva a música!
Nota e anota: o guitarrista Hernâni é de facto uma preciosidade. O Cyber Sofia e o Tera estão, uma vez mais, de parabéns. Façam barulho, apesar dos guardiães do velho templo…
Tâmaras
Das janelas, olhávamos o abraço da baía
Os mastros entrados pelas enseadas,
O movimento dos corpos soluçantes
A exaustão das horas que se abraçam…
Olhávamos também, amor, o sol a pique
Que, das manhãs, dourava todas as frutas,
Era tua rua de infância, e estavas nua,
Molhada chuva e eu, ali, liquefeito…
Conta-me um pouco de haverem deuses,
Só um bocado desse paraíso de bocas
Fá-lo sem medo, assim como as loucas…
Toca-me, pelo fundo, amor, tão frágil
Quão poderosa, foste, num só momento,
E ter aquilo sido toda a eternidade…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
Os mastros entrados pelas enseadas,
O movimento dos corpos soluçantes
A exaustão das horas que se abraçam…
Olhávamos também, amor, o sol a pique
Que, das manhãs, dourava todas as frutas,
Era tua rua de infância, e estavas nua,
Molhada chuva e eu, ali, liquefeito…
Conta-me um pouco de haverem deuses,
Só um bocado desse paraíso de bocas
Fá-lo sem medo, assim como as loucas…
Toca-me, pelo fundo, amor, tão frágil
Quão poderosa, foste, num só momento,
E ter aquilo sido toda a eternidade…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
Uvas
Esplêndidas delícias de acariciadas mãos,
Navegantes das fomes e contemplativas das sedes,
Eras tu pelas alamedas dos abacateiros em flor
E caminhavas, nua, pela rua profanada…
E o resto era eu, minha fruta serenada,
À tua incessante procura, de mim, errante lua,
Seios de duna, à beira do oásis da loucura
E de abrir os olhos, na areia, e estás evadida…
Perdidas as mágoas, açucena das nuvens,
Em madrigais de amor a tua voz flutua assim
Como em furtivas dentadas na fruta enfim…
Ou como que a língua lambe o dentro das uvas
As catedrais, minha Eva luna, dos gemidos
Ser a cópula o decoro sobre os altares…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
Navegantes das fomes e contemplativas das sedes,
Eras tu pelas alamedas dos abacateiros em flor
E caminhavas, nua, pela rua profanada…
E o resto era eu, minha fruta serenada,
À tua incessante procura, de mim, errante lua,
Seios de duna, à beira do oásis da loucura
E de abrir os olhos, na areia, e estás evadida…
Perdidas as mágoas, açucena das nuvens,
Em madrigais de amor a tua voz flutua assim
Como em furtivas dentadas na fruta enfim…
Ou como que a língua lambe o dentro das uvas
As catedrais, minha Eva luna, dos gemidos
Ser a cópula o decoro sobre os altares…
Filinto Elísio
In: “Das Frutas Serenadas”
sábado, 26 de fevereiro de 2005
Intervalo 1: Guillermo Cabrera Infante
Faleceu o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, em Londres, aos 75 anos. Vencedor do Prémio Cervantes em 1997, dissidente do regime de Cuba, país de onde se exilou na Europa em 1965, o autor de Três Tristes Tigres vivia em Londres há mais de três décadas.
Admirador de Borges, apaixonado pelo cinema - foi o fundador da Cinemateca de Cuba, em 1951 - amante de boleros, Cabrera Infante nasceu em 22 de Abril de 1929, em Gibara, província de Oriente, Cuba. Em 1960, publicou seu primeiro livro importante, chamado Assim na Paz como na Guerra. Em 1962, o escritor viajou à Bélgica como adido cultural do governo cubano. Esta saída de seu país, do qual não parou de escrever apesar do longo exílio, o levou a questionar a revolução cubana, passando a ser um dos mais duros críticos do governo de Fidel Castro.
Em 1964, Infante ganhou seu primeiro prémio internacional com Vista do Amanhecer no Trópico, o Prémio Biblioteca Breve, de Seix Barral. Em 1967, publicou Três Tristes..., o romance experimental que o tornou conhecido em todo o planeta, no qual utiliza a fala popular cubana, muitos jogos de palavras, paródias e sua grande erudição.
Confira a obra completa:
Romances:
- Vista del amanecer en el trópico (1965)
- Tres Tristes Tigres (1967)
- La Habana para un Infante difunto (1979)
- Holly Smoke (1995)
- Delito por bailar chachachá (1995)
- Ella cantaba boleros (1996)
- La Amazona (1996)
- Mi música extremada (1996)
Ensaios:
- Así en la paz como en la guerra (1960)
- Un oficio del siglo XX (1973)
- Exorcismos de Esti(l)o (1976)
- Mea Cuba (1992)
- Arcadia todas las noches (1995)
- Cine o sardina (1997)
Também escreveu a adaptação do romance Bajo el volcán, de Malcolm Lowry, para o cinema.
Admirador de Borges, apaixonado pelo cinema - foi o fundador da Cinemateca de Cuba, em 1951 - amante de boleros, Cabrera Infante nasceu em 22 de Abril de 1929, em Gibara, província de Oriente, Cuba. Em 1960, publicou seu primeiro livro importante, chamado Assim na Paz como na Guerra. Em 1962, o escritor viajou à Bélgica como adido cultural do governo cubano. Esta saída de seu país, do qual não parou de escrever apesar do longo exílio, o levou a questionar a revolução cubana, passando a ser um dos mais duros críticos do governo de Fidel Castro.
Em 1964, Infante ganhou seu primeiro prémio internacional com Vista do Amanhecer no Trópico, o Prémio Biblioteca Breve, de Seix Barral. Em 1967, publicou Três Tristes..., o romance experimental que o tornou conhecido em todo o planeta, no qual utiliza a fala popular cubana, muitos jogos de palavras, paródias e sua grande erudição.
Confira a obra completa:
Romances:
- Vista del amanecer en el trópico (1965)
- Tres Tristes Tigres (1967)
- La Habana para un Infante difunto (1979)
- Holly Smoke (1995)
- Delito por bailar chachachá (1995)
- Ella cantaba boleros (1996)
- La Amazona (1996)
- Mi música extremada (1996)
Ensaios:
- Así en la paz como en la guerra (1960)
- Un oficio del siglo XX (1973)
- Exorcismos de Esti(l)o (1976)
- Mea Cuba (1992)
- Arcadia todas las noches (1995)
- Cine o sardina (1997)
Também escreveu a adaptação do romance Bajo el volcán, de Malcolm Lowry, para o cinema.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
Blog Nota 3
Realismo interior
De repente, tive a necessidade existencial de incluir no livro “Das Frutas Serenadas”, um caderno sobre as pedras, assumindo um caminho contrário da ascese fenomenológica. De forma consciente, em vez de procurar partir das pedras até à esfera da metafísica, “viajo” do abstracto (emoções, lembranças, sensações, movimentos da consciência) para incarnar nas pedras, como um concentrado de objectos, “coisas” que acumulam espaço e peso na minha existência. O ideal seria chegar à poética “expressionista”, tirando a conotação histórica do termo, e revelar o tal realismo interior…
O sujeito-eu
Fazer poesia é conceder-me ao sujeito-eu, revelar-me ao mundo e para o mundo. Não falo aqui da salvação, essa coisa judaico-cristã da salvação… mas quando consigo um poema, experimento um prazer sensual, carnal, erótico: consegui chegar a uma êxtase em mim próprio e sou, ainda que por lapsos, feliz. Nada a ver com a ascese… Escrever é poder desnudar a coisa, tirar o véu, a roupa, o preconceito, o tabu, sorver a luz e a sombra das coisas. A essência das frutas, quando reveladas ou mesmo serenadas pelo desejo humano.
Além da gramática
Não sou um obcecado pela gramática, pela métrica que até muito tempo dourava os versos. Os versos de há muito que desceram do panthéon e caíram na sarjeta. Prefiro a sensualidade da língua: usar uma língua sem afectações ou citações, podendo até recriar termos que se adaptem à ambiência. A poesia fala do Ser, relacional consigo, com o Outro e com as coisas e, por isso, transcende os cânones. O canto é um limite inatingível porque subverte tudo, inclusive a própria estética. O processo criativo sugere a duplicidade e a ambiguidade sempre. A poesia, mesmo quando recupera emoções singelas, subverte o instituído. O quadro Mona Lisa de Gioconda, de Leonardo Da Vinci grita tanto quanto Guernica, de Pablo Picasso.
A bater desvairado
Regresso à Praia, com Mário Lúcio e Mano Preto, dois artistas que me acompanharam na montagem e no desempenho do espectáculo «Das Frutas Serenadas», apresentado, sábado passado, no pub do Mindel Hotel. Na ilha do Porto Grande, ficaram Tchalé Figueira e João Branco, ambos integrantes do projecto, com a promessa de se nos juntarem na capital para a reconstituição da peça, algures em Março. O avião da TACV fez uma aproximação apressada e o touch down foi de acordar tudo e todos. A noite está serena e meio fria neste meu regresso. E penso nas coisas passadas no Mindelo. Já está na hora de eu me despir, de libertar a sensualidade que guardava nesta minha mão…
Viés da pesada
Revejo mentalmente o espectáculo. A parte do altar profanado. O fogo ateado à fresta dos poemas. O sanatório de repente criado. A descontinuidade do recital. Ninguém a sair ileso. Abstenho-me cada vez mais das brigas por reconhecer minhas limitações. Estou perplexo: engavetou-se a sensualidade. O necessário debate cultural caiu em saco roto. Em prol das luzes, nada. Erigiram-se a maledicência e a ignorância para o centro do debate. Quanto pior, melhor. As aspirações foram redimensionadas para baixo. Quando podíamos expressar as grandes ambições em relação às possibilidades estéticas desta nossa geração.
O sujeito-outro
Toda a minha poesia tem mote nesta frase de Clarice Lispector: “Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne e osso”. Sou múltiplo e individuar isso é o grande desafio. A consciência de também carregar o sujeito-outro. E diante do espelho confessar – à Poesis, que outro valor ali fenece – que tenho um nó da tua gravata no meu coração
De repente, tive a necessidade existencial de incluir no livro “Das Frutas Serenadas”, um caderno sobre as pedras, assumindo um caminho contrário da ascese fenomenológica. De forma consciente, em vez de procurar partir das pedras até à esfera da metafísica, “viajo” do abstracto (emoções, lembranças, sensações, movimentos da consciência) para incarnar nas pedras, como um concentrado de objectos, “coisas” que acumulam espaço e peso na minha existência. O ideal seria chegar à poética “expressionista”, tirando a conotação histórica do termo, e revelar o tal realismo interior…
O sujeito-eu
Fazer poesia é conceder-me ao sujeito-eu, revelar-me ao mundo e para o mundo. Não falo aqui da salvação, essa coisa judaico-cristã da salvação… mas quando consigo um poema, experimento um prazer sensual, carnal, erótico: consegui chegar a uma êxtase em mim próprio e sou, ainda que por lapsos, feliz. Nada a ver com a ascese… Escrever é poder desnudar a coisa, tirar o véu, a roupa, o preconceito, o tabu, sorver a luz e a sombra das coisas. A essência das frutas, quando reveladas ou mesmo serenadas pelo desejo humano.
Além da gramática
Não sou um obcecado pela gramática, pela métrica que até muito tempo dourava os versos. Os versos de há muito que desceram do panthéon e caíram na sarjeta. Prefiro a sensualidade da língua: usar uma língua sem afectações ou citações, podendo até recriar termos que se adaptem à ambiência. A poesia fala do Ser, relacional consigo, com o Outro e com as coisas e, por isso, transcende os cânones. O canto é um limite inatingível porque subverte tudo, inclusive a própria estética. O processo criativo sugere a duplicidade e a ambiguidade sempre. A poesia, mesmo quando recupera emoções singelas, subverte o instituído. O quadro Mona Lisa de Gioconda, de Leonardo Da Vinci grita tanto quanto Guernica, de Pablo Picasso.
A bater desvairado
Regresso à Praia, com Mário Lúcio e Mano Preto, dois artistas que me acompanharam na montagem e no desempenho do espectáculo «Das Frutas Serenadas», apresentado, sábado passado, no pub do Mindel Hotel. Na ilha do Porto Grande, ficaram Tchalé Figueira e João Branco, ambos integrantes do projecto, com a promessa de se nos juntarem na capital para a reconstituição da peça, algures em Março. O avião da TACV fez uma aproximação apressada e o touch down foi de acordar tudo e todos. A noite está serena e meio fria neste meu regresso. E penso nas coisas passadas no Mindelo. Já está na hora de eu me despir, de libertar a sensualidade que guardava nesta minha mão…
Viés da pesada
Revejo mentalmente o espectáculo. A parte do altar profanado. O fogo ateado à fresta dos poemas. O sanatório de repente criado. A descontinuidade do recital. Ninguém a sair ileso. Abstenho-me cada vez mais das brigas por reconhecer minhas limitações. Estou perplexo: engavetou-se a sensualidade. O necessário debate cultural caiu em saco roto. Em prol das luzes, nada. Erigiram-se a maledicência e a ignorância para o centro do debate. Quanto pior, melhor. As aspirações foram redimensionadas para baixo. Quando podíamos expressar as grandes ambições em relação às possibilidades estéticas desta nossa geração.
O sujeito-outro
Toda a minha poesia tem mote nesta frase de Clarice Lispector: “Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne e osso”. Sou múltiplo e individuar isso é o grande desafio. A consciência de também carregar o sujeito-outro. E diante do espelho confessar – à Poesis, que outro valor ali fenece – que tenho um nó da tua gravata no meu coração
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Breaking news (para leitura)
Simone de Beauvoir, escritora e feminista francesa
por Rubem Queiroz Cobra
A escritora francesa e feminista, Simone De Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro de 1908, e faleceu a 14 de Abril de 1986, em Paris. Participante do grupo dos filósofos que deram uma transcrição literária aos temas do Existencialismo, ela é conhecida primeiramente pelo seu tratado Le Deuxième Sexe (1949 - O Segundo Sexo), um apelo intelectual e apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta notável obra tornou-se um clássico da literatura feminista.
Educada em instituições privadas, Simone depois freqüentou a Sorbone onde, em 1929, concluiu filosofia e conheceu Jean-Paul Sartre, começando com ele um companheirismo por todo o resto da vida. Ela leccionou em várias escolas (1931-43) antes de voltar para a escrita. Em 1945, ela e Sartre fundaram e começaram a editar Les Temps modernes, uma revista mensal, da qual eles próprios eram os principais colaboradores.
As suas novelas abordavam os principais temas existencialistas, demonstrando o compromisso do escritor com sua época. L'Invitée (1943 - "A convidada") descreve a destruição do relacionamento de um casal subtilmente provocada pela permanência prolongada de uma jovem na própria casa, e também trata do difícil problema de relacionamento da consciência individual com a outra. A sua obra mais conhecida talvez seja é Les Mandarins (1954; Os mandarins), uma crónica sobre os intelectuais do pós-guerra, "mandarins", em face ao engajamento ao ativismo político, uma lição que os intelectuais de esquerda e seus admiradores aprenderam com rapidez em todo o mundo.
Ela também escreveu quatro livros de filosofia, Pour une Morale de l'ambiguité (1947 - "A ética da ambigüidade"); livros de viagens sobre a China La Longue Marche: essai sur la Chine (1957 - A Longa Marcha: ensaio sobre a China) e L'Amérique au jour de jour (1948 - "A América dia a dia), e vários outros ensaios, dos quais o mais conhecido é o referido "O Segundo Sexo".
Vários volumes de sua obra são devotados à autobiografia. Esses incluem Mémoires d'une jeune fille rangée (1958 - Memórias de uma filha diligente), La Force de l'âge (1960 - O vigor da idade), La Force des choses (1963 - A força das coisas), e Tout compte fait (1972 - Tudo dito e feito). Esses trabalhos mostram um retrato claro e significativo da vida intelectual francesa dos anos 30 aos anos 70.
Preocupada também com o problema da velhice, que ela aborda em Une Mort très douce (1964 - "Uma morte suave"), sobre a morte de sua mãe num hospital, e La Vieillesse (1970; Old Age), uma amarga reflexão sobre a indiferença da sociedade pelos velhos. Em 1981 ela escreveu La Cérémonie des adieux ("Cerimônia do adeus"), um doloroso relato dos últimos anos de Sartre. Considerada uma mulher corajosa e íntegra, Simone de Beauvoir viveu de acordo com sua própria tese de que as opções básicas de um indivíduo devem ser feitas sobre a premissa e uma vocação igual para o homem e a mulher fundadas na estrutura comum de seus seres, independentemente de sua sexualidade.
por Rubem Queiroz Cobra
A escritora francesa e feminista, Simone De Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro de 1908, e faleceu a 14 de Abril de 1986, em Paris. Participante do grupo dos filósofos que deram uma transcrição literária aos temas do Existencialismo, ela é conhecida primeiramente pelo seu tratado Le Deuxième Sexe (1949 - O Segundo Sexo), um apelo intelectual e apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta notável obra tornou-se um clássico da literatura feminista.
Educada em instituições privadas, Simone depois freqüentou a Sorbone onde, em 1929, concluiu filosofia e conheceu Jean-Paul Sartre, começando com ele um companheirismo por todo o resto da vida. Ela leccionou em várias escolas (1931-43) antes de voltar para a escrita. Em 1945, ela e Sartre fundaram e começaram a editar Les Temps modernes, uma revista mensal, da qual eles próprios eram os principais colaboradores.
As suas novelas abordavam os principais temas existencialistas, demonstrando o compromisso do escritor com sua época. L'Invitée (1943 - "A convidada") descreve a destruição do relacionamento de um casal subtilmente provocada pela permanência prolongada de uma jovem na própria casa, e também trata do difícil problema de relacionamento da consciência individual com a outra. A sua obra mais conhecida talvez seja é Les Mandarins (1954; Os mandarins), uma crónica sobre os intelectuais do pós-guerra, "mandarins", em face ao engajamento ao ativismo político, uma lição que os intelectuais de esquerda e seus admiradores aprenderam com rapidez em todo o mundo.
Ela também escreveu quatro livros de filosofia, Pour une Morale de l'ambiguité (1947 - "A ética da ambigüidade"); livros de viagens sobre a China La Longue Marche: essai sur la Chine (1957 - A Longa Marcha: ensaio sobre a China) e L'Amérique au jour de jour (1948 - "A América dia a dia), e vários outros ensaios, dos quais o mais conhecido é o referido "O Segundo Sexo".
Vários volumes de sua obra são devotados à autobiografia. Esses incluem Mémoires d'une jeune fille rangée (1958 - Memórias de uma filha diligente), La Force de l'âge (1960 - O vigor da idade), La Force des choses (1963 - A força das coisas), e Tout compte fait (1972 - Tudo dito e feito). Esses trabalhos mostram um retrato claro e significativo da vida intelectual francesa dos anos 30 aos anos 70.
Preocupada também com o problema da velhice, que ela aborda em Une Mort très douce (1964 - "Uma morte suave"), sobre a morte de sua mãe num hospital, e La Vieillesse (1970; Old Age), uma amarga reflexão sobre a indiferença da sociedade pelos velhos. Em 1981 ela escreveu La Cérémonie des adieux ("Cerimônia do adeus"), um doloroso relato dos últimos anos de Sartre. Considerada uma mulher corajosa e íntegra, Simone de Beauvoir viveu de acordo com sua própria tese de que as opções básicas de um indivíduo devem ser feitas sobre a premissa e uma vocação igual para o homem e a mulher fundadas na estrutura comum de seus seres, independentemente de sua sexualidade.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005
À andaluza
por Filinto Elísio
Em memória de Lúcia Dias
1.
Faleceu Lúcia Dias. E a morte, uma vez mais, tem destas. Apanha-me de surpresa. E, entre o espanto e a tristeza, uma espécie de fúria invadiu a minha alma, cada vez mais metafísica. Não quero conhecer detalhes, nem ouvir explicações, agora que algo me diz da irreversibilidade que é a ausência desta minha amiga. Só queria recitar, entre dentes e para os meus botões, os versos Quando eu morrer batam em latas. Muitos foram os momentos em que me privei com Lúcia Dias. Em verdade, éramos amigos desde a infância. De então até ontem, a sua alegria fazia transbordar a minha vida, ora de riso, ora de reflexão. De riso, porque Lúcia, mesmo no siso, era inteligentemente bem humorada. E de reflexão, porque, pessoanamente falando, tinha na mais pueril gargalhada uma essência taciturna que me perturbava. Lembro-me dela, há quase trinta anos, confessar – a brincar bem me parecia - que tinha um coração grande e eu – dado a trocadilhos ali sem consequências – que ela tinha, sim, um grande coração.
2.
Uma vez, nos Estados Unidos, encontrei-me com Lúcia Dias, parte de uma delegação governamental. Se não me engano, ela acompanhava a visita do então primeiro-ministro Carlos Veiga a Nova Inglaterra. Reza a história de uma manifestação que preparávamos na época, chamando atenção para o Armazém de Cabo Verde, na cidade baleeira de New Bedford. Mas ela, distinguindo sempre o trigo do joio, quis um encontro onde pudéssemos falar de tudo. E de nada. Jantámos juntos num restaurante, em Cambridge, de onde a envidraçada cidade de Boston parecia um poema monumental. E, mais de que encantamento, ambos ficamos de repente nostálgicos. E quis que, por razões misteriosas, eu a recitasse, nesse difuso de luzes ao fundo, o poema Fim, de Mário Sá-Carneiro. Por isso...
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
3.
Saudei, com alegria, que Lúcia Dias abraçasse o jornalismo. Ela sempre fora comunicativa, condição para ser, antes de mais, uma comunicóloga. E que tivesse ido estudar a Cuba, país radioso e radiante, onde a revolução não conseguiu matar a religiosidade, nem o bloqueio serenou a ânsia das artes. Ela apostara no jornalismo como forma de vida, pela razão de que o jornalismo deve (por imperativo ético) assumir a preocupação do homem no espaço e no tempo. Fê-la até ontem, com sentido de causa e consequência. Nas mais variadas funções que ocupou, ela foi fiel e leal ao imperativo ético da sua profissão. Que o digam os colegas...
4.
Tive a dita de almoçar com Lúcia Dias, há um mês e tanto, no Mindelo. Participávamos num encontro sobre a comunicação social e a diáspora cabo-verdiana, promovido pelo Instituto das Comunidades. Falava-se de tudo um pouco. Da necessidade de uma Rádio Global Cabo-verdiana. De maior integração mediática das comunidades. De uma central de notícias. Um almoço ruidoso. E do restaurante, envidraçava a linda baía do Porto Grande e recortava de, um ponto, a ilha de Santo Antão, e, doutro ponto, o Monte Cara. E com um olhar, entre a alegria e a reflexão, Lúcia Dias quis recordar...como era mesmo o poema de Mário Sá-Carneiro. Assim, minha amiga...
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
Em memória de Lúcia Dias
1.
Faleceu Lúcia Dias. E a morte, uma vez mais, tem destas. Apanha-me de surpresa. E, entre o espanto e a tristeza, uma espécie de fúria invadiu a minha alma, cada vez mais metafísica. Não quero conhecer detalhes, nem ouvir explicações, agora que algo me diz da irreversibilidade que é a ausência desta minha amiga. Só queria recitar, entre dentes e para os meus botões, os versos Quando eu morrer batam em latas. Muitos foram os momentos em que me privei com Lúcia Dias. Em verdade, éramos amigos desde a infância. De então até ontem, a sua alegria fazia transbordar a minha vida, ora de riso, ora de reflexão. De riso, porque Lúcia, mesmo no siso, era inteligentemente bem humorada. E de reflexão, porque, pessoanamente falando, tinha na mais pueril gargalhada uma essência taciturna que me perturbava. Lembro-me dela, há quase trinta anos, confessar – a brincar bem me parecia - que tinha um coração grande e eu – dado a trocadilhos ali sem consequências – que ela tinha, sim, um grande coração.
2.
Uma vez, nos Estados Unidos, encontrei-me com Lúcia Dias, parte de uma delegação governamental. Se não me engano, ela acompanhava a visita do então primeiro-ministro Carlos Veiga a Nova Inglaterra. Reza a história de uma manifestação que preparávamos na época, chamando atenção para o Armazém de Cabo Verde, na cidade baleeira de New Bedford. Mas ela, distinguindo sempre o trigo do joio, quis um encontro onde pudéssemos falar de tudo. E de nada. Jantámos juntos num restaurante, em Cambridge, de onde a envidraçada cidade de Boston parecia um poema monumental. E, mais de que encantamento, ambos ficamos de repente nostálgicos. E quis que, por razões misteriosas, eu a recitasse, nesse difuso de luzes ao fundo, o poema Fim, de Mário Sá-Carneiro. Por isso...
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
3.
Saudei, com alegria, que Lúcia Dias abraçasse o jornalismo. Ela sempre fora comunicativa, condição para ser, antes de mais, uma comunicóloga. E que tivesse ido estudar a Cuba, país radioso e radiante, onde a revolução não conseguiu matar a religiosidade, nem o bloqueio serenou a ânsia das artes. Ela apostara no jornalismo como forma de vida, pela razão de que o jornalismo deve (por imperativo ético) assumir a preocupação do homem no espaço e no tempo. Fê-la até ontem, com sentido de causa e consequência. Nas mais variadas funções que ocupou, ela foi fiel e leal ao imperativo ético da sua profissão. Que o digam os colegas...
4.
Tive a dita de almoçar com Lúcia Dias, há um mês e tanto, no Mindelo. Participávamos num encontro sobre a comunicação social e a diáspora cabo-verdiana, promovido pelo Instituto das Comunidades. Falava-se de tudo um pouco. Da necessidade de uma Rádio Global Cabo-verdiana. De maior integração mediática das comunidades. De uma central de notícias. Um almoço ruidoso. E do restaurante, envidraçava a linda baía do Porto Grande e recortava de, um ponto, a ilha de Santo Antão, e, doutro ponto, o Monte Cara. E com um olhar, entre a alegria e a reflexão, Lúcia Dias quis recordar...como era mesmo o poema de Mário Sá-Carneiro. Assim, minha amiga...
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
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