sábado, 29 de abril de 2006

Um browsing pela obra de Omar Camilo


por Filinto Elísio


Faço o download do anexo electrónico e surge no monitor a fotografia do meu filho. Não só o olhar do Pablo (que tem o nome de Neruda) que me encanta. Mas também o olhar do fotógrafo, apanhando-lhe os ângulos e os traços, as luzes e as sombras – deixando no antevisto um prenúncio de memória – me deixa impressionado.

Não me compete fazer uma recensão crítica à obra fotográfica de Omar Camilo. Nem quero ora invadir uma função tão alheia, ademais abalizada e técnica. Ao ver esta e outras fotografias de Omar Camilo, transporto-me para a terceira utopia de Renata Pimentel - para a grande aventura da sensibilidade: De sermos e estarmos artistas, onde a fome de tanta alma nos carece a palma da mão, nos embruta o olho e nos faz leitores que capinam o solo bruto. Aqui e agora, apenas dou-vos a ideia da sensibilidade que me provocaram os quadros de Omar Camilo. É só disso que escrevo, nada mais.

Depois de um demorado browsing, creio não estar a cometer uma heresia (mas se a cometesse, paciência) se disser que o cubano Omar Camilo, mote e razão deste texto, é um dos melhores artistas em Cabo Verde, neste momento.

Destoante da vulgata retrateira instituída, sobre a qual repousa a ideologização dos costumes e regras, ele (por conhecimento de causa) remete-nos, pela transposição (e se calhar pela latinidade) a Frida Khalo, essa expoente das artes plásticas e do expressionismo psicanalítico. Aliás, o espólio de Omar Camilo guarda uma pungente homenagem à pintora mexicana. Não será por coíncidência…

Os quadros de Omar Camilo insinuam o Belo, a estética no seu afã de significado e na sua máxima complexidade. Daí não serem evidentes, nem de fácil fruição e leitura. Eles exigem antes reflexão e introspecção. Os olhos voltados para dentro, como diria o filósofo. É uma obra toda ela com arrebatamentos imagétidos e transreais. Carecendo de atenção redobrada, por conseguinte.

Conheço-o, resistente e renitente, ao quatidiano neurotizado e à fina medíocridade do meio, pagando alto preço por assaz marginalidade. Como enfrentar tenebrosos gigantes quando à vera não passam de moínhos de vento, ó Alonjo Quijano de triste figura? Diga-se, sem desprimor a tantas susceptibilidades e ao mau-gosto novo-riqueiro, que o “artista não-funcionário” continua a ser um “maldito”. Vez por outra, um mecenas para confirmar a regra e raramente uma proposta decente para desmentir este dito.

Omar Camilo nos lega sensibilidade quando o que paira é anestesia! Os seu pais são cegos de nascença. Por isso, a sua necessidade de olhar por outrem e ele é “filho único”. Freud explica. Afinal, há que diga que o Artista se define no id…

Em prol da transparência, repito: este texto nasceu porque Omar Camilo me enviou, por zip informático, uma linda fotografia do Pablo, agora home no meu computador. E, como soe dizer por cá, tô que não me agüento de saudades do meu filhote. Era de sensibilidade a minha prosa, não era?

Também por estas e outras (não) razões, admiro e recomendo-vos muito…Omar Camilo.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Sanfilipe – entre o grito e o silêncio

"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
(Martin Luther King)



Conhecendo, por dentro, a política e o programa culturais do Governo, vejo, com regozijo, que as manifestações em prol do património ocorridas em São Filipe vão em sintonia pensamento estratégico preconizado. O importante, ao fim e ao cabo, são as questões de fundo.

Uma das maiores preocupações, constituindo mesmo uma questão de fundo, do Governo é a salvaguarda e a promoção dos valores materiais e imateriais da Cultura e da História de Cabo Verde. Para tanto, as instituições estão criadas e vocacionadas. E, valha-nos a democracia, o debate está aberto, já que nestas coisas, aqui ou na China, o crescimento briga muitas vezes com o património instituído. O que importa realmente é a noção da cidadania e da realidade.

Obviamente que o IIPC encara com atenção e parcimónia o “tesouro urbanístico”, que é São Filipe. Mas entre encarar e agir, mercê dos meios e recursos existentes, às vezes há uma demora crítica, se não mesmo um hiato. Igualmente, sabe-se que a própria Câmara Municipal tem os seus planos de restauro e de protecção do património construído ali existente. Uma vez mais, entre as intenções, os planos e as materializações vai uma distância exasperante. E o cidadão deve estar atento a tudo isso. A cidadania tem a ver com a autonomia cultural e a autonomia da acção cívica.

Et pour cause, a carta-aberta de Fausto Rosário – não a forma em si, mas a sua essência – tem toda a razão de ser. Outros “Faustos” deveriam ter levantado as mesmas preocupações na cidade da Praia, na Cidade de Santiago, na Vila de Ribeira Grande, na cidade do Mindelo, na Vila de Ribeira Brava e noutras paragens. É preciso quebrar “o silêncio dos bons”. Outrossim, o protesto de três cidadãos acorrentados defronte aos Paços do Concelho não deixa de ser curioso e paradigmático. A cultura também se faz pela indignação. O diálogo entre as posições antagónicas é quase sempre muito profícuo. Não há que ameaçar com tribunais, nem com retaliações. Valha-nos a democracia e a tolerância, repito. Importa dar respostas. As inumaráveis respostas. Dialogar com causa e consequência. Isto é, modernizar a cidade, sem matar os seus traços patrimoniais e idiossincráticos. Depois, há que repensar a “modernidade” e resignificar a “qualidade de vida”.

A Bila, patrimonial e histórica, monumental como poucos espaços em Cabo Verde, tem de ser tombada, restaurada e reanimada. Por uma cadeia complexa e estrategicamente articulada – Governo, edilidade, munícipes, cidadãos cabo-verdianos e não só. Não apenas para o gáudio dos seus moradores, mas também e acima de tudo (como preconiza aliás o Programa do Governo) por respeito à memória colectiva de todos os cabo-verdianos…



quinta-feira, 27 de abril de 2006

A Praia, os tristes do pedaço e a hora cidadã

A cidade da Praia, por ser a capital de Cabo Verde, país insular e nação diasporizada, é a alter urbis de todos os cabo-verdianos. Nela, os cabo-verdianos, em consenso e plataforma, deveriam consolidar a memória e projectar o futuro. Com estas palavras, à guisa de desejo, queria saudar o fórum sobre a “Identificação de Vocações, Medidas de Política, Infra-estruturas e Atitudes para o Desenvolvimento da Praia”, em boa hora organizada pela Associação para o Desenvolvimento da Praia (Pró Praia).

A Pró Praia considera (com toda a legitimidade) que, antes que a cidade atinja 150, daqui a dois anos, “é importante que algo seja feito para a mudança do satus quo da capital do País”. Em verdade, é hora de tematizar a Praia e que ninguém se engane, pois esta cidade resulta de processos sociais, culturais, económicos e políticos complexos. O debate terá de ser também complexo e com perspectivas multidimensionais. Discorrer sobre “Urbanização e Segurança – Impactos, Causas, Consequências e Perspectivas” nos obriga a todos a uma análise retrospectiva, conjuntural e prospectiva, para que encontremos as alternativas sustentáveis. Mister é a mudança e a palavra de ordem deve ser a sustentabilidade…

As ruelas de Ponta Belém, as casas térreas e os sobrados das ruas e travessas, o mercado municipal, os canhões do Cruzeiro, a praça Alexandre Albuquerque e a sua gurita, assim como toda a Várzea da Companhia e a Achada de Monteagarro, são uma parte importante da nossa alma e da nossa identidade, factores, quais impressões digitais, da nossa singularidade, mas temos a convicção que são atributos insuficientes para assegurar a nossa competitividade presente e futura.

A hora é de pensar a Praia como “praça financeira” e como referência cultural, a “last frontier” do desenvolvimento sustentável. Uma Praia com artes, monumentos, museus e bibliotecas. E com os investimentos chineses, portugueses, angolanos e ingleses, já apontados, todos benvindos e necessários. E venham outros, porque a vida nasceu…

Uma cidade como a Praia terá de reinvestir pesado em equipamentos e serviços, como aeroporto, porto, universidade e parque industrial, ao tempo que recoloca na agenda política e no debate social a questão dos custos da capitalidade. Em verdade, só há desenvolvimento quando cruzarmos cidadãos educados em espaços equipados. O resto são histórias (bairrismos, mesquinharias, colonialismos internos, interiores e mentais, e quejandos)…e quanto a isso, de há muito que já estamos acordados, atentos e acesos.

Os tristes do pedaço querem, no entanto, uma Praia retrógada, coitada e tacanha. Bem entendemos o móbil de tal gente. As intenções, mais “piedosas” do que ecológicas e/ou patrimoniais, devem ser entendidas na sua exacta dimensão. Elas têm os seus próprios e acantonados registos. Mas nós, os amantes desta cidade, queremo-la metrópole moderna e arrojada, competitiva com as demais capitais, e para tanto precisamos neste fórum de uma visão de futuro, de uma utopia aglutinadora e, seguramente, de uma estratégia de afirmação.

A insegurança na cidade da Praia (a violência urbana, a tóxicodependência, a condução ofensiva, etc) não é causa, mas consequência, de um abandono e de um laxismo, a vários níveis e de muito, muitíssimo, tempo. Reduzir o debate ao lixo e aos assaltos é empobrecer o convívio democrático. Os cidadãos têm de “pegar nesta cidade”, alter urbis de todos os cabo-verdianos. A pólis é feita de cidadãos (que votam e pagam impostos) e são estes a sua componente mais importante, afinal.

Um abraço apertado e fechado, como o anel rodoviário ora em construção, a todos os amantes da Praia.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Lúcia Cardoso em concerto

A conversa correu em torno de um recital sobre Padre António Vieira. Ela interessou-se pela opereta e quis saber outros detalhes. Em verdade, ainda o projecto permanece embrionário, meio no papel, meio na mente. Disse-me as suas ideias sobre os canticos e pedi-lhe que as repartisse com Ricardo de Deus...

De Renato Cardoso, recordamos algumas letras de música e algumas melodias imortais. E ela tem um projecto de passar tudo para a pauta. Achei bonito...e mais que necessário.

De abalada rumo a Cabo Verde, ela prometeu aproveitar as férias em actividades culturais. Filha de peixe...

l
Lúcia Cardoso em concerto
Temas de:
Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Chico Buarque,
Tom Jobim

Tó Tavares (viola)
Ricardo Deus (piano)

Auditório CCP/ICA, Praia, Cabo Verde, dia 27 de Abril, às 19.00h

terça-feira, 25 de abril de 2006

Sima pêtu Sheila


Nenhuma fruta me é tão serenada quanto ouvir a voz de Mayra Andrade. Voz feita de quietude e melaço. Vez por outra energética como o começo de um vendaval. Mas quase sempre eivada de remanso e mar calmo. Viva voz, aqui e agora. Outra voz. Doutrora. Arco-íris e mais cores. Lua nova, lua cheia, lua cambante...o céu por limite.

kandinsky

À beira do Mucuripe

Mergulhado nos arquivos

Escrevo, arduamente mergulhado nos arquivos, um livro sobre as relações comerciais (e outras) entre o Ceará e Cabo Verde. Tenho descoberto coisas interessantes e estou cada vez mais convencido de que estas relações, profícuas para os micro e pequenos empresários de parte a parte, estão longe ainda do seu potencial. Neste momento, há um projecto do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) para a abertura de créditos e fomento de exportação e parceria (leia-se joint-venture) entre as empresas cearenses e cabo-verdianas. Esta nova realidade impõe às empresas um realinhamento estratégico para uma nova fase dos negócios. Em certa medida, não se trata apenas de negócio ponta-a-ponta do crescente comércio (formal e informal, note-se), mas de uma rede complexa rumo a novos mercados (África Ocidental, Macaronésia e EUA). Uma nova engenharia empresarial, de maior porte e complexidade, deve ser pensada pelos decisores públicos e privados do Ceará e Cabo Verde. A pesquisas pelos arquivos, remotos e recentes, dão-me esta visão prospectiva...

Cabo Verde X Ceará: small is beatifull

Forçoso reconhecer de que o Brasil não é só um importante player na região, mas um grande player mundial. Autosuficiente em termos energéticos e alimentares, competitivo em termos científicos e tecnológicos, o Brasil caminha, ao lado da China e da Índia, para o ranking das superpotências. Tão grande e transcendente, com uma capilaridade assaz expansionista, que irradia diante dos pequenos países a proposta de novas formas de cooperação internacional. É a linha de “small is beatifful”. Destarte, ressurge a cooperação entre o Ceará e Cabo Verde, inaugurada com o vôo directo da TACV Sal-Fortaleza, um divisor de águas. E neste particular, é de se reconhecer, noblesse oblige, a visão estratégica do então Presidente da TACV, João Ramos e do seu Administrador Comercial, Jorge Spencer Lima, por uma iniciativa tão ousada na altura quão bem-sucedida a prazo...

José de Alencar à mesa

A ideia de abordar as relações entre o Ceará e Cabo Verde (uma bilateralidade atípica tratando-se este de um país independente e aquele de um estado membro da República Federativa do Brasil) nasceu há muitos anos. A sua gênese deve-se de certa forma a razões afectivas. E radica-se à infância, ficando Freud por explicar os seus meandros. Em verdade, o Ceará aparece na minha infância com os textos de José de Alencar que o meu pai, em iniciativa recorrente, fora lendo ao longo desses anos. E no meu imaginário de criança, recriava sertões e cangaceiros, caatingas e forrós, coronéis e cabras-machos. E, em tal filme que ora descrevo, falava-se da proximidade cultural com o Arquipélago. Ao tempo, eram obrigatórias as leituras de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro que provocara algum frisson na pequena, mas dinâmica, intelectualidade claridosa. A obra, que sistematizava o perfil sociológico dos mundos ditos lusotropicalistas e pós-escravocratas, abria pistas interessantes. E o apport de Gilberto Freyre me emprestara uma perspectiva paritária entre o Nordeste brasileiro e Cabo Verde, no tocante ao mosaico antropológico e cultural, definidor em última análise das formas de vida. Sem ser freyriano, nem claridoso, embora reconheça num e noutro enormes méritos (e as suas contradições inerentes), fui reconstruindo no pensamento os pontos de convergência entre os cearenses e os cabo-verdianos. Agora sei que a cachupa e o mangunzá são pratos parecidos. E a Ypióca e o grogue de cana-de-açucar são “primos carnais”. E o forró lembra ao funaná e a seresta à morna. Semelhanças impressionantes...

À beira do Mucuripe

Uma canção do Fagner. O seresteiro e o violeiro. Serenata de Cabo Verde! De repente, nesse Mercado Central, vejo que o Das Frutas Serenadas precisa de novos sabores, cores e odores: cajá, caqui, chichá, grabiru, guaraná, maracujá, pitanga, sapoti, caju, jabuticaba, carambola, biriba e graviola, cujo suco, à beira do Mucuripe, a minha mãe adora...

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Browsing


Aldemir Martins
Frutas
60 x 81 cmacrílico sobre tela

Viragem


1.
Momento vespertino com o poeta Dimas Macedo. Despertar para novos círculos da estética. Poetaria e crítica literária. Assaré, Alencar & Feitosa. A outra Fortaleza...

2.
Fim de tarde em homenagem a Pixinguinha. Centro Cultural "Dragão do Mar". A moça que executa "Ave, Maria", ao bandolim...e em jeito de chorinho. Chove. De mansinho...

3.
Alguém, longe daqui, fechou uma janela que dava para o mar. Mas eu fico a ver o horizonte azulado. Viajo no azul. De repente, a estrela solitária é o que sobra da alva...

quarta-feira, 19 de abril de 2006

In my craft or sullen art


Anoitece e estou diante do computador. Há um poema que se instala no monitor e pede para entrar no livro. Em estranho solilóquio, concedo-lhe um lugar no “Das Frutas Serenadas” (já fechadíssimo). A criatura é quem determina o Criador. Em silenciosa noite. Sempre...


E fiquem com os versos de Dylan Thomas (um dos meus eleitos):


In my craft or sullen art
Exercised in the still night.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Numa prece & Cia




Cronicando

O Pranchinha, nas calendas, purgatório ou lá onde navega, chamaria a minha atenção pelo facto de eu ser um cronista temerário, irresponsável mesmo. Mas não tenho outra cidade para amar e odiar. Conheci cidades interessantes como Belo Horizonte, Casablanca e Boston. Já andei por Nova Iorque, São Paulo, Lisboa e Dakar. Gostei de Ponta Delgada e Genebra. Mas para amar e odiar, só a cidade da Praia, onde nasci e me fiz homem. Em soalheiros dias, sem promessas de música, ponho-me a andar pela orla da cidade, em linguajar mais correcto na rol do mar, que nem mais é um passadiço de arreal e penedo, banhado pela onda furibunda. E ando ali no meu divagante pensamento face ao Ilhéu de Santa Maria. Sempre com amor e ódio, diga-se. E o Plateau é um espaço que se põe a render, destruindo sobrados patrimoniais e erigindo caixotes arquitectónicos. E, depois, qualquer dia, vira uma China Town. Como o Ilhéu de Santa Maria, aliás. Tudo muda. Mudando. E nós, tristes que somos, animais de capoeira. Orfãos que somos da Esplanada da Praça 12 de Setembro, destruída num rompante infeliz por alguém quase embriagado pelo Síndroma de Nero, o idiota que incendiou Roma. Sim, China Town…e porque não? Que não seja mal interpretado, gosto muito de lo mein de carne…

Das crónicas

A tentação de fazer das crónicas apenas o testemunho dos dias políticos existe, sim senhor. A política corridinha, rasca e doméstica nos interpela de tal forma, que o jeito é lhe dedicar, a cada semana, umas linhas cativas. Mas, pensando bem, o cronista assumiu-se de fait-divers e absolutamente livre das margens. Os dias que passam são políticos, culturais, económicos, sociais e o que mais queiram. E estas inumeráveis facetas do quotidiano é que fazem o tempo, o cronos e as crónicas. Assim, uma onda furibumba bordando em escuma a praia bordejante é tão narrável quanto o congresso deste ou daquele partido. E o grande investimento de David Show vale tanto quanto o profundo olhar de um transeunte. Tudo, tudo, tudo é vida (inclusive a morte) e eis que o cronista continua…de serviço.

Dos cronistas

Já vamos sendo muitos – uns sistemáticos e outros bissextos – a escrever pelos jornais e revistas. E as pessoas nos lêem nas barbearias, nos autocarros, nos cafés, nas casas de banho, enfim. Entre a novela, a política e o futebol, somos lidos na diagonal e quase sempre de esguelha, pois os leitores anda não se convenceram do seu papel crítico e, quem sabe, de co-autores. Mais do que isso, de protagonistas. A cidadania é também a cidadania dos leitores, capazes de pensar (em mais complexa dimensão e para lá do imposto) das coisas que acontecem. O investimento chinês no Ilhéu de Santa Maria, os exercícios na NATO, a integração à União Europeia, a imigração clandestina, a violência doméstica, em suma, as coisas que vão acontecendo e que os cidadãos vão lendo en passant como se não determinassem a nossa vida colectiva. Mas os cronistas continuam ali acesos e despertos. Chamativos e atentos. Acordai-vos…

O Relatório

Reli, com atenção, o Relatório dos Direitos Humanos, do Departamento de Estado Americano, e estranho o quiproquó feito por uns e outros mercê do seu conteudo. Em verdade, o Relatório descreve Cabo Verde como um dos países de melhor quadro de cumprimento das balizas humanitárias e isso só nos deve orgulhar a todos. Em 90% dos itens, estamos bem avançados, não só em relação ao nosso querido continente africano, mas aos demais que se dizem mais civilizados e com pretensões civilizatórias. Mas há os 10% periclitantes (e eles existem de facto) e devem ser identificados, assumidos e ultrapassados. A violência doméstica é um deles. A morosidade da justiça também, entre outros. E são questões colectivas, a merecerem um olhar crítico de todos nós. E não apenas o dos americanos que (a gente compreende) têm sérios problemas domésticos nesse capítulo e não poderiam velar sempre por nós. Em verdade, precisamos acertar muitas coisas que os americanos nem viram. Portanto, cuidemos nós (sem poltiquices de trazer por casa) das nossas mazelas…

Numa prece & Cia

Vamos chamar, sim, a atenção para os patrimónios naturais, históricos e paisagísticos, dos nossos ilhéus - Branco, Raso, de Santa Maria, Seco ou Rombo, de Cima, Ilhéu Grande, de Curral Velho e Baluarte.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Estranha nuvem

Uma estranha nuvem negra instala-se,
Pesada e vagarosa, onde, até ontem,
Corria, risonho, o meu coração
De criança ávida de graça e paz…de tudo.

Nuvem que não se explica, porque ruidosa,
No seu próprio silêncio e grave, aqui
E ali, onde quer que caminhe, na terra
E na lua, e direi no pensamento, mormente.

Um tanto esquecido, de mim e da morte,
Procuro dissipar a neblina e o frio, misteriosa
Brisa que, esquecida, retorna à minha lembrança.

Sem métrica, nem rima, de um reverso somente
Carrego, qual Sisifo, a filosofal pedra da vida
E vou à morte remediado de tudo…de tudo.

Filinto Elísio

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Rapado e não assaltado (na barbearia de Seu Aufredô)

No começo, achei estranho. Levar a cebeça a um aprendiz? Cabeça e pescoço, já que o propósito era cabelo e barba. E ele ali: jeito de aprendiz mesmo e um nadinha amaricado para o meu gosto (e Seu Aufredô, o barbeiro propriamente dito, tratava-o por bóia fria) . A vantagem é que era metade do preço e a carecada era de uma assentada. Em Cabo Verde, a barbearia era um ritual facilitado: primeiro máquina a zero e depois lâmina. O meu barbeiro já sabia do meu gosto: corte tudo que seja cabelo, menos sobrancelhas e pestanas. A desvantagem era a faladeira sobre o futebol e a política. E o aprendiz pergunta: com ou sem assalto? E eu, sem perceber, ao que ele corrige: as barbearias são assaltadas em Cabo Verde? E eu: creio que não, comigo nunca aconteceu. Aqui, umas cinco vez, quatro à mão armada. E explico: primeiro, tesoura, depois, máquina, e, finalmente, faca. Não, sempre com revólver, companheiro, disse o aprendiz de barbeiro. Conversa nesse tom, de cabo a rabo, lá acabei rapadinho e fresco como um leitão à hora do forno. Você ficou um gato e não foi assaltado, repetiu o aprendiz, para se recompor diante do meu olhar de censura. No que apareceu o dono da loja, o barbeiro propriamente dito: e aí, africano, tu curtiu o corte aqui do bóia fria? E eu, numa fina cumplicidade, aquiesci-me: nota dez, senhor, melhor do que na terra. Sem política, nem futebol…

Sol posto

Sol posto

O desamparinho foi quase nada. De um ai, o sol cambou-se no poente e no regaço do nada ficou este anil, mesclado de violeta e magenta. Ter-te-ia dito no chat duvidar dos deuses, dos pássaros em torvelinho e dos romances de Dan Brown. Da ponte metálica – chamam-na Ponte dos Ingleses-, restam a minha solidão, um casal que namora o fim-da-tarde e as jangadas de velas brancas. Estas, lembram à música de Fagner…

Diário de um homem normal

Mau grado a praga, proferida em ódio, e que às vezes pega. Morte, perseguição e/ou prisão, quando não invalidez ou exílio, e bate-se aqui em madeira, não vá o diabo tecê-las. Dizia, apesar do mau agoiro e do bad vibe, como diria o Denzel, agraciou-me ela, implacável como sempre, com a premonição da loucura. Isso me deixou feliz e mais humorado, nesta semana - mais chata que santa, diga-se -, em que escrevi (de uma assentada) a peça “Diário de um homem normal”, que, entrementes, prometera a um dramaturgo.

Os donos do mundo

Diante de um portentoso, mas esteticamente feioso, monumento, de soslaio e de esguellha se lhe roçavam os contornos, o Homem Normal começava assim o seu dia: pareceres ao ministro, dois telefonemas ao director do Gabinete e a leitura diagonal de um pedido de patrocínio. Refeito da primeira rotina, ele telefonava à cantina a ver se havia a pizza de chouriço e navegava (sempre sem querer) pelos blogs da praça. E o monumento, eterno naquele semblante de pedra! Escrevia um plano de trabalho e desistia de convencer aos donos do mundo que a radicalização seria mister. Matava-se nos dias. Aliás, estava morto de há muito. Como o mostrengo do monumento…arre (para não dizer porra)!

Lendo Pedro Cardoso

Li, em tanta sofreguidão, os versos todos
A verve tântrica de palavradas ilhas
E a praça se pressente, e a Brava ao largo,
E a quilha dos barcos em redondilhas.

A raiva toda, senti-a no corpo e na alma,
De pés descalços pelo dorso do vulcão,
Mãos percorrendo corpos de pedra negra,
Calcinados campos onde as uvas solfejam.

Li-os, página a página, a medra da cal
De tão brancas e térreas casas, arrieiros
E sobrados desaguam na matricial igreja.

O rufar dos tambores, o relinchar dos cavalos,
Em festas de pilão e bandeiras, e a procissão
Imensa (quase eterna) e eu nesse Presídio…

Filinto Elísio

Quarteto, trio, dueto & solo

Vaticinou o fogo, mas faltou-lhe o vento
A terra e a água, o quarteto iniciático
De o Verbo ser o começo de tudo, inscrito
Em letras do mistério no Sagrado Livro.

Reiterou o pai, o filho e o poeta, trindade
E trio que emproam, em luz e brilho,
A estrela d´alva de um dia e sua sompra,
Nuvens que correm na manhã nublada.

Quem sabe chove, aqui e no mundo, agora
Em dueto canta-se o arco-íris que decresce
Como um sol que se assenta ali no poente.

Faltou-lhe tudo afinal, a paz e a guerra,
A solidão desbotoada da rosa e o perfume
Que enebria a una verdade de sermos solo…

Filinto Elísio

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Lança-perfume

1.

Rita Lee, uma das maiores expoentes da Música Popular Brasileira, apresentou um soberbo espectáculo no aterro da Praia de Iracema. Tudo, e muito mais, para comemorar os 280 anos de Fortaleza. Com os pés atolados na areia e o pensamento esvoaçado no mundo, lá cantámos em uníssono Ovelha Negra, Amor e Sexo e Doce Vampiro.

(…)
Me acostumei com você
sempre reclamando da vidaaaa
me ferindo, me curandoa ferida
mas nada disso importaaaa
vou abrir a portaaaa
pra você entrar
beija minha boca
até me matar
(…)

Mas o melhor da noite foi Luzianne Lins, Prefeita de Fortaleza. No fim do espectáculo, afirmou: “Queremos muitas mudanças. Não queremos apenas crescimento económico. Queremos mais democracia e justiça. Queremos que o fruto da produção e do crescimento sejam distribuídos eqüitativamente. Não podemos ser mais o país da desigualdade nem a capital da injustiça social”.

2.

Mas já se faz tarde. Tardíssimo. E estou com sono, soninho, como diria o meu filho Pablo.

(…)
Vem cá meu bem, me descola um carinho
Eu sou néném, só sossego com beijinho
Vê se me dá o prazer de ter prazer comigo
(…)

Lança, lança perfume…

terça-feira, 11 de abril de 2006

Pluma na lua

Para Nancy Morejón e Omar Camillo


Tendes vós, com mesuras retesadas, a noite
Com que o Judeu, de Shakespeare, dita ali
Sua injustiça, profana ou santa, em Veneza
E encanados fostes do Verbo, e em primo frutos…

Fostes, das tremeluzentes estrelas, a cadente
E a rápida trajectória do risco e do cisco, ao micro
Olhar de um campónio aos vastos campos
E a mão incerta que à linha o peixe aguarda…

Poetas, como pescadores na lua, e em pluma
Flutuam no jusante das palavras e a medra,
ora pedra, ora Fedra, à sombra e sua metáfora…

Em primo ou sopro derradeiro, Esopo ou átomo,
Ilhas irradiadas no espaço anil e vão do mar,
Sois de mim, dados frutos, oh implacáveis…
Filinto Elísio

Fortaleza, 2 de Abril de 2006

Retalhos

Corda bamba

Leio os blogs todos, recebendo, de cada um, os seus implacáveis recados. Em verdade, com ou sem pessoalizações de permeio, já somos um movimento e creio mister o reforço da causa. Assumidamente. Como tudo o que começa e um dia terá pernas para fazer o seu caminho, andamos ora como equilibristas na corda bamba…

Arco-íris

Acabo de ver um arco-íris. Da minha janela, o arco se vê perfeito. Uma espécie de apoteose depois da chuva. Parece até que o dia recomeça. E o meu coração, então encharcado, sorri de novo. Acho que alguém canta um samba antigo. De Lupicínio Rodrigues, se não me engano. Algo que me transporta à infância…

280° Aniversário

Fortaleza comemora 280 anos, com muita actividade cultural. Amanhã, pela noite, será o show de Rita Lee, na Praia de Iracema. Não vou perder. Gosto do estilo roqueiro-nacionalista de Rita Lee. E a irreverência da forma e do conteúdo como encara a arte. E a vida…

Quadros da Diáspora

Será para breve mais um Congresso do Quadros da Diáspora. Ocasião de ouro para falarmos da Nação Global Cabo-verdiana. Tirando uma ou outra mania elitista, deste ou daquele “dotorado”, a iniciativa é louvável e merece o nosso aplauso.Continua oportuno o “suicídio da pequena-burguesia”, em prol de mais soberania, democracia e desenvolvimento. Cabral era um visionário. Vendo as coisas como estão, saibamos distrinçar o trigo do joio…

Golpe de Estód na Paraíse

Vamos ver se deixamos em casa o bairrismo e o neocolonialismo, pois Cabo Verde não pode parar. A “turbinada”, na teia de todas as praças, precisa compreender que só estaremos abertos ao mundo se assumirmos as nossas matrizes crioulas. Sou negro, sou branco, sou das ilhas, sou do mundo. Sou sincreticamente cidadão. Setenta anos sobre a Claridade, temos de ser “independentes”, sem síndromas da Casa Grande e Senzala. Cabeça em movimento…eia Orlando Pantera!

Mayra Andrade

Escreveu-se isto sobre Mayra Andrade, uma das maiores revelações musicais de Cabo Verde, e peço desculpas para transcrever o texto. Para os cépticos da excelência e da competitividade “berdianas”, ora tomem…et voilà:

Un soir de janvier 2004, mû par une sorte de rumeur distillée depuis quelque temps, je fais escale au Satellit Café, un club à musique live du quartier Oberkampf de Paris, fortiche dans la mise en orbite de jeunes pousses, disons, "world". Et là, un choc, une découverte comme ça n'arrive même pas une fois l'an : Mayra Andrade redessine les contours musicaux de son pays, le Cap Vert, avec grâce, aplomb et, chose rare pour une fille qui n'a pas encore 20 ans, retenue. Certes, on sait grâce à Cesaria Evora où se trouve cet archipel (à 500 km au large du Sénégal) et on découvre peu à peu que cette terre aride ne chante pas d'une seule voix, qu'elle est foisonnante de rythmes, Morna, Coladera, Funana, Batuque, qu'elle est riche en auteurs et interprètes, rarement restés au pays, plutôt installés loin du port, parfois exilés.Mayra n'est pas une exilée.
Elle vit à Paris depuis 2003, et ses parents lui ont donné le goût de la bougeotte : née à Cuba, elle grandit entre Sénégal, Angola, Allemagne et, tout de même... Cap Vert. Les premières comptines de ses années d'enfance sont brésiliennes. Mais c'est avec une chanson de son pays, en créole capverdien, qu'elle remporte la Médaille d'or des Jeux de la Francophonie au Canada face à 35 concurrents. Elle a alors 16 ans. Mayra Andrade enchaîne les scènes, à Praia et Mindelo (Cap Vert), puis à Lisbonne, et en France, à partir de 2002, de petite salle parisienne en grand festival d'été. Elle assure la première partie de Cesaria Evora au New Morning. Au Brésil, elle représente encore une fois son pays, pour un "single" au profit de la lutte contre le Sida avec notamment Lenine et Chico Buarque. En 2005, Aznavour l'invite sur son nouvel album pour un duo en français. Partout où elle passe, elle subjugue.
Mais voilà, la rumeur enfle et toujours pas de disque. Ca devient crucial. Mayra, qui a du caractère, résiste à la pression et, plutôt que de céder aux sirènes de productions précaires, préfère attendre une proposition plus consistante. Ce qui finit pas arriver en 2005.
Voici donc ce "Navega", "sur les flots". Un régal d'album qui n'a rien d'une production pharaonique, qui mise au contraire sur la simplicité, le tout acoustique, et où elle affirme farouchement sa liberté. Elle puise certes à... 93% dans la langue patrimoniale de l'archipel, mais c'est le disque d'une Capverdienne urbaine, et qui plus est, Parisienne.
Elle pioche donc dans ce foisonnant vivier parisien, avec deux de ses piliers (le bassiste camerounais Etienne Mbappé et son compagnon de scène, le percu brésilien Zé Luis Nascimento et amène avec elle un remarquable guitariste compatriote, Kim Alves. Quelques invités ponctuels de haut vol : le Brésilien virtuose Hamilton de Holanda (bandolim, la mandoline du cru), le lutin malgache Régis Gizavo (accordéon), le violoncelliste Vincent Segal (moitié de Bumcello), ses complices scéniques, les guitaristes brésiliens Tarcisio Gondim et Nelson Ferreira. En prime, une chanson en français, la seule, due à l’innatendu Téte, "Comme s'il en pleuvait", dans une interprétation espiègle. Un album subtilement produit par un expert du genre, Jacques Ehrhart (Henri Salvador, Camille, …).
Ces ingrédients jazz, afro et brésiliens donnent d'autres reflets à des musiques qui pour partie viennent de l'archipel (quatre sont dûes à l'immense auteur-compositeur Orlando Pantera, récemment disparu, d'autres émanent de belles plumes de là-bas). Trois thèmes sortent de la plume leste de Mayra Andrade elle-même (dont une en collaboration avec Patrice Larose).
En égrenant ce disque, goûtez donc les traductions des textes, le dramatique y côtoie le facétieux, l'exil où l’on perd le nord s'y choque avec la démocratie qui perd la boule, des personnages sans âge y croisent des figures d'un autre âge.
Avec "Navega", d'une voix à faire chavirer les âmes et chalouper les coeurs, Mayra trône à la barre sur son monde et surfe... (sur les flots) pour conquérir les mers et les terres.
Grande, déjà très grande...
Le 2 avril 2006
Rémy Kolpa KopoulconneXionneur
- Radio Nova (Paris)

domingo, 9 de abril de 2006

Deus é crioulo

Ouvi dizer que, na sequência da aprovação do Programa do Governo, um destacado da oposição teria dito, meio out-of-the-blue, que José Maria Neves julga que “Deus é cabo-verdiano”. Antes julgasse! Antes julgássemos! Em verdade, só os grandes povos tiveram deuses – Osiris, Jeová, Zeus, Alá ou Oxalá. O Pranchinha, abusado e agnóstico quando era vivo, dizia que só os “menores” adoram deuses alheios. Ora, bem, temos de levar isto mais a sério e introduzir o postulado. Reparem que Deus até já foi brasileiro. Há um sem número de sambas a dizer isso. E se o Brasil, valha-nos Deus, ganhar a Copa do Mundo 2006, recordíssimo, então…Deus é cabo-verdiano (quem provará o contrário?). Ele não tem de ser necessariamente dos árabes e judeus, para não dizer dos gregos e troianos…

No equinócio

Apócrifo Evangelho

Ouço a rádio, enquanto escrevo. Ora conversa, ora música. Domingo é assim. Arrumar a casa e escrever um bocado. O dia está solarengo, mas não me assumo com hábitos do turista de sol e praia. De resto, estou cá para aprender. Falando nisso, encanta-me ler o Evangelho Segundo Judas. É refrescante e apaixonante. Fomos aprendendo sempre pelos evangelhos canónicos (isto é, aqueles reconhecidos oficialmente pelo poder eclesiástico), mas às tantas nos sentíamos cristãos, católicos mesmo, mas não apostólicos romanos. Assim, os outros testemunhos começam a incendiar a nossa imaginação. No mundo da Gnose, tudo é permitido. Os gnósticos apreciam o Demiurgo, o dito criador do Universo, e, por conseguinte, o vórtice da substância e do caos. Eis que o Filho do Homem vai a Jerusalém e enfrenta o seu próprio destino. Não é o que nos contaram ao longo da vida. Cristo não precisave de Judas para ser traído. Em todas as sociedades dos homens, os traidores (e há muitos) ao lado dos iluminados. Mas leiam, por favor, Envangelho Segundo Judas…

Germano Almeida

Germano Almeida, o mais celebrado dos ficcionistas cabo-verdianos, acaba de lançar em Portugal o seu último livro “Eva”. Fico curioso. Dele (Germano Almeida), guardo como relíquia “Ilha Fantástica”, “Dois Irmãos” e “Testamento do Senhor Nepumuceno Araújo da Silva”. E do relacionamento pessoal (já que me considero amigo), guardo as bissextas, porém caudalosas, conversas às sextas com Tchalé Figueira e Vasco Martins. E os poucos encontros durante a campanha de reeleição do Comandante Pedro Pires. Uma figura, esse Germano! E conhecedor do bom vinho, a bebida dos deuses. Ficcionar Cabo Verde é extremamente importante para a nossa identidade, disse Germano Almeida numa entrevista à RDP África. Ficcionemos, pois, Cabo Verde…

A toponímia do logradouro

Há dias, na inauguração do Memorial à Fome e às Vítimas do Desastre da Assistência, em cerimónia presidida pelo primeiro-ministro, apareceu o nosso amigo Nuno Duarte com um cartaz a reivindicar a reposição do nome Desastre da Assistência à rua ora chamada Cabo Verde Telecom, por sinal a empresa patrocinadora do monumento. Confesso ter ficado encantado com a atitude e o gesto de Nuno Duarte. Houve gente que não gostou, entretanto. Houve gente que pretende o aparato ao invés da essência. E o próprio desenho conceptual do arquitecto Carlos Hamelberg interpela mais ao conteúdo que à forma (tríada futurista em obelisco), diga-se. O Desastre da Assistência se impõe, em verdade, como um dever de memória e isso é uma forma qualificada da cidadania...Quando cheguei em 1980 a Belo Horizonte, Minas Gerais, como estudante de Biblioteconomia, havia aquela rua chamada Dan Mitrioni, um torturador estrangeiro, morto no Uruguai por guerrilheiros Tupamaros. Era um tempo interessante, de muita militância e muita cidadania. Tanto que a comunidade local conseguiu, depois de muita luta e insurgência civil (belos tempos), substituir o nome do “putamadre” pelo de José Carlos da Mata Machado, revolucionário assassinado pela policia política dos tempos da ditadura militar…A cidade da Praia, por ser antiga e capital, precisa rever a sua toponímia e trazer à colação nomes, feitos e referências historicamente mais recomendáveis…

No equinócio

Nha Gina dizia que eu seria um contador de histórias. E nas quentes noites, eu contava a melhor, dizia ela. Meus pássaros, sei contar-vos as histórias escondidas e pelos logradouros, dos largos aos becos, as fronhas de uma alegria estão aqui guardadas como um tesouro. A brisa em contraponto e a barlavento, e o espampanante silêncio do sotavento, tudo é navio velejando à hora da beleza. Poesia...como era aliás apanágio à porta daquela soleira!

sábado, 8 de abril de 2006

Saco

Sábado preguiçoso, de chuvoso e meio frio. Aproveita-se para ler os jornais de Cabo Verde. Para arrumar os meus livros chegados ontem, em caixas, numa estante provisória. Para surfar, num passeio acidental, pelo Internet. Hoje, é dia de feijoada brasileira e de andar a cidade. Um míssil é encontrado pela polícia na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. O escândalo da classe política continua a alimentar a imprensa sensacionalista e não só. Ontem, perdi um debate sobre a poesia repentista, por ter ido ao aeroporto. Hoje, estou “desinspirado” e lento. Só me apetece abraçar os meus filhos e ler um poema de Drummond de Andrade. Sábado preguiçoso…que saco!

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Codex Alimentarius




Est-ce qu'on ne pourrait pas faire un véritable néo-impressionnisme culinaire, un dadaïsme culinaire, une cuisine abstraite ?

Hervé This. La Cuisine c'est de l'amour, de l'art, de la technique


Pagando para ver

Hoje, lembrei-me do meu amigo Mamour Bá, músico senegalês que também estudava em Belo Horizonte, nos idos anos oitenta. Quando a sua filha nascera, ele ninava a primogénita ao som do korah e eu pagava para ver tão pungente cena. Soube, pelos amigos comuns, que ele tem rodado o mundo, mostrando os seus prodigiosos tambores e palestrando sobre as virtualidade pedagógicas da música. O Crisolino, outro do nosso tempo, ficou de me mandar “O Corpo é Sonoro”, CD com que Mamour Bá está a conquistar o mundo. Eyes of beholder…

Adeco, Prodeco & outros decos

Comer hoje é uma grande aventura. Os gourmets ponham-se a pau. Recentemente, assisti na TCV uma reportagem (creio que de Odair Santos) sobre a matança de animais em plena rua, na cidade de Assomada. Reportagem bem feita, porque inusitada e corajosa, a questão reclama, com urgência, o olhar das autoridades municipais e sanitárias. O que é da sociedade civil, minha gente? Neste mundo das vacas loucas e da gripe aviária, a cultura alimentar do consumidor é uma estratégia de sobrevivência. Ninguém deve apanhar algo na loja e no supermercado, sem ler a composição e o prazo do alimento. Temos de fortalezar os Adeco, Prodeco & outros decos. Eles acabam por ser mais importantes do que os partidos políticos. Pode? Naturalmente…

Codex Alimentarius

Falemos da estética culinária. Sem dramatismos. Será a cozinha uma forma de arte? Ou simplesmente um elemento do código da alimentação? Nesta época pascoal, embora en não seja religioso, o meu pensamento fica, com água na boca, no Arroz de pato à dona Mindoca e no Bacalhau na tábua à tia Sílvia. Pelo lado materno, tenho grandes chefs, a começar pelo meu avô João Henriques de Almeida Cardoso, famoso funcionário da Fazenda Pública e cozinheiro do Guisado de cabrito e Arroz de cabeça de atum. A minha tia Xixi também, mas esta é especialista em doces e bolos. Bolo de frutas secas, nem conto. Devo ter herdado algum jeito desta minha maravilhosa gente. Mamour Bá, artista de mão cheia, jurava que o meu Bacalhau à Gomes de Sá era o melhor do mundo. É que ele, modéstia à parte, nunca experimetou o meu Molho de São Nicolau..

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Alvoroda chuvosa em Fortaleza





1

Logo ao romper da alva, a cidade adormecida ainda, vou à janela ver a réstia da chuva. Adoro a chuva. Acho que a chuva todo o cabo-verdiano adora. Encanta-me a fresca brisa que a acompanha. O céu plúmbeo e carregado de nuvens cinzentas. E a promessa de um dia ensolarado mais à frente. Aqui, deste 11° andar, apetece-me flutuar no pensamento. Levitar no espaço sideral devia ser um direito constitucional. Ou, algo mais em conta, um direito humano. E assim, sempre que nos desse a gana do imponderável, toca a flutuar, camaradas. Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências. Quero a chuvosa manhã (pessoana) de não pensar em nada…

2

Entrementes, na televisão (baixinho para não acordar a cidade), um cientista afirma que afinal o rio Nilo – the Big River – não nasce no Lago Vitória, entre o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, onde acontecem muitos outros rios africanos. Mas sim na floresta de Nyungwe, no Ruanda, seguindo o fio do rio Akagera. Uma expedição de cientistas, apoiada por satélites de localização, confirma a nova nascente do maior rio do planeta.

3

Antes lia muito. Devorava, com antropofagia, os autores alinhados nas estantes da biblioteca do meu pai. Hoje, sou mais bissexto…e malandro. Mas, assim mesmo, só como aperitivo ou digestivo, vou lendo algo…se o título me encanta. Et pour cause, começo a ler, neste afã chuvoso, o romance “"Al-Gharb 1146 - Viagem Onírica ao ‘Portugal’ muçulmano”, de Alberto Xavier, comprado ontem numa livraria no centro da cidade. Uma prosa inteligente, a retratar a influência do Califado de Córdoba sobre toda a Península Ibérica, em que prevaleceu uma verdadeira democracia religiosa entre mouros, judeus e cristãos. E porque o mundo não se esgota na intolerância da alma e na intransigência da fé, acho que tomo coragem para chegar ao fim deste inusitado romance…

4.

Divago. Onde estávamos mesmo? Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências, está na hora de sair de casa…o dever me aguarda, companheiros!

segunda-feira, 3 de abril de 2006

O Mundo e o Belo

Saúdo efusivamente o Programa Casa da Cultura, que o artista plástico Abrão Vicente acaba de inaugurar na TCV. Distante de Cabo Verde, acompanhei a notícia pelo blog Son di Santiagu e, conhecendo a verve do Djinho Barbosa, fiz fé sobre as virtualidades do programa. Oxalá novos tempos comecem na TCV, que bem deles precisa. Os bons programas, como Monumentos e Sítios e Kultura, e, passem algumas controvérsias, Debates, deixaram saudade e é preciso que algo de qualidade os substitua. Abrão Vicente é um menino que já viu o Mundo e o Belo. E ergue agora uma casa, sem porta, nem janelas, mas tomada de alma e de espiritualidade. Mi n ta mora li…

Os indocumentados

1.
João K., nome falso e aleatório, está nos Estados Unidos há 10 anos. Ele não obteve ainda nem o Green Card (o cartão de residência), nem o Social Security Card (a cartaira de trabalho e do seguro social). Trabalhador, vizinho exemplar e bom chefe-de-família, João K sustenta a sua prole, algures num subúrbio de Boston, e sustenta os seus pais e irmãos em Cabo Verde. Mais, abriu uma conta-emigrante num banco em Cabo Verde e o seu extracto bancário confirma ser um excelente cliente. Como milhares de cabo-verdianos, na mesma situação, João K votou nas eleições legislativas e presidenciais de Cabo Verde. Não diz no quê, nem em quem. O voto é secreto, ora. Algum problema, meus senhores?

2.
Recentemente, mercê da política doméstica, alguém tentou pôr em causa a legitimidade dos cabo-verdianos “ilegais” nos Estados Unidos, mas com passaportes cabo-verdianos válidos, votarem nas legislativas e presidenciais de Cabo Verde. A princípio, achei a ideia um tanto ao quanto bizarra, para não dizer bizantina, para logo depois concluir pela perversão e intolerância desse pensamento. Antes de mais, seria mister analisarmos, em termos da nossa própria constitucionalidade, em que cenários um cidadão cabo-verdiano perderia a sua nacionalidade. Depois, ao querermos questionar a questão da dupla ou da múltipla cidadania, não poderemos admitir o cenário da não cidadania para qualquer cabo-verdiano. E, finalmente, não poderemos formular a ideia da Nação Global se subtrairmos aos cabo-verdianos espalhados pelo mundo, legais ou não nos vários países de acolhimento, a sua capacidade de participar da vida cabo-verdiana (política, cultural, social, económica, outra).

3.
No que concerne aos Estados Unidos, milhares, senão mesmo milhões, de americanos e não americanos preparam-se para marchas históricas, a 10 de Abril, recordando as marchas cívicas dos anos 60, desta feita protestando contra um um projecto de lei, que prevê a selecção de imigrantes de acordo com a respectiva nacionalidade, e a criação de «bolsas de estrangeiros» autorizados a permanecer no país para ocuparem empregos mal pagos, designadamente no trabalho doméstico, restauração e construção civil. A lei põe de imediato em causa a permanência nos Estados Unidos de muitos indocumentados, entre os quais muitos, muitíssimos, cabo-verdianos.

4.
Paradoxalmente, os imigrantes considerados ilegais representam actualmente cerca de 5% da população activa dos EUA, e a tendência é de aumentar. Segundo a Pew Hispanic Center (PHC), sediada em Washington,, o mercado de trabalho norte-americano registou um aumento de 400 mil indocumentados, em 2005, o que faz ascender a 12 milhões de estrangeiros as estimativas dos indocumentados a viver nesse país. Em suma, a América é grande também graças aos imigrantes. Inclusive, os indocumentados como João K., nome falso e aleatório, …eis a verdadeira realidade.

5.
Voltando a Cabo Verde, o que motivaria um político cabo-verdiano a misturar, alhos com bugalhos, a indocumentação de muitos cabo-verdianos residente na América com a capacidade destes votarem? Temos todos, até às últimas consequências, de pensar no alcance perverso de tal motivação… João K., nome falso e aleatório, é cabo-verdiano de pleno direito, meus senhores!


domingo, 2 de abril de 2006

Ora chove, ora faz sol




1.
Da cozinha, uma telápia feita ao molho de limão e malagueta, um caldo de mancarra e um arroz branco. Em tributo ao meu amigo Mário Rosa, prezadíssimo Maruca, ex Embaixador da Guiné-Bissau em Washington, dizem-me que agora político. Era ele que, em tardes de muita discussão sobre o futuro da África, me ensinou a confeccionar alguns pratos típicos da Guiné-Bissau. Meio exilado, Maruca escrevia um diário implacável sobre os bastidores da sua vida diplomática e eu terminava o livro “O Inferno do Riso”. Tardes inesquecíveis de um Inverno tomado de neve. Em Quincy, Mass…

2.
Não me esqueço daqueles dias em Lisboa. Os três na plataforma da Estação de Parede. Sempre gostei da Estação dos Caminhos de Ferro. Remetem-me ao cancioneiro de Milton Nascimento e ao frenesim de Alewife, em Cambridge. Foram belos momentos em Lisboa, apesar de em Madrid a barbárie ter explodido então uma Estação dos Caminhos de Ferro. Adiante…

3.
Ora chove, ora faz sol. Ora vou a janela, ora fico diante do computador. Como naquele poema de Arménio Vieira, falando do relógio de cucos. Este é um ano das efemérides. A Claridade faz 70 anos. O movimento Pró Cultura e a folha literária Sopinha do Alfabeto fazem 20 anos. O primeiro romance em crioulo de Cabo Verde (a língua materna, preferente e maior dos cabo-verdianos), Odju d´Água, de Manuel Veiga, também faz 20 anos. Ora chove, ora faz sol. Mas importa termos memória…

4.
Prometo só escrever palavras certificadas. Aquelas que podem ser encontradas, a baixo preço, no supermercado dos termos. E que a defesa dos consumidores as ateste dentro do prazo e próprias para o consumo. Em momento algum trarei palavras do mercado negro. As minhas frases não estarão fora de jogo, nem irão falhar penalties. Prometo não ficar completamente nu perante o leitor. Terei, pelo menos, uns óculos escuros…para que a moral não entre de vez em paranóia!

5.
Saio do mote deste blog para sugerir com verdade a leitura do livro “Nação Crioula”, de José Eduardo Agualusa. Li-o de uma assentada…

sábado, 1 de abril de 2006

Em "chuvoso"

Sábado acordado em música. Sara Tavares e o seu Balancê. Chove torrencialmente em Fortaleza. Pego no meu romance para arrastar um bocado. Alombo com ele desde 2001 e, de quando em vez, refaço este ou aquele retrato. Cabo Verde é a minha limalha de fogo e ferro. Nuvem, lêvada e cinzenta, carregada a trote do vento. Esquivo ao calor, um griso de arrepiar vem da Serra e estende-se no tapete da neblina até ao mar. Gosto quando chove, escrevo e escuto música. Há mais química com o tempo. E com o espaço. Preciso do Weather Report, para viver…

sexta-feira, 31 de março de 2006

Notas soltas...com leite de côco

1.

Dia mais ou menos livre. Ontem, entreguei o meu Plano de Trabalho à AGÊNCIA e aguardo o feedback. Hoje, estou mais doméstico. Enquanto isso, faço a ménage do meu apartamento e a panela coze um guisado de frango com mandioca. E com leite de côco, esqueci-me de pontuar. Da mesa da escrita, o Denzel e o Pablo, meus pássaros, sorriem para mim da moldura fotográfica.

O funaná entra, lento e melodioso, pelo meu portátil. É a Rádio de Cabo Verde, repescada pela www.nave.cv . Zeca di nha Reinalda e a sua voz inconfundivel:

Oh, Segunda, kela ka ta fazedu…

O noticiário diz que anda um Director da Prisão, agora demissionário, a contas com a Justiça. Pelo entendido, há uma grande nebulosa sobre o caso. Que o mesmo não seja partidarizado, como quase tudo o que acontece. O importante é que a Justiça funcione…

2.

A Justiça funciona? Acho que funciona sim, ainda que malmente. Há dias, apareci diante de um Procurador a depor, como testemhuna, contra a agressão a que uma advogada foi vítima. Isso me fez lembrar uma queixa contra mim, porque Visaonews publicou um artigo não assinado e que caiu no desagrado de um dos nossos deuses pés descalços. E, por ironia do destino, não tinha sido eu o autor do artigo! Eu era (e sou) apenas um dos accionistas desse jornal online, por sinal presente em Cabo Verde na altura. Não entendi a queixa contra mim, mas Freud explica. Ele tem costas largas. Na altura, quis usar aquele dispositivo constitucional de mandar tudo e todos às urtigas, mas deixei correr a palhaçada e, como se previra, não deu em nada. A questão acabou plasmada no Relatório dos Jornalistas Sem Fronteiras e no dos Direitos Humanos, do Departamento de Estado Americano. Mas a Justiça funciona. Ela, por exemplo, convocou o Manuel Delgado, jornalista senior da nossa praça, por telefone a comparecer “daqui a duas horas” e este, tão brilhante quão irreverente, contou-me das ternuras que disse à “autoridade”. Funciona sim, e como funciona! Eu, por exemplo, fui agredido por um animal raivoso e à traição, e até esta nada. Arrependi-me mil vezes não ter revirado a afronta na hora, saldando ali as contas com o “amofinado justiceiro”. É um detalhe tão somente, mas, como diria Flaubert, “le bom Dieu est dans le détail”…

3.


Não sou daqueles que diaboliza o Estado e, importando lixeiras ideológicas, vocifera pelo seu fim. Defendo antes um Estado democrático e social, sobretudo num país como o nosso. Cabo Verde precisa de Estado ágil, moderno e forte. Isso não significa a defesa de uma economia sem mercado ou de uma cidadania esquecida do bem-estar e da qualidade de vida. A riqueza é gloriosa, vaticinou Deng Xiaoping, algo que os pós estalinistas, trotskistas e “trotskeiros”, bem como os tais deuses pés descalços, nunca entenderam. O buraco tem sido sempre mais em baixo, companheiros. Temos de ter um Estado que assuma a Educação, a Saúde, a Segurança, a Justiça e a Política Externa. Para o resto, valha-nos Deus, terá de ser a sociedade…civil, ora.

4.

Março, mês do Teatro, termina hoje. E queria não só saudar João Branco e Francisco Fragoso, cada um imprescindível à sua maneira, mas também fazer uma homenagem a Sammuel Bekect, cujo centenário do nascimento já se comemora em todo o mundo. Entrementes, da cozinha, ressalta o aroma do frango guizado com mandioca. Tresandada a leite de côco. Quanta fome…

Oh, Segunda, kela ka ta fazedu…

quarta-feira, 29 de março de 2006

A lacónica flor da língua

A flor do lácio e o roteirista de surpresas

Para alguém, como eu – do antanho apaixonado pela museologia e pela língua portuguesa –, o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado recentemente na cidade de São Paulo, é um bálsamo. Fico a imaginá-lo de longe e a namorá-lo no pensamento. Ou, então, a acariciá-lo virtualmente, pelo Internet. Ele permite de facto um conhecimento intensivo e exaustivo da língua portuguesa e nos confirma a pujante (e ainda não totalmente acordada) existência da lusofonia. Outrossim, ele se revela, a um tempo, real e fantástico. Como adoraria aprofundar o meu conhecimento sobre museus interpretativos, que usam as tecnologias de comunicação de ponta para embalar conteúdos de assaz interesse colectivo. Importava reafirmar que os museus hoje em dia não apresentam apenas artefactos, mas ideias e imaginação. Anteriormente, o curador era um guardador de peças, agora ele e um roteirista de surpresas. Isso me encanta…


Sucessão no MpD ou algo mais sério

A propósito da sucessão no Movimento para a Democracia (MpD), acertada depois do duplo desaire eleitoral, o meu confrade Manuel Delgado tocou num aspecto realmente importante ao dizer que o deputado Jorge Santos, para ele o melhor posicionado, “apesar de ser preto, é de Santo Antão”. E, o pior, ele assume isso como um “defeito” em conexão a que denomina o “badiuísmo que inquina a elite política cabo-verdiana”. Amigo, respeitador e ciente da pena de Manuel Delgado, procurei ler o artigo sob vários ângulos antes de me pronunciar. Mas não pude deixar de ficar intrigado com o vector nele impregnado. Ora, os “defeitos” de Jorge Santos não se radicam em ser “de Santo Antão”, o que em Cabo Verde não será condição suficiente para ganhar e/ou para perder qualquer pleito. E muito menos a pretitude, seria condição sina qua non da ascensão e/ou queda de alguém na Ilha de Santiago. Os seus “defeitos” serão com certeza outros…Ademais, não é o “badiuismo” que inquina a politica cabo-verdiana. Mas sim o regionalismo estreito e letal, o bairrismo besta (vamos botar besta nisso), de uma elite, que, a continuar, poderá indicar caminhos tenebrosos e desavindos. O “badiuismo”, assim como o “sampadjudismo”, seriam faces opostas da mesma moeda, há muito fora da circulação, mas que sub-repticiamente gente bem localizada utiliza como cavalo de batalha. A indivisibilidade de Cabo Verde e os fundamentos da cabo-verdianidade, conceitos eivados de significado, revelam que realmente somos um povo coeso e único, e que a diversidade dos nossos jeitos e trejeitos, longe de ser um condicionalismo, é a nossa grande oportunidade. Por isso, uma outra abordagem, por favor…

Torres verdes para Nova Iorque

Em Nova Iorque, tornou-se importante e correcto construir prédios ‘ecológicos’. Isto é, edifícios projectados para diminuir o impacto sobre o ambiente – com sistemas para economizar a água e a energia eléctrica. As maquetas dessas novas edificações estão expostas no museu dos arranha-céus, em Manhattan. Há pelo menos uma dúzia delas, nomeadamente a nova sede do jornal The New York Times, o corporativo "The Hearst Tower", residencial "One River Terrace" e a Torre da Liberdade, que será construída no "Ground Zero" (terreno onde se localizavam as torres gémeas do World Trade Center), entre outras. Mas tudo indica que, muito em breve, as casas ecológicas se tornarão populares nos Estados Unidos e no resto do Planeta. Em Cabo Verde, agora que pretendemos dar vida (e sustentabilidade) aos ZDTIs, a questão poderá perfeitamente ser levantada com acuidade. A ecologia deveria encarada como pré requisito para o investimento imobiliário e turístico. E para que não fiquemos a ver navios, os nossos edis e arquitectos deveriam fazer-se por uma sensibilidade ecológica. Verde que te quero verde…

domingo, 26 de março de 2006

Distante do Pranchinha


Nota necessária

O S/Cem Margens entra numa nova fase. Distante do Pranchinha. Os sinais foram dados nas últimas semanas. Fi-lo com enigma, naturalmente. A realidade sem a magia seria “bera”, o leitor poderá imaginar. Mas, sob o diáfano da sombra, deixei as pistas necessárias. A literatura tem a sua vertente confessional e Flaubert teria dito a grande verdade quando, sobre a pressão das autoridades e dos bons costumes, assumiu “Madame Bovary c’ est moi”. Tudo sou eu, ao fim e ao cabo, e daqui a alguns anos alguém dirá terem servido estas notas, em forma de crónica, para algum entendimento do espírito da época. Uma nova fase, repito, mais voltada a aspectos de uma actualidade de acuidade colectiva. Obviamente que, vez por outra, terei uma recaída. Afinal, o escritor não vende, por nada deste mundo, a sua criatividade…e a sua liberdade!

Brasil X Cabo Verde

Numa hora em que Cabo Verde almeja ancoras ou, se tanto, procura parcerias estratégias, não me parece descabido chamar a atenção da opinião pública sobre as relações com o Brasil. As afinidades históricas e culturais não faltam. Aquando a Independência do Brasil, no século XVIII, um coerente movimento da opinião pública cabo-verdiana queria indexar Cabo Verde a esse projecto refundador. Antes disso, milhares de escravos oriundos de Santiago haviam chegado a varias regiões brasileiras – Minas Gerais, Bahia, Alagoas, Ceara e Pernambuco, entre outras –, marcando espaço antropológico e cultural ate hoje pressentido. Em tempos menos recuados e mais contemporâneos, o Brasil manteve no imaginário crioulo e nada sintetizou tanto essa mística quanto o poema de Jorge Barbosa “Você, Brasil”. Alias, o Movimento Claridoso, que teve por arauto Jorge Barbosa, em 1935, e por consagração a Revista Claridade, em 1936, teve, entre as suas influências o Modernismo Brasileiro, mais precisamente a sua vertente regionalista (leia-se nordestina). Em verdade, as afinidades são tantas que não se sabe se o Brasil configura “um Cabo Verde grandão”, como afirma o Embaixador do Brasil Victor Gobato, em rasgo de fina diplomacia. Ou, se como vaticina a morna imortalizada por Cesária Évora, “Cabo Verde e um pedacin di Brasil”. Para lá destes aspectos, um tanto ao quanto sentimentais, continua a existir um grande potencial de cultura, diplomacia e negócios, ainda por explorar e alargar, nas relações entre os dois países. Numa nota afim, diria que alguns questionamentos podem ser levantados sobre o papel de Cabo Verde diante da aproximação brasileira em Africa, sobretudo em Africa Ocidental. Sendo membro da CEDEAO (com a vantagem comparativa da insularidade, da salubridade e da estabilidade político-social), Cabo Verde configura-se como um parceiro estratégico para as empresas brasileiras, de sectores bem determinados, na sua conquista do mercado oeste-africano. E os países da sub-região africana, pelas razoes acima abordadas, não encontrariam melhor parceiro que não fosse Cabo Verde para o import-export com o Brasil. Enfim, estes e outros questionamentos podem fazer sentido na actual fase do desenvolvimento de Cabo Verde, o que só seria coerente se, para alem da CV Investimentos, das Câmaras do Comercio e do próprio Governo, a questão fosse socializada em debate aberto junto a cidadania, sem prejuízo para a sua necessária pesquisa cientifica e académica. E quem diz Brasil, afirma também outras âncoras e parcerias em potencial. Importa, nesta fase transaccional do pais, realinharmos de forma critica e correcta nas Globalizações que interessam!

Museu dos Correios

Ocupo parte do meu tempo, agora que tomei a decisão de viver da escrita (risco espinhoso, note-se), a formular o projecto da criação do futuro Museu dos Correios de Cabo Verde. Esta nova ocupação, que me permite espaço para uma pesquisa académica, obriga a entrar no mundo fascinante da museologia, algo que deveria ser pensado com mais propriedade e parcimónia em Cabo Verde. Para que servem os museus? Apenas para guardar relíquias de um tempo e um templo distante ou sacralizado? O museu moderno é um pólo de conhecimento e de acontecimento. O seu grande desafio consistirá em oferecer – sem perder as suas especificidades enquanto lugar de conhecimento, de história, de simbologia cultural e artística – mensagens atraentes, proporcionar experiências estéticas, vivências formativas mas também lúdicas, cultural e socialmente ricas. Por conseguinte, o futuro Museu dos Correios de Cabo Verde comporta a história postal cabo-verdiana, desde a época colonial até ao presente. Nele, os visitantes aprenderão sobre as formas e os meios utilizados para a realização dos correios no arquipélago, com ênfase para a correspondência escrita, o telégrafo, o crédito popular, a filatelia, o telefone e as inovações institucionais. Deixo a consideração dos leitores esta afirmação de que os Correios constituem uma das instituições mais antigas, marcantes e úteis do Arquipélago de Cabo Verde

quarta-feira, 22 de março de 2006

As sandálias do peregrino ou recurso a Mulher nua

Ao Amadeu Oliveira, lúcido nesse Templo, que não confunde demagogia com sacerdócio...


« Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté »
- Leopold Sédar Senghor


Mote

Enquanto isso, uma corja de labregos e com mandíbulas ao léu, intenta contra a ordem dos dias. De vez em quando, saio assim da cena e deambulo por aí como uma verbo à toa. Deixo-me levar pela brisa que venta, esquecida e serena, acalentando o meu momento. Passa a dita manifestação e eu, pensativo, introspectivo mesmo, não me identifico com nada disso. Apetece-me gritar aqui na crónica, recitar aos labregos os versos Mulher Nua, mas o tempo passou e o leitor, aquele mais obtuso, não iria gostar da estilística. É que morreu o filósofo português Fernando Gil e o pensamento ficou mais pobre. Ele nos ensinara que para se perceber seja o que for, é preciso olhar até à linha do horizonte e ir um pouco mais além. Um grande homem…

Nota para a malta da Campanha

Recebe a faixa presidencial o Comandante Pedro Pires. O acto tem grandeza e, sobretudo, transcendência. O Presidente, de entre os demais, é quem mais defende a estabilidade da nação, razão por que eu e a maioria dos cabo-verdianos nele apostámos. Queremo-lo, por isso, em serenidade e muita saúde, para que possa potenciar (a Cabo Verde) …es paz di Deus. Aos companheiros da jornada eleitoral, recordando-lhes Ildo Lobo em sua ausência, um grande abraço de Homem Livre…

Dos livros

Dos livros que deixo, em boas mãos vale dizer, três foram tão marcantes que lhes devoto um amor táctil e uma ternura física. «Os Lusíadas», de Luís de Camões, «Intérprete de Enfermidades», de Jhumpa Lahiri, e «Confissões de uma Máscara», de Yuko Mishima. Com o primeiro, aprendi o ritmo e a métrica, o engenho e a arte das letras intemporais. Com o segundo, tomei tento à trama com que o novelo se desenrola. E com o terceiro, sonhei que sorria deste imponderável todo. Faço votos que estes três fabulosos livros sejam, para quem os doei, verdadeiras bíblias. Basta que a leitura se alheie do profano. Em verdade, o sagrado nunca esteve nos livros, mas na sabedoria de quem os lê...

Dia Internacional da Poesia

No Dia Internacional da Poesia (e da Árvore), a par das actividades do Ministério da Cultura, quis fazer um tributo particular aos meus poetas dilectos. Dos cabo-verdianos, separei Jorge Barbosa, Ovídio Martins, João Vário e Arménio Vieira para balbuciar seus versos à boca da noite. Dos estrangeiros, transportei para um lugar à-parte Walt Withman, Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto. Os leitores poderão ter um naipe diferente, pois a poesia é um campo vasto e sem tempo. Hoje, por exemplo, apetece-me falar-vos de Leopold Sédar Senghor, um dos expoentes da poética mundial, cujo vate levou aos altos píncaros a negritude. E, a partir dele, extrair, em tributo à “prefaciadora implacável”, as palavras mais belas no manancial do sentimento, quais sejam:

(…) Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir,
bouche qui fais lyrique ma bouche (…)

As sandálias do peregrino

Chamados à sombra de uma árvore, quisemos contar uns aos outros as estórias das nossas vidas. Enquanto isso, uma corja de labregos, vociferante e besta, insiste em “quebrar” o nosso concêntrico abraço. Em comunhão, repitimos em coro as palavras de Fernando Gil: «Cada coisa, para ser o que é, tem de estar em ligação com todas as outras. A identidade ideal é uma rede de conexões infinitas. Para se perceber o mínimo sobre o mínimo seria preciso conhecer-se tudo». Kírie…meus irmãos!

quarta-feira, 15 de março de 2006

Traz di Som

Anti-Semitismo em Cabo Verde

Fiquei indignado quando li uma nota jornalística, cuja manchete vinha nestes termos: Anti-Semitism subsidized by U.S.? Aid flows to Cape Verde regime that attacks Jews. E também acompanhei a lista dos emails, em forward, até à minha “caixa de correio electrónico”. Somando dois mais dois, vi claramente o quatro e o quadro de gente bem identificada que, uma vez mais e pela falácia, avilta a imagem de Cabo Verde. Não pude deixar de pensar, com náusea diga-se, que há um lado perverso neste nosso jogo democrático. Em verdade, a democracia só nos interessa, se for com verdade, pão e fonema. A democracia só é virtuosa se estribada na liberdade e no bem-estar, conceitos alargados e subjectivos, mas com uma sustentação cognitiva muito clara. O anti-semitismo não existe em Cabo Verde e não seria pelas opiniões irresponsáveis de Florenço Baptista, nem pelas reacções desproporcionadas de José Tomás Veiga que ele passaria a existir. Quase todos nós, cedo ou tarde, tivemos ascendentes judaicos e isso, assim como outras ascendências, não nos torna melhores, nem piores. O sermos mestiços significa que corre em nós o húmus antropológico de origem vária e recusar esta realidade é sermos empobrecedores. Mas o busílis da questão está na maliciosa tentativa de “denunciar” uma situação que não existe, com o fito de “encurtar” ou mesmo comprometer a assistência americana e/ou outra a Cabo Verde. A política do “vale-tudo”. Chegados aqui, peço-vos licença para vomitar…

Assessorando a Cultura

Ter servido no Ministério da Cultura me deu a enorme percepção das mudanças que o sector demanda. E não deixou de ser “uma verdadeira escola” partilhar o dia-a-dia profissional com Manuel Veiga, Ministro da Cultura, como assessor. Longas e caudalosas conversas (e sonhos, porque las hay…) e planos sobre a causa e a coisa da Cultura. Em verdade, precisamos de mudanças radicais a nível do sector, nomeadamente em questões da inclusão, da diversidade, do património, do livro e da leitura, da arquivística, da animação e, sobretudo, da internacionalização. Se quisermos fazer da Cultura um factor importante, se não mesmo aquele determinante do PIB, temos de encetar a triagem e a selecção do potencial, investir pesado na produção e introduzir um novo padrão de qualidade dos bens e serviços culturais. A lógica da subvenção indiscriminada, autentico hábito de FAIMO cultural, não nos levará a caminhos do sucesso e da excelência. É preciso reservar o subsídio institucional para os casos excepcionais e periclitantes. Para a maior parte dos casos, urge instituir créditos, com juros motivadores, que permitam a um tempo introduzir a noção do mercado artístico e a outro tempo estrategizar a inserção internacional da Cultura de Cabo Verde.

Traz di Som

Não podia deixar de assinalar o lançamento do álbum Traz di Som, de Ângelo (Djinho) Barbosa, ocorrido na última sexta-feira, no Palácio da Cultura. São 16 faixas de boa música, à procura ousada de novas sonoridades e de outras atitudes para com a Música. Projecto generoso e federador, Ângelo (Djinho) Barbosa, conseguiu o feito de reunir, para fazer coisa boa, 35 músicos de diferentes matrizes e matizes. É obra. Num tempo em que precisamos, como pão para a boca, de destrinçar o trigo do joio…

Intervalo

Não me é possível prosseguir esta crónica sem que a tristeza e a saudade aflorem à linha do texto. Os sentimentos invadem-me a escrita e eu nada mais sou do que um cronista de viagem. Queria ser cerebral e frio, pura faca incisiva na carne. Queria não ter pena dos dias soletrados nas horas. Nem lamentar o sol que, desaparecido no poente, voltará amanhã recauchutado e...fatalmente outro. Queria ser estrela cadente e riscar, com ilusória beleza, o silencioso céu. E, quem sabe, poder regressar ciente da minha prefaciadora das crónicas implacáveis. E dela ter, quiçá em retorno, um pródigo abraço...

segunda-feira, 6 de março de 2006

Linda cotovia

Nota para Dolores


Vejo o sol a pôr-se em raríssima beleza e a minha tristeza é uma existência…com poesia. Chamava-a, com respeito e amizade, “linda cotovia”, mercê de uns versos de Xavier Villarutica, poeta mexicano. E a minha amiga dizia amiúde versos de Pessoa quando a ocasião prometia balbuciá-los. E foram poucos, mas bons, os momentos de encanto em que pude com ela falar sobre os livros que, pela fantasia, nos apanharam pela rama. Os livros de Miguel Torga, dizia-me ela. E eu insistia que lesse os de João Ubaldo Rodrigues, devasso das vestes que aprisionam certos intelectuais. E aplaudimos juntos Lauro Moreira, na residência do Embaixador Victor Gobato, a recitar, em eloquente verve, “Alguns Toureiros”, de João Cabral de Melo Neto. Ou tão simplesmente, com uma candura de pássaro, “Estiagem”, de Jorge Barbosa. Pois é, Lica era uma alma boa, doce e pacífica. Uma alma poética. E, sempre que morre alguém próximo da minha saudade, fico a flutuar no pensamento e, sem alarde, deixo a minha solidão ir ver o pôr-do-sol.


Fome


Inaugura-se o Monumento à Fome e às Vítimas do Desastre da Assistência, numa das rotundas da capital. É um obelisco em tríade, a representar a família nuclear cabo-verdiana, disposta de forma concêntrica numa procura de céu…e de eternidade. Os obeliscos são assim: agudos, dramáticos e desafiadores. A cidade irá entender pouco a pouco o significado do Monumento e recriará a partir dele um traço mais estético (e mais futurista) para o espaço. A Fome continuará, por muito tempo, a ser uma referência em Cabo Verde. É uma experiência traumática e matricial inscrita na psique de todos nós, mesmo daqueles que insistem no esquecimento. Assim, no imponderável da velocidade das luzes e dos automóveis, faça sol ou lua, nuvem ou Juno, a nossa memória se sublimará em beleza neste chão da República…


Albatrozberdiano


Entrementes, alguém entoa uma melopeia triste e não consigo identificar quem seja. Sempre a medo de serem as sereias, das que cantam à aventura peregrina, amarro-me ao mastro da minha imaginação e sigo a viagem. Não me importa o que os deuses pequenos pensam dos dias. Estes (os dias, naturalmente) passam indiferentes aos grandes e desaguam sempre na profundidade do destino. Quem souber doutra margem, atire aqui e agora a primeira pedra. Ou tão simplesmente ria o seu riso sapiente que a própria vida tem os seus cabelos brancos. Mas não se julgue ingénuo e abrutalhado este fruto das vinhas. Tem-se nesta hora os dentes todos na boca. E o que era doce acabou: o Supremo já deu o seu veredicto e a Vénus de Milo, como diria Arménio Vieira, está gorda. A partir de hoje, entra-se no realismo pesado e a poesia, a pouquíssima então, desvelar-se-á pelo ralo. Eu já não acredito nas manhãs que cantam. Infeliz, mas lúcido, farei sozinho a minha longa estrada. Sem lenço, nem documento…

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

BIG BROTHER

Mote



A brincar com o Pablo aprendi que as brincadeiras têm peso e ocupam espaço…na alma. É uma experiência bonita e enriquecedora, garanto-vos. Por isso, digo-vos a Constituição, assim como está, às vezes, é um transtorno bipolar. Leiam, como eu li, ““O doce veneno do escorpião”, de Bruna Surfistinha, que, sem medo de mostrar a cara, nos conta do “real life”. Não serei eu o primeiro, nem o último, a misturar alhos com bugalhos. O fenómeno BIG BROTHER instalou-se entre nós. Dias-há….





Inquietações



Não consegui atinar a razão por que dois avaros cronistas desta praça inquinaram o bate-boca das eleições – aqui, de celebrações, e, acolá, de impugnações – na séria, seríssima, questão do Holocausto. O que uma coisa teria a ver com outra? A par do inquinado, e falando agora também a sério, concordo que o Holocausto, extermínio de milhões de judeus e outros grupos indesejados pelos nazistas (comunistas, homossexuais, ciganos, eslavos, sindicalistas, católicos, Testemunhas de Jeová, e pacientes psiquiátricos), seja para sempre lembrado como o ápice da selvajaria e da intolerância humanas nesta era contemporânea. Ocasião para recordar ainda as bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáki. Ou recuar um pouco mais no tempo e repensar a Escravatura, cuja rota da memória a UNESCO pretende erigir. Já agora, e porque estou na Cidade Velha – ou Cidade de Santiago, rebaptizado –, diante do grande oceano que nos leva para o mundo, lembro-vos da frase de Koichiro Matssura: “Símbolo da negação dos direitos humanos, o tráfico negreiro e a escravatura devem ser recordados pela consciência humana. Pela exploração e a violência extrema que as caracterizaram, pelos discursos monstruosos que os justificaram, e pelas interacções paradoxais que engendraram, esta tragédia continua no centro das questões mais quentes do mundo de hoje”. Inquinemos, pois, o debate para estas questões da nossa (des) Humanidade…



Cabo Verde mais ao largo



Cabo Verde é isto: “Para António C., a caminho da América, com um forte abraço da sua esposa e filhos, até um dia se Deus quiser”. Além de simples e corriqueiras “mantenhas pela rádio”, Cabo Verde é a extraterritorialidade onde radicam as suas comunidades espalhadas pelo mundo. São os cabo-verdianos que se posicionam em rede para fazerem do arquipélago um espaço matriz e matricial da cabo-verdianidade. É isto na cultura, na língua, economia. É isto nas eleições. Os argumentos que dividem os cabo-verdianos dentro e fora do país são falaciosos e fascistas. O povo das ilhas nem sempre está nas ilhas e, quando isso acontece, ele não perde a sua identidade, nem os seus direitos cívicos. A grandeza de Cabo Verde está nesta nação que extravasa o Estado e se prolonga por “ilhas mais ao largo”. Saudemos, pois, a Nação Global Cabo-verdiana e deixemo-nos de “mofineza”…





Super a superar a nossa paciência



Irreconciliável, fiquei como toda a gente a aguardar a decisão do Supremo. A cada dia, é o dia…e nada. O país todo, em stand by, à espera de uma decisão e os senhores doutores demoram assim tanto tempo! Não percebo nada de juízo, nem de assaz procedimento. É possível que seja normal essa câmara lenta, lesiva da nossa santa paciência. Alguém me confidencia que o anacronismo está no 5º Juiz. O episódio onde entra o bonitão, ainda por cima de prazo vencido, virou hilário nacional. Gostávamos muito de rir, lá isso é verdade. Mas demais faz mal…



Racismo



Outro dia, os avaros falaram também do racismo. Sim, o racismo. E ninguém venha dizer que tal seja afago doutra freguesia. O racismo é global, globalizou-se. E assentou raias entre nós também. Muito do nosso bairrismo não passa de racismo contido. Normal seria que as localidades competissem. Que cada um, no seu rincão, vestisse dele também a camisola. Isso, sem perda de perspectiva nacional, nem esquecimento do nosso destino colectivo, obviamente. O que é absolutamente intolerável e dispensável passou a ser a ideia da supremacia, do lobby bloqueador e do regionalismo autocolonial. E sobre isso, de nada adianta a defesa do avestruz, fingir que o dito acaba por toque de mágica ou por uma fuga em frente. O racismo, sim. Já que os avaros trouxeram a deixa, vamos colocar o dedo na ferida. Noutra pauta, falar-vos-ia de Etelvina, nome inventado naturalmente, como uma pérola. Raceada, branco e negro, nasceu escurinha e de olhos verdes. E o drama de tal cruzamento é problema do BIG BROTHER. Etelvina quer, e merece, ser feliz…

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Um oásis no recôndito

Mote

Creio ter sido Fernando Pessoa, o grande, melhor dito, o profundo, a escrever que “Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma”. Ó, leitor, a minha mãe faz anos e eu agradeço a Deus pela mãe que tenho. Queria, em súplica pública, que ela soubesse (para a eternidade) que sou o eterno devedor. Fosse eu o autor do soneto de Januário Leite, estaria um pouco mais tranquilo. Tivesse eu pintado “Pietà”, loiça do tipo, seria outra loisa. Mas nada de frustrações, pois cada um dá o que pode e a mais não é obrigado. E a minha mãe sabe que há um oásis no recôndito da minha alma…


Saravá, shallon e olá como vamos

Acompanhei, primeiro, com hilariante leitura, e, depois, com alguma preocupação, o semitismo e o anti-semitismo dos articulistas Florenço Varela e José Tomaz Veiga. A questão judaica, que é séria e importante, merecia ser discutida com outra serenidade e nunca no calor de eleições, por uns, ganhas, e, por outros, perdidas. Não há inferioridade, nem superioridade, pela origem judaica. Seria falacioso querer que houvesse. Falacioso e irritante, já agora. Oportuno seria debater a cidadania cabo-verdiana e a origem antropológica do cabo-verdiano. O código genético é importante. Mas não é no inato apenas, mas sobretudo no adquirido, que reside a virtude. Pelas quatro costelas, descobri numa delas a minha origem judaica. As minhas origens cristãs-novas, como diria Manuel Delgado, o mais acutilante jornalista cabo-verdiano. Mas pelas minhas contas, entram na minha composição genética os fulas, os mandingas, os indianos e os portugueses. Algo me diz que somos fortes e “ricos” por esta mestiçagem. O mundo que o cabo-verdiano criou, com perdão a Gilberto Freyre, tem origem em muitos outros povos e em mais diversas culturas. E temos de estar orgulhosos destas origens (de todas as origens, note-se). Sem xenofobias, nem afirmações…bestas!


Caia na gandaia

Ó, leitor, basta de política. De contar e recontar votos. Isaura Gomes, quando acerta, pede basta à psicose da fraude. Vamos cair na gandaia, pois a ala dos malucos (e dos artistas) já sai pelas ruas. Estamos no Carnaval. Além de grande evento cultural e grande negócio turístico, o Entrudo tornou-se numa profunda terapia psicossocial. Carregados que estamos todos de duas eleições, com a sua boa dose de guerra de nervos, o Carnaval vem em boa hora. Há que desanuviar, festejar, rir, soltar a franga. Uma festa estival, tomada de máscara e folia, na qual o fugaz sobrepõe ao eterno. “O Carnaval está aí, vamos vadiar…para a polícia não pegar!”. Sobretudo, o nosso auto policiamento que, vezes sem conta, nos leva à patrulha e ao fascismo existencial. Ame-se quem puder…

Griposa preocupante

Enquanto a gripe aviaria se globaliza e, como um cancro, ela se aproxima, os homens perdem o tino e o siso em guerras fratricidas. Parece que vivemos tempos difíceis em termos de uma consciência colectiva em prol da paz. Os recursos gastos para a destruição são de longe mais avultados do que aqueles dispendidos para pesquisas e aplicações médicas. Sofisticam-se mais as prisões do que as escolas. Armam-se exércitos e desarmam-se hospitais. Um pouco por todo o mundo. Apetece-se sair à rua, de cartaz em punho, e manifestar-me contra este grande absurdo. Estaria sozinho? Naturalmente, num país onde as pessoas não conseguem fazer entrar nos eixos a Electra, é normal que ninguém se manifeste contra o aquecimento global. Eu vi a frieza com que a comunicação social tratou o facto do Presidente Pedro Pires ter restituído ao mar uma tartaruga cabeçuda. Frieza tão franciscana quão ignorante. Pois, estaria sozinho, pedreiro livre que sou, sem lenço nem documento, ciente da minha cidadania. Aliás, prefiro uma boa solidão a uma má companhia. Por isso – montanha! -, queria estar bem lá no alto…

A NATO por estes dias

Defendemos que Cabo Verde terá de ser um país útil para a comunidade internacional. E utilíssimo na promoção da paz e da estabilidade, sobretudo regional, diga-se. Destrinçando sempre a geopolítica da paz da geopolítica da hegemonia e do terror (sob qualquer forma e conteúdo), há que ponderar, entretanto, o papel do nosso país na presente conjuntura internacional. Os exercícios militares da NATO devem ser assim analisados pela opinião pública. Não os detalhes militares em si, mas os contornos políticos e diplomáticos da sua autorização e da sua concessão. Os cabo-verdianos querem saber em que condições eles se realizam e quais as suas vantagens (e as desvantagens). A que lucro (e a que custo) temos a NATO por estes dias. Será pedir demais? Nada disso. Uma exigência democrática tão somente…


Nota: Discorde, fale mal, fale bem, concorde, esperneie. O leitor pode sim opinar sobre as minhas crónicas. Recebo críticas pelo email: filinto1992@yahoo.com.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Liiiiiiiiiiiiiindo

Dia Lindo

Esta é a crónica do Dia Lindo. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó pessoal. Antevimo-lo do alto da montanha, em Santo Antão. E tudo isto transcende a política. É uma coisa épica. Romântica até mais não. Tomada de beijos e abraços. Risos e lágrimas. De gente bonita, no seu interior emocionado. Este é o Dia Lindo. Definitivamente este não poderá ser o tempo vigiado. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó juventude…


Daquela aventurança

Em criança, fui um mau perdedor. E sofri muito com isso. Chorava e agredia toda a vez que tivesse de declarar a falência no jogo do monopólio. Se a minha equipa perdesse, era um Deus nos acuda. E se não conseguisse um lugar à mesa ao lado da dona Mindoca, a comida sabia-me amarga. Aos poucos, fui aprendendo (e ainda bem) que a tolerância era a melhor aventurança da vida. Perder ou ganhar fazem parte do mesmo processo. E ambos devem ser tomados com calma, serenidade e responsabilidade. Já adulto, perdi eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos e, felizmente, ganhei eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos…não confundindo nunca nuvem com Juno. Ao vencedor, impede a fineza da humildade. E ao perdedor, recai a responsabilidade da felicitação. Isto, dito assim, não tem graça alguma. Era preciso viver as luas todas de uma campanha (imprópria para cardíacos, diga-se) para se ter a ideia desta crónica. É uma questão que tem a ver com Freud e não com a fraude. Trata-se de um indício muito perigoso a que devíamos estar mais atentos. E isso lembra-me aquela do jogo da bisca em que o perdedor quis impugnar os resultados de um capote. Se a moda pega e faz doutrina!

A viagem até 2011

Estas presidenciais devem ser analisadas por múltiplos ângulos. E as ilações também podem ser múltiplas. Serão escritas páginas e páginas sobre a vitória do Comandante Pedro Pires. Analistas e politólogos, gente com mais ciência (e mais frieza) de perspectiva. Eu apenas direi da minha justiça. Ora bem, os cabo-verdianos votaram maioritariamente no Comandante Pedro Pires porque entenderam que este dá mais garantias para liderar o Estado de Cabo Verde nesta transição ao País de Desenvolvimento Médio. Mais garantias, entendem? Decisivamente, o contra-ciclo político só será em 2011.

Com Cabo Verde no Coração

Agora é tempo da inovação na continuidade. A navegação entendeu o que estava em causa e deu o seu veredicto certo, certíssimo. Desta feita, o eleitor não se fez rogado: concedeu boa margem de legitimidade ao presidente. E, em democracia, a vontade do cidadão é soberana. O que se espera de um presidente que fará o “time-frame” 2006-2011? Doravante, a presidência deverá ser exercida com maior protagonismo e acutilância. Embora o presidente da República não tenha a governação como encargo, a sua eleição é muito importante, pois trata-se do mais alto representante da Nação. Tão importante que o novo presidente eleito poderá exercer uma magistratura mais influente no combate à pobreza, na erradicação do tráfico de droga, no alargamento da inclusão cultural, nas parcerias estratégicas e nas novas âncoras internacionais, no retoque constitucional necessário e, sobretudo, no aprofundamento da nossa cidadania. Liiiiiiiiiiiiiindo…

O TELL ME THE TRUTH ABOUT LOVE

W. H. AUDEN



NHOS FLA-M VERDADI ASÉRKA DI AMOR

TRADUSON: J.L. TAVARES



Ten kenha ki ta fla ma amor é un rapazinhu

Y kenha ki ta fla ma el é un pasu;

Es ta fla ma e ta faze mundu jira el sozinhu,

Ten kenha ki ta fla ma é un éru krasu:

Mas kantu N tenta sabe atraves di vizinhu

Ki ta parseba ma kel li staba na si alkansu,

Si mudjer fika aburisidu

Y e fla ma éra proibidu.



Será ke ta parse ku un pijama

Ó pruzuntu na kabu kura dor,

Será ki si txéru ta lenbra un lama

Ó e ten purfumu di un flor?

Será ke áspri sima arami farapadu

Ó suavi sima un masiu kubertor,

Será ke ta korta ó é lizu na ladu?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.



Livrus di stória ta papia d´el

Dun manera ki kuazi ka ta ntendedu,

Y ta papiadu txeu d´el

Na kes grandi naviu ki ta trabesa mar sen medu;

Dja N odja es asuntu tratadu

Na rilatóriu asérka di algen ki mata kabésa,

Dja N odja-l té rabiskadu

Na gia di konboiu viradu dipalbesa.



E ta uba sima un lobu fomiadu

Ó e ta rapika sima marxa fanfara,

Será ki si son é midjor imitadu

Nun seroti ó na pianu Xiku Séra?

Será ke gosta so di stilu bédju

Ó na fésta é pruvokador

E ta kala so N da-l ku duedju?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.



N buska-l na kaza di veron

Mas N ka atxa-l nen sen kamiza

Na kel ar di brighton ki ta intxi pulmon

Nen la maidenhead, la na tamiza,

N ka ta ntende vos di rozera

Melru N ka konxe si kanson

Mas e ka staba dentu kapuera

Nen baxu di kolxon.



E méstri na faze bioku sen midida,

E ta bira tontu na karosel,

Ó e ta pasa ténpu na korida

Ta brinka ku fiu di kordel,

E ten ideias asérka di dinheru

E ta atxa ma pátria debe kantadu lovor,

Ó e gosta di ri di stórias brajeru?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.





Es fla-m ma ta fika sénpri lenbransa

Di kes sintimentu ke ta inspira,

N sta buska-l desdi kriansa

Y nunka N ka panha-l na mira

Trinti-sinku anu di tamanhu

Y N kontinua sen konxe

Es kriatura stranhu

Ki tudu algen e ta da koxi.





Y óra ke ta ben, e ta ben sen aviza

Inkuantu N ta linpa naris

Ó N ta odja-l sédu antis di txon N piza

Ó e ta masa-m na otokaru di karis?

E ta ben sima ténpu ta muda

Ku mansidon turtura ó kusa pior,

Nha bida futuru e ta muda?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Montanha

Montanha

Não direi outra coisa deste momento. Os nossos olhares dizem quase tudo e faz algum frio nesta montanha. Devíamos ter trazido uma malha mais pesada. Os abraços e os afagos não aquecem as sobras do mundo. Desgovernados que somos, é neste preciso lugar que a vida nos faria sentido. As honras, os livros, os compromissos – menos os filhos e a música – podem ser deixados na saudade. E se o sol nos saísse redondo e amarelo? E se tudo parasse para sentir a terra a girar? Distante da pequena política…

O segundo erro de Agostinho

Recentemente, dando um triste espectáculo de mau perdedor, sai-nos um Agostinho, pior do que nunca, a propalar fraude ao vento. Foi um erro grave, gravíssimo. Sobretudo, porque não fez jus, nem honrou o ónus da prova. Quem acusa, tem que provar. Senão corre o risco de perder credibilidade. Ou, então, incorre ao crime da calúnia, com consequências penais e civis. Quem atira a primeira pedra, reza o bíblico preceito, terá de estar imune ao pecado. Ou, bem no popular já que estamos em campanha, terá de se cuidar do telhado de vidro. Vociferando, gesticulando e gritando, o gajo abriu as torneiras do esgoto e as residuais alagaram o seu próprio partido. Foi o seu segundo, e grave, erro. Tenho falado com amigos próximos, alguns militantes e outros dirigentes, do MpD. Estão todos incrédulos (e angustiados, diga-se) com a “feito” do seu presidente. Como sei separar o trigo do joio, e reconheço as virtualidades desse partido no equilíbrio do sistema político, digo isto aos meus amigos: tirem-no dali. Troquem-no por outro mais interessante. Aquilo deve voltar ao lugar de onde deveria ter permanecido – a militância na base!

Combate pela História

Mas basta, Pranchinha, onde quer que estejas! É já no domingo que a coisa se resolve. Entrámos na recta final de uma campanha. E já não temos tempo, nem paciência, para cansaços. Às tantas, a adrenalina toma conta de nós e move-nos o gosto pelo embate. Outras vezes, temos a tentação de exacerbar, sair da coordenação e responder às coisas. Mas não, terá de ser tudo ponderado, conforme os cânones. A campanha eleitoral é uma estilização, civilizada, da guerra. Um confronto feito de cartazes, bandeiras, pulseiras, tempos de antena, comícios, porta-a-porta, boca-a-boca, negociações, enfim, tudo a que se tem direito para levar a água ao moinho. A par de tudo isso, não estamos num jogo das circunstâncias. Para nós, este combate é estrutural. É um combate pela História…

Ao peitoril de uma casa

No alto da serra, avistamos São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau e os ilhéus Rombo e Raso. O aroma a rosmaninho, eivado a perfume dos pinheiros, leva-nos distantes no pensamento, com os fiapos de nuvem. De repente, invade-nos um sol redondo e amarelo. E rimo-nos. Não vá o adversário reclamar por um sol azulado, pois a natureza não se afina pelas leis eleitorais. Nem se confina a esse Carnaval da política. Vamos ao peitoril de uma casa, onde o queijo fresco é divino e o grogue é mesmo de Santo Antão. Um cúmulo de nuvem faz trilho ao telhado dessa casa. De uma porta, ladeada de duas janelas, sobra à soleira uma criança tão linda, tão linda, que Deus existe.