segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Mais notas

Nu vermelho (1917)
Amedeo Modigliani


Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sórdido horror tiene su encanto
Reynaldo Arenas
Idade de Cristo
Gosto que suplantes a Idade de Cristo, mas ganhes Dele a bondade, a tolerância e a espiritualidade. Cristo não faria da palavra dos outros uma bola de neve e muito menos uma avalanche que nem o Armagedon. Cristo era manso. Manso de Espírito. Dos versos que faço - pobres sonetos di pasaji -, todos têm, ao menos, a verdade das minhas horas por viver. Antes que anoiteça, como é o título do lindo romance de Reynaldo Arenas, aquele que sentencia "a vida é uma questão de risco ou de abstinência". Também os meus versos são uma questão de risco ou de abstinência. E são-no por motivos existenciais. São-no, porque preciso ser também manso. Manso de Espírito. O ver as ondas nas rochas, a estrela em cisco no firmamento e a mão diáfona de alguém ou de algo (seria "le turbulent oiseau", seria?) no meu despertar, tudo isso me amansa. Dá-me descanso e remanso. E por tê-los, de rima desabrida e acto contricto, outros relâmpagos não poderia te ofertar nesses anos que são de Cristo e, por tudo, tudíssimo, deves suplantar...
Triste Poeta
Só quem já leu os versos de Valentinous Velhinho sobre aquela tristeza que "só na infância sabemos que há", saberia descortinar a fina neblina que tapava os meus horizontes. Estar triste para mim é ser aquela silhueta no quadro de Claude Monet, no Musée Marmottan. The Train in the Snow, se não me engano. E o médico diz: "Não se trata de um câncer na garganta, mas de uma alergia à poluição". E rio-me, como se te visse ao espelho. Já não poderás viver em Paris, Nova Iorque ou Lisboa. E terás mesmo de aderir à luta pelo Ambiente, reler os livros de Al Gore, criar um partido verde, essas coisas. Só quem leu os meus olhos (que já viram Lago de Garda e a Baía da Guanabara), poderia apreender, mal poeta enamorado de la luna, que guardara para ti os os versos mais tristes de Pablo Neruda. Aqueles de Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". O vento da noite gira no céu e canta. Dou-te alvísseras e aleluias. Deus seja louvado...
Albatroz?
Queres saber sobre o Albatroz? Relê o poema de Charles de Baudelaire: L´Albatros. Esse que, às tantas, diz: O poeta é semelhante ao príncipe da altura/Que busca a tempestade e ri da flecha no ar/Exilado no chão, em meio à corja impura/A asa de gigante impede-o de andar. O poeta só será feliz quando voa, como uma princípe da altura. E Berdiano? Mas isso já é querer saber demais. Há coisas que não digo. O roteiro do Autocarro #20 é o meu Rosebud com que Orson Wells abriu e fechou o belissímo Cidadão Kane. Não digo e, quem sabe, o enigma da minha felicidade...
Nu Vermelho
Estou aqui a repisar o Nu Vermelho e a escutar a música de Francis Cabrel. Hoje, estou na minha lua cheia...

domingo, 28 de setembro de 2008

Notas



Ao Pablo, que faz anos a 1 de Outubro,
e ao Denzel, que os faz a 2 de Fevereiro

Quem ousaria dizer “fi-lo rir mais que chorar” nos seus dias que por cá passou? Quem, ou melhor, a quem contaria os segredos do Nu Vermelho? E, já agora, os enigmas no sorriso de Mona Lisa? Quem me perdoaria pelos apertos súbitos de coração? Quem palmas daria se o meu enterro fosse feito em beleza? E quem lágrimas verteria se de repente eu me evaporasse em fumo azul? Assim, baixinho, ciciante e de soslaio, como o Gato do Blog na calada na noite, são estes os pensamentos que, de quando em vez, me assaltam e exilam, qual estrela cadente, na minha solidão. Vejo-me, amiúde, a navegar no oceano existencial de cada momento e vos sou devedor do melhor que existe em mim…

Porto Madeira e Outras Notas


Oh Deus, que fazias nascer o sol todos os dias,
enquanto repenicavam em Wall Street os alegres sinos de abertura.
Coro: o que vai ser de nós?

José Caldas



Porto Madeira

Cumprindo ao rendez-vous da Misá, pintora, poetisa e activista cultural, estive com uma dúzia de gente próxima em Porto Madeira, nesta linda (e agora verdejante) ilha de Santiago. O programa: almoço, declamação poética e passeio pela aldeia artística, iniciativa cultural da Misá com vista ao internership dos artistas e ao intercâmbio cultural, embutindo nela também a intenção de turismo rural. Embora soubesse, por haver (re) visto o projecto quando era ainda papel, confesso ter ficado positivamente surpreendido com o arrojo que só a simplicidade e a ecologia produzem, aliados à uma vontade férrea de fazer as coisas acontecerem. Faltou José Maria Neves (o poeta), porque o Primeiro-Ministro estava, a essa altura, a inaugurar um liceu no Concelho dos Órgãos (poesia de força maior, convenhamos). Mas não me coíbo de repetir (e de também fazer minhas) as palavras de Caetano Veloso: “É engraçado a força que as coisas parecem ter quando precisam acontecer”. E foi tudo lindo, lindíssimo, no táctil que, por vielas de poesia e pelo vale do amor, essa tarde, de tão intangível, nos proporcionou. E na berma do caminho que trilhámos, em fila indiana, estava ali um soneto meu – “Crioula na Estação” –, cujo terceto derradeiro era: Tudo isso és tu, na estação/Quando os trens da tarde/Já são tua cicatriz em mim...

Virgens Loucas

Continua a faltar energia e continua essa incongruência a condicionar as nossas vidas. Semanalmente, lá estamos todos a praguejar e a blasfemar sobre tal situação que não lembra ao diabo, mas aos deuses da terra até lembra e, consequência disso, é o breu que nos apanha (sempre) desprevenidos. Ontem, estava a ler a partida de Marco Polo, da Praça de São Marcos, em Veneza, quando a luz (raio de cidade esta!) se foi para…E, agora a sério, porque de tretas e promessas estamos conversados, é preciso que se estabilize de vez a questão energética na capital de Cabo Verde! E o que irrita mais é a barulheira dos motores a ensurdecer a miséria daqueles à luz das velas. Leiam “Virgens Loucas”, de António Aurélio Gonçalves. Leiam-no, por favor. Estamos “apois” todos desesperados que nem as três (de) mocratas da noveleta desse grande Mestre…

Cacem-nos…for all means

Clic on…TCV no meu ecrã e, dos males, o menor. Um programa sobre a (in) segurança que se resume em mais um chorrilho de demagogias. Não é com sensacionalismos, para espevitar incautos, que estaremos a contribuir em prol da estabilização da criminalidade. Um pseudo agente da Polícia Nacional, que não dá a cara (et pour cause, nem empresta credibilidade), afirma haver bairros que as autoridades não entram, fabricando a imagem do absurdo, do caos e da impotência. A mim, tudo isso me parece uma pura falácia e uma crassa mentira. Ora, num regime democrático e republicano, como se supõe o nosso, as autoridades têm de ter franca e ampla mobilidade para “caçar” e neutralizar os bandidos ainda à solta. Estes devem ser “apanhados” em todos os seus refúgios, inclusive os mais intangíveis. For all means. De resto, estes é que não poderiam “reinar” em certos bairros, nem circular em certas horas. Liberdade tem os seus parâmetros e, paradoxalmente, os seus limites. Fosse doutra forma seria uma “broxa” a nossa democracia e a nossa paciência de cidadãos já nem se afinaria por aí…

Colapso da finança

Apupados pelos nossos neo-liberais que, além de serem egoístas como os demais, conseguem ser medíocres e confusos, eis que assistimos juntos, na bancada da pobreza, ao colapso da finança pura. Quo vadis, operadores do mercado? O que vai ser de nós? De repente, o Estado deixou de ser um problema para voltar a ser uma solução. Nicolas Sarkozy afirmou: «Reconstruamos em conjunto um capitalismo regulado, em que sectores inteiros da actividade não sejam deixados à mera apreciação dos operadores de mercado». Quem “diziria”? Ahahahahaha…

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Perfídus, Flatos, W. & Poesia


Nu Vermelho

Não sou um voyeur compulsivo, mas gosto de ficar, em tempo esquecido (ou aquecido), a ver o Nu Vermelho, de Amedeo Modigliani. Não por ter falecido a 24 de Janeiro, data dos meus anos, mas porque há nudez, para lá daquela da lua, que nos apanha de chofre…

Na Diferença

No Blog Igualdade na Diferença, certos comentários concorrem à canalhice. Cada um consegue a estranha façanha de ser pior que o outro. Há até um poeta (de circunstâncias, mesmo com os seus surrealismos de merda) que se olha ao espelho e tenta “endrominar” a Eury com paleios de quem vai ao baile tomar conta do gira-discos. Anónimos assim lembram à anedota de “sanduíche de ambulambiche, com cu de fora” que Mito, nosso artista plástico, atribuía ao angolaníssimo Comandante Margoso (não nos referimos ao Blog Café, haja ressalva). Os animais, quando triunfam, são mesmo um Deus-nos-acuda…

Perfidus e Flatus

Pensei estar perante um ataque cardíaco ou um AVC: dores de cabeça, braços congelados, suores frios e dores no peito. Estive perante uma linda e simpática doutora de Braga, com ares de “menino da sua mãe” e o meu amigo Pedro Maciel, de namorada ao lado, chegou a ter peninha de mim. Em momentos assim, longe dos meus e do Autocarro nº 20, nem conseguia rir das “últimas” de George W. e punha-me a pensar, com todo o drama deste mundo, nos meus filhos Denzel e Pablo. De repente, depois das análises de sangue, electrocardiograma e prova de esforço, a doutora me descobre uma crise de gases…o catano. “Vossa Senhoria, em vez de comer os feijões, passa doravante pela provação dos deuses Perfídus e Flatos”. Pode?

Artifício poético

Falando nisso, quem está aí com essa de os versos serem espontâneos, sem engenharia, nem gramática? Não é ver um passarinho verde a passar e, tumba, a porra da metáfora a jorrar nesse chafariz da Praça Alexandre Albuquerque. Valerá também o seu lado oficinal. Um poema não nasce pronto. Tão pouco, ele cai da árvore da imaginação como fruta madura. É preciso pensá-lo com rigor matemático e introduzir nele a polifonia da música e da dança. Só então, tu, bela musa, hás de a ver com olhar novo e despido. Poesia é o catalítico de certo artifício, minha Princesa.

sábado, 20 de setembro de 2008

Underground

De Chirico
Hector and Andromache
Underground

Morro de rir ao ler alguma malta nessa de “o meu absurdo é maior que o teu”, numa presunção de quem se ufana de sorver vómitos. Vejamos como é bonito, posto que aborda o amor, o quadro Hector and Andromache, De Chirico. Devíamos estar desviados para o bosão de Higgs, os quarks, os electrões e os fotões – algo que, a haver Deus, seria Ele o Criador da beleza com que teríamos de nos reproduzir. Mas falávamos sobre a (in) segurança e não do resto e da sobra que cada um vai comendo.

Ground 1

O debate sobre a (in) segurança – além, muito além, do suplemento da Polícia Militar – é um exemplo excelente daquilo que deveria ser o papel dos cronistas em horas mais gravosas: despertar sobre o que nos preocupa nesta sociedade, através da escrita, mas sem conceder a receios de flipar os pequenos deuses da esquina e seus caciques da bloga. Há muita violência na rua na cidade da Praia, em Cabo Verde e por onde vamos vivendo. Há também muita violência doméstica. Em suma, apesar do sério problema dos assaltos, Cabo Verde é ainda mais perigoso dentro de casa do que na rua. E, no que se refere à violência, não nos podemos ficar quedos e calados que nem ratos.

Ground 2

E não vale a pena enfrentar os Thugs com conversas para boi dormir. Os Thugs (do ghetto ou do berçário dourado, a mesma “merda” afinal) precisam, à medida que se constroem alternativas culturais, económicas e sociais (paz e água fresca, diga-se em abono da ironia), saber que, em democracia digna desse nome, não haverá para ninguém a premissa do sétimo mandamento do "Quinta dos Animais", de George Orwell - e o seu confinamento num só "all animals are equals but some animals are more equals than others" . Dura lex, sed lex…

Ground 3

Só que neste Reino da Dinamarca – insólito PDM sem luz, nem água, mas, à razão, “country under construction” -, a democracia tem os seus problemas genéticos e congénitos. O que se resvala nesta grande demagogia deriva de uns e outros terem sido ou colaboradores do fascismo colonial ou revolucionários embebidos num estalinismo de treta, incapazes de “trabalhar” valores da Ética e da Estética. Mais ainda, a chatice dos armados em trotkistas que se lhes juntaram e que, tal qual a chatice dos estalinistas, propunha (ora e outrora) uma hipótese de política absurda, construída sem afã da liberdade e alimentada na vã sede do poder.

Ground 4

Apetece fechar esta postagem com os versos de Pessoa:
Senta-te ao sol.
Abdica
E sê rei de ti próprio.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Pó de ti


É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca

Pelo malmequer ou flor outra qualquer,
Tal qual sibilina fraqueza tenho pela rosa,
Amarei sem fronteira, com verso e prosa,
Toda a cor que, em arco-íris, vira mulher…

Dulcíssima lua, quando vens nua, à noite
E silencias, em tudo, do áspero à pelúcia,
Tendo mãos de veludo, quando não pedra,
E policias o vício lodoso destes momentos…

Sem lírica, meu poeta, que somos navegantes,
Temos (deste mapa) grafias e fotos tatuados,
Somos grafites, letras sem rima, arguidos…

Por mais que dilate esse teu olhar distante,
Sobre a dor e a nostalgia, de nenhum alarde,
Saberás como, aqui, se esponja o “pó de ti”…
Filinto Elísio

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ad vinho

Qual é a cor da música?
Seu gosto de fruta e de cravinho.

Quanta gota (exangue de mel) ou fio
De sangue que não desemboca,
Se teus lábios (de rouge) cantarem?

As horas do teu corpo batem
Em que lugar quando ressoa
Meia-noite no meu poema?

Tudo isso é não ter laços,
Não ficar aqui preso ao halo
Com instantes dos teus seios.

Tudo isso adivinho seres tu,
Posto que travam como vinho
As cores que li no gosto.

Tempero, em que novelo
És mais água do que sal?
Concha em que segredo
Me és palavra repentina?

A cor da música…


Filinto Elísio

Blogs, (in) segurança e a acácia com cara de candelabro




Browsing

Manhã desacordada. Vou aos Blogs que interessam. Destes, os que mais interessam falam da Arte e da Comunicação. Há um que fala da Arte da Comunicação. Reino da Dinamarca? Ah, andas a fazer menção à Tapadinha PDM, que eu sei…

(In) Segurança…antes que anoiteça

Não me venham com essa que a questão da segurança ou a falta dela seja matéria para os entendidos, os tais “experts” de que estamos fartos. A segurança, tal como a inflação, tem a ver connosco que já não podemos namorar no Farol Maria Pia, nem devemos fazer a marcha matinal pela Av. Cidade de Lisboa. Naturalmente que votamos, trabalhamos e pagamos impostos, esperando em troca a obrigação pública e, dentre ela, a segurança pública. Se não pudermos levar os nossos filhos ao jardim, a medo dos assaltantes, é porque alguma coisa não vai bem no Reino da Dinamarca. Se os autocarros não vão a certos bairros, depois do crepúsculo, teremos de tomar medidas sérias…antes que anoiteça.

(In) Segurança I

É a cidade toda que se tornou numa grande zona crítica. A criminalidade extravasou-se de certos bairros e instalou o seu modo operandis na cidade toda. Os ladrões e os thugs, havendo alguma superstrutura que lhes apoie, têm de longe mais mobilidade e são de longe mais livres do que os honestos cidadãos. Devia ser ao contrário. Radicalmente ao contrário. Violentamente ao contrário. Refiro-me também, e com frontalidade, à necessidade de uma lei mais incisiva e dissuasora. O Código Penal e o Código do Processo Penal que deveriam ser mais duros com os criminosos e mais protectores para as vítimas.


(In) Segurança II

Em termos da abordagem mais premente, creio que há política a mais e polícia a menos. Sou abertamente a favor à decisão de a Polícia Militar reforçar a segurança pública, enquanto medida extraordinária, complementar e transitória que o momento e a opinião pública reclamam. Naturalmente que, a prazo, há que buscar soluções mais articuladas e mais sustentáveis, com recurso a abordagens sociológicas, pela requalificação da Polícia Nacional e outras. Por ora, o que se quer é a segurança nos bairros e a inequívoca ordem pública pela capital, prioridade não apenas dos munícipes, mas de todos os cidadãos cabo-verdianos. A capital, vocifere quem queira, é área da soberania e deve ser protegida como tal.

Acácia

Reino da Dinamarca (lá estás tu com Shakespeare!): Uns dão terrenos. Outros confiscam-nos. Febre de Setembro. Patrícia faz dramas de uma tragédia que resvala em comédia. Às vezes, sou de solilóquios. Outras vezes, gostaria de ser um estrela…luzindo há tanto tempo, para a dó do Poeta. Curtir o amanhecer no cais de pesca da Praia. Estar, anónimo e feliz, no Autocarro nº 20. É pá não chove para Santiago continuar lindooooooo. E a acácia, defronte, parece um candelabro esquecido…

terça-feira, 16 de setembro de 2008

PoeMito

Mito
Stiba na tubuko
Técnica mista sobre tela. 70x100 cm
Nu Bai

Não poderia faltar ao repto de apresentar NU BAI, pelo talento que reconheço a esse artista plástico. Igualmente, a ele me liga uma relação ontológica e existencial, tendo a Estética por pano de fundo. Com Mito, edifiquei vários rituais de cumplicidade, não apenas plásticas, mas literárias, teatrais, cinematográficas e musicais, bem como aquelas pantagruélicas em várias paragens do mundo. De uma forma muito especial, registo que a Mito devo também o incentivo, a energia toda do afecto e a força vital, que às vezes me falta para, nestes tempos, persistir na recorrência artística. O seu desvelo diz de perto sobre quase tudo que, de último, venho realizando nos campos da Poética.
De Rerum Natura

Take it easy, my brother, que não és responsável pelas armas atómicas, pelo buraco na camada de ozono, pelo aquecimento global ou mesmo pela invasão da Geórgia. Tão pouco pagarás pela pobreza franciscana destes bairros. Ou pelos kasubody a cada esquina. A Electra é tão-só nossa burrice colectiva e partilhada. Somos nós a (in) Cultura que, para lá dos significantes, nos deixa sem significado. Contrariamente à Arte do Estado, teríamos de investir no Estado da Arte, dissemo-lo já. Como todos na aldeia, teríamos de ter a consciência das nossas fragilidades. As de todos e as de cada um. As nossas circunstâncias são o diabo, entrementes. O Reino dos Céus aos mansos de espírito e aos humildes de trato. As discordâncias, que não conferem o fim-do-mundo, precisam de um framework da ética, da tolerância e da elegância. Sejamos, no mínino, cavalheiros. Segundo Umberto Eco, a verdade, mesmo a social, a cultural e a política, não afirma que o que é novo esteja necessariamente certo. Pelo contrário, ela baseia-se no tal princípio da «falibilidade», como sentencia também Charles Pierce e Karl Popper. Nós, deste lado, preocupamo-nos com a Vida. A Estética Global. Lago de Garda, Monte Pico de António, o satyagraha de Mahatma Gandhi…que maravilha!
Stiba na Tubuku
Tendo também pela Arte um zelo que só terminará com a Vida, apanágio, aliás, do nosso mestre Padre António Vieira - o justo Imperador da Língua Portuguesa, como quis o imenso Fernando Pessoa -, continuarei com esta flâmula, minha natura simplesmente. Assim, o Albatrozberdiano irá alternar, sempre com relances da Poesia, as escritas (i) domésticas, civis e mercantis; (ii) de novas, de recomendação, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graça e (iii) públicas, invectivas, consolatórias, laudativas, persuasórias e outras.

domingo, 14 de setembro de 2008

Χρυσόμαλλον Δέρας



Perdoem-me pelo grego antigo, mas ele julgava-se um Argonauta. Fazer o quê? Viu a maqueta da torre em Constança (Roménia, meus caros) e, da sua enorme loucura, gritou “Argos”! Depois, com alguma pachorra para a Blogsfera, quis ser Jasão, o mais amado das criaturas. Ele deu uma gargalhada perante a fanfarra de fazer cair o Ministério. Não é à-toa que se puxa a linha desse linho, pensou. Será preciso mais parcimónia, peito para o caos e algo para preencher tal vazio. O bota-abaixo, banal valentia de afirmação, não atiça incêndio algum. Tudo não passa de uma grande treta. Baile de máscaras. Prefere ouvir Francis Cabrel, do álbum “Des Roses & Des Orties” ou, então, ler “Boa Noite, Senhor Soares”, de Mário Cláudio. De uma assentada. Vorazmente. Ei-lo (cada vez mais chalado): Não me amarro aos Mastros, nem me ajoelho aos Credos. Creio, com alto sentido de “falibilidade”, que Deus está no buraco negro. Quando Medeia, filha Eetes, se apaixona por Jasão, este conquista o Velo de Oiro. Voilá - Quero o amor, amar o amor. Que Hera também me ame, porra. O amor interessa; fazer cair o Ministério nem por isso. Sem romantismos, nem alumbramentos. Começa a ficar tarde…

sábado, 13 de setembro de 2008

Solilóquio sem vírgula


Dir-te-ei também o tempo da poeira vagarosa sobre os móveis E da torneira em cadência A de cada gota que nós fomos Ter-te-ei em escondida surpresa O flagrante de todas as coisas E sobretudo subvertendo do mais velado Guardarei ao teu olhar tudo por dizer E mesmo ao fim da linha a eito Ou como em tudo seja metáfora Com ou sem torpor partiremos Até onde nada haja por seguir Para lá do infinito esse grito…

(Em Ploiesti, Roménia, ele começou a ficar louco. Mas os primeiros sintomas surgiram-lhe no sertão brasileiro: esses solóquios…sem vírgula)

Conversa…réservée aux bobos friqués


Ele: Não gosto de músicas enlatadas. Envergonho-me que queiram fazer de nós uns abridores de lata. Ela (citando Knut Hamsun): «Savez-vous ce qu'est un grand poète? C'est un homme qui n'a honte de rien.» Ele: E se deixássemos de viver estas estações? Ela: Tu auras vécu en vain.…

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Ossos de Siba

Não busques abrigo na sombra
desse bosque de verdura
qual o falcão que mergulha
como um raio na canícula.

É hora de deixar quieto
o caniçal sonolento
e de observar as formas
da vida que se esboroa.

Caminhamos numa poeira
de madrepérola vibrante,
num ofuscamento pegajoso
que quase nos desfibra.

No entanto, tu o sentes, mesmo na onda árida
que lassidão nos traz neste instante de enfado
não é hora ainda de lançar num abismo
nossas vidas errantes.

Como este claustro de rochas
que parece desfiar-se
em teias de nuvens;
assim nossas almas ressequidas

onde a ilusão mantém aceso
um fogo mais de cinzas
se entregam à serenidade
de uma certeza: da luz.

Repenso o teu sorriso e é para mim como uma água límpida
retida por acaso entre as pedras de um rio,
exíguo espelho onde contemplas uma hera e seus corimbos;
e tudo sob o abraço de um branco céu tranqüilo.

Esta é a minha lembrança; não sei dizer, faz tanto tempo,
se de teu rosto surge livre uma alma ingénua,
ou se em verdade és dos errantes que o mal do mundo exaure
e o sofrimento carregam como um talismã.

Mas posso dizer-te isto, que teu rosto recordado
afoga a mágoa inconstante numa onda de calma,
e que tua figura se insinua em minha memória nevoenta
imaculada como a copa de uma jovem palmeira...


Eugénio Montale

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Nu Bai


1.
Não é a primeira vez que sou apanhado "de pronto" para apresentar as exposições de Fernando (Mito) Hamilton Elias. Das já feitas por mim, guardo (direi mesmo: resguardo) com serena e grata lembrança aquela intitulada "Timenti Lua Ka Subi", e inaugurada na Vila do Tarrafal, em Santiago. Era uma exposição forte, magenta e cor da terra, eivada para o "bric color", aos feixes de formas, fonemas e morfemas. Também de semânticas. De sêmeas. Dissera, então, que Mito era o mais conceptualmente moderno dos artistas plásticos cabo-verdianos, isso sem desmerecer outros assaz interessantes e de grandezas próprias. De lá para cá, Mito foi crescendo, não em linha recta, que do intelectual não se espera vector cartesiano, nem em linha oblíqua, que os modismos são também outros grilhões. Foi crescendo no sem linha e no sem margem, como se entrasse num jam session e deambulasse nas escalas livres e de fugas musicais. Totalmente groovy. Absolutamente, groover...esse Mito!
2.
Também não é inédita a ângustia que me assalta sempre que Mito me faz esses convites de apresentação. Deixando-me à mercê de um entendimento marginal das suas telas. Reparem que não digo "compreensão". O Artista propõe, para lá dos meus dilemas, uma complexa inequação, com incógnitas incessantes e reincidentes. À maneira de Sueño con Serpientes, de Sílvio Rodriguez, em que la mato y aparece otra mayor. Eis que nas telas de Mito se me suscita descortinar um pássaro, também "de pronto" aparece outro maior, con mucho más infierno en digestión...
3.
Apanhado assim "debole", filosoficamente "debole", aquém de todas as certezas, tenho, nas antípodas, o gozo de olhar e de opinar sobre NU BAI, exposição de pinturas de Mito, a inaugurar na segunda-feira, 15 de Setembro, no Auditório do BCA. Vejo tal mostra como uma grande homenagem aos Hiacistas e à própria ilha de Santiago. Hèlas, que ele baptizou o seu filho de Santiago, patronímico da Ilha Maior e Matricial. Santiago que nos é capital do Chile de Pablo Neruda e de Victor Jara. Cidade também de Compostela, não muito distante de Ribadeo, onde nasceu Eugénio Tavares para ser naufragado nas águas da Ilha Brava. Santiago de Cuba, em tudo igual, caleinte e oriente, à Cidade Velha, velhíssima, nossa memória, nossa alma. Mas dizia: a partir de um polígno de peças, umas ontológicas, outras faits-divers, Mito faz a alegoria dos movimentos, dos veículos, dos transportes, das transladações e das migrações. Tudo que risca e visca a sua Ilha Imaginária e Criativa, se não pura Criatura...
4.
Pois é, Mito, preparemo-nos para a catadupa de incongruências e de ziguezagues sem fim, pois a perfídia dos pequenos é coisa grande na aldeia. O inferno começou pela censura do meu texto, posto bizarro se tornou Mecenas de Tesoura. Odiámos juntos, pela vida e pela lida, quaisquer Gulags e as sobras de um colonialismo que nos persiste mental - a tal "mental slavery" que Bob Marley bem cantou. Estamos em tempos de Argui, Nu Monda, Nu Bai... Redemption Song. Inté...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Setembro

1.
Achava-me numa fase intelectual mais vadia, desabrida e burlesca. Achava-me, mais do que nunca, solto na vida. Mas alguém, por sinal amigo, me achou deprimido. Leu a crónica "Agosto" e me reportou triste, alarve a transpirar no texto em questão. Em verdade, estava eu então aziago e estranho. Tentei escrever outra crónica sobre Usain Bolt, não só a ganhar tudo e todos, mas a dançar reggae por cima, muito por cima, da olímpica monumentalidade do Império do Meio, mas nem isso. De repente, deu-se um vazio na minha mente e, em assumidas insónias, as noites tornaram-se mais longas. É que o cronista tem disto: síndroma de página branca. E "Agosto" reflectiu assaz neurastenia. Experimentei alguma irreverência, mas aos 47 anos está-se mais engomado que na juventude. Apanhei, nas estradas das minhas viagens, um ramo de travisco na vã crença de afastar as trovoadas, os raios e os coriscos. E, em sobra de tudo, a desmesura de um oceano…

2.
Farei sim uma terapia baseada no riso. Arlequim total! Tornar-me-ei um girassol nessa procissão que vai dar ao Deus-Sol. Ensaiarei gracejos à la mystic river e talvez compense, em overdose de alegria, os 100 paus que os leitores andam a pagar pelo Jornal. Seja, pois, minha crónica futura uma sonorosa gargalhada. Sem ironias, direi que tudo vai bem neste Reino da Dinamarca. Esta é uma Dinamarca PDM, arre. Sem azedumes, farei loas ao cronista de serviço, esse que se insiste também poeta e patrulhador de todos na aldeia. Um chato, mas fazer o quê? Obviamente que, mau grado as boas graças, comungarei sempre da sentença de Chinua Achebe: "O poeta que não tem problemas com o rei, terá problemas com a sua poesia". Por modo de ter jogado as mágoas no Lago de Garda, bem pertinho de Brescia, e de ter chegado a Milano Centrale limpo e apaziguado, mas impossibilitado de tomar parte no Re-Inventation Tour, de Madonna. Por modo que, para o gáudio dos nossos imbecís, quis também ver Veneza antes de morrer…

3.
Tive também pena de deixar Lisboa, antes do espectáculo da Madonna. Eia que essa mulher me persegue! Não porque ela é a artista mais Top 10 da Billboard, mas porque possui um alcance vocal de 3,5 oitavas, uma verdadeira Soprano Full Lirica. Queria vê-la a cantar entre as escalas de contralto e de mezzasoprano, mesmo que o Papa desgoste. Marc, o meu amigo russo autor da música "Lisbon Blues", título também de livro futuro de José Luis Tavares, é que me ensina isso de escalas musicais. E conto-vos tal núncio, como se incarnasse a ideia de Walt Whitman: "Eu canto o meu próprio Ser, pessoa em si e à parte/embora expresse o verbo democrático, a expressão das massas".

4.
Agora que Agosto fechou o seu nefasto ciclo, estou aqui em Setembro. Estou ainda esquisito. Sei-o bem. És tu, poeta. Confesso que, quando assim é, só me apetece ficar sozinho na cama e com a luz apagada. Esperando que a minha mãe me apareça à infância retornada e me dê um beijo de boa-noite. Incessantemente. Inenterruptamente…creio bem que para além do fecho desta edição.


quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sketches




Em tempo de cólera


A situação da cólera na Guiné-Bissau atinge níveis alarmantes e está absolutamente fora do controlo das autoridades sanitárias. O Estado Guineense, efectivamente relativizado e diminuído, não se mostra preparado para fazer face à epidemia. A situação reclama por maior intervenção das Nações Unidas, através da OMS, da União Africana e da CEDEAO. De uma perspectiva cabo-verdiana, algumas medidas de solidariedade precisam ser tomadas. Para além da dívida histórica para com a Guiné-Bissau, não nos configura seguro, nem confortável ter epidemias à porta...



I (do) love America

Gosto da América que canta jazz e blues. Que pariu poetas como Ezra Pound, Walt Whitman e Allen Ginsberg. Com os seus estadistas como Thomas Jefferson e Abraham Lincoln. Exult, O shores, and ring, O bells! A América de todas as cores, raças, credos e filosofias. Arco-íris. Generosa e democrática. State of Art. Woody Allen, Orson Wells e Andy Warhol. Da Harlem Renascença. A do I Have a Dream, de Martin Luther King Jr. A de Baraka Hussein Obama. De Denzel e de Pablo. I (do) love America...

Bracarense também

A cidade portuguesa de Braga, capital do Minho, tem várias coisas que me encantam. A primeira, é o saneamento e o tratamento dos resíduos sólidos urbanos. A segunda, é o trânsito ordeiro e fluído. E a terceira, é a gastronomia. Não posso imaginar Braga sem projectar, com água na boca, o restaurante O Arcoense. As entradas e os pratos tradicionais são irrepreensíveis. Isso, para não falar das sobremesas, quase todas da doçaria conventual. Como podem depreender, uma cidade também se faz pelo gosto...

Tempo de Mindelact


Recomenda-se...vivamente!


A não perder


sábado, 30 de agosto de 2008

Calor

Faz tanto calor em Paris que não me apetece estar à rua. Até o poema, que estava pronto a sair, ficou derretido, inconseguido de todo. Aproveito a oportunidade para felicitar Os Momentos e dar as boas-vindas a Setembro. Ponho a correspondência em dia: a Televisão da Galicia pretende fazer um filme sobre o naufrágio de Guadalupe IV e sobre a vida de Eugénio Tavares; aceito participar da Semana Cultural Cabo-verdiana em São Paulo; sim, preciso de ar fresco, vou mudar de escritório; gosto do forward sobre as oportunidades empresariais em Dubai; o postal sobre "french kiss" também está giro; Alain Ducasse é uma estravagância; não sei se vou a Canárias falar sobre Cultura y Insularid. Faz muito calor...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Paris



Chega-se a Paris à noite e a Torre Eiffel, agora azulada e com as estrelas da União Europeia, se nos apresenta da vidraça do automóvel. Fala-se da arte em Cabo Verde, por causa da postagem anterior. Em verdade, fala-se da falta dela. Refira-se não à falta-quantidade, mas à carência da sua qualidade. Aliás, nada de complascências: faltará "arte" à Cultura, à Política, à Economia, ao Desporto e à Sociedade. Nelson Évora, Nani, Cesária Évora, Horace Silver, Mayra Andrade, Sara Tavares, Donaldo Macedo e Arménio Vieira, só para citar uns, entre outros, servirão para confirmar a regra.


Pré-orbitário

Pressente-se

Minha dor antiga – de Pessoa, alter-ego desta cidade – pressente-se sempre que me encontro em Lisboa. Entre triste e contente, ressente-se ela de transeuntes olhares e do adjectivado halo da Madragoa. E quando se me ateia certo fogo, que em ti só crepita no vagar destes dias, preciso da minha solidão de Lisboa.


Espero-te no Sal

Na Livraria Bertrand, dou de caras com o livro “Espero-te no Sal, Nina”, de Maria Roma. Um amigo já me havia falado deste romance que tem a Ilha do Sal como pano de fundo, elemento que por si só torna o livro “com interesse”. Mas ele foi avisando que era prosa ligeira, com drama incandescido e narrativa de pouco fôlego. Ao folheá-lo (como bom “browser”, já que sou bibliotecário, para além de bibliófilo), confirmo alguma ingenuidade de alguém que não terá lido “O Retrato de Doris Gray” e o exotismo recorrente a retratar o espaço que, por sinal, precisa de exorcismo a um certo turismo…


Dos sátiros

Recorro a “Satyricon”, de Gaio Petrónio, como livro de viagem. Esse texto, não só relança a tradição literária que lhe era anterior (a de Homero, Virgílio, Sófocles e Plauto), como aponta (e apronta, diga-se em verdade) para o que é hoje a modernidade da prosa discursiva. Tal como a “Bíblia”, “Satyricon” é também uma compilação de textos ou o livro dos livros. Petrónio, cuja façanha de haver “gozado o Imperador Nero” o meu pai contava nos confins da infância, nos ensina a cada momento que, na vida, somos apenas passageiros ocasionais…


Estado da Arte

Contrariamente à Arte do Estado, teríamos de investir no Estado da Arte, conceito nas antípodas da realidade que se vive em Cabo Verde. Igualmente, teríamos de destrinçar os “valores” dos falsos profetas que dormem poetas, sonham pintores e acordam cineastas. O que faz falta (não para animar, mas para educar) à malta é o sentido de, ao cognitivo, ao herdado e ao adquirido, investirmos na qualidade e na consistência. Vamos, pois, todos (não se admitem arrogantes, sobretudo os betinhos) entrar no pré-orbitário…

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Fuligem, riso e vertigem

Na pedra – água que rumoreja.
No gargalo do mar - ali gorjeia:
Ave sem voo, rima e penugem,
Viagem contida num âmbar…

Tornar – algo sem azo, zoeira,
Poeira que, suspensa, se esvai
Do cimo do monte, e nas dunas
Ínsula de areia, broa da ilha…

O Tempo - ruinoso e tão à-toa,
Longínquo no travo e na treva,
Réstias de cacimba, névoa e griso…

De vide, fuligem, sendo verso
Dessa margem, riso e vertigem
Ou fonema virando poema…

FILINTO ELÍSIO

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Meses...a contragosto

Agosto

Augusto mês de Agosto. Quente, meio chuvoso e completamente difuso. Não se consegue fazer poemas em desgosto, já que a mãe morreu neste mês aziago. Em beleza, pois não me quereria ela mortificado e penitente, reincarnando, nas antípodas, Mersault. Não me sói matar ninguém, ainda que me sinta “O Estrangeiro”. Mas este é um Agosto obtuso, sem absurdo, nem (des) ordem filosófica. Que não me permite dispor da solidão. Tão pouco me admite olhar ao espelho. Por onde andará a minha alegria?

Setembro

Quando Agosto caminha para o fim, começo a desabrochar-me para Setembro. Pode até parecer, aos vossos olhos, que estou fazendo prosa com esta minha fase existencial. Acontece que, para o gáudio dos invejosos, Agosto me tira do sério. Fica, por isso, a promessa de entregar os poemas inéditos para a antologia de José Luis Tavares e as crónicas para Sílvio Baptista, não sem antes acertar as fotos com Omar Camilo. Em Setembro já estarei melhor, isto é, caso ainda tenha estrutura emocional para ver a passarinha de pena azul. Fui…

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

El Ausente

I.
Dios insaciable que mi insomnio alimenta; Dios sediento que refrescas tu eterna sed en mis lágrimas, Dios vacío que golpeas mi pecho con un puño de piedra, con un puño de humo, Dios que me deshabitas, Dios desierto, peña que mi súplica baña, Dios que al silencio del hombre que pregunta contestas com un silencio más grande, Dios hueco, Dios de nada, mi Dios: sangre, tu sangre, la sangre, me guía.
La sangre de la tierra, la de los animales y la del vegetal somnoliento, la sangre petrificada de los minerales y la del fuego que dormita en la tierra, tu sangre, la del vino frenético que canta en primavera, Dios esbelto y solar, Dios de ressurrección, estrella hiriente, insomne flauta que alza su dulce llama entre sombras caídas, oh Dios que en las fiestas convocas a las mujeres delirantes y haces girar sus vientres planetarios y sus nalgas salvajes, los pechos inmóviles y eléctricos, atravesando el universo enloquecido y desnudo y la sedienta extensión de la noche desplomada.
Sangre, sangre que todavía te mancha con resplandores bárbaros, la sangre derramada en la noche del sacrificio, la de los inocentes y la de los impíos, la de tus enemigos y la de tus justos, la sangre tuya, la de tu sacrificio.

I I.
Por ti asciendo, desciendo, a través de mi estirpe, hasta el pozo del polvo donde mi semen se deshace en otros, más antíguos, sin nombre, ciegos ríos por llanos de ceniza.
Te he buscado, te busco, en la árida vigilia, escarabajo de la razón giratoria: en los sueños henchidos de presagios equívocos y en los torrentes negros que el delirio desata: el pensamiento es una espada que ilumina y destruye y luego del relámpago no hay nada sino un correr por el sinfín y encontrarse uno mismo frente al muro.
Te he buscado, te busco, en la cólera pura de los desesperados, allí donde los hombres se juntan para morir sin ti, entre una maldición y una flor degollada. No, no estabas en ese rostro roto en mil rostros iguales.
Te he buscado, te busco, entre los restos de la noche en ruinas, en los despojos de la luz que deserta, en el niño mendigo que sueña en el asfalto con arena e olas, junto a perros nocturnos, rostros de niebla y cuchillada y desiertas pisadas de tacones sonámbulos.
En mí te busco: ¿eres mi rostro en el momento de borrarse, mi nombre que, al decirlo, se dispersa, eres mi desvanecimiento?

I I I.
Viva palabra obscura, palabra del principio, principio sin palabra, piedra y piedra, sequía, verdor súbito, fuego que no se acaba, agua que brilla en una cueva: no existes, pero vives, en nuestra angustia habitas, en el fondo vacío del instante — oh aburrimiento —, en el trabajo y el sudor, su fruto, en el sueño que engendra y el muro que prohibe.
Dios vacío, Dios sordo, Dios mío, lágrima nuestra, blasfemia, palabra y silencio del hombre, signo del llanto, cifra de sangre, forma terrible de la nada, araña del miedo, reverso del tiempo, gracia del mundo, secreto indecible, muestra tu faz que aniquila, que al polvo voy, al fuego impuro.


Octavio Paz

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Toada

Margem terceira

Aproveito as férias pagas do pessoal para lembrar aos meus parcos leitores que não poderia escrever sobre o Estado da Nação. Disse ao editor, aos leitores e, sobretudo, a mim próprio que me andava a mancar engenho e arte para tanto. Fiz um genuíno esforço para ir à sessão da Assembleia Nacional e parei um bocado, do anel em que se assiste ao espectáculo do mundo, concluindo saber o que não seria para mim. Andei pelas ruas, vasculhando na face dos transeuntes, mas pude testemunhar um assalto e um acidente. Arre, que te fadaste a escrever estados da alma. Arre, que estás condenado a escrever outras loisas e novas glosas. Crónicas da terceira margem…

Cronos deste quotidiano

E há um cronista de serviço que divide o mundo entre ele, Deus e César. Inclusive, redefine a antologia dos poetas cabo-verdianos. Manda no onírico alheio. Ufana-se dono da República. Classifica os cartáveis e os descartáveis. E, em textos rascas e pequenos, desenha um pequeno Olimpo, onde os deuses da esquina masturbam seus egos. Faz pouco dos substantivos e delicia-se dos adjectivos, e faz, como o desvairado Narciso, de tudo seu espelho. Malhas nos vates e nos bacamartes. Até esse Estado da Nação esvai-se-lhe do próprio umbigo. Adivinhem que dou um doce. Ele é o abade dessa confraria. Procissão dos velhacos, só poderia. Às tantas, quero estar desavindo. Às tantas, quero outros caminhos…

Em dias de alma

Não é que o meu psiquismo interesse a alguém. Tão pouco o nexo dos meus dias se torna coisa pública. Provavelmente, o Estado da Nação suscite mais leituras que os meus interstícios. Os meus desassossegos são só meus e de mais ninguém. Neste Agosto, é o 2º aniversário do falecimento da minha mãe. Por isso, se me permitem, estou em dias de alma. As crónicas reflectem os meus dias, afinal. Mesmo quanto dou gargalhadas efusivas. Fernando Pessoa, numa “depressão sem fundo”, escrevera assim: Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça.

Se bastasse

Tu, como ninguém, soubeste porque eu lia (e lia-te silenciosamente também) os versos de Sophia de Mello Breyner Andreson. Soubeste-o e os meus dias passavam, de tão iguais e à mesma, lentamente. Versos que diziam: Cada dia é mais evidente que partimos/ Sem nenhum possível regresso no que fomos/ Cada dia as horas se despem mais do alimento:/ Não há saudades nem terror que baste…Tu, como ninguém, soubeste ser outra a minha toada. A outra minha estrada (só tu, que me ausentas, nesta margem terceira)…

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Rir

1.O pai da Malu Mader é o Malu Fader
2.. Eu não matei, mandei o Mauricio Mattar
3.. Você não tem, mas o Frankstein
4.. Eu não vou furar. O Juca Kfouri
5.. Aquilo todo mundo vê... Até o Clodovil
6.. Todo mundo só morre uma vez, mas a Alanis Morissete
7.. Eu pulo do barranco. O Luciano do Valle
8.. Você já morou nos EUA? A Marylin Monroe
9.. Você faria papel de trouxa? A Betty Faria
10.. Eu acordo mais tarde. E o Edir Macedo
11.. Ninguém queria pagar a conta. A Cassia Kiss
12.. Eu pinto paredes. E o Jânio Quadros
13.. O marido da Hilda Furacão é o Tony Tornado
14.. O Pateta usa o teclado. E o Mickey Mouse
15.. Eu escovo os dentes 4 vezes ao dia. E o Joãozinho Trinta
16.. Você já esteve na Europa? A Adriana Esteves
17.. Eu fumo. E o Celso, Pitta
18.. Eu gosto de chá gelado. E o Clark Kent
19.. Eu fujo. O Chiquinho Scarpa
20.. Você riu dessas piadas? NÃO? O Damon Hill

NOTA: Estas frases ilárias, que me chegaram em encaminhamento electrónico, servem para rir. É que o stress se tornou uma das principais causas de morte, ultimamente. Por isso...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Equador

Vera Cruz, artista com voz, gesto e atitude (fina flor da Geração Pantera), vai participar no Brasil, como actriz, do filme “Equador”, adaptação do romance homónimo de Miguel Sousa Tavares. Para além do cinema, ela estará também em estúdio a gravar o seu primeiro álbum. Creio que se afirma mais uma estrela na bonita constelação que já é a música cabo-verdiana. Fico contente, em alvíssaras que a minha amiga merece. E nesta co-produção da NBP/PLANO 6 para a TVI, Vera Cruz fará o papel de Eduarda e mais não digo para que o livro seja lido e o filme seja aguardado, bem como o álbum ansiado. Com expectativa…

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Escrever tão-somente



Escrever tão-somente

Há momentos em que escrever é como deambular, sem norte e à sorte. Jogar a bússola na falésia e voar no improvável. Escrever tão-somente com ímpeto. Vela ao vento. Cata-vento. Espavento. Escrever, mesmo sem arte. Com o alarde de nada…

Pôr-do-sol

Pôr-do-sol oblíquo, a puxar para o triste. Chegado ao fim dos poemas, sem remorsos, nem estranhos arrependimentos: os dias afinal sempre foram passados. Cores, sons, gostos, sexos, aromas, corpos, estátuas de cera, as coisas foram passando como num filme. Houve beijos em nuvens e acenos em viagens. Encantos e desencantos. Coisas também vis e negligentes, com que se envergonhar, mesmo a só, no corredor da sorte. Baixinho, aqui entre nós, a balbuciar: o sol a pôr-se…

Palavras

As palavras são coisas, (i) matérias que pesam e ocupam o espaço da intenção. As palavras são gestos ou, quando envoltas de metáforas, gestas. Pronunciadas, até se balbuciadas, elas são pessoas que as dizem e que as escutam. Que as pensam no silêncio. Assim, relendo o Génesis, está o verbo no começo de tudo. O Aleph, como nos indica Jorge Luis Borges. Para que, doravante, nada fosse desimaginado…

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Soljenitzyne

Soljenitzyne

Em tempos, li "Arquipélago de Gulag", de Alexandre Soljenitzyne, com causa e consequência. Li-o em tenra idade, quando, até nestas paragens, uns eram estalinistas, outros eram trotskistas, faces reversas da mesma barbárie. Li-o, como acto formativo humanístico, para que diante de certas verdades eu permanecesse a dúvida e sob certos caminhos cartesianos eu ficasse desavindo. Ao longo da minha vida, balbuciei citações de Soljenitzyne, não só as tiradas no "Arquipélago de Gulag", mas também nos romances "Um Dia na Vida de Ivan Desissovitch"e "O Primeiro Círculo". Há novos gulags e novos muros de Berlim, outras barbáries e outros infernos. Soljenitzyne, ao sentenciar «a morte tecnológica não será calamidade menor do que a guerra», deixa um grande legado para a Humanidade. Também para estas paragens…ainda. Paz à sua alma…

O Atentado

Li, neste fim-de-semana, "O Atentado", de Yasmina Khadra (pseudónimo do escritor argelino Mohamed Moulessehoul). Comprei-o na livraria Nhô Eugénio, em Achada de Santo António. Há muita coisa boa nessa livraria, diga-se de passagem. "O Atentado" é o escritor, ciente que a vida é um grande poliedro, a se posicionar em todos o lados. O conflito israelo-árabe contado de uma perspectiva mais complexa e humanística. As várias razões e motivações, sob o pano de fundo da guerra, ela própria injusta. A guerra, em caleidoscópio, com os seus terrorismos aos ínfimos detalhes. Há muito tempo um livro não me envolvia de tal forma.

Horário Único

Não quero me aventurar muito numa área que desconheço, mas tenho as minhas reservas sobre o Horário Único, a vigorar no país inteiro, até ao dia 31 de Agosto, data, por sinal, de triste memória. Isso cheira-me a mais uma "importação acrítica" de modelos administrativos que, de modo algum, encaixa na "demanda" produtiva cabo-verdiana. O funcionalismo que, mau grado a reforma e as novas tecnologias, continua pesada, desengonçada e pouco produtiva, não irá funcionar melhor nestes dias de "defeso". O horário compacto, mas com folgas e brechas pelos cafés, bem como fugas domiciliares, não me parece beneficiar ninguém. A não ser aqueles que defendem cumprir a "fase transformacional" estirados (e esturrados, passe a expressão) nas praias de Quebra Canela, Laginha ou Santa Maria, às 3H00 da tarde. Mas, enfim, fico pelo descaso daquele que jura poupar a Res Pública ter os funcionários em casa, longe do telefone, do ar condicionado, da água mineral, da luz e da água, da tinta e do papel do Estado de Cabo Verde. Quem sabe…

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Comme Si De Rien N'Etait



No intervalo de trabalho, escuto o último disco de Carla Bruni, Comme Si De Rien N'Etait. Trata-se de uma esteta. Quando desfilava como modelo já o era. Quando posou nua para o fotógrafo Michel Compte, em referência ao belíssimo quadro Les Poseuses, de George Seurat, estava tudo dito. Agora, na música, compondo e cantando (na voz de Mayra Andrade, diz-me alguém) com raro bom-gosto. Irreverente, culta e coerente, Carla Bruni me encanta...Comme Si De Rien N'Etait.


Hometown


Enquanto não nos assumirmos antropofágicos. Ou antropófagos, como queiram. Enquanto a inércia nos impede esse lado canibal. Sou Hanibal, diria, tudo que esta cidade nos merece. E nos impende: “é pá, tá quieto, que os dados estão lançados”. Podem aviltá-la. Violá-la e estripá-la. Podem até enterrá-la viva. Torne-se ela vosso escárnio, meus algozes e detractores. Silenciem-na. Qualifiquem seus filhos com os piores adjectivos do léxico. Ilegalizem-nos o verbo e o gesto, o canto e a alma. Colonizem-na. Neocolonizem-na. Autocolonizem-na. Invadam-na aos poucos. Às vezes, com Cavalo de Tróia. Outras vezes, tirem o vosso cavalinho da chuva, nada de anestesias, meus imbecis. Instaurem a lei seca, a do Fim da História e a da Pena Capital. E contem em plena praça que esta paz é eterna. A tal bomba termonuclear para a Esplanada, porra. Acabem de vez com essa cor azul de camaleão. Aviltem-na com a pseudointelectualidade dos betinhos apressados, nesses bares merdosos, sem poetas que valham, nem metáforas que medram…

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Hiroshima


A bomba atómica sobre Hiroshima foi prova maior da vileza e da desumanidade. Foi há 62 anos. Mas a reabilitação desta cidade denota a genialidade humana. Homem, esse Desconhecido!

Ressaca do Silêncio

A noite foi feita para comer (isto é, para amar de forma carnívora, lentamente canibal, no calibre da loucura):
Uma lua vermelha – clítoris da felicidade

A leveza da escuridão – sombras do prazer esvaídas no repentino faiscar da navalha e do insulto

A longa espera das virgens – explodindo orgasmos tingidos de dor

A incrível alegria das putas – livres na penumbra da dança em exuberante apoteose do cio
e do aturdido rodopiar do eros

O amanhecer dos burocratas - com o sol na patética e ciclotímica rotação da rotina

A ressaca do silêncio – tardia luminosidade do dia entrando abruptamente pela fenda do êxtase
e da remordida memória das trevas

(Parêntese aposto para o apaziguamento dos defensores da represtinação do atentado ao pudor e de outros crimes contra a moral, a religião e os bons costumes: os abstémios são geralmente execrados
e os sóbrios, ostracizados e impiedosamente trucidados pela ironia, confinam-se usualmente
ao implacável crepitar do pudor do remorso e da assassina memória das loucuras não consumadas)

Lisboa, 2003/Julho de2008
(versão refundida do poema homónimo constante do livro À Sombra do Sol, volume II, Praia, 1990)


José Luis Hopffer Almada

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Um mar que inexiste


Relâmpagos em Braga

Aqui não há mar, só há cão. Lá estás tu, meu Poeta, a pensar que as crianças, com mães pelos braços, são autênticos relâmpagos. Entrementes, Louis Armstrong, mais conhecido por Big Louis, o buldogue na esquina, começa a latir, mas depois pára e instala-se uma espécie de silêncio. Já nada sobra do seu vozeirão. Apenas o barulho espraiado de um mar que inexiste…

Uma questão de beleza

Termino de ler, às tantas pela madrugada, “Uma Questão de Beleza”, de Zadie Smith. Não tanto pela narrativa, que é bem composta e fluida, mas, sobretudo, pelos retratos (de Cambridge, Boston e arredores), que me são familiares, gostei do romance. Comprei o livro, na Byblio, em Lisboa, para oferecer e levei-o a Braga. Li-o, a cuidados, mas com sofreguidão. O Outono em Nova Inglaterra. Fall...

O stopover no Porto

Dizes-me que os gregos antigos assistiam a um teatro de máscaras (o dos “hupókrates”, de onde derivariam “hipócritas” destes dias) e que os actores, assim protegidos, estavam livres para dizer o indizível.

Lisbon Blues

O meu amigo Marc pega no contrabaixo e toca-me, em primeira mão, uma composição inédita. Lisbon Blues é o nome da canção. E tu danças, ágil e graciosa, como a borboleta que bate as asas na China…

Budas Ditosos

Leio o que diz Rui Knopfli, sobre Jorge Amado. Irascível, Knopfli diz que o baiano é um péssimo escritor e um aldabrão de feira. Em verdade, esse escritor moçambicano acaba de proferir mais uma asneira grossa. A blasfémia, mais do que a luxúria, deveria ser catalogada na lista dos Sete Pecados (se não Capitais, seguramente artísticos). Falando nisso, outro baiano, João Ubaldo Rodrigues, autor de "A Casa dos Budas Ditosos", ganha (com toda a justiça, diga-se) o Prémio Camões 2008…

Singapore’s Divide

Antes de “descer” de Braga a Lisboa, vejo, pela estação televisiva Al Jazeera, uma excelente reportagem sobre o incremento da pobreza em Singapura e o da riqueza em Angola. À primeira, espantam as duas novas realidades. Mas, à segunda, não se justifica que os espantos sejam espasmos, convenhamos…

sábado, 26 de julho de 2008

Chinua Achebe, Wine O'Clock & livraria Nho Eugénio


1.
Graças ao meu amigo Sílvio Baptista (o tal de Fala Coração, da CV Móvel, já viram) conheci a livraria Byblio, em Lisboa. Dei de caras ao dístico de Jorge Luis Borges que, em Torre de Babel, definia a biblioteca como uma espécie de Paraíso. Orgulhoso, lembro ao Sílvio que sou bibliotecário, com especialidade em ciência de informação. A administração, que se pretende pós graduação, é apenas uma prótese. Sou um homem dos livros. De os ler, de os escrever e de os manusear “com amor táctil”, no dizer de Caetano Veloso. Para além de Uma Questão de Beleza, a que me irei referir na postagem próxima, também compro o romance Quando Tudo se Desmorona, de Chinua Achebe, e Prosa Completa, de Woody Allen. Este último ainda não li. Guardo-o para este fim-de-semana, como um gourmet em estado de guloso…
2.
Quanto ao Quando Tudo se Desmorona, terá sido Nelson Mandela (o Divino Mandela) a dizer isto: “Na sua companhia, os muros da prisão caiam”. Ele referia-se também a Chinua Achebe. Tive a ventura de ter lido quase todos os livros desse nigeriano, brilhante contador de histórias, menos Quando Tudo se Desmorona. Li-o agora. Fez-me sair da platónica caverna, onde a luz é rara e os deuses são de esquina. Ele rendilha o romance com luz própria, de um telúrico incomum. Universal por ser autêntico. Profundo por ser ele…despeitadamente. Quando Tudo se Desmorona, é uma verdadeira incomodidade para uma certa intelectualidade que se masturba em torno da vitimização e da folclorização.
3.
Defronte à livraria Byblio, uma casa de vinhos interessante. A gerir os clientes, como uma cicerone graciosa e competente uma bela romena. Ela parecia saber tudo dos vinhos. E da beleza. Wine O’Clock…só poderia!
4.
Inaugura-se, na Achada de Santo António, uma livraria chamada Nho Eugénio. Abrir uma livraria na cidade da Praia, mais que evento, é uma ousadia cultural. Dou as boas-vindas aos promotores, com promessas de cliente assíduo. É uma espécie de Paraíso…

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Man in the mirror

I'm starting with the man in the mirror
I'm asking him to change his ways
Micheal Jackson. Man in the Mirror
Não tomei tento à fase da lua, mas hoje estou “estranho”. Acho que é do tempo da chuva. Quando amanhece em neblina, fico mais oblíquo. Desvio-me do quotidiano. Só regresso para dar pequeno-almoço aos meus filhos. Estes são a minha realidade. Ultimamente, devido ao enorme espelho do meu quarto, olho-me muito e mais demoradamente. Vejo-me reflectido e invade-me uma sensação nova, que não a da egolatria. Ou é o reflectido que olha para mim? Não interessa. Tal como em certa matemática, a inversão não altera a ordem dos factores. Ou altera? Tanto faz. O reflexo mexe comigo e resplandece a minha solidão existencial. Ó cambada, ó turbilhão de gente, estou só, irremediavelmente só, ouviram? Estar só é poder andar de tapete voador sobre os labregos, sobre o Café Sofia e topar que a barulheira da cidade não passa de um silêncio ulterior. Ou, tal qual aquele invisível, de Os Dados Estão Lançados, de Jean-Paul Sartre, em que o protagonista gritava, gesticulava e suplicava, sem que ninguém lhe desse a mínima. Nem com GPS, se chega a Xangai. Nem à boleia do Autocarro # 20. Olho, pela CNN, a preparação dos Jogos Olímpicos de Pequim. Qualquer dia, peço ao pessoal do Tribunal Internacional que formule um mandato contra a vizinhança que joga o lixo fora dos contentores. Não me refiro à Sérvia. Tão pouco é piada sobre Guantanamo. Em Safende e arredores, a situação interpela aos senhores dos Direitos Humanos. Mas falava do meu espelho. Olho-me e estou biodegradável. Este gajo não é um filet-mignon, caramba. Mário Fonseca, poeta desta minha cidade, escrevera nuns versos que “viver/ devia ser/ até 20”. É o mais existencial dos poemas de Mário Fonseca. Ontem, sonhei com a tal bomba termonuclear, que já não poderá a acabar com a Esplanada da Praça Alexandre Albuquerque. Esta foi destruída pela incompetência municipal, frustrando qualquer intenção poético-terrorista. Faz neblina e Nero teve as suas razões para incendiar Roma. Estou “estranho”. Apagão da Electra, falta de água, mosquitos por todo o lado, cheiro à merda depois da chuva de ontem, o ignorante sindicalista na TCV, os parasitas e os oportunistas, os taxistas e os hiacistas, e esse energúmeno a jurar que é Verão…isso tudo só poderá ser uma brincadeira de mau gosto. Got you, baby. Mas, como todos, dou gargalhadas. Palmas que esta peça há-de entrar na próxima estação teatral do Mindelact. Estamos ainda a tempo de apresentar O Espelho, ó João? Parece que é neblina no universo inteiro. Como todos, sei que metade não amou hoje. Como todos, só 10% faz realmente amor e um ½ desse contingente acredita nos nossos deuses de esquina. Como todos, caminho para o crepúsculo. Com hora marcada para apagar…

Sinal di Tenpu

(pa louva Dr. Azágua i se puema “TENPU”)
//
Sin!
Txeu tenpu pasa
sen sinal di tenpu
rabiskadu pa nho
al ser falta di tenpu
//
Xo, tenpu bidjaku!
Dexa-l ku tenpu
pa el ten tenpu
brinka ku tenpu
nina-nu kurason
dentu tenpu
//
Si falta-nho tenpu
skrebe-m na tenpu
N kunpra-nho tenpu
la fin di tenpu
//
Aian!
Tenpu d’azagua
pa Dr. Azágua
tenpu e poku
- linpa lugar na tenpu
simia dentu tenpu
ka monda fora tenpu
nen ramonda antis tenpu
ki fari korta dipos tenpu
tudu na se tenpu sertu!
//
Anpugo!
Diskulpa-m
dexa-m sumara tenpu
tenpu dja muda
sinal tenpu-l txuba
N ka tene mas tenpu
labilabi na tenpu
konbersu sabi
ladron di tenpu
txiga tenpu d’azagua!
//
Dipos d’azagua
Dr. Azágua
na son d’agua
midju na bidon
na poial di tenpu
nu ta papia di tenpu
sen tenpu kaba
nos e mondon di tenpu!
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Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera
(dentu Bersu Kabuverdianidadi, 20Junhu2008)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Caleidoscópio





Ergo-me cedo para a azáfama do dia. Rápida ginástica, enquanto o conjunto Ferro Gaita comemora 12 anos de vida, a ver também se me aqueço para a jornada. Ouço a rádio e nenhum barco de refugiados deu hoje à Costa. São os lançados inversos. Só que nós damos as boas-vindas com maus tratos e racismo. Com falácias mascaradas de Direitos Humanos. A ver se agradamos aos nossos patrões. Eu também vi (e não gostei) da posição do Ministro da Cultura de Portugal – entrevista à RTP - de que Cabo Verde (e não o Brasil) teria o grande papel de expandir a língua portuguesa. O Brasil (deixemo-nos de tretas) tem o maior e o melhor factor da lusofonia. Em quase tudo. Ademais, quando a esmola é muita, o pobre sempre desconfia. Há dias, dois miúdos estavam a discutir a importância de 5 de Julho e de 13 de Janeiro. Obviamente que não entrei na porfia, tão bizantinos eram seus argumentos. Quis declamar-lhes uns versos do meu falecido amigo Fernando Assis Pacheco. No “Último Tesão”, às tantas, o poeta sentenciava: “O país mete dó// guarda o último tesão/ para mandares/ meia dúzia de canalhas à tábua”. Os miúdos, filhotes de uma grande indigestão, começam ali a mandar vir. Ricos e pobres do Brasil, de Portugal, de Cabo Verde e do Mundo, roguem pelo discurso mais contrito dos vossos deuses. Não sabeis que, nesta fétida cloaca, o silêncio é de ouro? Vi o show de Isa Pereira que amei pelo “bom gosto”. Ouvi o álbum de Hernani Almeida e rendi-me ao instrumental cabo-verdiano. O álbum de Princesito está cinco estrelas e as fotografias de Kizó Oliveira têm arte. E, sem alarde, saio pelos textos para tomar ar fresco. Dos blogs, naturalmente. Ó rapazinho, ou estás quieto ou a gente te mostra o que é irreverência! Irrequieto, era João Bentes com os seus versos: “Democratos cabeçudos/ fodam-se na urna/ atem-se à bandeira/ enforquem-se nela/ lambam tudo o que conseguirem/ chupem chupem chupem/ engulam até arrebentar/ e no fim peçam a reforma/ como cidadãos da boa raça.” Ou Caetano Veloso, uma vez, farto dos miúdos revolucionários a patrulharem sua música, disse-lhes: “Quereis matar amanhã o velhote que eu matei ontem”, no que os fedelhos se entreolharam e se quedaram, quietinhos, a ouvir “Tigressa”, melodia melhor que certas causas da azáfama do dia…

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sem Cinema

Charlie Chaplin e Albert Einstein durante a estreia do filme «Luzes da Cidade» de Chaplin em 1931




Estado da Nação


O director do jornal A Nação quis que eu escrevesse algo sobre o Estado da Nação. Cronista soooooofre! Ainda fiz um exercício para ver o que está bem e o que está mal nestas Ilhas Afortunadas, mas acabei por concluir que não estou inspirado para tanto. Aliás, faltam-me engenho e arte, bem como esse apanágio que se espera dos políticos. Para mim, a Nação está de boa saúde, mas precisava de melhor score em termos de qualidade de vida e bem-estar social. Um Ambiente mais cuidado. Uma Cultura, digamos, mais solta e fluida no mundo. O grande mercado é o mundo e há que ser competitivo para o mercado global. Basta de sermos transformacionais. A travessia acabou. Não sei se isto entra na pauta, mas não vale mais continuarmos a Nação do Estado. Deixo o busílis da questão para quem de direito. Evada-se quem puder…


Feira de Artesanato


Passo pela Biblioteca Nacional para assistir à 12ª Feira de Artesanato, organizada pela Associação Zé Moniz (AZM). É das coisas boas que se fazem por cá. Soube que, este ano, mau grado as dificuldades financeiras, 85 mesas de trabalho foram expostas. Eis uma iniciativa que importa apoiar e promover pelos governantes, pela classe empresarial e pela sociedade civil. Pelo Estado da Nação, ora. Dar vez e voz aos artesãos cabo-verdianos. Cultura, turismo, associativismo e empreendedorismo, tudo…de mãos dadas. Sugestão: afiliar a Feira de Artesanato da AZM ao Slow Food, uma associação internacional que articula o prazer e a alimentação com consciência e responsabilidade, reconhecendo as fortes conexões entre a comida, o ambiente, a cultura e o planeta…


Eugénio Tavares


Das figuras cabo-verdianas, duas suscitam-me interesse especial: Amílcar Cabral e Eugénio Tavares. Contrariamente ao Fundador da Nacionalidade, muitos não sabem sequer do mistério em torno de Eugénio Tavares, figura maior da cultura cabo-verdiana. Em verdade, o homem não nascera nestas ilhas, mas sim em Espanha, mais precisamente na Galícia. Para alguma gente, o bebé galego fora resgatada no mar, na sequência de um naufrágio ao largo da Ilha da Brava. O navio malogrado seria Guadalupe IV, que seguia da Espanha para a Argentina e o Uruguai. Mistérios por desvendar, se não enigmas por decifrar, creio que Cabo Verde precisa saber mais a fundo sobre o seu poeta, prosador, compositor e polemista Eugénio Tavares, além de Patrono da Cultura Cabo-verdiana. Alinhem-se também nesta viagem…


Cinema na minha cidade


De repente, a minha cidade não tem cinema. Naturalmente que a moda agora é televisão e DVD. Mas não faz sentido ver Senhor dos Anéis em casa. Ficará a faltar o escuro colectivo, a imagem em ecrã gigante e o som condicionado. Cinema é outra coisa. Cinema Paradiso. Cidade sem cinema é igreja sem campanário, fica aquém da expectativa. Na minha adolescência, se calhar com metade da população, tínhamos dois cinemas a funcionar: o Cine Teatro Municipal e o Cinema do Bairro Kwame Nkrumah (hoje, Craveiro Lopes), mais conhecido por Sibéria. Era época também do Cine Clube da Praia: A Confissão, O Cidadão Kane, O Couraçado Potenkine, Luzes da Cidade; Marcelo Mastroianni exalando-se nos filmes de Frederico Fellini, Brigite Bardot e Sophia Loren, para além de talento, mostravam que Deus criara a mulher. Por favor, cinema, CINEMA, na minha cidade…


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Breve Programa Para Uma Iniciação Ao Canto




“Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me”
Ruy Belo

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Julho a meio


Leituras

Dos que tive de ler, só consigo reler “Chuva Braba”, de Manuel Lopes. Depois que um oftalmologista e um oculista (ambos de Lisboa) me obrigaram a óculos, fiquei mais limitado. Mais selectivo também. Poemas, quero-os declamados. Mesmo assim os de Arménio Vieira e João Vário. JLT é também um grande inquieto. VV, JCF e MF têm versos conseguidos. Poeta era João Cabral de Melo Neto. Sim, estou maluco, mas ainda não tenho o veredicto da vilania psiquiátrica. Eu não consigo gostar de José Saramago, por exemplo. Adorei Memorial do Convento e, não consegui ver rasgo de arte e de inteligência noutra escrita desse Nobel. Prefiro Lobo Antunes, deplorando nele sua indexada existência a Saramago. Ou, então, Ruben Fonseca, Gabriel Garcia Marquez e Fernando Pessoa. Misturo tudo e todos, ó Zé Cunha. Em verdade, prefiro mil vezes comer pão saloio com morcela, se o tinto é de boa reserva e se a companhia desafia as leis de Éden. Refiro-me ao Jardim de, naturalmente…

As razões do George W.

Lembram-se de Nené Prancha, para quem penalty futebolístio era uma pena tão gravosa que deveria ser batida pelo Presidente da República? Pranchinha era um abusado da primeira água. Quando partiam as tropas americanas para a invasão do Iraque, ele dedicou uns versos (felizmente maus) a um jovem cabo-verdiano que, incauto e alienado, acreditava ainda nas razões do George W. Prancinha mandava farpas nestes termos: “Escuridão e silêncio/ deserto, zoon que nunca mais acaba/ tu, que já viste Madonna em Times Square/ e que pensas o mundo como um grande videogame/ nessa infinda guerra petrolífera, grande sacana/ mais um pé em falso e estás fodido”…

Regressistas

Creio ter sido de José Mário Branco a frase “e se inventássemos partir para regressar”. Hei-de perguntar isso ao João Branco que, para além de fazer teatro e declamar versos, tem o Blog Café Margoso. Entrementes, estarei certo ter sido Eugénio Tavares, esse galego que chegou a Cabo Verde no naufrágio do navio Guadalupe IV, a sentença: “si ka badu, ka ta biradu”.

Banho de lua

Parto do princípio que a lua não anda apenas atrás de Mano Preto e dos Raiz di Polon. Deve também seguir o rastro de Princesito, com Spiga, e de Mário Lúcio, com Badyo, caramba. É bem possível que, branca e cheia, siga ainda Hernani Almeida, em Afronamim, e que, minguante e, sobretudo, prateada, ande pela sombra de Isa Pereira. Vejam, meus amigos, esse luar sobre o dueto de Teté Alhinho e Sara Alhinho! Mãe e filha. A lua tem cada uma…

Frases dos outros (de Julho a meio)

Não volta haver amor como o primeiro. Ah, kanadja…
Amor é no devagarinho. Lebi na petu. Bedjiça...
O aeroporto na Praia ainda não é o Aeroporto da Praia…
A literatura pessoana é a melhor literatura da lusofonia. É só conferir…
Pior de Pessoa: Tudo vale a pena. Blá, blá, blá…
A cultura fez mais do que qualquer governo. Por isso, esta cepa torta…

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Some rest

Some rest

Quando estou cansado – de trabalho, pois nesta casa trabalha-se -, leio um livro, ando à beira-mar ou preparo um prato. Todos os meus amigos (e os meus inimigos também) sabem que adoro cozinhar. Aliás, há coisas que me dão muito prazer: viajar, escrever e cozinhar. E cuidar das crianças – ensinar, dialogar e brincar com elas. Passar horas esquecidas com os jovens igualmente. Quando estou cansado, ouço música, boa música, diga-se de passagem. Estiro-me na cama e passo em revista Mozart, Jobim e Davis. Folheio um livro de mesa e aprendo um pouco mais sobre as artes plásticas. Miró, por exemplo, acompanhem-no. Cansados ou não. Vou à cozinha (close-up na foto, pleaaaaaaaase) e preparo um bife de atum à minha moda. A que se guarnece com muito coentro, alho à descrição, tomatinhos e rosmaninhos. Saad Kacem, meu confrade de Koutubia, provou-o e disse que era…um poema!

Play Station, ^&*#@*& e etc

Muitas vezes, neste Blog, encontras-me outro. Será? Deve ser da quarta-feira. Reconheces-me pelo toutiço. Continuo bochechudo. I don’t care. De repente, aparece-me um homem maluco de espada na mão e corre atrás de mim pelos bairros castiços de Casablanca. Parece até um filme americano, desses maus, com muita correria e actores medíocres, alguns prováveis Governadores da Califórnia. Mas nesse sonho (ou seria pesadelo?) eu corro, tantas eram as plantas do Parcours, outras tantas eram as alamedas de um lugar parecido a Providence, R.I.. Roger Williams Park, onde morei por algum tempo. Vejo um polícia e ^&*#@*&, raios e coriscos. Dou de caras com um gangster e *&^%$#, chicra. Salto uma ribanceira e, num tapete voador, sobrevoo Nova Iorque (Oh, Sara, olha o Finfas aqui, ó!), ainda com as torres gémeas. Muitas vezes, estou outro. Tipo caricatura de Obama & Patroa em The New Yorker, a revista menos FDP da Grande Maçã. Não sei se sonho ou se, por lapso, entro no jogo do Play Station…deve ser desse tecno-funk que não ajuda!

Last call

Ainda não foi desta. Direi que o amanhecer aconteceu sem neblina. E a faca de cortar o pulso estava cega, mouca e imprestável. Fosse uma morte despretensiosa, apenas minimamente mediática. Uma morte de fim-de-semana, sem pachorra. Mas o suicídio – o acto em si, diga-se -, esse teria de ser com pompa e circunstância. Com frisson. Já leram “A Faca”, de Jorge Luís Borges? A faca tem função existencial. Sem dialéctica’, nem semântica que se lhe notem. Por ora, o Albatrozberdiano – não pela “súplica” da Sara, minha amiga, nem pelo “conselho” do Djinho, sempre atento, mas pelo medo do Além e do Aquém – continuará entre os vivos, aguardando, como os ratos, os percevejos, as pulguinhas e os porcos mais iguais que os outros animais, a sua Última Morada. Ou tão simplesmente a prometida manhã de neblina…

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ich Ruhmer

Não poucas vezes, aliás muitas vezes, tomo a decisão de acabar com o Albatrozberdiano. Invade-me a dúvida sobre o porquê e o para quê destas postagens. Questiono-me sobre a escrita blogueira, seus ganhos e suas perdas. Acto demiurgo ou quase divino? Alguma enigmática procedência? Ou a mesmíssima chiça de estarmos a pastar entre porcos triunfantes? Questiono a existência de Deus, do demónio e do domínio. Diante da relojoaria existencial, as nossas horas estarão marcadas? Quem é o genitor desta merda? Se calhar, estou doido varrido e o pessoal ainda não sabe. Arre que já somos tantos no sadomasoquismo da Blogsfera. Pura afasia. Qualquer dia (terá de ser numa manhã de neblina), corto o pulso ao Albatrozberdiano e deixo sangrar este Blog. Para que tenha uma morte exangue e lívida. Sem eternidade...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Rade

Plúmbeo céu
Cinza e cor de lago
Dos teus olhos…

Espelho que reflecte
Senão a luz negra das horas
As brancas sombras dos lugares…

Cisnes e gansos
O vaivém dos barcos nas hordas
Estátua magenta - sejas tu…