terça-feira, 8 de maio de 2007

9 de Maio de 2007


Bordel
Carybé
Relatório

Encontro marcado com o meu orientador para a entrega do relatório sobre a evolução do trabalho científico - o que terei feito em Maio? -, sobre “As relações Cabo Verde – Ceará”, tese escolhida para dar corpo a um Mestrado de Administração de Empresas. O capítulo sobre o Comércio Informal, o sector afinal mais dinâmico destas relações, tem informações surpreendentes. Os “Rabidantes” fazem circular 15 milhões de dólares americanos em volume de negócios, em 2008, contra 7 milhões de dólares americanos, do sector formal, no mesmo período. Os dados falam por si…

TV UNIFOR

Ficou para as 15H30, a entrevista à TV UNIFOR, sobre os intercâmbios universitários. Serei abordado sobre as relações com Cabo Verde, a incidir no processo selectivo da UNIFOR, em Cabo Verde. Falando nisso, a UNIFOR estará a fazer o Vestibular para o próximo semestre, na cidade da Praia, a 8 de Julho de 2007. São 175 vagas abertas. É aproveitar a oportunidade, minha gente…

Academia Cearense de Letras

A fechar o dia, faço uma conferência sobre o modernismo na literatura cabo-verdiana, na Academia Cearense de Letras, a mais secular do Brasil. Ocasião para ver bons amigos que, apesar de “imortais”, apreciam caudalosas cavaqueiras. Ademais, o frescor do Ideal Clube presta-se a isso. Intenso convívio cultural. Às vezes, falta à cidade da Praia…

Bordel hermético

Não me imaginaria em pândega hasta las ocho. Nem me queria à bífida língua de pseudo-intelectuais. Muito menos a galgar madrugadas com pacóvios e toupeiras. Era outra a imagem que fazia, sobretudo a que queria. Freud explica. A poesia morreu, num ano em que o melhor de mim também acabou. Dream is over. Por culpa minha, quem sabe…

Pronominais


'Abaporu'-1928
Tarsila de Amaral
óleo/tela 85 X 73cm
Assin.:"11-1-1928",
aniversário de Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro.

Oswald de Andrade


Mores mimos

Mulher na Rede
Carybé



Se vós víreis donzela que amimava
uma serpe cruel que a ofendia,
e que esta mais amava, e mais queria,
sem embargo do mal que lhe causava,
se vísseis que esta mesma a quem amava,
em pago deste amor a destruía,
e tanto com mor fúria a perseguia,
quanto com mores mimos a afagava,
não pasmáreis de ver que estava entregue
a […]
Baltazar Estaço

circum-lóquio

(pur troppo non allegro)
sobre o neoliberalismo
terceiro-mundista
laisser faire laisser passer


1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

2.
o neoliberal neolibera o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

3.
no céu neondo neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não- neoliberado
come pão com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidro
banheira cor
de âmbar
de sua neo-mansão em miami

4.
o centro e a direita
(des)
conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
de
de que circule
auto
regulante
o necessário
plus
valioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempre
mente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.

6.
(a
contra
mundo
o mundo-não-mundo cão-dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenoscidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)

7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blaudurando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitase estas sobre uma lata
de lixo)



Haroldo de Campos

Subi cuscus


MITO
Técnica mista sobre tela.
100x70 cm. 2006.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Praia, de madrugada



Praia, de madrugada, coando luz
E Madragoa, barras de amor,
A Voz da América, sacos de haxixe,
No giro nocturno da baía…

Híbridas mulheres, carros de luxo,
Cães vadios, pedintes, noctívagos,
A brisa bole, em jeito de pipa, és tu,
A capa avulsa de um Paris Match…

Também parecida contigo a noite,
O que sobra de haver constelação,
Para que a insónia se apazigúe…

Outra musa, nem por isso igual a ti,
A nua, de nudez assaz desvalida,
De como vai em lua, a tua máscara…


Filinto Elísio

Encontro


Soube que jamais virias ao nosso encontro,
Vaticínios e planos, a traça nos guardanapos,
Taças manchadas de vinho, côdeas de broa,
Rendez-vous, se desenhado, como desejado…

Virias, com os teus labirintos acesos, abismos
De queda demorada, vazios silenciosos, tomados
De tudo, pequenos ruídos, de atómicos rangeres,
Graves, aves, brisas, no hiato em que te revelarias…

Mãos de afagar, em melodia, trarias ao encontro,
O charco quente e o aconchego dos teus olhares,
A sina descrita, porem cifrada, das minhas viagens…

De tudo que ficou adiado – metáforas, sobretudo –,
Deixarei resguardar em suas loucas margens,
O mel da tua saudade, essa coisa toda liquefeita…

Filinto Elísio

domingo, 6 de maio de 2007

Dos meus confrades - alguns excertos

Trombeta envergonhada


Excerto de crítica literária do amigo Carlos Augusto Viana


(…) Em todas as épocas, as narrativas lendárias, alicerçadas em mitos, sempre exerceram um grande fascínio, uma vez que os homens buscam, de certa forma, encontrar no mito uma fonte de inspiração, quer para a criação de obras, quer para a compreensão do mundo e das coisas. O mito, como todo símbolo, é ambíguo. Assim, tanto se refere ao verdadeiro quanto ao falso, pois palmilha tanto os caminhos da fantasia quanto os da realidade. (…)


Trombeta Envergonhada, de Haim Nahman Bialik


Vládia Mourão e a Escritura do Tempo

Excerto de crítica literária do amigo Dimas Macedo


(…) Bem diverso do tempo objectivo, que a todos interessa de forma plural e indiscriminada, existe o tempo subjectivo que se aloja na base do espírito e que fascina, essencialmente, a todos os artistas e especialmente aos escritores de maior expressão e tirocínio. Se tomarmos o tempo do delírio imaginativo dos dois principais personagens do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, ou se apelarmos para o tempo circular que movimenta o fluxo da consciência (e da linguagem) de Leopoldo Blom, o célebre personagem de Ulisses, monumento supremo da literatura de Joyce, podemos observar o quanto o tempo, em sua dimensão subjectiva, é um aliado forte de todos os escritores engenhosos. (…)


Escritura do Tempo no Conto de Samuel Rawet, de Vládia Mourão

O que a eternidade ora me concede



Grutas, lapas e concavidades, esse escuro,
Esse estágio de contra-luz, lábios & gretas,
Presságios, loucuras, tantas elucubrações,
Excertos de nada, de tudo e de todos, em mim…

Lagos, lagoas e águas, barcos pelos espelhos,
Meus labirintos e rincões, recifes e outros mares,
As espumas que chalaçam natais, os reveillons
Do tremeluzir das velas frágeis – frias e frágeis…

Estatuas que não contam palavras e beijos,
Nem dizem ao crepúsculo vasto e violeta, o sol
A ser ali solfejo, aqui regaço, em todo o momento …

E o mais é molhares-me desse viscoso, o sereno
Serpentear das coisas em denodo, seres tu,
Fêmea fugaz, que a eternidade ora me concede…
Filinto Elísio

sábado, 5 de maio de 2007

Comentários


A pedido de muita gente (impressionante quantidade, note-se), abro espaço aos Comentários. Doravante, os Visitantes do ALBATROZBERDIANO podem e devem dizer algo sobre este Blog e sobre os seus Posts. Tenho recebido emails – de Cabo Verde à China, da Islândia à África do Sul, passando pela Suiça, EUA e Brasil –, a comentar sobre os meus textos que alguém, em elogio subconsciente quiçá, considerou herméticos. Reafirmo aqui continuar na mesma linha de conteúdo, fazendo, oportunamente, alterações na linha gráfica do Blog. Eu terei sempre Liberdade Total. Imponho, entretanto, aos comentaristas os limites da ética e da elegância. É o mínimo olímpico para se estar aqui, caros amigos.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Periódicos


Dos periódicos, sugiro aos amigos lerem revistas e jornais interessantes que douram as bancas deste planeta. A propósito, precisamos reclamar por bancas de periódicos na cidade da Praia. Ou livrarias híbridas, com cafés e restaurantes, além de salões de leitura. Tenho um projecto chamado Café com Letras, a ser implementado na Praia. É tudo que queria este bibliotecário e bibliófilo. Um pequeno espaço cultural. Mas falávamos dos periódicos…

Revistas

The New Yorker
Caros Amigos
Revista Colóquio Letras
Magazine Littéraire
Time Magazine


Jornais

Le Monde
El Pays
Folha de São Paulo
The New York Times
The Guardian


Super interessante – Diário do Nordeste – edição de Domingo.

Spider-Man 3


Leituras implacáveis


Dos livros que vou lendo – em alguns casos, relendo –, gostaria de os recomendar aos amigos. Estruturei-me para leituras implacáveis. A cada mês, uma média de 4 livros. Às vezes, leio seis. Outras vezes, só dois. O importante é ler coisa boa, algo que acrescente luz às réstias de trevas que levamos na vida. Neste Maio, a calha está cheia – todos livros já lidos, algures.

Ficções, de Jorge Luís Borges
Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir
Os Búfalos do Campanário, de Audifax Rios

Bónus track – A Viúva Virgem, de António Ludgero Correia
Nota - Este livro de António Ludgero Correia será publicado em breve e serei eu o apresentador. Por isso, a leitura será diagonal, cruzada e redonda. Exigindo uma intro-visão do texto. o intro-texto, diria...

Bienvenue au Salon du livre 2007


Grande exposition
Lever de rideau sur Fernand Léger
(plus…—>)
Hôte d'honneur
La Russie
(plus…—>)
Expositions spéciales —>
Nicolas Bouvier, de l’Afghanistan au Japon
(plus…—>)
Hergé, à l’occasion du centenaire de sa naissance
(plus…—>)
Alice aux pays des merveilles
(plus…—>)
Cahiers dessinés de Buchet-Chastel
(plus…—>)
L’affiche polonaise
(plus…—>)
Marionnettes, Frédérique Santal
(plus…—>)
Habiter la lecture
(plus…—>)
Swiss Press Photo 2006
(plus…—>)
Espace voyages culturels
(plus…—>)
Evénements et animations —>
Slam Poésie
(plus…—>)
Espace Poésie
(plus…—>)
Cercle de la Librairie et de l’Edition Genève
(plus…—>)
La Passerelle des mots
(plus…—>)
La Chasse au trésor
(plus…—>)
L'action Don du livre
(plus…—>)
La Bataille des livres
(plus…—>)
Chouette espace – Le P’tit littéraire
(plus…—>)
Le Village alternatif
(plus…—>)
ADM, Atelier des médias
(plus…—>)
CAC Voltaire
(plus…—>)
Prix des auditeurs RSR
(plus…—>)
Prix TSR
(plus…—>)
Prix Chronos
(plus…—>)
Prix Enfantaisie
(plus…—>)
Prix FNAC
(plus…—>)
Lire et faire lire
(plus…—>)
Championnat suisse d’orthographe
(plus…—>)
Halte-garderie
(plus…—>)
Débats, conférences, lecture(s) sur la scène du Café littéraire
Innombrables signatures et dédicaces
4e Salon africain du livre, de la presse et de la culture —>
Les salons parallèles
Japan Manga Festival
Salon de l'étudiantSwissUp! L’Hebdo
Europ’ARTFoire internationale d’art

Os bens dos naufragantes


Dedicado a Fernando Hamilton (MITO) Elias,
pelo grafismo poético

Regresso

O avião da TACV fazia a aproximação para o Aeroporto Internacional Pinto Martins e, da escotilha, eu perscrutava a luzes da cidade. Fortaleza, a Bela. Há quase um mês fora de casa, sinto falta do meu travesseiro, do meu computador, da minha janela em 10º andar e dos transeuntes pela Avenida Beira-Mar. Sinto falta de mim, em Fortaleza. Do frenesim académico, das tertúlias no Clube do Bode e da minha solidão reconfortante…O poeta está na encruzilhada existencial. De um lado, intenso e produtivo. Doutro lado, apático e triste. Como se tivessem jogado uma névoa na sua vista ou deixasse entrar frieira no coração. Bato com a mão na madeira, mas o agoiro é mau - esse veículo negro a rodar pelas madrugadas, para a pândega dos seus detractores. Estes, campeões da vilania, incapazes de glória e graça. E declamam, vociferantes adorações, os cáusticos versos de Arménio Vieira. Helena, minha cabra e etc…

Os bens dos naufragantes

Ao sair do avião, lá estás tu a pensar em mim. Telepatia, Panterinha. Com muito prudente zelo, como diria Padre António Vieira. Ter-te-ei decepcionado às vezes. Mas julgo ter-te encantado mais vezes. A preposição de fé e de amor que me dedicas. Semeadora que deitas ao meu coração o trigo das paixões. E no pretório de Pilatos, afastas de mim o cálice envenenado. O quanto te devo por estes bens dos naufragantes…

Em Cabo Verde

Fiz de tudo, um pouco. Participei do Simpósio sobre o 1º Centenário da Geração do Movimento Claridoso. Abordei nessa jornada os aspectos dialécticos no Modernismo Cabo-verdiano – o papel de Jaime de Figueiredo. Afigurei-me, mais do que nunca, não claridoso, capaz de reconhecer, entretanto, o papel importante desse Movimento. Tanto que sou consultor de um programa televisivo – Claridade Incandescente, de Margarida Fontes, produzido pela TCV. Pude também acompanhar a evolução do Monumento ao Emigrante, de que sou co-autor, com Carlos Hamelberg. E, no próximo dia 17 de Maio, estaremos a inaugurá-lo, no quadro das celebrações do 149º Aniversário da Cidade da Praia. Nessa altura, apresentarei aos praienses o meu livro Das Frutas Serenadas - striptease poético. Escrevi, o quanto pude para as coisas em que acredito. Para as causas, que ainda tenho. E alguns bons momentos, que não transcendem…


Homem-Aranha, de negro

Pensando no meu kodé, Pablo, de 4 anos, e no meu primogénito, Denzel, de 15, aceitei o convite da minha amiga Mariam para a estreia do Homem-Aranha 3. Este filme marca o início da alta temporada dos filmes para as férias do meio do ano, disse-me ela. Mariam, para quem não sabe, é uma amiga de 18 anos, estudante de Direito na Universidade Federal do Ceará e poeta influenciada pela Geração Beat. Por conseguinte, ela gosta de quadradinhos, tatuagens, cartoons e comics – todo o grafismo que os nossos ideogramas exigem. De vez em quando, revisito a Mariam, porque é sempre coisa nova e refrescante. Boa amizade. Adianto que nunca fui um aficionado pelo alter-ego de Peter Parker – essa personagem aracnídea ou tão-só essa simbiose alienígena de repórter, o Homem-Aranha. Mas não é fácil recusar aos convites da Mariam. Além do mais, quero estar aggiornato com a linguagem dos meus filhos…E haja teia para o intelectual gostar de Homem-Aranha. Desta feita, de negro…

Jornal Horizonte

Gostei do post da minha amiga Kamia, no www.sopafla.blogspot.com, sobre o encerramento do Jornal Horizonte. Nada de dramas. Foi bom e eterno enquanto durou. O convívio foi demais, no limiar do horizonte das amizades e do respeito. Jamais censurou ninguém o editor desse Jornal que há de fazer falta a muitas vozes. Fiquemos ora pela cloaca fétida dos media partidarizados. As Margens chegaram ao fim. Ladeavam elas o vasto rio da liberdade…

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Kenyatta



Na fundu´l kadiâ
Kenyatta xintadu.
Kenyatta prezu;
Liberdade é pensamentu,
Terá é korason!

Na txada di Inglaterra,
Nha Rainha ta fazi festa,
Teremodi sabi ta matxika;
Manda é poderis,
Goberna é grandesa!

Fidju´l liberdadi,
Bu ta luta na bariga´l bu mai,
Bu frutxi-frutxi pa odja Mundu;
Ó ki bu sai
Lembra mal ki bu pasa:

Matxika branku, oru, rei, grandesa!
Na sangui, na duzusperu
- spada skontra spada,
Sangui skontra sangui:
Jomo Kenyatta – Liberdadi di Kénya!


Kaoberdiano Dambará

quarta-feira, 25 de abril de 2007


O Circo III

O Circo III

Há muitos anos, por altura da Expo Sevilla 92, escrevera uma crónica no Jornal A Semana, intitulada O Circo I. e, porque um governante deplorara o texto, fizera (bem de calote) a reprise com O Circo II. Agora, é O Circo III. Porque abro a Enciclopédia Cabo-verdiana (obra ainda por fazer) e imagino os grandes nomes – Eugénio Tavares, Luis Loff de Vasconcelos, Pedro Duarte Silva, Abílio Macedo, Baltazar Lopes da Silva, Jaime de Figueiredo, Jorge Barbosa, Amílcar Cabral, Manuel Lopes, Simão de Barros, Manuel Duarte, Abílio Duarte, António Carreira e Henrique Teixeira de Sousa, entre outros. Esta plêiade de imortais não excluirá os mais contemporâneos. A Cultura, felizmente, não é excludente e deverá ser perspectivada nessa dialéctica permanente entre a tradição e a inovação, no interseccionismo de matrizes, muitas vezes, ontológicas, retrospectivas e prospectivas…

Literatura 1

O melhor da literatura cabo-verdiana, com respeito pelo cronograma das coisas, é aqui e agora. Se estou a dizer uma heresia, peço desculpas e aguardo, humildemente, que me provem do contrário. A literatura, tal como a música, não parou no tempo. Ela continua dinâmica, viva e dengosa. Os escritores, de pés fincados na terra, querem hoje ter mãos soltas no mundo. Uma das grandes virtudes deste momento é podermos re-significar a teia da Cultura. Refazer caminhos, ousar novas e outras experiências, mantendo respeito pela espiral da História, conscientes de não termos sido (nem os outros foram) especialmente originais. O olhar na direcção do passado leva-nos a perceber o enorme legado dos Claridosos e a reconhecer que o conceito da Claridade (livre de preconceitos, mistificações e falsas supremacias) permanece até hoje como matriz e motriz da nossa contemporaneidade…

Literatura 2

Trouxe, para ler em Cabo Verde, O Caçador das Pipas, do afegão Khaled Hosseini. O último romance que me fizera vibrar assim: Diário de Mis Putas Tristes, de Gabriel Garcia Marquez. O pano de fundo é a sociedade hermética, aprisionada pela política e pela religião. As crianças caçam suas pipas coloridas, mesmo proibidas pelas ordens instituídas. O resto é as belas letras. Estas são um valor universal…

Claridade 1

Na Ribeira Brava, Ilha de São Nicolau, um evento muito bem organizado comemora o centenário de nascimento de Baltazar Lopes da Silva. Palmas para a Câmara Municipal da Ribeira Brava. Nho Baltas é um dos filhos mais ilustres de Cabo Verde e a modernidade da literatura cabo-verdiana deve-o muito. Professor de várias gerações, prosador, poeta e ensaísta do melhor quilate, advogado do povo e activista social, Baltazar Lopes da Silva continua entre nós a suscitar interesse, curiosidade, estudo e pesquisa. Claro que ninguém é o maior, nem é o melhor, dos cabo-verdianos, como alguém, esquecido da ciência e da história, quis propalar em tese. Pequena política a quanto obrigas! Quanta infantilidade! Tenho a certeza de que Baltazar Lopes da Silva foi um dos grandes. E que, passando essa poeira de seu laivo provinciano, ele será um imortal…

Claridade 2

Estive no Sal a acompanhar as filmagens do documentário Claridade Incandescente, da jornalista Margarida Fontes, produzido pela Televisão de Cabo Verde. O Programa nº 4 será dedicado a Jorge Barbosa, o percursor do Movimento Claridoso, conforme disse, outrora, Félix Monteiro e diz, agora, Fátima Bettencourt. Não apenas pelos ditos do investigador e da escritora, respectivamente, mas também pelo que prova o manancial de estudos, estará patente a figura matricial de Jorge Barbosa. Fomos confirmar pelos traços e pelos rastros que ele fora um poeta complexo por detrás das mascaras poéticas que utilizava. Itinerante, ambientalista e zen, umas vezes; denunciador, activista e localista, outras vezes, Jorge Barbosa será também um imortal…
Claridade 3

É já na sexta-feira, dia 26, o início do Simpósio sobre o 1º Centenário de Nascimento da Geração do Movimento Claridoso, algo que se inscreve num vasto e diverso programa comemorativo, por todo o Arquipélago. Os conferencistas já estão a postos. O Simpósio na Praia faz sentido, sim senhor. O naipe dos fundadores também irá abordar Manuel Lopes. Esse que escreveu Chuva Braba, o grande romance cabo-verdiano. Esse imortal…

Escrita 1 (para Abrãao Vicente)

Meu amigo, as vacas seriam, se tanto, todas profanas. E as que se afirmam sagradas, não passam de levianas. Desmistifiquemos, pois, essa coisa bovina que se arma em totalitária. E recusemos de seguir o cherne, conforme a alegoria do grande Alexandre O´Neill. Escreve, sim, com mais irreverência. Sobre tudo e sobre nada. Eu também não me arrependo de nenhuma escrita. Devo ter feito pessoas rirem e chorarem. Fi-las pensar, disso tenho a certeza. Tenho recebido cartas e telefonemas de muita gente. Uns a louvarem, outros a deplorarem. Nenhuma indiferença, pois esta seria a morte do artista. Todas as palavras aqui foram medidas, ponderadas e posicionadas. Este autor jamais seria, de nada ou de ninguém, uma vítima inocente. Continuarei, sem lenço, nem documento, mas lúcido. Cada vez mais lúcido…

terça-feira, 3 de abril de 2007

Diversos



Imprensa

1.
Quando tenho tempo, coisa cada vez mais remota, escuto a RCV, pela Internet. Igualmente, releio a imprensa electrónica. É uma forma de não estar tão longe dos filhos da pátria. Estar perto hoje tornou-se mais fácil. E a saudade ficou relativizada. Às tantas, larga-se tudo para saber das novas da terra. Inclusive pela TCV, versão digitalizada. Mas queria algo mais

2.
A queda do desemprego em mais de 6%, anunciada pelo INE, não foi amplamente divulgada pela Comunicação Social, que antes preferiu propalar a baixaria da linguagem da última sessão parlamentar. A questão era a droga. Os narcos e os seus capangas devem ter rido à brava. Quanta bizantinice, companheiros. Os nossos imunes e impunes continuam no top, pelos vistos. Às nossas custas, carago, às nossas custas…


João Lopes Filho dixit

1.
Segundo João Lopes Filho, a história do Movimento Claridoso precisa ser reescrita. O ilustre professor afirma que o acto inaugural acontece em 1922, no Mindelo, pelas mãos de João Lopes, Adriano Duarte Silva e Jorge Barbosa. Depois, o grande sopro teria acontecido na cidade da Praia, com Jaime de Figueiredo, João Lopes e Manuel Velosa, em fins dos anos vinte e começo dos anos trinta. Em 1936, Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa fundam a Revista Claridade. Esta reafirmação cronológica do modernismo cabo-verdiano, afinal contemporâneo à Semana de Arte Moderna, em São Paulo, reclama por séria e aprofundada pesquisa.

2.
A confirmarem as posições de João Lopes Filho, expressas num entrevista de fundo conduzida por António Monteiro, do jornal Expresso das Ilhas, alguma verdade terá de ser reconfigurada. Para que não nos contem estórias, em vez de História…

Honoris nosso de cada dia

1.
Caríssimo De Pina, paladino da liberdade e figura já castiça, meu bom amigo. Nem vou debater o âmago da questão, apresentada por ti, de forma um tanto deficitária e deprimida, apenas para “animar a malta”. Queria aqui dizer-te que estou tranquilo e sereno, consciente de ter contribuído para um honoris causa em prol de Cabo Verde, numa proposta preliminar que levava nomes ilustres da política, cultura e economia. A triagem, reconhecendo o mérito de todos os “meus candidatos”, escolheu Pedro Pires, por unanimidade.

2.
Noutra pauta, as tuas recorrentes posições sobre Frei Betto e Noam Chomsky são conhecidíssimas e a forma como as expressas tem provocado alguma estranheza. Pode-se discordar, contestar e opor, mas sem fanatismos, nem sentimentos primários. Muitos conteúdos interessantes às vezes perdem-se diante de formas vociferantes e exacerbadas de os expressar.

3.
Entretanto, estamos até de acordo sobre Robert Mugabe. Este de facto já saiu da moldura, quase à maneira de um falso patronato democrático, que a gente conheceu nesta terrinha de Deus. Aproveita e lê “A Tirania da Maioria”, de Lani Guinier, meu caro. Se quiseres debate ou tertúlia, vamos a isso, mas o nível do verbo terá de ser mais elevado, nada a ver com o Sado-masoquismo e a aleivosa de certas companhias, esses “conselheiros populares”, de triste memória…


domingo, 1 de abril de 2007

Para que nada fique na mesma

Para que nada fique na mesma

Saravá, mantenhas & boa nova, meu caro leitorado. Nesta lenta agonia de haver jornal, vamos escrevendo o tempo da ilha e do mundo, cientes de que daqui a dez, cem, mil anos, um terráqueo qualquer há de querer saber destes cumprimentos. Quanto mais não seja pela cultura arqueológica de continuar a haver futuro. Estou entre Fortaleza e Praia, com Bóston atravessado no pensamento, da minha escrita, quer criativa, quer utilitária. Não dou mais detalhes de querer Frei Betto apresentar o livro de Felisberto Vieira, saído da forja e entrado no prelo, com prefácio de Jorge Sampaio. Nem digo aqui do recital de boa música de Fhátima Santos, no Centro Cultural Oboé. Tom Jobin celebrado por uma intérprete da primeiríssima água. Outra novidade, mas só cheirinho, de quem regressa por uns dias. Para que nada fique na mesma…

No Clube do Bode

No Clube do Bode, confraria de intelectuais que se reúne aos sábados sob o comando do livreiro Sérgio Braga, no Florida Bar, acontecem sempre coisas inusitadas. Desta feita, uma princesa vinda das terras helvéticas, entrementes tornada “cabrita”. Outrossim, Filinto Elísio acaba de ingressar o Clube, numa festejada e pantagruélica entronização. A aguardente de Santo Antão, mãe da cachaça como foi ali baptizada, fez boa muito boa figura. Saudada por Sérgio Braga, Audifax Rios, José Tarcísio e Dimas Macedo, entre outros ilustres, essa aguardente fez autêntica diplomacia crioula entre os intelectuais cearenses. Gente conhecidíssima, mas simples mortais, sem as nove-horas dos nossos generais de palanque. O almoço era uma manta de carneiro, com baião-de-dois. Depois, uma feijoada completa, para amanhar o sábado. Como diria o poeta Carlos Augusto Viana, nem só de pão vive o homem. Há também vinhos e finos queijos…

Tricas & futricas

Da Tapadinha, só poderia isto. O cronista apareceu à porta, zangado e sabichão, a mandar vir sobre a carneirada obtusa, hoje pecadora por votar deste e não daquele lado. Escreveu loas e laudas, arrotando sua sapiência em leis e em política, neo-liberal entretanto na sua entortada boca, bem como no seu verbo à-toa. Mercê desse magistério arruinado falou mal do mundo. O Carmo e a Trindade. O fim dos tempos. Vaticinou os ciclos políticos de dez anos. Amaldiçoou os jovens e os aprendizes. Destilou sobre as águas, a sua enormíssima arrogância. E, depois, qual lobisomem no limiar da noite, comeu as mentes ensonadas, à falta das virgens que as lendas rezam. E acordou, apaziguado e sereno, como quem dormisse o sono dos justos. Onde estarão os inocentes e os patuscos em delírio?