terça-feira, 16 de maio de 2006

Boat people e o copo meio cheio ou meio vazio




0.
A crónica desta semana não será sobre o 19 de Maio, como havíamos prometido a um velho amigo que também comunga um desmedido amor pela cidade da Praia. Desmedido e incondicional, nas antípodas daqueles que a desamam e projectam nela frustrações cabeludas e agouros também peludos. A crónica desta feita incide sobre os ‘boat people” e o sistemático tráfico de seres humanos que cruza os nossos mares e, por vezes, ronda as nossas costas.

1.
Para contextualizar melhor os leitores, deitamos mão à premissa das Nações Unidas que consideram o tráfico de seres humanos como um dos grandes crimes contra a humanidade, ilícito que ombreia com o tráfico de armas e o tráfico de drogas. Em relação a isso, não se pode excluir que estes os três hediondos “movimentos” não estejam a utilizar, com mais frequência do que pensamos, as águas de Cabo Verde.

De vez em quando, um navio é interceptado, prova que as nossas autoridades, apesar da escassez de meios e recursos, estão empenhados na luta contra tais ilícitos transnacionais. A meio do caminho das rotas atlânticas, Cabo Verde também é geoestratégico para os grandes tráficos. Ultimamente, o tráfico de seres humanos nos parece mais incidental pelas nossas águas. Será que estamos preparados para lidar com isso?

Líamos, há dias, e ficámos caídos de mágoa, sobre um barco à deriva com onze cadáveres a bordo. Nas águas de Cabo Verde. O barco terá sido descoberto a boiar no oceano por um pesqueiro. As autoridades foram notificadas e, dois dias depois (fazer o quê) a guarda-costeira vai tentar interceptar o barco, entretanto já desaparecido. O facto, noticiado marginalmente pela Comunicação Social, não moveu tanto a opinião pública cabo-verdiana. Entretanto, a situação era diabólica. Mais do que greves em fome, pelo menos. Era uma cena dantesca que transcende a soberania, a fronteira e o Estado. Tem a ver com os seres humanos. Com os Direitos Humanos. Com a Humanidade…

2.
Cabo Verde teve outrora a tristíssima glória de ser o grande entreposto dos escravos no Atlântico Médio. A Europa mercantilista se fez graças ao tráfico humano. A grande riqueza do Ocidente tem fundamentos sangrentos. E Cabo Verde, mercê da sua posição geoestratégica, foi uma base avançada e crucial para a transposição dos seres humanos, em mão-de-obra forçada. A cena repete-se. Infelizmente… Os seres humanos transportados nas balsas e botes não passam de vítimas e de desesperados à procura de alimento para os seus filhos. Não passam de escravos modernos, em condições piores e mais vergonhosas do que a dos escravos antigos.

Desde a abolição da escravatura, o tráfico e o comércio internacional de seres humanos voltou-se para fins de exploração e prostituição. Sabe-se também de outras actividades lucrativas, como a mutilação de crianças para sua utilização como mendigos, ou a extirpação de seus órgãos para bancos de transplante clínico. Este comércio tem um padrão visível: os escravos são provenientes de regiões pobres e levados para as regiões ricas.

Quanto não morrem, como outrora, na travessia. Os corpos mumificados à deriva no Atlântico, ei-los. Gente morta pela fome e sede, na desesperada tentativa de um norte qualquer. Estes seres humanos não saem para o largo oceano por razões prazeirosas, mas por razões de sobrevivência. Se permanecem, morrem à fome, doença ou guerra. A saída é inexorável e implacável. Com as suas consequências…

Naturalmente que entendemos as razoes do Estado e o estado da Razão. Apoiamos a posição de mão dura para com o tráfico dos seres humanos. Mas o combate ao tráfico tem a ver com a destruição implacável dos traficantes e suas conexões, e não com a falta de solidariedade humana com as vítimas. A abordagem de Cabo Verde tem de ser cuidadosa, delicada e humana.

3.
De repente, há gente que olha a segurança colectiva do Estado e da sociedade como Sancho Pança via os moínhos. Apenas pela sua externalidade. Pelos seus significantes. E esse olhar pode ser perigoso e irresponsável, pois não exige uma análise de conjuntura e muito menos de profundidade. Qual o papel de Cabo Verde em face do surto dos “boat people”? Qual a melhor abordagem em face de um problema que ora nos ultrapassa e nos interpela de molde recorrente?

A geopolítica não exige de nós um olhar apenas Atlântico, mas aquele interatlântico e quiçá mesmo transaltlântico. Mas a existência nos obriga a um olhar humano e humanista. Contra a hedionda escravatura moderna. E quem está na linha média, charneira e divisória, de muitos universos (geoestratégicos, económicos, outros), no Atlântico Médio diríamos, terá de reformular o seu olhar no que toca ao papel a desempenhar. A vulnerabilidade dos pequenos estados insulares também reside em ficarem a meio dos tráficos (armas, drogas, minérios, seres humanos). E essa vulnerabilidade pode ser pensada, isto é estrategizada. Em prol dos nossos interesses e princípios. A conceptualização dependerá da lógica de mirar: ou o copo meio cheio ou o copo meio vazio…

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Belle Époque (revisitada) e lodoso




Lodoso

Sob as grotas e gretas, as águas que rolam
Aqui como sonatas, quando ali lentas
Valsas pelas curvas das pedras redondas, ora luas
Reflectidas nos cursos dos meus pensamentos…

Vai-se com as águas, aos saltos e trombolhos
Caem-se volumosas em cascatas, toneladas
De alcalinas e límpidas hidras, sobejantes
Entranças e enseadas, teus buracos e grutas…

Musgos e trepadeiras, algas e limos, sumos
De nascentes parideiras como as frutas
Aquantes todas de bocas em ácidas salivas…

No dentro e no fora, de fome e de sede, de tudo
Que mergulha e embebe, quão em leito embriaga,
O tão-só estar assim lodoso no teu corpo…

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Exercícios nada poéticos

Um olhar
Igual
E desigual
Quase teleguiado
Dado ali
Em Nashua Park…

As montanhas
As escumas
Os penedos
A morna
Da cor
Do blues…

O Charles River
Anos esquecidos
Sentado em transe
Onde Borges sentara
A escrever
Borges e eu…

E tu eternamente
Água
Pedra
Ar
Nada
Eu…

Geneva Blues N° 2

Nas ruas da cidade






CONSOLAÇÃO

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de fato o amou?

Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a esperança e ligeiro despede-a. Ele é preponderante sem tomar parte em nada.

Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro. No grande meridiano onde inscreve o seu curso é a minha liberdade que o escava.

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa onde vai no tempo dividido. Já não é meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de fato o amou e de longe o ilumina para que não caia?

René Char

segunda-feira, 8 de maio de 2006

Ad vinho (de um Frangelico)


De repente, és tu
À beira-rio
de mim;

Trago-te
(de um Frangelico)
Taça
Inteira como um
Ponto…

Olho-te
de novo
- frutal
e floral
esse vinho.

Teu corpo
De um trago…

Navega


Eu sempre fui fã de Mayra Andrade, de modo que sou suspeito. Desde a primeira vez que a ouvi, ainda pupila do malogrado Orlando Pantera, o mais inovador dos modernos músicos cabo-verdianos, apercebi-me diante de uma estrela em ascenção. Tempos depois, em 2001, ela ganhava a Medalha de Ouro nos Jogos da Francofonia, no Canadá. E ganhara com a composição “Lua”, de Princesito, de certa forma descoberto por mim no Programa Cultural Summer Stravaganza, na cidade da Praia. De então a esta parte, Mayra tem sido sempre a boa nova que amplia o nome de Cabo Verde e a sua música. Em várias paragens, onde não sei se por sorte tenho ancorado, a fama de uma menina linda e inteligente, com voz de rouxinol, ecoa nos lugares. Ora, cantando mornas à boa maneira de Cesária Évora, ora interpretando batuques qual Tcheka Andrade em transe, quando não recriando poética como Mário Lúcio no terreiro. Ela acaba de lançar um álbum. Em verdade, o primeiro álbum. Com uma plêide de gente boa e calibrada. Desejo-lhe sorte e ventura, pois no showbizz talento não é tudo. Que tenha sucessos e que continue a afirmar, mesmo que a força bruta diga o contrário, que Cabo Verde está na moda. Viva Mayra! Navegando. Eh, pá…sou suspeito!

domingo, 7 de maio de 2006

A Peste, Bebop no sampa e Fumaça Da Best





Só ponho be-bop no meu samba
Quando o Tio Sam pegar no tamborim…
Gilberto Gil



Intro

Ao tempo que gostávamos dos filmes americanos, os feios, os anões, os vesgos, os fanhos, os pobres, os índios, os negros, os mexicanos, os russos e tantos outros eram os maus. E esses filmes, depois de os matar, serenavam com o hapy-ending de ocidentalíssimos e brancos beijos, que a meninada, do balcão ao geral do Cine-Teatro Municipal da Praia, aplaudia em uníssono. A cidade do nosso Cinema Paradiso era pequena, tacanha, ainda não dilacerada pela peste do dito desenvolvimento. Paradoxalmente, defensor que sou do crescimento e da metropolização da nossa cidade, acordei hoje meio nostálgico. O ufanismo e o triunfalismo me irritam. Enfim, não me é fácil entender que o samba não é rumba, como reza a música de Gilberto Gil. Nunca…


Fumaça Da Best

Releio A Peste, de Albert Camus, e o branco que me invadiu desde a alva se dissipa. Exilado por conta própria, dou largas à saudade e repenso a peste que nos sobe pelas paredes. Cercados pela peste, a nossa burguesia mantém a farsa para o inglês ver. Os jornais vendem “cada vez mais tanto”, os empreendedores movimentam-se e não será desta que a cidade morre de tédio. A peste camuniana existe, sim. Ela nos dilacera vagarosamente. Como um cancro. Casino no ilhéu de Santa Maria, Copacabana no mar da Lajinha e sucupira-se quem puder. Entrementes, Mito apresenta Li-Sim-Sim aos ascendentes de Nho Mateus de Tchaina e Mano mostra Na Ri Ná em Macau. Coisas boas. Mas no mais, mundo é bemba. Quase Denda. Tudo muda. E vira-mundo travestido. Tamanho absurdo só me é lembrado aquele de Fumaça, o imortal da nossa infância, que atirava pedras ao sentinela para o prenderem também aos domingos, dia que os algozes davam grão-de-bico ao almoço na Frigideira. Distantes dias, como os hoje da NATO e seus sonares, dos britânicos e os seus solares, e dos traficantes e seus jeeps-em-pó + advogados políticos & família internacional, etc, coisa e tal. Nesta Ode Triunfal, uma homenagem ao Fumaça…Da Best!

Sejam pois salazes, fasceninos e satânicos

Ainda aturdido (pela imprensa) com a greve de fome – de Anthony Garotinho (político do Rio de Janeiro), não me confundam -, leio, com gozo, a crónica de João Ubaldo Ribeiro (este sim, escritor de vera) discorrendo sobre hamburguers salazes, quibes fasceninos e empadinhas satânicas. A boa escrita está também na irreverência contra mártires antigos e aqueles feitos a toque de caixa. Lembro-me também do filme de Marco Ferreri – a Comilança, em tradução brasileira. A pornografia de comer, em oposição à pornografia de não comer. A gula nas antípodas do jejum. Melhor representação das baixezas humanas impossível. Os moralistas de serviço, patrulheiros da fina medíocridade, hão de buscar semelhanças com as coisas e loisas da Tapadinha. Quaisquer semelhanças, são coincidências e já estava a escapar-me, aqui e agora, um palavrão…

Rábula em epílogo de um Email

Em greve? Já agora (e entre nós)…há também a questão da Electra, da Poupança dos Emigrantes e (nunca é tarde) dos Enacóis & comandita. Vamos a isso, há várias formas de contestar e de impugnar, benzendo nunca o instituído. Enquanto se rabentoliza a vida, A Peste toma conta da nossa cidade…

sábado, 6 de maio de 2006

DAK' ART

Afrique : entendus, sous-entendus et malentendus


Que n’avons-nous pas entendu sur notre compte et que ne disons-nous pas sur nous-mêmes, nos coutumes et nos valeurs ?
Que ne disons-nous pas sur nos voisins proches et lointains qui du reste, nous le rendent bien ?
Dans le domaine social, qu’entendons- nous par exemple par : Hommes et femmes, Adultes et enfants, Aînés et cadets, Blancs et Noirs, et que faisons-nous des métisses et de nos diasporas ? L’Afrique est-elle une ou plurielle ?
Quand nous disons, citoyen, patriote, rebelle, qu’entendons-nous et que sous-entendons-nous ? Un patriote peut-il être un rebelle ? Un rebelle peut-il être un patriote ? Que sous-entendent la prolifération des nouvelles églises et la montée de fondamentalismes musulmans en Afrique ? Que deviennent les religions dites traditionnelles africaines ?
Dans le domaine économique, qu’entendons-nous par développement et sous développement ? Ne sous-entendons-nous par exemple que les pays dits sous-développés le sont en tout point, y compris dans les domaines des arts et de la culture ? Est-ce juste de penser que plus les hommes sont riches, plus ils sont heureux ? Est-ce un malentendu, une erreur, ou tout simplement préférons-nous, à tort ou à raison, le malheur des nantis au bonheur des pauvres ? Pour des Africains, quelle est la pertinence des notions comme « secteur informel », travail des enfants ?
N’avons-nous pas confondu indépendance et libération, et ne confondons-nous pas démocratie et multipartisme, démocratie et élections, pouvoir et richesse, dictature et stabilité politique ? Les guerres et les conflits si nombreux en Afrique procèdent-ils de ce que les protagonistes se connaissent trop bien, ou relèvent-ils de malentendus qu’il suffirait de lever ? L’explication des guerres et conflits par des antagonismes ethniques et religieux relève-t-elle d’un malentendu ?
Dans le domaine des arts, du monde de l’art, qu’entendons-nous par « traditionnel et moderne », par « moderne et contemporain » et que sous-entendons-nous ? Quels sont les entendus du refus de l’appellation « d’artistes africains » par des artistes qui ne renient pas pour autant leur origine africaine ?
Les artistes ne sont pas invités à illustrer ces thèmes. Il suffira que, directement ou indirectement, l’œuvre proposée aborde l’une de ces questions.

Yacouba Konaté, Commissaire général de Dak’art 2006.

Photo : Axel Reuter

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Geneva Blues

Récit de piraterie à Genève

Falando em Genebra, cidade que amo como poucas, tomou conta das festas a Slam Poetry, ali afrancesada de La Slam Poésie. Uma poética viva, lúdica e pública da geração hip pop. Vamos abrir as janelas e as mentes para metáforas mais psicadélicas e mais movimentadas. Uma espécie de versão, em vate metrificado, do graffiti...Qu´importe, c´est l´esprit qui compte!

Lokua Kanza, eu e o Dia da Cultura


Lokua Kanza
Fim de tarde. Horas esquecidas a escutar Lokua Kanza, Arnaldo Antunes e Tcheka Andrade. Gosto de misturas. Um espécie do DJ Maluco que mandava tocar U-2, Bob Marley e Beethoven. A 9ª Sinfonia, imaginem. Lokua Kanza canta agora Shadow Dancer. A primeira vez que escutei Lokua Kanza estava em Genebra, mais precisamente na Gare de Cornavain. Nevava. Agora chove...
Um lauto banquete de sons

Manuel Delgado escreveu, no Paralelo 14, que Lúcia Cardoso nos esmagou com a sua voz bem timbrada, um repertório todo ele brasileiro, mas do fino (Tom Jobim, Chico Buarque, Edu Lobo, Ivan Lins, Ary Barroso), pondo a voz lá onde a queria pôr sem nenhum esforço, como acrobata que treina muitas horas por dia. Lúcia traz ainda para os palcos cabo-verdianos algo que falta até à Cesária: presença em palco. Manel dixit...
Xoo
Hora do lanche. Canja quentíssima. Goiabada, pão de forma, queijo de Minas, catupiry e aipim. É Dia da Cultura da CPLP. Publica-se, diz a imprensa, o livro "Cabo Verde - 30 anos de Cultura". Brinda-se por cá com caipirinha. Outras paragens...

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Papo com a Professora Yoná


1.
Pelo que se vê, a Independência Nacional nem sempre acarreta soberania, na verdadeira acepção da palavra. Há que ressemantizar ou a Independência Nacional ou a própria soberania, em muitos casos. Não falo do caso de Cabo Verde, em particular, mas de muitas independências afins e circundantes, onde o povo continua a morrer (ou a viver) da doença, da guerra ou da miséria. Em alguns casos, as elites traíram literalmente os ideais das independências, inscritos no desempenho dito revolucionário. Ou viraram burocratas de esquerda e de direita. Ou caíram de quatro diante da contra-dança neoliberal. O "suicídio", preconizado por Amílcar Cabral, o grande teorizador sobre as elites africanas, continua a ser um fundamento interessante, se visto de uma perspectiva mais científica do que circunstancial…

2.
A Independência Nacional, diria, configura um momento importante e charneira,senão mesmo refundadora, na vida de qualquer povo. Mas ela não representa o instante matricial absoluto como alguns nacionalistas exacerbados a percebem. As ciências políticas vão a par e passo relativizar todas os fenômenos políticos refundadores, entre os quais a Independência Nacional, e, em conseqüência, destrinçá-los das visões absolutistas que se quer impor. A minha ideia da Independência Nacional, não vá alguém reinterpretar estas palavras erradamente, é que ela representa sempre um meio de autonomização dos cidadãos, num paradigma patriótico e estadista. O resto é política, jogo e sedução do Poder...
P.S. – Tempo apenas para deliciar um café expresso e lembrar um trecho de Edgar Morin sobre a interdisciplinaridade. Os bloguistas me perdoem, mas saí de casa sem reler os quotidianos versos de Fernando Pessoa...arre!

domingo, 30 de abril de 2006

Chuva, raios e coriscos…



Em chuvoso

Neste bairro, de onde se vê, de um lado, contornos da serra, e, doutro lado, fiapos do Oceano, acorda-se cedinho com o cantar do galo. É um cantar surrealista numa cidade de mais de 2 milhões de habitantes e com crescimento urbano notável. A clave desse cantar lembra os pregões das peixeiras de São Vicente, como muito bem reparou Vasco Martins e de, certa forma, o esboço da alva no Tarrafal, de Santiago. Acorda-se cedinho, dizia, e fica-se contemplativo. Chove torrencialmente sobre Fortaleza. Da janela deste apartamento, o resto da cidade se esmaia na neblina. Mais tarde, haverá sol rachado e desabrido. Quem sabe eu sorrisse ao mínimo olhar dos transeuntes. Mas por ora é chuva. Chuvosa esta minha alma…

Protestos e reivindicações

De repente, novas formas de protestos e de reivindicações – greve de fome, carta-aberta e acorrentamento público – emergem da sociedade civil. Buzinão já era. Passeata, então, virou jurássica. Novíssimas formas de luta, dizia. E até certo ponto, a classe política (situação e oposição) lida com elas de forma difusa. A imprensa também. De todas as manifestações, a greve de fome parece ser a mais radical e, em consequência, a de mais difícil solução. A complexidade da questão envolve interesses e princípios, em relação aos quais os precedentes, se abertos, mudam os fundamentos da nossa forma de vida. A questão envolve a edilidade, o Estado de Direito, o direito do Estado e os direitos humanos. Não nas suas circunstâncias, mas na sua transcendência. No caso da Britar, por exemplo, que acompanho à distância, a melhor solução é a negociada, onde a premissa deve ser win-win, ou seja onde todos ganham, mitigando paritariamente os riscos e as perdas. A solução absoluta (e fascista) de um ganhador irredutível e intolerante seria neste caso desastrosa. Aliás, não seria solução. As novas formas de luta estão instauradas e urge alguma delicadeza em evidenciá-las. Até porque é preciso salvaguardar as legalidades. Analisar as legitimidades. Intuir que com os direitos não se brinca. E com a vida muito menos…

“Bila” revisited

Não deixa de ser interessante que os cidadãos manifestem a sua posição em relação ao património. Esta preocupação de harmonizar o passado e o presente é histórica. «Naturalmente que temos de encontrar a harmonia entre o moderno e o tradicional. Mas não se destrói o tradicional para construir o moderno. Nós temos que ver como podemos harmonizar o moderno e o tradicional», defendeu o ministro da Cultura, Manuel Veiga, numa entrevista ao Jornal A Semana. A preservação e a recuperação do Património Material é um imperativo para estimularmos à memória e a releitura histórica de nossa formação como Nação e País. É importante respeitar e promover o Património. Com activismo, se necessário…Falando nisso, alguém não gostou (e ainda bem) que eu tivesse dado a minha opinião sobre as manifestações em prol do Património ocorridas na cidade de São Filipe. Antes de mais, fi-lo por convicção. Depois, por solidariedade aos envolvidos. E, finalmente (hegeliano sempre), por defender que a contradição é a mãe das grandes mudanças. Ademais, em democracia, não se pode esconder a doença e combater o diagnóstico. Os cidadãos devem estar sim atentos e acesos. Caso contrário, hoje como outrora, um Calígula qualquer pode transformar em senador o seu próprio cavalo...

Aos teus ouvidos atentos

Sim, eu escrevo fingindo a dor deveras. No blog, na folha e no peito. Tatuo-me em graffiti. Sou assumidamente pessoano. O desatendo, confude. E o atento, perde-se. Estou no tapete voador sobre as dunas, as ondas e os sonhos. E, se flutuo, é apenas um lento momento de dança. De graça fugaz e trivial. No mais, escrevo…por ora.

sábado, 29 de abril de 2006

Um browsing pela obra de Omar Camilo


por Filinto Elísio


Faço o download do anexo electrónico e surge no monitor a fotografia do meu filho. Não só o olhar do Pablo (que tem o nome de Neruda) que me encanta. Mas também o olhar do fotógrafo, apanhando-lhe os ângulos e os traços, as luzes e as sombras – deixando no antevisto um prenúncio de memória – me deixa impressionado.

Não me compete fazer uma recensão crítica à obra fotográfica de Omar Camilo. Nem quero ora invadir uma função tão alheia, ademais abalizada e técnica. Ao ver esta e outras fotografias de Omar Camilo, transporto-me para a terceira utopia de Renata Pimentel - para a grande aventura da sensibilidade: De sermos e estarmos artistas, onde a fome de tanta alma nos carece a palma da mão, nos embruta o olho e nos faz leitores que capinam o solo bruto. Aqui e agora, apenas dou-vos a ideia da sensibilidade que me provocaram os quadros de Omar Camilo. É só disso que escrevo, nada mais.

Depois de um demorado browsing, creio não estar a cometer uma heresia (mas se a cometesse, paciência) se disser que o cubano Omar Camilo, mote e razão deste texto, é um dos melhores artistas em Cabo Verde, neste momento.

Destoante da vulgata retrateira instituída, sobre a qual repousa a ideologização dos costumes e regras, ele (por conhecimento de causa) remete-nos, pela transposição (e se calhar pela latinidade) a Frida Khalo, essa expoente das artes plásticas e do expressionismo psicanalítico. Aliás, o espólio de Omar Camilo guarda uma pungente homenagem à pintora mexicana. Não será por coíncidência…

Os quadros de Omar Camilo insinuam o Belo, a estética no seu afã de significado e na sua máxima complexidade. Daí não serem evidentes, nem de fácil fruição e leitura. Eles exigem antes reflexão e introspecção. Os olhos voltados para dentro, como diria o filósofo. É uma obra toda ela com arrebatamentos imagétidos e transreais. Carecendo de atenção redobrada, por conseguinte.

Conheço-o, resistente e renitente, ao quatidiano neurotizado e à fina medíocridade do meio, pagando alto preço por assaz marginalidade. Como enfrentar tenebrosos gigantes quando à vera não passam de moínhos de vento, ó Alonjo Quijano de triste figura? Diga-se, sem desprimor a tantas susceptibilidades e ao mau-gosto novo-riqueiro, que o “artista não-funcionário” continua a ser um “maldito”. Vez por outra, um mecenas para confirmar a regra e raramente uma proposta decente para desmentir este dito.

Omar Camilo nos lega sensibilidade quando o que paira é anestesia! Os seu pais são cegos de nascença. Por isso, a sua necessidade de olhar por outrem e ele é “filho único”. Freud explica. Afinal, há que diga que o Artista se define no id…

Em prol da transparência, repito: este texto nasceu porque Omar Camilo me enviou, por zip informático, uma linda fotografia do Pablo, agora home no meu computador. E, como soe dizer por cá, tô que não me agüento de saudades do meu filhote. Era de sensibilidade a minha prosa, não era?

Também por estas e outras (não) razões, admiro e recomendo-vos muito…Omar Camilo.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Sanfilipe – entre o grito e o silêncio

"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
(Martin Luther King)



Conhecendo, por dentro, a política e o programa culturais do Governo, vejo, com regozijo, que as manifestações em prol do património ocorridas em São Filipe vão em sintonia pensamento estratégico preconizado. O importante, ao fim e ao cabo, são as questões de fundo.

Uma das maiores preocupações, constituindo mesmo uma questão de fundo, do Governo é a salvaguarda e a promoção dos valores materiais e imateriais da Cultura e da História de Cabo Verde. Para tanto, as instituições estão criadas e vocacionadas. E, valha-nos a democracia, o debate está aberto, já que nestas coisas, aqui ou na China, o crescimento briga muitas vezes com o património instituído. O que importa realmente é a noção da cidadania e da realidade.

Obviamente que o IIPC encara com atenção e parcimónia o “tesouro urbanístico”, que é São Filipe. Mas entre encarar e agir, mercê dos meios e recursos existentes, às vezes há uma demora crítica, se não mesmo um hiato. Igualmente, sabe-se que a própria Câmara Municipal tem os seus planos de restauro e de protecção do património construído ali existente. Uma vez mais, entre as intenções, os planos e as materializações vai uma distância exasperante. E o cidadão deve estar atento a tudo isso. A cidadania tem a ver com a autonomia cultural e a autonomia da acção cívica.

Et pour cause, a carta-aberta de Fausto Rosário – não a forma em si, mas a sua essência – tem toda a razão de ser. Outros “Faustos” deveriam ter levantado as mesmas preocupações na cidade da Praia, na Cidade de Santiago, na Vila de Ribeira Grande, na cidade do Mindelo, na Vila de Ribeira Brava e noutras paragens. É preciso quebrar “o silêncio dos bons”. Outrossim, o protesto de três cidadãos acorrentados defronte aos Paços do Concelho não deixa de ser curioso e paradigmático. A cultura também se faz pela indignação. O diálogo entre as posições antagónicas é quase sempre muito profícuo. Não há que ameaçar com tribunais, nem com retaliações. Valha-nos a democracia e a tolerância, repito. Importa dar respostas. As inumaráveis respostas. Dialogar com causa e consequência. Isto é, modernizar a cidade, sem matar os seus traços patrimoniais e idiossincráticos. Depois, há que repensar a “modernidade” e resignificar a “qualidade de vida”.

A Bila, patrimonial e histórica, monumental como poucos espaços em Cabo Verde, tem de ser tombada, restaurada e reanimada. Por uma cadeia complexa e estrategicamente articulada – Governo, edilidade, munícipes, cidadãos cabo-verdianos e não só. Não apenas para o gáudio dos seus moradores, mas também e acima de tudo (como preconiza aliás o Programa do Governo) por respeito à memória colectiva de todos os cabo-verdianos…



quinta-feira, 27 de abril de 2006

A Praia, os tristes do pedaço e a hora cidadã

A cidade da Praia, por ser a capital de Cabo Verde, país insular e nação diasporizada, é a alter urbis de todos os cabo-verdianos. Nela, os cabo-verdianos, em consenso e plataforma, deveriam consolidar a memória e projectar o futuro. Com estas palavras, à guisa de desejo, queria saudar o fórum sobre a “Identificação de Vocações, Medidas de Política, Infra-estruturas e Atitudes para o Desenvolvimento da Praia”, em boa hora organizada pela Associação para o Desenvolvimento da Praia (Pró Praia).

A Pró Praia considera (com toda a legitimidade) que, antes que a cidade atinja 150, daqui a dois anos, “é importante que algo seja feito para a mudança do satus quo da capital do País”. Em verdade, é hora de tematizar a Praia e que ninguém se engane, pois esta cidade resulta de processos sociais, culturais, económicos e políticos complexos. O debate terá de ser também complexo e com perspectivas multidimensionais. Discorrer sobre “Urbanização e Segurança – Impactos, Causas, Consequências e Perspectivas” nos obriga a todos a uma análise retrospectiva, conjuntural e prospectiva, para que encontremos as alternativas sustentáveis. Mister é a mudança e a palavra de ordem deve ser a sustentabilidade…

As ruelas de Ponta Belém, as casas térreas e os sobrados das ruas e travessas, o mercado municipal, os canhões do Cruzeiro, a praça Alexandre Albuquerque e a sua gurita, assim como toda a Várzea da Companhia e a Achada de Monteagarro, são uma parte importante da nossa alma e da nossa identidade, factores, quais impressões digitais, da nossa singularidade, mas temos a convicção que são atributos insuficientes para assegurar a nossa competitividade presente e futura.

A hora é de pensar a Praia como “praça financeira” e como referência cultural, a “last frontier” do desenvolvimento sustentável. Uma Praia com artes, monumentos, museus e bibliotecas. E com os investimentos chineses, portugueses, angolanos e ingleses, já apontados, todos benvindos e necessários. E venham outros, porque a vida nasceu…

Uma cidade como a Praia terá de reinvestir pesado em equipamentos e serviços, como aeroporto, porto, universidade e parque industrial, ao tempo que recoloca na agenda política e no debate social a questão dos custos da capitalidade. Em verdade, só há desenvolvimento quando cruzarmos cidadãos educados em espaços equipados. O resto são histórias (bairrismos, mesquinharias, colonialismos internos, interiores e mentais, e quejandos)…e quanto a isso, de há muito que já estamos acordados, atentos e acesos.

Os tristes do pedaço querem, no entanto, uma Praia retrógada, coitada e tacanha. Bem entendemos o móbil de tal gente. As intenções, mais “piedosas” do que ecológicas e/ou patrimoniais, devem ser entendidas na sua exacta dimensão. Elas têm os seus próprios e acantonados registos. Mas nós, os amantes desta cidade, queremo-la metrópole moderna e arrojada, competitiva com as demais capitais, e para tanto precisamos neste fórum de uma visão de futuro, de uma utopia aglutinadora e, seguramente, de uma estratégia de afirmação.

A insegurança na cidade da Praia (a violência urbana, a tóxicodependência, a condução ofensiva, etc) não é causa, mas consequência, de um abandono e de um laxismo, a vários níveis e de muito, muitíssimo, tempo. Reduzir o debate ao lixo e aos assaltos é empobrecer o convívio democrático. Os cidadãos têm de “pegar nesta cidade”, alter urbis de todos os cabo-verdianos. A pólis é feita de cidadãos (que votam e pagam impostos) e são estes a sua componente mais importante, afinal.

Um abraço apertado e fechado, como o anel rodoviário ora em construção, a todos os amantes da Praia.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Lúcia Cardoso em concerto

A conversa correu em torno de um recital sobre Padre António Vieira. Ela interessou-se pela opereta e quis saber outros detalhes. Em verdade, ainda o projecto permanece embrionário, meio no papel, meio na mente. Disse-me as suas ideias sobre os canticos e pedi-lhe que as repartisse com Ricardo de Deus...

De Renato Cardoso, recordamos algumas letras de música e algumas melodias imortais. E ela tem um projecto de passar tudo para a pauta. Achei bonito...e mais que necessário.

De abalada rumo a Cabo Verde, ela prometeu aproveitar as férias em actividades culturais. Filha de peixe...

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Lúcia Cardoso em concerto
Temas de:
Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Chico Buarque,
Tom Jobim

Tó Tavares (viola)
Ricardo Deus (piano)

Auditório CCP/ICA, Praia, Cabo Verde, dia 27 de Abril, às 19.00h

terça-feira, 25 de abril de 2006

Sima pêtu Sheila


Nenhuma fruta me é tão serenada quanto ouvir a voz de Mayra Andrade. Voz feita de quietude e melaço. Vez por outra energética como o começo de um vendaval. Mas quase sempre eivada de remanso e mar calmo. Viva voz, aqui e agora. Outra voz. Doutrora. Arco-íris e mais cores. Lua nova, lua cheia, lua cambante...o céu por limite.

kandinsky