terça-feira, 25 de abril de 2006

kandinsky

À beira do Mucuripe

Mergulhado nos arquivos

Escrevo, arduamente mergulhado nos arquivos, um livro sobre as relações comerciais (e outras) entre o Ceará e Cabo Verde. Tenho descoberto coisas interessantes e estou cada vez mais convencido de que estas relações, profícuas para os micro e pequenos empresários de parte a parte, estão longe ainda do seu potencial. Neste momento, há um projecto do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) para a abertura de créditos e fomento de exportação e parceria (leia-se joint-venture) entre as empresas cearenses e cabo-verdianas. Esta nova realidade impõe às empresas um realinhamento estratégico para uma nova fase dos negócios. Em certa medida, não se trata apenas de negócio ponta-a-ponta do crescente comércio (formal e informal, note-se), mas de uma rede complexa rumo a novos mercados (África Ocidental, Macaronésia e EUA). Uma nova engenharia empresarial, de maior porte e complexidade, deve ser pensada pelos decisores públicos e privados do Ceará e Cabo Verde. A pesquisas pelos arquivos, remotos e recentes, dão-me esta visão prospectiva...

Cabo Verde X Ceará: small is beatifull

Forçoso reconhecer de que o Brasil não é só um importante player na região, mas um grande player mundial. Autosuficiente em termos energéticos e alimentares, competitivo em termos científicos e tecnológicos, o Brasil caminha, ao lado da China e da Índia, para o ranking das superpotências. Tão grande e transcendente, com uma capilaridade assaz expansionista, que irradia diante dos pequenos países a proposta de novas formas de cooperação internacional. É a linha de “small is beatifful”. Destarte, ressurge a cooperação entre o Ceará e Cabo Verde, inaugurada com o vôo directo da TACV Sal-Fortaleza, um divisor de águas. E neste particular, é de se reconhecer, noblesse oblige, a visão estratégica do então Presidente da TACV, João Ramos e do seu Administrador Comercial, Jorge Spencer Lima, por uma iniciativa tão ousada na altura quão bem-sucedida a prazo...

José de Alencar à mesa

A ideia de abordar as relações entre o Ceará e Cabo Verde (uma bilateralidade atípica tratando-se este de um país independente e aquele de um estado membro da República Federativa do Brasil) nasceu há muitos anos. A sua gênese deve-se de certa forma a razões afectivas. E radica-se à infância, ficando Freud por explicar os seus meandros. Em verdade, o Ceará aparece na minha infância com os textos de José de Alencar que o meu pai, em iniciativa recorrente, fora lendo ao longo desses anos. E no meu imaginário de criança, recriava sertões e cangaceiros, caatingas e forrós, coronéis e cabras-machos. E, em tal filme que ora descrevo, falava-se da proximidade cultural com o Arquipélago. Ao tempo, eram obrigatórias as leituras de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro que provocara algum frisson na pequena, mas dinâmica, intelectualidade claridosa. A obra, que sistematizava o perfil sociológico dos mundos ditos lusotropicalistas e pós-escravocratas, abria pistas interessantes. E o apport de Gilberto Freyre me emprestara uma perspectiva paritária entre o Nordeste brasileiro e Cabo Verde, no tocante ao mosaico antropológico e cultural, definidor em última análise das formas de vida. Sem ser freyriano, nem claridoso, embora reconheça num e noutro enormes méritos (e as suas contradições inerentes), fui reconstruindo no pensamento os pontos de convergência entre os cearenses e os cabo-verdianos. Agora sei que a cachupa e o mangunzá são pratos parecidos. E a Ypióca e o grogue de cana-de-açucar são “primos carnais”. E o forró lembra ao funaná e a seresta à morna. Semelhanças impressionantes...

À beira do Mucuripe

Uma canção do Fagner. O seresteiro e o violeiro. Serenata de Cabo Verde! De repente, nesse Mercado Central, vejo que o Das Frutas Serenadas precisa de novos sabores, cores e odores: cajá, caqui, chichá, grabiru, guaraná, maracujá, pitanga, sapoti, caju, jabuticaba, carambola, biriba e graviola, cujo suco, à beira do Mucuripe, a minha mãe adora...

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Browsing


Aldemir Martins
Frutas
60 x 81 cmacrílico sobre tela

Viragem


1.
Momento vespertino com o poeta Dimas Macedo. Despertar para novos círculos da estética. Poetaria e crítica literária. Assaré, Alencar & Feitosa. A outra Fortaleza...

2.
Fim de tarde em homenagem a Pixinguinha. Centro Cultural "Dragão do Mar". A moça que executa "Ave, Maria", ao bandolim...e em jeito de chorinho. Chove. De mansinho...

3.
Alguém, longe daqui, fechou uma janela que dava para o mar. Mas eu fico a ver o horizonte azulado. Viajo no azul. De repente, a estrela solitária é o que sobra da alva...

quarta-feira, 19 de abril de 2006

In my craft or sullen art


Anoitece e estou diante do computador. Há um poema que se instala no monitor e pede para entrar no livro. Em estranho solilóquio, concedo-lhe um lugar no “Das Frutas Serenadas” (já fechadíssimo). A criatura é quem determina o Criador. Em silenciosa noite. Sempre...


E fiquem com os versos de Dylan Thomas (um dos meus eleitos):


In my craft or sullen art
Exercised in the still night.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Numa prece & Cia




Cronicando

O Pranchinha, nas calendas, purgatório ou lá onde navega, chamaria a minha atenção pelo facto de eu ser um cronista temerário, irresponsável mesmo. Mas não tenho outra cidade para amar e odiar. Conheci cidades interessantes como Belo Horizonte, Casablanca e Boston. Já andei por Nova Iorque, São Paulo, Lisboa e Dakar. Gostei de Ponta Delgada e Genebra. Mas para amar e odiar, só a cidade da Praia, onde nasci e me fiz homem. Em soalheiros dias, sem promessas de música, ponho-me a andar pela orla da cidade, em linguajar mais correcto na rol do mar, que nem mais é um passadiço de arreal e penedo, banhado pela onda furibunda. E ando ali no meu divagante pensamento face ao Ilhéu de Santa Maria. Sempre com amor e ódio, diga-se. E o Plateau é um espaço que se põe a render, destruindo sobrados patrimoniais e erigindo caixotes arquitectónicos. E, depois, qualquer dia, vira uma China Town. Como o Ilhéu de Santa Maria, aliás. Tudo muda. Mudando. E nós, tristes que somos, animais de capoeira. Orfãos que somos da Esplanada da Praça 12 de Setembro, destruída num rompante infeliz por alguém quase embriagado pelo Síndroma de Nero, o idiota que incendiou Roma. Sim, China Town…e porque não? Que não seja mal interpretado, gosto muito de lo mein de carne…

Das crónicas

A tentação de fazer das crónicas apenas o testemunho dos dias políticos existe, sim senhor. A política corridinha, rasca e doméstica nos interpela de tal forma, que o jeito é lhe dedicar, a cada semana, umas linhas cativas. Mas, pensando bem, o cronista assumiu-se de fait-divers e absolutamente livre das margens. Os dias que passam são políticos, culturais, económicos, sociais e o que mais queiram. E estas inumeráveis facetas do quotidiano é que fazem o tempo, o cronos e as crónicas. Assim, uma onda furibumba bordando em escuma a praia bordejante é tão narrável quanto o congresso deste ou daquele partido. E o grande investimento de David Show vale tanto quanto o profundo olhar de um transeunte. Tudo, tudo, tudo é vida (inclusive a morte) e eis que o cronista continua…de serviço.

Dos cronistas

Já vamos sendo muitos – uns sistemáticos e outros bissextos – a escrever pelos jornais e revistas. E as pessoas nos lêem nas barbearias, nos autocarros, nos cafés, nas casas de banho, enfim. Entre a novela, a política e o futebol, somos lidos na diagonal e quase sempre de esguelha, pois os leitores anda não se convenceram do seu papel crítico e, quem sabe, de co-autores. Mais do que isso, de protagonistas. A cidadania é também a cidadania dos leitores, capazes de pensar (em mais complexa dimensão e para lá do imposto) das coisas que acontecem. O investimento chinês no Ilhéu de Santa Maria, os exercícios na NATO, a integração à União Europeia, a imigração clandestina, a violência doméstica, em suma, as coisas que vão acontecendo e que os cidadãos vão lendo en passant como se não determinassem a nossa vida colectiva. Mas os cronistas continuam ali acesos e despertos. Chamativos e atentos. Acordai-vos…

O Relatório

Reli, com atenção, o Relatório dos Direitos Humanos, do Departamento de Estado Americano, e estranho o quiproquó feito por uns e outros mercê do seu conteudo. Em verdade, o Relatório descreve Cabo Verde como um dos países de melhor quadro de cumprimento das balizas humanitárias e isso só nos deve orgulhar a todos. Em 90% dos itens, estamos bem avançados, não só em relação ao nosso querido continente africano, mas aos demais que se dizem mais civilizados e com pretensões civilizatórias. Mas há os 10% periclitantes (e eles existem de facto) e devem ser identificados, assumidos e ultrapassados. A violência doméstica é um deles. A morosidade da justiça também, entre outros. E são questões colectivas, a merecerem um olhar crítico de todos nós. E não apenas o dos americanos que (a gente compreende) têm sérios problemas domésticos nesse capítulo e não poderiam velar sempre por nós. Em verdade, precisamos acertar muitas coisas que os americanos nem viram. Portanto, cuidemos nós (sem poltiquices de trazer por casa) das nossas mazelas…

Numa prece & Cia

Vamos chamar, sim, a atenção para os patrimónios naturais, históricos e paisagísticos, dos nossos ilhéus - Branco, Raso, de Santa Maria, Seco ou Rombo, de Cima, Ilhéu Grande, de Curral Velho e Baluarte.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Estranha nuvem

Uma estranha nuvem negra instala-se,
Pesada e vagarosa, onde, até ontem,
Corria, risonho, o meu coração
De criança ávida de graça e paz…de tudo.

Nuvem que não se explica, porque ruidosa,
No seu próprio silêncio e grave, aqui
E ali, onde quer que caminhe, na terra
E na lua, e direi no pensamento, mormente.

Um tanto esquecido, de mim e da morte,
Procuro dissipar a neblina e o frio, misteriosa
Brisa que, esquecida, retorna à minha lembrança.

Sem métrica, nem rima, de um reverso somente
Carrego, qual Sisifo, a filosofal pedra da vida
E vou à morte remediado de tudo…de tudo.

Filinto Elísio

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Rapado e não assaltado (na barbearia de Seu Aufredô)

No começo, achei estranho. Levar a cebeça a um aprendiz? Cabeça e pescoço, já que o propósito era cabelo e barba. E ele ali: jeito de aprendiz mesmo e um nadinha amaricado para o meu gosto (e Seu Aufredô, o barbeiro propriamente dito, tratava-o por bóia fria) . A vantagem é que era metade do preço e a carecada era de uma assentada. Em Cabo Verde, a barbearia era um ritual facilitado: primeiro máquina a zero e depois lâmina. O meu barbeiro já sabia do meu gosto: corte tudo que seja cabelo, menos sobrancelhas e pestanas. A desvantagem era a faladeira sobre o futebol e a política. E o aprendiz pergunta: com ou sem assalto? E eu, sem perceber, ao que ele corrige: as barbearias são assaltadas em Cabo Verde? E eu: creio que não, comigo nunca aconteceu. Aqui, umas cinco vez, quatro à mão armada. E explico: primeiro, tesoura, depois, máquina, e, finalmente, faca. Não, sempre com revólver, companheiro, disse o aprendiz de barbeiro. Conversa nesse tom, de cabo a rabo, lá acabei rapadinho e fresco como um leitão à hora do forno. Você ficou um gato e não foi assaltado, repetiu o aprendiz, para se recompor diante do meu olhar de censura. No que apareceu o dono da loja, o barbeiro propriamente dito: e aí, africano, tu curtiu o corte aqui do bóia fria? E eu, numa fina cumplicidade, aquiesci-me: nota dez, senhor, melhor do que na terra. Sem política, nem futebol…

Sol posto

Sol posto

O desamparinho foi quase nada. De um ai, o sol cambou-se no poente e no regaço do nada ficou este anil, mesclado de violeta e magenta. Ter-te-ia dito no chat duvidar dos deuses, dos pássaros em torvelinho e dos romances de Dan Brown. Da ponte metálica – chamam-na Ponte dos Ingleses-, restam a minha solidão, um casal que namora o fim-da-tarde e as jangadas de velas brancas. Estas, lembram à música de Fagner…

Diário de um homem normal

Mau grado a praga, proferida em ódio, e que às vezes pega. Morte, perseguição e/ou prisão, quando não invalidez ou exílio, e bate-se aqui em madeira, não vá o diabo tecê-las. Dizia, apesar do mau agoiro e do bad vibe, como diria o Denzel, agraciou-me ela, implacável como sempre, com a premonição da loucura. Isso me deixou feliz e mais humorado, nesta semana - mais chata que santa, diga-se -, em que escrevi (de uma assentada) a peça “Diário de um homem normal”, que, entrementes, prometera a um dramaturgo.

Os donos do mundo

Diante de um portentoso, mas esteticamente feioso, monumento, de soslaio e de esguellha se lhe roçavam os contornos, o Homem Normal começava assim o seu dia: pareceres ao ministro, dois telefonemas ao director do Gabinete e a leitura diagonal de um pedido de patrocínio. Refeito da primeira rotina, ele telefonava à cantina a ver se havia a pizza de chouriço e navegava (sempre sem querer) pelos blogs da praça. E o monumento, eterno naquele semblante de pedra! Escrevia um plano de trabalho e desistia de convencer aos donos do mundo que a radicalização seria mister. Matava-se nos dias. Aliás, estava morto de há muito. Como o mostrengo do monumento…arre (para não dizer porra)!

Lendo Pedro Cardoso

Li, em tanta sofreguidão, os versos todos
A verve tântrica de palavradas ilhas
E a praça se pressente, e a Brava ao largo,
E a quilha dos barcos em redondilhas.

A raiva toda, senti-a no corpo e na alma,
De pés descalços pelo dorso do vulcão,
Mãos percorrendo corpos de pedra negra,
Calcinados campos onde as uvas solfejam.

Li-os, página a página, a medra da cal
De tão brancas e térreas casas, arrieiros
E sobrados desaguam na matricial igreja.

O rufar dos tambores, o relinchar dos cavalos,
Em festas de pilão e bandeiras, e a procissão
Imensa (quase eterna) e eu nesse Presídio…

Filinto Elísio

Quarteto, trio, dueto & solo

Vaticinou o fogo, mas faltou-lhe o vento
A terra e a água, o quarteto iniciático
De o Verbo ser o começo de tudo, inscrito
Em letras do mistério no Sagrado Livro.

Reiterou o pai, o filho e o poeta, trindade
E trio que emproam, em luz e brilho,
A estrela d´alva de um dia e sua sompra,
Nuvens que correm na manhã nublada.

Quem sabe chove, aqui e no mundo, agora
Em dueto canta-se o arco-íris que decresce
Como um sol que se assenta ali no poente.

Faltou-lhe tudo afinal, a paz e a guerra,
A solidão desbotoada da rosa e o perfume
Que enebria a una verdade de sermos solo…

Filinto Elísio

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Lança-perfume

1.

Rita Lee, uma das maiores expoentes da Música Popular Brasileira, apresentou um soberbo espectáculo no aterro da Praia de Iracema. Tudo, e muito mais, para comemorar os 280 anos de Fortaleza. Com os pés atolados na areia e o pensamento esvoaçado no mundo, lá cantámos em uníssono Ovelha Negra, Amor e Sexo e Doce Vampiro.

(…)
Me acostumei com você
sempre reclamando da vidaaaa
me ferindo, me curandoa ferida
mas nada disso importaaaa
vou abrir a portaaaa
pra você entrar
beija minha boca
até me matar
(…)

Mas o melhor da noite foi Luzianne Lins, Prefeita de Fortaleza. No fim do espectáculo, afirmou: “Queremos muitas mudanças. Não queremos apenas crescimento económico. Queremos mais democracia e justiça. Queremos que o fruto da produção e do crescimento sejam distribuídos eqüitativamente. Não podemos ser mais o país da desigualdade nem a capital da injustiça social”.

2.

Mas já se faz tarde. Tardíssimo. E estou com sono, soninho, como diria o meu filho Pablo.

(…)
Vem cá meu bem, me descola um carinho
Eu sou néném, só sossego com beijinho
Vê se me dá o prazer de ter prazer comigo
(…)

Lança, lança perfume…

terça-feira, 11 de abril de 2006

Pluma na lua

Para Nancy Morejón e Omar Camillo


Tendes vós, com mesuras retesadas, a noite
Com que o Judeu, de Shakespeare, dita ali
Sua injustiça, profana ou santa, em Veneza
E encanados fostes do Verbo, e em primo frutos…

Fostes, das tremeluzentes estrelas, a cadente
E a rápida trajectória do risco e do cisco, ao micro
Olhar de um campónio aos vastos campos
E a mão incerta que à linha o peixe aguarda…

Poetas, como pescadores na lua, e em pluma
Flutuam no jusante das palavras e a medra,
ora pedra, ora Fedra, à sombra e sua metáfora…

Em primo ou sopro derradeiro, Esopo ou átomo,
Ilhas irradiadas no espaço anil e vão do mar,
Sois de mim, dados frutos, oh implacáveis…
Filinto Elísio

Fortaleza, 2 de Abril de 2006

Retalhos

Corda bamba

Leio os blogs todos, recebendo, de cada um, os seus implacáveis recados. Em verdade, com ou sem pessoalizações de permeio, já somos um movimento e creio mister o reforço da causa. Assumidamente. Como tudo o que começa e um dia terá pernas para fazer o seu caminho, andamos ora como equilibristas na corda bamba…

Arco-íris

Acabo de ver um arco-íris. Da minha janela, o arco se vê perfeito. Uma espécie de apoteose depois da chuva. Parece até que o dia recomeça. E o meu coração, então encharcado, sorri de novo. Acho que alguém canta um samba antigo. De Lupicínio Rodrigues, se não me engano. Algo que me transporta à infância…

280° Aniversário

Fortaleza comemora 280 anos, com muita actividade cultural. Amanhã, pela noite, será o show de Rita Lee, na Praia de Iracema. Não vou perder. Gosto do estilo roqueiro-nacionalista de Rita Lee. E a irreverência da forma e do conteúdo como encara a arte. E a vida…

Quadros da Diáspora

Será para breve mais um Congresso do Quadros da Diáspora. Ocasião de ouro para falarmos da Nação Global Cabo-verdiana. Tirando uma ou outra mania elitista, deste ou daquele “dotorado”, a iniciativa é louvável e merece o nosso aplauso.Continua oportuno o “suicídio da pequena-burguesia”, em prol de mais soberania, democracia e desenvolvimento. Cabral era um visionário. Vendo as coisas como estão, saibamos distrinçar o trigo do joio…

Golpe de Estód na Paraíse

Vamos ver se deixamos em casa o bairrismo e o neocolonialismo, pois Cabo Verde não pode parar. A “turbinada”, na teia de todas as praças, precisa compreender que só estaremos abertos ao mundo se assumirmos as nossas matrizes crioulas. Sou negro, sou branco, sou das ilhas, sou do mundo. Sou sincreticamente cidadão. Setenta anos sobre a Claridade, temos de ser “independentes”, sem síndromas da Casa Grande e Senzala. Cabeça em movimento…eia Orlando Pantera!

Mayra Andrade

Escreveu-se isto sobre Mayra Andrade, uma das maiores revelações musicais de Cabo Verde, e peço desculpas para transcrever o texto. Para os cépticos da excelência e da competitividade “berdianas”, ora tomem…et voilà:

Un soir de janvier 2004, mû par une sorte de rumeur distillée depuis quelque temps, je fais escale au Satellit Café, un club à musique live du quartier Oberkampf de Paris, fortiche dans la mise en orbite de jeunes pousses, disons, "world". Et là, un choc, une découverte comme ça n'arrive même pas une fois l'an : Mayra Andrade redessine les contours musicaux de son pays, le Cap Vert, avec grâce, aplomb et, chose rare pour une fille qui n'a pas encore 20 ans, retenue. Certes, on sait grâce à Cesaria Evora où se trouve cet archipel (à 500 km au large du Sénégal) et on découvre peu à peu que cette terre aride ne chante pas d'une seule voix, qu'elle est foisonnante de rythmes, Morna, Coladera, Funana, Batuque, qu'elle est riche en auteurs et interprètes, rarement restés au pays, plutôt installés loin du port, parfois exilés.Mayra n'est pas une exilée.
Elle vit à Paris depuis 2003, et ses parents lui ont donné le goût de la bougeotte : née à Cuba, elle grandit entre Sénégal, Angola, Allemagne et, tout de même... Cap Vert. Les premières comptines de ses années d'enfance sont brésiliennes. Mais c'est avec une chanson de son pays, en créole capverdien, qu'elle remporte la Médaille d'or des Jeux de la Francophonie au Canada face à 35 concurrents. Elle a alors 16 ans. Mayra Andrade enchaîne les scènes, à Praia et Mindelo (Cap Vert), puis à Lisbonne, et en France, à partir de 2002, de petite salle parisienne en grand festival d'été. Elle assure la première partie de Cesaria Evora au New Morning. Au Brésil, elle représente encore une fois son pays, pour un "single" au profit de la lutte contre le Sida avec notamment Lenine et Chico Buarque. En 2005, Aznavour l'invite sur son nouvel album pour un duo en français. Partout où elle passe, elle subjugue.
Mais voilà, la rumeur enfle et toujours pas de disque. Ca devient crucial. Mayra, qui a du caractère, résiste à la pression et, plutôt que de céder aux sirènes de productions précaires, préfère attendre une proposition plus consistante. Ce qui finit pas arriver en 2005.
Voici donc ce "Navega", "sur les flots". Un régal d'album qui n'a rien d'une production pharaonique, qui mise au contraire sur la simplicité, le tout acoustique, et où elle affirme farouchement sa liberté. Elle puise certes à... 93% dans la langue patrimoniale de l'archipel, mais c'est le disque d'une Capverdienne urbaine, et qui plus est, Parisienne.
Elle pioche donc dans ce foisonnant vivier parisien, avec deux de ses piliers (le bassiste camerounais Etienne Mbappé et son compagnon de scène, le percu brésilien Zé Luis Nascimento et amène avec elle un remarquable guitariste compatriote, Kim Alves. Quelques invités ponctuels de haut vol : le Brésilien virtuose Hamilton de Holanda (bandolim, la mandoline du cru), le lutin malgache Régis Gizavo (accordéon), le violoncelliste Vincent Segal (moitié de Bumcello), ses complices scéniques, les guitaristes brésiliens Tarcisio Gondim et Nelson Ferreira. En prime, une chanson en français, la seule, due à l’innatendu Téte, "Comme s'il en pleuvait", dans une interprétation espiègle. Un album subtilement produit par un expert du genre, Jacques Ehrhart (Henri Salvador, Camille, …).
Ces ingrédients jazz, afro et brésiliens donnent d'autres reflets à des musiques qui pour partie viennent de l'archipel (quatre sont dûes à l'immense auteur-compositeur Orlando Pantera, récemment disparu, d'autres émanent de belles plumes de là-bas). Trois thèmes sortent de la plume leste de Mayra Andrade elle-même (dont une en collaboration avec Patrice Larose).
En égrenant ce disque, goûtez donc les traductions des textes, le dramatique y côtoie le facétieux, l'exil où l’on perd le nord s'y choque avec la démocratie qui perd la boule, des personnages sans âge y croisent des figures d'un autre âge.
Avec "Navega", d'une voix à faire chavirer les âmes et chalouper les coeurs, Mayra trône à la barre sur son monde et surfe... (sur les flots) pour conquérir les mers et les terres.
Grande, déjà très grande...
Le 2 avril 2006
Rémy Kolpa KopoulconneXionneur
- Radio Nova (Paris)

domingo, 9 de abril de 2006

Deus é crioulo

Ouvi dizer que, na sequência da aprovação do Programa do Governo, um destacado da oposição teria dito, meio out-of-the-blue, que José Maria Neves julga que “Deus é cabo-verdiano”. Antes julgasse! Antes julgássemos! Em verdade, só os grandes povos tiveram deuses – Osiris, Jeová, Zeus, Alá ou Oxalá. O Pranchinha, abusado e agnóstico quando era vivo, dizia que só os “menores” adoram deuses alheios. Ora, bem, temos de levar isto mais a sério e introduzir o postulado. Reparem que Deus até já foi brasileiro. Há um sem número de sambas a dizer isso. E se o Brasil, valha-nos Deus, ganhar a Copa do Mundo 2006, recordíssimo, então…Deus é cabo-verdiano (quem provará o contrário?). Ele não tem de ser necessariamente dos árabes e judeus, para não dizer dos gregos e troianos…

No equinócio

Apócrifo Evangelho

Ouço a rádio, enquanto escrevo. Ora conversa, ora música. Domingo é assim. Arrumar a casa e escrever um bocado. O dia está solarengo, mas não me assumo com hábitos do turista de sol e praia. De resto, estou cá para aprender. Falando nisso, encanta-me ler o Evangelho Segundo Judas. É refrescante e apaixonante. Fomos aprendendo sempre pelos evangelhos canónicos (isto é, aqueles reconhecidos oficialmente pelo poder eclesiástico), mas às tantas nos sentíamos cristãos, católicos mesmo, mas não apostólicos romanos. Assim, os outros testemunhos começam a incendiar a nossa imaginação. No mundo da Gnose, tudo é permitido. Os gnósticos apreciam o Demiurgo, o dito criador do Universo, e, por conseguinte, o vórtice da substância e do caos. Eis que o Filho do Homem vai a Jerusalém e enfrenta o seu próprio destino. Não é o que nos contaram ao longo da vida. Cristo não precisave de Judas para ser traído. Em todas as sociedades dos homens, os traidores (e há muitos) ao lado dos iluminados. Mas leiam, por favor, Envangelho Segundo Judas…

Germano Almeida

Germano Almeida, o mais celebrado dos ficcionistas cabo-verdianos, acaba de lançar em Portugal o seu último livro “Eva”. Fico curioso. Dele (Germano Almeida), guardo como relíquia “Ilha Fantástica”, “Dois Irmãos” e “Testamento do Senhor Nepumuceno Araújo da Silva”. E do relacionamento pessoal (já que me considero amigo), guardo as bissextas, porém caudalosas, conversas às sextas com Tchalé Figueira e Vasco Martins. E os poucos encontros durante a campanha de reeleição do Comandante Pedro Pires. Uma figura, esse Germano! E conhecedor do bom vinho, a bebida dos deuses. Ficcionar Cabo Verde é extremamente importante para a nossa identidade, disse Germano Almeida numa entrevista à RDP África. Ficcionemos, pois, Cabo Verde…

A toponímia do logradouro

Há dias, na inauguração do Memorial à Fome e às Vítimas do Desastre da Assistência, em cerimónia presidida pelo primeiro-ministro, apareceu o nosso amigo Nuno Duarte com um cartaz a reivindicar a reposição do nome Desastre da Assistência à rua ora chamada Cabo Verde Telecom, por sinal a empresa patrocinadora do monumento. Confesso ter ficado encantado com a atitude e o gesto de Nuno Duarte. Houve gente que não gostou, entretanto. Houve gente que pretende o aparato ao invés da essência. E o próprio desenho conceptual do arquitecto Carlos Hamelberg interpela mais ao conteúdo que à forma (tríada futurista em obelisco), diga-se. O Desastre da Assistência se impõe, em verdade, como um dever de memória e isso é uma forma qualificada da cidadania...Quando cheguei em 1980 a Belo Horizonte, Minas Gerais, como estudante de Biblioteconomia, havia aquela rua chamada Dan Mitrioni, um torturador estrangeiro, morto no Uruguai por guerrilheiros Tupamaros. Era um tempo interessante, de muita militância e muita cidadania. Tanto que a comunidade local conseguiu, depois de muita luta e insurgência civil (belos tempos), substituir o nome do “putamadre” pelo de José Carlos da Mata Machado, revolucionário assassinado pela policia política dos tempos da ditadura militar…A cidade da Praia, por ser antiga e capital, precisa rever a sua toponímia e trazer à colação nomes, feitos e referências historicamente mais recomendáveis…

No equinócio

Nha Gina dizia que eu seria um contador de histórias. E nas quentes noites, eu contava a melhor, dizia ela. Meus pássaros, sei contar-vos as histórias escondidas e pelos logradouros, dos largos aos becos, as fronhas de uma alegria estão aqui guardadas como um tesouro. A brisa em contraponto e a barlavento, e o espampanante silêncio do sotavento, tudo é navio velejando à hora da beleza. Poesia...como era aliás apanágio à porta daquela soleira!

sábado, 8 de abril de 2006

Saco

Sábado preguiçoso, de chuvoso e meio frio. Aproveita-se para ler os jornais de Cabo Verde. Para arrumar os meus livros chegados ontem, em caixas, numa estante provisória. Para surfar, num passeio acidental, pelo Internet. Hoje, é dia de feijoada brasileira e de andar a cidade. Um míssil é encontrado pela polícia na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. O escândalo da classe política continua a alimentar a imprensa sensacionalista e não só. Ontem, perdi um debate sobre a poesia repentista, por ter ido ao aeroporto. Hoje, estou “desinspirado” e lento. Só me apetece abraçar os meus filhos e ler um poema de Drummond de Andrade. Sábado preguiçoso…que saco!

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Codex Alimentarius




Est-ce qu'on ne pourrait pas faire un véritable néo-impressionnisme culinaire, un dadaïsme culinaire, une cuisine abstraite ?

Hervé This. La Cuisine c'est de l'amour, de l'art, de la technique


Pagando para ver

Hoje, lembrei-me do meu amigo Mamour Bá, músico senegalês que também estudava em Belo Horizonte, nos idos anos oitenta. Quando a sua filha nascera, ele ninava a primogénita ao som do korah e eu pagava para ver tão pungente cena. Soube, pelos amigos comuns, que ele tem rodado o mundo, mostrando os seus prodigiosos tambores e palestrando sobre as virtualidade pedagógicas da música. O Crisolino, outro do nosso tempo, ficou de me mandar “O Corpo é Sonoro”, CD com que Mamour Bá está a conquistar o mundo. Eyes of beholder…

Adeco, Prodeco & outros decos

Comer hoje é uma grande aventura. Os gourmets ponham-se a pau. Recentemente, assisti na TCV uma reportagem (creio que de Odair Santos) sobre a matança de animais em plena rua, na cidade de Assomada. Reportagem bem feita, porque inusitada e corajosa, a questão reclama, com urgência, o olhar das autoridades municipais e sanitárias. O que é da sociedade civil, minha gente? Neste mundo das vacas loucas e da gripe aviária, a cultura alimentar do consumidor é uma estratégia de sobrevivência. Ninguém deve apanhar algo na loja e no supermercado, sem ler a composição e o prazo do alimento. Temos de fortalezar os Adeco, Prodeco & outros decos. Eles acabam por ser mais importantes do que os partidos políticos. Pode? Naturalmente…

Codex Alimentarius

Falemos da estética culinária. Sem dramatismos. Será a cozinha uma forma de arte? Ou simplesmente um elemento do código da alimentação? Nesta época pascoal, embora en não seja religioso, o meu pensamento fica, com água na boca, no Arroz de pato à dona Mindoca e no Bacalhau na tábua à tia Sílvia. Pelo lado materno, tenho grandes chefs, a começar pelo meu avô João Henriques de Almeida Cardoso, famoso funcionário da Fazenda Pública e cozinheiro do Guisado de cabrito e Arroz de cabeça de atum. A minha tia Xixi também, mas esta é especialista em doces e bolos. Bolo de frutas secas, nem conto. Devo ter herdado algum jeito desta minha maravilhosa gente. Mamour Bá, artista de mão cheia, jurava que o meu Bacalhau à Gomes de Sá era o melhor do mundo. É que ele, modéstia à parte, nunca experimetou o meu Molho de São Nicolau..

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Alvoroda chuvosa em Fortaleza





1

Logo ao romper da alva, a cidade adormecida ainda, vou à janela ver a réstia da chuva. Adoro a chuva. Acho que a chuva todo o cabo-verdiano adora. Encanta-me a fresca brisa que a acompanha. O céu plúmbeo e carregado de nuvens cinzentas. E a promessa de um dia ensolarado mais à frente. Aqui, deste 11° andar, apetece-me flutuar no pensamento. Levitar no espaço sideral devia ser um direito constitucional. Ou, algo mais em conta, um direito humano. E assim, sempre que nos desse a gana do imponderável, toca a flutuar, camaradas. Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências. Quero a chuvosa manhã (pessoana) de não pensar em nada…

2

Entrementes, na televisão (baixinho para não acordar a cidade), um cientista afirma que afinal o rio Nilo – the Big River – não nasce no Lago Vitória, entre o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, onde acontecem muitos outros rios africanos. Mas sim na floresta de Nyungwe, no Ruanda, seguindo o fio do rio Akagera. Uma expedição de cientistas, apoiada por satélites de localização, confirma a nova nascente do maior rio do planeta.

3

Antes lia muito. Devorava, com antropofagia, os autores alinhados nas estantes da biblioteca do meu pai. Hoje, sou mais bissexto…e malandro. Mas, assim mesmo, só como aperitivo ou digestivo, vou lendo algo…se o título me encanta. Et pour cause, começo a ler, neste afã chuvoso, o romance “"Al-Gharb 1146 - Viagem Onírica ao ‘Portugal’ muçulmano”, de Alberto Xavier, comprado ontem numa livraria no centro da cidade. Uma prosa inteligente, a retratar a influência do Califado de Córdoba sobre toda a Península Ibérica, em que prevaleceu uma verdadeira democracia religiosa entre mouros, judeus e cristãos. E porque o mundo não se esgota na intolerância da alma e na intransigência da fé, acho que tomo coragem para chegar ao fim deste inusitado romance…

4.

Divago. Onde estávamos mesmo? Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências, está na hora de sair de casa…o dever me aguarda, companheiros!