sábado, 11 de outubro de 2008

Lisboa, Lixboa, Luboa

Lisboa. Meia chuvosa, meia ensolarada. Meia fria, meio quente. Outubro é assim. Outono tem disso. Lisboa e tu me dizes poemas de Manuel Alegre. Lisboa e não há acácias de Cabo Verde. Mas há pinheiros pela rama. Cheira qualquer coisa. Cheira bem. Ora jasmim, ora alfazema. Na FNAC, do Centro Comercial Colombo, os livros, os CDs e os DVDs são a minha desgraça. Meu caro amigo, at large, o sistema é multifacetado, incorporando também a sua ala marginal. De uma perspectiva mais complexa, estamos sempre dentro. Cagando, embora. O padrão é complexo: tese e sua antítese. Uma síntese da merda. Meu outro amigo, mais at-large ainda, em verdade nunca somos neutros. Tentemos às vezes ser isentos. Entre Bush e coisa alguma, somos este e jamais aquele. Entre McCain e Baraka, somos pelo "brother", sem ilusões desmedidas. As manhãs não cantam, senão a música de um Wall Street a vir abaixo. O estrondo, meus caros, é pior que aquele do Muro de Berlim, que até foi giro, giríssimo. O problema não seria nos cair em cima o Carmo e a Trindade. O problema, Mon Petit, é o Day After e, sem neutralidades, nem complacências, temos filhos a crescer. Se não os tivéssemos, juro me me apetecia ir ao alto da Torre Eiffel e mijar sobre a cabeça da multidão. Ou, então, descarregar a tripa, do alto do Cristo-Rei, o Redentor. Ontem, foi um dia e tanto. Reunião na Colliers e tudo. Investimentos, projectos, empreendimentos, essas coisas. Ainda há disso, apesar da crise financeira mundial e on process. Escrevo um texto para o Mito, that griot, que participa numa grande colectiva internacional. Não digo onde para não acordar os facínoras. Ao fim do dia, a Assembleia da República (portuguesa, naturalmente) chumbou a lei sobre o casamento dos homessexuais. Achei bárbaro, fascista e retrógado esse chumbo grosso. E em Cabo Verde, isso passaria? Quero ver o deputado com colhões para fazer tal proposta. Saúdo daqui o Maukie, o Hugo e o Pranchinha. Eles não ganharam Prémio Nobel, juro. Telefono ao Pablo e ao Denzel, estes são mesmo verdade. É pá, Lisboa, Lixboa, Luboa, minha cidade de Ulisses (o da mitologia, ó malta). Alis Ubbo. Olissipo. Al-Ushbuna. Meia chuvosa, meia ensolarada. Quente e fria, como a sobremesa do restaurante Espaço Lisboa. Não vejo os poetas. Nem o Marc está em Lisboa. Onde estão os alfacinhas, os saloios, os tugas, os berdianos, os ciganos, os outros brancos e pretos? Onde estão os indianos, os chineses? Fernando Pessoa no Rossio e Alexandre O' Neill seguindo o cherne. Sei os teus seios; sei-os de cor. Onde estão todos? Mas estás tu, minha alma, meu outro. Outubro é assim. Outono tem disso, Panterinha...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Busy...mente

1.
Os deuses não existem, senão quando, por excesso de loucura ou de lucidez, inventamos coisas tangíveis e/ou intangíveis para divinizar. Marx falou em ópio do povo. Mas, em verdade, certas coisas chegam a ser piores que ópio...

2.
Receitas para um bom Blog? Não subscrevo essa. Conheço receita de Molho de São Nicolau (bem caprichada na farinha de mandioca, cabrito do tenrinho e inhame) e de Djagacida (com feijão seco, xerém do fininho e manteiga da terra), mas de Blog, convenhamos, ó rapaziada. É cada um a fazer o seu sem compromissos com gregos e com troianos. Sem dar cavaco aos berdianos. Eu só exigiria que a malta fosse menos “copy and paste” e isso já seria muito bom para se fazer um Blog. Fuck...

3.
Em 1929, muitos capitalistas especuladores deram cabo do canastro. O crash na bolsa lhes era intolerável moralmente. Hoje, em vez de irem desta para melhor, querem tomar no Estado a dinheirama do vasto povo. E que ninguém nos fale em praça financeira nos próximos dias. Estamos enojados...

Quando me é Lisboa




Chego a Lisboa. Cedinho. E o calafrio de Pessoa me percore a espinha, enquanto o automóvel circula do aeroporto ao hotel. Lisboa que acorda mais cedo que outras cidades do mundo. Gosto desta cidade que tem pedras brancas, cheira a pinho e a alfazema. E virou cosmopolita. Vários cartazes falam de arte acontecida e por acontecer. O trânsito continua bárbaro e o taxista ensina-me os últimos palavrões da língua portuguesa. Os taxistas de Lisboa davam um grande diccionário de palavras escabrosas, diga-se. Refaço, mentalmente, os meus afazeres. Escrevo na minha agenda Moleskine que Lisboa é o nosso alter ego urbanístico. Os arquitectos e os urbanistas crioulos (mas eles existem?) me matam. Será? No hall do hotel, a florista, que já me trata por tu, quer saber das flores de Cabo Verde. Pergunto-lhe sobre um poema de Alexandre O´Neill e ficamos quites. "Esse cabo-verdiano é meio maluco", estará a pensar. "Mas eu gosto de rosas, crisálidas e margaridas", remato, com elegância. Não antes sem aprender que "chiques mesmo são as orquídias, meu caro". Faço um print out de uns versos de O' Neill e ofereço à senhora. E deixo-vos, como desse rosmaninho que me sobe à lembrança (de tudo, de tudo, meus queridos), um nadinha desses belos versos:


(...)

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

(...)


Fica também na Moleskine: Lisboa é um teatro que me insunua e me denuda em pleno palco, um fado que me reabre o coração e me aperta o nó das lágrimas como as palavras que nos beijam. A sombra da minha mãe e o lusco-fusco da minha infância. Uma Fonte Luminosa e umas crianças ruidosas. Traquiníssimas. Éramos nós noutros tempos de Lisboa...

Máscara Negra


A Pablo Picasso

Ela dorme e repousa sobre a candura da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva
cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e fontes seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das faces, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar
a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!
Léopold Sédar Senghor

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

En passant


Debate presidencial

Insosso. Demasiadamente correcto. Com excesso de mesuras. Esse debate que concorreu com o meu sono da passada madrugada. Nas antípodas do "arrasta-rabo" das nossas campanhas. Um (McCain) a dizer as suas razões, tão anacrónicas, diga-se. Outro (Obama - ver foto a carregar o filho da minha sobrinha Dora Lisa) a enfatizar que a América precisa mudar. Agora, veio-me à mente um forward com a foto de um camião de indigentes, a sugerir indigência com a vitória (quase certa) de Obama. Há humor que é psicose de racista no seu crepúsculo. Freud explica...

Piadinha

A "piada" do telemóvel não era para ninguém em particular. Era apenas um rasgo de humor entre os convivas. Quem esteve fora, esteve absolutamente fora. É o que dá em estarmos a brincar muito neste Blog, com tantos livros de Edgar Morin, Norberto Bobbio, Umberto Eco e Jean Ziegler ainda por ler...

Viaggo

Estou no Sal, a caminho de Lisboa. Um italiano afirma que a demanda turística caiu drasticamente na ilha. Em verdade, tive essa impressão da última vez que cá estive. Alguma prostituição, muito lixo e visível insegurança, para além de atendimento medíocre. O problema somos nós a ficar na mesma, a não concorrer à altura e a fazer preços deus-nos-acude. Vamos repensar tudo de forma mais radicalizada que a tese propalada por certos operadores associados. O buraco é mais em baixo...

À Beira de Água

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado.
(Porque o amor, perdoa dizê-lo,dói tanto!
Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.)
Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.



Eugénio de Andrade
Os Sulcos da Sede

Convívio

Mais um jantar em casa. Convívio. Éramos seis (eu, o meu irmão António, o Djinho Barbosa, o Abraão Vicente, o Mário Fonseca e o José Cunha). Prometi dar a receita da Canja à minha moda ao Djinho Barbosa e da Garoupa com Cogumelos guarnecida com Arroz de Grelos ao José Cunha, o homenageado. O vinho do branco do Fogo - pomada da Chã, como diria o Mito - de tão gelado, correu solto a brindar uma tábua de queijos. E foi tempo de abordar:
1º - As eleições americanas. Sem neutralidade possível, pois fossemos americanos, era ali meia-dúzia de votos para Obama. E, para broxar um bocado o ambiente, lembrou-se que as presidenciais americanas são por colégio eleitoral. Não houve palavrões...
2º - O ensino superior. A necessidade (ou não) de se proliferarem instituições (operadores académicos, diria) por estas ilhas para, em breve futuro, descer sobre o "mercado" a mão isenta, mas intransigente, do Regulador em critérios de pura qualidade. A competição saudável é aquela que permite sobreviver aqueles que se afinam pelo critério do preço-qualidade. O importante é a qualidade da educação e do know-how dos jovens cabo-verdianos.
3º - A insegurança. Aliás, a criminalidade que, para além da política social, da abordagem sociológica e dos direitos humanos, precisa ser atacada incisivamente. Pessoalmente, sou radical: falta uma atitude de assalto (em exacta proporção) aos assaltantes. É preciso assaltar à mão armada aqueles que, na calada da noite, assaltam os cidadãos. Horas mais tarde, soube que amigo fora assaltado na rotunda de Cruz do Papa por quatro thugs à mão armada. Os bandidos partiram saciados, vivos e felizes. Uma pena...
4º - A literatura. Falou-se da criação de uma Academia de Letras Cabo-verdianas. A AEC faria o papel de uma Academia. Em Cabo Verde, a rigor, nada transcende. Nem mesmo Amilcar Cabral que não é dignificado em justa medida. Basta ver a estátua na Várzea. O museu que ainda não se fez. E os discursos em datas de circunstância, de que já estamos fartos de ouvir. Os heróis não existem. Os artistas inexistem. É um Olimpo de merda (está claro que tais considerações são da minha responsabilidade)...
5º - A declamação que acabou por não acontecer. Do audio, vinha uma declamação de João Vilaret e ninguém prestou muita atenção à Ode Marítima, de Fernando Pessoa. E eu que guardara Cena de Ódio, de Almada Negreiros, para a sobremesa! Vinha também uma música de Miles Davis e vi que Djinho Barbosa terá acusado o toque. Discretamente. Tutu...
6º - A crise financeira. O roubo e o rombo da alta finança. De como a Islândia declarou a bancarrota e de como fica difícil falar em "confiança" nos tempos actuais. Wall Street foi o momento mais pornográfico da noite.
Éramos seis, numa mesa de oito. Faltou sushi, impossível de fazer no shakespeariano Reino da Dinamarca. Faltou Arménio Vieira. E um outro lugar vazio. Seria do meu outro eu, às vezes, errante e poeta? Vagabundo de mim mesmo. Esse maluco!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cinema: W, Z & etc


Oliver Stone, um dos meus cineastas dilectos, apresenta-nos por estes dias o filme W, sobre George W. Bush, o senhor que finalmente deixa a presidência dos EUA. O filme retrata-nos também Dick, Condoleeza e Donald. All the gang. Deve ser para maiores de 21 anos. Ou, como propõe Stone, para todas as idades. Não gostei de Nixon, o único filme de Stone que não me apanhou fundo. Achei-o “forçado” e chato, com mania de Costa Gravas. Esse, ao menos, fez Z. Para filme chato, já agora, revejo os de Micheal Moore. Mas prometo não perder W. Que não só remete para Bush, como para Wall Street, afinal a grande comédia destes dias…

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pila ku nha boi



Coda

Não que seja um vício interessante, embora dele sejamos dependentes, mas mal começa a matina, depois do jogging, nos vemos na obrigação de ler os Blogs, procurando incrementar o nosso entendimento do mundo ou suplicar aos deuses da esquina alguma luz (da Electra não, pleaaaaaaaaaaase) para a nossa burrice. Como metaforizaria um poeta, somos eternos aprendizes. Por isso, somos também humildes, cientes de ainda nada sabermos, mas, gozões ainda, curiosos de trazer esse tourozito (um novilho, se nos parece) para a nossa tourada.

Homo urbanus

A chegada do “Homo urbanus” deveria ser matéria de comemoração, já que, pela primeira vez na História, a metade da humanidade vive em zonas urbanas. Mas, dos seus 3 biliões de habitantes, 1 bilhão vive em bairros marginalizados. O que é a cidade, ao fim e ao cabo? A Ética, a Estética e a Qualidade de Vida, dirá Maukie. O futuro, que é a condição mental e ontológica da felicidade.

Futuro

Saudade do futuro, disse-o há dias alguém. Não é uma frase de arromba, nem um To Be or Not To Be, mas vinha com alguma pinta. Em verdade, nós almejamos o futuro. Não conseguimos ficar betinhos e embevecidos (Ó que sabe na munde!) com isto a cheirar à merda e o forasteiro a mijar nos becos. Há questionamentos a fazerem-se, companheiro. Em que cidade topamos tanto ladrão, thug e salafrário num ai de apagão da Electra? Em que cidade moram menos artistas a sério e há tantos pseudo-intelectuas na praceta, por metro quadrado? Em que cidade os bêbados se embriagam assim de quatro por metros cúbicos de álcool? Saudade do futuro, sem dúvida…

Conselho

Pessoa diria: Para ser grande, sê inteiro. Mas a minha avó, que também tinha os seus rasgos de boa verve, aconselhava: Louvor em boca própria é vitupério…

domingo, 5 de outubro de 2008

Águas tão-somente

Apontas-me as águas silenciosas
Que, tais como as rumorosas, ali
Descem em veias de montanhas
E, invés de ao mar, se tornam lagos…

Dirás também que Ródano, primo,
Desprende de fio gelado, ciciante
Quando se torna rio em vasto vale,
E ardente cio verde aqui de margens…

Mais azul que o até ao horizonte
Te desenharei como vejo o longe
Que a navegar me servem lágrimas…

E o que não caberia em tal fábula
- Escopo de peixes nesse aquário –,
És banho de chuva como te desejo…

sábado, 4 de outubro de 2008

Convívio


Alguns amigos (apenas oito, pois vai ser à mesa) estão convidados lá em casa para:

Declamarmos poesia (como em Porto Madeira);
Comermos tempura ou sushi de atum (serei eu o Chef);
Bebermos vinho branco da Chã (geladíssimo)
Homenagearmos José Cunha (entre nós por estes dias);
Ouvirmos música de Leonard Cohen (com letra imprimida)
Comentarmos dos badios, demasiados matinais, que exercitam seus corpos no jogging (enquanto as vacas, loucas, dormem)

In: Palavra Mágica

um dia o espelho
me devolverá um velho
tomara que eu valha
o tempo que o tempo
levou no trabalho
de esculpir a minha cara
um dia o espelho
me devolverá o vazio
quem sabe eu já esteja
morrendo de frio
e quem chegar perto
pra ver se respiro
vai ver pelas marcas
que virei um vampiro
Ricardo Silvestrin

Onda


Praia Maria é bonita

Praia é linda. Bonita. Bitori di nha Bibinha repetiu-o, com estribilho e exaustão, naquele funaná com clave de baião. Falta-lhe, entretanto, um pensamento inteligente. Algo que lhe seja mais colectivo e mais coerente. Em termos de Monumenta, Documenta e Anima. Uma cidade vai mais do que casas empilhadas, artérias de sangue só venoso e becos sem saída. Uma cidade, para ser bela, tem de projectar estética dentro e fora das pessoas. Mas ver este mar, lindão de morrer, para além do horizonte, é bucólico…sem dúvida.

Pura amizade

Eurídice (Eury, para os mais chegados) ganhou uma bolsa de estudo (aliás, duas bolsas) para prosseguir um doutoramento. Parabéns, menina! Pela Eury, tenho uma genuína e saudável (e apenas) amizade, não me importando com os “trémolos” ao som do zouk-love e dos anónimos I, II e III, do Ombudsman das Bagatelas, o tanas. Vou ao Blog dela, mais para saber de Calheta de São Miguel que para me alinhar nas causas feministas, embora delas não me aparte totalmente. Calheta é uma ínsula íntima e interior como a quis Valentinous Velhinho nos seus poemas. E, para além disso, é onde fica o umbigo do meu pai e de muita gente minha. Antes de mim, já esse destino portuense…
Onda
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde? aonde?
a onda a onda
Manuel Bandeira

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Bem hajam


Foto Expresso das Ilhas
A Câmara da Praia e o Governo querem, juntos, promover possíveis articulações a favor da segurança pública da capital. Era o encontro que se esperava. Estamos fartos, fartíssimos, da delinquência desenfreada, que nos impede de levar os nossos filhos a passearem ou de irem ver o pôr-do-sol. Não queremos andar armados. Nem viver com grades nas janelas. Tão pouco gostamos de recear qualquer sombra nas esquinas. Basta. Queremos paz. Luz e água. E, já agora, alguma poesia. Bem hajam...

Bashô do Ricardo (Silvestrin...para vosotros)



Uma música não precisa mais que três minutos.
Um haicai, alguns segundos.
Mas podem durar a vida inteira.
Um filme, duas horas no escuro.
Um romance, muitas noites em claro.
Um quadro o tempo todo.
Até que se canse,
ponha outro em seu lugar.
Uma escultura numa praça,
mesmo com chuva,
mesmo que se mude de cidade,
ela está lá



Bashô um santo em mim

sol no seu rosto
a ave da dúvida
manchas de sol


Ricardo Silvestrin

Azul ou "the ultimate bridge to nowhere"



Azulando o dia

Meus pássaros (em foreward),

A manhã acordou azul, com um sol redondíssimo entre amarelo e laranja. Apetecia-me lambê-lo, comê-lo. E, à beira-mar, onde religiosamente faço marcha matinal, os madrugadores pareciam mais lindos e mais felizes. As ondas, essas batiam nos rochedos como se não houvesse kasubody, apagão e subprime.

Leio os Blogs, os jornais e os últimos trechos de “O Pecado de Darwin”, de John Darnton. Confirmo a minha ida ao Brasil, como palestrante. Vou também a Itália, ver os frescos de Florença. E, quem sabe, Dubai também, porque o Ramadão acabou e alguém terá de trabalhar…

Plãmanhã, com aroma de romã. Como um poema de Sophia de Melo Breyner Andreson. Ou a música de Princesito.


Piano no espírito

Mito,

O quadro que me ofertaste bateu forte em mim. Como um piano no meu espírito. E é tudo…

Às vezes, não chego lá. A arte livre admite borrões desavindos, experimentação multimédia e absurdos conceptuais. E eu, nem sempre, estou tão Dada assim. Essa coisa livre que Duchamp criou não deve ser apreendida no rompante e no acaso, mas usada com responsabilidade técnica e objectivo estético.

Outras vezes, o quadro chega e bate em mim. Bate fundo em mim. Na arte, sou kantiano. Vou com a obra que me proporciona emoção. A sensação estética como uma espécie de nirvana. Era Kandinsky que dizia que a arte não seria útil nem agradável, mas teria de ter o poder de tocar um piano existente no nosso espírito.


Estranho delírio

Laura,

O meu processo criativo? Loucura e trabalho, se tanto.

A inspiração vem com delirius tremendus, mas a execução é oficinal. Um pouco racionalizada. Rigor quase matemático. Soneto não cai da árvore, por mais que acreditemos no Jardim do Éden.

Eu, por sinal, nem acredito nessa história, embora veja em tal parábola um bom filão de metáforas. Não iria afirmar, mesmo que me desses um doce, que a história do Pecado Original não nos empresta tremenda inspiração poética.

O sair do Paraíso tornou-nos mais livres e melhores poetas…


Zona de sombra

Jeff,

Sim. Acompanhei o debate nesta madrugada. Gostei menos de Palin. Assim como gosto menos de McCain.

Um tal Pascoalino, mormente simpático, me considera de mal com o mundo. Em verdade, estou de bem comigo. Com os meus demónios, inclusive.

Amigo, o risco de contágio do sistema financeiro faz desta crise uma pandemia. E há claramente uma zona de sombra que revela relativa inutilidade da classe política. A economia mundializada (apelidada artificialmente de Globalização) está nas mãos de bonecreiros com a sua lógica invisível e ininteligível.

Não sabemos quem comanda os botões que nos faz dormir ricos e acordar pobres, e vice-versa. Marx dizia que os homens fazem a história, mas não sabem a história que fazem. Por isso, um Deus qualquer, muito mais ganancioso que os evangélicos de Paiol do Coqueiro, quer nos ver aflitos por estes dias e explodir, do seu templo maior quem sabe, uma retumbante gargalhada. Só pode ser brincadeira de mau gosto…

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

PA ALBATROS

Bo ki bu durmi tudu noti riba di tenpestadi,
Ki bu ta korda y bu ta diskansa riba di bus aza spantozu,
(Un tenpestadi rixu rabenta? Bu ta labanta pa riba d’el
y bu ta rapoza na séu, kel skravu ki ta da-u gazadju)
Gosi bu ta parse sima un pontu azul, la lonji, ta mexe divagar na séu,
Y ku lus ki ta surji N ta observa-u di konves
(Mi propi é apenas un pontu, un sinal riba di tamanheza flutuanti
di mundu).

Lonji, lonji na mar, dipos di kes korenti brabu di noti simia praia
di manduxu,
Na nanser di dia, filis y serenu,
Ku antimanxe ilástiku y kor-di-roza, ku sol dislunbranti,
Ku stenson klaru di ar kor di séu ku mar,
Bo tanbé bu ta torna parse.

Bo, ki bu nanse pa bu midi tenpestadi (bo é so aza),
Pa konpiti ku séu ku tera, ku maris y furakon,
Bo naviu di ar ki nunka bu ka reia vela,
Sen kansa, duranti dias y simanas bu pirkore spasus y renus,
ta avansa senpri,
Y na kanbar di sol bu odja Sinegal y Merka bistidu di lutru,
Ta labanta ku forsa na mei di alanpras ku nubris di strubada,
Y nton, na bus spiriensia, bu atxa nha alma,
Alegria txeu! Alegria sen manha kes di-bo!


Walt Whitman

Traduson: José Luiz Tavares

Budget


Maukie (abusadérrimo), entra nessa “conversa de gente grande” sobre o Orçamento do Estado e, ainda por riba, a cantar “Lá na Ti Céza/Nô bá pa morte d’um tchuque/Friginóte co faba ma rolôm nô cmê”, belíssima coladeira de Manuel de Novas. É necessário investir mais, nomeadamente investimentos de qualidade, para criar riqueza e emprego, e para aumentar a produtividade e a competitividade de Cabo Verde, diz Pranchinha (às vezes, o fulano tem rasgos de lucidez). E a crise? pergunta Vénus. Por acaso, a minha não leu Tutto É Finito, de Arménio Vieira? O que congemina o OGE 2009?, insiste. Terá precauções contra o efeito dominó desse rebentar da “bolha” do subprime? Hugo, embora apaixonado pela Pé Kumpridu/Priguisoza (Ti voglio bene), permanece hirto e gravoso. Ei-lo: quem vai blindar os nossos salários, empréstimos e pensões; quem vai domar a inflação, o poder de compra roubado e o spread dos bancos? Gato Preto, aliás Maukie, aka No Peter, intervém na mesmíssima diapasão: "Artur quemá êl tchorá/Êl dzê lembral na Gusto Piric/ Piduca sobiá. Êl zará/Festa cabá". Eh pá, convosco…não dá meeeeeeeeeeeesmo!

Di palbessa





That Biden

Pranchinha que, apesar de morto e enterrado, de vez em quando, vem ao Albatroz fazer das suas, antes de se tornar ao além, pergunta como foi possível Baraka Obama escolher o Senador Joe Biden para seu Vice. Um homem que, na tentativa de engraxar Obama, teve esta derrapagem racista: "o primeiro afro-americano limpo e inteligente que conheci". Já por esta afronta, que só os “pretos safados” engolem, Biden não devia entrar “na lista negra” (que agora dá votos e cartazes, diga-se de passagem). Olha, Pranchinha, esses óculos ficam-te bem…

Two times two

Gato Preto (não confundir com Black Cat, naaaauuuuuu dizimola) ficou furibundo com essa Sarah Palin. Conhecem-na? Os americanos também não. A dita cuja não conhece geografia. Os americanos também não. Os próprios republicanos por sinal estão cépticos quanto à sua capacidade de liderar a América. Não porque McCain tenha 72 anos, mas porque Geórgia não fica na África, diachi nho. Maukie (que jamais foi Peter, arre e chispa, ó chavala) manda à dita a seguinte pergunta: Sabe Vossa Senhoria o resultado de 2x2? Os americanos sabem-no, mas os de Walt Street nem por isso.

Império do Meio

Hugo, the fuckin´ bird (hoje, o gajo aparece-me às 5H30), contrapôs: Deixai os americanos reaprenderem economia com esta crise, até porque os chineses, ora donos da metade do dólar, terão de aprender com os japas como fazer harakiri, se a dinheirama continuar nessa podridão. Hugo é fogo. Anda cada vez mais cáustico e mais amargo. A sua frase dilecta: I don´t care. Falando nisso, 31 produtos chineses (quase todos exportados para o mundo) estão contaminados com melamina, substância tóxica utilizada em resinas e colas. E nós que temos melanina, quanto de tais produtos não estará nas prateleiras das lojas por cá? Lá está Hugo a meter-se com o Império do Meio…

OBS: A festa foi boa. O Pablo adorou. Por isso, amo Outubro…a começar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pablous


Pablous Code
Pablo Fontes Correia e Silva – Pablo chamam-lhe os pais e Pabi diz-lhe o tio Mito (e Pabis-Pabis, ó Vénus de Milo) –, fez hoje seis anos. A crise na Bolsa de Nova Iorque que espere. Mc'Cain e Obama também. Intermezzo. O tal seminário sobre o papel dos bancos centrais em tempos de calema não me interessa hoje. Tão pouco me move o facto desse Peter mudar de poiso e de pub para o gáudio dos obtusos. Por menos que isso, Picasso (outro Pablo) pintou “Les Demoiselles d´Avignon”. Certo é que não me adormeço o tempo de um fósforo aceso no ocaso das balzaquianas, tamanha a minha pressa do mundo e imperioso te aguardar em Milano Centrale, ó Poeta. Hoje, nem vou repetir à exaustão que, no Reino da Dinamarca, mandam as pixinguinhas, as sirigaitas, os thugs e os artistas cabo-zouk, quando não os intelectuais de periódicos e os especialistas no geral. Lembro-me, como se hoje fosse, o dia em que Pablo nasceu no Hospital Beth Israel, em Boston. Era Outono, em Fenway Park. Era Outubro na minha vida. Melhor, muito melhor que esse Setembro, ao tempo, a chover a cântaros…
Incenso Fosse Música*
isso de querer ser
exactamente aquilo que a gente é
ainda vai nos levar além
Alba**
O petto svegliato dal nuovo sole!
O mio caldo letto bagnato di lacrime!
Con un’altra luce mi sveglio a piangere
i giorni che volano via come ombre.
Poema 20***
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo...
Pablous:
* Paulo Liminski
** Paolo Pasolini
*** Pablo Neruda