segunda-feira, 9 de junho de 2008

Duas cartas a mim mesmo no dia dos meus

1.

Descrê, meu amigo, dos rútilos usos
da palavra poesia — o animal
que lavra em ti move-se nos esconsos
lugares de penumbra,
afeito à íngreme maturação da fala.

O que perdeste, e agora recordas,
te seja doce precipício,
longe da comum expectativa
e seu eco mil vezes repetido.

Duvida do lugar que dizem
pertencer-te — perdidas pátrias
jamais havidas, a sombra do que
amaste ressumando em cada verso,
são a inóspita morada que te não protege
do naufrágio em estranhos portos e fronteiras.

Aí saberás que a dor é sem partilha,
e o cautério da luz requer essa íntima
cegueira que nenhuma alba fende
com o latido dos deuses diurnos.

A imperfeita medida destes versos,
seu ritmo sobressaltado, te ensinem
que a ignorância do que mais amas
é a razão desta arte de perder-se.


2.

Que razões sustentam o voo de um sino
declamando « a equação celeste do destino»?
Raros os dias em que a sina escura
não grafa nas veias uma lei mais dura.

Mas faz da tua vida uma arte de recusa:
da pátria, em que célere te amortalham,
tu que só nos versos os sinais que salvam
vislumbraste ( aos ór
fãos da antiga musa,

confortará qualquer placebo edulcorado);
da fama, que é a subtil cília com que
tentam domar teu verbo escuro. Giza

com a tua fala o incomum destino anunciado
nos levantinos portos de embarque — a vida
é o que desborda deste molde de decalque.



José Luis Tavares

domingo, 8 de junho de 2008

Retour




A gana e a sana dos momentos

Há uma semana, estava mais taciturno e estranho a cogitar sobre o papel do esquecimento, descrito por Kundera, e o da amnésia, estruturado por Freud. O que nos salva depois de um trauma é a memória selectiva e vi-o agora, longe de tudo e de todos. A de alinharmos, para o nosso próprio bem, a via da sublimação e não da depressão. O “dar a volta por cima” ou, qual Fénix, o renascer das cinzas tem a ver com a nossa atitude existencial de encarar os desafios que nem sempre são fáceis de vencer, mas importantes de enfrentar. Uma semana depois, estando na beirada do rio Tejo num solilóquio mais que necessário, sinto roçar nos meus ombros a fímbria ancestral do dilema camoniano – a gana de Vasco da Gama e a sana do Velho de Restelo. É preciso continuar a navegar!


Coisas de Airton Monte

O poeta brasileiro Adriano Espínola escreveria assim: "A minha pátria é o meu corpo, pulsando por entre porradas e carinhos quotidianos, palco carnal do sentido e do desejo, repartido entre vísceras e sonhos, sedento do agora e faminto do mundo, navegante à deriva do possível e do precário". Lembranças do meu confrade, Airton Monte, em Fortaleza. Ele sempre a precisar que a vida, sem poesia, é que nem baião de dois sem feijão, nem arroz…

Futebol

Assisti, com drama e sofreguidão, pela Sport TV 1, o jogo entre Portugal e a Turquia. Igualmente, estava antenado, através da RCV, ao Estádio da Várzea, onde Cabo Verde defrontava a Tanzânia. Não perco esperanças de permanecer na Copa Africana das Nações, nem perco fé de ir longe no UEFA Euro 2008. Em verdade, Cabo Verde vence por 1-0 e Portugal por 2-0. Fico contente. Em júbilo. E estranha-me este súbito entusiasmo pelo futebol e este sentimento de proximidade (e de alinhamento) entre Cabo Verde e Portugal, outrora adormecido, mas que lateja ora em mim…com drama e sofreguidão.

Dia de Portugal

O Centro Cultural Português da Praia, uma vez mais, nos brilha com uma iniciativa de altíssima qualidade. Maria João e Mário Peixote, no Auditório da Assembleia Nacional, para um espectáculo intitulado “Pele”, no âmbito do Dia 10 de Junho – data nacional portuguesa e das comunidades da língua portuguesa. Com letras de Tiago Torres da Silva, Eugénia de Vasconcellos e do próprio José Peixoto, os dois protagonistas não fazem vénias apenas ao jazz e à música portuguesa, mas vagueiam pela música planetária onde as fronteiras se esbatem e os homens se abraçam. Em "Pele", eles nos dizem que a Terra afinal é pequena, mas que o mundo continua (ainda bem) vasto e diverso.

Cahier d’ un retour au pays natal

Nunca se vem tarde à homenagem a um poeta maior. Hoje, domingo aparentemente tranquilo (os tubarões estarão adormecidos ainda?), vou à estante e retiro algumas obras de Aimé Cesaire. Que grande poeta! Que grande humanista. Que grande combatente: Pois então, palavras, mas palavras de sangue fresco, palavras que são maremotos e erisipelas e paludismos e lavas e fogos dos matos, e o chamuscar da carne e o flamejar da cidade. Fixai bem: Não jogo nunca se não for ao ano mil Não jogo nunca se não for ao Grande Terror Ficai à vontade comigo. Eu não o ficarei convosco…

quinta-feira, 5 de junho de 2008


Mooding




River: The Joni Letters


Tenho um gosto musical eclético. O meu gosto estético não se confina ao instituido pelos nossos deuses descalços. Muito menos aos pequenos deuses das tascas do planeta. Era o que me faltava. Orlando Pantera, de Lapidu na Bo, faz tanto sentido quanto Joni Mitchell, de Court and Spark. A proposito, e para a ultima profecia, quria que ouvissem °River: The Joni Letters”, de Herbie Hancock...


Lokua


Aplaudo as nossas musas hesperitanas – Mayra Andrade, Sara Tavares, Lura, Nancy Vieira e Isa Pereira. Passo a acreditar em Xangô diante dos espectaculos de Mario Lucio, Tcheka Andrade, Paulino Vieira e Ramiro Mendes. A voz de Ildo Lobo é tudo. Quase tudo. Queria dançar como Mano Preto ao ouvir as melodias da bacia do Rio Congo. As melodias de Lokua Kanza...


Tu me fais bobo, Filas


No Aeroporto Internacional Leopold Sedar Senghor, depois de percorrer a estrada de Dakar a Yoff, dou de caras com Salif Keita. Tempo apenas para correr ao Free Shop e comprar o album “Bobo”. Keita não resiste em me dar um autografo, quando me escuta em “Chérie tu me fais bobo, bobo, bobo duma gné”. Em Cabo Verde, ja haviamos descoberto que Salif era a inversão de Filas, tua senha. Tu me fais bobo...

Lusotopia


Navegar é preciso

Lisboa, diferente de outras capitais europeias, é clara e brilhante, amanhecida mais cedo para o meu contentamento. Cruzo com pessoas que não conheço, mas que, pelo semblante familiar, me remetem a Cabo Verde. Falar em português, sem esconder este primado crioulo que me anima, é fazer parte de uma grande nação. A lusofonia, com a inclusão da nossa diversidade, é uma realidade com sentido. Pena que os homens, nos seus desvios, se esqueçam que navegar é preciso...

Here and now

É tradição o Carnaval Jamaicano. Até os bazares hindus e persas vendem bandeiras com o Leão de Judá. Aparece à janela um nigeriano, albino que nem Salif Keita. “É tudo à Portobello Road”, diz-me um parceiro angolano, habituado ao lugar, como poucos. Os haitianos preferem “compass” e eu, marciano neste planeta, julgava ouvir “zouk”. Gilberto Gil, em “Here and Now”, a cantar assim:


Here and now, I guess I know how
Remote and secret that could be
The time when a man can lay down
And the place where he can run free


Dia Mundial do Ambiente

Celebra-se hoje o Dia Mundial do Ambiente. O planeta não está no melhor caminho e os humanos também não parecem estar a fazer deste um mundo melhor. Não basta o discurso da beleza, nem mesmo o do bem, ou mesmo o da inocência, ou o do romantismo. Em verdade, falta algo às acções dos governos, dos partidos politicos, dos empresários, das ONGs e dos professores. Falta um grande engajamento a tudo...de todos.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O vagar dos dias


MITO
O VAGAR DOS DIAS SEM MADRUGADA.
ÓLEO E ACRÍLICO SOBRE TELA.100X80
CM. 1994.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Meio Zen






Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão



Carlos Drummond de Andrade




Ecce Homo


Um crucifixo a desfazer-se, quando não se tornando pó, era a imagem de Cristo lá em casa. Uma tia-avó, metamorfoseando-se em « dona da casa » com a trombose da irmã, impressionava-nos com um inferno contado em detalhes. Ela caprichava no Lucifer, o mais incendiado dos capetas, com gestos de pelo sinal da cruz e credos na boca. E Cristo continuava ali : pungido, tomado de chagas, com uma resina vermelha que, a malta jurava, era sangue de verdade. Até hoje, águas passadas sob essa ponte das trevas, ainda retenho na memória esse crucifixo a desfazer-se…


Checking-up


Vou ao médico para um check-up e somos mais frágeis que as baratas, as minhocas e as lagartixas. Os passarinhos no varão e o cãozinho do Pablo não precisam dos versos de Jorge Luis Borges, do peixe frito com arroz de fava, da música de Ray Charles, da Constituição Nacional, do Código Eleitoral, das velas aromáticas na sala, de Jesus Cristo e de Buda ou de almejar a nomeação de Barak Obama, essas coisas. Chego à conclusao que é preciso mudar. Entrar em regime : o ferro, o potássio e a vitamina C. Beber dois litros e meio de água (a ver se damos cabo de uma pedra nos rins). Reduzir o sal aos limites da nossa Zona Económica Exclusiva e cortar as relações diplomáticas com o Johnnie Walker Black Label. Mas isso nao incluirá o bom tinto. Alá é grande…


Para morrer de rir


Encontro-me acidentalmente, no rush da Av. Cidade de Lisboa, com uma leitora: Tu não és o Filintro Martins? - pergunta a dita cuja. Ciente de ser Filinto Elisio de Aguiar Cardoso Correia e Silva, nome de pia e de registo, não me faço rogado ante à confusão. Prazer em conhecer-te, continua a minha interlocutora, sem papas na língua: Estou farta de coisas escalafabéticas: assaltos thugs jorge santos josé maria neves descalabros da TACV apagões na Praia. E remata: Quero que fiques sempre a escrever assim, é que tu me matas de rir todas as quintas-feiras…


Benquerença


Talvez, devido à benquerença, hoje, acordei assim: segue o teu destino, rega as tuas plantas e ama as tuas rosas. É que estou meio (apenas meio, não abusem)…Zen !

sábado, 31 de maio de 2008

Li cores e ad vinhos




Dados lançados



Vieram as eleições. E os dados são claros: o PAICV não tem hoje as praças autárquicas mais urbanas de Cabo Verde. Praia, São Vicente, Santa Catarina e Sal estão doravante sob a gestão municipal do MPD. Este partido, para além do Sal, tem também Boavista e Maio, ilhas consideradas "turísticas". Os dados, ora lançados, servirão para uma análise profunda e responsável da situação. Nem tudo o vento levou...




Poesia




Terminei mais um livro de poemas. Poemas ilustrados com fotografias de Omar Camilo. Ou vice-versa. São versos de meia-idade, com o pêndulo ora pela fogacidade, ora pela sagacidade. Cumprindo o preceito de João Cabral de Melo Neto, Mestre da Poesis, em que o fonema não derrama seu poema. O título: "Li cores e ad vinhos"...




Espectáculo do mundo




Sábio era Alberto Caeiro, apaziguado com o espectáculo do mundo. Cuidando dos seus rebanhos, ele fazia-se de bom pastor. Por vezes, é mesmo assim: fechar os olhos e deixar as coisas andarem. A apatia. A quase indiferença. Outras vezes, é nada disso: descer na arena e pegar a fera pelos chifres numa luta sem fim. A intervenção. O alinhamento às causas e às coisas. Sermos actores desse espectáculo do mundo. Ganhar e perder os dias, fodam-se, Deixar os livros de Caeiro na estante da sala...


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Meta tempo




Tempo

Chove. Fria e mansamente. Com algum remanso. Com nuvens baixas e plantas bafejadas pela neblina.

O rio. O rio quase perto. O rumorejo do rio. E o ciciar de uma ave.

Avezinha di rapina, branka ki tem...London Mood.

Em Lisboa, "o pessoal declama poesia cabo-verdiana".

This mascarade.

Neve na alma. Neve aquecida de branco. Alvura.

Tempo. Palavras soltas, soltas, soltas...Le neant, porra.

Blank. Blind. Wild...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Por ora

O meu velho faz anos
Tenho com o meu pai uma estranha relação de amizade e cumplicidade. Deixámos cair, há muito, o Muro de Berlim da idade. Falamos da arte, da ciência e da filosofia. Da cidade da Praia, que é onde gostamos e escolhemos viver. De Cabo Verde, que é nossa causa comum. Apesar de ser avô dos meus filhos, tenho por ele essa entrega de melhor amigo. A eternidade? Já não temos idade para nela pensamos. E o velho faz 79 anos, bem contados. É apenas e tão só uma nota pessoal, se me é permitido amar alguém…
Nossos jovens/adolescentes
Ainda há dias, eram frágeis criaturas e o tempo passou num ai. Hoje, saídas da moldura da infância, já não querem comer as refeições à mesa e passam boa parte das horas no telemóvel. Nem ficam felizes com os grandes almoços de família. Tão pouco somos os heróis do pessoal, já que nem somos tão digitais assim. Distanciaram-se daqueles que não sabem a criptografia do MSN e perderam o compasso do hip-hop. Começaram a namorar e não dão tréguas aos que amaram a seu tempo. São egoístas e parecem querer partir a cada amuo. Angustiam um bocado, mas gostamos deles. Continuam a ser a melhor parte de nós. São os nossos jovens/adolescentes…
O Bicho
Na semana passada, escrevi sobre a escassez do arroz. A situação é gravosa e desumana. Está aí um problema sério (e cada vez mais real) dos Direitos Humanos. Conduzindo do Palmarejo para o Plateau, vi a cena chocante. Não era esse poema de Manuel Bandeira, referenciado há dias numa crónica de Airton Monte. Era um homem no contentor do lixo. Absolutamente, um homem. E, já agora, tomem lá os versos de Manuel Bandeira: Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio/ catando comida entre os detritos/ o bicho não era um cão/ não era um gato/ não era um rato/ o bicho, meu Deus, era um homem.
Nobreza de ser
Acompanho, com interesse, a campanha autárquica. É importante que Cabo Verde saia sempre a ganhar, sublimando as eventuais crispações e os evidentes exageros. O pessoal precisa de alguma contenção verbal. Dizer tudo com modos. Ir mais no modo que na moda. Será a maledicência, tão vil quão habitual ultimamente, a única forma de fazer política? Em verdade, a política é ciência nobre e não esse território da canalha. Os cidadãos querem civismo e elegância como direito. A democracia não é o "laissez-faire" da maioria e da minoria, mas o ditame da cidadania. Talvez pareçam estas palavras exageradas para algum "deus das esquinas". É que importa exagerar na nobreza de ser…
Superfícies
Criativa e de bom gosto a exposição "Superfícies", de Omar Camilo, no Centro Cultural Português. Igualmente, interessante a exposição fotográfica do inquieto Baluca Brazão, no Centro Cultural Francês. Estas e outras iniciativas levantam um grande questionamento: não chegou a hora de uma grande galeria de arte na Cidade da Praia? Nem precisam responder. A hora é agora!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Arroz


"E não adianta buscar esse caminho nos outros e nas coisas, pois a porta de acesso somente pode ser aberta por nós e por dentro. Cabe-nos simplesmente destrAlinhar à direitaavá-la, mas se estiver emperrada, o jeito é arrombá-la".
Aufifax Rios
Vianda básica
Leio, na revista Correio Internacional, um gravoso artigo sobre a eleição de Sílvio Berlusconi, algo que não me move como a escassez do arroz, e vejo que o mundo, para lá do triunfalismo globalitário, não passa de uma grande violência estrutural. Há uma clara eclipse da razão e da justiça. Os cosmocratas falam em crise do arroz. O Império da Vergonha prefere colocar os alimentos nos carros que nas bocas das crianças do mundo. Anda tudo ligado. E que não venham os nossos sabichões, armados em trepadores de coqueiro, fazer a defesa do indefensável. Parem a grande treta. Sem o arroz, vianda básica da nossa gente, a democracia resta empobrecida e inoperante…
Viciado em arroz
Em verdade, sou um viciado por arroz. Todos os meus pratos preferidos são acompanhados de arroz. Aproveito a oportunidade para esta nota pessoal, com devido respeito aos aficionados da alta cozinha (ou da "nova cozinha", como insiste o meu sócio e amigo Carlos Hamelberg), mas os meus predilectos são peixe frito com molho escabeche e arroz pintado, arroz de pato à Dona Mindoca, arroz de atum (atum de conserva cabo-verdiana!) e canja de galinha (com arroz "tupatupa"). Isto, para não vos falar do bolo de arroz e do arroz doce. Acompanhante dilecto e recorrente, expresso aqui a minha preocupação face à propalada crise do arroz. Vendo a geopolítica e esta insanidade dos especuladores de tudo, apetece-me dar viva ao arroz nosso de cada dia e um retumbante abaixo a cosmocracia que não interessa ao Planeta…
Agora falando a sério
Durante anos o Banco Mundial e o FMI disseram que um mercado liberalizado proporcionaria o sistema mais eficiente para produzir e distribuir alimentos, mas hoje os países mais pobres são forçados a uma intensa guerra de competição contra especuladores e comerciantes. Hedge Funds e outros capitais errantes estão a despejar milhares de milhões de dólares em commodities que fogem dos mercados de acções, colocando os stocks de alimentos fora do alcance das pessoas pobres. Segundo estimativas, os fundos de investimento agora controlam 50-60% do cereal comercializado nos maiores mercados de commodities do mundo. Calcula-se que a quantia de dinheiro especulativo em commodities futuras – mercados em que os investidores não compram ou vendem uma commodity física, como arroz ou trigo, mas meramente apostam sobre movimentos de preços – inchou de US$5 mil milhões em 2000 para US$175 mil milhões em 2007. A situação é indefensável. Um crime à escala mundial. Olhe-se para o Haiti, por exemplo. Poucas décadas atrás era auto-suficiente em arroz. Mas um pacote de 1994 do FMI, forçaram-no a liberalizar o seu mercado. O arroz barato inundou-o a partir dos Estados Unidos e a produção local foi arrasada.
Meio vegetativo
De repente, carro parado no meio do engarrafamento, sentiu-se completamente só. O mundo como um enorme armazém vazio de arroz. O turbilhão das pessoas à sua volta parecia nada. Ele já não tinha reunião marcada, nem criança ruidosa em casa. Agnóstico, não cometeu o pecado de ir ao confessionário e, nesta cidade, não era hábito ter psicólogo de serviço. Nenhuma rosa digital, nem mesmo um flirt virtual pela Internet. Deixou a meio um livro sobre Barak Obama e a cidade não tinha cinema. Olhou para a baía e percebeu que não era feia a paisagem, mas não se emocionou com o crepúsculo. Nem mesmo ouviu, à primeira, o buzinão dos carros atrás de si. "O senhor anda a dormir ao volante ou quê, seu vegetal", gritou-lhe um taxista sem consciência deste mundo sem arroz…

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Trumpet


Todo de seu tudo

Dos versos meus, neste e noutro fala-se da morte.
O resto, do consorte, é todo ele sem cabresto
Transversas, em pinote, pedras e pedras, a teta
E o desferrar, quase proxeneta, do bebé-proveta…

Quando assim instaura o poema ou fonema
Por sorte, no meio da tecedura, tecem e fenecem
A textura e o miolo da palavra, a chula e a gula
Do Poeta, louco e de pouco prumo, filho-da-puta…

Reversos teus, lado outro de mim, enfim à solta
Ajuíza e giza o encontro das sílabas, ora pervertidas,
Ora invertidas, soletrando antídotos do coração…

Como estilete no pulmão, lâmina nesses olhos,
Como veneno, às vezes para o doce, tipo fruta,
Poeta que desfruta, do Paraíso todo de seu tudo…

Filinto Elísio

Nos lingua, nos kultura!




The Capeverdean Creole Institute will be most grateful for your presence at this event. Nos lingua, nos kultura!



Friday, April 25, 2008 - 1:00pm-6:00pm - Brockton, MA
Location - Massasoit Community CollegeStudent Center - Upper Lounge (next to the Library)One Massasoit Boulevard, Brockton, Massachusetts 02302

For directions visit: http://www.massasoit.mass.edu/


1:00pm - Book Fair Opens4:00-6:00pm - ALUPEC workshop6:00pm - Book Fair Closes


Saturday, April 26, 2008 - 1:00pm-7:00pm - Fall River, MA
Location - Bristol Community CollegeCommonwealth College Center - Atrium and Faculty Staff Lounge (Parking Lot 12)777 Elsbree Street, Fall River, Massachusetts 02720


1:00pm - Book Fair Opens2:00-2:15pm - Welcome RemarksJohn Sbrega, President of Bristol Community CollegeJoanne Preston, Dean of Humanities and EducationJosé Costa, Director of LusoCentro2:

15-2:30pm - Remarks about Conference and the Book FairCarlos Almeida, Assistant Director of LusoCentroManuel Gonçalves, President of Cape Verdean Creole Institute (CCI)Joaquim Morais, Director of the Institute of National Library & of Book

2:30-4:30pm - Panel about the Construction of National IdentityNezi Brito- member of CCI (moderator)Manuel Brito-Semedo - (in the perspective of the book: A Construção da Identidade Nacional- Análise da imprensa entre 1877 e 1975)Fátima Bettencourt - (representation of national identity in the memory of immigrants based on the book Mar - caminho adubado de esperança)Adelaide Monteiro - (national language - linguistic policy as an instrument of preservation and promotion of one of the main elements of national identity)

4:30-5:00pm - Book Signing

5:00-7:00pm - Reception, with traditional Capeverdean musicpoetry readings by Daniel Spínola, Rosendo Brito, and Vasco Pires

7:00pm - Book Fair Closes


Sunday, April 27, 2008 - 11:00am-5:00pm - Dorchester, MA
Location - Catholic Charities of Greater Boston/Teen Center at Saint Peter's Church284 Bowdoin Street, Dorchester, MA 02122
11:00am - Book Fair Opens1:00pm - Dance performance by CV St. Peter's Center and music by Djamila Cardoso and Mizael Ribeiro, Burke High School

1:15pm - Poetry reading by Cape Verdean American poet, Jarita Davis

1:30pm - Celebration of Cape Verdean Poet, Pedro CardosoManuel da Luz Goncalves, President of Capeverdean Creole Institute Maria De Jesus Mascarenhas, Consul General of Cape Verde, Boston Joaquim Morais, Director of National Library, Cape VerdeManuel Veiga, Minister of Culture, Cape VerdeCarla Martin, Graduate Student, Harvard UniversityManuel Brito-Semedo, Author and Professor, Cape Verde3:00pm - Talulu and Band performance

4:00pm - Nenas and Band performance

5:00pm - Book Fair Closes


Capeverdean Creole Institute Contact Information


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Diatância de Todas as Coisas




Do paraíso
Foi o homem expulso
Banido e expulso
Banido e expulso
Mas homem.
Valentinous VelhinhoIn “Tenho o infinito trancado em casa”


Poeta

Vejo raramente o poeta Valentinous Velhinho, amigo de infância e da adolescência. As nossas vidas parecem paralelas e tendem a encontrar-se no infinito. De quando em vez, temos furtivos e rápidos encontros e aproveitamo-los para falar das coisas que nos comovem: palavras nossas e a dos outros. Metáforas que enroupam as palavras. Ambos amávamos eternamente as nossas mães e perdemo-las na espuma dos dias. Em boa verdade, viemos órfãos para esta vida quando soubemos, desde o início, que as nossas mães também haviam de partir. E, quebrando esta rotina, diria até esta ausência instituída pelo Destino, vou visitar o Poeta em sua casa. Supõe-se ter ele ali o infinito trancado.

Cartoon Network

O primeiro canal dava uma manifestação no Tibete. O segundo, qual Casimiro de Pina (meu amigo), discorria sobre Robert Mugabe. O terceiro insistia que o Irão estava a enriquecer o urânio. Já no décimo, Barak Obama e Hilary Clinton discutiam a retirada (ou não, imaginem) do Iraque. Creio ser no 14º, pois já perdera a conta, a vergonhosa fome em Darfur. Às tantas, impróprios para quem ama a poesia e desaconselháveis para o Pablo ao meu lado, rendo-me à lógica de assistirmos aos bonecos animados…

Omar Camilo e a plástica

Há dias, lendo o Blog de um amigo, deparei-me com a lista dos artistas plásticos cabo-verdianos. Ali estavam, segundo o critério do Bloguista, dos modernos aos pós-modernos. Vinham até os que, por razões não muito claras, ficavam fora da lista. Em verdade, uma vez mais, o poder do discurso torna-se um discurso do poder e, como tal, esboça o seu arquétipo e aparato. Convido o pessoal a visitar o cubano-caboverdiano Omar Oliveira e pousar um olhar sobre as suas telas plásticas. Ouso dizer (sem pretensões de dono da verdade) que ali, nesse ateliê / apartamento, se esboça o melhor da plástica contemporânea.

Dor de uma simples rosa

Segundo Eça de Queiroz, a morte de milhares de chineses, na longínqua China, era apenas um dado estatístico. Se o vizinho da esquina quebrasse a perna, tal tragédia nos seria mais relevante. Entretanto, não deixo de ficar preocupado com o que se passa no Tibete. Não para fazer alguma consideração atrevida e inoportuna, muitas vezes a servicinho alheio, mas porque o canal um apresenta uns olhos tão próximos de um tibetano perseguido. Nem estou a pensar na Globalização, mas na Humanidade, esta coisa que nos atravessa, em profundidade, e nos faz sentir a dor de uma simples rosa.

Distância de Todas as Coisas

Recebi, quando saía para o Aeroporto Internacional Pinto Martins, de Fortaleza, o livro “Democracia e Constituição – Estudos”, uma homenagem de vários constitucionalistas ao Professor e Poeta Dimas Macedo. Agradeço ao Professor Edmilson Barbosa a amabilidade da oferta e, com emoção, agradeço a Deus pela amizade com o Poeta da “Distância de Todas as Coisas”.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Nhô Mulato - kudi baxon


Vamos fincar o Mastro no coração de Cabo Verde, porque morreu, aos 98 anos, Francisco Fontes, conhecido por Nhô Mulato. Absortos todos no desenfreio de um crescimento económico e de uma política de circunstância, nem todos fomos – as autoridades, as personalidades e as entidades culturais, por exemplo, lá não estavam – a acompanhar o decano das Bandeiras de Cabo Verde à sua última morada. Mas estavam presentes os populares, em lágrimas e alvíssaras, com tambores e bandeiras sobretudo – kanizados das horas substantivas –, a prestarem homenagem a Nhô Mulato.

Com uma longevidade dedicada à Banderona, manifestação cultural dos devotos a São João Baptista, que se realiza anualmente em Campanas, entre os meses de Janeiro e Fevereiro, Nhô Mulato, fora o Kordidjêro, figura com o supremo poder de orquestrar e de dirigir os 24 dias de festa rixa e desabrida, considerada por muitos como a maior e a mais ancestral de Cabo Verde.

Envolvendo uma estrutura complexa, a Banderona, como todas as Bandeiras da Ilha do Fogo, tem os seus arreias e as suas romarias, umas sagradas, outras profanas, mas todas de profundo sincretismo, onde os populares dão largas aos seus sentimentos de devoção e à memória histórica.

Os juízes, os padrinhos, os tamboreiros, os kanizados, os coladores e as coladeras, as cozinheiras, os ladrões, os escravos, os santos e os demónios, bem como os entes vivos e mortos, todos os imprescindíveis do arquétipo e do conteúdo da sociedade de Campanas, choram a partida de Nhô Mulato e festejam a continuidade da Bandeira de São João Baptista, já que a morte é apenas uma etapa da vida, senão mesmo sua continuidade.

O que envolve a Banderona vem do antanho e tem a ver com a nossa espiritualidade. Não valerá a pena seguirmos a estrada dos novos dias, se deixarmos pela caminhada a nossa alma ancestral e o nosso sentido primordial.

Vamos parar tudo, mas tudo, nessa hora grave e ouçamos a voz dos cantores e o rufar dos tambores (todos os tambores de Cabo Verde afinal). Mulato morreu. Estremeça o mundo, como diz a lenda, à procura dos três meninos e os sons do fim do mundo. Venham chuva, raio e trovão. Venham todos. Hora grave. Di kudi baxon. Vamos fincar o Mastro no coração de Cabo Verde!

terça-feira, 25 de março de 2008

NOSSO VERSO

Dos esquecidos versos meus, apenas um,
Pairando sobre as aguardentes, guarda
As margens do que vamos sendo e solta,
No baú dos segredos, nosso reverso…

Tais palavras, como que a desejarem
Metáforas e seus caminhos transviados,
Têm o dom de cantiga, melodioso no travo
E melaço esta pura nuvem de lua em festa…

Fossem, tão confeitos de broa e vinho,
Todo o visco que teu azeite determina,
Quão na carne nua de alhos e pimentos…

Esse haver boca à fome, de encorpado molho,
Que do aipo se suspeita todo o sal-gema,
E em gosto se atreita música o nosso verso…


FILINTO ELÍSIO

PA MUDJERIS KABUVERDIANA

N kre-bu txeu
oh nha dona
mai
irma
spoza
i tudu otu nhas
di sangi o kultura !
N kre-bu txeu
palavras di nhos garganta
ku signifikadu arku-da-bedja
ki ekua na nha kurason
pa txiga di nhos
na konpasu konbersu sabi
na ragas des alfabetu
eransa António de Paula Brito
Nhos e fonti
di nha bida
farol
di nha kaminhu
stimulu
pa nhas luta
lus
di nhas alegria
mas sobritudu
kolegas di trinxera
kunpanheras pa tudu sabura
Nha kurason ta sangra
ku kada dizaforu
izalta
ku kada konkista
pabia tudu nhas
ten ponta nhas
di sangi i papel pasadu
Oh, sin!
ki kes konkista bira digraus
firmi sima rotxa
pa labanta grau
di nos sabura
es e nhas votu
Pa konfins di tenpu
na nha kurason
un roza
na nha mon
un foisi
na nha obra
solidariedadi
na nha pena
N kre-bu txeu


Marsu 2008
Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera

quinta-feira, 20 de março de 2008

For all means

Reafirmo, perante os navegadores, sobretudo perante os mais “sensíveis”, a minha sintonia e a minha convergência em relação a 90% do que tem escrito Abraão Vicente. Reafirmo também, perante todos, os 10% de opinião contrária. Apontei, com ternura e frontalidade, tais opiniões, sem nenhuma pretensão de ser dono de razão alguma. Aliás, ninguém o é. Quanto a Mindelo, cidade linda e simpática, não a considero tão cosmopolita como a Praia neste momento. Isto dito, sem nenhuma conotação bairrista, nem intenção malévola. Não comungando de teses deterministas, baseadas em vocações e predisposições, mormente aquelas dos rincões, defendo – for all means, como diria Malcom X – um Cabo Verde sempre plural, indivisível e harmonioso. Mas vamos ao “180º “, que de Abraão Vicente sou fã (in) condicional, muito mais neste programa do que naquele “Cabo Verde Nha Cretcheu”…
Nota: O "Ala Marginal" alista-se margosa e claramente no BLOG DAKEL BOM...

terça-feira, 18 de março de 2008

Eterna beleza

Leio, sempre com muito agrado, o Blog de Abraão Vicente. O “Ala Marginal”. Geralmente, comungo das suas inquietações e delicio-me com as suas palavras. São desempoeirados e desassombrados os textos de Vicente. Direi o mesmo das suas fotografias e das suas telas. Soltas, soltíssimas da silva. É claro nem tudo que nele reluz para mim é ouro. Desmereceu o álbum de Nancy Vieira e eu adorei o “Lus”. Desancou em Manuel Veiga de forma desproporcionada e eu deplorei esse excesso de razão. Escreveu que Mindelo era cidade mais cosmopolita de Cabo Verde e achei que ele não olhou bem a “movida” da Nova Praia. Escrevo tudo isso para felicitá-lo pelo Programa 180º, na Televisão de Cabo Verde. Espaço de variedade e de faits-divers, de elevada qualidade. Dito isto, discordo, uma vez mais, com o nascimento do fim da beleza. É que, apesar da fugacidade desta tese, beleza tende a ser eterna…