quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Shiva

(…) Senão eu te invento por toda a eternidade (…)
Paulo Leminsky


Ter partido também
Ficar um pouco contigo
Flutuar assim para lá
Do azul, do zil e do vão
- Eu nem queria outra coisa,Mulher…

Partir para vir contar
A praça do além e do éden
(o reverso da maçã e seu pecado)
Serpenteada numa árvore, mulher,
E tão torneada em teu corpo…

Eu nem queria senão ter ido
Com ou sem retorno, ao pé de ti
E dali (miró, como me chamas),
Neruda, pessoa, outros poetas
De toda a poesia…

Aqui, deixado na praia,
Eu te invento...metáfora!

Filinto Elísio

Founders

Foto de Omar Camilo

O "imprescindível" Manuel Veiga

O "imprescindível" Manuel Veiga corre risco de vida num hospital em Nova Iorque, na sequência de um ataque cardíaco. Ministro da Cultura, mas sobretudo intelectual da mais fina estampa, Manuel Veiga tem um profundo empenhamento pela coisa cultural cabo-verdiana, em particular a língua crioula. Neste momento, ele tem estado a estrategizar uma Conferência Internacional sobre a Claridade.Juntemo-nos todos numa correntente positiva pela rápida e pronta recuperação de Manuel Veiga.

Em prol da caboverdianidade!

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Thugs, CEDEAO, Constituição e Israel + nota do colunista


A caça aos Thugs

A manchete da prisão dos jovens delinquentes, mais conhecidos por Thugs, nos deixa mais aliviados e mais crentes da nossa segurança pública. Tal como a saúde pública, a segurança pública é questão premente e prioritária. Sem elas, não há estabilidade, nem paz social, as verdadeiras razões que trariam investimentos a Cabo Verde, diga-se em abono da verdade. Ninguém sai da Inglaterra para vir a Cabo Verde, a risco do paludismo, da cólera ou do assalto. Tao pouco ele viria para assistir gente a defecar na via pública ou a curtir os apagões da Electra. Pura e simplesmente não haverá turismo, nem outro investimento sério, se alguma incongruência não for consertada a tempo e, quanto a isso, não devemos ter papas na língua. Mas dizia, a caça aos Thugs veio em boa hora e é mister que o nosso sistema judicial seja consequente com a lei e o interesse nacional. Só que o buraco é mais em baixo. A criminalidade transcende a medidas securitárias, por sinal mais que necessárias. Ela tem a ver com as alternativas sociais para a juventude. A segurança sustentável não é policial, mas societal. Até porque os jovens delinquentes são “nossos jovens” e precisam ser recuperados. Não apenas por aquele que viria da Inglaterra, mas por nós que continuamos…em Cabo Verde!


Cabo Verde e a CEDEAO

Apoio a 100% a ideia da revisão das nossas relações com a CEDEAO. Elas deveriam, hoje mais do que nunca, incrementar uma vertente mais bilateral do que multilateral, no quadro comunitário. Esta tese foi defendida pelo diplomata Manuel Amante da Rosa, mas, para variar, não teve respaldo crítico entre os seus pares da diplomacia. Cabo Verde deverá reflectir e assumir qual o cenário da CEDEAO que lhe interessa realmente. Em verdade, o enquadramento de Cabo Verde no mundo não se faria de costas voltadas para a África Continental. O Arquipélago é estratégico, porque está estrategicamente posicionado (não apenas em termos geográficos) na África Ocidental. Em verdade, é estratégico com África e nunca sem ela. Mas não se tem o Continente a qualquer custo. A questão da livre circulação das pessoas e bens merece revisão séria e rápida. Concordo com a preocupação do ministro Júlio Correia sobre a ameaça demográfica, decorrente de uma migração intensiva e nem sempre controlada. O país tem de dizer a CEDEAO quanto recebe e como recebe. Como pequeno estado insular (relativamente estável), próximo de uma Costa instável, empobrecida e sobrepovoada, as ameaças a um rápido e perigoso desequilíbrio demográfico são evidentes. Com as delicadezas necessárias e a complexidade que a questão determina, é hora de fazer o que tem de ser feito…

A questão presidencial

Releio, com vagar e sentido crítico, o livro “A questão presidencial em Cabo Verde – uma questão de regime”, de David Hopffer Almada, e penso se não seria interessante reabrirmos o debate sobre o tipo de regime mais adequado para Cabo Verde. Debate de rua, societal mesmo, quase em referendo. O dito Parlamentarismo Mitigado, um hiato que às vezes mete água, é a melhor solução política? Quais as virtualidades de outras propostas? O retoque constitucional pontual seria por si só suficiente para qualificar o actual regime? Ou, quem sabe, a virtude está numa mudança mais de fundo, no presidencialismo ou no semi-presidencialismo? O actual regime permitiria, sem perversões, a coabitação entre um governo e um presidente adversos? Até que ponto, no actual figurino, certas coabitações não fragilizariam a soberania, a democracia e o desenvolvimento, valores ainda em consolidação nesta etapa histórica da vida nacional? Dá que pensar o facto de o Presidente da República, saído directamente do voto popular, não ser titular de importantes poderes próprios e de que maneira esta “fragilidade” contribui para um equilíbrio saudável entre todos os Órgãos Políticos de Soberania. O povo cabo-verdiano realmente quer um Governo que não responda primordialmente perante o Presidente da República que escolheu? Enfim, uma série de questões que merecem ser tematizados para lá do país político e do país jurídico. Sem arrogâncias, nem tecnicismos juridico-constitucionais, quem atiraria a primeira pedra?

Israel e a mentira orwelliana

Leio a imprensa local e há acontecimentos que não acontecem. Parece a mentira orwelliana que, repetida ene vezes, vira verdade. Os aviões que lançam misseis sobre as crianças indefesas são pura brincadeira. Uma ficção, tirada do monitor de um video game, crê-se. Em Cabo Verde, os deuses-de-esquina ficam quedos e mudos. Mas eles também não interessam. São zeríssimos à esquerda. O silêncio dos silenciados não nos aparta da vergonha. O ataque, desproporcional e injustificado, ao Líbano é uma vergonha para a Humanidade e os homens de bem e de boa vontade condenam tamanho genocídio. As Nações Unidas, uma vez mais, não podem nada, mesmo nada, contra a força bruta. O governo de Israel (não confundir com o povo judeu) é déspota, fascista e desumano, para não dizer bem aprendido com o nazismo. O que acontence ao povo palestiniano e libanês não passa de um holocausto. Um nojo, com todas as letras…

Nota do Colunista:

O cronista não está alheio à fruição social. Muitos dos temas que aborda foram escrutinados no quotidiano. Os assuntos colectivos são inesgotáveis. Não pretende ele ser dono, nem accionista de alguma verdade. Ao levantar questões, ele quer contribuir para a reflexão da nossa opinião pública. De vez em quando, ele migra para o seu espaço poético, como o Albatroz, de Baudelaire. Aí, a sua função torna-se mais existencial que social. Os leitores hão de perceber a alteridade. Quando não (direito que os assiste), reclamem pelo endereço electrónico: filintos@gmail.com.

sábado, 26 de agosto de 2006

Hora Grande


Os tempos são fortes e a hora é grande.

Saint-John Perse


Glosa

Para alguns, felizmente poucos (mas hegemónicos), está tudo bem e estável debaixo do céu. Questionar estes dias sob o sol nosso de cada dia seria subversão perigosa. Terrorismo de baixa intensidade, acto inaceitável num país pobre e vulnerável, ainda por riba de morabeza, como o nosso. Tudo bem e estável, mau grado a insegurança, o desemprego e a doença pública, aliada à holística incompetência, das altas nuvens ao rente chão. Os hegemónicos (poucos, felizmente) não querem saber das reclamações, das reivindicações e das manifestações. Do descontentamento das ruas, querem distância. E das insatisfações mais surdas, fazem ouvidos de mercador. Face à quietude aparente, mas falsa, o país navega por mares escusos e, qual nave dos malucos, todos fingem estar no porto de salvamento. Onde estão os lúcidos, minha gente? Um simples Velho do Restelo afinal? O que é da crítica local, outrora tão acutilante e valente quão agora necessária? Será que, no chão da República, a ignomia é permitida e a disfunção faz escola? Não, não e não, meus amigos. Os cronistas são filhos de Cronos. E deste, guardam a mais sagrada fidelidade. Não podem eles fugir aos tempos. E muito menos à grandeza desta hora…

Doença pública e a cidadania

Leio a entrevista de uma autoridade sanitária, no Jornal Expresso das Ilhas, e discordo das suas colocações. A política da saúde pública precisa ser revista, sim senhor. Vejamos, por exemplo, a questão do paludismo, afinal retornada, mas só agora assumida como endémica, pelas autoridades. Não poderia haver um plano preventivo mais sério e consequente diante de uma realidade por assumir. Nem poderia haver autoridade sanitária em face de uma não-problemática. Qual teria sido a razão deste irresponsável silêncio? A beleza dos indicadores que muito doura as estatíticas e induz a elogios internacionais? O turismo emergente e cada vez mais importante, mas contingencial em face a rupturas da saúde pública? O medo aos investidores que olham para isto como um destino lucrativo? A oposição sistemática, mister democrático, pronta a tirar dividendos das desacelerações e afins? Francamente, nós, os cidadãos, contribuintes e eleitores, temos de perceber as razões do silencio. Quando morre gente, por paludismo ou outra doença (duas por ano que sejam), em quadro de uma política ausente, a culpa nunca é da fatalidade. Nem da população. Não se criminalize a vítima, por favor. Existe paludismo na cidade da Praia, porque a sua população é culpada, não colabora e não limpa? A Praia é uma lixeira, conforme o Bispo de Cabo Verde, porque ao praiense falta urbanidade e civismo? Será a Praia uma lixeira ou lixeira é o que uns e outros fazem da Praia? Tenham dó, meus senhores. As coisas não são assim. Mais do que teatros de bairro, mas sérios investimentos no saneamento, na higiene, na infraestruturação e na qualidade de vida na cidade. Mais do que jogar as responsabilidades e as culpas para debaixo do tapete, mas medidas concretas em relação aos problemas reais. Vamos, agora, aliviar as coisas e trabalhar por esta causa comum. Em respeitos aos vivos e aos mortos. Na certeza de que deste lado estamos lúcidos. E consequentes…é pagar para ver!

Porto, aeroporto, estradas & etc

Falta muito, faltando mais à minha cidade. Faltam equipamentos de mais qualidade: porto, aeroporto, estradas & etc. O desenvolvimento só se processa com o homem educado no espaço equipado. De escolas (do básico ao superior), de hospitais (por demanda populacional), de ruas asfaltadas (ou pavimentadas, a gosto) e de praças (com flores e monumentos), entre outras tantas coisas que dão dignidade e cidadania. Assim, terra de ninguém - de porto atrofiado, aeroporto tacanho, estradas medíocres & etc -, as coisas não funcionam. Não só para a minha cidade, mas para o país todo. Falta muito, faltando mais, e terá chegado a hora de interpretar Saint-John Perse: Os tempos são fortes e a hora é grande.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O tempo circular dos tempos





Glosa

Serão os verbos, a verve e a tecitura esta obsessão de te rever na próxima esquina? Neste tempo de “múltiplos tempos”, estarei contigo no imaginário e na lembrança tão-somente. Não pude, qual Sharezade, perpetuar os nossos encontros em estórias de Mil e Uma Noites. Nem pude – e eis como estranha a minha ledice – postular outro vôo de pássaro que não fosse aquele. Os meus escritos continuarão a ser para ti, minha musa, e, em seus artifícios e alfaias, eles abordarão o tempo circular, mãe de todos os outros. Mesmo quando, por repto do quotidiano, descemos ao pulsar das esquinas...

1. O “tempo de São Filipe”

As intervenções efectuadas pela Câmara Municipal de São Filipe nalguns espaços públicos daquela cidade, oportunamente denunciadas pelo cidadão Fausto Rosário, foram agora “chumbadas” pelo Instituto da Investigação e do Património Cultural (IIPC), sob alegação de que as mesmas “descaracterizam” o Centro Histórico de São Filipe. O posicionamento do Ministério da Cultura, através do IIPC, revela um sentido de autoridade sobre as questões patrimoniais e uma atenção em relação às demandas da cidadania. Os poderes públicos devem ser capazes de responder, em tempo crítico, às descaracterizações dos elementos patrimoniais e ambientais de Cabo Verde, para além dos interesses partidários, económicos e outros. Sem afrontar quem quer que seja, nem fulanizar certas questões, é imperioso um reordenamento das coisas em muitos pontos do país, onde o caos se instalou e a crítica entrou na ordem do dia. Não podemos permitir que o património cultural e ambiental seja delapidado. A destruição, ou mesmo a descaracterização dos nossos bens patrimoniais condiciona a nossa memória e o nosso sentido de tempo histórico. A quem compete preservar e valorizar a nossa identidade? Preservar é um direito e um dever de todos nós, de todo o cidadão, e também do Estado. Cada um de nós deve estar atento aos grandes empreendimentos municipais e outros (privados, inclusive), evitando que os mesmos colidam com o patrimônio. Ao saudarmos a iniciativa do IIPC não significa defendermos a paragem no tempo. O município de São Filipe, como todos os outros de Cabo Verde, precisa de saneamento básico, de infraestruturação e de edificação, valores que agregam melhoria de vida aos cidadãos. Mas as diferentes velocidades dos tempos não se devem colidir. Por isso, as coisas têm de partir de um verdadeiro pacto social entre o Governo, a Edilidade e o Cidadão. Desta tríade, ninguém deve ficar de fora. O resto é karkutisam e o país não pode derramar seu “tempo”...

2. O “tempo claridoso”

Não se pode também lidar com o passado como se ele não existisse. Nem se deve deixar de admitir que Cabo Verde seja uma multiplicidade de “tempos”, alguns mais históricos que outros. Por conseguinte, esta viagem, retrospectiva pelo “tempo claridoso”, um dos mais marcantes, se não o mais determinante, da nossa modernidade literária, se tornou imperiosa. Ao meu ver, a Claridade começa em 1935 e o arauto de tal fenómeno terá sido o poeta Jorge Barbosa. O seu livro “Arquipélago”, publicado nesse ano, traz embutido todos os signos e premissas de “pés fincados no chão” e “olhos voltados para a realidade social”. O afrontamento temático dos claridosos estava todo ali. Mas foi no ano seguinte, em 1936, com o lançamento da Revista Claridade, na cidade do Mindelo, que o sentido ganha dinâmica e sistematicidade. Dir-se-ia que a nova largada, inscrita no escrita barbosiana, ganha então transcendência. Dá-se claramente uma mudança de paradigma, rompendo os intelectuais com o mimetismo cultural, ora modal e costumeiro, em prol de novos fundamentos e problemáticas. O imaginário, bem como o processo criativo, desloca-se para o cenário das ilhas e para o drama das suas gentes. A Geração de Baltazar Lopes da Silva (e Oswaldo Alcântera), Manuel Lopes e Jorge Barbosa, e a de seus contemporâneos dialécticos, António Aurélio Gonçalves e Jaime de Figueiredo, entre outros, reconfiguraram uma mitologia da cultura cabo-verdiana de um molde mais plausível e próximo – a caboverdianidade. E, em lacto senso, mudaram o nosso jeito de ser e de estar no mundo, não só a poética e a prosa ficcional, mas o ensaio antropológico e a crítica social. Outrossim, vale reconhecer que a Claridade foi também um prenúncio e uma advertência do despertar nacionalista. Era, em toda a linha, o acordar de um tempo histórico. O silencioso que se conscientiza silenciado e, destarte, questiona o mundo e a mundividência. Nos seus rudimentos...naturalmente!

3. Onde as águas não se misturam

Resignado ao sentido doloroso da existência, o Poeta caminha. Ele está ciente de não poder ultrapassar o parapeito da sua angústia, mas caminha. Agora que seu pressentimento se desfez numa perda atroz, onde as águas não se misturam, ele deambula. Balbuciando sempre a glosa de Fernando Pessoa (pois não abriria mão da sua loucura): a minha dor antiga...quem ma roubou?

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Onde a minha saudade a cor se trava

Para Béqui



O sonho…e agora, José?

O sonho acabou. Dona Mindoca, a mulher das nossas vidas, morreu. Em sentimentos mistos, busco no intertexto de “a mãe morreu”, no “O Estrangeiro”, de Alberto Camus, um absurdo conforto. O meu pai, na sua digna e infinita tristeza, balbuciará a drummoniana frase: E agora, José? Sinto os meus irmãos, tristes e indignados, ainda incrédulos dessa profunda religiosidade (não a dos templos que almejam guardiães, mas a do Zodíaco que arranja estrelas do Destino). E agora, você? No mais fundo de mim, sou um poço de dúvidas. Ao Sísifo tirem tudo, menos as pedras. Ao Cristo, não lhe retirem a Cruz. Tão pouco queiram subtrair ao Significante o Significado. Busco, no holograma deste tempo, as absolutas razões para não morrer de tristeza. Logo eu que vos suplicara, na escrita do escrito, a minha mãe de volta. Logo eu que, em acto de toda a humildade, daria a alegria, a energia e a escrita, tudo o que mais quisessem, por esse regresso. Ferido de morte, algo em mim – em nós, diria – renasce das cinzas. A dialéctica do sofrimento, sublimando as coisas. A lembrança em forma de força. A saudade em jeito de resistência. O amor que move montanhas. O sonho acabou? Da janela em que olho o vazio, ou quem sabe a eternidade, uma ciciante palavra recusa o terminal deste sonho. Voz de tão só ternura: o sonho apenas começou. Meus amigos, é ela, a mulher das nossas vidas, que eu sei…

Alma gentil

Não vos falaria aqui da Dona Mindoca, professora e pessoa pública. Nem da sua generosidade social que saltava à vista. Falo-vos agora das coisas mais íntimas, desse lado de cá da rosa. Das minhas brincadeiras com ela: Dona Mindoca não é poeta, mas Poesia. Em verdade, eu via nela uma metáfora em toda a transcendência e vivia essa mulher em todo o vate poético. E punha não minhas preces e crenças e sim as orações que me ensinara: alguns versos de Fernando Pessoa. Quem me roubou a minha dor antiga? E fiz com que se fizesse vaidosa, linda e raínha aos gracejos deste Albatroz. E sou feliz por tê-la feito sorrir mais do que chorar. E estou em paz por tê-la amado até ao fim da linha. Dona Mindoca, deste lado da lua, era um ser humano extraordinário. Ela adorava o pôr-do-sol e, sempre que víamos juntos um crepúsculo, a frase era: eis o estado de beleza que nenhum artista consegue imitar. Gostava também das plantas e dos animais. Acordava cedo para a azáfama das plantas no terraço da casa e deleitava-se com o chilreio dos passarinhos. Adorava viajar e tinha as suas paixões pelos lugares. Nem vos conto de como bateu palmas ao ver São Petersbugo, o Monte Jura e as margens do Rio Charles. O luminoso encanto no alto da serra no Ceará e muitos outros lugares por onde andou, sempre de forma curiosa e generosa, fazendo amigos e expandindo Cabo Verde. Falo-vos aqui e agora de uma luz boa e terna, e quiçá eterna, que passou pelas nossas vidas. Como uma estrela a riscar o firmamento e deixou o travo da suprema beleza…

Post Scriptum

Manda a nobreza, em nome de todos, agradecer aos que nos últimos dias fizeram por salvar a Dona Mindoca. A boa intenção, mais do que o sucesso, tem a sua divindade. E, em toda a dignidade desta nossa dor profunda, queremos reconhecer publicamente o empenho de todos. As dúvidas, as frustrações e as revoltas, que ainda nos dilaceram, estão a ser sublimadas. A morte da Dona Mindoca não será um acto de ficar no ar, antes de mergulhar no esquecimento. Queremos também agradecer ao conforto que nos dá, nesta hora de catarse, um turbilhão de amigos e conhecidos.

Post Post Scriptum

Este texto é S/Cem Margens. Por conseguinte, ele é meu. Mas o escrito nesta escrita, tenho a certeza, poderia ser assumido, com mais engenho e arte, por um punhado de apaixonados, nomeadamente Anastácio Filinto Correia e Silva, José Cardoso, Osvaldo Correia e Silva, Antero Simas, Benilde Correia e Silva, António Correia e Silva e Alberto Correia e Silva. E, numa dimensão de mundo novo, pelos netos da Dona Mindoca – a “Geração da Gelatada”, que é hoje o nosso sofrimento abreviado.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Mayra e Dudu


Hoje, vou falar-vos da música. Não da música, em sentido vasto e caudaloso. Mas de dois álbums, acabados de sair: “Navega”, de Mayra Andrade e “Nos Kantador”, de Dudu Araújo. Estes dois trabalhos discográficos são, antes de mais delongas, o corolário da maturidade a que chegou a música cabo-verdiana. Acrescido à singular interpretação desses artistas, o groove atingido por todos quantos, na linha melódica, rítimica e do arranjo, se alinharam na feitura de tais álbums. Das características comuns entre Mayra Andrade e Dudu Araújo, sublinham-se a potencialidade vocal e interpretativa, o bom gosto na escolha de composições (e compositores) e o arrojo dos arranjos. E nem disse a marca mais sintomática: o charme de apresentação em palco (sorriso, sobriedade e inteligência). Alguns reparos, entretanto. Mayra Andrade, emergindo também como compositora de boa verve, tem uma excelente banda, faltando-lhe um ou dois elementos cabo-verdianos para que se instale a naturalidade da toada crioula. Dudu Araújo, ao contrário, precisaria alinhar aos seus exímios músicos (onde Bau é matricial) o vórtice de um instrumentista estrangeiro, habituado a escalar montanhas para lá das pentatónicas. Mas tudo isso, é palavreado de um leigo que percorre a música como um andarilho acidental, razão que relativiza qualquer tentação de postulado. Em verdade, gosto da música por gostar tão-somente. E nesta (in) capacidade, recomendo-vos vivamente Navega”, de Mayra Andrade e “Nos Kantador”, de Dudu Araújo…

segunda-feira, 31 de julho de 2006

De coração e de oração, com Vadú...

O compositor e intérprete Vadú, um dos expoentes da Geração Pantera, encontra-se gravemente enfermo, na sequência de um atentado à faca no Festival do Tarrafal, neste último fim-de-semana, notícia que nos consternou e revoltou.

Aderimos, como milhares de cabo-verdianos em todo o mundo, à corrente positiva que almeja pronta recuperação do autor de “Preta”.

Estamos, de coração e de oração, com Vadú...

Apesar da escrita, do engenho e da arte

O estado da nação

O estado da nação é bom, se analisado o ponto de partida e a vizinhança decadente, mas ele não permite deitar e rolar. Falta muito, muitíssimo, fazer para que Cabo Verde perca a vulnerabilidade e ganhe desenvolvimento sustentável. É tudo tão contingente! Mesmo as grandes conquistas não estão asseguradas contra a irreversibilidade. E a ilha maior – Santiago –, bem como algumas ilhas, precisa de estruturação mais profunda e radical. A todos os níveis. Não se constrói país em duas velocidades antagónicas, mormente em desaceleração da demanda, do potencial e da força. Ele não nos permite , por exemplo, estar satisfeito com a Praia às escuras, com um porto medíocre e um aeroporto ridículo, para não falarmos da insegurança e do policiamento inibido. Bater palmas com o Plateau esburacado, com as construções clandestinas, a venda caótica nos passeios e a tresanda excrementária dos becos. Assim não. Não, não e não. Há grandes investimentos, ajudas orçamentais e obras. Tudo isso denota dinâmica e, em abono de justiça, damos mérito à governação. Mas há interiores encravados, há ilhas à margem e há gente à míngua, faltando por isso muito, muitíssimo, fazer para que Cabo Verde ganhe a velocidade do cruzeiro neste Atlântico Médio, que a NATO tanto aprecia…

O escrito versus a escrita

O escrito tem de ter escrita, parametrizada no engenho e na arte. Assim, foi instituído o Verbo, no iniciático tempo em que os espíritos pairavam sobre as águas. De então, o ofício, tao sagrado quão profano, que determina ao escriba o seu talião. Não se fala aqui do escritor, pois não se lhe concede mesuras cor-de-rosa. Ora o cronista faz rir, para não fazer chorar. E vice-versa. Ora ele sai dos salamaleques e “poesia só tenho a de pedra e na pedra forjada”. Tomai-o por coerente, entretanto. Mesmo quando viesa a prosa para o pôr-do-sol ou para a romantizada praia dos desgovernados. Ele jamais seria uma opinião alienada, demissionária e colaboracionista, como alguém quis que fosse. Ás vezes, não opina por razões de estratégia. Outras vezes, manda indirectas evitando confrontações estéreis. Mas se a raia chega aos fundamentos, os que norteaim princípios e interesses, desta confraria, aí sim o seu escrito se torna acutilante, fera e guerreiro. Apesar da escrita, do engenho e da arte…

quarta-feira, 19 de julho de 2006

A cabeçada do Zidane



Praia de Santa Maria de Esperança

Vejo a Praia de Santa Maria de Esperança e sei que amanhã será outro dia. A mudança terá de ser interior, antes de ganhar a dinâmica de um arquétipo diferente. Platão, de túnica branca, fora à Acrópole suscitar Diálogos. Fora um momento de luz. Milénios depois, esses mortais estão na caverna da Razão. No café, à lânguida esplanada onde a bizantinice reina e os reformados impõem a razão por gritaria, fala-se da cabeçada do Zidane, do recorrente clima de kásu bódi, dos Direitos Humanos, dos claridosos, dos caridosos e dos mendicantes. Cada cidade tem a acrópole que merece, menos Praia que merecia uma opinião pública mais acesa, acutilante e consequente. Os sequestrados do Plateau ficam ali à roda e à sucessão dos dias, esperando que a areia flua da clepsidra. E o pessoal discute os apagões da Electra com atrevida impotência. Pessoalmente, já nem falo mais da Electra, não para evitar susceptibilidades diplomáticas e disparates afins, nem a medo de bilhetinhos ameaçadores, mas porque deixou de interessar. Os apagões continuam, com a falta de água de permeio, e esta é uma afronta quase colonial. Mas continuamos com a nossa luz interior. E a balbuciar a música de Chico Buarque de Hollanda: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”…

Quando as palavras se impõem

Perdoem-me se vos habituei mal, com largas mesuras de cavalheiro e algum hilariante rasgo de permeio. O Pranchinha, meu defeituoso alter-ego, depois de vida tão severina, me deixara em sábias e testamentárias lições quais retornar à pedra, como escrevera o Poeta Mário Fonseca, fosse o mais ontológico da minha narrativa. Doravante, deixarei de adjectivar e serei todo mineral perante a iniquidade. Perdoem-me, de coração. Poderia, vez por outra, guardar as margens: nesta idade não importa ganhar todas as batalhas. Poderia até, diante dos valores mais altos, ficar pelo grito do meu silêncio, que das minhas atitudes seria o mais letal. Todavia, há palavras que se impõem. Rompem a barragem e se afirmam sem margens no açougue das águas. Diante dos altares, fico mais aceso do que as velas e não me ajoelho perante a grandeza. Tão frágeis as grandezas que se decompõem amiúde à minha fé de grão de areia. Não vejo por que as letras, mesmo as mais belas, tenham de recusar o quotidiano, nem razões para que o cronista se esconda sob a máscara de um enorme Carnaval. Aparelhar as palavras e dispô-las em crítica é uma profissão de risco, que eu sei. Exige, para lá do engenho e da arte, uma aventurosa força de vontade perante a realidade. Por conseguinte, este cronista nunca seria aqui um homem de resguardos…

Nós e os grandes arquitectos

Acarinhar a excelência não tem sido apanágio da nossa gente. Cesária Évora é rainha em todo o mundo, menos entre nós, onde a excelência e o sucesso se acanham. No café, à lânguida esplanada, os homens maiúsculos são desmerecidos, para o gáudio dos medíocres. A inveja é a terapia dos desgraçados. Desgraçadamente, com perdão pela redundância. Teríamos tido a oportunidade de um traçado de Óscar Niemayer aí no conjunto da Biblioteca Nacional e perdemo-lo desgraçadamente. Teríamos tido a oportunidade de acoplar à antiga Capitania dos Portos do Mindelo um aquário projectado por Peter Chermaieff e deixamo-lo morrer ainda em maqueta. Também desgraçadamente. Teríamos tido a oportunidade de um projecto assinado por Siza Vieira aí no vale da Cidade Velha e, desgraçadamente, fizemo-lo ofuscar por outras práticas. Trago estes exemplos apenas e tão-só para nos recordarem dos dias que correrem impunemente para o mar. Enfim, coisas e loisas, de um país que ainda não se libertou de todos os seus pesadelos e continua em défice de homenagear um dos seus artistas maiores: o pianista cabo-verdiano-americano Horace Silver. Arquitecto imprescindível do jazz contemporâneo.

N ta mora li

Talvez coubesse dizer que Abraão Vicente, cujo programa televisivo ainda não superou a nossa expectativa, arranhou mesmo a sério algum status quo. Mal proferiu a merecida frase e, abre-te Sésamo, os animais saíram da toca. Furiosos, furiosíssimos. O Carmo e a Trindade, mais a ira do instalado, vociferam pela cabeça do jovem artista. Obviamente que há um pensamento estruturado para a Arte, inclusive a plástica, mas , em strictu sensu, Vicente terá acertado na mosca. Grande cabeçada de Zidane. Um dos sintomas desse hiato, é o corporativismo exagerado de certos barões que se acham imunes à crítica. Hora de molhar as bases desse castelo só de areia. Fui…

Bónus track

Ataque israelita ao Líbano: meia centena de civís mortos. Permitam-me a licença de vomitar. Não tenho estomâgo...

terça-feira, 4 de julho de 2006

Zero Ground em lhana manhã de Julho





História, com Poesia

O país faz anos (31 bem contados) e o mote da crónica é esta efeméride, a maior (e a melhor) do processo histórico de Cabo Verde. A Independência Nacional é o momento zero no chão da República. É mais do que isso: um país que desponta para o mundo, com passos seguros e notórios. Os aspectos exaltantes ultrapassam de longe os pontos críticos. Pessoalmente, orgulho-me deste país e, na próxima encarnação (se a dita existir), quero voltar cabo-verdiano. Regozijo-me com o desempenho global do país e com a tangibilidade da malha nacional até à diáspora. Faz-se História, com Poesia. Permitam-me que eu dê uma salva de palmas a Cabo Verde. A minha última ovação fora a um pôr-do-sol em Fortaleza. Na velha Ponte dos Ingleses…

Independência às escuras

O aniversário da Independência Nacional é comemorado às escuras. A meretriz uma vez mais nos prega partidas e nos ludibria com técnicas à mistura. Caso para dizer que ela não está “tecnicamente” em condições de permanecer. Há um rol de anos, o Pranchinha vivíssimo da silva questionara o negócio da China que entregava a água e a energia ao bandido. O lúcido já vira dar muito ouro ao bandido, mas água e luz era mesmo coisa inédita. E fazendo jus ao bizarro, a monopolista revelou-se o mais formidável caso de incompetência, abuso e burrice de que se tem notícia. Obviamente que falo da magnífica, mas desavergonhada Electra, cujos poderes ocultos ninguém ousa pôr em causa. Mal a crítica se aponta, saem os cães de fila em defesa do dono e o afoito se encolhe, não vá o diabo tecê-las. A pedir medidas terminais, a Electra entra-nos nesta lhana, manhã de Julho, como diria o Poeta Osvaldo Osório, em sua máxima sabotagem. Caso para gritar, a despeito de incomodar os senhores da praça: Viva Cabo Verde, abaixo a Electra…

Breu, lixo e kásu bodi

Não se pretende agora estragar a festa, nem ser aqui desmancha-prazeres, mas este ano prefiro ficar em casa, alheio a qualquer forma de procissão. Este amuo não tem a ver com o Plateau esburacado e descaracterizado, para o gáudio de muito bairrista de serviço. Tão-pouco tal resistência pretende boicotar algo. A emenda e o soneto se merecem. Quem sou eu afinal? Apenas um temente de Deus – não dos pequenos deuses de esquina, note-se –, mas que não se ajoelha em nenhum altar. Ou tão-só um indignado do breu, lixo e kásu bodi…

Nota aos colegas jornalistas

Achei desproporcionada a reacção dos jornalistas (não de todos, por sinal) às declarações do arquitecto Frederico Hoppfer Almada. Naturalmente que o termo “expulsão” não foi elegante, mormente vindo de um político. Ímpetos de linguagem, quem sabe. Entretanto, não houve entre a classe a apreciação do contexto e do conteúdo dessas declarações. Pelo que se depreende o cavalheiro não pôs em causa a liberdade de informação dos jornalistas, mas sim o desempenho deficitário dos mesmos. Não sei se houve de facto casos de incompetência, pois me faltam dados para ajuizar. Mas se a incompetência for confirmada, manifesta e recorrente, nada mais legítimo do que a sua contestação, em defesa de uma melhor informação e comunicação social. Sem dramas, nem politiquices. Os padrões de qualidade devem ser exigidos a todos. É a condição do mercado, caros amigos. Ademais, ninguém deve estar acima do crivo crítico. Com elegância…naturalmente!

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Dia dos Namorados




Argila
Dimas Macedo

Em duas partes
a vida se divide
e em duas artes
o imponderável
do corpo se revela.
Pela primeira arte
o rito do amor é chama;
pela segunda
o mito da paixão é dádiva.
E a dor de não amar
o amor é devaneio torpe
porque o prazer inflama
a dor de não doar
o corpo ao precipício.
E tudo que tu dizes
o barro dos teus olhos
o brilho do teu rosto
o sal dos teus dedos
de marfim e tédio
tudo é impasse
pois tudo está exposto
à liturgia da divisão das partes.

Diário do Nordeste,
Fortaleza, 12.06.06
Dia dos Namorados

Jornais da terra, Copa 06 e “changedidame” de São João





“O forró corria solto,
Sem problema e sem vexame
Quando o chefe da quadrilha
Decretou changedidame [...]
(“Quadrilha”, de Chico Buarque)



O que vai na imprensa…em diagonal

Apesar da pressa, leio os jornais de Cabo Verde. O cronista tem de estar informado. Ainda que diagonalmente, a questão dos salários me pareceu o tema quente desta semana. Uma crítica do leitor atento abordou a questão do tema quente. Há gente que gosta da realidade. Fazer o quê? O Governo pode não dar 5%, mas tem de explicar à opinião pública e aos parceiros sociais as reais vantagens de o país não perder a dinâmica do crescimento. É difícil assumir, mas João Serra tem razão. É preciso segurar o despesismo, mesmo diante do desafio da inflação, para que haja solvência económica. Não é fácil não dar. Só por uma coerência económica e uma coragem política é que se segura o ajustamento salarial. A hora é de contenção, pois, adicionado aos choques externos com as flutuações do petróleo e do dólar, Cabo Verde tem convergências a cumprir, dívidas a pagar e transição a fazer. É preciso abrir o jogo com a opinião pública e os parceiros sociais, explicando-lhes que a ética social tem estratégias, prioridades e prazos. Em democracia, a comunicação é um “must”…

A Copa 06 e o começo sofrido

Começo sofrido...A Copa começou e eu passei os primeiros dias a sofrer. Perderam a Costa do Marfim e a Angola. E a vitória do Equador não foi suficiente para me estimular. Tanto que vi o Gana a jogar de costas para a minha televisão mixuruca e de cara para o meu portátil. As minhas experiências com o telão de plasma acabaram traumáticas: todo o mundo a comemorar ruidosamente e eu a sair de fininho.

Forró solto na Praça do Ferreira

Mais bonita que a Copa, olhada na minha tevê mixuruca ou no telão de plasma do Clube, são as festas juninas, em prol de Santo Anónio, São João e São Pedro. Mais bonita, mais interessante e mais autêntica, diga-se. Festas que prometem chuva, amor e sucesso. Estes santos dos amores e de assuntos afins. As afeições perdidas. Os namorados, noivos, maridos ou amantes distantes. Os amores frios ou apartados. Festas que o povo realmente gosta. E corre solto o forró e o povo todo dança, na Praça do Ferreira. No Nordeste Brasileiro isto é levado mesmo a sério. Durante todo o mês de junho, noite ou dia, os acordes das sanfonas, dos triângulos e das zabumbas, arrastam milhares de pessoas. As ruas são ornamentadas com bandeirinhas e balões para o forró e o passeio das quadrilhas. Passa por mim um casal – ele Lampião e ela Maria Bonita – e tenho a impressão de viver um quadro de José Lins do Rêgo, romancista maior que muito influenciou gente nossa. Fogueiras, batatas-doces assadas, canjica, quentão, milho verde assado, pipocas, quadrilhas, bumbas-meu-boi, simpatias, fogos de artifício, bombinhas e busca-pés. Mas o melhor mesmo é cuscuz, servido com leite de cabra e guisado de bode. Onde já vi isso? Em Cabo Verde como no Nordeste Brasileiro, faz-se também a sorte da clara de ovo dentro do copo de água. É a forma de ver se o ano será de estiagem. Ou de boas águas…

Ah…esse filme

E a propósito de começo sofrido, temos de encarar os começos com entusiasmos comedidos e olhos críticos. A democracia é aquela que nos permite remar contra a corrente. Contra a navegação recorrente. O “changedidame” do forró. O Pranchinha diria que o último a sair, apagasse a luz do aeroporto. Isso se a meretriza da Electra não nos antecipar com um maravilhoso apagão. Mas indo ao tema quente, como exigiu um cidadão leitor, começa a operação de repariamento dos clandestinos. Começa também a operação da NATO. Começa ainda a operação dos Sindicatos Livres. Tanto começar, minha gente. Acho que conheço esse filme. Morremos todos no fim…

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Viva a Copa 2006

À guisa de Zero

Os meus encontros com Dimas Macedo, poeta e Procurador do Estado, são caudalosos almoços. Fazemo-los em dias de tarde livre, pois há troca de livros, ideias e novidades. Recitamos os bons poemas que atravessam lugares e tempos. Hoje – diante do bom peixe na brasa, com arroz de brócolis e acondicionado a suco de cajá - falou-se das grandes famílias do Ceará. Das relações políticas, dos casamentos de conveniência e do coronelismo mutante. As políticas públicas, cá e lá, também assistiram à nossa sobremesa (o obrigatório doce de mangaba). E marcamos assistir juntos (num clube com telão de plasma, claro) o Brasil x Croácia. Bem, isso era para abrir a crónica…à guisa de Zero, como diria o saudoso Pranchinha.

A terra dos nossos avós

Não será com Micheal Porter, nem com gurús afins que estas ilhas avançam. A questão é cultural. Temos de saber identificar na nossa cultura os factores do desenvolvimento. Essa coisa de importar tudo acriticamente - de suco de fruta a gestores aeronáuticos, passando por jogos de azar -, não trará soluções sustentáveis. Importam mudanças de fundo e não a obsessão de colocar o arquipélago no “ponto-de-venda”. Sem triunfalismos, mas com estratégias. Vamos, sim, construir “a terra dos nossos avós”…

Na moda e a Electra

Cabo Verde está na moda, mas às escuras. Os apagões da Electra são o grande embaraço, numa altura em que se quer convencer a todos que já estamos PDM. Abuso, deboche ou inspiração rasteira? Espera-se, sinceramente, que o bréu já esteja a mexer com a paciência daqueles que dão as cartas, pois os cidadãos de há muito que querem ver essa fraude de malas aviadas. Na moda, dizia, mas está muito difícil. A Electra jogou todas as suas fichas e perdeu-as. Ou será que tem outros trunfos? Na manga, acredita-se…

Nato, patronato e o Pop xô di bola

O que destrinça Cabo Verde dos demais é o orgulho do cabo-verdiano. Estando na roça de São Tomé e Princípe, na fábrica em Boston e na construção em Lisboa. Patronato, mas devagar. Nato, idem. Sem perder o decoro. Há dias, já ía acontecendo com um karkamano a guiar na contra-mão em plena Praça Nova. E não é que o homem esperneou e fez break-dance quando a polícia o quis multar! O natinho malcriado esteve para levar umas bolachas da Pop no Mindelo. Gostei. Xô di bola! Pobre, mas não miserável. Não estamos na Copa 2005, mas Cabo Verde tem futuro, sim senhor…

“Intelectual orgânico” em tempos de Copa 2006

O meu amigo Casimiro de Pina continua (elegante e fino-da-bossa) com aquilo de “intelectual orgânico”, palavrão anacrónico desde que a pequena-burguesia “subsidiou-se” nos anos noventa ao invés de “suicidar-se”, como era vaticínio revolucionário. O jargão de “intelectual orgânico” já não move catedrais, nem arrasta multidões. Isso era ao tempo em que o pessoal ía aos comícios sem bandeirolas, nem camisolas, quanto mais feijoadas. Hoje, é a Copa 2006. Outros tempos…orgânicos!

domingo, 4 de junho de 2006

Água ardente de cana boa



(Feira de agronegócio. O jovem belo, alto e negro,
cumprimenta “Shalom”. Não se sabe se às frutas ou
se às damas provantes desse aguardente. O aroma
da cana leva à minha ilha. Estou, estamos, ó musa,
no Pelourinho da Cidade Velha)



Na minha ilha, antes do agronegócio, brancos e negros
Descobriram o segredo da mistura, e nós, douradíssima musa,
Somos este sumo abastecendo o mercado mundial da sede
E, sem conservantes nem corantes, apenas tesão, de navegantes…

À beira dos trapiches, onde o canavial de vista se perde, eles
Amavam-se alheios à história, deuses e costumes, resinados
Qual gota que pinga, açucarada e ácida, mel de alambique
Que o vulgo, em malicioso lumdu, cantava ali quem come quem…

A minha ilha é a história dos escravos, e sob a terra frutal
E as oceanosas águas das baías e recifes, vivas aguarelas
Brotam, na medra do antanho e do boi na bumba, amor e ódio…

Canas, canoas e canoras aves, casas, sobrados e casebres,
Mangaba in natura ou alfarroba da Costa, ó navios do mundo,
Judeu azevichado noutro fanado, comido aqui no bacanal das Cinzas…

Banana passa




Às musas da Praça do Mercado


Quando levas à boca a banana passa, do Jequitinhonha,
Fruta do conde, carnuda e polpuda, vêm à minha ideia
Os pregões em clave, vendedeiras da Praça do Mercado,
Banana prata, nanica e nanicão do Vale da Ribeira…

E, no paralelo vão dos tabuleiros, esteiras e bandejas,
Frescas, fritas e secas, viajando-me à minha infância
Nha Mamãzinha a desidratar bananas ao sol da tarde
E no alarde do sereno, as solturas do primeiro olhar…

Ali, na Praça do Mercado, também rolava-se o tabaco,
Em folha e louro, de mascar, cheirar ou fumar, o chá e o clã
(depende de ocê, dizem) de canhoto fino ou mais vagabundo…

E no turbilhão – araçá pêra, maçã gala e abacaxi pérola
- estou com mamas, mamão e calabaça (xarope, dizem),
Na mão delas…banana prata, nanica e nanicão!


(Aos 40, as frutas souberam-me outras, aveludadas na mão,
sucolentas na boca, polpudas de ver, caídas nas cores serenas
e tresandadas nos desejos que me latejam ainda nos poros)




Tão outras como eram aqui aos 20, as frutas
Mordidas em toda a água, sal e carne, vicejavam,
De cesta à boca e de boca ao âmago, lembranças
Que foram em mim o visco e o cisco palpitantes…

Aprendi nelas, nos idos anos, que as palavras,
Em alto estado de sêmea ou fêmea, já dizem
A semente curvilínea das dunas e o ardor semântico
De quem se aninha ao lado e sabe à rosea das uvas…

E, atento aos perfumes, tácteis e visíveis, ouço,
No mais fundo do tempo, das cerejas o fresco gosto
Com que nos laranjais a minha fome incendiava…

Fendas abertas à mão, manchas tatuadas, veias
Corridas em quentes seivas e que, versos desaguantes,
Deixavam – não as marcas, mas a sede que fui aos 20…

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Assinando por Morris Makkar


Eu assinaria, sem pestanejar, a petição pela permanência em Cabo Verde do Dr. Morris Makkar. Não me interessa as suas opções políticas, religiosas, futebolísticas e quejandos. Quero até crer que elas seriam divergentes das minhas. Who cares? Mas o que significa (e muito) é que ele, além de exímio profissional, tem sido um amigo incondicional de Cabo Verde e dos cabo-verdianos. Quantas vidas o Dr. Morris terá salvado, não só pela sua intervenção clínica, mas pela sua dedicação humana (e humanista). Conheci-o em circunstâncias públicas e privadas. Ao longo de mais de vinte anos. A viver o dia-a-dia connosco, em momentos de euforia e de tristeza. Valeroso ser humano, a preservar. Para lá das pequenas razões do quotidiano. Passem-me lá as listas. Numa delas, também perfilo o meu nome...

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Em defesa do património


O património histórico da bela cidade de São Filipe continua a provocar aceso qüiproquó. A cadeia da polémica alargou-se e assiste-se agora a uma divergência de posições entre o Governo e a Câmara Municipal. Esta última acusa aquele de “politicamente inconveniente e tecnicamente inoportuna”. Sinal de ambiente democrático, meus senhores. Vejam o fenômeno pelo seu lado positivo. O âmago de tudo é a preservação e a promoção do património histórico, um dos maiores recursos da cidade de Pedro Cardoso. De momento, não se antevê outro factor alavancador do desenvolvimento de São Filipe que não o investimento pesado na sua história e no património que a testemunha. Para um turismo sustentável e integrador, como é moda afirmar. Delapidar esse património ou mesmo negligenciá-lo é claramente perigar o futuro da cidade. As atitudes de Fausto de Rosário e outros, a despeito das querelas antigas, algumas típicas da freguesia, devem ser tomadas como uma chamada de atenção para o futuro patrimonial, no rol das riquezas nacionais. Eu louvei-os e saudei-os, de espírito aberto. E naturalmente que Manuel Veiga fez a coisa certa em pedir delicadeza, elegância e competência. O património histórico transcende o crivo exclusivo da Câmara Municipal. E já agora é assunto que extravasa o próprio Governo. É questão (interdisciplinar) que interpela a todos (e não apenas os da nossa geração). A perspectiva demanda por isso a cidadania mais crítica. Pessoalmente, pareceu-me simplista, anacrônica e redutora a forma como a edilidade vem enfrentando o afrontamento protagonizado, em boa hora, por Fausto de Rosário e outros...