
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Cronista Desesperado, Poesia & Moonlight Serenate
Poderia começar por intuir que a lua é uma mulher linda, lindíssima. E, já agora, que tanto se me dá, instituir que sou louco, o que é pouco diante do que se vê ao espelho. Poderia, em segundo, continuar a fazer loas à lua, ouvir dela uivos de loba e berrar à quietude do monitor do meu portátil. Às vezes, questiono-me se não seria mais interessante parar de escrever crónicas. Deixar de ser inspirado. Dar um desesperado basta ao Albatrozberdiano. Fazê-lo, não para transpirar a Bloga incauta, mas parar tão simplesmente. Radondu sima riloje. Questiono-me se não seria até mais ecológico se, num rasgo filosófico mediano, merecido à pasmaceira de resto, acabasse de vez com o Entre-Nós e fosse à lua cheia na rua. Assumir o penso, logo desisto. Outras vezes, admito que o pessoal terá de aturar as minhas impertinências, engolir o sapo das minhas agruras e aceitar que eu seja ovelha desgarrada. No dizendo, fazendo, se ajoelho não digo ámen. Rezar também não. Admito também compartilhar o oxigénio e o carbono com todos, e mesmo cometer pecados de amar, acarinhar, doar, verbos não muito regulares e, na paróquia, tidos por levianos. Como despiciendo o discorrer sobre os amores passados, tardios e reciclados -, uns em boas amizades, outros em ódios de lume brando. Admito ainda não poder ser outro, mas tão-só só este poeta, exagerado, pé feio, aquilo torto, olhos mortiços, andarilho…E leio, com entusiasmo, que os cientistas descobriram que recitar poesias ou ler poemas em voz alta diminui o stress, normaliza os batimentos cardíacos e a frequência respiratória. Será que a poesia começou a ser útil? Descobriram que, tal como a marcha matinal e/ou vespertina, vale recitar e eu, modéstia à parte, confesso que já andava desconfiado disso. Todavia, não será por utilidade a razão de haver escrito Li Cores & Ad Vinhos, livro que, em breve, estará à disposição da recitara local. Este é um livro inútil nos escaparates. De alguém a beber as palavras para além da conta e a desejar compartilhar a sua embriaguez com todos. Inútil como os olhos esverdeados dessa morena para o trigueiro e que passa também pela rua, alheia à lua. Se quiserem provar o cálice, tê-lo-ei à mão de todos. Confesso que este livro não marca uma nova fase, nem aponta novos caminhos. Não exageremos. Já não tenho idade de entreter a canalha. Tornei-me simples, assumidamente simples. Até por ter percorrido o território da complexidade. Simples, mas não ingénuo, como ditaria a própria desconstrução da complexidade. Como downgrade…Pela rádio, ouço a cantilena dos cretinos da terra. Têm a prerrogativa do Estado da Nação. Os melhores filhos desta democracia que também têm de mediocridade o que lhes sobra de milagrosa bênção. Enquanto não me chega o dia de pensar para desistir, saio à rua pensando no cão que me guarda, na estrela que reluz, na brisa que bole a copa das acácias, essas coisas…Lua, vagem, viagem. Uma carruagem de coisas. Sou assumidamente sartreano em que o homem encontra em toda a parte a projecção de si próprio. Os meus poemas repetirão isso. Tudo – pedra, flor, água, ar, terra, vento, gemido, fala, Deus – é reflexo do homem. O homem reposicionado em tudo, inclusive na sua própria transcendência. Acho até que a lua cheia, assim cheia de graça e de luz, me persegue. Saio a deambular, com a mão na algibeira, esquecido dos assaltos e dos meus inimigos de estimação. Moonlight Serenate. Eis que também a lua é inútil. Será? Assim (permitam-me esta confidência), a lua é uma mulher linda, lindíssima…
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Tudo incluído
1.
Chego ao grande empreendimento turístico e o porteiro, que faz as vezes do segurança, não me deixa entrar. Ele explica-me que posso ver o pôr-do-sol ali mesmo à entrada, mas que o hotel não aceita não hóspedes. Eu sou um não hóspede. Tanto que me contento com o sol a pôr-se no mar como uma melodia que enternece. Um sol alaranjado e oceânico. De um lado esse sol enorme, redondo e esmaecendo-se ao crepúsculo. Doutro lado, o porteiro pensativo entre as minhas razões e as razões do hotel. Entre o meu bilhete de identidade (cidadão cabo-verdiano, pois com certeza), que me deixa à porta, e a ausente pulseirinha (jura-me o porteiro nas vezes do segurança), que me faria entrar no portentoso hotel…
2.
No aeroporto, já uma vendedeira me informara das suas vendas nulas. Os turistas que chegam ou partem, tendo pago à origem o tudo incluído, não têm dinheiro para comprar um souvenir da terra sequer. O t-shirt, o bibelot de casca de coco ou de pedra, o CD, o cartão postal, a garrafa de grogue, o ponche de mel e de coco, o atum de conserva…tudo fica literalmente às moscas. Na esplanada do aeroporto, a balconista também tem queixas: “Nem uma garrafinha de água!” Os turistas chegam e partem, liderados por um tour manager, sem terem espaço para conviver com as pessoas da terra. É-lhes desenhado um cenário exótico da ilha – as suas dunas de areia, as suas praias intermináveis, as suas estradas entre ravinas -, cujo pacote deve ser comprado à priori na agência de viagens…
3.
De repente, consigo falar com um turista acidental. Um que foge da muralha do grande hotel e vem ver o pôr-do-sol cá fora. Este quer saber da língua, da música, da poesia e da culinária de Cabo Verde. Sabe que temos um país de rendimento médio e em cumprimento dos objectivos do milénio. É um evadido, um subversivo. Não se contenta com sol e praia, com os passeios pela ilha nos autocarros alugados pela operadora turística. Diz-se farto de comer pasta e pizza em Cabo Verde. Cioso de sentir o Petit Pays que Cesária Évora canta, diz ele. De repente, consigo falar com um turista incidental. Um que rompe o circuito, o bloqueio que o circuito cria. Um perigoso, amante fervoroso do pôr-do-sol cá fora…
4.
Não deveria haver um sistema híbrido, alternativo ao all inclusive dos hotéis e das aldeias turísticas, de Cabo Verde? Algo que, sem perder a selectividade, contornasse (e controlasse) a versão de turismo da pulseirinha? E que permitisse maior interacção do turista com a comunidade? Naturalmente que, sendo criativos e inovadores, não nos faltarão ideias originais ou soluções, como agora é moda dizer, para humanizar (se não mesmo crioulizar) o circuito turístico cabo-verdiano. Tão pouco nos faltarão engenho e arte para acrescentar a tais soluções a cabo-verdianidade com os seus ingredientes da arte e do folclore. Ademais, não nos dispomos a mostrar a cor da pulseirinha diante um Cuba Libre, já que Grogue de Santo Antão e Vinho do Fogo não estão no cardápio. Enfim, é tudo incluído…menos Cabo Verde!
segunda-feira, 6 de abril de 2009
A Sense Of Humor

Kriol Jazz Festival
Não sei a quem realmente agradecer pelo maravilhoso fim-de-semana de Kriol Jazz Festival. Antes de mais, à Câmara Municipal da Praia pela ousadia de transformar em festival a “outra música”, a inumerável música de qualidade que a elasticidade da semântica chamará de “jazz”. Igualmente, pela Produção Harmonia, vê-se que coisa fina, da melhor cepa e estampa. O palco, a Praça Luís de Camões (ora Praceta Dr. Lereno, ora Praça da Reitoria da Universidade), o público que vibra com Lenine e pede bis, tris, parou porquê, porquê parou, e que dança com Jorge Reys e Banda pela madrugada, os aficionados que cantam com Yuri Boanaventura, tudo muito mágico, com tanta metáfora. Ver e ouvir Mário Lúcio, com uma banda híbrida e boa, a estilizar a ladainha é momento raro que a recordação irá resguardar aqui no chip. Sentir o pulsar reinventado de Tcheka, ele todo mais que artista, mas Arte em pessoa. O som pesado de Meddy Gerville, o kora de Ba Cissoko, que lembra, mas com genica de um Richard Bona, Andreas Vollenweider. Para continuar…
Horace Silver
Como munícipe desta cidade, não estarei desautorizado a fazer propostas. Que a edição do próximo ano seja em tributo a Horace Silver, o maior jazz-player cabo-verdiano-americano, felizmente ainda vivo e sem a ventura de conhecer Cabo Verde. Silver foi o criou o hard bop, estilo mais influente do jazz desde os anos 80. Ele tocou com Stan Getz, Miles Davis, Coleman Hawkins e Lester Young. Com Art Blakey, ele criou os Jazz Messengers. Mais: tem duas músicas com reminiscências cabo-verdianas – The Capeverdean Blues e Song For My Father. Vamos, minha gente, homenagear Horace Silver. Passaporte Diplomático, Chave da Cidade, Doutor Honoris Causa, essas coisas. Como diria Silver, Jazz has a sense of humor…
Modo de preparo
O segredo está no tempero à minha moda. Seja pernil de porco ou badejo no forno, seja Molho de São Nicolau, seja Djagacida, a chave do enigma começa no fogo lento, alho, limão, gengibre e coentro. Juro que vou escrever um livro sobre os temperos. Dos pratos aprendidos em Providence. Dos experimentados em Marraquexe. Da cavala frita ao molho escabeche. De como acompanhas as medidas e cronometras o tacho de feijão. De como o azeite extra-virgem e o azeite balsâmico se acasalam. De como marinar esse carpaccio de atum. Sem cardápio, sem salamaleque. Slow food. E que tal um festival de slow food crioulo? Salsa, agrião e sal grosso. Sobrando-nos apenas e tão-somente o modo de preparo…
Vela para Nossa Senhora da Graça
Hoje, estou mais calmo. Dirás que acendi uma vela para Nossa Senhora da Graça, minha padroeira. Dir-se-ia que bate em mim um remanso qualquer. Será da voz de Yuri Boanaventura que nem cantou Ne Me Quite Pas? Será do texto sobre feng shui que me torna, a par e passo, crente do Oriente e das montanhas do Nepal? Será dos olhos dos meus filhos escuros e grandes com a noite? A noite me apazigua o pensamento, não sei se devido ao vento ralo ou à sombra que se desprende dos beirais…
sábado, 4 de abril de 2009
1. Kriol Jazz Festival. Quem não foi, perdeu. A edição de ontem elencava três grandes nomes. O primeiro convidado era um filho da terra: Tcheka. O seu nome é referência absoluta da música cabo-verdiana. Nesse mesmo palco, actuou depois Meddy Gerville, da Ilha Reunião, um dos maiores virtuosos do moderno jazz instrumental . Finalmente, a chave de ouro Ba Cissoko, da Guiné-Conacri, com os códigos todos do kora ancestral e o virtuosismo de quem aprendeu o "ruído" de Jimmi Hendrix...2. Instituir Kriol Jazz Festival, anualmente, significará agregar valor à Cidade da Praia, pelo que merecem aplausos os promotores do evento. Aos poucos, a oferta cultural será plural e internacional, havendo espaço também para outras formas e outros conteúdos, para outras soluções espirituais. Longa vida ao Kriol Jazz Festival...
3. Praia já teve Fesquintal de Jazz e Festijazz, assim como já teve dois festivais de cinema. Vamos, pois, recentrar esta cidade pela Arte e pela Cultura. Comecemos pela animação, pelo patromónio, pela reflexão, pelo debate. Comecemos pela atitude. O striptease necessário. Despir a canga da mediocridade, da mesmice e da dominação. Mental slavery. Nu moooooooooooooonda...
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Minuendos

1. Nota máxima para o workshop, ontem, na UniCV, com os músicos Jorge Reyes, Changuito e El Panga. Como diria Jorge Mermelo, foi um fim do dia perdido para as coisas do espírito. O apreender a música...lentamente.
2. Nos próximos dias 3, 4 e 5 de Abril vai se realizar o Kriol Jazz Festival, na Cidade da Praia. A conferir:
3 Abril
Tcheka - Praia - CV
Meddy Gerville - Réunion
Ba Cissoko - Guiné Conakry
4 Abril
Mário Lúcio - Praia - CV
Lenine - Brasil
Mário Canonge & Ralph Thamar - Martinique
5 Abril
Baú & Voginha - S.Vicente - CV
Regis Gizavo - Madagáscar
Jorge Reyes
Orestes Lopez, Cachão & Chano Pozo - Cuba
Yuri Buenaventura - Colômbia
3. Lá estava a treta ultraliberalóide e socialeira, a fingir-se por dentro de tudo e de nada. Uns de portáteis a luzir, outros de pose art-deco, todos na desdita do verbo "estar". A Fábula do Esopo, creio, começava nesses termos...
4. Chego a casa, já com o relógio sem cucos batendo as 21H00, a tempo ainda para detonar uma omelete de queijo da Boavista e cogumelos enlatados. Com chá verde gelado. Cansado...
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Chalk drawings and messages
New York, circa 1971-early 1990s, © Helen Levitt.A Way of Seeing Morreu a fotógrafa Helen Levitt, a diva dos instantâneos de Nova Iorque. Os insólitos, as loucuras, o mood da cidade mais cool do planeta não escaparam às lentes de Levitt que clicava com genica de artista plástica e com embriaguês de poeta. A minha alma triste, que é também de crosstown, andarrilho que sou das esquinas, testemunha das ruas fechadas, dos Dead End Streets, dos baixios que os viadutos concedem, do Harlem e do Bronx às 3:00 A.M., dos vagabundos que recolhem latas de alumínio e garrafas de plásticos em carros roubados nos supermercados, de tudo. Dos pintores das pontes, dos cabo-verdianos nos andaimes das pontes suspensas, de quando os aviões embateram nas torres gémeas da World Trade Center. De tudo tão fatídico. A way of seeing...O Paraíso tropical de Humboldt (...) Em menos de uma semana, o Beagle chegou à costa ocidental de Santiago e ancorou na baía da Praia. Com FritzRoy, fez visitas sociais, encontrando-se com o governador português e o cônsul americano. Depois, passeou pela cidade, como turista, passando por soldados com armas de madeira, crianças castanhas de tronco nu e currais de cabras e porcos. Chegou a um vale profundo, nos arredores, e aí, finalmente, encontrou o Paraíso de Humboldt (...) Tempo & Paciência O jornalista e amigo Francisco Fontes nos dá conta da impossibilidade da antologia poética Destino de Bai, lançado desde Julho de 2008, em Coimbra, chegar a Cabo Verde. A ONGD Saúde em Português não diz nada ao coordenador da antologia. Em relação aos exemplares a que temos direito, devo assumir que me falta Tempo & Paciência para mendigar tal obra aos donos do mundo. Fuck them all...
DESTE CAUTELAR PENSAMENTO

(Da Arte, dos Partidos e das Verdades)
Pretensos críticos
Antigamente, ou talvez não tão antigamente assim, reinavam os pretensos críticos da Arte, esses todo-poderosos. Com os seus critérios herméticos e estafados. A determinarem que o borrão de fulano era melhor, mais bem conseguido ora, que o de beltrano; que a metáfora de beltrano superava a de sicrano e por aí além. Mau grado o arcaboiço estético, quase sempre de reboco epistemológico, a cerne de tudo se resume aos ditames do gosto individual ou colectivo. A obra-prima de hoje pode ser, amanhã, uma obra marginal. Por isso, rogava aqui que não se nos aprisionasse a fruição artística. A gaiola da crítica, da pretensa crítica, por competente que pareça ou se aperceba, poderá, em muitos casos, conter riscos de lesa Arte. Entrementes, reinam ainda entre nós os pretensos críticos da Arte, esses todo-poderosos…
Pretensos militantes
Leio, sem qualquer entusiasmo, o elogio (que a mim soa a falso e a exagerado) que o meu amigo faz a um terceiro, pelas suas virtudes de militante partidário. Fá-lo, como se o mundo se esgotasse ali e se as galáxias de preencher com o nosso existencialismo se encaixassem, como um todo, nesse vão dos partidos políticos. Para mim (sem querer ferir susceptibilidades de uns e de outros, nem ousar perturbar deuses de esquina com vara curta), os partidos são de facto importantes para o desenho político vigente, mas, pensados a fundo, não passam de variáveis marginais da grande equação social. Podemos, se quisermos, exercer cidadania e ter vida pública à margem dos partidos e, de tal prática, podemos induzir e quiçá alterar o nosso sistema constitucional. Não haverá determinismo, nem fatalismo tão pouco, que impeça que todo esse aparato afinal se aparte de ser, como diria Caetano Veloso, uma “vaca profana”…
Pretensos donos da Verdade
Ou mesmo das Verdades. O sinal cognitivo da filosofia é sempre o ponto de interrogação. Quem no-lo diz é o Poeta Salah Stétié. Os que por aqui exclamam, sendo donos da Verdade na imprensa e nos palanques locais; os que por estas e outras bandas se afirmam sabedores do caminho das vinhas (e das verdades do vinho), mais não são que fracassos em pessoas, teses fugazes, frágeis, fragilíssimas, como todas e, de pronto, degradáveis (posto que, de primeiro, já eram degradantes). Assim todo aquele que afirma e que exclama nesta arena, afirma e exclama a relatividade e a debilidade do exposto, e encaramo-lo com o sinal cognitivo da filosofia, isto é com o ponto de interrogação. Poeta, a Verdade é pouca; as verdades são dúvidas…
sexta-feira, 27 de março de 2009
Shakesperience
Saúdo toda a gente do Teatro. Essa gente esquecida nos momentos bons e recordada nos maus. Essa mesma gente esquecida quando estão em maus momentos e solicitada quando em seus melhores momentos. Essa mesma gente de circunstâncias para a curta visão e de perseverança para os de visão profunda. Essa gente que trabalha com as dificuldades sempre a favor e que choram para fazer rir e riem para não chorarem.
Os dias de qualquer coisa devem servir para qualquer coisa. Porque nem todas as coisas têm um dia, embora hoje haja um dia para quase todas as coisas, o que quer dizer que todas as coisas são importantes. Deste modo, se o Teatro não fosse importante seria uma coisa qualquer. E se é importante, isso já é qualquer coisa, nesses tempos e nesta terra em que tudo tende a perder importância se não for político ou industrial. Que ainda haja teatro em Cabo Verde é um sinal de que são uns sãos loucos que fazem este país. Mas para que haja sempre Teatro em Cabo Verde é preciso desconfiar dos doutos de ocasião, esse que fazem teatro onde não devem. As ajudas festivalescas e as palmadas em cima do chumaço não constituem políticas nem visão estética. Nem uns devem pensar que isso é suficiente, nem outros têm com que agradecer. Deve ser um imperativo de Estado o investimento no Teatro, que deve constituir a sétima arte nacional, até que o próprio teatro, prenhe como está, gere nas suas entranhas um cinema latente. Mas tendo em conta as experiências do Mundo e os recursos de que dispomos, o cinema será sempre uma visita, e o teatro, um severo inquilino.
Saúdo novamente em nome dos ausentes a todos os presentes no teatro, dos figurinistas aos actores, dos directores aos iluminadores, dos cenógrafos aos músicos, dos dramaturgos aos contra-regras, dos anotadores às bilheteiras, do público inocente ao critico aprumado, da criançada inteligente aos mecenas reticentes.
E rogo pragas para que Março seja um mês gago, e fique truncado no dia 27 para a fortuna dos anos vindouros.
Mário Lúcio, 27 de Março de 2009
Extraído do Blog Café Margoso
quinta-feira, 26 de março de 2009
quarta-feira, 25 de março de 2009
Crónica a ser
Crónica a ser
Às quartas-feiras, tenho a obrigação de entregar a crónica ao Jornal A Nação. Ao arrancar o dia, geralmente saído do king size, enormíssimo para homem só, e indo directo para o chuveiro frio, começo a matutar sobre o tema a escrever. Já escrevi sobre tanta coisa! Dos bairros degradados na cidade da Praia ao festival de cerveja num dia das “quentinhas” em Munique, passando pelo sorriso fugaz num elevador de Nova Iorque, tudo isso já foi matéria da mais ou menos fantástica e da irreal das minhas crónicas. O meu Editor, pelo MSN Messanger, diz: Aguardo... Força e boa inspiração. Té Já!!! Cada vez mais, com denodo e algum esquecimento, estou a me tornar velho que nem a intocável vodka lá em casa. Caquéctico. Imaginem que até escrevi sobre os metrossexuais, os politicamente correctos, esses modismos que não valem um corno. A como é bom não cumprir um dever! Mas não sou Fernando Pessoa, palavra. Ter uma crónica e não a fazer. Afazeres…
E de tais escritos
E se escrevesse sobre os prazeres da mesa e da cama? Se, despido dos cuidados, vos convidasse a não interpretarem, pela rama e pela esquerda, a semântica das palavras do Papa, em Yaoundé? Se a sotaina, vez por outra, não ilumina outros caminhos para as 22 milhões de pessoas infectadas na África Subsaariana, três quartos das vítimas de Sida no mundo inteiro? Se, ciente da primeira, segunda e terceira das vossas pedras, escrevesse aqui que as certas verdades de hoje já são zero à esquerda ao tempo de um ai e que, de repente, Marx retorna à sua razão e Micheal Jackson quer, desesperadamente, voltar a ser preto? Se assumisse, mandando Brito Semedo à fineza de rever o canhenho, que oficializar o Crioulo não configura mosca na sopa desta ou daquela região? Estou aqui a ver a cara dos leitores e não deixo de rir sempre que, revoltados, uns desgostem dos meus escritos ou, entusiasmados, outros apreciem as minhas bacoradas. O poeta brasileiro Mário Quintana afirmaria que: “Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies me irritam mais”.
Abençoado tempo nosso
A ditadura com que, de modo melífluo e subliminar, nos impõem a televisão e o telemóvel, entrando na onda também o computador portátil, nos revela que, não adianta, por mais revisão constitucional feita, haverá sempre este hiato em matéria de direitos, liberdades e garantias. O nosso precioso tempo (em verdade doado pelo divino para amarmos, educarmos os pequenotes e degustarmos as maravilhas do mundo, para a “joie de vivre”, convenhamos) estará cada vez mais desviado pelos engenhos de agora que, mais do que aqueles de outrora, nos fazem escravos das coisas.
Bom mesmo
É ser “gauche na vida” e de assistir ao espectáculo do mundo com retumbante deboche. Fazer coro ao Heavy H, dos poucos saudáveis da praça: Chouchou, ratcham bisou, para o gáudio das Pirilampas. Dizia o Pranchinha, o mais desabrido dos saudosos, que não se pode aguentar a lida sem um bom grogue da Cidade Velha e um divino guisado de cabrito, a vinho branco, com mandioca sumarenta. Ou um arroz de lapa e percebes no restaurante da Marilena (Bila Baxu, para os sem GPS), milagre que faz pecar qualquer brocado. Compadre, posto estar crónica já feita, são dois dias esta vida. Sem palavrões…
segunda-feira, 23 de março de 2009
Cais de Pesca

Uma das coisas que adoro é o Cais de Pesca da Praia. Não à sua estrutura, que bem poderia ser melhor que aquela. Mas o frenesim. A azáfama da chegada das traineras, da descarga dos peixes, da diligência das vendedeiras. Do espírito marítimo, como se te ouvisse a declamar Ode Marítima, de Álvaro de Campos. O cais sendo, cá dentro, uma saudade de pedra. O frenesim do amanhecer no Cais de Pesca que integra a Baía da Praia, o recorte da orla, a silhueta das achadas, o portentoso dos montes, o uterino dos vales. O imprescindível ilhéu de Santa Maria, felizmente ainda não transformado em casino. O ilhéu de Santa Maria, outrora pensado em porto carvoeiro. Charles Darwin desembarcando no ilhéu de Santa Maria e na Praia Negra. O navio Beagle ali ao largo. A visão que não tivera Vasco da Gama quando por cá passara? Ainda antes de chegar à Índia, o mundo sendo o cais de São Januário entregue à sorte da ignorância. Esse Cais de Pesca, assim farto de peixe e de vida, adoro-o...
domingo, 22 de março de 2009
Magnífico
As arraias são criaturas magníficas. Magnífico é também o liceu de Chão Bom, pertinho da antiga Colónia Penal do Tarrafal. Com a Casa do Cidadão e tudo. Magnífico ainda o Monte Graciosa que encima a Praia do Mangue, na Vila do Tarrafal, onde a minha saudosa mãe nasceu. Março é magnífico. Abril mais ainda. Lembra-me a Revolução dos Cravos, eram os anos do vosso casamento e da prisão de 61, tu a cumprires anos também (das contas que já perdi) e eu a descair-me para a poesia de novo. Maio, maduro Maio. Magnífico é não me convidarem para a festa dos poetas no Dia Mundial da Poesia. Declamei Sei os teus seios/Sei-os de cor, de Alexandre O´Neil, no 5al da Música, entretanto. Ntoni Denti Doru, Nácia Gomi e Codé Di Dona são os magníficos pilares que nos amparam a alma. Magníficas as arraias quando migram (vejam a foto) para o Golfo do México...No Inferno*

A angústia da criação. Não há maior angústia, assim como não há dor como aquela que resulta do nascimento de um novo ser humano, e sobre isso são as mulheres as melhores testemunhas. Não há parto sem dor. E com a angústia e a dor chegam os fantasmas, as vozes, as imagens e sobretudo, o peso do passado, as referências de tudo aquilo que já vimos e lemos, a memória como inimigo do novo, a balança empanturrada com todas as criações anteriores da Humanidade. Que posso eu escrever, pintar, encenar, compor, fotografar, esculpir se (quase) tudo já foi experimentado? Como posso eu preencher a folha em branco, a tela vazia ou o palco despojado de objectos, de movimentos, de vida? Sem procurar respostas, esta peça vive do que se ouve e vê – como qualquer peça de teatro, em suma. Mas quase tudo o que se ouve e muito do que se vê, tem uma forte carga simbólica, no cenário, no registo interpretativo dos actores, na música e, claro, no texto. As asas, os cacifos, o leito, as sombras, os ossos, os livros gigantes que imanam luz, as diferentes formas que assumem os fantasmas que povoam o dia-a-dia do poeta, são tudo símbolos de um estado de espírito impossível de descrever de forma racional e objectiva, porque neste Inferno da criação, o caos é um ponto de partida e será, provavelmente, o ponto de chegada. Somos todos joguetes do destino. Não há como arrumar o caos, ordená-lo sem acabar com a sua própria natureza. Então o melhor é, como diz o poeta no final, “a gente retirar-se para um lugar onde haja flores – sobretudo rosas – beber vinho e morrer.”
Texto do programa
Estreia dia 28 de Março, na cidade do Mindelo
www.cafemargoso.blogspot.com
*Arménio Vieira
sexta-feira, 20 de março de 2009
Fuckin' Friday
Lendo New York Times
Pretenda-se serem criminosos de guerra apenas aqueles que não bombordearam Bagdade, Belgrado ou Gaza City. Pretenda-se serem julgados pelo Tribunal Penal Internacional os genocídios que não foram em Chechenia, em Mongólia ou em Mexico-USA Border. Os maus são os outros: iranianos, cubanos, norte-coreanos, venezuelanos. O pobre tresanda! Nós somos os melhores. We are the best. WASPs e seus afluentes. A Hollywood faz filmes. A Disney Production faz bonecos. Acarneiramo-nos à vista desarmada. Vamos sendo filhos da puta a passo de ganso. Mata-se no Tibete, em Darfur e no Curdistão. No Afeganistão aquilo está um horror. Aqui ao lado, na Guiné-Bissau, um Presidente é esquartejado e o cinismo internacional fica silencioso. Nem todos os antigos camaradas têm ombridade para estar no cortejo fúnebre. Tão amigos que nós éramos. Terminei de ler Gomorra, de Roberto Saviano. A virgindade não existe e não será uma questão de hímen, baby. Março. De Teatro e Mulher. Incomodo? Não seja por isso. A reacção de um artista cabo-verdiano ao comentário de um outro artista cabo-verdiano. Who cares? A nuvem a passar vale mil bizantinices. Prefiro contar as ondas. Em cada sete, uma viria para mim. Era assim na minha infância...
Cidade Velha
Cidade matricial, mater dolorosíssima. Primordial. As minhas escolhas trazem outros óculos de ler Cabo Verde e estes não têm lentes exógenos, nem aros sapientes de uma elite a quer fazer o branqueamento, se não a lavagem de um activo histórico, que é o afrontamento cultural, literário e identitário dos cabo-verdianos. Escolhas que questionam um país crioulo que não oficializou ainda a língua cabo-verdiana, em paridade estatutária à vigorosa e importante língua portuguesa, nem consegue descortinar que a identidade cabo-verdiana nasce, não com o chamado Nativismo, e muito menos com o Movimento Claridoso, mas com a aventura antropossocial e cultural que se configura já no século XVI.
Pelas águas dos Blogs
A propor a repactualização dos olhares sobre a poesia cabo-verdiana que, a par do telurismo, muito arreigado durante o período Claridoso, está hoje eivado de deriva existencial. Tempo circular, espiral. Palimpsesto, de não piche o grafite. Há que passar pelas novas águas dos Blogs, dos vídeos poemas e das linguagens com outras gramáticas, sintagmas e sêmeas. Pelas águas tão-somente.
Do zil ao zip & vice-versa

Não me faltam voyeurs. Já nem digo leitores para não parecer pedante. O meu amigo Dimas Macedo falaria em leitorado. Meu leitorado para cá, meu leitorado para lá. Mas ele, poeta do Sintaxe do Desejo, é um peso pesado. Eu, simples escrevinhador, cada vez mais bissexto, diga-se, tenho os meus voyeurs. Acompanham-me os sintagmas todos, escaneam-me os sintomas, a minha sintaxe desvirtuam-na e fazem ressonância magnética à semântica dos meus textos. Fecham-me o cerco e tratam-se de marear as minha viagens criativas. Arre, que tudo isto às vezes cansa e, quando não cansa, chateia. Logo agora que não me sobra tempo para depressão, apatia, essas coisas que, vez por outra, servem de húmus para medrar a poesia. Logo agora que, tivesse eu engenho e arte, juntava os fragmentos de mim e me formatava em força e resistência e, like a sex machine, como vaticinara James Brown, me reproduziria em 10, 100, mil, zil. Ou em tudo o zil, mil, 100, 10, que sou eu, compactado em 1. Ou em zip. Estou quântico? Cuidado que os voyeurs, não por serem hackers, mas invejosos de primeira apanha, cotovelosos do caraças, são maus de pensamento e de gesto. Indigestos, de resto. Quanto valeria o cêntimo jogado à Fonte de Trevi? O que pensaria Nero antes de queimar Roma? Ou haverá cumplicidade sideral em tudo isto, a tal de Vesúvio que, há 3.800 anos, arrasou Pompeia? Outrossim, porque nada é tão belo como o Vulcão do Fogo visto, ao por do sol, na Cidade Velha; de resto, porque eu começara a escrever sobre os meus voyeurs e me fui perdendo; destarte, fico ora por aqui...em perdido.
terça-feira, 17 de março de 2009
Lançados
On the road
1. Os leitores do Entre-Nós e, por tabela, os do Albatrozberdiano, sabem das minhas novas literárias, em primeiríssima mão. O lançamento do “Li Cores & Ad Vinhos” (poesia) acontece no dia 22 de Abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. O itinerário inclui também Paris, ainda no mês de Abril, e Praia, no mês de Maio. Capa do Mito e do Sílvio, big joint. O livro tem prefácio de Pedro Tamen, poeta português de referência e de nomeada internacional…
2. A Associação Pró Praia, expressão viva e necessária da sociedade civil organizada desta cidade, pretende celebrar activamente o Bicentenário de Charles Darwin, aderindo à iniciativa conjunta da Câmara Municipal da Praia e da Universidade de Cabo Verde. Igualmente, ela pretende apoiar, com reflexão e debate, a candidatura da Cidade Velha a Património Universal da UNESCO, em parceria com o Ministério da Cultura, a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago e o comité nacional responsável pela candidatura…
3. Começa, por estes dias, o festival de jazz na cidade da Praia. Vamos escrever e inscrever esta urbe atlântica no circuito mundial do jazz. Ousemo-nos. Somos lançados…
Futuro sempre adiado
Terá chegado o momento dos novos grandes temas. Pensar a política de forma redutora e viciosa, sob a batuta da mesmice e do partidarismo alternante (mas não alternativo), acabou por cristalizar a inovação das ideias e de inibir a produção dos novos grandes temas. Praticar a política do atavismo situação/oposição, amarelo/azul ou tão simplesmente desta e doutra bancada, acabou por resultar nisto: ausência de novas teses que pudessem refrescar a reflexão e o debate sobre o futuro, por mais crescimento que haja, afinal, sempre adiado. Sem tibiezas nem hesitações, quanto mais discursos minimalistas, será que ainda vamos a tempo de introduzir a ideia de país desmilitarizado, do alargamento ambiental, da energia renovável, do fundo autónomo da cultura, do casamento dos gays, do rendimento mínimo garantido, do alargamento das férias de parto, do orçamento participativo e do micro crédito, entre outros grandes novos temas? Naveguemos pelos Blogs nestes tempos constituintes…
Momento de crise
E agora, José? Estamos a viver um momento de crise que se abate sobre o Mundo e também sobre Cabo Verde. Eu sou daqueles que, por andar pelas achadas e fajãs, gabinetes, bares e estradas, não nega a crise entre nós, nem dela fazer a defesa de avestruz. Ademais, a crise apanha a todos e sair dela é responsabilidade colectiva. O Governo, em matéria de iniciativas anti-crise, vai para além das intenções, estados de alma e generalidades. O OGE 2009, que só agora pude analisar crítica e exaustivamente, traz almofadas sociais, económicas, financeiras e fiscais, para mitigar os efeitos da crise e aguentar, com alguma segurança, o volta-face do crescimento sustentável. Por conseguinte, vislumbram-se medidas sérias e práticas para atenuar, de imediato, os efeitos desta crise sobre os investidores estrangeiros, os empresários nacionais e os mais carenciados. É que, a par de crescermos imperiosamente a 2 dígitos, o grande desafio será também inverter a linha de rumo que aprofunda as desigualdades sociais e limita os direitos dos mais desfavorecidos, isto é, reduzir o desemprego a 1 dígito. Pedra a pedra, José…
domingo, 15 de março de 2009
Quem me roubou o tempo
Quem me roubou o tempo que era
um
quem me roubou o tempo que era
meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu
Eu foi mais limpo e
verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se
escrevia
Sophia de Mello Breyner Andresen
um
quem me roubou o tempo que era
meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu
Eu foi mais limpo e
verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se
escrevia
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 12 de março de 2009
Glosa
Quem me roubou a minha dor antiga,
E só a vida me deixou por dor ?
Quem, entre o incêndio da alma em que o ser periga,
Me deixou só no fogo e no torpor ?
Quem fez a fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor ?
Ninguém ou o Fado, e a fantasia siga
A seu infiel e irreal sabor...
Quem me dispôs para o que não pudesse ?
Quem me fadou para o que não conheço
Na teia do real que ninguém tece ?
Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu só a vida em que me esqueço,
"Onde a minha saudade a cor se trava ?"
Fernando Pessoa
E só a vida me deixou por dor ?
Quem, entre o incêndio da alma em que o ser periga,
Me deixou só no fogo e no torpor ?
Quem fez a fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor ?
Ninguém ou o Fado, e a fantasia siga
A seu infiel e irreal sabor...
Quem me dispôs para o que não pudesse ?
Quem me fadou para o que não conheço
Na teia do real que ninguém tece ?
Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu só a vida em que me esqueço,
"Onde a minha saudade a cor se trava ?"
Fernando Pessoa
Subscrever:
Mensagens (Atom)

