quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Corpo Presente

1.
Quando Daisy veio à casa contar aquela tragédia, não escondeu a ambivalência dos seus sentimentos. Foi buscar à estante o livro “Corpo Presente”, de Anne Enright e leu em voz alta: “Há algo maravilhoso numa morte, como se tudo fecha e todas as formas como nos julgámos vitais não são sequer vagamente importantes”. Daisy deve ter ficado horas esquecidas a mirar o corpo. Era jovem. Pouco mais que uma criança. Chegou a sentir saudades da sua própria infância. Das cantigas de roda. Da grande cozinha que dava para o quintal. Da soleira das portas em noites de luar. Os murmúrios. Os gemidos escutados às janelas dos vizinhos. Memória da infância – de um lado, vagarosa e carinhosamente; doutro lado, sinistra, como um filme de vampiros. O suicídio da dona Judite, naquele sobrado azul. Bela, como uma princesa, a senhora entrou em estado depressivo e degolou-se com uma faca de pão. Daisy tinha ido, à frente de uma meia dúzia de meninos, ver o corpo. Aquela lagoa de sangue. Fora há tanto tempo…


2.
No conforto do Hotel Vittoria, Norberto acordou a meio da manhã e viu a imagem da sua mãe em frente à janela. A princípio, parecia-lhe uma sombra informe, que mal deixava ver a silhueta da Basílica para lá da Via X Giornate. O que era uma imagem em composição foi dando corpo a uma bela mulher septuagenária. Não duvidava que era a sua mãe. Mais tarde, a madrinha telefonara a contar do assassinato do jovem thug, às cinco da matina. “À mesma hora da aparição da tua mãe”, disse ela. Norberto encontrava-se ali em repouso, a ver se conseguia terminar um livro de poemas. Andar entre os feirantes do centro da cidade, dava-lhe alento e motivação. Só a Eluana, com as suas ideias de Feng Shui e de Ioga, defendeu esse retiro pelas terras italianas. O resto da família desaprovara a aventura, sobretudo aquela parte de ir a Veneza andar de gôndola.


3.
Cinthia dormia profundamente. A mãe diria que era o sono dos justos. Ressonava até. Não dava fé dos telefonemas, nem atentava para o sol que amanhecia como uma laranja. Durante a noite, longe dali, uma mão enluvada rodava a maçaneta de uma porta. Uma figura de preto (andrógina figura, diga-se) entrava pelo quarto. Uma espelunca. O covil dos ratos. Mas ela vinha sorrateira e sem fazer barulho. A figura empunha um cano cerrado. De manhã, quando a polícia descobriu o thug morto, a dúvida ia entre a carabina 12 e cano serrado. O Escorpião era vezeiro em arma de guerra. Parecia um assassino serial. Cinthia dormia profundamente. Completamente nua. No silêncio dos inocentes. Quando acontece o disparo, longe, a milhares de quilómetros dali, as pombas voaram da cúpula da Basílica que ladeava a imagem daquela mulher à janela…

"Presidente" OBAMA


Modesto, mas incondicional, apoio de Albatrozberdiano.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Broche


Estava ali o corpo putrefacto e nauseabundo. Daisy chegara a casa, ofegante e aflita: o Escorpião matou mais um thug! E ela não gostou do comentário da madrinha (magra, cabelo ralo, vestido negro e broche com olho à Salvador Dali). Não gostou que ela falasse do extermínio como índice de civilização. A madrinha tinha cada uma! Preferiu a discussão acesa que se instalou à mesa. A verdade não é tão evidente assim, respondia John, o patriarca, relativizando as teses dos Direitos Humanos que a Eluana insistia em trazer à mesa. Apenas um rasgo da memória, não se sabe se realizada, se sonhada. O Escorpião, mesmo que mate, é apenas uma máscara, uma ficção. O tio, que era uma espécie de sábio, descrevia a verdade como uma aproximação ao desejo ou à repulsa. O Dr. Zacarias (mas eram tantas personagens à mesa!) explicava-a como uma memória (selectiva, meus amigos). próxima ou distante de nós. E eu ria-me das nuances filosóficas de uns e de outros., sobretudo as de Zilda, a empregada, que, familarizada que estava, tinha a sua versão: a verdade é tudo que não seja mentira. O Escorpião não é verdade. Tinha o "apelido" de Sancho Pança. No broche da madrinha, um relógio simulava o tempo parado. Quase nas antípodas, a família me conhecia por Alonjo Quijano. De triste figura...dir-se-ia o thug que nauseabundava!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Mão invisível


Novas da Campanha


Uma Barbie em Filadélfia, horrorosa como todas as Barbies, distribui um panfleto que mente: Obama não nasceu no solo americano. E esta? Pior só aquela língua de fora que um Blog crioulo intitulou de “Fi de Cadon”. Enquanto isso, um homem, nascido para falar com os cidadãos olhos nos olhos, continua a rodar a América a espalhar esperança…

Acerca da Crise

A mão invisível do mercado estava suja. Tão suja quanto aquele que traficava droga, armas e pessoas. Entre uma mão e outra apenas uma fronteira duvidosa da legalidade. O capitalismo especulativo e desenfreado, que fazia encolher o Estado e projectar o imperialismo dos “donos” do dinheiro, é o responsável por este enorme rombo (ou roubo, como já dissemos aqui). A crise é ambiental, energética, financeira, económica, social e ética. Tem mais impacto que a queda do Muro de Berlim que apenas reconfigurou as oligarquias e reconstruiu outro muro entre o Norte e o Sul – entre a riqueza e a pobreza. A mão invisível e suja do mercado guardava esse novo muro com ordem para matar. Mão tão suja que já nem se pode lavar. Amputá-la seria o remédio santo…

Da Arte

A questão é elevar a política à Arte e não reduzir esta a aquela. De resto, não gostamos de ver discursos políticos nas Galas Musicais. Em nenhuma gala. A palhaçada das apresentações, redundante como seria, também já basta. Os espectáculos devem manter a lógica da produção artística tout court. Deveria ser apenas um profissional de comunicação, comedido, gracioso e shrap, a anunciar os artistas e, em breve sinopse, o busílis de estarmos ali sentados em hora nobre. Os viscerais na bancada. Sem intelectrocratas, nem intelectualóides. Todos para fora do stage. E música…Maestro!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

D-versos


Obama

Temos momentos sem neutralidade. Nem isenção, inclusive. No dia 4 de Novembro, queremos, desta arquibancada do mundo, que Obama seja o 44º Presidente dos EUA. Queremo-lo com fé, confiança e resolução. Pela América e pelo Mundo. Não podemos deixar de ser românticos em relação à América, cuja revolução, mais interessante que a francesa, a inglesa e a russa, declinou o poder como o exercício da vontade dos cidadãos. Apesar dos vícios do Império (de todos os impérios, note-se), a América guarda a distância do indivíduo em relação à causa e à coisa pública. E tem capacidade de se reinventar sempre que os falcões invadem o domínio das águias. Terra de Thomas Jefferson e de Martin Luther King Jr.. Ganhando Obama será a refundação da América…e não só.

Crise

Vivemos uma crise complexa. Múltipla, porque financeira, económica e ecológica. De confiança no capitalismo que se tornou globalizado e, até há dias, a panaceia dos nossos males. Vivemos uma crise globalizada, apanhando uns mais que os outros. Ou melhor: uns antes dos outros. O tempo, antes inexorável, tornou-se implacável com todos. O tempo da crise mundial, bem entendido. É uma questão de mais ou menos conectividade. De repente, os campeões do neoliberalismo lembram-se das virtudes do Estado e querem-no forte, intenso e interventivo. Um Estado capaz de transformar os impostos dos cidadãos em activos e em capitais para refinanciar a mega “irresponsabilidade” financeira dos capitalistas. Um Estado que reconheça, às pressas, que é hora de injectar dinheiro no network interbancário e salve, não só as finanças, mas todo o resto que ficou baralhado e que, a descuido, poderá transformar o mundo numa tremenda desgraça. O pânico dos ricos, que está longe do cenário dos pobres, é que nos tem nesta grande aflição por estes dias. E, com perdão pelos sabichões da nossa praça (praceta, diga-se de passagem), de cuja lição de sapiência estamos fartos, o cronista começa a ter desgosto do Estado. Em verdade, é o Estado que começou já a entrar na complexidade desta crise…

Ildo Lobo

Nenhuma voz cabo-verdiana me tocou tanto quanto a de Ildo Lobo. Naturalmente que não sou indiferente à toada de Cesária Évora, de Bana e de Mayra Andrade. Ouço o timbre de Sara Tavares, de Zeca di nha Reinalda e de Tcheka Andrade, e caio logo “na gandaia”. Isa Pereira, Dudu Araújo e Lura tiram-me do sério. Gosto das vozes cabo-verdianas, o skating da crioulidade musical do canto cabo-verdiano. Mas nenhuma voz me apanhou quanto a de Ildo Lobo. Talvez por dele ter ouvido “Labanta Brasu” e “Djonsinhu Kabral” no tempo certo de as ouvir. Não posso pensar em Cabo Verde, independente, livre e democrático, estas ilhas desabridas e afortunadas, sem que, na trilha, me ressurja o trecho da voz de Ildo Lobo. Não sou telúrico, nem visceral no apreender a Arte, diz-me o Poeta. Mas marca-me cá dentro, como uma cadência de mim próprio, essa clave com fonema. Voz que me é, como nenhuma, existencial…

A MAIS ALTA VOZ / ILDO LOBO



Declinava outubro com seu som

de poucas águas. E nem as lágrimas

da virgem da ladeira prometiam,

nesse ano, o sempre aguardado milagre.


E então tu partiste - pelas quebradas

de saibro e cieiro, pelas alturas de pico

d'antónia, tu, infante das planuras,

eterno enamorado do whisky e da maresia.


«Serenata nun luar klaru», «kabral ka more»

«djonzinhu kabral» - que compadecida voz

as recitará de novo nas madrugadas de facas

e despedidas? Quem rogará às ondas do mar

«faze-m un arku ba poiza la riba na krus d´igreja»?


Sin, «notísia tristi N ten pa N da:

fidju tera, barku grandi ka rizisti»,

declinava outubro com seu eco

de vígeis espigas, e lisboa era esse céu

toldado de presságios, tal indemne profecia

soluçando à ilharga da manhã.


Só tu eras a mais alta estrela «na séu di kabu verdi»,

só tu sabias ma «ka ten dia ka ten manhan»,

mas «na porton di nos ilha» bu vos é son

di strubon ta ronka pa iternidadi.



José Luis Tavares

sábado, 18 de outubro de 2008

Uma letra veio





Um M e outro

(gémeo)


e agora este


abrindo sulcos


veios


para a transa


da viagem: A voz


agora húmida



eriçando o campo


o último


de se ir às sombras

dum crepúsculo ao fundo

ígneo



— esse Me


as suas duas

sílabas-ímãs

de trazerem à boca

e à língua as frutas

se entreabrindo às águas

ao seu murmúrio



(De onda em onda aonde


as letras morrem — ou uma sobrenada e se detona: Imagem)



Um lume-olho novo luxo


belo se irisando


veio dos lábios

Veio da pedra ressequida


e desta arma


a espadanada sede sobre a página
Max Martins

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.E mar.
Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.


Manuel Alegre

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Chove!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


José Gomes Ferreira

Da tristeza feia de uma realidade descrita quase com raiva para a paz optimista de quem ouve para lá dos pingos da chuva


- 1.


Nem tristeza feia de uma realidade descrita quase com raiva, nem a paz optimista de quem ouve para lá dos pingos da chuva. O cronista, sem ser neutro, tem num caso e noutro franciscana isenção. Chove, ainda bem que chove. Mas, se não chovesse, havíamos de ir ver o mar. O caso do Escorpião? É ficção, mas podia ser real. Em verdade, a realidade é pior que isso. Infinitamente, pior. Escrevo para testemunhar o nonsense de como as coisas se me parecem. De resto, começa a tardar sermos lúcidos, apesar da nossa incondicional loucura…


0.

Leio-te um trecho de “Os Lusíadas”:

Tu, só tu puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

1.


Eu gostaria de ver um Ministro da Cultura como Gilberto Gil que, mal chegou ao poder, democratizou o dinheiro público em função das necessidades culturais e reais do povo brasileiro. E subvertou o jogo (elitista e capelista) dos recursos a reproduzirem-se apenas na elite intelectual. Gil virou a mesa e recompôs a ceia onde milhões de apóstolos foram cear. The best soup. Se Gilberto Gil não fosse artista de primeira grandeza, talento que mesmo o Brasil produz de raro em raro, eu havia de o querer ministro "até onde o final dessa estrada vai dar", conforme o Expresso 2222.


2.

Dia Nacional da Cultura. Acompanho, pelos Blogs de uns e outros, a posição sobre a efeméride. Alguma crítica (às vezes, fulanizada demais) ao titular da pasta. Em verdade, salvo respeito à opinião adversa, o Ministro da Cultura deve ser avaliado em função do cumprimento ou não do Programa do Governo para a área cultural que se estriba no abrir os cidadãos a novas oportunidades culturais bem como ao pluralismo da criação cultural. O Governo não deve ser intervencionista, nem dirigista em relação ao "mercado cultural", fazendo antes o papel de facilitador ao acesso e à fruição dos bens culturais, e de promotor da identidade nacional.


3.

Ocorre-me um extraordinário livro de Jean-Paul Sartre, "Os dados estão lançados", que mostra algum determinismo nas coisas. Há mudanças estruturais na Política da Cultura para se quebrar esse determinismo. Aquele shake-up que o ministro Jack Lang promoveu e conseguiu com François Mitterand em França, por exemplo. Depois há os condicionalismos políticos (partidários até e regionalistas ainda), onde certos consensos estruturais são difíceis, como será o caso da oficialização da língua cabo-verdiana. Os nossos parlamentares, mau grado a pseudo hermenêutica da fala, precisam de uma grande revolução mental. Não se faz Cabo Verde, sem o assumir de facto e de jure o bilinguismo cabo-verdiano. Basta de baile de máscaras e do império dos "intocáveis". Estamos fartos, fartíssimos, disso!

The Untouchables




Os "intocáveis" (na Índia, uma casta marginalizada; em Cabo Verde, um punhado de levianos) são uma gente em vias de extinção. Tais como os tubarões, as tartarugas, as baleias, as focas e os ursos polares. É preciso protegê-los em reservas, com fundos especiais e convenções internacionais. Os "intocáveis" crioulos, esses levianos, cheios de nove horas, se acham donos destas ilhas. Como se a Coroa, virasse de avesso, e editalizasse: a Grande Ilha, ao invés das duas capitanias (Ribeira Grande, a Sul, e Alcatrazes, a Norte), será, doravante, esquartejada numas leiras de terra, divididas (em empate técnico, diga-se) entre o Partido Amarelo e o Partido Azul, ficando o resto da canalha na condição de povo, servo, escravo, badio e sampadjudo, mesmo tud coll, a ver caravelas (navios, ao tempo)". O mesmo se fez quando, paulatinamente, as outras ilhas foram descobertas e povoadas, perdendo, cada uma a seu tempo, a condição de deserta. Os "intocáveis" foram ocupando o seu lugar ao sol (à sociedade, digo) e hoje, apesar de poucos e levianos, são os empresários da praça, a cúpula dos partidos, a nata da administração e os bacanas da nossa quotidiana telenovela. É vê-los, outrora balalaikados, ora fatiados, quando não enfatiotados a falarem do PIB, Sub-prime, Investimentos, ZDTIs, Revisão Constitucional e Parceria Especial. É vê-los a especular o solo, dito por achamento e usocapeão, e mesmo rasura notarial, a rateá-lo em lote, quarteirão e hectares urbanizáveis. A elite, a pequena-burguesia, a fina-flor, os copos-de-leite...The Untouchables!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ambrósia

Se ambrósia, em sangue, a vinho se torna
Não lhe adivinho, de pãs, faunos e sátiros,
Outra natura sua senão que do ébrio néctar
Todo âmbar nos seja o falecido Ampelos…

E se a longrina vinha, tua ou minha, trágica
De ninfas e de Sileno, nada lhe é como nudez
Que é, pois, temida sobre o Eufrates e gemida
Se ergueria a ponte que lhe aponta o Ganges…

Ali, aprendem-se lua, estrela e Kama Sutra
Sorvem-se, no oco das mãos, a água de mel
E o orvalho de Baco em espumas purpurinas…

Sabe-se, nas cercanias do Monte, o sal da poesia
Com que, aos perfumes, se amansam guerreiros,
Embriagados com turmalina, sol e melodia…


Filinto Elísio

Ofício Poético


escreva no corpo dela
um poema
com seu pau.

faça um poema
bem longo.
goze no ponto final.
Bráulio Tavares

Minha Vernissage





Vernissage só de mim

Chega-se a uma idade em que somos mais impacientes e mais selectivos. Estamos chatos e não se fala mais nisso. Três minutos seguidos a ouvir zouk crioulo, nem pensar. Dez minutos contadinhos de tecnocrata consultor, trabalhador soooooooofre. Uma hora de comício, nem merda. Seminários semanais, workshops das ONGs, exposições apressadas, coffee breaks e debate arranjado de jornal, não brinquem comigo. É da idade ou da cidade tudo a nos virar rápido, digital e virtual. Arranjo geral. Making ups. Mas a ti, minha lua nua (que a rima é chula), te queria lenta, tangível e real. Enluadíssima. Kama Sutra. Vernissage só de mim …

Bolsa & Poesia

As bolsas, ora em alta, ora em queda, já fazem parte das minhas preocupações. De todos nós, suponho. Preferia usar esse “tempo de antena” a apreciar Leonard Cohen, mas fazer o quê? Não porque fosse outrora corretor, nem porque ora almeje ter bolso na bolsa. Estou mas é vocacionado e alvitrado para viver de outro corre-corre e a depender tão-somente da vida e saúde (inclusive, a mental). Falando nisso, fechei já o meu livro de poemas "Li Cores & Ad Vinho" e, doravante, só me restam as agruras do editor, gráfico, gráfica, lançamento, essas coisas…

The last dance

Nas eleições americanas de 4 de Novembro, mesmo não sendo americano e muito menos eleitor americano, estou com Baraka Obama. Vi-o, ontem, a dar um grande baile a McCain. The last dance. O debate (este sim, foi debate, com gosto a biscoito fino). A malta toda assoberbada e desviada para o desaire financeiro e para o “regresso keynesiano” do Estado, quase a deixar passar em branco o maior fenómeno político da década. Quem não se lembra de Martin Luther King Jr.? I have a dream…

Coisas de Rubem Fonseca


É o que vem escrito no conto “Ela e outras mulheres”: Perguntei, não está bom assim? Cada um no seu canto, nos encontramos para ir ao cinema, passear no Jardim Botânico, comer salada com salmão, ler poesia um para o outro, ver filmes, foder. Acordar todo dia, todo dia, todo dia juntos na mesma cama é mortal. Os livros de Rubem Fonseca e os discos de Leonard Cohen não saem de casa…

Reactivos

Há pessoas que confundem alhos com bugalhos. Diante de um asno e de uma besta querem ver nos gajos duas ovelhas. O Albatroz tem cara de eco-ponto, oooooops, perdão, contentor de lixo? O post anterior teve dezenas de reacções, entre as quais uma trintena de lamúrias, umas conventuais, outras mordidas…putis!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Escorpião


o corpo sem sentido do morto
o sexo solitário do rato no laboratório
Ricardo Silvestrim
Garanto-vos que isto não é um conto de Rubem Fonseca. Lá porque o jovem estava ali morto, absolutamente acabado, com um espeto de ferro de uma orelha à outra, o cronista não tem de fazer a ressalva que isto é pura ficção. O infeliz tinha ainda a língua e o pénis cortados. "Esvaíra em sangue até às últimas", disse o médico que examinava o cadáver, acompanhado do agente da polícia. "Temos de ir buscar um meia-dúzia de thugs a ver se identificam este corpo", disse o agente, indiferente à multidão de curiosos. Talvez tivesse sido raptado em casa e levado por um justiceiro pelos lados da Quebra Canela. Ademais, o buraco no meio do peito era obra de um carabina doze ou de cano serrado e não de "boka bédju". Duas mulheres não aguentaram a cena e começaram nesse alvoroço de gritos e ataques. "Vocês são da família da vítima?", perguntou o agente, agora encorajado pela vinda de reforços. "Vítima o caneco. Desde que os thugs mataram o filho de uma delas que essas duas irmãs viraram desnorteadas", explicou outra mulher, esta já idosa. Na algibeira do malogrado, havia dinheiro, cartão vinti4, colares, broches e anéis. "Via-se que era assaltante, bandido, filho da puta", comentou, mais tarde, um taxista da assistência. Diante do impasse, uma rapariga dos seus 20 anos, ar de desvairada, gritou "Esse bunda aí foi morto pelo escorpião!", e o pessoal arrancou uma enorme gargalhada. Ela estava perturbada, dizem, na sequência de um assalto e de uma violação. Entrou em transe: "Pelo escorpião. Viva o escorpião!". O cronista não se mete e fica neutro. Encolhe os ombros. Completamente isento. Até porque a manhã já estava encorpada de sol e um pessoal do hospital viera cobrir o corpo com manto branco. Finito...

Não-coisa

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisas

em permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.


Ferreira Goular

Debate



O debate, bem urdido como terá sido, fez mais estória que História. Há enigmas e incógnitas que ficam no ar. Primeiro, as máscaras usadas não se adaptam aos rostos. Segundo, se o debate era confrontar os primeiros-ministros da II República, faltou Gualberto Rosário no painel. Se o mesmo era confrontar a governação e a contra-governação (à guisa de situação-oposição), a sociedade queria ver José Maria Neves e Jorge Santos. E se a ideia (de uma subjectividade que não se explica) fosse o interface dos próximos presidenciáveis (por sinal, jamais providenciáveis), na minha modesta opinião, estaria a faltar pelo menos mais três respeitáveis cidadãos com assaz ambição. Quanto ao conteúdo do debate, convenhamos que os dois cidadãos estão à altura de governar ou de presidir esta República. Competência é que não lhes falta. Mas já que há fumo (a nos sufocar até), passemos a procurar o fogo dessa História. Aliás, estória, diga-se em abono da frontalidade!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Paulo Liminski

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Obama - Get involved now




O Des (o) Culto



O baile

A sociedade é um baile de máscaras. O cronista gosta de metáforas faits-divers e à la Palisse. É forçoso que estejas no baile mascarados, mas a ninguém a obrigação de dançar todas as músicas. Máscaras, porque haverá rostos. Se não, outras coisas quaisquer, tão vazias quão atrozes, pois prenhes de absoluto, infinito e eternidade. Em verdade, não há respostas à vista. Há, se tanto, aproximações. Inconformidades. Por conseguinte, máscaras e rostos que as determinam. E o cronista continua iconoclasta…


O fenómeno blogueiro

O fenómeno blogueiro em Cabo Verde é relativamente novo e carece de um olhar mais crítico e mais sapiente. Há quantidade e, dela derivada, alguma qualidade. Pessoalmente, não sendo especialista, mas blogueiro bissexto, só tenho a dizer que, às vezes, gosto e que, outras vezes, desgosto. Uns parecem carregar preocupações mais exegéticas que outros. Mas não virá o mundo abaixo por isso. Somos todos aprendizes de feiticeiros. O Blog pode também ser uma parafernália tecnológica, de múltiplas escolhas e possibilidades mediáticas, mas, em essência, puro brinquedo de quem o programa e o edita. Há Blogs de toda a sorte, uns melhores que outros, na proporção dos blogueiros (ainda bem) diferenciados…

O Poeta

Não falo desse restaurante de onde se vê a baía e o Ilhéu de Santa Maria. Falo do Poeta, conditio, a que Rilke referia como “sono de ninguém/sobre tanta pálpera”. E há aqueles versos de Maria do Rosário Pereira em que “num poema, mesmo manchado/de café, a chávena é certamente a/concha de uma mão – por onde eu/bebo o mundo, em maravilha, se tu,/bem entendido, fores o poeta”. O poema vai mais longe, mas este cheirinho já diz desta opção assumida pela metáfora. É só continuar a habitar o interior de tal texto.

A coruja de Ateneia

Derrubem os deuses. Rasguem, sem medo, nem piedade, suas túnicas. Amortalhem seus corpos. Esquartejem-nos. E fiquem depois nesse silêncio da liberdade. Só o silêncio poderá gritar dentro de nós a emergência de olharmos para as coisas. Esse silêncio profundo e mais integral. Filosofal, direi. Antes que a coruja de Ateneia levante o voo e, de partida, deixe sobre nós as sombras sem panaceia da vida. Antes que o prenúncio dos nimbos se abata sobre as nossas almas…

sábado, 11 de outubro de 2008

Obra pública


A cidade da Praia parece um estaleiro. A asfaltagem continua e a obra pública é benvinda. Alguma incomodidade, sem dúvida. Mas por uma boa causa. Começámos a ter o cheirinho de como será a marginal da Praia, que tem uma baía linda. Lindíssima. I love Praia. Por isso, não sou neutro, nem isento quando a capital está em causa. Quero lixar o lixo, o thug, o ambulante, o bairrista, o praiano sacana (esse que come com desdém) e o forasteiro arrogante. Praia é uma cidade de todos e de tudo. Mas, não sendo candidato a nada, nem mesmo ao olimpo da blogaria, falo apenas da obra pública. Que nos deveria apresentar, a cada trecho, um aviso como o da foto. É que somos cidadãos, munícipes, contribuintes, clientes, praienses...essas coisas!

Lisboa, Lixboa, Luboa

Lisboa. Meia chuvosa, meia ensolarada. Meia fria, meio quente. Outubro é assim. Outono tem disso. Lisboa e tu me dizes poemas de Manuel Alegre. Lisboa e não há acácias de Cabo Verde. Mas há pinheiros pela rama. Cheira qualquer coisa. Cheira bem. Ora jasmim, ora alfazema. Na FNAC, do Centro Comercial Colombo, os livros, os CDs e os DVDs são a minha desgraça. Meu caro amigo, at large, o sistema é multifacetado, incorporando também a sua ala marginal. De uma perspectiva mais complexa, estamos sempre dentro. Cagando, embora. O padrão é complexo: tese e sua antítese. Uma síntese da merda. Meu outro amigo, mais at-large ainda, em verdade nunca somos neutros. Tentemos às vezes ser isentos. Entre Bush e coisa alguma, somos este e jamais aquele. Entre McCain e Baraka, somos pelo "brother", sem ilusões desmedidas. As manhãs não cantam, senão a música de um Wall Street a vir abaixo. O estrondo, meus caros, é pior que aquele do Muro de Berlim, que até foi giro, giríssimo. O problema não seria nos cair em cima o Carmo e a Trindade. O problema, Mon Petit, é o Day After e, sem neutralidades, nem complacências, temos filhos a crescer. Se não os tivéssemos, juro me me apetecia ir ao alto da Torre Eiffel e mijar sobre a cabeça da multidão. Ou, então, descarregar a tripa, do alto do Cristo-Rei, o Redentor. Ontem, foi um dia e tanto. Reunião na Colliers e tudo. Investimentos, projectos, empreendimentos, essas coisas. Ainda há disso, apesar da crise financeira mundial e on process. Escrevo um texto para o Mito, that griot, que participa numa grande colectiva internacional. Não digo onde para não acordar os facínoras. Ao fim do dia, a Assembleia da República (portuguesa, naturalmente) chumbou a lei sobre o casamento dos homessexuais. Achei bárbaro, fascista e retrógado esse chumbo grosso. E em Cabo Verde, isso passaria? Quero ver o deputado com colhões para fazer tal proposta. Saúdo daqui o Maukie, o Hugo e o Pranchinha. Eles não ganharam Prémio Nobel, juro. Telefono ao Pablo e ao Denzel, estes são mesmo verdade. É pá, Lisboa, Lixboa, Luboa, minha cidade de Ulisses (o da mitologia, ó malta). Alis Ubbo. Olissipo. Al-Ushbuna. Meia chuvosa, meia ensolarada. Quente e fria, como a sobremesa do restaurante Espaço Lisboa. Não vejo os poetas. Nem o Marc está em Lisboa. Onde estão os alfacinhas, os saloios, os tugas, os berdianos, os ciganos, os outros brancos e pretos? Onde estão os indianos, os chineses? Fernando Pessoa no Rossio e Alexandre O' Neill seguindo o cherne. Sei os teus seios; sei-os de cor. Onde estão todos? Mas estás tu, minha alma, meu outro. Outubro é assim. Outono tem disso, Panterinha...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Busy...mente

1.
Os deuses não existem, senão quando, por excesso de loucura ou de lucidez, inventamos coisas tangíveis e/ou intangíveis para divinizar. Marx falou em ópio do povo. Mas, em verdade, certas coisas chegam a ser piores que ópio...

2.
Receitas para um bom Blog? Não subscrevo essa. Conheço receita de Molho de São Nicolau (bem caprichada na farinha de mandioca, cabrito do tenrinho e inhame) e de Djagacida (com feijão seco, xerém do fininho e manteiga da terra), mas de Blog, convenhamos, ó rapaziada. É cada um a fazer o seu sem compromissos com gregos e com troianos. Sem dar cavaco aos berdianos. Eu só exigiria que a malta fosse menos “copy and paste” e isso já seria muito bom para se fazer um Blog. Fuck...

3.
Em 1929, muitos capitalistas especuladores deram cabo do canastro. O crash na bolsa lhes era intolerável moralmente. Hoje, em vez de irem desta para melhor, querem tomar no Estado a dinheirama do vasto povo. E que ninguém nos fale em praça financeira nos próximos dias. Estamos enojados...

Quando me é Lisboa




Chego a Lisboa. Cedinho. E o calafrio de Pessoa me percore a espinha, enquanto o automóvel circula do aeroporto ao hotel. Lisboa que acorda mais cedo que outras cidades do mundo. Gosto desta cidade que tem pedras brancas, cheira a pinho e a alfazema. E virou cosmopolita. Vários cartazes falam de arte acontecida e por acontecer. O trânsito continua bárbaro e o taxista ensina-me os últimos palavrões da língua portuguesa. Os taxistas de Lisboa davam um grande diccionário de palavras escabrosas, diga-se. Refaço, mentalmente, os meus afazeres. Escrevo na minha agenda Moleskine que Lisboa é o nosso alter ego urbanístico. Os arquitectos e os urbanistas crioulos (mas eles existem?) me matam. Será? No hall do hotel, a florista, que já me trata por tu, quer saber das flores de Cabo Verde. Pergunto-lhe sobre um poema de Alexandre O´Neill e ficamos quites. "Esse cabo-verdiano é meio maluco", estará a pensar. "Mas eu gosto de rosas, crisálidas e margaridas", remato, com elegância. Não antes sem aprender que "chiques mesmo são as orquídias, meu caro". Faço um print out de uns versos de O' Neill e ofereço à senhora. E deixo-vos, como desse rosmaninho que me sobe à lembrança (de tudo, de tudo, meus queridos), um nadinha desses belos versos:


(...)

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

(...)


Fica também na Moleskine: Lisboa é um teatro que me insunua e me denuda em pleno palco, um fado que me reabre o coração e me aperta o nó das lágrimas como as palavras que nos beijam. A sombra da minha mãe e o lusco-fusco da minha infância. Uma Fonte Luminosa e umas crianças ruidosas. Traquiníssimas. Éramos nós noutros tempos de Lisboa...

Máscara Negra


A Pablo Picasso

Ela dorme e repousa sobre a candura da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva
cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e fontes seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das faces, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar
a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!
Léopold Sédar Senghor

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

En passant


Debate presidencial

Insosso. Demasiadamente correcto. Com excesso de mesuras. Esse debate que concorreu com o meu sono da passada madrugada. Nas antípodas do "arrasta-rabo" das nossas campanhas. Um (McCain) a dizer as suas razões, tão anacrónicas, diga-se. Outro (Obama - ver foto a carregar o filho da minha sobrinha Dora Lisa) a enfatizar que a América precisa mudar. Agora, veio-me à mente um forward com a foto de um camião de indigentes, a sugerir indigência com a vitória (quase certa) de Obama. Há humor que é psicose de racista no seu crepúsculo. Freud explica...

Piadinha

A "piada" do telemóvel não era para ninguém em particular. Era apenas um rasgo de humor entre os convivas. Quem esteve fora, esteve absolutamente fora. É o que dá em estarmos a brincar muito neste Blog, com tantos livros de Edgar Morin, Norberto Bobbio, Umberto Eco e Jean Ziegler ainda por ler...

Viaggo

Estou no Sal, a caminho de Lisboa. Um italiano afirma que a demanda turística caiu drasticamente na ilha. Em verdade, tive essa impressão da última vez que cá estive. Alguma prostituição, muito lixo e visível insegurança, para além de atendimento medíocre. O problema somos nós a ficar na mesma, a não concorrer à altura e a fazer preços deus-nos-acude. Vamos repensar tudo de forma mais radicalizada que a tese propalada por certos operadores associados. O buraco é mais em baixo...

À Beira de Água

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado.
(Porque o amor, perdoa dizê-lo,dói tanto!
Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.)
Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.



Eugénio de Andrade
Os Sulcos da Sede

Convívio

Mais um jantar em casa. Convívio. Éramos seis (eu, o meu irmão António, o Djinho Barbosa, o Abraão Vicente, o Mário Fonseca e o José Cunha). Prometi dar a receita da Canja à minha moda ao Djinho Barbosa e da Garoupa com Cogumelos guarnecida com Arroz de Grelos ao José Cunha, o homenageado. O vinho do branco do Fogo - pomada da Chã, como diria o Mito - de tão gelado, correu solto a brindar uma tábua de queijos. E foi tempo de abordar:
1º - As eleições americanas. Sem neutralidade possível, pois fossemos americanos, era ali meia-dúzia de votos para Obama. E, para broxar um bocado o ambiente, lembrou-se que as presidenciais americanas são por colégio eleitoral. Não houve palavrões...
2º - O ensino superior. A necessidade (ou não) de se proliferarem instituições (operadores académicos, diria) por estas ilhas para, em breve futuro, descer sobre o "mercado" a mão isenta, mas intransigente, do Regulador em critérios de pura qualidade. A competição saudável é aquela que permite sobreviver aqueles que se afinam pelo critério do preço-qualidade. O importante é a qualidade da educação e do know-how dos jovens cabo-verdianos.
3º - A insegurança. Aliás, a criminalidade que, para além da política social, da abordagem sociológica e dos direitos humanos, precisa ser atacada incisivamente. Pessoalmente, sou radical: falta uma atitude de assalto (em exacta proporção) aos assaltantes. É preciso assaltar à mão armada aqueles que, na calada da noite, assaltam os cidadãos. Horas mais tarde, soube que amigo fora assaltado na rotunda de Cruz do Papa por quatro thugs à mão armada. Os bandidos partiram saciados, vivos e felizes. Uma pena...
4º - A literatura. Falou-se da criação de uma Academia de Letras Cabo-verdianas. A AEC faria o papel de uma Academia. Em Cabo Verde, a rigor, nada transcende. Nem mesmo Amilcar Cabral que não é dignificado em justa medida. Basta ver a estátua na Várzea. O museu que ainda não se fez. E os discursos em datas de circunstância, de que já estamos fartos de ouvir. Os heróis não existem. Os artistas inexistem. É um Olimpo de merda (está claro que tais considerações são da minha responsabilidade)...
5º - A declamação que acabou por não acontecer. Do audio, vinha uma declamação de João Vilaret e ninguém prestou muita atenção à Ode Marítima, de Fernando Pessoa. E eu que guardara Cena de Ódio, de Almada Negreiros, para a sobremesa! Vinha também uma música de Miles Davis e vi que Djinho Barbosa terá acusado o toque. Discretamente. Tutu...
6º - A crise financeira. O roubo e o rombo da alta finança. De como a Islândia declarou a bancarrota e de como fica difícil falar em "confiança" nos tempos actuais. Wall Street foi o momento mais pornográfico da noite.
Éramos seis, numa mesa de oito. Faltou sushi, impossível de fazer no shakespeariano Reino da Dinamarca. Faltou Arménio Vieira. E um outro lugar vazio. Seria do meu outro eu, às vezes, errante e poeta? Vagabundo de mim mesmo. Esse maluco!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cinema: W, Z & etc


Oliver Stone, um dos meus cineastas dilectos, apresenta-nos por estes dias o filme W, sobre George W. Bush, o senhor que finalmente deixa a presidência dos EUA. O filme retrata-nos também Dick, Condoleeza e Donald. All the gang. Deve ser para maiores de 21 anos. Ou, como propõe Stone, para todas as idades. Não gostei de Nixon, o único filme de Stone que não me apanhou fundo. Achei-o “forçado” e chato, com mania de Costa Gravas. Esse, ao menos, fez Z. Para filme chato, já agora, revejo os de Micheal Moore. Mas prometo não perder W. Que não só remete para Bush, como para Wall Street, afinal a grande comédia destes dias…

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pila ku nha boi



Coda

Não que seja um vício interessante, embora dele sejamos dependentes, mas mal começa a matina, depois do jogging, nos vemos na obrigação de ler os Blogs, procurando incrementar o nosso entendimento do mundo ou suplicar aos deuses da esquina alguma luz (da Electra não, pleaaaaaaaaaaase) para a nossa burrice. Como metaforizaria um poeta, somos eternos aprendizes. Por isso, somos também humildes, cientes de ainda nada sabermos, mas, gozões ainda, curiosos de trazer esse tourozito (um novilho, se nos parece) para a nossa tourada.

Homo urbanus

A chegada do “Homo urbanus” deveria ser matéria de comemoração, já que, pela primeira vez na História, a metade da humanidade vive em zonas urbanas. Mas, dos seus 3 biliões de habitantes, 1 bilhão vive em bairros marginalizados. O que é a cidade, ao fim e ao cabo? A Ética, a Estética e a Qualidade de Vida, dirá Maukie. O futuro, que é a condição mental e ontológica da felicidade.

Futuro

Saudade do futuro, disse-o há dias alguém. Não é uma frase de arromba, nem um To Be or Not To Be, mas vinha com alguma pinta. Em verdade, nós almejamos o futuro. Não conseguimos ficar betinhos e embevecidos (Ó que sabe na munde!) com isto a cheirar à merda e o forasteiro a mijar nos becos. Há questionamentos a fazerem-se, companheiro. Em que cidade topamos tanto ladrão, thug e salafrário num ai de apagão da Electra? Em que cidade moram menos artistas a sério e há tantos pseudo-intelectuas na praceta, por metro quadrado? Em que cidade os bêbados se embriagam assim de quatro por metros cúbicos de álcool? Saudade do futuro, sem dúvida…

Conselho

Pessoa diria: Para ser grande, sê inteiro. Mas a minha avó, que também tinha os seus rasgos de boa verve, aconselhava: Louvor em boca própria é vitupério…

domingo, 5 de outubro de 2008

Águas tão-somente

Apontas-me as águas silenciosas
Que, tais como as rumorosas, ali
Descem em veias de montanhas
E, invés de ao mar, se tornam lagos…

Dirás também que Ródano, primo,
Desprende de fio gelado, ciciante
Quando se torna rio em vasto vale,
E ardente cio verde aqui de margens…

Mais azul que o até ao horizonte
Te desenharei como vejo o longe
Que a navegar me servem lágrimas…

E o que não caberia em tal fábula
- Escopo de peixes nesse aquário –,
És banho de chuva como te desejo…

sábado, 4 de outubro de 2008

Convívio


Alguns amigos (apenas oito, pois vai ser à mesa) estão convidados lá em casa para:

Declamarmos poesia (como em Porto Madeira);
Comermos tempura ou sushi de atum (serei eu o Chef);
Bebermos vinho branco da Chã (geladíssimo)
Homenagearmos José Cunha (entre nós por estes dias);
Ouvirmos música de Leonard Cohen (com letra imprimida)
Comentarmos dos badios, demasiados matinais, que exercitam seus corpos no jogging (enquanto as vacas, loucas, dormem)

In: Palavra Mágica

um dia o espelho
me devolverá um velho
tomara que eu valha
o tempo que o tempo
levou no trabalho
de esculpir a minha cara
um dia o espelho
me devolverá o vazio
quem sabe eu já esteja
morrendo de frio
e quem chegar perto
pra ver se respiro
vai ver pelas marcas
que virei um vampiro
Ricardo Silvestrin

Onda


Praia Maria é bonita

Praia é linda. Bonita. Bitori di nha Bibinha repetiu-o, com estribilho e exaustão, naquele funaná com clave de baião. Falta-lhe, entretanto, um pensamento inteligente. Algo que lhe seja mais colectivo e mais coerente. Em termos de Monumenta, Documenta e Anima. Uma cidade vai mais do que casas empilhadas, artérias de sangue só venoso e becos sem saída. Uma cidade, para ser bela, tem de projectar estética dentro e fora das pessoas. Mas ver este mar, lindão de morrer, para além do horizonte, é bucólico…sem dúvida.

Pura amizade

Eurídice (Eury, para os mais chegados) ganhou uma bolsa de estudo (aliás, duas bolsas) para prosseguir um doutoramento. Parabéns, menina! Pela Eury, tenho uma genuína e saudável (e apenas) amizade, não me importando com os “trémolos” ao som do zouk-love e dos anónimos I, II e III, do Ombudsman das Bagatelas, o tanas. Vou ao Blog dela, mais para saber de Calheta de São Miguel que para me alinhar nas causas feministas, embora delas não me aparte totalmente. Calheta é uma ínsula íntima e interior como a quis Valentinous Velhinho nos seus poemas. E, para além disso, é onde fica o umbigo do meu pai e de muita gente minha. Antes de mim, já esse destino portuense…
Onda
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde? aonde?
a onda a onda
Manuel Bandeira

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Bem hajam


Foto Expresso das Ilhas
A Câmara da Praia e o Governo querem, juntos, promover possíveis articulações a favor da segurança pública da capital. Era o encontro que se esperava. Estamos fartos, fartíssimos, da delinquência desenfreada, que nos impede de levar os nossos filhos a passearem ou de irem ver o pôr-do-sol. Não queremos andar armados. Nem viver com grades nas janelas. Tão pouco gostamos de recear qualquer sombra nas esquinas. Basta. Queremos paz. Luz e água. E, já agora, alguma poesia. Bem hajam...

Bashô do Ricardo (Silvestrin...para vosotros)



Uma música não precisa mais que três minutos.
Um haicai, alguns segundos.
Mas podem durar a vida inteira.
Um filme, duas horas no escuro.
Um romance, muitas noites em claro.
Um quadro o tempo todo.
Até que se canse,
ponha outro em seu lugar.
Uma escultura numa praça,
mesmo com chuva,
mesmo que se mude de cidade,
ela está lá



Bashô um santo em mim

sol no seu rosto
a ave da dúvida
manchas de sol


Ricardo Silvestrin

Azul ou "the ultimate bridge to nowhere"



Azulando o dia

Meus pássaros (em foreward),

A manhã acordou azul, com um sol redondíssimo entre amarelo e laranja. Apetecia-me lambê-lo, comê-lo. E, à beira-mar, onde religiosamente faço marcha matinal, os madrugadores pareciam mais lindos e mais felizes. As ondas, essas batiam nos rochedos como se não houvesse kasubody, apagão e subprime.

Leio os Blogs, os jornais e os últimos trechos de “O Pecado de Darwin”, de John Darnton. Confirmo a minha ida ao Brasil, como palestrante. Vou também a Itália, ver os frescos de Florença. E, quem sabe, Dubai também, porque o Ramadão acabou e alguém terá de trabalhar…

Plãmanhã, com aroma de romã. Como um poema de Sophia de Melo Breyner Andreson. Ou a música de Princesito.


Piano no espírito

Mito,

O quadro que me ofertaste bateu forte em mim. Como um piano no meu espírito. E é tudo…

Às vezes, não chego lá. A arte livre admite borrões desavindos, experimentação multimédia e absurdos conceptuais. E eu, nem sempre, estou tão Dada assim. Essa coisa livre que Duchamp criou não deve ser apreendida no rompante e no acaso, mas usada com responsabilidade técnica e objectivo estético.

Outras vezes, o quadro chega e bate em mim. Bate fundo em mim. Na arte, sou kantiano. Vou com a obra que me proporciona emoção. A sensação estética como uma espécie de nirvana. Era Kandinsky que dizia que a arte não seria útil nem agradável, mas teria de ter o poder de tocar um piano existente no nosso espírito.


Estranho delírio

Laura,

O meu processo criativo? Loucura e trabalho, se tanto.

A inspiração vem com delirius tremendus, mas a execução é oficinal. Um pouco racionalizada. Rigor quase matemático. Soneto não cai da árvore, por mais que acreditemos no Jardim do Éden.

Eu, por sinal, nem acredito nessa história, embora veja em tal parábola um bom filão de metáforas. Não iria afirmar, mesmo que me desses um doce, que a história do Pecado Original não nos empresta tremenda inspiração poética.

O sair do Paraíso tornou-nos mais livres e melhores poetas…


Zona de sombra

Jeff,

Sim. Acompanhei o debate nesta madrugada. Gostei menos de Palin. Assim como gosto menos de McCain.

Um tal Pascoalino, mormente simpático, me considera de mal com o mundo. Em verdade, estou de bem comigo. Com os meus demónios, inclusive.

Amigo, o risco de contágio do sistema financeiro faz desta crise uma pandemia. E há claramente uma zona de sombra que revela relativa inutilidade da classe política. A economia mundializada (apelidada artificialmente de Globalização) está nas mãos de bonecreiros com a sua lógica invisível e ininteligível.

Não sabemos quem comanda os botões que nos faz dormir ricos e acordar pobres, e vice-versa. Marx dizia que os homens fazem a história, mas não sabem a história que fazem. Por isso, um Deus qualquer, muito mais ganancioso que os evangélicos de Paiol do Coqueiro, quer nos ver aflitos por estes dias e explodir, do seu templo maior quem sabe, uma retumbante gargalhada. Só pode ser brincadeira de mau gosto…

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

PA ALBATROS

Bo ki bu durmi tudu noti riba di tenpestadi,
Ki bu ta korda y bu ta diskansa riba di bus aza spantozu,
(Un tenpestadi rixu rabenta? Bu ta labanta pa riba d’el
y bu ta rapoza na séu, kel skravu ki ta da-u gazadju)
Gosi bu ta parse sima un pontu azul, la lonji, ta mexe divagar na séu,
Y ku lus ki ta surji N ta observa-u di konves
(Mi propi é apenas un pontu, un sinal riba di tamanheza flutuanti
di mundu).

Lonji, lonji na mar, dipos di kes korenti brabu di noti simia praia
di manduxu,
Na nanser di dia, filis y serenu,
Ku antimanxe ilástiku y kor-di-roza, ku sol dislunbranti,
Ku stenson klaru di ar kor di séu ku mar,
Bo tanbé bu ta torna parse.

Bo, ki bu nanse pa bu midi tenpestadi (bo é so aza),
Pa konpiti ku séu ku tera, ku maris y furakon,
Bo naviu di ar ki nunka bu ka reia vela,
Sen kansa, duranti dias y simanas bu pirkore spasus y renus,
ta avansa senpri,
Y na kanbar di sol bu odja Sinegal y Merka bistidu di lutru,
Ta labanta ku forsa na mei di alanpras ku nubris di strubada,
Y nton, na bus spiriensia, bu atxa nha alma,
Alegria txeu! Alegria sen manha kes di-bo!


Walt Whitman

Traduson: José Luiz Tavares

Budget


Maukie (abusadérrimo), entra nessa “conversa de gente grande” sobre o Orçamento do Estado e, ainda por riba, a cantar “Lá na Ti Céza/Nô bá pa morte d’um tchuque/Friginóte co faba ma rolôm nô cmê”, belíssima coladeira de Manuel de Novas. É necessário investir mais, nomeadamente investimentos de qualidade, para criar riqueza e emprego, e para aumentar a produtividade e a competitividade de Cabo Verde, diz Pranchinha (às vezes, o fulano tem rasgos de lucidez). E a crise? pergunta Vénus. Por acaso, a minha não leu Tutto É Finito, de Arménio Vieira? O que congemina o OGE 2009?, insiste. Terá precauções contra o efeito dominó desse rebentar da “bolha” do subprime? Hugo, embora apaixonado pela Pé Kumpridu/Priguisoza (Ti voglio bene), permanece hirto e gravoso. Ei-lo: quem vai blindar os nossos salários, empréstimos e pensões; quem vai domar a inflação, o poder de compra roubado e o spread dos bancos? Gato Preto, aliás Maukie, aka No Peter, intervém na mesmíssima diapasão: "Artur quemá êl tchorá/Êl dzê lembral na Gusto Piric/ Piduca sobiá. Êl zará/Festa cabá". Eh pá, convosco…não dá meeeeeeeeeeeesmo!

Di palbessa





That Biden

Pranchinha que, apesar de morto e enterrado, de vez em quando, vem ao Albatroz fazer das suas, antes de se tornar ao além, pergunta como foi possível Baraka Obama escolher o Senador Joe Biden para seu Vice. Um homem que, na tentativa de engraxar Obama, teve esta derrapagem racista: "o primeiro afro-americano limpo e inteligente que conheci". Já por esta afronta, que só os “pretos safados” engolem, Biden não devia entrar “na lista negra” (que agora dá votos e cartazes, diga-se de passagem). Olha, Pranchinha, esses óculos ficam-te bem…

Two times two

Gato Preto (não confundir com Black Cat, naaaauuuuuu dizimola) ficou furibundo com essa Sarah Palin. Conhecem-na? Os americanos também não. A dita cuja não conhece geografia. Os americanos também não. Os próprios republicanos por sinal estão cépticos quanto à sua capacidade de liderar a América. Não porque McCain tenha 72 anos, mas porque Geórgia não fica na África, diachi nho. Maukie (que jamais foi Peter, arre e chispa, ó chavala) manda à dita a seguinte pergunta: Sabe Vossa Senhoria o resultado de 2x2? Os americanos sabem-no, mas os de Walt Street nem por isso.

Império do Meio

Hugo, the fuckin´ bird (hoje, o gajo aparece-me às 5H30), contrapôs: Deixai os americanos reaprenderem economia com esta crise, até porque os chineses, ora donos da metade do dólar, terão de aprender com os japas como fazer harakiri, se a dinheirama continuar nessa podridão. Hugo é fogo. Anda cada vez mais cáustico e mais amargo. A sua frase dilecta: I don´t care. Falando nisso, 31 produtos chineses (quase todos exportados para o mundo) estão contaminados com melamina, substância tóxica utilizada em resinas e colas. E nós que temos melanina, quanto de tais produtos não estará nas prateleiras das lojas por cá? Lá está Hugo a meter-se com o Império do Meio…

OBS: A festa foi boa. O Pablo adorou. Por isso, amo Outubro…a começar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pablous


Pablous Code
Pablo Fontes Correia e Silva – Pablo chamam-lhe os pais e Pabi diz-lhe o tio Mito (e Pabis-Pabis, ó Vénus de Milo) –, fez hoje seis anos. A crise na Bolsa de Nova Iorque que espere. Mc'Cain e Obama também. Intermezzo. O tal seminário sobre o papel dos bancos centrais em tempos de calema não me interessa hoje. Tão pouco me move o facto desse Peter mudar de poiso e de pub para o gáudio dos obtusos. Por menos que isso, Picasso (outro Pablo) pintou “Les Demoiselles d´Avignon”. Certo é que não me adormeço o tempo de um fósforo aceso no ocaso das balzaquianas, tamanha a minha pressa do mundo e imperioso te aguardar em Milano Centrale, ó Poeta. Hoje, nem vou repetir à exaustão que, no Reino da Dinamarca, mandam as pixinguinhas, as sirigaitas, os thugs e os artistas cabo-zouk, quando não os intelectuais de periódicos e os especialistas no geral. Lembro-me, como se hoje fosse, o dia em que Pablo nasceu no Hospital Beth Israel, em Boston. Era Outono, em Fenway Park. Era Outubro na minha vida. Melhor, muito melhor que esse Setembro, ao tempo, a chover a cântaros…
Incenso Fosse Música*
isso de querer ser
exactamente aquilo que a gente é
ainda vai nos levar além
Alba**
O petto svegliato dal nuovo sole!
O mio caldo letto bagnato di lacrime!
Con un’altra luce mi sveglio a piangere
i giorni che volano via come ombre.
Poema 20***
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo...
Pablous:
* Paulo Liminski
** Paolo Pasolini
*** Pablo Neruda

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Um outro mundo é possível




Matxu bédju, kau sta mau. O plano de Bush para injectar dinheiro público (700 mil milhões de dólares) no sistema financeiro americano não foi aprovado pelo Congresso. So what?, pergunta o Gato Preto, agora que lhe deu para falar inglês (só para irritar o bonitinho, dizem). A maioria dos congressistas (em plena fúria eleitoral) acha imprudente (pelo menos nesta altura, chiça) utilizar o dinheiro dos contribuintes para colmatar o rombo (ou será roubo?) derivado dos maus investimentos em Wall Street. O Gato Preto prefere mudar de assunto e debater as coisas da Tapadinha. Let´s talk about Reino da Dinamarca! Entrementes, Vénus entra em campo, assim meio out of the blue: I know you are an idealist and don't care for money, but I am a realist and I need money to raise my children comfortably and show them the world. Mas kabu sta mau, Fidju Fémia. Merkanu ata da pa dodu. Agora, é o Gato Preto que se irrita com o meu rasgo alupekianu. A malta anti Manuel Veiga bate palmas a apoiar o gajo - uns sem causa, outros sem consequência. Já viram o Pininha a fazer uma manifestação a gritar "Queremos Estado, Estado, Estado", que nem um disco riscado e as autoridades chinesas (Tienaman, Tibete & Cia) a vassourarem tais actos antimercado, anticapitalista e antiliberal? Kumunista, bai bu tela di Kaubeldi. Mundu é di boita, kem ti viu, kem tevéki, Pininha?. Oooooops, Gato Preto, peço desculpas, pois foi da emoção. Eu sou daqueles que acredita que um outro mundo é possível. O actual é uma grande pornografia. As bolsas de todo o mundo sofreram quedas e trambolhões. É o efeito dominó, mas com a força de um tsuname. Se a América entra o colapso financeiro, devido à irresponsabilidade dos bancos, das seguradoras e dos capitais de risco, em capitalismo selvagem e de lavagem, como estamos globalmente indexados, virá tudo em catadupa, Vénus. Si bentu leba pedra, balei ka nhos kre sabi undi bai, ó Black Cat. Turismo? Crescimento a 2 dígitos? Desemprego a 1 dígito? Hong Kong transformado em King Kong. Take it easy, matxu bédju. Japon d´Áfrika ata nderia na bentul. Mais dia, menos dia, a não ser que o vendaval mude de direcção. Gato Preto ka bu merdia nau...

Esse Hugo


Cedo. Por volta das 5H30, Hugo (apreciem-no na foto) vem me acordar, batendo várias vezes com o seu bico vermelho na vidraça do meu quarto. Esse Hugo é um caso sério! Ainda por cima, farfalha a sua cauda azul, aflição de quem quer entrar. E nem espera esbater as réstias da noite. Levanto-me para a marcha matinal (meia-horinha apenas, mais terapêutica que olímpica), não sem antes dizer a Hugo: "Se o Gato Preto do meu Blog cá estivesse, havias de ver o pandemónio". Este, coitadito, anda afoito, lesto e vigilante contra os cães virtuais (vira-latas, mas capetas prá caramba), uma chatice. Dos cachorros, só trato por tu a Tequilla, do meu filho Pablo, e o Scubi, da minha sobrinha Carine. O resto: get lost, seus sacanas! "Quereis também conhecer Niagara Falls?". Nem Hugo, nem o Gato Preto respondem à minha provocação, mas prometo a Vénus colocar essas quedas de água na lista dos "places to visit before I die". As pirâmides também prometo, ó Panterinha. Ontem, na Livraria Nho Eugénio, estive com três livros na mão: No Rio Vermelho, de Zélia Gattai, O Escritor, de Yasmina Khadra, e Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Marquez. Vou propor à Vera Lúcia para contratarmos Hugo e o Gato Preto para resenhas bibliográficas dos livros à venda. Falar, por exemplo, de Garcia Marquez que, para além de imenso escritor, é amigo de Fidel. Ei, ei, ei...caludas. Jorge Luis Borges também era admirador de Pinochet e Ezra Pound um fascista assumido. Há poetas que conseguem ser trotskistas. Há pintores neo-liberais. Dançarinos comunistas que las hay, las hay. Actores que amam Zau. Há de tudo. Eu amo Garcia Marquez, amigo de Fidel, que é amigo de Chavez, compañero de Lula que, uma vez, tentou declamar versos de João Cabral de Melo Neto, severino que nem Arménio Vieira, dos primeiros versos. Sim, estou na Praia. Uma loucura. Praia me mataaaaaaaa! Madrid também, mas não por faltar energia eléctrica, bem entendido. Movidíssima Praia de Santa Maria. Mas não era isto o post. Era de Hugo e do Gato Preto do meu Blog. Vossa Senhoria me perdoe...o Poeta, às vezes, se destoa de Lisboa. Até rima numa boa. Putis...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Side notes

Porto Madeira
Foto Misá

Em Porto Madeira, fui recordando coisas. Não te fies na minha memória, mas aceita a minha imaginação. Como se te contasse histórias em espiral. Hás de querer perguntar o que terá Porto Madeira a ver com Laura Baltzell? É com os quadros dela que a história começa. Eram amigas e ambas trocavam confidências. Dias depois, a outra terá escrito: I did not mean to hurt your feelings and I don't want you to be upset. I am sorry… Please understand that this is a very difficult and painful decision. I am missing you terribly already, but right now, I don’t think I have another choice…E ele (vou te contar tudo): I don't know how I am going to live without you...Assim em espiral, a outra ia contando sobre ele e o quanto Sometimes, I feel like knowing everything about you. Other times, I don't want to know because I get upset and jealous. E já não queres ouvir mais, a história tem de facto demasiado intertexto e, se calhar, também andas a rir com essa catrefada contra o nosso gato negro. Ah, por acaso, há por estas bandas um pubezito intitulado Black Cat. Abarrotado de balzaquianas, meu Poeta...

Mais notas

Nu vermelho (1917)
Amedeo Modigliani


Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sórdido horror tiene su encanto
Reynaldo Arenas
Idade de Cristo
Gosto que suplantes a Idade de Cristo, mas ganhes Dele a bondade, a tolerância e a espiritualidade. Cristo não faria da palavra dos outros uma bola de neve e muito menos uma avalanche que nem o Armagedon. Cristo era manso. Manso de Espírito. Dos versos que faço - pobres sonetos di pasaji -, todos têm, ao menos, a verdade das minhas horas por viver. Antes que anoiteça, como é o título do lindo romance de Reynaldo Arenas, aquele que sentencia "a vida é uma questão de risco ou de abstinência". Também os meus versos são uma questão de risco ou de abstinência. E são-no por motivos existenciais. São-no, porque preciso ser também manso. Manso de Espírito. O ver as ondas nas rochas, a estrela em cisco no firmamento e a mão diáfona de alguém ou de algo (seria "le turbulent oiseau", seria?) no meu despertar, tudo isso me amansa. Dá-me descanso e remanso. E por tê-los, de rima desabrida e acto contricto, outros relâmpagos não poderia te ofertar nesses anos que são de Cristo e, por tudo, tudíssimo, deves suplantar...
Triste Poeta
Só quem já leu os versos de Valentinous Velhinho sobre aquela tristeza que "só na infância sabemos que há", saberia descortinar a fina neblina que tapava os meus horizontes. Estar triste para mim é ser aquela silhueta no quadro de Claude Monet, no Musée Marmottan. The Train in the Snow, se não me engano. E o médico diz: "Não se trata de um câncer na garganta, mas de uma alergia à poluição". E rio-me, como se te visse ao espelho. Já não poderás viver em Paris, Nova Iorque ou Lisboa. E terás mesmo de aderir à luta pelo Ambiente, reler os livros de Al Gore, criar um partido verde, essas coisas. Só quem leu os meus olhos (que já viram Lago de Garda e a Baía da Guanabara), poderia apreender, mal poeta enamorado de la luna, que guardara para ti os os versos mais tristes de Pablo Neruda. Aqueles de Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". O vento da noite gira no céu e canta. Dou-te alvísseras e aleluias. Deus seja louvado...
Albatroz?
Queres saber sobre o Albatroz? Relê o poema de Charles de Baudelaire: L´Albatros. Esse que, às tantas, diz: O poeta é semelhante ao príncipe da altura/Que busca a tempestade e ri da flecha no ar/Exilado no chão, em meio à corja impura/A asa de gigante impede-o de andar. O poeta só será feliz quando voa, como uma princípe da altura. E Berdiano? Mas isso já é querer saber demais. Há coisas que não digo. O roteiro do Autocarro #20 é o meu Rosebud com que Orson Wells abriu e fechou o belissímo Cidadão Kane. Não digo e, quem sabe, o enigma da minha felicidade...
Nu Vermelho
Estou aqui a repisar o Nu Vermelho e a escutar a música de Francis Cabrel. Hoje, estou na minha lua cheia...

domingo, 28 de setembro de 2008

Notas



Ao Pablo, que faz anos a 1 de Outubro,
e ao Denzel, que os faz a 2 de Fevereiro

Quem ousaria dizer “fi-lo rir mais que chorar” nos seus dias que por cá passou? Quem, ou melhor, a quem contaria os segredos do Nu Vermelho? E, já agora, os enigmas no sorriso de Mona Lisa? Quem me perdoaria pelos apertos súbitos de coração? Quem palmas daria se o meu enterro fosse feito em beleza? E quem lágrimas verteria se de repente eu me evaporasse em fumo azul? Assim, baixinho, ciciante e de soslaio, como o Gato do Blog na calada na noite, são estes os pensamentos que, de quando em vez, me assaltam e exilam, qual estrela cadente, na minha solidão. Vejo-me, amiúde, a navegar no oceano existencial de cada momento e vos sou devedor do melhor que existe em mim…

Porto Madeira e Outras Notas


Oh Deus, que fazias nascer o sol todos os dias,
enquanto repenicavam em Wall Street os alegres sinos de abertura.
Coro: o que vai ser de nós?

José Caldas



Porto Madeira

Cumprindo ao rendez-vous da Misá, pintora, poetisa e activista cultural, estive com uma dúzia de gente próxima em Porto Madeira, nesta linda (e agora verdejante) ilha de Santiago. O programa: almoço, declamação poética e passeio pela aldeia artística, iniciativa cultural da Misá com vista ao internership dos artistas e ao intercâmbio cultural, embutindo nela também a intenção de turismo rural. Embora soubesse, por haver (re) visto o projecto quando era ainda papel, confesso ter ficado positivamente surpreendido com o arrojo que só a simplicidade e a ecologia produzem, aliados à uma vontade férrea de fazer as coisas acontecerem. Faltou José Maria Neves (o poeta), porque o Primeiro-Ministro estava, a essa altura, a inaugurar um liceu no Concelho dos Órgãos (poesia de força maior, convenhamos). Mas não me coíbo de repetir (e de também fazer minhas) as palavras de Caetano Veloso: “É engraçado a força que as coisas parecem ter quando precisam acontecer”. E foi tudo lindo, lindíssimo, no táctil que, por vielas de poesia e pelo vale do amor, essa tarde, de tão intangível, nos proporcionou. E na berma do caminho que trilhámos, em fila indiana, estava ali um soneto meu – “Crioula na Estação” –, cujo terceto derradeiro era: Tudo isso és tu, na estação/Quando os trens da tarde/Já são tua cicatriz em mim...

Virgens Loucas

Continua a faltar energia e continua essa incongruência a condicionar as nossas vidas. Semanalmente, lá estamos todos a praguejar e a blasfemar sobre tal situação que não lembra ao diabo, mas aos deuses da terra até lembra e, consequência disso, é o breu que nos apanha (sempre) desprevenidos. Ontem, estava a ler a partida de Marco Polo, da Praça de São Marcos, em Veneza, quando a luz (raio de cidade esta!) se foi para…E, agora a sério, porque de tretas e promessas estamos conversados, é preciso que se estabilize de vez a questão energética na capital de Cabo Verde! E o que irrita mais é a barulheira dos motores a ensurdecer a miséria daqueles à luz das velas. Leiam “Virgens Loucas”, de António Aurélio Gonçalves. Leiam-no, por favor. Estamos “apois” todos desesperados que nem as três (de) mocratas da noveleta desse grande Mestre…

Cacem-nos…for all means

Clic on…TCV no meu ecrã e, dos males, o menor. Um programa sobre a (in) segurança que se resume em mais um chorrilho de demagogias. Não é com sensacionalismos, para espevitar incautos, que estaremos a contribuir em prol da estabilização da criminalidade. Um pseudo agente da Polícia Nacional, que não dá a cara (et pour cause, nem empresta credibilidade), afirma haver bairros que as autoridades não entram, fabricando a imagem do absurdo, do caos e da impotência. A mim, tudo isso me parece uma pura falácia e uma crassa mentira. Ora, num regime democrático e republicano, como se supõe o nosso, as autoridades têm de ter franca e ampla mobilidade para “caçar” e neutralizar os bandidos ainda à solta. Estes devem ser “apanhados” em todos os seus refúgios, inclusive os mais intangíveis. For all means. De resto, estes é que não poderiam “reinar” em certos bairros, nem circular em certas horas. Liberdade tem os seus parâmetros e, paradoxalmente, os seus limites. Fosse doutra forma seria uma “broxa” a nossa democracia e a nossa paciência de cidadãos já nem se afinaria por aí…

Colapso da finança

Apupados pelos nossos neo-liberais que, além de serem egoístas como os demais, conseguem ser medíocres e confusos, eis que assistimos juntos, na bancada da pobreza, ao colapso da finança pura. Quo vadis, operadores do mercado? O que vai ser de nós? De repente, o Estado deixou de ser um problema para voltar a ser uma solução. Nicolas Sarkozy afirmou: «Reconstruamos em conjunto um capitalismo regulado, em que sectores inteiros da actividade não sejam deixados à mera apreciação dos operadores de mercado». Quem “diziria”? Ahahahahaha…

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Perfídus, Flatos, W. & Poesia


Nu Vermelho

Não sou um voyeur compulsivo, mas gosto de ficar, em tempo esquecido (ou aquecido), a ver o Nu Vermelho, de Amedeo Modigliani. Não por ter falecido a 24 de Janeiro, data dos meus anos, mas porque há nudez, para lá daquela da lua, que nos apanha de chofre…

Na Diferença

No Blog Igualdade na Diferença, certos comentários concorrem à canalhice. Cada um consegue a estranha façanha de ser pior que o outro. Há até um poeta (de circunstâncias, mesmo com os seus surrealismos de merda) que se olha ao espelho e tenta “endrominar” a Eury com paleios de quem vai ao baile tomar conta do gira-discos. Anónimos assim lembram à anedota de “sanduíche de ambulambiche, com cu de fora” que Mito, nosso artista plástico, atribuía ao angolaníssimo Comandante Margoso (não nos referimos ao Blog Café, haja ressalva). Os animais, quando triunfam, são mesmo um Deus-nos-acuda…

Perfidus e Flatus

Pensei estar perante um ataque cardíaco ou um AVC: dores de cabeça, braços congelados, suores frios e dores no peito. Estive perante uma linda e simpática doutora de Braga, com ares de “menino da sua mãe” e o meu amigo Pedro Maciel, de namorada ao lado, chegou a ter peninha de mim. Em momentos assim, longe dos meus e do Autocarro nº 20, nem conseguia rir das “últimas” de George W. e punha-me a pensar, com todo o drama deste mundo, nos meus filhos Denzel e Pablo. De repente, depois das análises de sangue, electrocardiograma e prova de esforço, a doutora me descobre uma crise de gases…o catano. “Vossa Senhoria, em vez de comer os feijões, passa doravante pela provação dos deuses Perfídus e Flatos”. Pode?

Artifício poético

Falando nisso, quem está aí com essa de os versos serem espontâneos, sem engenharia, nem gramática? Não é ver um passarinho verde a passar e, tumba, a porra da metáfora a jorrar nesse chafariz da Praça Alexandre Albuquerque. Valerá também o seu lado oficinal. Um poema não nasce pronto. Tão pouco, ele cai da árvore da imaginação como fruta madura. É preciso pensá-lo com rigor matemático e introduzir nele a polifonia da música e da dança. Só então, tu, bela musa, hás de a ver com olhar novo e despido. Poesia é o catalítico de certo artifício, minha Princesa.