quinta-feira, 10 de julho de 2008

Rade

Plúmbeo céu
Cinza e cor de lago
Dos teus olhos…

Espelho que reflecte
Senão a luz negra das horas
As brancas sombras dos lugares…

Cisnes e gansos
O vaivém dos barcos nas hordas
Estátua magenta - sejas tu…

terça-feira, 8 de julho de 2008

Do Sol à Soraia + Badio ka manso em tempo de caça às bruxas


Acomys cahirinus


Sol fulgurante



Um sol fulgurante diz que la vie est belle e que tudo - do infinitamente pequeno ao grande -, vale a pena. Atravesso uma fase líquida (não me refiro ao álcool, bem entendido), como Picasso antes de desaguar em Guernica e naqueles touros retorcidos. Nessa noite chuvosa, fomos (os três) a um restaurante cubano. Ouvíamos Célia Cruz a cantar Obladi Oblada, mas eu queria sussurrar-vos os versos de Baudelaire. Paranóias de se estar em Paris, suponho. Acreditem-me: sou mesmo um devoto de Hefesto. A paz, mesmo a de Cristo, é o que há de mais essencial na vida. Estou a só no meu quarto. Na Cidade da Praia, Julho de 2008. Leio Kamiquase, de Paulo Leminsky, logo existo…



Badio ka mansu



A história do rato, descrita no Blog Ala Marginal, de Abraão Vicente, me fez rir muito. Fiquei a imaginar o meu amigo, com ares de galgo e de sapateador, mais aquele quê de galo molhado, de pau em riste e óculos vermelhos, a vasculhar os cantos do cubículo e a ver se acabava de vez com o roedor. É que tudo poderia terminar sem violência, se a Estrela do Programa 180º fosse como o Marido de Carla B. e desse à maçada de “comprar os bons ofícios” dos revolucionários colombianos na libertação de Ingrid Bettencourt. Diplomacia & 2 milhões de euros, que gente fina é outra coisa. Mas Abraão, não: vassourada, pistola, foguetão, como naquele funaná, e o infeliz, apanhado no veio da maldade, morreu como nasceu: rato crioulo…porra!



Tais defeitos



Alguém me telefona (aflito e em estapafúrdio) que começou a “caça às bruxas”. Estava-se à espera de quê? Quem se surpreende hoje com os esquentamentos, em tempos de camisinha e de Viagra? Só os mal-intencionados. E os mal estacionados. Chamem o Mata-ratos, para vir à vossa defesa. Ou então, aquele chato (que nem aquele dos pelos púbicos), do sindicato, naturalmente, para declarar greve geral contra os novos deuses. Nesta cloaca acontece cada uma! Há sempre uma pirueta, aquém de valente, além de bizarra, para instalar polvorosa nesta cidade. Dos ditadores, Nero era medalha de ouro de assaz algazarra. Queimou Roma e escreveu maus versos. Petronius, filósofo de fina pena e criador da sátira, imortalizou tais feitos…



Big Mac



Eu conhecia a Soraia de outros carnavais: morena, olhos esverdeados, violão em forma de mulher. Agora, ela está paquidérmica. Uma tia do Harlem, que é o bairro mais terceiro-mundista de Nova Iorque. Aquela não era a Soraia dos meus tempos. Vítima da alimentação consumista, rápida e industrializada, vê-se que ela não aguentou aos ataques cerrados dos McDonald’s, Burger King, Kentucky Fried Chicken e Pizza Hut. Diante desse feio: Abaixo a gordura! Abaixo a fritura! Abaixo o Fast Food! O Sistema é de facto uma grande fraude…

Eu

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha


Paulo Leminsky

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Proibido fumar


Neste Blog é proibido fumar

Preferimos não proibir coisas saudáveis – música clássica, tartarugas marinhas e alimentos orgânicos. Também é livre amar neste Blog. Fazer poesia também pode. Você pode contar as Mil e Uma Noites neste Blog. Mas não abrimos mão à proibição do tabagismo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), existem hoje no mundo cerca de 1,1 bilhão de fumantes. Desse total, 800 milhões estão nos países em desenvolvimento, em torno de 73%. Morrem a cada ano mais pessoas vítimas do consumo de cigarros que a soma das mortes devido ao SIDA, violência, acidentes de trânsito, incêndios e suicídios. Por conseguinte, os fumantes estão impedidos de navegar neste Blog…

Tráfico de droga também não

Nós aplaudimos toda a vez que os correios da droga são apanhados nos nossos aeroportos. Apenas lamentamos que muitos barões ainda permaneçam à solta a consumir connosco o oxigénio rarefeito. Neste Blog, o “pessoal do movimento” também não pode circular. Somos atenta e abertamente contra a prática do tráfico. Já os toxicodependentes podem ler as nossas postagens. Servir-lhes-á de emenda e de exemplo. O flagelo da droga só é comparável ao flagelo da guerra. Por isso, aqueles que fazem guerra são inimigos declarados do Albatrozberdiano. Ao vilão, vara na mão…

Gostar de Paris está liberado

Chover pode. Mas alagar não pode. Chover no molhado tão pouco. Dançar pode e namorar também. Gostar de Paris está liberado. The Sole of Africa, Raiz di Polon, Mindelact, Pantera, Tcheka e Mayra…embarque nessa viagem linda. La Strada...pooooooooode sim! A indiferença por Darfur está proibida. Bombardear Bagdad pode destruir o Jardim de Éden, portanto não pode neste Blog. Tratar mal os refugiados e deportá-los como gado, você acha que pode? O Aquecimento Global é outro flagelo e, está visto, capitalismo selvagem também não pode. Você pode (e deve) ouvir “Namoro sem amasso, sou eu assim sem você”, com Adriana Calcanhoto. Não fume nunca, meu bem. Mas Partimpim é tudo que você pode…

A Caminho de Viseu *

Indo eu, indo eu
A caminho de Viseu
- Cantiga de roda (da minha infância)


Revisitando a crónica

A crónica estava tímida, quase não querendo contar nada do que sabe. Cheia de álibi, ela armava-se em neutra e isenta, diria mesmo, coisas de quem anda por cima do muro. Robert Mugabe arma uma grande fraude, a crónica fica pelo princípio da não ingerência. De resto, a fraude virou uma pandemia. O preço do petróleo caminha para os 200 dólares, a crise do capitalismo é cíclica e tudo voltará ao normal. E há escassez de arroz no mercado, a crónica já gosta de batatas e de massas. Sempre nesse chove não molha, sobretudo a cuidado de não molhar o cronista, o texto ficaria parvo, romântico e inócuo. Texto pelo texto. A falar das flores e da lua a derramar sua prata. Mas assim não fazia sentido. Mil vezes a afronta de se alinhar pelas causas. Mais vale o risco de acreditar que um outro mundo é possível. De longe esta outra atitude de atirar pedras no charco da nossa pasmaceira que fede…

A “concorrência”

Assim como há crónicas inconsequentes, há cronistas chatos e recorrentes. Escrevem por encomenda e servem-se de arma de arremesso. Entre Deus e César, posicionam-se em quem dá mais. Há quem chame isso de pragmatismo. O Pranchinha, que a morte lhe dê merecido descanso, não guardava respeito a esses fariseus. Não que esteja a falar da “concorrência”, pois nem sempre o pessoal (lá por estar na IDC, Opus Dei ou raios que os partam) traz os mínimos olímpicos, em termos de engenho e arte, para vir à tertúlia consequente. Falo tão simplesmente daqueles que, sem rei nem roque, aviltam o bom-nome de Frei Betto, Al Gore, Jean Ziegler e Nelson Mandela. E desdenham das causas como o Aquecimento Global, a Greenpeace, o Fórum Social Mundial, o Slow Food e a Teologia da Libertação. E, como nada é por acaso e inocente nesta vida, refiro-me a esses…naturalmente!

*De Lisboa a Braga, a comboio, ficaria na estação de Viseu. Provavelmente, por causa de uma cantiga de roda (da minha infância). Inconsequente? Nem tanto…

domingo, 6 de julho de 2008

Aos 33

Não venho aqui paparicar o ego dos rincões e dos cutelos. Nem venho pedir favores aos deuses da terra. Tão pouco faço vénias às espertezas de ponta de praia. Oficializar a língua materna e primeira é tornar de jure o que é de facto. Em Cabo Verde, quem chora ou faz amor noutra língua, atire a primeira pedra. Quem sonha e compõe melodias noutra língua, que não em crioulo, alinhe-se deste lado da bicha, que é hora, mais que hora, de sentirmos o pulso dessa esmagadora maioria. E não vale a pena tantos decretos, seminários, tertúlias e outras dissimulações. Para já, a Constituição Nacional consagra o bilinguismo. A par disso, precisamos dominar bem as nossas duas línguas – a cabo-verdiana e a portuguesa, numa coabitação definida e organizada. De resto, não faz sentido que as nossas crianças sejam alfabetizadas em “segunda língua”, que não seja instituída no currículo do ensino secundário a aprendizagem da escrita em crioulo e que o ensino superior não considere a cátedra da língua e da cultura cabo-verdianas. É agendar a dita no Parlamento, construir o necessário consenso para alterar a Constituição e oficializar "a partir desta data histórica" o Crioulo de Cabo Verde. A tal coragem que, outrora, teve Dom Diniz com a língua portuguesa, que, me perdoem os mais afoitos e os mais aficionados, tem as suas esquisitices (tipo "fi-lo porque qui-lo") e deixam, quando soe, qualquer um no prejuízo. Ademais, se houve consenso político para a aberrante lei eleitoral, creio que não faltará boa vontade para a oficialização do crioulo. Assumamos, pois, o bilinguismo de Cabo Verde!

sábado, 5 de julho de 2008

KANTIKU ANUAL KABUVERDIANU

(inspiradu na puema MAMÁ-TXUBA, di Dr. Azágua)

Pueta dja kanta
diskansadu i xintidu
ta ngoda Mama-Txuba
ku bokadu nos melodia
pingu nos konpasu
mantenha pa El fla-nu
nen si e uas ta bai
otu banda di Atlantiku
//
Sin, Mama-Txuba
es korpu di morena
na Atlantiku plantadu
xeiu di kalor nostaljiku
di dizeju ardenti
ta konvulsa na orizonti
sima mar revoltadu
tudu meiu dia en pinu
di sol ragatxadu
sen do nen piedadi
di ses entranha ta suga
tudu sangi di vida
- agu di karisias pasadu
//
Pueta kantador
Deus ta kre
Mama-Txuba ta obi
bu presi ritimadu
kadensia konbersu sabi
pa El ben beija
es korpu di morena
na Atlantiku detadu
ta spera Se karisia
//
Mama-Txuba odja
spraiadu na Atlantiku
es korpu di morena
di beleza sen par
mas raskoa ta bira
bistidu di verdi
verdi di speransa
trokadu Bus karisia
inda ki fugazis
//
Mama-Txuba
di mon pa seu
lugar di Bu morada
N ta pidi-Bu
kudi Dr. Azágua
sukuta kanson di pueta
kantiku anual kabuverdianu
//
Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Urbaníssimo


Praia, meu berço

Gosto da cidade grande, cosmopolita e frenética. Gosto de estar na cidade como se estivesse no Ode Triunfal, de Alvaro de Campos. Quando dei de caras com Nova Iorque, chorei. São Paulo foi amor de perdição. E Paris sussurra pelos meus poros. Agora, à boca pequena (para que os FDP não me ouçam), acho que sou londrino. Jack, the Stripper, entre a neblina de Netting Hill. Gosto, mesmo quando a cidade não se extrapola em metrópole – seja Lisboa, Boston, Casablanca, Belo Horizonte ou Genebra -, de ficar pelos encantos que vou descobrindo – amigos novos, deuses disfarçados de mulheres, cães que falam com crianças nos jardins e rosas com o seu lado de cá. Em Dakar, estive para acreditar em Deus. No Rio de Janeiro, o Belo embriagou-me e estou de ressaca. Parei um dia em Joanesburgo e apaixonei-me por Nelson Mandela. Passo pelas cidades de Cabo Verde, todas pequenas, mas com os seus encantos, e, me perdoem os que não se libertam dos seus cutelos, sou urbano. Urbaníssimo. Praia, meu berço, meu umbigo…

Sem muita metáfora

O FMI admite estar impressionado com a dinâmica da economia de Cabo Verde, mas Nha Filó (amizade recente), essa não vai muito na cantiga do sucesso económico. Em verdade, o macro encanta aos outros (FMI, Banco Mundial e companhia), mas o micro (arroz, feijão, peixe, carne, leite, material escolar, gás de cozinha, luz e água, o micro dizia) não encanta aos da Tapadinha mesmo nada. Sem dar muita bola à ambivalência do macro e do micro, Nha Filó é daquelas que precisa do imperioso para colocar na panela. Três por dia, remata a minha amiga, sem muita metáfora…

Autocarro #20

Neste momento, já não estou Esperando Godot, mas aguardo Um Bonde Chamado Desejo. Com a chegada de Denzel, 16 anos, e com o Pablo, 5 anos, por perto, a minha vida ganha mais luz & água. Os filhos são o nosso desassossego, ora! Aquecimento global, crise dos combustíveis e escassez de alimentos, que mundo para os meus filhos? A chuva a falar mantenha, mas o paludismo que espreita, o deputado a falar asneiras no Parlamento e as "soluções" para enganar outro, e os meus filhos nisso tudo! Queria dar aos meus filhos poesia, muita poesia, a poesia que falta nestes dias. Falta-me algo mais, pois existencialmente falta-nos sempre algo mais. A poesia concreta de estarmos todos juntos perante a promessa de um mundo melhor, afinal possível. Queria estar com eles no Autocarro # 20…

terça-feira, 1 de julho de 2008

Decifrar a pedra



Nem sempre me é fácil decifrar
Toda a fruta que, em teus lábios,
Sabe tão-só a beijos e carícias
Quão amiúde a poemas por dizer…

Nem sempre posso, do teu olhar,
Mirar o voo que nele se deseja
- Entre magenta, azul e violeta -,
E dele acalentam as cores furtivas …

Pôr as mãos sem tocar ao rente
Que são pêlos de ti e do infinito
E sem roçar, seja de leve, a lua…

Sorver os sais, o suco das flores,
Os vinhos de nada, os halos de pão
E é pedra o que, de segredo, madruga…

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Absolut 33



1. Tenho um País que faz 33 anos

a) É um aniversário no meio de alguma “bronca pós eleitoral” que, mormente simbólico e emblemático (33 era a idade de Cristo), corre o risco de passar desapercebido. Pessoalmente, renego a ideia de que isto está por um fio, por causa da subida vertiginosa dos combustíveis e da subida perigosa dos alimentos. Isto é apenas mais um grande desafio. O País cresceu, mercê da Independência Nacional, virou democrático e ganhou mais encaixe contra os choques externos. É preciso fé e crença. Vale ter muita força para vencer os desafios da vulnerabilidade. Mas há governabilidade, credibilidade e estabilidade. É investir nisso e entrar, em festa e com entusiasmo, na idade…da maturidade;

b) No 30º aniversário da Independência Nacional, fez-se festa rija e merecida. Em Julho de 2005, Cabo Verde vivia em plena euforia. O País estava percebido como a sair dos PMA e o seu Índice de Desenvolvimento Humano era o 3º melhor de toda a África. Ademais, os dados macroeconómicos indicavam que finalmente estávamos a mudar, e no bom sentido. E fez-se festa rija, em parâmetros de qualidade: Cabo Verde, este país africano “diferente”, tinha promessas do MCA e estava a caminhar para a Parceria Especial com a União Europeia. Transicional…

2. Falava-te outro dia do Homem-Aranha

a) Sem muita surpresa, ouço, pela RCV, a composição do Governo remodelado. Ouço também (sem alguma surpresa), em sua justiça de antípoda, Fernando Elísio Freire. José Maria Neves, o melhor primeiro-ministro da História deste País, diz que é o “governo possível”. Das caras novas, gostei de todas, esperando que Vera Duarte leve “mais Cultura e mais Direitos Humanos para a Educação” e que José Maria Veiga, vindo da Luta Contra a Pobreza, veja a “Agricultura como Segurança Alimentar”. E dou alvíssaras a Fátima Fialho e a Janira Hopffer Almada;

b) O Homem-Aranha galga paredes e salta para o abismo e é o único que voa no improvável. Bem dizia Ovídio Martins, um dos maiores poetas de Cabo Verde e demasiado decente para o tempo e o espaço, qual o único impossível: mordaças a um poeta. Entrementes, no território da política, faz-se apenas o possível. Até nos brinquedos (e aprendi isso com o meu filho), o Super-homem não é “super de verdade” e o Hulk não é incrível como parece. Mas o Homem-Aranha, esse é bom demais…

3. Miscelâneas

a) O complexo turístico Predracim Village faz 5 anos. E apetece-me felicitar o seu promotor e gerente José Pedro Oliveira (Djopam), pela inovação, aposta e qualidade, mostrando-nos que o operador nacional pode sim estar no mercado turístico de forma competitiva e digna. Djopam descobriu (como o rato proverbial da experiência científica) que era possível vencer o mercado sem desenfreio especulativo, mas com sentido comunitário e ambiental. Um fim-de-semana em Pedracim Village é (re) descobrir que Cabo Verde é “sabe pa fronta”;

b) Quero, aqui e agora, assinalar a participação de Artemisa Gomes Sequeira que representará Cabo Verde nos Jogos Paralímpicos de Pequim, em Setembro próximo. A proeza dessa jovem de 26 anos é lançamento de disco e de dardo, modalidades em que tem galardões nas competições africanas recentes. Artemisa, que é orgulho de um país aos 33 anos, significa a tenacidade e a força da juventude cabo-verdiana. Convido-vos a acompanhar essa estrela;

c) A celebração do 33° Aniversário tem este ano um travo de grandeza, em França: a inauguração na cidade de Saint Denis (Área Metropolitana de Paris) de uma avenida com o nome de Amílcar Cabral, o Pai da Nação Cabo-verdiana. Palmas para a equipa do Embaixador José Duarte (eia José Leite) e a sua rede de diplomacia cultural, económica, política e o que mais queiram. Amilcar Cabral, honremos a sua memória, é ainda o nosso maior capital da diplomacia…

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Circo Sem Poesia


Charge de HENFIL

Creio ter sido de Octávio Paz a frase: “Se os líderes lessem poesia, eles seriam mais sábios”. E isso vem a propósito da última sessão parlamentar, no decurso de um debate bizarro e bizantino sobre a “política dos transportes”. Estes adjectivos, passe o eufemismo, devem-se ao baixo teor das interpelações e à paralaxe invertida das explicações. Às tantas, pareciam mudos a falar a surdos e, da bancada dos espectadores, as gargalhadas eram contidas em forma de sorrisos. Mas o pior (ou o melhor, a depender do prisma) terá sido a recusa da poesia por parte dos entes parlamentares. Cada um afiançava-se (com a arrogância de um rei decadente e carcomido) que não fazia poesia e acusava o outro de tamanho ilícito. Creio ter sido de Arménio Vieira estes versos: “Gente oca, cabecinha de alfinete”…


Praia de Santa Maria


segunda-feira, 23 de junho de 2008

Making your day

Descobri que o teu Blog ainda mexe. Obviamente, e porque mexe, ele não entra no ranking dos Blogs Crioulos. Vou lendo, nas linhas e nas entrelinhas, o que sussurra a tua alma. Nessas coisas, o não-dito, fingindo hermetismo, é que acaba por expressar mais coisas. É inaudito o teu Blog. Não falo aqui de quantidade, tipo dois quilos de post/dia, mas de qualidade, essa coisa fugaz, mas que tem cá dentro o seu indelével. Nem falo dessa incontinência verbal e escrita daqueles que – sintaxe ao que vens, meu caro, ou semântica, tu não és para cá chamada – vão pontuando os dias por madrugar. Falo, apenas e tão-só, da tua escrita meio imperceptível e quase silenciosa. Uma espécie de sombra, sabes como é…

Dia da Língua Portuguesa

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê?
Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem

Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria

Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô– Você e tu– Lhe amo– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!– Ma’de brinquinho, Ricardo!?
Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro,
assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem...


Língua
Caetano Veloso

Tu és a minha água. Tu és a minha água dos mares daqui




Direito ao djatu


Como poderia estar posto em sossego se cinco milhões de crianças estão condenadas neste ano a morrer de fome? Como poderia estar em paz com a lua que, no dizer de Princesito, ta lumia pretu, ta lumia branku, se adolescentes grávidas são banidas do ensino secundário aqui nas ilhas? Como posso me apaziguar com esta leda madrugada se algures um navio-de-guerra estrangeiro perscruta no mar os clandestinos da Costa, não para os dar porto seguro, mas para os deportar para a fome e para o desespêro? A lista de paradoxos tornou-se enorme e nos desafia a reflectir acerca da condição humana. Para que não regridamos aos modos de vida marcados pela barbárie. Precisamos exercer (também na escrita) o direito ao djatu para exorcizarmos o fantasma do evidente egoísmo que inebria o humano.

Chile de Pablo Neruda e de Victor Jara

Creio que uma boa parte dos leitores não sabe que Salvador Allende se suicidou com um fuzil, oferecido por Fidel Castro. O primeiro marxista na história a chegar à presidência, via eleição livre e democrática, completaria agora 100 anos. Desde que assumiu o poder, o imperialismo e a direita criaram condições de instabilidade no Chile de Pablo Neruda e de Victor Jara que culminaram no golpe fascista liderado pelo animal Augusto Pinochet.

Dos ópios, escolha o diabo

Falando em Marx, creio que o filósofo se esqueceu de nos contar do segundo ópio: a ideologia política. Entre os dois ópios, venha, pois, o diabo e escolha. Estou por fora…

A cartomancia da escrita

E não é que revejo a minha leitora da Av. Cidade de Lisboa? Esta, contrariamente a muitos, anda radiante com a "nova linha" deste cronista. Diz que gosta mesmo é de prosa-poética e me adianta logo meia-dúzia dos melhores confrades. Com o ego massajado, ouso ali a inconfidência de como começaria a minha próxima crónica: Tu és a minha água. Tu és a minha água dos mares daqui…E eu, que afinal gosto mesmo é de poesia, fico de gaiato diante da ventura da confraria. Acabaram-se as eleições e os "jogadores de bancada" começam a comentar o esquema táctico duns e doutros. Nesta hora, há de tudo: arrogância, oportunismo, preconceito, miopia e estupidez política. A cartomancia dos nossos escribas chega a ser batoteira. Estes nos têm vendido (nos três semanários da praça) gato por lebre…

Os que no meu peito fazem morada

Aos meus amigos, porque de repente, não mais que de repente, eles contam muito, estes versos de Dunga Odakam... aos que me são caros, meu afecto, zelo e cuidado/ Aos que me são raros, bom ouvido e brando facho para envolvê-los em energia./ Aos amigos que me são calmos, um mar de ventos sábios a navegá-los./ E aos frágeis, meu coração cedo ou tarde para aportá-los./ Aos amigos que são ternos, a luz azul calmante dos universos. E aos que no peito fazem morada, muita força para o dia e poesia para a madrugada.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O Tempo e seus momentos


Foto de Amilcar Aristides



Poesis com a minha cidade

Gosto de ir à ponta do Farol Maria Pia, ao desamparinho, para contemplar a cidade e o oceano. Praia é uma cidade marinha e marítima. Ela deverá ser assumida como cidade-porto, em toda a causa e consequência. Da Ponta Temerosa à Ponta da Mulher Branca, passando por uma borda balnear significativa, a Baía da Praia precisa ser vista e revista nas suas potencialidades e valências. Dar excelência à cidade será assumir a sua dimensão histórica e transatlântica. A par desta constatação, assumo que não vou ao Farol Maria Pia com preocupações urbanísticas, mas por esta necessidade de relação poética com a minha cidade…

O antegozo de horas íntimas

Sabem disto os que me lêem: nunca fui chegado em agradar aos gregos e aos troianos, e mantenho a convicta teimosia de não ser complacente com os cabo-verdianos. A onda da desesperança que ora nos assola pode ser remédio santo contra a gripe das aves da política local. Estes tempos sem poesia, mas com um novo rinoceronte (pior que o de Kafka) a fazer discurso político. Sabem os que me lêem que não haverá tréguas para as manhãs vazias, nem palmas para o Rei que passa nu. Entrementes, e porque há uma lixada minoria que não gosta da poesia, deixo aqui expressos estes versos de Linhares Filho: Tuas mãos nos meus cabelos/ é gesto simples, repousante/ mas vem de reproduzir uma energia e segredar apelos. Teus dedos falam, têm magia. /Apiedam-se de mim, exortam-me, estimulam. / Compreendem, abrandam, conciliam. / Deles jamais escorrem sangue/ mas uma doce linfa/ que o sono me provoca e me fecunda o sonho. Contam histórias de antigos cafunés/ e trazem-me o antegozo de horas íntimas…

Iria também de burro

Tempo a sobrar, vou à praceta rir um bocado dos facínoras. Em horas estranhíssimas, de porcos triunfantes e de um ladrar de cães senis, queria mergulhar nestes pensamentos e esquecer que esta cloaca é puro excremento. O discurso da desdita é estruturalmente fascista e me viesse a morte (algo mais democrática que a vida, diga-se em verdade), queria por força ir de burro. Tal qual desejou o grande Poeta Sá-Carneiro: Que o meu caixão vá sobre um burro/Ajaezado à andaluza// A um morto nada se recusa/ Eu quero por força ir de burro…

O Tempo e seus momentos

E que ninguém interprete estas palavras com um estado de tristeza ou de desânimo. Há sempre uma planta – um cacto que seja – no meio das pedras. E as próprias pedras, já ao segundo olhar, são metáforas necessárias à minha poesia. Além de armas de arremesso – sempre que necessárias -, se os momentos são roubados ao Tempo!

sábado, 14 de junho de 2008

MADRUGADA DO CHIADO



(Desconversando com F. Pessoa)

Múltiplo solitário poeta
com o universo inteiro na cabeça,
eis-te agora sentado em extática glória
aqui onde te assopram ao ouvido
os lodosos detritos dos dias
e as líquidas profecias
gizadas ao refluir das luzes.

Triste despessoado fernandinho,
aqui posto em estado de estátua,
a rara chuva destes dias
já não aleita as raízes donde crescem
as visões – roubam-te o desassossego
com o escárnio da madrugada e os tráficos
que a noite desfecha contra o sono,

mas ainda te ouço sonhador ao griso
que descampa este largo (pois sem sonho
não há glória), embora o enxame turístico
empalideça o manso rufar das náufragas estrelas,
as madrugadas de fêveros ecos
quando o universo cisma nas razões que cunham
a solidão e seu luminoso rasto debruando a alba.

Dos desastres da pátria, nem te falo:
tu que navegaste soçobrados sonhos
de império, hoje és segura escada para cátedra;
não te cotaram ainda em bolsa, mas é coisa
para ser pensada, agora que no fundo da arca
nenhum enigma se dissimula, nem o arroto
que prateia algum verso descartável.

Sei que rumoreja mal o altivo rogo por entre
o tinir dos copos nas mesas da esplanada
onde se empoleira a viçosa vacuidade do mundo
e não há porfia que acenda o coração amortalhado,
drenando ainda, como intérmina rebentação,
fulgores de vinho sorvidos com a mansidão de um
touro, mas manda sempre a este que não é teu devoto,
porém, como tu, peregrina sob o essencial desamparo,
à acrílica mansidão com que a treva nos acolhe.

JOSÉ LUIZ TAVARES

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Batukador




N ta bai mar
N ta bai mar
N ta murgudja na azul…


Ecológico, guerreiro e talentoso são os adjectivos que qualificam Carlos Alberto Sousa Mendes (Princesito), compositor, poeta e intérprete de Monte Iria, Tarrafal, na ilha de Santiago. Tais atributos ficaram, ontem, mais do que consagrados no espectáculo “Mi en Si”, promovido pelo Centro Cultural Português da Praia/Instituto Camões, iniciativa do seu já imprescindível responsável, João Neves.

O artista em ajuste directo e em perfeita proximidade. Não éramos muitos a assistir “Mi en Si”. Apenas três dezenas de “good fellows”, amantes da boa música e crentes (no meu caso, desde “Lua”) de Princesito, um artista que consegue transportar o terreiro do batuque para um ambiente mais intimista e “cool”.

Nesse élan, Princesito recriou, com excelência e humor - do blues ao finaçon, passando pela morna, mas sempre na clave e com o timbre de “Batukador” -, a magia que se quer ao entardecer de uma quinta-feira. “Mi en Si”, cá para mim, é o momento interjeccional entre o Sol (também nota musical) e a Lua (a que Princesito suplica: “fika ku mi mas un kuzinha/ dexa n lambuxa na bo”), beleza do desamparinho tão-somente.

Como em tudo a exalar bom gosto e qualidade, “Mi en Si” soube-me a pouco. Queria-o ainda mais íntimo. Queria-o ainda mais longo e mais compacto. E falando de quantidade e intensidade, como diria Caetano Veloso, muito é muito pouco.

O que sobra é um trio inimputável a garantir mais do que o básico em termos de melodia e ritmo. Na tchabeta finkadu, onde o espírito de Nha Bibinha Cabral vem ao de cima e o público canta e bate palmas, porque a Preta de quem é? La negra é di bo…ah, kanadja, Batukador!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Caro Bloquista

O problema de Sapo.CV, portal comercial e com objectivos lucrativos, é o tipo de proposta que faz aos Blogs cabo-verdianos. Em primeiro lugar, a deslocalização das publicidades comerciais existentes no mercado cabo-verdiano. Depois, os convites sem proposta financeira, sob a falácia de não haver interesse comercial. E terceiro, a estratégia de ajuntamento bloguista sob a estratégia não declarada, mas que é de gato escondido com rabo de fora. Com devido respeito pelo trabalho e pela intenção dos outros, mas há coisas que não interessam. Adiante...

Princesito