terça-feira, 22 de novembro de 2005
Da última marcha
Seja esta a última marcha e venha depois outro tempo. Em fila e em parada, como se fossemos militares. Blocos e mais blocos. Bandeiras. Cores e hinos. Seja esta a última revista e desça depois sobre nós a estação das flores. E de repente, termos sido o halo de uma breve fumaça. Esvoaçante. Livre. Para dançarmos ao crepitar dos fogos. Hirtos, lá vão eles a cantar o novelo dos dias. Cidade erguida agora com monumentos. Cidade de ruas incaracterísticas, onde a canalha urina e defeca nas esquinas. Cidade que amamos com, se necessário, sangue, acima de todas as outras. Cidade, toda ela útero, tomada de visco dos transeuntes. E dos automóveis enlouquecidos nas rotundas. Venha depois outro tempo e sejas para mim a dançarina misteriosa na praça vazia. E o resto, lua, luar, tua dança nua. Dessa nudez de última marcha…
Monte Birianda
Estive e nunca estive neste lugar. Há qualquer coisa de topo do mundo. Para além do falso horizonte das achadas e das várzeas. Vi o teu olhar nos olhos de muitas mulheres. E de muitos homens que, de soslaio, também miravam o desfiladeiro. Mentalmente declamei poemas desconexos. Bocados de Pessoa salpicados aos de Borges e os meus pobres versos de permeio. Este lugar tem música. Cada pedra guarda acordes inaudíveis e tu sabes o que significa música nas pedras.
segunda-feira, 21 de novembro de 2005
Monte Verde
Deu-me um branco. Um blackout na mente e, de repente, não vejo nada. Nesse relapso, o mundo parou. E tudo deixa de fazer sentido. Nem a tua mão faz sentido. Nem a rosa friorenta no alto do Monte Verde. Nem a portentosa baía e a frenética malha urbana. Nem o Vasco no seu tibetano exílio. Nem os falcões, nem as águias. Os corvos que grasnam pelas encostas. As pedras silenciosas à mercê da ventania. As nuvens vagarosas. Tudo a marcar o instante de nada. E esvai-se o branco. As cores regressam aos céus e algumas ilhas, e ilhéus, aparecem no painel do meu pensamento. E a tua mão recomeça a fazer sentido…
quarta-feira, 16 de novembro de 2005
Crónica tardia ou ninguém escreve ao coronel
(A campanha eleitoral aproxima-se. Tcheka ganha prémio em Dakar. José Maria Neves reafirma em Lisboa o papel geoestratégico de Cabo Verde. Chove. Chovendo mansamente, menina. Em Paris, nada está tão líquido. Há uma música de Caetano Veloso que não me sai do pensamento. Haverias de dizer que o desamparinho imortaliza. A nós, pelo menos…)
Monte Babosa
A solidão é uma espécie de espelho. Esse tempo que demora uma estrela cadente nos meus olhos. Mirada de transeuntes apressados, diria. Hora do rush. O sol a pôr-se em cores estivais. Pensar, de relance, em alguém. Fugaz o dia que acaba. E nunca mais regressa. Mesmo que na boca, sinta ainda o gosto do retorno impossível. No meio das pedras, uma insistente flor. A cidade estendida, do monte até ao mar. Sou andarilho de muitos mundos. Retirante…
Geração Pantera
A candura, a competência e o amor parecem ser os ingredientes de uma nova geração que, a força de expressão e a poesia deste tempo, chamaria de Geração Pantera. Orlando Pantera, o profundo Pantera, estivera uma vez no Instituto Cabo-verdiano de Menores à procura de emprego. A directora do ICM quis saber o seu currículo académico e ele respondeu não ter grandes estudos, mas que amava as crianças. Conta-o José Vicente Lopes num memorável texto sobre esse artista que mudou a música cabo-verdiana. Não estarei a exagerar se disser que há um antes e um depois Orlando Pantera, nem estarei a brincar se sublinhar de que mudou o tropos do cabo-verdiano. Quem é da Geração Pantera? Apenas músicos? Artistas? Penso que a malha é mais alargada. Em tempos, Mário Lúcio me dissera, na plena azáfama do Fesquintal de Jazz, que a revolução já estava instalada. Em todos os cantos do país. Em todos os quadrantes da nação. Basta ouvir José Maria Neves a discursar, a falar de amor, como um novo paradigma político. Experimente-se ver os quadros novos a projectarem o futuro. Até mesmo na economia o fenómeno está instalado. Geração da Independência. Noutra pauta, Geração Pantera…
Je danse avec l’ amour
Mayra Andrade, em dueto com Charles Aznavour, é simplesmente um luxo. Parcerias do tipo também ajudam a internacionalizar Cabo Verde. A multiculturalidade de um encontro assim traz à superfície uma série de coisas. Encontro de gerações, de géneros, de culturas, de estilos. Mayra Andrade e Charles Aznavour interpretam juntos Je danse avec l’amour. Album de Charles Aznavour. O da Mayra Andrade começou a ser produzido agora, em Paris. Aznavour canta o amor. Canta-o com beleza e sentimento. No melhor da canção romântica francesa. E hoje, como nunca, o amor deixou de ser meiguice para se afirmar como uma subversão do mundo. Estamos em tempos de terrorismos. Do Estado e do anti-Estado. Por isso, cantar o amor é cantar a paz, a existência, a vida. O amor de todas as formas. Agora veio-me à lembrança aquele conto de Woody Allen em que um professor da City College se evade para uma edição de bolso do Madame Bovary, de Flaubert, tanta era sua paixão por Emma. O protagonista sai de Manhattan contemporâneo para se refugiar em Yonville do século XIX. De todas as formas, dizia. Uma amiga confessava-me que todo o ser humano precisa fazer amor em Veneza. Quando não, em Porto Seguro onde a natureza é mais pródiga e o dólar vale muito mais. O ser humano precisa voar, rematava. Ícaro tinha razão. Ou, pelo menos, emoção…
Objectos transcendentes
Retirante, emociona-me que Tcheka tenha ganho o Prémio “Músicas do Mundo”, da RFI, em Dakar. A candura, a competência e o amor, Tcheka em pessoa. O resto, havendo campanha, ninguém escreve ao coronel. Agora que o sol morreu ou, quem sabe, ele seja vida noutro lugar, sei que a canção de Caetano Veloso se intitula Livros. Eis um cheirinho:
(…)
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
(…)
Monte Babosa
A solidão é uma espécie de espelho. Esse tempo que demora uma estrela cadente nos meus olhos. Mirada de transeuntes apressados, diria. Hora do rush. O sol a pôr-se em cores estivais. Pensar, de relance, em alguém. Fugaz o dia que acaba. E nunca mais regressa. Mesmo que na boca, sinta ainda o gosto do retorno impossível. No meio das pedras, uma insistente flor. A cidade estendida, do monte até ao mar. Sou andarilho de muitos mundos. Retirante…
Geração Pantera
A candura, a competência e o amor parecem ser os ingredientes de uma nova geração que, a força de expressão e a poesia deste tempo, chamaria de Geração Pantera. Orlando Pantera, o profundo Pantera, estivera uma vez no Instituto Cabo-verdiano de Menores à procura de emprego. A directora do ICM quis saber o seu currículo académico e ele respondeu não ter grandes estudos, mas que amava as crianças. Conta-o José Vicente Lopes num memorável texto sobre esse artista que mudou a música cabo-verdiana. Não estarei a exagerar se disser que há um antes e um depois Orlando Pantera, nem estarei a brincar se sublinhar de que mudou o tropos do cabo-verdiano. Quem é da Geração Pantera? Apenas músicos? Artistas? Penso que a malha é mais alargada. Em tempos, Mário Lúcio me dissera, na plena azáfama do Fesquintal de Jazz, que a revolução já estava instalada. Em todos os cantos do país. Em todos os quadrantes da nação. Basta ouvir José Maria Neves a discursar, a falar de amor, como um novo paradigma político. Experimente-se ver os quadros novos a projectarem o futuro. Até mesmo na economia o fenómeno está instalado. Geração da Independência. Noutra pauta, Geração Pantera…
Je danse avec l’ amour
Mayra Andrade, em dueto com Charles Aznavour, é simplesmente um luxo. Parcerias do tipo também ajudam a internacionalizar Cabo Verde. A multiculturalidade de um encontro assim traz à superfície uma série de coisas. Encontro de gerações, de géneros, de culturas, de estilos. Mayra Andrade e Charles Aznavour interpretam juntos Je danse avec l’amour. Album de Charles Aznavour. O da Mayra Andrade começou a ser produzido agora, em Paris. Aznavour canta o amor. Canta-o com beleza e sentimento. No melhor da canção romântica francesa. E hoje, como nunca, o amor deixou de ser meiguice para se afirmar como uma subversão do mundo. Estamos em tempos de terrorismos. Do Estado e do anti-Estado. Por isso, cantar o amor é cantar a paz, a existência, a vida. O amor de todas as formas. Agora veio-me à lembrança aquele conto de Woody Allen em que um professor da City College se evade para uma edição de bolso do Madame Bovary, de Flaubert, tanta era sua paixão por Emma. O protagonista sai de Manhattan contemporâneo para se refugiar em Yonville do século XIX. De todas as formas, dizia. Uma amiga confessava-me que todo o ser humano precisa fazer amor em Veneza. Quando não, em Porto Seguro onde a natureza é mais pródiga e o dólar vale muito mais. O ser humano precisa voar, rematava. Ícaro tinha razão. Ou, pelo menos, emoção…
Objectos transcendentes
Retirante, emociona-me que Tcheka tenha ganho o Prémio “Músicas do Mundo”, da RFI, em Dakar. A candura, a competência e o amor, Tcheka em pessoa. O resto, havendo campanha, ninguém escreve ao coronel. Agora que o sol morreu ou, quem sabe, ele seja vida noutro lugar, sei que a canção de Caetano Veloso se intitula Livros. Eis um cheirinho:
(…)
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
(…)
segunda-feira, 14 de novembro de 2005
Monte Babosa
A solidão é uma espécie de espelho. Esse tempo que demora uma estrela cadente nos meus olhos. Mirada de transeuntes apressados, diria. Hora do rush. O sol a pôr-se em cores estivais. Pensar, de relance, em alguém. Fugaz o dia que acaba. E nunca mais regressa. Mesmo que na boca, sinta ainda o gosto do retorno impossível. No meio das pedras, uma insistente flor. A cidade estendida, do monte até ao mar. Sou andarilho de muitos mundos. Retirante…
quinta-feira, 10 de novembro de 2005
Crónica tardia ou versos de estradas
(Lia-se Fernando Pessoa e a noite estava cálida, mas havia vento, um ventar que sabia à música, fiozinho de nada por onde as palavras navegam. Tirando o relógio, tudo era um conversar ao sabor dos momentos. O autor, serenado de tantas uvas, dirá que o vinho é tinto e que tudo é o que vem depois do Verbo. Assim diz o Livro, sabias?)
Estradas
Mas devo? Já estradas andado, começar a minha crónica tardia assim:
(…)
Alcantilado amarelo,
crua miragem, passei
crente do amor e alma
que haviam de jorrar
para os inocentes.
Mas quem me dava
inocência ou magia?
(…)
Não apenas pelos versos, estes últimos de Fiama Hasse Pais Brandão. Mas há estradas que marcam. O perder lugares tão-somente. E as paragens. Em momentos onde a lua se deleita na noite. Ou apenas suscitam madrugadas a desaguar em sol. É que há lugares parecidos connosco. Estradas andado, reparo que as tuas mãos seriam de atar pela jornada. E, quem sabe a dois (ou a sós, como tu dizes), eu sentisse menos náusea em tudo que seja vida. Mas adiante que há reaccionários reabilitados…
Os ditos reaccionários e as ditosas rosas
Ricardo Reis, dos muitos versos imortais, escreveu estes que são da minha cabeceira: Prefiro rosas, meu amor, à pátria/ E antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude. Ora, isto é redutor, meus caros. Chegará a hora de zerar a dinâmica binária dos ditos e entender o mundo na sua complexidade reconciliadora. Os causídicos perdoem esta minha incursão por seara alheia, mas, convenhamos, que céu é grandi, mundu é largu. Este desabafo nada tem a ver com a nossa reconciliação, a desmerecer alguma verdade. Os heróis não se decretam. De resto, os reaccionários saíram mesmo de moda. E não se confunda mátria com pátria. Mas nem por isso deixarei eu de preferir as rosas. Quão ditosas. E de amar as magnólias…
Último acto
O velho continuava enfim o solilóquio. Agora saíste da varanda e entras no quarto. Não queres que te repita como foi, como não foi. Dizes que estou obcecado com isto. Talvez esteja, na minha pobre dimensão humana. Somos tão frágeis! Do pó viemos e ao pó iremos, inexoravelmente. Mas adiante. Resumia-se aquilo ao vemo-nos por aí. Uma frase sem grandeza para o adeus de qualquer coisa. E a foto de um farol. Mais precisamente do Farol D. Maria Pia. E seria preciso colocar as fichas sobre a mesa e estar na vida com alguma poesia. Não poderia ter sido apenas frisson, essa coisa na pele, o arrepio na espinha. Teria de ser mais compromisso. Com a vida. Naturalmente…
Mensagem II
Mas antes do encerrar da cortina, um intervalo para te contar do álbum Mensagem II, agora editado no Brasil, com os versos de Fernando Pessoa. Ao Mário Lúcio, músico nosso celebrado pela crítica internacional e, em paradoxo, apedrejado pela mediocridade caseira, coube a faixa D. Diniz, musicada pelo artista brasileiro, André Luis Oliveira. Pessoa escrevia, em Mensagem, e Mário Lúcio canta-o nessa linha:
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro comsigo:
é o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar,
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro,
é a voz da terra anciando pelo mar.
E porque já estamos mesmo no fim desta crónica tardia, queria inaugurar daqui uma nova fase de escrita. Corpo e alma renovados pelo sopro da poesia. Ou da Arte, que é a melhor forma de amor. A melhor forma de achar um oceano qualquer…
Estradas
Mas devo? Já estradas andado, começar a minha crónica tardia assim:
(…)
Alcantilado amarelo,
crua miragem, passei
crente do amor e alma
que haviam de jorrar
para os inocentes.
Mas quem me dava
inocência ou magia?
(…)
Não apenas pelos versos, estes últimos de Fiama Hasse Pais Brandão. Mas há estradas que marcam. O perder lugares tão-somente. E as paragens. Em momentos onde a lua se deleita na noite. Ou apenas suscitam madrugadas a desaguar em sol. É que há lugares parecidos connosco. Estradas andado, reparo que as tuas mãos seriam de atar pela jornada. E, quem sabe a dois (ou a sós, como tu dizes), eu sentisse menos náusea em tudo que seja vida. Mas adiante que há reaccionários reabilitados…
Os ditos reaccionários e as ditosas rosas
Ricardo Reis, dos muitos versos imortais, escreveu estes que são da minha cabeceira: Prefiro rosas, meu amor, à pátria/ E antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude. Ora, isto é redutor, meus caros. Chegará a hora de zerar a dinâmica binária dos ditos e entender o mundo na sua complexidade reconciliadora. Os causídicos perdoem esta minha incursão por seara alheia, mas, convenhamos, que céu é grandi, mundu é largu. Este desabafo nada tem a ver com a nossa reconciliação, a desmerecer alguma verdade. Os heróis não se decretam. De resto, os reaccionários saíram mesmo de moda. E não se confunda mátria com pátria. Mas nem por isso deixarei eu de preferir as rosas. Quão ditosas. E de amar as magnólias…
Último acto
O velho continuava enfim o solilóquio. Agora saíste da varanda e entras no quarto. Não queres que te repita como foi, como não foi. Dizes que estou obcecado com isto. Talvez esteja, na minha pobre dimensão humana. Somos tão frágeis! Do pó viemos e ao pó iremos, inexoravelmente. Mas adiante. Resumia-se aquilo ao vemo-nos por aí. Uma frase sem grandeza para o adeus de qualquer coisa. E a foto de um farol. Mais precisamente do Farol D. Maria Pia. E seria preciso colocar as fichas sobre a mesa e estar na vida com alguma poesia. Não poderia ter sido apenas frisson, essa coisa na pele, o arrepio na espinha. Teria de ser mais compromisso. Com a vida. Naturalmente…
Mensagem II
Mas antes do encerrar da cortina, um intervalo para te contar do álbum Mensagem II, agora editado no Brasil, com os versos de Fernando Pessoa. Ao Mário Lúcio, músico nosso celebrado pela crítica internacional e, em paradoxo, apedrejado pela mediocridade caseira, coube a faixa D. Diniz, musicada pelo artista brasileiro, André Luis Oliveira. Pessoa escrevia, em Mensagem, e Mário Lúcio canta-o nessa linha:
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro comsigo:
é o rumor dos pinhaes que, como um trigo
de Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar,
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro,
é a voz da terra anciando pelo mar.
E porque já estamos mesmo no fim desta crónica tardia, queria inaugurar daqui uma nova fase de escrita. Corpo e alma renovados pelo sopro da poesia. Ou da Arte, que é a melhor forma de amor. A melhor forma de achar um oceano qualquer…
quarta-feira, 2 de novembro de 2005
Variações em torno do Zero
A José Luís Tavares, poeta
Zero
Presumo que não tenhas entendido o nosso diálogo no 11º andar. Em verdade, era um solilóquio, do tipo que, a cada manhã, se tem diante do espelho. A multiplicidade da interpretação é o grande achado da crónica. E, depois, texto literário não pode ser tão óbvio feito receita médica. Faz parte do encanto trazer a realidade e a fantasia para a leitura, pois ambos são o mister do equilíbrio do leitor. E, já agora, do escritor. É no inusitado que consegues sorrir. Esse sorriso de sol a nascer, que eu gosto e me ajuda a viver. Confesso-te que, vez por outra, tenho tentações de escrever sobre o lixo na cidade da Praia, as crianças que mendigam à porta dos restaurantes e das prostitutas que animam a indústria da noite. Quando não, de escrever sobre as máquinas, em ode triunfal, a cortarem os caminhos da Circular da Praia, da necessidade imperiosa de termos nesta cidade um campus universitário ou de fazermos disto um “porto digital”. A cada quarta-feira, à beira da entrega do texto, o meu dilema é atroz. Estou sempre entre Março e Abril. Mas nada como a sensação de te fazer sorrir ensolaradamente. E, se me permites, recomeça a ler isto como se fosse um intervalo. De qualquer coisa. Por acontecer…
Intervalo
...Não, eu não quero apartar a acidez do fogo/ que me intranqüiliza e me devora/. Eu não quero ofertar em súplicas/ e depois morrer por uns olhos/ que me sugerem messalinas e lambris/ e depois me enforcam. Não. Eu não quero o suicida/ que se despenca do alto da torre. Eu me quero vida para te ofertar rosas/ e te colher a plenitude de espigas maduras. Eu me quero vida para semear o trigo do teu corpo/ e me ceifar em messes de espumas/ e sóis de hipocampos sazonados. (Dimas Macedo, poeta brasileiro)
Starbucks Frappuccino
Falei-vos já (sem a palanquina arrogância do General) de Satyricon, do grande Petrónio – a novela erótica, a menipéia sátira, o mimo da fábula milésia. Leiam-no, pois. Um livro referencial que nos ensina como a civilização romana sucumbiu aos seus próprios vícios. Um verdadeiro afresco contra a sandice do poder. Devia ser pré requisito para a política. Leiam-no e deixam dessa santa ingenuidade que, nestes dias, se tornou vil e aziago. Li-o, por acaso, num Café Starbucks, em Old Boston. Há algum tempo. Entre um frappuccino quente e uns biscoitos inocentes. Numa das tardes em que me apetecia falar com desconhecidos sobre o aquecimento global. Ou, simplesmente, as trafulhas de Nero. O Imperador…
Em tempos de Electra, arre
Mau, mau, mau. Chegou o tão esperado 31 de Outubro e nada de voo internacional directo no Aeroporto Internacional da Praia. Precisamos ter um observatório para saber o que falha. Quem falha. E porque falha. Nadou o oceano inteiro para morrer na praia? Que absurdo! Agora a sério, somos dois, três, mais de centenas de milhar com olho vivo nesse aeroporto de parto difícil. Agora, mais do que nunca, a questão é mesmo séria. Seríssima. E dela dependerá o sol. Dito assim com metáfora para que os chacais não tomem conta do menino. Mas, meu caros, demais faz mal.
Campanha à porta
Mal ou bem já se vive o ambiente da pré campanha. Está tudo a postos para o grande arranque. As sondagens, umas próximas da verdade, outras próximas da mentira, aparecem nas ruas. Apesar dos sinais contrários na Assembleia Nacional, espera-se uma campanha cívica, serena e elevada. Sem maledicência, nem terrorismos verbais. Apenas com projectos e programas para debater. Por isso, vai ser um Natal simplesmente e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r! Desta banda, o pessoal prepara-se para vitaminar a campanha e vassourar, uma vez mais, aqueles de triste memória. A festa promete ser bonita, pá. Não vá o diabo tecê-las…
Acontece
Neste momento, o XIº Colóquio Internacional dos Estudos Crioulos. Uma centena de estudiosos (crioulófonos e crioulistas) sobre a crioulística. De várias partes do mundo. Por uma semana, a Praia será a capital cultural da crioulística. Hora de reflectir sobre a oportunidade de valorização consequente da língua crioula, em prol da nossa identidade e cultura. Já agora introduzir a questão sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, afrontamento cultural que demanda coerência política. Quais os entraves para a oficialização? A Constituição? A falta da padronização? O não consenso de um alfabeto? O conservadorismo de uma classe dominante? A ignorância das coisas? Os resquícios da colonização? A falta da vontade política? O bairrismo? Imposição da maioria? Imposição da minoria? Quaisquer sejam as razões (mesmo aquelas que a Razão não explica), temos de colocar as ideias em cima da mesa para um grande debate. Luzes, luzes, luzes. Por uma questão da cidadania…
Zero
Presumo que não tenhas entendido o nosso diálogo no 11º andar. Em verdade, era um solilóquio, do tipo que, a cada manhã, se tem diante do espelho. A multiplicidade da interpretação é o grande achado da crónica. E, depois, texto literário não pode ser tão óbvio feito receita médica. Faz parte do encanto trazer a realidade e a fantasia para a leitura, pois ambos são o mister do equilíbrio do leitor. E, já agora, do escritor. É no inusitado que consegues sorrir. Esse sorriso de sol a nascer, que eu gosto e me ajuda a viver. Confesso-te que, vez por outra, tenho tentações de escrever sobre o lixo na cidade da Praia, as crianças que mendigam à porta dos restaurantes e das prostitutas que animam a indústria da noite. Quando não, de escrever sobre as máquinas, em ode triunfal, a cortarem os caminhos da Circular da Praia, da necessidade imperiosa de termos nesta cidade um campus universitário ou de fazermos disto um “porto digital”. A cada quarta-feira, à beira da entrega do texto, o meu dilema é atroz. Estou sempre entre Março e Abril. Mas nada como a sensação de te fazer sorrir ensolaradamente. E, se me permites, recomeça a ler isto como se fosse um intervalo. De qualquer coisa. Por acontecer…
Intervalo
...Não, eu não quero apartar a acidez do fogo/ que me intranqüiliza e me devora/. Eu não quero ofertar em súplicas/ e depois morrer por uns olhos/ que me sugerem messalinas e lambris/ e depois me enforcam. Não. Eu não quero o suicida/ que se despenca do alto da torre. Eu me quero vida para te ofertar rosas/ e te colher a plenitude de espigas maduras. Eu me quero vida para semear o trigo do teu corpo/ e me ceifar em messes de espumas/ e sóis de hipocampos sazonados. (Dimas Macedo, poeta brasileiro)
Starbucks Frappuccino
Falei-vos já (sem a palanquina arrogância do General) de Satyricon, do grande Petrónio – a novela erótica, a menipéia sátira, o mimo da fábula milésia. Leiam-no, pois. Um livro referencial que nos ensina como a civilização romana sucumbiu aos seus próprios vícios. Um verdadeiro afresco contra a sandice do poder. Devia ser pré requisito para a política. Leiam-no e deixam dessa santa ingenuidade que, nestes dias, se tornou vil e aziago. Li-o, por acaso, num Café Starbucks, em Old Boston. Há algum tempo. Entre um frappuccino quente e uns biscoitos inocentes. Numa das tardes em que me apetecia falar com desconhecidos sobre o aquecimento global. Ou, simplesmente, as trafulhas de Nero. O Imperador…
Em tempos de Electra, arre
Mau, mau, mau. Chegou o tão esperado 31 de Outubro e nada de voo internacional directo no Aeroporto Internacional da Praia. Precisamos ter um observatório para saber o que falha. Quem falha. E porque falha. Nadou o oceano inteiro para morrer na praia? Que absurdo! Agora a sério, somos dois, três, mais de centenas de milhar com olho vivo nesse aeroporto de parto difícil. Agora, mais do que nunca, a questão é mesmo séria. Seríssima. E dela dependerá o sol. Dito assim com metáfora para que os chacais não tomem conta do menino. Mas, meu caros, demais faz mal.
Campanha à porta
Mal ou bem já se vive o ambiente da pré campanha. Está tudo a postos para o grande arranque. As sondagens, umas próximas da verdade, outras próximas da mentira, aparecem nas ruas. Apesar dos sinais contrários na Assembleia Nacional, espera-se uma campanha cívica, serena e elevada. Sem maledicência, nem terrorismos verbais. Apenas com projectos e programas para debater. Por isso, vai ser um Natal simplesmente e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r! Desta banda, o pessoal prepara-se para vitaminar a campanha e vassourar, uma vez mais, aqueles de triste memória. A festa promete ser bonita, pá. Não vá o diabo tecê-las…
Acontece
Neste momento, o XIº Colóquio Internacional dos Estudos Crioulos. Uma centena de estudiosos (crioulófonos e crioulistas) sobre a crioulística. De várias partes do mundo. Por uma semana, a Praia será a capital cultural da crioulística. Hora de reflectir sobre a oportunidade de valorização consequente da língua crioula, em prol da nossa identidade e cultura. Já agora introduzir a questão sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, afrontamento cultural que demanda coerência política. Quais os entraves para a oficialização? A Constituição? A falta da padronização? O não consenso de um alfabeto? O conservadorismo de uma classe dominante? A ignorância das coisas? Os resquícios da colonização? A falta da vontade política? O bairrismo? Imposição da maioria? Imposição da minoria? Quaisquer sejam as razões (mesmo aquelas que a Razão não explica), temos de colocar as ideias em cima da mesa para um grande debate. Luzes, luzes, luzes. Por uma questão da cidadania…
quarta-feira, 19 de outubro de 2005
A boca da tarde parece uma festa
Escrita 1
Debruças na varanda do 11º andar e olhas o imenso calçadão, o arreal e o mundo. Assim de repente, questionas a vida e a lida sabe-te sempre a pouco. Devias ter ido por ali. Ou talvez nem isso. Que outro norte haveria? A sensação do imponderável. A vertigem. Está aí algo que te embriaga e te excita. O escritor tem veias abertas. Profissão mais hemorrágica, tens de o admitir. Cronicar – lá estás tu – é fazer a comédia dos costumes. A canalha fica toda eriçada, mas o que se pode fazer? São para esquecer os nossos deuses pequenos. Mesmo os grandes são aquilo que a gente sabe. Retratar a falência dos dias que passam é a tua sina. Estás lixado…
A boca da tarde parece uma festa
Assim, as coisas bem vistas, o mundo é uma espécie de harmonia. O vasto azul do mar e um navio desliza para o cais de Mucuripe. O pessoano cais da hora marítima. Ao longo da avenida Beira-mar, o tremeluzir dos automóveis e do neón da publicidade. Faz algum sentido. Ou sentido nenhum. A boca da tarde parece uma festa. Apetecia estar num carrossel. Aquele da infância, outro nunca. Sei-o pela nostalgia com que olhas o vácuo do 11º andar. Uma harmonia e tu, em transe, assobias uma morna neurasténica. És tu ali, em pessoa, sem tirar nem pôr. Quixote vicioso e gracejas da tua Dulcineia…
Escrita 2
Preferias que eu escrevesse trivialidades. A escrita não pode perder a sua finalidade de passatempo. Depois, é sempre menos arriscado. O cronista tem este dilema: a inglória da salvação ou a morte sublime. Entre uma e outra coisa, preferias que eu pedisse uma cerveja “estupidamente”, como aliás sugeriu o garçon. Agora, mais a sério, querias que eu destilasse um veneno contra a monotonia, mas leve, levezinho, que deixasse tudo na santa paz. Prometo pensar no teu caso. Com carinho. E sentido de sobrevivência. Quase a exaltar as manhãs que cantam. Inocente, cândido e simples. Uma espécie de harmonia. Os teus olhos são lindos de morrer. E o teu afago é tudo o que reclama a minha vida. És a minha praia, sabias? Todavia, não meço bem todas as distâncias e tem horas que perco a compostura. Acho que a Constituição me garante tal direito. Se não o garante, que garantisse. Ia até dizer um palavrão…
A caminho
O Bastonário sobe ao palanque e começa a mandar vir. É tudo tão absurdo que nos desatamos a rir. Devíamos, a rigor, chorar. Mas não. Tornamo-nos imunes à invasão da nossa cidadania. Digam o que disserem, continuamos os flagelados do vento leste. Democracia é o menos indecente dos regimes, consolamo-nos com a máxima de Churchill, chiça. Mas demais faz mal, como diria um grande profeta marciano. Vemo-lo confuso se deve e trôpego se pode dar tantos pontapés na lei. Acho que a Constituição reprova. Se não o reprova, que reprovasse. O que me espanta mais são os seus pares, paradíssimos da silva, a medo de serem postos na ordem. Não vá o diabo tecê-las. Tem horas que apetece mandar um manguito concêntrico e fechar a loja para férias. Um absurdo. Igual só a gripe das aves que, inexoravelmente, desponta. A caminho…
Debruças na varanda do 11º andar e olhas o imenso calçadão, o arreal e o mundo. Assim de repente, questionas a vida e a lida sabe-te sempre a pouco. Devias ter ido por ali. Ou talvez nem isso. Que outro norte haveria? A sensação do imponderável. A vertigem. Está aí algo que te embriaga e te excita. O escritor tem veias abertas. Profissão mais hemorrágica, tens de o admitir. Cronicar – lá estás tu – é fazer a comédia dos costumes. A canalha fica toda eriçada, mas o que se pode fazer? São para esquecer os nossos deuses pequenos. Mesmo os grandes são aquilo que a gente sabe. Retratar a falência dos dias que passam é a tua sina. Estás lixado…
A boca da tarde parece uma festa
Assim, as coisas bem vistas, o mundo é uma espécie de harmonia. O vasto azul do mar e um navio desliza para o cais de Mucuripe. O pessoano cais da hora marítima. Ao longo da avenida Beira-mar, o tremeluzir dos automóveis e do neón da publicidade. Faz algum sentido. Ou sentido nenhum. A boca da tarde parece uma festa. Apetecia estar num carrossel. Aquele da infância, outro nunca. Sei-o pela nostalgia com que olhas o vácuo do 11º andar. Uma harmonia e tu, em transe, assobias uma morna neurasténica. És tu ali, em pessoa, sem tirar nem pôr. Quixote vicioso e gracejas da tua Dulcineia…
Escrita 2
Preferias que eu escrevesse trivialidades. A escrita não pode perder a sua finalidade de passatempo. Depois, é sempre menos arriscado. O cronista tem este dilema: a inglória da salvação ou a morte sublime. Entre uma e outra coisa, preferias que eu pedisse uma cerveja “estupidamente”, como aliás sugeriu o garçon. Agora, mais a sério, querias que eu destilasse um veneno contra a monotonia, mas leve, levezinho, que deixasse tudo na santa paz. Prometo pensar no teu caso. Com carinho. E sentido de sobrevivência. Quase a exaltar as manhãs que cantam. Inocente, cândido e simples. Uma espécie de harmonia. Os teus olhos são lindos de morrer. E o teu afago é tudo o que reclama a minha vida. És a minha praia, sabias? Todavia, não meço bem todas as distâncias e tem horas que perco a compostura. Acho que a Constituição me garante tal direito. Se não o garante, que garantisse. Ia até dizer um palavrão…
A caminho
O Bastonário sobe ao palanque e começa a mandar vir. É tudo tão absurdo que nos desatamos a rir. Devíamos, a rigor, chorar. Mas não. Tornamo-nos imunes à invasão da nossa cidadania. Digam o que disserem, continuamos os flagelados do vento leste. Democracia é o menos indecente dos regimes, consolamo-nos com a máxima de Churchill, chiça. Mas demais faz mal, como diria um grande profeta marciano. Vemo-lo confuso se deve e trôpego se pode dar tantos pontapés na lei. Acho que a Constituição reprova. Se não o reprova, que reprovasse. O que me espanta mais são os seus pares, paradíssimos da silva, a medo de serem postos na ordem. Não vá o diabo tecê-las. Tem horas que apetece mandar um manguito concêntrico e fechar a loja para férias. Um absurdo. Igual só a gripe das aves que, inexoravelmente, desponta. A caminho…
sexta-feira, 14 de outubro de 2005
O rei e o poeta
Ao senhor Walter, em Fortaleza
O rei e o poeta
O que Petronius não suportava mesmo nada era a prerrogativa de Nero de condenar ou de absolver os romanos. Era excessivo, pensava o filósofo ao esboçar Satiricom, o melhor dos textos. Reduzir Nero a nada seria sua secreta obsessão e, pensando bem, legitima obsessão de qualquer intelectual face a certos aparatos. Nessa linha de pensamento, o adágio de Chinua Achebe: o poeta que não tem problemas com o rei, terá problemas com a sua poesia. Lá estás tu, ó minha sombra, a dizer-me que não somos romanos! Enquanto, de lés a lés, percorremos a estrada, sei já do que não queria. Era ter problemas com a minha poesia…
Luzes na ribalta
Acaba de ganhar o Grande Prémio Cidade Velha, o académico Gabriel Fernandes. Estou eufórico. A mesma euforia sentida aquando Ludgero Correia ganhou o Prémio Sonangol. Ou, quando há um ano, José Luís Tavares recebeu o Prémio Mário Cláudio, da Gulbenkian. Algo está a acontecer, enquanto o mundo é este paradoxo às voltas. Novos actores entram em cena e damos início a um novo acto. Estou mesmo eufórico. Novos paradigmas circulam no palco cultural cabo-verdiano, com causa e consequência. Os teus óculos não olham por essa perspectiva que eu sei. Viciosos esses óculos teus. Tão eufórico que estou. Luzes na ribalta. Música, maestro!
Noites grávidas de punhais
Pessoalmente achei de bonito gesto (já nem direi necessário) da verdade e da reconciliação. Todas as revoluções têm o seu residual de excesso e a nossa, por não ter sido à nossa medida, teve apenas travessuras acidentais. Havia que rever tudo, branquear o que for preciso, sublimar uma ou outra culpa e tocar o barco para a frente. O tempo é o grande moldador das vontades. E já faz algum tempo, diga-se de passagem. Isso lembra-me as amnistias depois das noites grávidas de punhais. Mas é preciso não inverter as coisas. É que, mau grado o vendilhão, a maioria quis e quer a Independência destas ilhas. As comemorações do 30º Aniversário são disso prova…
Ainda às escuras…
E, por falar nisso, está aí uma coisa que eu desconhecia: ninguém pode nada contra a Electra. Literalmente ninguém. Não me leves a mal, mas tu também, como eu, estás lébi-lébi. Isso nos ultrapassa. Assim, nesta impotência generalizada, que lembra ao sanatório geral, temos de esperar para ver o fim dessa história. Por estas e por outras que o falecido nunca acreditou nessa carochinha das privatizações…
À espera de Godot
Vi a tua lista e os magníficos nele alinhados. Uns, por mérito. Outros, por demérito. Direi mesmo, e sem papas na língua, por demagogia. Demonstrando em plena praça o teu mau gosto e o teu côvado afinal não sublimado. Senti pena, muita pena de ti, e estás perdoado por tudo. Pelo feito. E pelo não feito. Sem drama nenhum. Como escrevi numa crónica, não se deve fazer drama com a falta de sentido estético. O prezadíssimo Pranchinha morreu deveras e nada mais natural do que a morte. Morreu cá dentro, palavra. E não há grandes razões para os epitáfios. Nem para as caudalosas guisas. Ele apenas diria (se vivo estivesse) que é preciso partir como se chegou – sem alarde…
O rei e o poeta
O que Petronius não suportava mesmo nada era a prerrogativa de Nero de condenar ou de absolver os romanos. Era excessivo, pensava o filósofo ao esboçar Satiricom, o melhor dos textos. Reduzir Nero a nada seria sua secreta obsessão e, pensando bem, legitima obsessão de qualquer intelectual face a certos aparatos. Nessa linha de pensamento, o adágio de Chinua Achebe: o poeta que não tem problemas com o rei, terá problemas com a sua poesia. Lá estás tu, ó minha sombra, a dizer-me que não somos romanos! Enquanto, de lés a lés, percorremos a estrada, sei já do que não queria. Era ter problemas com a minha poesia…
Luzes na ribalta
Acaba de ganhar o Grande Prémio Cidade Velha, o académico Gabriel Fernandes. Estou eufórico. A mesma euforia sentida aquando Ludgero Correia ganhou o Prémio Sonangol. Ou, quando há um ano, José Luís Tavares recebeu o Prémio Mário Cláudio, da Gulbenkian. Algo está a acontecer, enquanto o mundo é este paradoxo às voltas. Novos actores entram em cena e damos início a um novo acto. Estou mesmo eufórico. Novos paradigmas circulam no palco cultural cabo-verdiano, com causa e consequência. Os teus óculos não olham por essa perspectiva que eu sei. Viciosos esses óculos teus. Tão eufórico que estou. Luzes na ribalta. Música, maestro!
Noites grávidas de punhais
Pessoalmente achei de bonito gesto (já nem direi necessário) da verdade e da reconciliação. Todas as revoluções têm o seu residual de excesso e a nossa, por não ter sido à nossa medida, teve apenas travessuras acidentais. Havia que rever tudo, branquear o que for preciso, sublimar uma ou outra culpa e tocar o barco para a frente. O tempo é o grande moldador das vontades. E já faz algum tempo, diga-se de passagem. Isso lembra-me as amnistias depois das noites grávidas de punhais. Mas é preciso não inverter as coisas. É que, mau grado o vendilhão, a maioria quis e quer a Independência destas ilhas. As comemorações do 30º Aniversário são disso prova…
Ainda às escuras…
E, por falar nisso, está aí uma coisa que eu desconhecia: ninguém pode nada contra a Electra. Literalmente ninguém. Não me leves a mal, mas tu também, como eu, estás lébi-lébi. Isso nos ultrapassa. Assim, nesta impotência generalizada, que lembra ao sanatório geral, temos de esperar para ver o fim dessa história. Por estas e por outras que o falecido nunca acreditou nessa carochinha das privatizações…
À espera de Godot
Vi a tua lista e os magníficos nele alinhados. Uns, por mérito. Outros, por demérito. Direi mesmo, e sem papas na língua, por demagogia. Demonstrando em plena praça o teu mau gosto e o teu côvado afinal não sublimado. Senti pena, muita pena de ti, e estás perdoado por tudo. Pelo feito. E pelo não feito. Sem drama nenhum. Como escrevi numa crónica, não se deve fazer drama com a falta de sentido estético. O prezadíssimo Pranchinha morreu deveras e nada mais natural do que a morte. Morreu cá dentro, palavra. E não há grandes razões para os epitáfios. Nem para as caudalosas guisas. Ele apenas diria (se vivo estivesse) que é preciso partir como se chegou – sem alarde…
domingo, 2 de outubro de 2005
Qualquer música e outras notas
No dia mundial da música
Só pode ser coincidência feliz que o Pablo, meu filho, tenha nascido no Dia Mundial da Música. Pablo Casales e Pablo Milanês me inspiraram na escolha do nome, quando o miúdo nascia há 3 anos, em Boston. Neruda também (outro Pablo!) serviu de mote, pois o que é a poesia senão música a determinada freqüência. Aliás, tanto Pablo como Denzel (meu filho mais velho) amam a música, inumerável, diversa e variável. Naturalmente que temos com a música uma relação meramente passional. Agora mesmo, o sol a pôr-se na praia, um repentista canta, em rima de “ena” decassílabas para o meu coração. Estou esotérico e hermético que eu sei. Deve ser da morte do Pranchinha. Aniversário do Pablo, será? Ou de eu ter saltado para o lado de lá. Peço desculpas, mas eu vou com a música...
Maskrinha
Não me alinho no pensamento ideológico, preferindo antes refletir por caminhos oblíquos, como diria Jean Baudrillard. As sondagens aparecidas ultimamente (por boca e por escrito) são pouco transparentes e nada respeitáveis. Não é assim, de modo rasca e sub-reptício, que se apresentam sondagens ao cidadão. Nós já passamos desta fase. As capelinhas, umas e outras, precisam ter uma visão mais apropriada das nossas demandas. As percentagens surgidas (para um espectáculo mais do que falacioso, diga-se) só irão enganar os incautos. O inusitado e o insólito é sermos ainda bombardeados por métodos arcaicos e fraudulentos em plena dinâmica do milênio. Maskinha djan konxebu...
A manifestação do Pró Praia
A manifestação dos praienses contra a Electra parece ser um acto refundador da cidadania municipal. Ausente do país, não poderei participar da passeata que, em boa verdade, merece a adesão de todos. Menos dos masoquistas que gostam de ficar no escuro. Ou daqueles que, tendo feito da situação um negócio da China, estão sem moral para dar a cara. Não podemos admitir crédito ilimitado às circunstâncias. Trata-se de uma questão política? É algo mais profundo. Tem a ver com a necessidade de transpolitização do cidadão. A electricidade de há muito que passou a ser produto de primeira necessidade. E, neste particular, a Electra tem sido o grau zero em matéria de respeito ao cliente. Trata-se de um abuso, de uma operação de chantagem. E isso não deve ficar impune. De maneira alguma, caríssimos praienses...
Pôr-do-sol em Fortaleza
Estou em Fortaleza. Diante do mar. No calçadão, uma bonita feira de artesanato. Alguém canta, no realejo, uma musica distante. De Gilberto Gil. Diante desta profusão de gente, coisas e lembranças, tudo começa a fazer sentido. Vou aproveitar para dar uma “revisada” na saúde. Percebe-se que o espaço é uma metáfora para a estrutura da nossa existência. Uma vez ouvi esta idéia da artista plástica francesa Louise Bourgois, outra que gostava de música. De resto, no Brasil, apesar de todos os problemas, vigora o charme, a sensualidade e a alegria de viver.
Só pode ser coincidência feliz que o Pablo, meu filho, tenha nascido no Dia Mundial da Música. Pablo Casales e Pablo Milanês me inspiraram na escolha do nome, quando o miúdo nascia há 3 anos, em Boston. Neruda também (outro Pablo!) serviu de mote, pois o que é a poesia senão música a determinada freqüência. Aliás, tanto Pablo como Denzel (meu filho mais velho) amam a música, inumerável, diversa e variável. Naturalmente que temos com a música uma relação meramente passional. Agora mesmo, o sol a pôr-se na praia, um repentista canta, em rima de “ena” decassílabas para o meu coração. Estou esotérico e hermético que eu sei. Deve ser da morte do Pranchinha. Aniversário do Pablo, será? Ou de eu ter saltado para o lado de lá. Peço desculpas, mas eu vou com a música...
Maskrinha
Não me alinho no pensamento ideológico, preferindo antes refletir por caminhos oblíquos, como diria Jean Baudrillard. As sondagens aparecidas ultimamente (por boca e por escrito) são pouco transparentes e nada respeitáveis. Não é assim, de modo rasca e sub-reptício, que se apresentam sondagens ao cidadão. Nós já passamos desta fase. As capelinhas, umas e outras, precisam ter uma visão mais apropriada das nossas demandas. As percentagens surgidas (para um espectáculo mais do que falacioso, diga-se) só irão enganar os incautos. O inusitado e o insólito é sermos ainda bombardeados por métodos arcaicos e fraudulentos em plena dinâmica do milênio. Maskinha djan konxebu...
A manifestação do Pró Praia
A manifestação dos praienses contra a Electra parece ser um acto refundador da cidadania municipal. Ausente do país, não poderei participar da passeata que, em boa verdade, merece a adesão de todos. Menos dos masoquistas que gostam de ficar no escuro. Ou daqueles que, tendo feito da situação um negócio da China, estão sem moral para dar a cara. Não podemos admitir crédito ilimitado às circunstâncias. Trata-se de uma questão política? É algo mais profundo. Tem a ver com a necessidade de transpolitização do cidadão. A electricidade de há muito que passou a ser produto de primeira necessidade. E, neste particular, a Electra tem sido o grau zero em matéria de respeito ao cliente. Trata-se de um abuso, de uma operação de chantagem. E isso não deve ficar impune. De maneira alguma, caríssimos praienses...
Pôr-do-sol em Fortaleza
Estou em Fortaleza. Diante do mar. No calçadão, uma bonita feira de artesanato. Alguém canta, no realejo, uma musica distante. De Gilberto Gil. Diante desta profusão de gente, coisas e lembranças, tudo começa a fazer sentido. Vou aproveitar para dar uma “revisada” na saúde. Percebe-se que o espaço é uma metáfora para a estrutura da nossa existência. Uma vez ouvi esta idéia da artista plástica francesa Louise Bourgois, outra que gostava de música. De resto, no Brasil, apesar de todos os problemas, vigora o charme, a sensualidade e a alegria de viver.
quarta-feira, 28 de setembro de 2005
Mil práticas alegres se tocavam
Mil práticas alegres se tocavam;
Risos doces, sutis e argutos ditos,
Que entre um e outro manjar se alevantavam,
Despertando os alegres apetitos;
Luis de Camões. Os Lusíadas. Canto X
Acto de Cultura
Milhares e milhares de estudantes retornam às escolas para o ano lectivo 2005/06. É impressionante o contingente de professores e alunos em Cabo Verde. A educação é o grande leitmotiv do desenvolvimento deste país. Desde sempre e, agora, mais do que nunca. Diante deste novo patamar, em que a quantidade fala alto e a bom som, importa pensar na qualidade da nossa educação. Por uma educação que articule os valores da Cultura e da Cidadania. O desafio que se coloca à educação para a cidadania consistirá em determinar quais as necessidades dos indivíduos em termos da informação, dos saberes, das competências e capacidades para que estes se tornem socialmente empenhados. Da pré-escola ao ensino superior, o desenvolvimento é uma problemática cabralista, pois a luta continua a ser um acto de Cultura.
Últimas Notícias da Solidão
Quando Omar Camilo me convidou a dizer estas palavras sobre «Últimas Notícias da Solidão». Confesso que não aceitei o desafio à primeira. A fotografia não é área que eu domine. Tão pouco tenho sido dono do meu próprio tempo. Só que a estética é um argumento forte. Tem a força de uma requisição civil, se me permitem. E, porque estamos em tempos de emergência da estética, aceitei apresentar o meu amigo Omar Camilo. É forçoso nestes tempos transformacionais que tenhamos, em cada reflexão e acto um sentido de estética, para não vivermos condicionados ao grotesco, ao tosco e ao rude, à ruína do mau gosto e da escuridão da Electra, e o seu blakout no espírito que ele provoca. São 23 trabalhos fotográficos que têm subjacentes, a captação de «pormenores esquecidos do quotidiano das cidades», onde o tempo e a solidão são o contexto temático, como aliás adiantou à imprensa o adido cultural da Embaixada de Portugal, o meu amigo João Neves. «Ultimas notícias da solidão» é a quarta mostra fotográfica que Omar Camilo realiza em Cabo Verde, onde reside desde 2002, desenvolvendo trabalho artístico e de colaboração com instituições cabo-verdianas. As primeiras exposições aconteceram em 2003, mais precisamente em Abril, no Palácio da Cultura, nomeadamente “Luz de Cabo Verde” e “Os barcos regressam em silêncio”. A última exposição, também aconteceu em Abril, mas desde ano. Intitulada “A la puerta de mis sueños”, ela foi apresentada no Centro Cultural Francês da Praia. Com estas palavras fica o meu testemunho sobre a iniciativa deste artista cubano de fino recorte estético.
Na morte do Pranchinha
Acaba de morrer, de causa conhecida, mas mantida sob segredo, o parabólico Pranchinha, esse que, pelas mãos do colunista, dourava os leitores com ditos insubordinados, acto consagrado na própria Constituição quando a ordem vem aziaga e malparada. O defunto, que Deus o tenha, sabia destrinçar quem se governa de quem governa e o Momo, quase bobo, desse cortejo carnavalesco. Incomodativo, fazendo das tripas coração a ver se o bicho pega, ele era na verdade incapaz de matar uma mosca. A máxima do extinto: Deus há de me castigar pela soberba e a arrogância, mas ficar horas a fio a ruminar com o vulgo tamanha demagogia, isso nunca. Arre! Os seus detractores, um dia redimidos, hão de ter a cortesia de lhe visitar o epitáfio. Noblesse oblige…
Safiatu
O Mito, parabólico como sempre, manda-me uma selecção musical interessante. Safiatu, interpretado por Herbie Hancock, Angelique Kidjo e Santana. É tudo o que um pecador precisa para sublimar esta fina mediocridade dos dias. Excelente prenda para o Dia Mundial da Música, já a 1º de Outubro. Prometo fazer uma crónica sobre a música, a mãe de todas as artes. Entrementes, minha musa, deixo-te os versos de Camões que, às tantas pela rama, dizem assim:
Músicos instrumentos não faltavam
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
Fizeram descansar da eterna pena)
Cua voz dua angélica Sirena.
Risos doces, sutis e argutos ditos,
Que entre um e outro manjar se alevantavam,
Despertando os alegres apetitos;
Luis de Camões. Os Lusíadas. Canto X
Acto de Cultura
Milhares e milhares de estudantes retornam às escolas para o ano lectivo 2005/06. É impressionante o contingente de professores e alunos em Cabo Verde. A educação é o grande leitmotiv do desenvolvimento deste país. Desde sempre e, agora, mais do que nunca. Diante deste novo patamar, em que a quantidade fala alto e a bom som, importa pensar na qualidade da nossa educação. Por uma educação que articule os valores da Cultura e da Cidadania. O desafio que se coloca à educação para a cidadania consistirá em determinar quais as necessidades dos indivíduos em termos da informação, dos saberes, das competências e capacidades para que estes se tornem socialmente empenhados. Da pré-escola ao ensino superior, o desenvolvimento é uma problemática cabralista, pois a luta continua a ser um acto de Cultura.
Últimas Notícias da Solidão
Quando Omar Camilo me convidou a dizer estas palavras sobre «Últimas Notícias da Solidão». Confesso que não aceitei o desafio à primeira. A fotografia não é área que eu domine. Tão pouco tenho sido dono do meu próprio tempo. Só que a estética é um argumento forte. Tem a força de uma requisição civil, se me permitem. E, porque estamos em tempos de emergência da estética, aceitei apresentar o meu amigo Omar Camilo. É forçoso nestes tempos transformacionais que tenhamos, em cada reflexão e acto um sentido de estética, para não vivermos condicionados ao grotesco, ao tosco e ao rude, à ruína do mau gosto e da escuridão da Electra, e o seu blakout no espírito que ele provoca. São 23 trabalhos fotográficos que têm subjacentes, a captação de «pormenores esquecidos do quotidiano das cidades», onde o tempo e a solidão são o contexto temático, como aliás adiantou à imprensa o adido cultural da Embaixada de Portugal, o meu amigo João Neves. «Ultimas notícias da solidão» é a quarta mostra fotográfica que Omar Camilo realiza em Cabo Verde, onde reside desde 2002, desenvolvendo trabalho artístico e de colaboração com instituições cabo-verdianas. As primeiras exposições aconteceram em 2003, mais precisamente em Abril, no Palácio da Cultura, nomeadamente “Luz de Cabo Verde” e “Os barcos regressam em silêncio”. A última exposição, também aconteceu em Abril, mas desde ano. Intitulada “A la puerta de mis sueños”, ela foi apresentada no Centro Cultural Francês da Praia. Com estas palavras fica o meu testemunho sobre a iniciativa deste artista cubano de fino recorte estético.
Na morte do Pranchinha
Acaba de morrer, de causa conhecida, mas mantida sob segredo, o parabólico Pranchinha, esse que, pelas mãos do colunista, dourava os leitores com ditos insubordinados, acto consagrado na própria Constituição quando a ordem vem aziaga e malparada. O defunto, que Deus o tenha, sabia destrinçar quem se governa de quem governa e o Momo, quase bobo, desse cortejo carnavalesco. Incomodativo, fazendo das tripas coração a ver se o bicho pega, ele era na verdade incapaz de matar uma mosca. A máxima do extinto: Deus há de me castigar pela soberba e a arrogância, mas ficar horas a fio a ruminar com o vulgo tamanha demagogia, isso nunca. Arre! Os seus detractores, um dia redimidos, hão de ter a cortesia de lhe visitar o epitáfio. Noblesse oblige…
Safiatu
O Mito, parabólico como sempre, manda-me uma selecção musical interessante. Safiatu, interpretado por Herbie Hancock, Angelique Kidjo e Santana. É tudo o que um pecador precisa para sublimar esta fina mediocridade dos dias. Excelente prenda para o Dia Mundial da Música, já a 1º de Outubro. Prometo fazer uma crónica sobre a música, a mãe de todas as artes. Entrementes, minha musa, deixo-te os versos de Camões que, às tantas pela rama, dizem assim:
Músicos instrumentos não faltavam
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
Fizeram descansar da eterna pena)
Cua voz dua angélica Sirena.
sexta-feira, 9 de setembro de 2005
Soletrado vinho
Mote
Correndo riscos de um dia acabar debaixo da ponte, o escritor escreve, como diria Niechstch, para não morrer de excesso de realidade. Pessoalmente, sem nenhuma pretensão, nem pedantismo, questiono muito a razão por que escrevo. Se calhar, para não ficares impune desta grande tragédia, disse-me Pranchinha. Em verdade, não consigo descortinar de onde veio o meu texto nem para onde vai. Como os números, ele não tem princípio nem fim. Mas garanto-vos que não é um verbo à-toa. Hermético, eu? Ás vezes, com muito visualismo, outras vezes, cheio das zonas de sombra, quando não o fulgor dos instantes, tudo aqui é verdade. Até mesmo a fantasia. Por isso, estou ciente de haver química e cumplicidade com os leitores. Quem lê um texto não o faz impunemente, ora. O amor é o único elemento estruturante em tudo isso. Por sinal, leio, num extraordinário livro, de Ana Luísa Amaral, estes versos: "Talvez só este abismo/Interrompo no mapa o precipício?/No traço dos teus dedos,/rota onde quase cabem: sereia,/o alaúde, o tempo,/ Nessa rota/o suspendo". É que a boa poesia recusa linha programática ou ideológica. Ela é simplesmente (musas somente) o espaço das belas letras. Não há impunidade possível, ó gente amiga!
Soletrado nesse vinho
Impunemente, uma taça desse vinho para a festa do corpo. E o recriar de tantas almas pelos lagares. Muitos lugares de passagem, onde os teus pézinhos, imperceptíveis de tão ágeis, saltitam sobre as hordas das vindimas. No fascínio que seria o vir a melodia, o teu olhar que nem sabe quão de mim é paz, sina e salvação, essas coisas vagarosas que se instalam em nós como uma grude. E mais, esse lacre quente de puro chocolate, que é o meu desejo. Até nas pedras, nas mais puras e nas quase nuas, calhaus apenas que estiram os nossos corpos no tapete dos sonhos. Textura, nervura, o que mais queiras, nada que não roube no coração todo este silêncio que temos sido...
Nova Orleãns
Dá pena ver crianças e velhos a chorarem entre os escombros do que restou de Nova Orleãns, cidade de Louis Armstrong e de Wynton Marsalis, para falar de dois imortais da música americana. As vítimas do furacão Katrina são a fase visível da incompetência, da incúria e do racismo. Não foi o furacão que lhes trouxe a calema. Ele apenas pôs a nu algo que se escondia nos ghettos, numa cidade que se veste de música e de carnaval para o consumo dos turistas. A tragédia há muito que tinha chegado ao delta do Mississipi, desde o vergonhoso tempo da escravatura. E da subsequente segregação. E da actual proletarização do negro. A escravatura, pelo resquícios de hoje, continua pior, muito pior do que o holocausto e é preciso que alguém o diga, sem medo de desagradar os senhores deste mundo. Este inferno, mercê de uma negligência franciscana e ulterior, deve merecer o repúdio de todos. Até porque os furacões têm algo a ver com o aquecimento global e esta catástrofe há de nos lembrar que é preciso assinar o Protocolo de Quioto. Problema mais sério do que o descalabro no mercado petrolífero e na economia globalitária reinante. Haja Humanidade!
Porto da Praia e a segurança nacional
O Porto da Praia, de longe o mais vital do país, está bloqueado, mercê de um quiproquó laboral entre o patronato (Enapor) e o sindicato (SIACSA). Enquanto isso, a fazer jus à Comunidade Portuária da Praia, o país encontra-se à beira de uma ruptura. Os prejuízos são enormes e o cidadão começa a pagar na pele o desentendimento no cais da Praia. Uma crónica de Péricles Barros descreve o caso de um diabético em risco de vida, porque os trabalhadores não autorizam o embarque da carga (entre ela o remédio vital) para a Brava. Nesse excelente artigo, Barros escreveu o seguinte: Imaginem se o presidente do sindicato dos estivadores tivesse um pai a morrer na Brava hoje, por falta de um vaso dilatador? Aí os déreis ou mil-réis a mais, o raio do PCCS, o novo sistema de remuneração que reivindicam deixavam imediatamente de ser uma prioridade; este homem era capaz de matar para enviar as ampolas do medicamento que o pai carece. A par disso, os empresários estão desesperados. E os investidores começam a torcer o nariz. Fala-se em legitimidade dos trabalhadores. Fala-se também da coerência do patronato. Mas nada disso resolve o problema do cidadão contribuinte e eleitor (e muito menos do diabético na Brava). Muitas questões emergem desse cenário, a merecer cuidadoso inquérito sobre as razões e as causas, algumas muito obscuras. E a realidade vai sendo esta: muitos navios aguardam ao largo para a descarga. As ilhas do Fogo, Brava, Maio e Boavista estão desabastecidas e há ruptura de produtos. Alguns navios rumaram à Guiné-Bissau por não poderem fazer operações no porto da capital. Outros foram desviados para São Vicente. Estranhamente, apesar das regulamentações e das práticas serem as mesmas no Porto Grande, as reivindicações dos trabalhadores ali não têm sido paralisantes. Será que há lodo no cais da Praia? Razão para dizer, com o humor a doer, mandem o pai do desgraçado para a ilha da Brava a ver se dói, carago! Havendo esse lodo, seria mais do que hora de o Governo intervir. O Porto da Praia é, no mínimo, uma questão de segurança nacional!
Correndo riscos de um dia acabar debaixo da ponte, o escritor escreve, como diria Niechstch, para não morrer de excesso de realidade. Pessoalmente, sem nenhuma pretensão, nem pedantismo, questiono muito a razão por que escrevo. Se calhar, para não ficares impune desta grande tragédia, disse-me Pranchinha. Em verdade, não consigo descortinar de onde veio o meu texto nem para onde vai. Como os números, ele não tem princípio nem fim. Mas garanto-vos que não é um verbo à-toa. Hermético, eu? Ás vezes, com muito visualismo, outras vezes, cheio das zonas de sombra, quando não o fulgor dos instantes, tudo aqui é verdade. Até mesmo a fantasia. Por isso, estou ciente de haver química e cumplicidade com os leitores. Quem lê um texto não o faz impunemente, ora. O amor é o único elemento estruturante em tudo isso. Por sinal, leio, num extraordinário livro, de Ana Luísa Amaral, estes versos: "Talvez só este abismo/Interrompo no mapa o precipício?/No traço dos teus dedos,/rota onde quase cabem: sereia,/o alaúde, o tempo,/ Nessa rota/o suspendo". É que a boa poesia recusa linha programática ou ideológica. Ela é simplesmente (musas somente) o espaço das belas letras. Não há impunidade possível, ó gente amiga!
Soletrado nesse vinho
Impunemente, uma taça desse vinho para a festa do corpo. E o recriar de tantas almas pelos lagares. Muitos lugares de passagem, onde os teus pézinhos, imperceptíveis de tão ágeis, saltitam sobre as hordas das vindimas. No fascínio que seria o vir a melodia, o teu olhar que nem sabe quão de mim é paz, sina e salvação, essas coisas vagarosas que se instalam em nós como uma grude. E mais, esse lacre quente de puro chocolate, que é o meu desejo. Até nas pedras, nas mais puras e nas quase nuas, calhaus apenas que estiram os nossos corpos no tapete dos sonhos. Textura, nervura, o que mais queiras, nada que não roube no coração todo este silêncio que temos sido...
Nova Orleãns
Dá pena ver crianças e velhos a chorarem entre os escombros do que restou de Nova Orleãns, cidade de Louis Armstrong e de Wynton Marsalis, para falar de dois imortais da música americana. As vítimas do furacão Katrina são a fase visível da incompetência, da incúria e do racismo. Não foi o furacão que lhes trouxe a calema. Ele apenas pôs a nu algo que se escondia nos ghettos, numa cidade que se veste de música e de carnaval para o consumo dos turistas. A tragédia há muito que tinha chegado ao delta do Mississipi, desde o vergonhoso tempo da escravatura. E da subsequente segregação. E da actual proletarização do negro. A escravatura, pelo resquícios de hoje, continua pior, muito pior do que o holocausto e é preciso que alguém o diga, sem medo de desagradar os senhores deste mundo. Este inferno, mercê de uma negligência franciscana e ulterior, deve merecer o repúdio de todos. Até porque os furacões têm algo a ver com o aquecimento global e esta catástrofe há de nos lembrar que é preciso assinar o Protocolo de Quioto. Problema mais sério do que o descalabro no mercado petrolífero e na economia globalitária reinante. Haja Humanidade!
Porto da Praia e a segurança nacional
O Porto da Praia, de longe o mais vital do país, está bloqueado, mercê de um quiproquó laboral entre o patronato (Enapor) e o sindicato (SIACSA). Enquanto isso, a fazer jus à Comunidade Portuária da Praia, o país encontra-se à beira de uma ruptura. Os prejuízos são enormes e o cidadão começa a pagar na pele o desentendimento no cais da Praia. Uma crónica de Péricles Barros descreve o caso de um diabético em risco de vida, porque os trabalhadores não autorizam o embarque da carga (entre ela o remédio vital) para a Brava. Nesse excelente artigo, Barros escreveu o seguinte: Imaginem se o presidente do sindicato dos estivadores tivesse um pai a morrer na Brava hoje, por falta de um vaso dilatador? Aí os déreis ou mil-réis a mais, o raio do PCCS, o novo sistema de remuneração que reivindicam deixavam imediatamente de ser uma prioridade; este homem era capaz de matar para enviar as ampolas do medicamento que o pai carece. A par disso, os empresários estão desesperados. E os investidores começam a torcer o nariz. Fala-se em legitimidade dos trabalhadores. Fala-se também da coerência do patronato. Mas nada disso resolve o problema do cidadão contribuinte e eleitor (e muito menos do diabético na Brava). Muitas questões emergem desse cenário, a merecer cuidadoso inquérito sobre as razões e as causas, algumas muito obscuras. E a realidade vai sendo esta: muitos navios aguardam ao largo para a descarga. As ilhas do Fogo, Brava, Maio e Boavista estão desabastecidas e há ruptura de produtos. Alguns navios rumaram à Guiné-Bissau por não poderem fazer operações no porto da capital. Outros foram desviados para São Vicente. Estranhamente, apesar das regulamentações e das práticas serem as mesmas no Porto Grande, as reivindicações dos trabalhadores ali não têm sido paralisantes. Será que há lodo no cais da Praia? Razão para dizer, com o humor a doer, mandem o pai do desgraçado para a ilha da Brava a ver se dói, carago! Havendo esse lodo, seria mais do que hora de o Governo intervir. O Porto da Praia é, no mínimo, uma questão de segurança nacional!
quarta-feira, 31 de agosto de 2005
Alta do petróleo, karma, mantra & etc
O dó das estrelas
Cansado de uma ronda de reuniões, queria lidar a esta hora com a poesia, as artes, coisas realmente mais sublimes e mais sintonizadas com a alma. Para alguns, este frenesim é excitante e, por isso, adrenalina pura. Para mim, o cargo tem a ver com o encargo. A pesada canga da responsabilidade, condicionada ao odor bafiento dos gabinetes. Queria, se me permites, ouvir agora As Quatro Estações, de Vivaldi (Primavera, sobretudo) e, de olhos cerrados, visualizar o Roger Williams Park com os seus cisnes a deslizar na água. Hás de perguntar o que se passa comigo. Às vezes, quero perceber os versos de Fernando Pessoa: tenho dó das estrelas, luzindo há tanto tempo. Outras vezes, vou à Ponta Temerosa, que é o extremo desta minha cidade, e olho, com neurastenia, para o vasto e azulado vão. É que cansa, cansa mesmo, não poder contemplar o mundo. Há dias, em São Vicente, passei horas esquecidas com o Vasco Martins e o Tchalé Figueira, dilectos amigos, na grandeza silenciosa do Monte Verde. Silenciosa vírgula, pois, vez por outra, a beleza do mundo era invadida pelo grasnar de um corvo ou pelo piar de um falcão. Tão bom ouvir, ante o grande silêncio que a montanha exala, o ciciar dos bichos no nosso cansaço! Dirás que é meu karma. Ou simples questão de mantra este meu lado espiritual que atenta à perfeita sintonia e à curiosa clave entre o cantar de galo e as peixeiras madrugadoras a pregoar “cavala fresta”. Sim, fiquemos por esses nadas que – fumo violeta deste incenso –, vagam o meu pensamento para o além. E, antes que tarde mais no meu coração, te suplico que sejas poesia …
A surfar pelos blogs
Roubo tempo à burocracia, arre, e navego um bocado pelos blogs. Ultimamente, andamos todos bissextos nesta praça. Leio algo sobre o Tcheka Andrade, outro que admiro, e me sinto apaziguado. Se isto tudo fosse padrão Mayra & Tcheka! Temos de pensar no grande salto de qualidade para a nossa Cultura. O by-pass para a excelência não se compadece com algum assistencialismo artístico, um tanto ao quanto difícil de se desacelerar. Tão pouco significa marcar passo no tosco, quando o segredo é o bom acabamento e a apresentação de marca. E muito menos ficarmos a repisar o já visto, numa hora de inovação e competição. Obviamente, mais alma, como diria o matricial Orlando Pantera. Mas falava dos blogs e, desta feita, vou deixar algumas opiniões. Modestíssimas e exclusivas opiniões, diga-se. Posições nada a ver, mas ditas ao sabor do tempo, que a crónica, ela sim, tem a ver com o cronos e o resto é história. A propósito, com respeito às susceptibilidades e trocadilhos rascas, as "Alegrias" trazidas para esta "Praça" foram-nos impostas pelo monstro da incompetência, que a todos domina. Se para o mau entendedor, meia palavra besta; para aquele que vê alguma graça na desgraça, este vaticínio de que humor é um acto de inteligência. Ou seja, tem de ser cultivado, ora…
The Big Easy
Não posso pensar em Nova Orleães sem ouvir, remotamente, a música de Sidney Bechet. La vie en rose, executado em clarinete. Uma vez, em pleno Carnaval da cidade – The Big Easy, diz-se –, alguém tocara essa música, que é um pouco a minha infância, e eu não posso deixar de ligar uma coisa com outra. Depois, vejo-te a comer, com tanta gana, o Cajun Combination (jambalaya, gumbo, ostras, you may name it…), nesse restaurante da Bourbon St. E a fazeres fila, por umas horinhas de blues e zydeco, na House of Blues. O que será feita da House of Blues, na Decatur St? Pois é, estou triste. Triste, triste, triste, como no poema de Valentinous Velhinho. Acompanhei, com consternação, os estragos que o Furacão Katrina fez à cidade de Nova Orleães. Gente morta, desalojada, desesperada. Os diques e as comportas já não resultam. O saque saiu à ordem do dia. E a pobreza, muitas vezes escondida pelas imagens fabricadas, grita alto para todo o mundo ouvir. A cidade histórica ficou submersa. Um grande património mundial em perigo. A crioulidade ficou ferida. Entrementes, as antenas internacionais dizem que o preço do barril de petróleo fechou terça-feira nos 70,45 dólares no mercado de Nova Iorque, mercê da quebra na produção de 1,4 milhões de barris de petróleo. La vie en rose, é melodia que não sai do meu pensamento. Antes que tarde mais, vem em poesia…
Li na lém di Mulato
Tempo apenas para repisar: o Aeroporto Internacional da Praia é para ontem. O Platô Digital é projecto que merece o nosso aplauso. A circular é obra com letras maiúsculas. A pavimentação do Platô – de asfalto ou de pedra, ou, mesmo, o misto destes dois elementos –, já tarda. A capital enlameada, sitiada de chuva, é feia e dá para esquecer. Di-lo, com propriedade, José António dos Reis. Vamos todos, ciosos dos nossos republicanos direitos, ficar atentos. Construtivamente, diga-se. Já dizia Nho Naxu: ka nu sunha kordadu, pa nu ka durmi na forma…
Cansado de uma ronda de reuniões, queria lidar a esta hora com a poesia, as artes, coisas realmente mais sublimes e mais sintonizadas com a alma. Para alguns, este frenesim é excitante e, por isso, adrenalina pura. Para mim, o cargo tem a ver com o encargo. A pesada canga da responsabilidade, condicionada ao odor bafiento dos gabinetes. Queria, se me permites, ouvir agora As Quatro Estações, de Vivaldi (Primavera, sobretudo) e, de olhos cerrados, visualizar o Roger Williams Park com os seus cisnes a deslizar na água. Hás de perguntar o que se passa comigo. Às vezes, quero perceber os versos de Fernando Pessoa: tenho dó das estrelas, luzindo há tanto tempo. Outras vezes, vou à Ponta Temerosa, que é o extremo desta minha cidade, e olho, com neurastenia, para o vasto e azulado vão. É que cansa, cansa mesmo, não poder contemplar o mundo. Há dias, em São Vicente, passei horas esquecidas com o Vasco Martins e o Tchalé Figueira, dilectos amigos, na grandeza silenciosa do Monte Verde. Silenciosa vírgula, pois, vez por outra, a beleza do mundo era invadida pelo grasnar de um corvo ou pelo piar de um falcão. Tão bom ouvir, ante o grande silêncio que a montanha exala, o ciciar dos bichos no nosso cansaço! Dirás que é meu karma. Ou simples questão de mantra este meu lado espiritual que atenta à perfeita sintonia e à curiosa clave entre o cantar de galo e as peixeiras madrugadoras a pregoar “cavala fresta”. Sim, fiquemos por esses nadas que – fumo violeta deste incenso –, vagam o meu pensamento para o além. E, antes que tarde mais no meu coração, te suplico que sejas poesia …
A surfar pelos blogs
Roubo tempo à burocracia, arre, e navego um bocado pelos blogs. Ultimamente, andamos todos bissextos nesta praça. Leio algo sobre o Tcheka Andrade, outro que admiro, e me sinto apaziguado. Se isto tudo fosse padrão Mayra & Tcheka! Temos de pensar no grande salto de qualidade para a nossa Cultura. O by-pass para a excelência não se compadece com algum assistencialismo artístico, um tanto ao quanto difícil de se desacelerar. Tão pouco significa marcar passo no tosco, quando o segredo é o bom acabamento e a apresentação de marca. E muito menos ficarmos a repisar o já visto, numa hora de inovação e competição. Obviamente, mais alma, como diria o matricial Orlando Pantera. Mas falava dos blogs e, desta feita, vou deixar algumas opiniões. Modestíssimas e exclusivas opiniões, diga-se. Posições nada a ver, mas ditas ao sabor do tempo, que a crónica, ela sim, tem a ver com o cronos e o resto é história. A propósito, com respeito às susceptibilidades e trocadilhos rascas, as "Alegrias" trazidas para esta "Praça" foram-nos impostas pelo monstro da incompetência, que a todos domina. Se para o mau entendedor, meia palavra besta; para aquele que vê alguma graça na desgraça, este vaticínio de que humor é um acto de inteligência. Ou seja, tem de ser cultivado, ora…
The Big Easy
Não posso pensar em Nova Orleães sem ouvir, remotamente, a música de Sidney Bechet. La vie en rose, executado em clarinete. Uma vez, em pleno Carnaval da cidade – The Big Easy, diz-se –, alguém tocara essa música, que é um pouco a minha infância, e eu não posso deixar de ligar uma coisa com outra. Depois, vejo-te a comer, com tanta gana, o Cajun Combination (jambalaya, gumbo, ostras, you may name it…), nesse restaurante da Bourbon St. E a fazeres fila, por umas horinhas de blues e zydeco, na House of Blues. O que será feita da House of Blues, na Decatur St? Pois é, estou triste. Triste, triste, triste, como no poema de Valentinous Velhinho. Acompanhei, com consternação, os estragos que o Furacão Katrina fez à cidade de Nova Orleães. Gente morta, desalojada, desesperada. Os diques e as comportas já não resultam. O saque saiu à ordem do dia. E a pobreza, muitas vezes escondida pelas imagens fabricadas, grita alto para todo o mundo ouvir. A cidade histórica ficou submersa. Um grande património mundial em perigo. A crioulidade ficou ferida. Entrementes, as antenas internacionais dizem que o preço do barril de petróleo fechou terça-feira nos 70,45 dólares no mercado de Nova Iorque, mercê da quebra na produção de 1,4 milhões de barris de petróleo. La vie en rose, é melodia que não sai do meu pensamento. Antes que tarde mais, vem em poesia…
Li na lém di Mulato
Tempo apenas para repisar: o Aeroporto Internacional da Praia é para ontem. O Platô Digital é projecto que merece o nosso aplauso. A circular é obra com letras maiúsculas. A pavimentação do Platô – de asfalto ou de pedra, ou, mesmo, o misto destes dois elementos –, já tarda. A capital enlameada, sitiada de chuva, é feia e dá para esquecer. Di-lo, com propriedade, José António dos Reis. Vamos todos, ciosos dos nossos republicanos direitos, ficar atentos. Construtivamente, diga-se. Já dizia Nho Naxu: ka nu sunha kordadu, pa nu ka durmi na forma…
sexta-feira, 26 de agosto de 2005
Viciosa chuva
O que à vigília cinzela o plúmbeo do céu,
Tu, e os outros, nesta acústica da pétala,
Só de saudades sois silêncio agora em mim
Ou de caos tão-somente no cosmos desta voz…
Todos os átomos e todas as poeiras giram
Suspensos no maluco carrossel das horas
E como relógios destravados de música
Soltam-se o alarme e o alarde na quietude…
Pura gota, minúscula que seja, de chuva
Que me desperta para o reencontro das coisas
E me olha das pedras que à vidraça soletra…
Escorrendo parte em meu corpo, de alma
Aqui liquefeita de uma viscosa boca tua
Que nos degusta o sal, fruto de poemas nós…
Filinto Elísio
Tu, e os outros, nesta acústica da pétala,
Só de saudades sois silêncio agora em mim
Ou de caos tão-somente no cosmos desta voz…
Todos os átomos e todas as poeiras giram
Suspensos no maluco carrossel das horas
E como relógios destravados de música
Soltam-se o alarme e o alarde na quietude…
Pura gota, minúscula que seja, de chuva
Que me desperta para o reencontro das coisas
E me olha das pedras que à vidraça soletra…
Escorrendo parte em meu corpo, de alma
Aqui liquefeita de uma viscosa boca tua
Que nos degusta o sal, fruto de poemas nós…
Filinto Elísio
quarta-feira, 24 de agosto de 2005
Insólitos ou nem isso
Fidalgo Preto
Fico feliz e eufórico, pois desta feita ganhou o Prémio Sonangol da Literatura – 2005, o amigo e confrade Álvaro Ludgero Correia, com o pseudónimo literário Fidalgo Preto. O romance intitula-se “Baban – O Ladino” e alarga a bibliografia cabo-verdiana com o romanesco. Ludgero Correia sabia-o bom cronista, dos que dizem as verdades com laivos de humor. Como intelectual que se preza provoca reacções mil, umas de amor, outras de ódio, mas nenhuma de indiferença. E como cidadão, ele faz presença, diria mesmo que é dos tais que tem peso e ocupa espaço. Espera-se que Cabo Verde se dê conta de quanto o prémio a todos prestigia. Ano do trigésimo, do milénio, do PDM, da universidade, do Grammy…palmas para Cabo Verde. Com perdão às vossas senhorias do Pró Praia (bem como da outra comandita mais estreita), palmas para Álvaro Ludgero Correia, nosso Fidalgo Preto!
Livro e festival
Olha, terminei o último verso do livro Das Frutas Serenadas. Fiquei mais leve, quase a flutuar. Ou a levitar. Escrever um livro tão íntimo que, já feito, nos fica este travo de melancolia. O mundo é um grande leviatã, sabes. Uma antropofagia que nos engole lentamente. Depois passei horas esquecidas a ver, pela televisão, o directo do Festival da Baía das Gatas. Boa moldura humana, excelente civismo e homenagem merecida. Luís Morais, a quem tive o privilégio de apresentar no Fesquintal de Jazz, na cidade da Praia, é um instrumentista que transcende. Voltando à Baía das Gatas, gostei demais de Dulce Pontes e os rappers vindos da França detestei. Já, ao amanhecer, reli os manuscritos do meu livro e revi as ilustrações do Mito que irão também separar os respectivos cadernos internos. Não sei se por urgência desta vigília, ou se por insónia mesmo
Pedrada no charco
Uma pedrada inconsequente, de pura rebeldia ou perturbação juvenil, contra as vidraças da Câmara Municipal de São Vicente quase roubou o show da Baía das Gatas, não fosse a providencial Dulce Pontes, e já o feito levava o arzinho de mais um quiproquó político entre a edilidade e o governo. Ai, o peso das pedras! Enquanto o circo recolhe a sua tenda e a procissão regressa ao adro, há alguma gente – aquela que Arménio Vieira caracterizaria de “gente oca, cabecinha de alfinete” – pronta para do insólito tirar um bocado de partido. Em verdade, esse quase incidente, lamentável, diga-se de passagem, servirá (já agora) como uma chamada de atenção, uma pedrada no charco de todos nós. O que o insólito não provoca! Agora, devagar, devagarinho, à maneira do samba, não seria outra loisa, uns e outros, nos olharmos todos de frente, olhos nos olhos…sem pedra na mão?
Despertar
Acordo indisposto. Alguém pragueja e esconjura a madrugada. Já não suporto tamanha ignomínia. Apetece-me gritar, voar, fugir. Apetece-me desaparecer do mapa. Andar noutra geografia. Ouvir som de flauta, beber água pura, ter paz. Choveu toda a noite. Ainda quis ver algo na televisão, mas a emissão foi-se. Isto é muito precário. Uma boa pancada de chuva e não há emissão televisiva. O jeito é ouvir música. Não na rádio que, a esta hora, se ajeita a programação com zoukada e o barulho afim. Pode? Adiante que a canalha dá cartas…
Mindelact
O 11º Festival Internacional de Teatro do Mindelo estará em cena de 8 a 18 de Setembro e não participar dele, mesmo como mero espectador, é perder. Quando digo perder, estarei a querer dizer o perder a oportunidade de ver as obras em desfile, o ambiente festivo e a organização que nos diz a todos de que a qualidade, mais do que uma porrada de patrocínios, tem a ver com engajamento e inovação. Mais do que teatro em si, o Mindelact é excelência de organização. O resto será este depois da chuva. O céu, em cambiantes ainda de cinzento, anuncia o fim da tarde. Na fímbria desta hora, entre a luzinha da alba e a minha solidão, alguém assobia ao longe uma velha melodia. A crónica da cidade fica para depois. Nunca é tarde, nunca é demais…
Fico feliz e eufórico, pois desta feita ganhou o Prémio Sonangol da Literatura – 2005, o amigo e confrade Álvaro Ludgero Correia, com o pseudónimo literário Fidalgo Preto. O romance intitula-se “Baban – O Ladino” e alarga a bibliografia cabo-verdiana com o romanesco. Ludgero Correia sabia-o bom cronista, dos que dizem as verdades com laivos de humor. Como intelectual que se preza provoca reacções mil, umas de amor, outras de ódio, mas nenhuma de indiferença. E como cidadão, ele faz presença, diria mesmo que é dos tais que tem peso e ocupa espaço. Espera-se que Cabo Verde se dê conta de quanto o prémio a todos prestigia. Ano do trigésimo, do milénio, do PDM, da universidade, do Grammy…palmas para Cabo Verde. Com perdão às vossas senhorias do Pró Praia (bem como da outra comandita mais estreita), palmas para Álvaro Ludgero Correia, nosso Fidalgo Preto!
Livro e festival
Olha, terminei o último verso do livro Das Frutas Serenadas. Fiquei mais leve, quase a flutuar. Ou a levitar. Escrever um livro tão íntimo que, já feito, nos fica este travo de melancolia. O mundo é um grande leviatã, sabes. Uma antropofagia que nos engole lentamente. Depois passei horas esquecidas a ver, pela televisão, o directo do Festival da Baía das Gatas. Boa moldura humana, excelente civismo e homenagem merecida. Luís Morais, a quem tive o privilégio de apresentar no Fesquintal de Jazz, na cidade da Praia, é um instrumentista que transcende. Voltando à Baía das Gatas, gostei demais de Dulce Pontes e os rappers vindos da França detestei. Já, ao amanhecer, reli os manuscritos do meu livro e revi as ilustrações do Mito que irão também separar os respectivos cadernos internos. Não sei se por urgência desta vigília, ou se por insónia mesmo
Pedrada no charco
Uma pedrada inconsequente, de pura rebeldia ou perturbação juvenil, contra as vidraças da Câmara Municipal de São Vicente quase roubou o show da Baía das Gatas, não fosse a providencial Dulce Pontes, e já o feito levava o arzinho de mais um quiproquó político entre a edilidade e o governo. Ai, o peso das pedras! Enquanto o circo recolhe a sua tenda e a procissão regressa ao adro, há alguma gente – aquela que Arménio Vieira caracterizaria de “gente oca, cabecinha de alfinete” – pronta para do insólito tirar um bocado de partido. Em verdade, esse quase incidente, lamentável, diga-se de passagem, servirá (já agora) como uma chamada de atenção, uma pedrada no charco de todos nós. O que o insólito não provoca! Agora, devagar, devagarinho, à maneira do samba, não seria outra loisa, uns e outros, nos olharmos todos de frente, olhos nos olhos…sem pedra na mão?
Despertar
Acordo indisposto. Alguém pragueja e esconjura a madrugada. Já não suporto tamanha ignomínia. Apetece-me gritar, voar, fugir. Apetece-me desaparecer do mapa. Andar noutra geografia. Ouvir som de flauta, beber água pura, ter paz. Choveu toda a noite. Ainda quis ver algo na televisão, mas a emissão foi-se. Isto é muito precário. Uma boa pancada de chuva e não há emissão televisiva. O jeito é ouvir música. Não na rádio que, a esta hora, se ajeita a programação com zoukada e o barulho afim. Pode? Adiante que a canalha dá cartas…
Mindelact
O 11º Festival Internacional de Teatro do Mindelo estará em cena de 8 a 18 de Setembro e não participar dele, mesmo como mero espectador, é perder. Quando digo perder, estarei a querer dizer o perder a oportunidade de ver as obras em desfile, o ambiente festivo e a organização que nos diz a todos de que a qualidade, mais do que uma porrada de patrocínios, tem a ver com engajamento e inovação. Mais do que teatro em si, o Mindelact é excelência de organização. O resto será este depois da chuva. O céu, em cambiantes ainda de cinzento, anuncia o fim da tarde. Na fímbria desta hora, entre a luzinha da alba e a minha solidão, alguém assobia ao longe uma velha melodia. A crónica da cidade fica para depois. Nunca é tarde, nunca é demais…
quarta-feira, 17 de agosto de 2005
Monumenta
Monumenta
O Memorial à Fome e às Vítimas da Tragédia da Assistência, a ser construído na rotunda de São Januário, orla marítima da cidade da Praia, é um monumento que fazia falta a Cabo Verde. A Fome (com letra bem maiúscula) é algo que deve ser sublimado e exorcizado, não a através do esquecimento, mas pela via da memória. Tal como os judeus fazem com o Holocausto. E os africanos (e sua diáspora) pretendem fazer com a Escravatura. Um obelisco, em tríade multidimensional, dirá sempre aos cabo-verdianos de que a tragédia pode ser a alavanca de um grande futuro. Vimo-lo há dias nas cerimónias do 60º aniversário da bomba atómica (inédita selvajaria humana, diga-se de passagem) sobre Hiroshima. Haveremos de correr a marginal e problematizar a Fome como um recurso para o futuro. Esta também é uma grande contribuição do 30º aniversário da Independência Nacional…
Nós e a cidade
Deixa andar, que a cidade não há de notar a nossa ausência. Tudo corre, como tem mesmo de correr, sem nós. Ou apesar de nós. E, se somos importantes – ainda que a enorme cloaca urbana isso desconheça –, somo-lo no remanso de que uma simples borboleta também o seja. Deixa andar e canta-me nesta caminhada aquela quadra já liberta das palavras. Ser cronista é ser deste tempo testemunha e deste lugar narrador da acta. O que sobra é ledo engano e o sol, por mais que os deuses pequenos esbracejem, nascerá sempre no mesmo lugar. Não te preocupes se A, B ou C, veja nestas linhas um puro cantar de galo. Em democracia, cada um tem direito a seu delírio e, se não está constitucionalizado, chamam ao intelectocrata para que introduza mais este disparate. Quanto à estética, bem isso exige cuidado adicional. A Poesis não surge por acaso. Mas, deixa andar… a cidade não há de notar a nossa ausência.
Do grande Pranchinha
Arguto e desperto, parecendo sempre de vigília, ei-lo o grande Pranchinha que a canalha julga de somenos importância. Mas haverá gente tão essencial quão nossa própria sombra? Aquela assaz interior que, perdidos no labirinto da vida, nos apresenta o fio de Ariadne? Claro está que a personagem estará pintada de fresco. Uma primeira demão para animar a malta, pois sob a resina da comédia inventaram gregos antigos a tragédia. Dizia, é o Pranchinha sempre atento que dá prumo às minhas vertigens e, quando me sente D. Quixote, se arma comigo em Sancho Pança. Por isso, vossas senhorias perdoem-me este à parte, mas falar deste meu alter-ego, como do vosso uso dizer, é condição sine qua non…
Promessa
Jamais deixarei morrer cá dentro o viés que transforma esta amargura em poesia. O grito que me teima, mas que tu guardas no instante dos sentidos, saberá sempre em mim como um sopro de vida. E, se não vou à noite como quem vai à maresia, começarás tu a dissipar a neblina no horizonte dos caminhos por andar. É-nos pouco o tempo, mas naveguemos numa alegria sem demora. Diante do mundo, algo mais do que esta enseada de águas mansas, não quererá a eternidade ser parte do abalo ou do desvario. Simplicidade apenas, de remanso com que as horas são batidas monocórdicas no relógio. E todos os fados são universos de cada transeunte.
Mas poeta és tu
Não te posso dizer que nesta estação somos felizes. Nem que, ao espectáculo do mundo, temos razões para aplaudir. A cada dia, nessa idade de Cristo em que tu andas, fazes melopeia à vileza do quotidiano. Poeta és tu e o resto é treta. A palavra disposta em fila, rima e métrica. Verso saído do quadrado aceite pela praça. Metáforas de acordo com a Constituição. Ingénuo quem pense com o verbo tão-somente sanear a alfurja dessa gente. A mediocridade que se obstina, querendo seja esta uma hora minguada, demanda aqui ingente luta e o poeta, de solilóquio como estás apanhada, nada pode contra a língua vesícula de peçonha, que era como o grande Eugénio Tavares retratava os burocratas. Poeta és tu que não abres mão à beleza de um sol a pôr-se…
O Memorial à Fome e às Vítimas da Tragédia da Assistência, a ser construído na rotunda de São Januário, orla marítima da cidade da Praia, é um monumento que fazia falta a Cabo Verde. A Fome (com letra bem maiúscula) é algo que deve ser sublimado e exorcizado, não a através do esquecimento, mas pela via da memória. Tal como os judeus fazem com o Holocausto. E os africanos (e sua diáspora) pretendem fazer com a Escravatura. Um obelisco, em tríade multidimensional, dirá sempre aos cabo-verdianos de que a tragédia pode ser a alavanca de um grande futuro. Vimo-lo há dias nas cerimónias do 60º aniversário da bomba atómica (inédita selvajaria humana, diga-se de passagem) sobre Hiroshima. Haveremos de correr a marginal e problematizar a Fome como um recurso para o futuro. Esta também é uma grande contribuição do 30º aniversário da Independência Nacional…
Nós e a cidade
Deixa andar, que a cidade não há de notar a nossa ausência. Tudo corre, como tem mesmo de correr, sem nós. Ou apesar de nós. E, se somos importantes – ainda que a enorme cloaca urbana isso desconheça –, somo-lo no remanso de que uma simples borboleta também o seja. Deixa andar e canta-me nesta caminhada aquela quadra já liberta das palavras. Ser cronista é ser deste tempo testemunha e deste lugar narrador da acta. O que sobra é ledo engano e o sol, por mais que os deuses pequenos esbracejem, nascerá sempre no mesmo lugar. Não te preocupes se A, B ou C, veja nestas linhas um puro cantar de galo. Em democracia, cada um tem direito a seu delírio e, se não está constitucionalizado, chamam ao intelectocrata para que introduza mais este disparate. Quanto à estética, bem isso exige cuidado adicional. A Poesis não surge por acaso. Mas, deixa andar… a cidade não há de notar a nossa ausência.
Do grande Pranchinha
Arguto e desperto, parecendo sempre de vigília, ei-lo o grande Pranchinha que a canalha julga de somenos importância. Mas haverá gente tão essencial quão nossa própria sombra? Aquela assaz interior que, perdidos no labirinto da vida, nos apresenta o fio de Ariadne? Claro está que a personagem estará pintada de fresco. Uma primeira demão para animar a malta, pois sob a resina da comédia inventaram gregos antigos a tragédia. Dizia, é o Pranchinha sempre atento que dá prumo às minhas vertigens e, quando me sente D. Quixote, se arma comigo em Sancho Pança. Por isso, vossas senhorias perdoem-me este à parte, mas falar deste meu alter-ego, como do vosso uso dizer, é condição sine qua non…
Promessa
Jamais deixarei morrer cá dentro o viés que transforma esta amargura em poesia. O grito que me teima, mas que tu guardas no instante dos sentidos, saberá sempre em mim como um sopro de vida. E, se não vou à noite como quem vai à maresia, começarás tu a dissipar a neblina no horizonte dos caminhos por andar. É-nos pouco o tempo, mas naveguemos numa alegria sem demora. Diante do mundo, algo mais do que esta enseada de águas mansas, não quererá a eternidade ser parte do abalo ou do desvario. Simplicidade apenas, de remanso com que as horas são batidas monocórdicas no relógio. E todos os fados são universos de cada transeunte.
Mas poeta és tu
Não te posso dizer que nesta estação somos felizes. Nem que, ao espectáculo do mundo, temos razões para aplaudir. A cada dia, nessa idade de Cristo em que tu andas, fazes melopeia à vileza do quotidiano. Poeta és tu e o resto é treta. A palavra disposta em fila, rima e métrica. Verso saído do quadrado aceite pela praça. Metáforas de acordo com a Constituição. Ingénuo quem pense com o verbo tão-somente sanear a alfurja dessa gente. A mediocridade que se obstina, querendo seja esta uma hora minguada, demanda aqui ingente luta e o poeta, de solilóquio como estás apanhada, nada pode contra a língua vesícula de peçonha, que era como o grande Eugénio Tavares retratava os burocratas. Poeta és tu que não abres mão à beleza de um sol a pôr-se…
sexta-feira, 12 de agosto de 2005
Viagem
Em torno da odisseia das ilhas, creio levar
Neste puro desejo que me transcende, a senha
E a palavra-chave de os labirintos serem aqui
Simples lugares de passagem, apenas paisagem…
O andarilho palmilha todas as dunas, areias
De intermináveis desertos e todas as ondas
Que os oceanos concedem, quando furibundas
Ou, mesmo, serenadas e das praias acariciadas…
Sem culpa, nem sina – ou de Job puro devedor –,
Percorro de lés a lés o mapa que é de ti e do mundo
Como quem responde à morte o saldo estival…
Como quem salta para a eterna idade da vida
E fica suspenso entre a estrela e sua cadência
A riscar, de viajar tão-somente, o céu da noite…
Filinto Elísio
Neste puro desejo que me transcende, a senha
E a palavra-chave de os labirintos serem aqui
Simples lugares de passagem, apenas paisagem…
O andarilho palmilha todas as dunas, areias
De intermináveis desertos e todas as ondas
Que os oceanos concedem, quando furibundas
Ou, mesmo, serenadas e das praias acariciadas…
Sem culpa, nem sina – ou de Job puro devedor –,
Percorro de lés a lés o mapa que é de ti e do mundo
Como quem responde à morte o saldo estival…
Como quem salta para a eterna idade da vida
E fica suspenso entre a estrela e sua cadência
A riscar, de viajar tão-somente, o céu da noite…
Filinto Elísio
Côdea de sal
A José Luís Tavares
Corpo áspero de sal que aos meus dedos crispa
Cada cristal e, quase que nuvem feita pedra,
Brilha qual diamante ao sol, e, do seu zénite,
Deixo transcorrer o sonho pela água…
Saberás sempre que, em mim, se resume
À poesia esta motriz do vento e do moinho,
E a matriz que alinha, no mais puro linho,
O fiar das palavras no pano das metáforas…
Hás de me ver passar, em sepulcral silêncio,
Onde os ruídos e as ruínas quedam-se inertes,
Mister do Verbo ou de quão soberbo apanágio…
E deste simples ritual – dedos na côdea de sal –,
Aprenderemos nele o siso e o cisco das pedras,
Corpos das musas, errantes nós das geografias…
Filinto Elísio
Corpo áspero de sal que aos meus dedos crispa
Cada cristal e, quase que nuvem feita pedra,
Brilha qual diamante ao sol, e, do seu zénite,
Deixo transcorrer o sonho pela água…
Saberás sempre que, em mim, se resume
À poesia esta motriz do vento e do moinho,
E a matriz que alinha, no mais puro linho,
O fiar das palavras no pano das metáforas…
Hás de me ver passar, em sepulcral silêncio,
Onde os ruídos e as ruínas quedam-se inertes,
Mister do Verbo ou de quão soberbo apanágio…
E deste simples ritual – dedos na côdea de sal –,
Aprenderemos nele o siso e o cisco das pedras,
Corpos das musas, errantes nós das geografias…
Filinto Elísio
quinta-feira, 11 de agosto de 2005
Correspondências
Podia escrever sobre as ilhas e o cosmos. Mas hoje, dou-vos um cheirinho das minhas correspondências – três enviadas por mim e uma recebida do Luís Araújo. São milhares de cartas, round trip, a cronicar a vida, quase sempre de forma não autorizada e não publicável. Não é segredo do Estado, mas é o estado do segredo, o que dá às coisas mais recato e parcimónia. Uma ressalva apenas: não será por falta de assunto que deito mão às correspondências. Será por excesso dele. E uma estranha saudade do futuro. Ou, tão-só ganas de regressar à “estrada”. Vamos, então, a isso:
A. Flashes de três enviadas:
1. Caríssima Ambi,
(…) Pois é, continuo a escrever crónicas. Sem alguma pretensão de imparcialidade. Antes pelo contrário, não me concedo aqui à hipocrisia. Liberdade total. Não confundir com totalitária, pleaaaaase. Comentário e crítica são bem-vindos. Mas que o pessoal não exagere. Sou neto de António Leão Correia e Silva (o pai e não o filho do meu pai, entendes) e de João Henriques de Almeida Cardoso (pelo lado da mãe), razão bastante para ter nervos, fibra, ganas e raiva. A par deste muito amor aquariano. Para o que der e vier (…)
2. Prezado Crisolino,
(…) Neoliberal eu? Às tantas, hás de indagar se ajoelho e rezo diante dos altares. A riqueza é feita por todos. Cada um à sua maneira. Mas ela é distribuída só para alguns e aí o busílis. Alinho-me com Jorge Luís Borges quando afirma que é uma “irreligiosidade” crer no inferno. Infelizmente, eu acredito em duendes, mas não tenho ganho nada com isso. Pode? O Pranchinha diz que não. Mas para o Pranchinha, a humanidade só existe como pano de fundo longínquo, evanescente e irreal. Arre…(…)
3. Baixinha
Manhã azul, Baixinha. Como um peixinho mágico de riscas verdes, ele dá voltas no teu aquário. Sei que gostas do luar e das praias. Aposto mesmo que saibas cantar ao silêncio das noites caladas. Dizes que sou maluco. Meio real e meio ficção. Podes dizer que ando repetitivo, mas hoje estou com ganas de balbuciar o famoso poema de Vinícius de Moraes:
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
B. Flash da recebida de Luís Araújo
1. Caro amigo Filinto,
(…) Adoro a alegoria do David e Golias de que te serviste para chamar a atenção sobre os perigos que me espreitam. Desde que, ainda criança, a ouvi pela primeira vez a minha simpatia pelos Davids deste mundo foi imediata e, convocado pelo fantástico da proeza de David, tratei logo de arranjar também uma fisga para abater o primeiro Golias que me aparecesse. Já adulto, alguns foram os "meus Golias" que, também, consegui "arrumar", e tu os conheces bem (…)
(…) Realmente feijão com arroz hoje e arroz com feijão amanhã, outra vez, mesmo que servido com outras cores e odores em outra mesa, presidida por outro senhor, como resultado da alternância dos cozinheiros e príncipes da corte, torna-se um exercício semelhante ao do marcar passo da tropa na parada e a sociedade não é propriamente uma tropa subordinada a clubs de generais (…)
(…) Por isso, a mudança tem que ser sempre , essencialmente, o resultado criativo dum processo sistemático de rupturas culturais consecutivas que, com maior ou menor velocidade e grau de alteridade, irreversivelmente transforme a situação institucionalizando uma nova estética geradora duma norma que consiga fazer dos valores que a constituem as fundações dum universo institucional que a sustente e reproduza (…)
A. Flashes de três enviadas:
1. Caríssima Ambi,
(…) Pois é, continuo a escrever crónicas. Sem alguma pretensão de imparcialidade. Antes pelo contrário, não me concedo aqui à hipocrisia. Liberdade total. Não confundir com totalitária, pleaaaaase. Comentário e crítica são bem-vindos. Mas que o pessoal não exagere. Sou neto de António Leão Correia e Silva (o pai e não o filho do meu pai, entendes) e de João Henriques de Almeida Cardoso (pelo lado da mãe), razão bastante para ter nervos, fibra, ganas e raiva. A par deste muito amor aquariano. Para o que der e vier (…)
2. Prezado Crisolino,
(…) Neoliberal eu? Às tantas, hás de indagar se ajoelho e rezo diante dos altares. A riqueza é feita por todos. Cada um à sua maneira. Mas ela é distribuída só para alguns e aí o busílis. Alinho-me com Jorge Luís Borges quando afirma que é uma “irreligiosidade” crer no inferno. Infelizmente, eu acredito em duendes, mas não tenho ganho nada com isso. Pode? O Pranchinha diz que não. Mas para o Pranchinha, a humanidade só existe como pano de fundo longínquo, evanescente e irreal. Arre…(…)
3. Baixinha
Manhã azul, Baixinha. Como um peixinho mágico de riscas verdes, ele dá voltas no teu aquário. Sei que gostas do luar e das praias. Aposto mesmo que saibas cantar ao silêncio das noites caladas. Dizes que sou maluco. Meio real e meio ficção. Podes dizer que ando repetitivo, mas hoje estou com ganas de balbuciar o famoso poema de Vinícius de Moraes:
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
B. Flash da recebida de Luís Araújo
1. Caro amigo Filinto,
(…) Adoro a alegoria do David e Golias de que te serviste para chamar a atenção sobre os perigos que me espreitam. Desde que, ainda criança, a ouvi pela primeira vez a minha simpatia pelos Davids deste mundo foi imediata e, convocado pelo fantástico da proeza de David, tratei logo de arranjar também uma fisga para abater o primeiro Golias que me aparecesse. Já adulto, alguns foram os "meus Golias" que, também, consegui "arrumar", e tu os conheces bem (…)
(…) Realmente feijão com arroz hoje e arroz com feijão amanhã, outra vez, mesmo que servido com outras cores e odores em outra mesa, presidida por outro senhor, como resultado da alternância dos cozinheiros e príncipes da corte, torna-se um exercício semelhante ao do marcar passo da tropa na parada e a sociedade não é propriamente uma tropa subordinada a clubs de generais (…)
(…) Por isso, a mudança tem que ser sempre , essencialmente, o resultado criativo dum processo sistemático de rupturas culturais consecutivas que, com maior ou menor velocidade e grau de alteridade, irreversivelmente transforme a situação institucionalizando uma nova estética geradora duma norma que consiga fazer dos valores que a constituem as fundações dum universo institucional que a sustente e reproduza (…)
quarta-feira, 3 de agosto de 2005
Angelus Novus
1.
Gosto de passear pela orla marítima da cidade da Praia. Ver a baía, o apelo uterino da paisagem, o seu abrigo que antevê o mundo com um certo vagar. Ando pela calçada da marginal, os transeuntes circulam em azáfama de fim do dia e um bando de aves pousa na areia da Praia da Gambôa. Gosto de passear, assim sozinho, pela orla marítima e é quase certo que andamos sempre em espiral.
2.
De repente, percebe-se que a identidade existe não só pela origem comum, mas pelo destino comum. O vivermos colectivamente como destino é o grande leimotiv do desenvolvimento. E esta consciência interpela a todos e, no âmago, a cada um particular, para a saga colectiva. Tudo não passa de um grande périplo rumo ao infinito afinal. Entrementes, o tempo existencial do indivíduo pode ajustar-se ao percurso épico de um povo. Senti isso, na pele, ao participar nas comemorações do 30º Aniversário da Independência Nacional. Parafraseando Padre António Vieira: a festa mais de todos e a festa mais de cada um. Dir-se-ia que o vento trans-histórico bafejou a minha face e me deixou marcas por fora. Já nem direi do que me vai cá dentro. O tempo, que nasce com o homem, não pode ser compreendido de molde apenas objectivo. Deve ser visto crítica e historicamente no modo como ele é vivido pela complexidade do sujeito. Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Vale a pena conhecê-lo. Ele representa um anjo a afastar-se de algo que encara fixamente. Os vários elementos desse quadro dão a ideia da Fortuna, mas o Anjo encara-os como uma catástrofe única, à qual é preciso fixar os olhos com consciência de que toda a construção carrega a sua própria ruína. Assim, estes foram dias reais, mas com quê de metafísico. E, como diria Jorge Luís Borges, em El Aleph, o final da história só se pode contar em metáforas pois passa-se no Reino dos Céus, onde o tempo não existe…
3.
Escuto, com causa, o último disco de Tcheka Andrade. Este entendeu que a diversidade cultural é preciso. Cabo Verde só chegará à internacionalização e à globalização se conseguir apresentar, com qualidade e excelência, a sua Cultura. Isso de forma mais diversa possível. A sociedade cabo-verdiana reflecte, em sua própria génese, o pluralismo cultural. Somos uma síntese inter cultural e não apenas um mosaico de culturas. A nossa idiossincrasia está no aceitar a diversidade e transformá-la em matriz da nossa identidade cultural. Esta realidade intrínseca é a verdadeira teia que mantém a rede da nação cabo-verdiana, cerzida na sua geografia insular e da diáspora. Tcheka Andrade entendeu-o como poucos. Já agora, seria importante que a sociedade cabo-verdiana se inteirasse dos debates em curso sobre a diversidade cultural.
Gosto de passear pela orla marítima da cidade da Praia. Ver a baía, o apelo uterino da paisagem, o seu abrigo que antevê o mundo com um certo vagar. Ando pela calçada da marginal, os transeuntes circulam em azáfama de fim do dia e um bando de aves pousa na areia da Praia da Gambôa. Gosto de passear, assim sozinho, pela orla marítima e é quase certo que andamos sempre em espiral.
2.
De repente, percebe-se que a identidade existe não só pela origem comum, mas pelo destino comum. O vivermos colectivamente como destino é o grande leimotiv do desenvolvimento. E esta consciência interpela a todos e, no âmago, a cada um particular, para a saga colectiva. Tudo não passa de um grande périplo rumo ao infinito afinal. Entrementes, o tempo existencial do indivíduo pode ajustar-se ao percurso épico de um povo. Senti isso, na pele, ao participar nas comemorações do 30º Aniversário da Independência Nacional. Parafraseando Padre António Vieira: a festa mais de todos e a festa mais de cada um. Dir-se-ia que o vento trans-histórico bafejou a minha face e me deixou marcas por fora. Já nem direi do que me vai cá dentro. O tempo, que nasce com o homem, não pode ser compreendido de molde apenas objectivo. Deve ser visto crítica e historicamente no modo como ele é vivido pela complexidade do sujeito. Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Vale a pena conhecê-lo. Ele representa um anjo a afastar-se de algo que encara fixamente. Os vários elementos desse quadro dão a ideia da Fortuna, mas o Anjo encara-os como uma catástrofe única, à qual é preciso fixar os olhos com consciência de que toda a construção carrega a sua própria ruína. Assim, estes foram dias reais, mas com quê de metafísico. E, como diria Jorge Luís Borges, em El Aleph, o final da história só se pode contar em metáforas pois passa-se no Reino dos Céus, onde o tempo não existe…
3.
Escuto, com causa, o último disco de Tcheka Andrade. Este entendeu que a diversidade cultural é preciso. Cabo Verde só chegará à internacionalização e à globalização se conseguir apresentar, com qualidade e excelência, a sua Cultura. Isso de forma mais diversa possível. A sociedade cabo-verdiana reflecte, em sua própria génese, o pluralismo cultural. Somos uma síntese inter cultural e não apenas um mosaico de culturas. A nossa idiossincrasia está no aceitar a diversidade e transformá-la em matriz da nossa identidade cultural. Esta realidade intrínseca é a verdadeira teia que mantém a rede da nação cabo-verdiana, cerzida na sua geografia insular e da diáspora. Tcheka Andrade entendeu-o como poucos. Já agora, seria importante que a sociedade cabo-verdiana se inteirasse dos debates em curso sobre a diversidade cultural.
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