sexta-feira, 11 de maio de 2007
Tatarana
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Liberou geral
Cidade Velha – Património Universal
in: Cidade Velha – Património Universal
Vega´s on ice

Vampirizado
Completamente vampirizado, hoje não saio de casa. Respondo a uma dúzia de emails. Dou comigo na MSN a contar da entrega do relatório escolar e da conferência de ontem, na Academia de Letras e Artes do Nordeste. Preparo uma salada de alface, tomate, passas e atum de Cabo Verde, ao molho de bechamel. Ponho um litro de água de coco no congelador e ponho-me a ouvir Suzanne Vega. Vou aos Meus Documentos, do PC, e blogo um poema antigo, As retocadas fotos de Malraux –1.
Feliz Aniversário
O meu pai faz anos, amanhã. Com a perda irreparável da minha mãe, apercebi-me que nunca devemos adiar os abraços, afagos e outros mimos merecidos. Os dias passaram a custar mais, muito mais…
Diluiu-se coisa alguma
Afinal os intelectuais cabo-verdianos não conseguem radicalizar o discurso, quanto mais o pensamento. Incapazes de reformular paradigmas, estes mantêm-se lineares e maniqueístas. Estou absolutamente perplexo com os escritos de Humberto Cardoso, político relativamente esclarecido. O que ele afirma como “Diluiu-se Baltasar”, não passa de desmistificação da história. É que tudo estava montado falaciosamente, a contar a História com vozes viciadas. Com devido respeito, falaciosa é a frase de que a independência literária nasce com a Claridade. Por mais que se tente contextualizar o dito e por mais respeito que se guarde ao feito desse Movimento…
Pininha, o reizinho do escárnio
Leio também um texto de Casimiro de Pina, no Liberal Online. O amigo insulta, forte e feio, meio mundo. Se calhar nunca soube a sábia frase de Pedro Mexia de que um insulto custa um bocado. Dez insultos custam mais um bocado. Cem insultos não custam nada…
O Estrangeiro
Saio à janela e vejo a multidão na Praia do Meireles. Muito calor. Só tenho medo de não me tornar Mersault…
As fotos retocadas de Malraux - I

Retiraram-me o cigarro ao portait de Camus
E Madalena não me está, à Última Ceia,
Mas o raio do sol já, louco, se me desponta...
Olho para as coisas da sala e as molduras
Nem trazem esse sorriso, com que outrora,
Em radiante estação das rosas, eu encantava
O teu palpitante coração no lado de cá…
Que saudades levarei de molduras sem mim,
Se antes, e com muito ardor e gozo, nelas tive
Tantas venturas de fruta, broa e vinho…
Se, vezes sem conta, me perdi em labirintos
De melodias do teu corpo e me achei, de esteio,
Assim apartado, o raio do sol das alvoradas?
terça-feira, 8 de maio de 2007
9 de Maio de 2007

Encontro marcado com o meu orientador para a entrega do relatório sobre a evolução do trabalho científico - o que terei feito em Maio? -, sobre “As relações Cabo Verde – Ceará”, tese escolhida para dar corpo a um Mestrado de Administração de Empresas. O capítulo sobre o Comércio Informal, o sector afinal mais dinâmico destas relações, tem informações surpreendentes. Os “Rabidantes” fazem circular 15 milhões de dólares americanos em volume de negócios, em 2008, contra 7 milhões de dólares americanos, do sector formal, no mesmo período. Os dados falam por si…
TV UNIFOR
Ficou para as 15H30, a entrevista à TV UNIFOR, sobre os intercâmbios universitários. Serei abordado sobre as relações com Cabo Verde, a incidir no processo selectivo da UNIFOR, em Cabo Verde. Falando nisso, a UNIFOR estará a fazer o Vestibular para o próximo semestre, na cidade da Praia, a 8 de Julho de 2007. São 175 vagas abertas. É aproveitar a oportunidade, minha gente…
Academia Cearense de Letras
A fechar o dia, faço uma conferência sobre o modernismo na literatura cabo-verdiana, na Academia Cearense de Letras, a mais secular do Brasil. Ocasião para ver bons amigos que, apesar de “imortais”, apreciam caudalosas cavaqueiras. Ademais, o frescor do Ideal Clube presta-se a isso. Intenso convívio cultural. Às vezes, falta à cidade da Praia…
Bordel hermético
Não me imaginaria em pândega hasta las ocho. Nem me queria à bífida língua de pseudo-intelectuais. Muito menos a galgar madrugadas com pacóvios e toupeiras. Era outra a imagem que fazia, sobretudo a que queria. Freud explica. A poesia morreu, num ano em que o melhor de mim também acabou. Dream is over. Por culpa minha, quem sabe…
Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
Oswald de Andrade
Mores mimos
circum-lóquio
1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha
2.
o neoliberal neolibera o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?
3.
no céu neondo neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não- neoliberado
come pão com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidro
banheira cor
de âmbar
de sua neo-mansão em miami
4.
o centro e a direita
(des)
conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números
5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
de
de que circule
auto
regulante
o necessário
plus
valioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempre
mente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.
6.
(a
contra
mundo
o mundo-não-mundo cão-dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenoscidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)
7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blaudurando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitase estas sobre uma lata
de lixo)
Haroldo de Campos
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Praia, de madrugada
Praia, de madrugada, coando luz
E Madragoa, barras de amor,
A Voz da América, sacos de haxixe,
No giro nocturno da baía…
Híbridas mulheres, carros de luxo,
Cães vadios, pedintes, noctívagos,
A brisa bole, em jeito de pipa, és tu,
A capa avulsa de um Paris Match…
Também parecida contigo a noite,
O que sobra de haver constelação,
Para que a insónia se apazigúe…
Outra musa, nem por isso igual a ti,
A nua, de nudez assaz desvalida,
De como vai em lua, a tua máscara…
Filinto Elísio
Encontro
Soube que jamais virias ao nosso encontro,
Vaticínios e planos, a traça nos guardanapos,
Taças manchadas de vinho, côdeas de broa,
Rendez-vous, se desenhado, como desejado…
Virias, com os teus labirintos acesos, abismos
De queda demorada, vazios silenciosos, tomados
De tudo, pequenos ruídos, de atómicos rangeres,
Graves, aves, brisas, no hiato em que te revelarias…
Mãos de afagar, em melodia, trarias ao encontro,
O charco quente e o aconchego dos teus olhares,
A sina descrita, porem cifrada, das minhas viagens…
De tudo que ficou adiado – metáforas, sobretudo –,
Deixarei resguardar em suas loucas margens,
O mel da tua saudade, essa coisa toda liquefeita…
Filinto Elísio
domingo, 6 de maio de 2007
Dos meus confrades - alguns excertos
Excerto de crítica literária do amigo Carlos Augusto Viana
(…) Em todas as épocas, as narrativas lendárias, alicerçadas em mitos, sempre exerceram um grande fascínio, uma vez que os homens buscam, de certa forma, encontrar no mito uma fonte de inspiração, quer para a criação de obras, quer para a compreensão do mundo e das coisas. O mito, como todo símbolo, é ambíguo. Assim, tanto se refere ao verdadeiro quanto ao falso, pois palmilha tanto os caminhos da fantasia quanto os da realidade. (…)
Trombeta Envergonhada, de Haim Nahman Bialik
Vládia Mourão e a Escritura do Tempo
(…) Bem diverso do tempo objectivo, que a todos interessa de forma plural e indiscriminada, existe o tempo subjectivo que se aloja na base do espírito e que fascina, essencialmente, a todos os artistas e especialmente aos escritores de maior expressão e tirocínio. Se tomarmos o tempo do delírio imaginativo dos dois principais personagens do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, ou se apelarmos para o tempo circular que movimenta o fluxo da consciência (e da linguagem) de Leopoldo Blom, o célebre personagem de Ulisses, monumento supremo da literatura de Joyce, podemos observar o quanto o tempo, em sua dimensão subjectiva, é um aliado forte de todos os escritores engenhosos. (…)
Escritura do Tempo no Conto de Samuel Rawet, de Vládia Mourão
O que a eternidade ora me concede
Grutas, lapas e concavidades, esse escuro,
Esse estágio de contra-luz, lábios & gretas,
Presságios, loucuras, tantas elucubrações,
Excertos de nada, de tudo e de todos, em mim…
Lagos, lagoas e águas, barcos pelos espelhos,
Meus labirintos e rincões, recifes e outros mares,
As espumas que chalaçam natais, os reveillons
Do tremeluzir das velas frágeis – frias e frágeis…
Estatuas que não contam palavras e beijos,
Nem dizem ao crepúsculo vasto e violeta, o sol
A ser ali solfejo, aqui regaço, em todo o momento …
E o mais é molhares-me desse viscoso, o sereno
Serpentear das coisas em denodo, seres tu,
Fêmea fugaz, que a eternidade ora me concede…
sábado, 5 de maio de 2007
Comentários

sexta-feira, 4 de maio de 2007
Periódicos

Revistas
The New Yorker
Caros Amigos
Revista Colóquio Letras
Magazine Littéraire
Time Magazine
Jornais
Le Monde
El Pays
Folha de São Paulo
The New York Times
The Guardian
Super interessante – Diário do Nordeste – edição de Domingo.
Leituras implacáveis

Ficções, de Jorge Luís Borges
Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir
Os Búfalos do Campanário, de Audifax Rios
Bónus track – A Viúva Virgem, de António Ludgero Correia
Bienvenue au Salon du livre 2007

Lever de rideau sur Fernand Léger
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Hôte d'honneur
La Russie
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Expositions spéciales —>
Nicolas Bouvier, de l’Afghanistan au Japon
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Hergé, à l’occasion du centenaire de sa naissance
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Alice aux pays des merveilles
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Cahiers dessinés de Buchet-Chastel
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L’affiche polonaise
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Marionnettes, Frédérique Santal
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Habiter la lecture
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Swiss Press Photo 2006
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Espace voyages culturels
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Evénements et animations —>
Slam Poésie
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Espace Poésie
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Cercle de la Librairie et de l’Edition Genève
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La Passerelle des mots
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La Chasse au trésor
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L'action Don du livre
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La Bataille des livres
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Chouette espace – Le P’tit littéraire
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Le Village alternatif
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ADM, Atelier des médias
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CAC Voltaire
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Prix des auditeurs RSR
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Prix TSR
(plus…—>)
Prix Chronos
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Prix Enfantaisie
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Prix FNAC
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Lire et faire lire
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Championnat suisse d’orthographe
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Halte-garderie
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Débats, conférences, lecture(s) sur la scène du Café littéraire
Innombrables signatures et dédicaces
4e Salon africain du livre, de la presse et de la culture —>
Les salons parallèles
Japan Manga Festival
Salon de l'étudiantSwissUp! L’Hebdo
Europ’ARTFoire internationale d’art
Os bens dos naufragantes

O avião da TACV fazia a aproximação para o Aeroporto Internacional Pinto Martins e, da escotilha, eu perscrutava a luzes da cidade. Fortaleza, a Bela. Há quase um mês fora de casa, sinto falta do meu travesseiro, do meu computador, da minha janela em 10º andar e dos transeuntes pela Avenida Beira-Mar. Sinto falta de mim, em Fortaleza. Do frenesim académico, das tertúlias no Clube do Bode e da minha solidão reconfortante…O poeta está na encruzilhada existencial. De um lado, intenso e produtivo. Doutro lado, apático e triste. Como se tivessem jogado uma névoa na sua vista ou deixasse entrar frieira no coração. Bato com a mão na madeira, mas o agoiro é mau - esse veículo negro a rodar pelas madrugadas, para a pândega dos seus detractores. Estes, campeões da vilania, incapazes de glória e graça. E declamam, vociferantes adorações, os cáusticos versos de Arménio Vieira. Helena, minha cabra e etc…
Os bens dos naufragantes
Ao sair do avião, lá estás tu a pensar em mim. Telepatia, Panterinha. Com muito prudente zelo, como diria Padre António Vieira. Ter-te-ei decepcionado às vezes. Mas julgo ter-te encantado mais vezes. A preposição de fé e de amor que me dedicas. Semeadora que deitas ao meu coração o trigo das paixões. E no pretório de Pilatos, afastas de mim o cálice envenenado. O quanto te devo por estes bens dos naufragantes…
Em Cabo Verde
Fiz de tudo, um pouco. Participei do Simpósio sobre o 1º Centenário da Geração do Movimento Claridoso. Abordei nessa jornada os aspectos dialécticos no Modernismo Cabo-verdiano – o papel de Jaime de Figueiredo. Afigurei-me, mais do que nunca, não claridoso, capaz de reconhecer, entretanto, o papel importante desse Movimento. Tanto que sou consultor de um programa televisivo – Claridade Incandescente, de Margarida Fontes, produzido pela TCV. Pude também acompanhar a evolução do Monumento ao Emigrante, de que sou co-autor, com Carlos Hamelberg. E, no próximo dia 17 de Maio, estaremos a inaugurá-lo, no quadro das celebrações do 149º Aniversário da Cidade da Praia. Nessa altura, apresentarei aos praienses o meu livro Das Frutas Serenadas - striptease poético. Escrevi, o quanto pude para as coisas em que acredito. Para as causas, que ainda tenho. E alguns bons momentos, que não transcendem…
Homem-Aranha, de negro
Pensando no meu kodé, Pablo, de 4 anos, e no meu primogénito, Denzel, de 15, aceitei o convite da minha amiga Mariam para a estreia do Homem-Aranha 3. Este filme marca o início da alta temporada dos filmes para as férias do meio do ano, disse-me ela. Mariam, para quem não sabe, é uma amiga de 18 anos, estudante de Direito na Universidade Federal do Ceará e poeta influenciada pela Geração Beat. Por conseguinte, ela gosta de quadradinhos, tatuagens, cartoons e comics – todo o grafismo que os nossos ideogramas exigem. De vez em quando, revisito a Mariam, porque é sempre coisa nova e refrescante. Boa amizade. Adianto que nunca fui um aficionado pelo alter-ego de Peter Parker – essa personagem aracnídea ou tão-só essa simbiose alienígena de repórter, o Homem-Aranha. Mas não é fácil recusar aos convites da Mariam. Além do mais, quero estar aggiornato com a linguagem dos meus filhos…E haja teia para o intelectual gostar de Homem-Aranha. Desta feita, de negro…
Jornal Horizonte
Gostei do post da minha amiga Kamia, no www.sopafla.blogspot.com, sobre o encerramento do Jornal Horizonte. Nada de dramas. Foi bom e eterno enquanto durou. O convívio foi demais, no limiar do horizonte das amizades e do respeito. Jamais censurou ninguém o editor desse Jornal que há de fazer falta a muitas vozes. Fiquemos ora pela cloaca fétida dos media partidarizados. As Margens chegaram ao fim. Ladeavam elas o vasto rio da liberdade…
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Kenyatta
Na fundu´l kadiâ
Kenyatta xintadu.
Kenyatta prezu;
Liberdade é pensamentu,
Terá é korason!
Na txada di Inglaterra,
Nha Rainha ta fazi festa,
Teremodi sabi ta matxika;
Manda é poderis,
Goberna é grandesa!
Fidju´l liberdadi,
Bu ta luta na bariga´l bu mai,
Bu frutxi-frutxi pa odja Mundu;
Ó ki bu sai
Lembra mal ki bu pasa:
Matxika branku, oru, rei, grandesa!
Na sangui, na duzusperu
- spada skontra spada,
Sangui skontra sangui:
Jomo Kenyatta – Liberdadi di Kénya!
Kaoberdiano Dambará
quarta-feira, 25 de abril de 2007
O Circo III
Há muitos anos, por altura da Expo Sevilla 92, escrevera uma crónica no Jornal A Semana, intitulada O Circo I. e, porque um governante deplorara o texto, fizera (bem de calote) a reprise com O Circo II. Agora, é O Circo III. Porque abro a Enciclopédia Cabo-verdiana (obra ainda por fazer) e imagino os grandes nomes – Eugénio Tavares, Luis Loff de Vasconcelos, Pedro Duarte Silva, Abílio Macedo, Baltazar Lopes da Silva, Jaime de Figueiredo, Jorge Barbosa, Amílcar Cabral, Manuel Lopes, Simão de Barros, Manuel Duarte, Abílio Duarte, António Carreira e Henrique Teixeira de Sousa, entre outros. Esta plêiade de imortais não excluirá os mais contemporâneos. A Cultura, felizmente, não é excludente e deverá ser perspectivada nessa dialéctica permanente entre a tradição e a inovação, no interseccionismo de matrizes, muitas vezes, ontológicas, retrospectivas e prospectivas…
Literatura 1
O melhor da literatura cabo-verdiana, com respeito pelo cronograma das coisas, é aqui e agora. Se estou a dizer uma heresia, peço desculpas e aguardo, humildemente, que me provem do contrário. A literatura, tal como a música, não parou no tempo. Ela continua dinâmica, viva e dengosa. Os escritores, de pés fincados na terra, querem hoje ter mãos soltas no mundo. Uma das grandes virtudes deste momento é podermos re-significar a teia da Cultura. Refazer caminhos, ousar novas e outras experiências, mantendo respeito pela espiral da História, conscientes de não termos sido (nem os outros foram) especialmente originais. O olhar na direcção do passado leva-nos a perceber o enorme legado dos Claridosos e a reconhecer que o conceito da Claridade (livre de preconceitos, mistificações e falsas supremacias) permanece até hoje como matriz e motriz da nossa contemporaneidade…
Literatura 2
Trouxe, para ler em Cabo Verde, O Caçador das Pipas, do afegão Khaled Hosseini. O último romance que me fizera vibrar assim: Diário de Mis Putas Tristes, de Gabriel Garcia Marquez. O pano de fundo é a sociedade hermética, aprisionada pela política e pela religião. As crianças caçam suas pipas coloridas, mesmo proibidas pelas ordens instituídas. O resto é as belas letras. Estas são um valor universal…
Claridade 1
Na Ribeira Brava, Ilha de São Nicolau, um evento muito bem organizado comemora o centenário de nascimento de Baltazar Lopes da Silva. Palmas para a Câmara Municipal da Ribeira Brava. Nho Baltas é um dos filhos mais ilustres de Cabo Verde e a modernidade da literatura cabo-verdiana deve-o muito. Professor de várias gerações, prosador, poeta e ensaísta do melhor quilate, advogado do povo e activista social, Baltazar Lopes da Silva continua entre nós a suscitar interesse, curiosidade, estudo e pesquisa. Claro que ninguém é o maior, nem é o melhor, dos cabo-verdianos, como alguém, esquecido da ciência e da história, quis propalar em tese. Pequena política a quanto obrigas! Quanta infantilidade! Tenho a certeza de que Baltazar Lopes da Silva foi um dos grandes. E que, passando essa poeira de seu laivo provinciano, ele será um imortal…
Claridade 2
Estive no Sal a acompanhar as filmagens do documentário Claridade Incandescente, da jornalista Margarida Fontes, produzido pela Televisão de Cabo Verde. O Programa nº 4 será dedicado a Jorge Barbosa, o percursor do Movimento Claridoso, conforme disse, outrora, Félix Monteiro e diz, agora, Fátima Bettencourt. Não apenas pelos ditos do investigador e da escritora, respectivamente, mas também pelo que prova o manancial de estudos, estará patente a figura matricial de Jorge Barbosa. Fomos confirmar pelos traços e pelos rastros que ele fora um poeta complexo por detrás das mascaras poéticas que utilizava. Itinerante, ambientalista e zen, umas vezes; denunciador, activista e localista, outras vezes, Jorge Barbosa será também um imortal…
Claridade 3
É já na sexta-feira, dia 26, o início do Simpósio sobre o 1º Centenário de Nascimento da Geração do Movimento Claridoso, algo que se inscreve num vasto e diverso programa comemorativo, por todo o Arquipélago. Os conferencistas já estão a postos. O Simpósio na Praia faz sentido, sim senhor. O naipe dos fundadores também irá abordar Manuel Lopes. Esse que escreveu Chuva Braba, o grande romance cabo-verdiano. Esse imortal…
Escrita 1 (para Abrãao Vicente)
Meu amigo, as vacas seriam, se tanto, todas profanas. E as que se afirmam sagradas, não passam de levianas. Desmistifiquemos, pois, essa coisa bovina que se arma em totalitária. E recusemos de seguir o cherne, conforme a alegoria do grande Alexandre O´Neill. Escreve, sim, com mais irreverência. Sobre tudo e sobre nada. Eu também não me arrependo de nenhuma escrita. Devo ter feito pessoas rirem e chorarem. Fi-las pensar, disso tenho a certeza. Tenho recebido cartas e telefonemas de muita gente. Uns a louvarem, outros a deplorarem. Nenhuma indiferença, pois esta seria a morte do artista. Todas as palavras aqui foram medidas, ponderadas e posicionadas. Este autor jamais seria, de nada ou de ninguém, uma vítima inocente. Continuarei, sem lenço, nem documento, mas lúcido. Cada vez mais lúcido…
terça-feira, 3 de abril de 2007
Diversos

Imprensa
1.
Quando tenho tempo, coisa cada vez mais remota, escuto a RCV, pela Internet. Igualmente, releio a imprensa electrónica. É uma forma de não estar tão longe dos filhos da pátria. Estar perto hoje tornou-se mais fácil. E a saudade ficou relativizada. Às tantas, larga-se tudo para saber das novas da terra. Inclusive pela TCV, versão digitalizada. Mas queria algo mais
2.
A queda do desemprego em mais de 6%, anunciada pelo INE, não foi amplamente divulgada pela Comunicação Social, que antes preferiu propalar a baixaria da linguagem da última sessão parlamentar. A questão era a droga. Os narcos e os seus capangas devem ter rido à brava. Quanta bizantinice, companheiros. Os nossos imunes e impunes continuam no top, pelos vistos. Às nossas custas, carago, às nossas custas…
João Lopes Filho dixit
1.
Segundo João Lopes Filho, a história do Movimento Claridoso precisa ser reescrita. O ilustre professor afirma que o acto inaugural acontece em 1922, no Mindelo, pelas mãos de João Lopes, Adriano Duarte Silva e Jorge Barbosa. Depois, o grande sopro teria acontecido na cidade da Praia, com Jaime de Figueiredo, João Lopes e Manuel Velosa, em fins dos anos vinte e começo dos anos trinta. Em 1936, Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa fundam a Revista Claridade. Esta reafirmação cronológica do modernismo cabo-verdiano, afinal contemporâneo à Semana de Arte Moderna, em São Paulo, reclama por séria e aprofundada pesquisa.
2.
A confirmarem as posições de João Lopes Filho, expressas num entrevista de fundo conduzida por António Monteiro, do jornal Expresso das Ilhas, alguma verdade terá de ser reconfigurada. Para que não nos contem estórias, em vez de História…
Honoris nosso de cada dia
1.
Caríssimo De Pina, paladino da liberdade e figura já castiça, meu bom amigo. Nem vou debater o âmago da questão, apresentada por ti, de forma um tanto deficitária e deprimida, apenas para “animar a malta”. Queria aqui dizer-te que estou tranquilo e sereno, consciente de ter contribuído para um honoris causa em prol de Cabo Verde, numa proposta preliminar que levava nomes ilustres da política, cultura e economia. A triagem, reconhecendo o mérito de todos os “meus candidatos”, escolheu Pedro Pires, por unanimidade.
2.
Noutra pauta, as tuas recorrentes posições sobre Frei Betto e Noam Chomsky são conhecidíssimas e a forma como as expressas tem provocado alguma estranheza. Pode-se discordar, contestar e opor, mas sem fanatismos, nem sentimentos primários. Muitos conteúdos interessantes às vezes perdem-se diante de formas vociferantes e exacerbadas de os expressar.
3.
Entretanto, estamos até de acordo sobre Robert Mugabe. Este de facto já saiu da moldura, quase à maneira de um falso patronato democrático, que a gente conheceu nesta terrinha de Deus. Aproveita e lê “A Tirania da Maioria”, de Lani Guinier, meu caro. Se quiseres debate ou tertúlia, vamos a isso, mas o nível do verbo terá de ser mais elevado, nada a ver com o Sado-masoquismo e a aleivosa de certas companhias, esses “conselheiros populares”, de triste memória…
domingo, 1 de abril de 2007
Para que nada fique na mesma
Saravá, mantenhas & boa nova, meu caro leitorado. Nesta lenta agonia de haver jornal, vamos escrevendo o tempo da ilha e do mundo, cientes de que daqui a dez, cem, mil anos, um terráqueo qualquer há de querer saber destes cumprimentos. Quanto mais não seja pela cultura arqueológica de continuar a haver futuro. Estou entre Fortaleza e Praia, com Bóston atravessado no pensamento, da minha escrita, quer criativa, quer utilitária. Não dou mais detalhes de querer Frei Betto apresentar o livro de Felisberto Vieira, saído da forja e entrado no prelo, com prefácio de Jorge Sampaio. Nem digo aqui do recital de boa música de Fhátima Santos, no Centro Cultural Oboé. Tom Jobin celebrado por uma intérprete da primeiríssima água. Outra novidade, mas só cheirinho, de quem regressa por uns dias. Para que nada fique na mesma…
No Clube do Bode
No Clube do Bode, confraria de intelectuais que se reúne aos sábados sob o comando do livreiro Sérgio Braga, no Florida Bar, acontecem sempre coisas inusitadas. Desta feita, uma princesa vinda das terras helvéticas, entrementes tornada “cabrita”. Outrossim, Filinto Elísio acaba de ingressar o Clube, numa festejada e pantagruélica entronização. A aguardente de Santo Antão, mãe da cachaça como foi ali baptizada, fez boa muito boa figura. Saudada por Sérgio Braga, Audifax Rios, José Tarcísio e Dimas Macedo, entre outros ilustres, essa aguardente fez autêntica diplomacia crioula entre os intelectuais cearenses. Gente conhecidíssima, mas simples mortais, sem as nove-horas dos nossos generais de palanque. O almoço era uma manta de carneiro, com baião-de-dois. Depois, uma feijoada completa, para amanhar o sábado. Como diria o poeta Carlos Augusto Viana, nem só de pão vive o homem. Há também vinhos e finos queijos…
Tricas & futricas
Da Tapadinha, só poderia isto. O cronista apareceu à porta, zangado e sabichão, a mandar vir sobre a carneirada obtusa, hoje pecadora por votar deste e não daquele lado. Escreveu loas e laudas, arrotando sua sapiência em leis e em política, neo-liberal entretanto na sua entortada boca, bem como no seu verbo à-toa. Mercê desse magistério arruinado falou mal do mundo. O Carmo e a Trindade. O fim dos tempos. Vaticinou os ciclos políticos de dez anos. Amaldiçoou os jovens e os aprendizes. Destilou sobre as águas, a sua enormíssima arrogância. E, depois, qual lobisomem no limiar da noite, comeu as mentes ensonadas, à falta das virgens que as lendas rezam. E acordou, apaziguado e sereno, como quem dormisse o sono dos justos. Onde estarão os inocentes e os patuscos em delírio?
segunda-feira, 26 de março de 2007
Com uma capa cinzenta
Pura vida
Não sei se escrevo sobre as greves, algumas falhadas, que atravessam o país. Ou se escrevo sobre as tuas impressões de Costa Rica, esse digno país sem exército, onde as pessoas respondem aos cumprimentos com “Pura vida”. Tampouco, se esboço umas linhas sobre a mesa de gala enfarpelada, com o protocolo à altura, pois estava-se a receber Danielle Mitterand, e falava-se da vitoriosa visita do Presidente Pires a Fortaleza. Se respondo a um aprendiz de serviço pela referência negativa, zangado com o Doutor Honoris Causa atribuído ao Presidente pela Universidade Federal do Ceará. Ou se apenas digo que é bom saber de ti – os queijos, os vinhos & os chocolates de sempre – e os anos desta existência. Escrevo, sem vestes sumptuosas. Escrevo tão-somente…
Imprensa em debate
Acompanho, pela Rádio de Cabo Verde, o debate sobre a comunicação social em Cabo Verde. Ouço uns e outros. Em verdade, há acertos e ajustes a fazer no campo mediático. Há aspectos a conseguir, como a qualidade dos serviços públicos da imprensa. Igualmente, a regulação para mediar e fiscalizar a qualidade de toda a imprensa, tanto pública como privada. Não falo do Conselho da Comunicação Social, mas de uma agência reguladora mais eficaz e mais apartada dos partidos políticos. Mas, a par disso, a liberdade de imprensa consagrou-se em Cabo Verde, depois de anos de condicionamento e tormenta, durante o monopartidarismo e a primeira fase da democracia, então exacerbada. Sou amigo e confrade de Jorge Soares, fundador e primeiro director do Jornal A Semana, tendo acompanhado a perseguição politica sofrida e o processo que levou ao seu asilo político nos Estados Unidos. Vários jornalistas foram processados e intimidados, outrora. Que o digam José Vicente Lopes e José Leite, entre vários outros. Longe vai o tempo de dezenas de jornalistas nas barras do Tribunal. Basta de falsa realidade. Basta de má-fé. Interessa sim, o passado e o antecedente, embora não defenda a justiça retroactiva. Queremos uma imprensa melhor, ciente de que a actual situação já é um incremento diante do que fora nos últimos anos. Queremos ouvir os profissionais do sector e não apenas os funcionários da política. Por uma comunicação social cada vez mais livre, mais crítica e plural. Em prol da cidadania…
Para que serve a crónica
O meu leitorado há de perguntar para que serve a crónica. Sem muita certeza, direi que talvez sirva para atestar que nunca me curvei diante dos deuses pés descalços, nem dos palanqueiros de serviço. Queria ter alguma isenção, mas não padeço de neutralidade. Daí não ser indiferente aos ataques que me fazem. Et pour cause, esse aspirante a intelectual, merece pena e complacência. Há distúrbios herdados, pelos quais não temos culpa, ficando Freud para os explicar. Agora certo analfabetismo, não se compreende, nem se desculpa…
Com uma capa de cinza
Enquanto o Jornal Horizonte existir, este cronista estará no convívio do seu leitorado. E quando chegar o derradeiro dia, ele ficará apenas no ninho do seu Blog – www.albatrozberdiano.blogspot.com, para os ainda desavisados. Não como um rei, mas como um actor, importa descer da ribalta. O certo é que o cronista sai da cena, com a morte anunciada deste Jornal. Nenhum drama, apenas a mudança de vestes, como o Rei Demétrio, no dizer de Plutarco.
quinta-feira, 22 de março de 2007
A mando de O Padrinho

Clara idade
Na tertúlia instalada sobre a realização do Simpósio Internacional da Geração Claridosa, parece-me correcta a posição defendida pelo artista Abrãao Vicente. E a razão é simples: a tese da modernidade exclui determinações localistas e regionalistas do fenômeno literário, para apresentá-las como produtos da pura evolução estética universal, mesmo em face do lócus local e regional. Efectivamente, temos de evoluir sobre a visão provinciana e redonda, aprendida pela rama. Renegar assaz simplificação implicaria descer ao plano da experiência estética, que tem que ser entendida como prática social e histórica mais alargada, e não como uma luminária surpreendente e out-of-the-blue, de alguns gênios isolados. A Claridade, pela profundidade nacional que teve e pelo alcance universal que lateja, dispensa que lhe defendam de forma sectária e excludente. Clara idade precisa-se. Façamos pois, no próximo ano, o Simpósio, em Fortaleza. E, se der, na ilha do Maio ou em Macau.
Ideal Clube
Almoço no Ideal Clube, com o Presidente Pedro Pires. Mais três títulos honorifícos. O de Membro da Academia Cearense de Letras, a mais antiga do Brasil, do Clube do Bode e do Ideal Clube. Os melhores intelectuais do Ceará reúnem-se para prestigiar Pires. Quando Casimiro de Pina, vulgo Peninha Mon Petit, disso souber...
Se a insensatez fosse colírio
Mesmo discordando de certo colibri, eu tenho lido as suas crónicas e as suas visitações, quase sempre ligeiras e brejeiras, pelos grandes teóricos da liberdade e da ética. Agora, levianas e desprovidas de senso, inclusive o crítico, serve a barriga de aluguer à maçonaria bem visível. A mando de O Padrinho, logo se vê...
domingo, 18 de março de 2007
Quando se nos escapa o planeta Vénus
Crónica de uma morte anunciada
Já o tinha anunciado. O Jornal Horizonte vai ser desmantelado. O vazio mediático, se não for preenchido, será mesmo perverso. Vamos ficar mais pobres, ainda que o Jornal, como todos os outros no mercado, pudesse ser mais atraente e apetecível. Não se sabe ao certo se há planos para criar algo novo. Oxalá haja, em prol dos estados gerais da imprensa. Faltará ao Estado solução mais criativa do que uma simples crónica de uma morte anunciada. Talvez para agradar a gregos e troianos, mas no descuido da vasta maioria dos leitores, este golpe de misericórdia. Eu já não tenho idade para representar diante de quem quer que seja. Quanta irresponsabilidade, minha gente…
Quando se nos escapa o planeta Vénus
Estou na Biblioteca Publica de Fortaleza, a pesquisar sobre os poetas nordestinos que, de forma incisiva, influenciaram os modernistas cabo-verdianos, mas dou de caras com esses poetas pós modernos e, investigador bissexto, relego para outra hora o desafio da minha claridade. A biblioteca (e também nisso tem razão Jorge Luís Borges) é uma torre de babel, um labirinto onde se perde das coisas pré concebidas. Fica-se tonto de tanto buscar saídas. Quando a saída é aprender a conviver com a condição de labirinto, que é a própria condição borgiana da biblioteca.
Dias de escola
Vem o Carlos Hamelberg a Fortaleza e falamos dos idos tempos do liceu. Para mim, o pior dia de escola era aquele em que a professora, com o olhar de águia-real, clamava no sumário “Revisão do Caderno Diário e da Matéria Dada. Chamadas”. Primeiro, o meu caderno estava cheio de desenhos (ilhas, barcos, aviões, mulheres nuas). Para ela, não podíamos ter mais do que apontamentos e trabalhos de casa nos cadernos, cujas folhas numeradas sofriam dela periódicas inspecções. Segundo, eu odiava o vexame de ir ao quadro, tendo inventado a desculpa pouco convincente de alergia ao giz. Isso, para não vos contar que as ditas Chamadas eram sessões pidescas, feitas para nos fazer humildes diante das colegas da sala. Talvez por isso eu tenha adquirido esta inimizade ao saber provisório e absolutista, bem como do adventício dos nossos pequenos deuses.
Vénus que se esvai
E, como nos conta o poeta cearense Ruy Vasconcelos, “Toda biblioteca é em espiral. Não vemos isto porque a óptica ilude. E somos míopes em graus diversos. E, então, essa espiralidade das bibliotecas nos escapa como nos escapa o planeta Vénus quando o sol surge.”
Ainda sobre a crónica verruguenta
Mais dois emails, do mesmo incontinente da semana passada. Fazer o quê, companheiro? Falai do mau, apontai o pau. Em verdade, queria apenas ver o planeta Vénus e dizer que vou até a morte deste jornal, que alguns abutres já festejam, lembrados da fome e esquecidos da ética. Por mim, tudo não passa de uma imensa gargalhada e sei que V.Excia não é o rei do bom humor. Eu, com humildade, bebo no cântaro de alguns mestres – Luís Loff de Vasconcelos, Pedro Cardoso e Jaime de Figueiredo. Convenhamos, meu caro deputado, que não tenho imunidade (nem impunidade), como afirma, mas sou livre da silva, que nem um albatroz. É a graça de não ter obrigação com o eleitorado, mas apenas este encontro acidental (e quando der) com o meu valioso leitorado…
Poesia tão-somente
Li, em primeira-mão, os teus versos e gostei das metáforas ali contidas. Naturalmente que os melhores poemas estão cá dentro. E também são labirínticos, como toda a Arte, dentro de nós. Nenhuma aparente serventia. Nenhuma bula ou receita médica – pois poesia não seria oráculo para salvar o mundo. Nenhuma serventia, a não ser a loucura para enfrentarmos este excesso de realidade. Já levavas poesia bem antes desses versos. Há poetas que nunca escreveram uma linha, mas pressentiram o labirinto da vida. E da morte…
quinta-feira, 15 de março de 2007
Procelária
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
segunda-feira, 12 de março de 2007
A trans-política

A trans-política de Jean Baudrillard
Ó, gente boa, uma trégua para escrever sobre este homem imprescindível. A morte de Jean Baudrillard, brilhante filósofo contemporâneo, não poderá passar em branco entre nós. Afinal, nem só de bizantinices, greves e riolas bairristas vivemos. Baudrillard, por exemplo, viveu numa sociedade onde o caos fora a melhor estratégia para desmontar o sistema de banalidades. Era preciso desconstruir o simulacro e a engrenagem. Fazer outra viagem – a da trans-política –, em que o pensamento e a Arte ganham, sem adjectivações, o substantivo do Ser.
Bocas
Um deputado, conhecido pelas suas bocas nos cafés da cidade, não gostou da minha escrita sobre o debate parlamentar. Ele acha que os deputados tiveram inteligência, elegância e boas maneiras durante a discussão sobre a corrupção. Não se pretendeu fazer tábua rasa, até porque, nas duas bancadas, há deputados de fina estampa, merecedores da confiança e do salário que recebem. Mas há outros que confundem imunidade com impunidade e alhos com bugalhos. A infra-política. Pobres de espírito e de verbo, ali a beber metros cúbicos de água mineral. Estes, meu caro, são os escabrosos que vamos aturando, mas não silenciosamente. É que aturar também custa…
A economia da droga
Nos dias que se seguiram ao assassinato das italianas – uma execução que nada teve de passional, como pretendiam os pacóvios da aldeia -, não faltaram vozes a exigir a requalificação do turismo. Uma reflexão sobre os impactos desse turismo para a nossa sociedade. O dinheiro tem os seus custos e ele só vale a pena se os lucros também forem sociais e culturais. O assunto terá sido relegado ao segredo da justiça ou à justiça do segredo? E a questão nem é estritamente policial. Precisamos superar a falsa premissa de que a polícia seja o fiel da balança. O equívoco de se interpretar polícia e segurança como sinónimos. Para além do tão urgente quão necessário investimento nos valores sociais e familiares, do civismo e do convívio, importa identificar e desmantelar a “economia da droga” que insistimos em não reconhecer (nós, a sociedade). Uma engrenagem poderosa e insidiosa que já sustenta muita gente na nossa “terra estimada”. Pode?
Feira Internacional da Música
O Mário Lúcio, à frente de uma equipa de boa vontade, organiza a Feira Internacional da Música, em Cabo Verde. O projecto é grandioso, e consistente. Trans-político. Vamos apoiá-lo. São iniciativas do tipo que ressignificam o turismo e clamam por outros investimentos. Se a Cultura é o nosso diamante, há que criar condições de o lapidificar e de o intercambiar. Mário Lúcio entendeu, como poucos, que a melhor forma de proteger e promover a Cultura de Cabo Verde é a abertura para o Mundo. Quanto mais escancaradas as fronteiras, mais as singularidades do local se expressam. Foi assim com o Fesquintal de Jazz, lembram-se? É o se que propõe com esta Feira Internacional. Além de suscitar a instalação, algures, de uma indústria da música. Palmas para o Tchilo…
sexta-feira, 9 de março de 2007
Navegações VI

Rembrandt
Mal chego à Universidade, dou de caras com a exposição “Rembrandt e a arte da gravura”, no Espaço Cultural Unifor. A colecção (de 90 elementos, conforme o catálogo) acaba de chegar directamente da Holanda. Mais uma actividade da Vice-Reitoria da Extensão e Comunidade Universitária. A anterior fora ´Mirabolante Miró!´, algo que, pela sua qualidade, mereceu a atenção deste Blog. Passo parte desta manhã a aprender sobre Rembrandt, o génio…
XI Encontro Internacional de Negócios do Nordeste
Participei, com um grupo de empresários vindos de Cabo Verde, no XI Encontro Internacional de Negócios do Nordeste. Os 244 expositores do Nordeste ofereceram, durante estes dois dias, confecção, alimentos, artesanato, calçados, entre outros itens, aos 76 compradores inscritos, dos quais 14 brasileiros e 62 estrangeiros, de 19 países. O Encontro apresenta-se como um caminho para as pequenas e microempresas chegarem ao mercado externo, sobretudo africano. A expectativa do Sebrae, organismo que educa e orienta as pequenas e médias empresas nas três grandes etapas da realização dos negócios (capacitação, crédito e comercialização), é concretizar 40 milhões de dólares em vendas durante os dois dias do XI Encontro Internacional de Negócios do Nordeste, um crescimento de 48,14% em relação ao de 2006.
Cabo Verde X Ceará
No ano passado, os micros e pequenos empresários do Ceará venderam 5,6 milhões de dólares aos cabo-verdianos. E vale a pena ver a curva ascendente. As vendas pularam de 139 mil dólares (2002) para 4,8 milhões de dólares (2005). Em 2007, apesar das tarifas aéreas elevadas e da desvalorização do dólar, o negócio tende a aumentar. Tempo de se questionar, numa atitude descomplexada e pró negócio, o que o Ceará poderá absorver de Cabo Verde, criando um fluxo de duas vias. O próprio presidente do Sebrae, Paulo Okamoto, uma das figuras mais poderosas do Brasil, assentiu perante uma delegação cabo-verdiana, com a presença do Administrador da CV Investimentos, Manuel Pereira Silva, e do empresário Paulo Lima, da Câmara do Comércio, Industria e Serviços de Sotavento, que a sustentabilidade da relação Ceará X Cabo Verde terá de passar pelo real intercâmbio de vendas. Cabo Verde tornou-se um bom mercado para exportadores cearenses, sobretudo os de menor porte, e estes, chegando a uma fase de parcerias, precisam de redimensionar o circuito. Temos de começar a imaginar e a inovar. As engenharias são sempre possíveis…
Zé Maria
Acompanhei, pela Internet, o colectivo de imprensa organizado pela RCV, com o Primeiro-Ministro, José Maria Neves. Este é de facto o grande capital do PAICV. Excelente administrador público, ele precisaria apenas de uma atitude mais acelerada em favor das pequenas empresas e da real capacitação do sector privado (desburocratização, crédito, empreendedorismo). O País, para crescer a dois dígitos e reduzir o desemprego a um dígito, tem de, primeiro, criar riquezas, e, acto continuo, sublimar as réstias da mediocridade ainda visíveis no paroxismo – mas que ironia – de uma certa oposição. Essa tentativa de buscar sucedâneo ao Caso Enacol não cola. Há coisas que têm a cara do próprio dono…
domingo, 4 de março de 2007
Jaime de Figueiredo – esse cometa literário
Ao Francisco Fragoso, com admiração
1.
Conheci Jaime de Figueiredo, nos seus últimos dias. Era amigo do meu pai e, nessa condição, frequentava a nossa casa, na rua do Hospital. Lembro-me que batia à porta com sofreguidão, gritava da rua pelo “Senhor Correia e Silva” e levava sempre uma revista ou um livro na mão. E o meu pai explicava-me que aquele era homem de muitos livros, director da Biblioteca Municipal da Praia e correspondente do poeta José Régio.
2.
Num dia de chuva, pouco depois da morte de Jaime de Figueiredo, apupado por imbecis locais que se diziam revolucionários, a minha mãe me lera uns versos de Régio.
(…)
A minha vida é um vendaval que se soltou,
(…)
3.
O cometa literário, que Manuel Lopes chamara de “imaginário”, mas que os dados provam ser real, esboçou a criação de uma revista de letras, desde 1931, na cidade da Praia. Ao grupo conhecido por Atlanta, alinhava-se, além de Jaime de Figueiredo, os escritores Jorge Barbosa, Henrique Torres, e José Lopes. O ideário aproximava-se dos modernistas portugueses, em torno da Revista Presença, fundada em 1927, na qual Jaime de Figueiredo era colaborador e alinhado. Este chegou mesmo a ventilar, nas várias tertúlias realizadas, a criação de uma revista de letras avessa ao artificialismo e ao academismo, então prevalecente em Cabo Verde.
4.
Quem por aí não ia era Jaime de Figueiredo, avesso à mediocridade local, que não poupava nem o Governo da Província, nem a edilidade da capital. Nos anos trinta, ele fundara na cidade da Praia, o hábito das tertúlias. Em 1935, chegou a São Vicente com a proposta de uma nova revista, de nome Atlanta. Para Manuel Lopes, a proposta era uma bandeira sem mastro, desgarrada da realidade. Será? É o que importa investigar. Agora ficou patente que a dissidência de Jaime de Figueiredo não terá sido tanto por causa do nome que quis impor ao grupo dos claridosos. Há questões de fundo que reclamam vir à tona da água. Segundo Jaime de Figueredo, no prefácio da Antologia dos Modernos Poetas Cabo-verdianos, a influência estética do grupo Atlanta, sintonizada com a doutrinação da ‘presença’, veio resultar, mais tarde, na criação do grupo e da fundação da revista Claridade.
5.
Com a realização do Seminário Internacional sobre os Claridosos, certame que se quer marcante, esclarecedor e acima das capelinhas provinciais, será mister pegar nas notas, entrevistar pessoas e reler os livros de e sobre a Claridade. Recentemente, uma polémica não conseguiu ser interessante sobre a problemática, na medida em que ficou pela superficialidade e pelo circunstancialismo, quando a questão de fundo ficou relegada ao silêncio.
6.
(…)
Não sei para onde vou
(…)
sábado, 3 de março de 2007
Para lamentar

Que os deputados da oposição queiram questionar e mesmo denunciar o que vai mal na administração, acho bom, higiénico e saudável. Os deputados da situação, em vez de jogarem à defesa, devem ir ao ataque também, criticando o que não está conforme. Afinal, a administração é um corpo institucionalmente próprio e tanto a governação, como a oposição, têm de lhe prestar cuidados especiais. Outrora, agora e sempre. Que não haja veleidade de não acharem coisas escusas e obscuras, meus ilustres. Isso, nem na Finlândia e na Noruega, onde a cultura pública se sublima. Ou mesmo na Singapura, onde há chicotadas e penas de morte na praça. Ou ainda naquele califado, onde o comensal está reservado ao califa e o resto a embriagar-se nas Mil e Uma Noites. Em Cabo Verde, Portugal, América e resto do mundo, é o que se sabe. Basta acompanhar a imprensa, meus ilustres. Mas o debate parlamentar precisava de mais fineza e pedagogia. Provas a dar credibilidade às suspeitas. Sem complacências, entretanto. Toda a administração, por mais moderna e reformada que esteja, tem os seus mandos e desmandos. A proximidade dos amigalhaços, as dívidas e os défices, a contabilidade a meter água, as derrapagens e os desvios. Há contas dos anos noventa por fechar, imaginem. Houve até aquele descaramento da classe empresarial próxima ao partido, coisa brava. Isso, para não falarmos do faroeste da gestão pública e das privatizações danosas numas ilhas, ditas hesperitanas. Tudo isso existe na administração, com mais ou menos requinte. O que diferencia é a governação em sentido amplo (para lá do Governo), o arquétipo político da coisa. A engrenagem do controle e da transparência. O Tribunal de Contas a fazer as contas e a exercer autoridade judicial. A Procuradoria a dar provimento e execução. O Parlamento a questionar e a inquirir. O Governo a nortear, a despachar e a auditar. E a cultura da coisa pública, com rigor e intransigência. A ética weberiana sobre a res publica, com o cidadão consciente (e sem medo) do seu papel. Agora o que está também mal, mesmo mal, malíssimo da silva, é a forma como os nossos parlamentares cortam as mãos, tendo a faca e o queijo. Não é que se queira um Parlamento cheio de mesuras, ademanes e salamaleques, mas assim, de faca amolada, não dá. Aqui, os mortais e contribuintes, queríamos que isso não fosse tanto o feudo dos imunes e dos impunes da democracia, a destilarem maus fígados e más palavras. E quem haverá de julgar os juízes? E os nossos impostos, carago? Está até escrito que tem de ser doutra maneira, meus ilustres. Um pouco mais, uma coisinha de nada, de fineza e pedagogia, que o pessoal agradece…
quinta-feira, 1 de março de 2007
Notas soltas
0.
Grafitado nesse baldio. Morte aos românticos. Pátria ou Morte. Viva Xô Pelada. E outras indecências. E do alto desse baldio, a cidade crescia disforme. Virando metrópole, hipérbole, coisa feia. Mas porque não cantar quão assim te desejo, como se quisesse calar o amor neste tempo? Porque adivinhar o que não se revela e ao resto navegar em busca da lua que resguardas?
1.
Por gáudio ou desgosto das senhorias, o poema anda seu caminho de vida breve e lá solfeja, como quem canta seus males no asfalto. Em si, fanando e doendo deste lado, meu bardo decadente. O poema choca a moral das burguesias. Ele assalta no meio da rua, escandaliza o sol e sodomiza a lua, santa meretriz das noites. Dos açoites, bacanais, orgias e tantas rosas. Sem pedir licenças, quanto mais mesuras, prosas e outras etiquetas. Sem causa nem propósito, pois andar nu, de rei assim de vantagem, é afago natural. Saudar a polpa das frutas e sorrir, pois serenado, às mamas das deusas. Nem gregas, nem troianas, balbuciando seu dorémi & etc…sem rimas.
2.
O poema é aquele que cabe em cada buraco do caminho. Versos em catadupa, a jorra das letras em banho de chuva. A cidade iluminada, simplesmente. Ou quando a lua é nua. De uma nudez só de desejo, assim viscosa. O poema, se medra em pedra, fonema e noutra forma de pão e vinho. De uma ceia como em sagrada mesa. Ou procissão, mas tão profana romaria de viola e sanfona, já no adro. Tudo o que bole nesta quietude é poema – côdeas de tempo, réstias aqui da tarde. O alarde e o sussurro, este quase escuro. Direi ainda o teu corpo e a sua sintaxe, as elípticas sílabas dos teus eixos. O intenso movimento no descaso das frutas. O sopro de tudo e de nada. Até eu neste ocaso…
3.
Como esconder em mim o que se sente? Paz, excitação ou poetaria, esta embriaguês de haver, ora luz e sombra, ora nó da Electra? Cotovia, medo ou bravura, esta ternura? Dançar, de total loucura, se isto fosse uma praça, onde pombos e vagabundos a deambulassem na real fome da poesia. Gritar-te musa na guarita. Olhar-te linda no fontanário liquefeito. Indagar-te apenas, cidade. Porque não te versejar com tanto alarde?
4.
Discorrer sobre as tuas lucubrações. A secção das frutas no supermercado. A gincana boa com os carrinhos do Calú & Angela. Tu és nativista, claridoso ou raio-que-o-parta, mas eu prefiro picanha ou queijo da Serra. Ou tratando-se de fruta, quero os teus lábios. Nem tudo das frutas sabe à melodia, isso sei eu. Nem todas as melopeias desenham encantos com fogueiras e desertos. E dançarinas loucas de sombras. Há toadas ali das maçãs frias, meloas que se evadem das fruteiras. Melaços de tâmaras sem viço. Mangas, mulher, que não eram flores no tempo das águas. Soube dos cajus caídos nas estradas. Do suor dos escravos da cana de Santiago e dos abacaxis perdidos no desejo. Soube, mas nem te conto, das melancias. O vermelho de negras sementes do verde cabo. Dos virgens sucos, como o frémito das ânsias. Lucubrações apenas…
O poema simula uma lágrima. Ou uma gargalhada. Ou ainda uma entrevista televisiva. O poema vem no Telejornal. Mas ele não derrubou o Muro de Berlim, nem as Torres Gémeas. Leu e riu das últimas do cronista local, amigo de Pinochet, o animal que matou Victor Jara. Voltando ao paredon. Ao grafitado do baldio, para ser mais próprio. Suspendo estas notas. Estou farto dos porcos em delírio. Dos quadros em triunfo, sobretudo. E dos neoliberais ao Deus-dará. O poema abomina a pose sem élan. Fica brocha que nem discurso político. Mais luz nessa avenida. Vejo e concordo com que reza o grafitado. Arre, égua. Ali chapado em grande statement…
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Em Claridade

Peace and love
Perdi um grande amigo – Zeca Correia. Ele acaba de falecer em Boston, depois de uma doença prolongada. Morreu lúcido e amigo, como sempre foi. Entre muitas outras coisas, Zeca Correia foi uma figura destacada da comunidade cabo-verdiana. Fundou, com mais companheiros, o Gabinete de Produção Mediática e a Conferência Anual Amílcar Cabral e Martin Luther King Jr., e foi um dos activos no Programa Educacional Bilingue. Uma figura…esse saudoso amigo!
O paradigma de Virgínia
A América continua a dar as cartas em matéria de Direitos e Liberdades. A América profunda, naturalmente. Aquela que nos legou Thomas Jeffersson e Marin Luther King Jr., e que, ainda hoje, atribui Óscar ao senador Al Gore pela Verdade Inconveniente. Esta América dos meus filhos, do jazz e da constitucionalidade. Livre, libertária e, genuinamente, liberal. Leio que o Estado de Virgínia assume desculpas formais devido à Escravatura, o maior atentado contra os Direitos Humanos em toda a História. Assume-o com causa e consequência. Obviamente que haverá algum desconforto entre nós que ainda temos orgulho dos nossos ancestrais escravocratas e nos envergonhados daqueles escravizados. Que veneramos a parte de nós, que é europeia e branca, mas que diluímos a africanidade, a negritude que nos lateja nas veias. Mas este desconforto é uma enorme e necessária terapia. Para que sejamos integralmente nós. Para que possamos discursar no mundo e, depois disso, não se ria de nós, dessa identidade titubeante em “forma de crioulo basofo”. Não por uma questão retrospectiva, mas pela vertente prospectiva. Precisamos ter uma visão futurista da escravatura. Como fazer desse passado, de enorme tragédia humana, uma condição humanista de vida futura. Com soberania, democracia e desenvolvimento. Senão, seremos sempre pós escravizados e pós escravocratas. O prolongamento da tragédia, com o vergonhoso disfarce neo-liberal. Pois é, meus caros, temos de acompanhar (com interesse, pelo menos) o que está a acontecer em Virgínia. Nos Estados Unidos…naturalmente.
Em Claridade
Apreciei a posição do poeta Mário Fonseca sobre a questão da celebração do centenário do Movimento Claridoso. Temos de evitar a capelinha de balcanizar os grandes momentos da história de Cabo Verde. Claridade foi um momento que transcende o tempo e o lugar. Em consequência, ela deve ser celebrada por todos e em todo lugar. Em jeito de assumida provocação, já que os fantasmas deixaram de meter medo, anuncio um encontro sobre os Claridosos, no próximo ano, em Fortaleza, Brasil. A engenharia já está a ser montada. É que os nordestinos do Brasil parecem ter alguma “culpa” em tudo isso. E mesmo que não tivessem. Poderia ser em Pequim, Lisboa, Praia ou Mindelo. Consenso? Mas que palavra feia entre os homens de Cultura. Desnudemo-nos de tiques e preconceitos. Com a modernidade de Mário Fonseca. Cabo-verdiano, cidadão do mundo…
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
CASTLES DREAMS IN MY MIND
Zeca, meu bom amigo
Há momentos em que as palavras perdem significado. Elas ficam fragilizadas e debilitadas quando as circunstâncias são excessivas. Diante da grandeza da vida e do mistério da morte, as palavras ressoam pequenas, encurtadas e, se calhar, até imprudentes. Entretanto, não tenho senão palavras para te dar força neste momento de privação e de luta corajosa contra a morte. Digo luta corajosa, pois soube, pelos nossos amigos comuns, que és um homem bravo. Enfrentas tudo com fé e estoicismo, o que me dá um enorme orgulho de ti, meu amigo.
Às vezes, revejo aos detalhes os nossos momentos passados juntos. As horas de festa e como celebrávamos a vida com alegria! Quase sempre com alegria exagerada, caríssimo. O bom vinhaço, a comida pantagruélica e a excelente música. Não me esqueço de quando fomos ver juntos Dee Dee Bridgewater, Lou Rawls e Ray Charles, no Waterfront, em Bóston. Nem dos teus olhos de alegria no Newport Jazz Festival.
A tua lembrança estará sempre ligada ao momento quando te desafiei a criarmos um programa de rádio e tu logo topaste a ideia do GPM. E da primeira vez que topámos que a Ambrizeth – Babosinha, para os mais chegados – tinha uma voz de rouxinol e que poderia dar aulas de inglês no nosso programa. E eu escrevia “Factos”, pensando no teu timbre de radialista, meu amigo. Outro momento alto, fora o dia em que criámos a Conferência Amílcar Cabral, na velha casa de Lower Mills. Pelos vistos, o “petit comité” alargou-se e a Conferência está a dar os seus frutos. Grande iniciativa.
Lembro-me do carinho que devotas ao Denzel, que adorava, de fraterna amizade, o “Tio Zeca”, o mesmo carinho que eu devotava ao Nuno, recém-chegado das ilhas. Mas o melhor de ti, meu bom amigo, registei-o hà pouco tempo, e tu já entrado nessa maldita doença que nos perturba a todos, quando a minha mãe faleceu. Eu havia ido do Brasil para Cabo Verde e não é que recebo o teu telefonema, com uma lição de amor e de humildade que jamais esquecerei. Devo-te agradecer por isso. Disse-o a todo o mundo e todos, sabendo do teu quadro de saúde, passaram a te admirar muito. A superioridade das pessoas é de facto moral e o resto é história.
Vou pensando no Dylan, no Nuno e na Nadine, tua e nossa gente, por quem teremos sempre amizade e devoção. Vou pensando nos meus filhos, Denzel e Pablo (havias de conhecer o pequenote, meu velho), a matutar esta vida que deve ser vivida com grandeza moral e muito amor. Como eu receava, meu bom amigo, acabei por escrever uma série de palavras, mais de significante que de significado. A sua semântica fica “debole” diante das circunstâncias. Força, muita força. Coragem e fé. Cada dia de vida é um ganho para todos nós. O jeito é vivermos, para lá da doença e da dor. Tirar o melhor partido de cada momento. E, sobretudo, amar muito.
Pois, vem aí estes ossos para um grande abraço. Eu te amo muito, muitíssimo, meu bom amigo.
Filinto
O Poeta e a Musa
Queimando o S/Cem Margens seus últimos cartuchos, depois do cronista ter lido a lógica daqueles que abominam que um dos tributos ao Movimento Claridoso também se faça na cidade da Praia, apesar de ser Cabo Verde, capital da Nação e terra de Jorge Barbosa, direi sem margens para dúvidas que, em certo sentido, vivemos tempos turvos e lodosos.
Um
Essa polémica, embutida de bizantinice e eivada de má fé, procura levar, mais uma vez (e não por acaso), Manuel Veiga para a fogueira de todos conhecida e que crepita para dividir o país. Curiosamente são os mesmos pirómanos que outrora dividiram o Arquipélago entre as ilhas da macaronésia e as africanas e que, há poucos dias, brindaram com júbilo ignaro e racista um estudo dito genético. O que não nos dizem certas intenções "científicas"?
Por razões de trabalho, estou a ler com o meu italiano aquém do básico "Navigazioni", de Luís de Cadamosto. Vou pedir apoio a Pasqualino Settebellezze, personagem bissexta das tertúlias na net, pelos vistos, um crioulo radicado na Itália. Mas voltemos a Cadamosto. Terá o navegador chegado a Cabo Verde antes de Diogo Gomes? Interessaria a Portugal dar o protagonismo dessa descoberta a um “mercador de Veneza”? De qualquer forma, a história, para lá da ciência, é escrita e interpretada ao sabor dos tempos. Outrossim, Luís de Cadamosto fora um renascentista consequente. Curioso, aventureiro e mercador, ele estava fadado a ver e a desbravar novos mundos. Obviamente que teremos de dar descontos aos olhares e aos preconceitos da época. Eram tempos eurocêntricos, com o obscurantismo adveniente disso, em que muitos descobrimentos não passaram de encobrimentos. Isso também é notório no "Navigazioni"…
Neoliberais
Não me fio nos neoliberais que se deixam dominar pelos tentáculos coloniais. O Pranchinha chama-os de deuses de esquina. Cá na minha, os neoliberais terão de ser navegadores, libertadores e libertários. E nunca “entregadores”. Do negócio e Pátria. Lá pelos fins dos 1400, um monte de moradores de Cabo Verde lançava negócios pela costa africana, à revelia das autorizações reais. Uma Carta Regia impedia aos moradores de Santiago traficar na Costa, onde o negócio era rendoso. O nome desse pessoal? Tangomanos (ou "Lançados"). Conta-nos António Carreira que "...Sobre este tipo de relapsos foi promulgada abundante legislação no sentido da sua captura, e até mandando-lhes aplicar a pena de morte, no caso de serem capturados pelas próprias autoridades africanas". Os verdianos, quais albatrozes, foram ao tempo contra o monopólio colonial... Interessante, não? Esses terríveis lançados neoliberais...mais consequentes outrora.
Dois
O cenário poderá ser de um café com letras. Ou dessas muitas livrarias, como o Paraíso de Jorge Luís Borges, onde se possa tomar um bom capuccinno. E o cronista a lembrar de ser poeta. Eu bem que queria navegar no seu mapa astral, disse o Poeta. Mas você já nele navega, respondeu a Musa…










