Un soir de janvier 2004, mû par une sorte de rumeur distillée depuis quelque temps, je fais escale au Satellit Café, un club à musique live du quartier Oberkampf de Paris, fortiche dans la mise en orbite de jeunes pousses, disons, "world". Et là, un choc, une découverte comme ça n'arrive même pas une fois l'an : Mayra Andrade redessine les contours musicaux de son pays, le Cap Vert, avec grâce, aplomb et, chose rare pour une fille qui n'a pas encore 20 ans, retenue. Certes, on sait grâce à Cesaria Evora où se trouve cet archipel (à 500 km au large du Sénégal) et on découvre peu à peu que cette terre aride ne chante pas d'une seule voix, qu'elle est foisonnante de rythmes, Morna, Coladera, Funana, Batuque, qu'elle est riche en auteurs et interprètes, rarement restés au pays, plutôt installés loin du port, parfois exilés.Mayra n'est pas une exilée.
terça-feira, 11 de abril de 2006
Mayra Andrade
Un soir de janvier 2004, mû par une sorte de rumeur distillée depuis quelque temps, je fais escale au Satellit Café, un club à musique live du quartier Oberkampf de Paris, fortiche dans la mise en orbite de jeunes pousses, disons, "world". Et là, un choc, une découverte comme ça n'arrive même pas une fois l'an : Mayra Andrade redessine les contours musicaux de son pays, le Cap Vert, avec grâce, aplomb et, chose rare pour une fille qui n'a pas encore 20 ans, retenue. Certes, on sait grâce à Cesaria Evora où se trouve cet archipel (à 500 km au large du Sénégal) et on découvre peu à peu que cette terre aride ne chante pas d'une seule voix, qu'elle est foisonnante de rythmes, Morna, Coladera, Funana, Batuque, qu'elle est riche en auteurs et interprètes, rarement restés au pays, plutôt installés loin du port, parfois exilés.Mayra n'est pas une exilée.
domingo, 9 de abril de 2006
Deus é crioulo
No equinócio
Ouço a rádio, enquanto escrevo. Ora conversa, ora música. Domingo é assim. Arrumar a casa e escrever um bocado. O dia está solarengo, mas não me assumo com hábitos do turista de sol e praia. De resto, estou cá para aprender. Falando nisso, encanta-me ler o Evangelho Segundo Judas. É refrescante e apaixonante. Fomos aprendendo sempre pelos evangelhos canónicos (isto é, aqueles reconhecidos oficialmente pelo poder eclesiástico), mas às tantas nos sentíamos cristãos, católicos mesmo, mas não apostólicos romanos. Assim, os outros testemunhos começam a incendiar a nossa imaginação. No mundo da Gnose, tudo é permitido. Os gnósticos apreciam o Demiurgo, o dito criador do Universo, e, por conseguinte, o vórtice da substância e do caos. Eis que o Filho do Homem vai a Jerusalém e enfrenta o seu próprio destino. Não é o que nos contaram ao longo da vida. Cristo não precisave de Judas para ser traído. Em todas as sociedades dos homens, os traidores (e há muitos) ao lado dos iluminados. Mas leiam, por favor, Envangelho Segundo Judas…
Germano Almeida
Germano Almeida, o mais celebrado dos ficcionistas cabo-verdianos, acaba de lançar em Portugal o seu último livro “Eva”. Fico curioso. Dele (Germano Almeida), guardo como relíquia “Ilha Fantástica”, “Dois Irmãos” e “Testamento do Senhor Nepumuceno Araújo da Silva”. E do relacionamento pessoal (já que me considero amigo), guardo as bissextas, porém caudalosas, conversas às sextas com Tchalé Figueira e Vasco Martins. E os poucos encontros durante a campanha de reeleição do Comandante Pedro Pires. Uma figura, esse Germano! E conhecedor do bom vinho, a bebida dos deuses. Ficcionar Cabo Verde é extremamente importante para a nossa identidade, disse Germano Almeida numa entrevista à RDP África. Ficcionemos, pois, Cabo Verde…
A toponímia do logradouro
Há dias, na inauguração do Memorial à Fome e às Vítimas do Desastre da Assistência, em cerimónia presidida pelo primeiro-ministro, apareceu o nosso amigo Nuno Duarte com um cartaz a reivindicar a reposição do nome Desastre da Assistência à rua ora chamada Cabo Verde Telecom, por sinal a empresa patrocinadora do monumento. Confesso ter ficado encantado com a atitude e o gesto de Nuno Duarte. Houve gente que não gostou, entretanto. Houve gente que pretende o aparato ao invés da essência. E o próprio desenho conceptual do arquitecto Carlos Hamelberg interpela mais ao conteúdo que à forma (tríada futurista em obelisco), diga-se. O Desastre da Assistência se impõe, em verdade, como um dever de memória e isso é uma forma qualificada da cidadania...Quando cheguei em 1980 a Belo Horizonte, Minas Gerais, como estudante de Biblioteconomia, havia aquela rua chamada Dan Mitrioni, um torturador estrangeiro, morto no Uruguai por guerrilheiros Tupamaros. Era um tempo interessante, de muita militância e muita cidadania. Tanto que a comunidade local conseguiu, depois de muita luta e insurgência civil (belos tempos), substituir o nome do “putamadre” pelo de José Carlos da Mata Machado, revolucionário assassinado pela policia política dos tempos da ditadura militar…A cidade da Praia, por ser antiga e capital, precisa rever a sua toponímia e trazer à colação nomes, feitos e referências historicamente mais recomendáveis…
No equinócio
Nha Gina dizia que eu seria um contador de histórias. E nas quentes noites, eu contava a melhor, dizia ela. Meus pássaros, sei contar-vos as histórias escondidas e pelos logradouros, dos largos aos becos, as fronhas de uma alegria estão aqui guardadas como um tesouro. A brisa em contraponto e a barlavento, e o espampanante silêncio do sotavento, tudo é navio velejando à hora da beleza. Poesia...como era aliás apanágio à porta daquela soleira!
sábado, 8 de abril de 2006
Saco
quinta-feira, 6 de abril de 2006
Codex Alimentarius
Est-ce qu'on ne pourrait pas faire un véritable néo-impressionnisme culinaire, un dadaïsme culinaire, une cuisine abstraite ?
Hervé This. La Cuisine c'est de l'amour, de l'art, de la technique
Pagando para ver
Hoje, lembrei-me do meu amigo Mamour Bá, músico senegalês que também estudava em Belo Horizonte, nos idos anos oitenta. Quando a sua filha nascera, ele ninava a primogénita ao som do korah e eu pagava para ver tão pungente cena. Soube, pelos amigos comuns, que ele tem rodado o mundo, mostrando os seus prodigiosos tambores e palestrando sobre as virtualidade pedagógicas da música. O Crisolino, outro do nosso tempo, ficou de me mandar “O Corpo é Sonoro”, CD com que Mamour Bá está a conquistar o mundo. Eyes of beholder…
Adeco, Prodeco & outros decos
Comer hoje é uma grande aventura. Os gourmets ponham-se a pau. Recentemente, assisti na TCV uma reportagem (creio que de Odair Santos) sobre a matança de animais em plena rua, na cidade de Assomada. Reportagem bem feita, porque inusitada e corajosa, a questão reclama, com urgência, o olhar das autoridades municipais e sanitárias. O que é da sociedade civil, minha gente? Neste mundo das vacas loucas e da gripe aviária, a cultura alimentar do consumidor é uma estratégia de sobrevivência. Ninguém deve apanhar algo na loja e no supermercado, sem ler a composição e o prazo do alimento. Temos de fortalezar os Adeco, Prodeco & outros decos. Eles acabam por ser mais importantes do que os partidos políticos. Pode? Naturalmente…
Codex Alimentarius
Falemos da estética culinária. Sem dramatismos. Será a cozinha uma forma de arte? Ou simplesmente um elemento do código da alimentação? Nesta época pascoal, embora en não seja religioso, o meu pensamento fica, com água na boca, no Arroz de pato à dona Mindoca e no Bacalhau na tábua à tia Sílvia. Pelo lado materno, tenho grandes chefs, a começar pelo meu avô João Henriques de Almeida Cardoso, famoso funcionário da Fazenda Pública e cozinheiro do Guisado de cabrito e Arroz de cabeça de atum. A minha tia Xixi também, mas esta é especialista em doces e bolos. Bolo de frutas secas, nem conto. Devo ter herdado algum jeito desta minha maravilhosa gente. Mamour Bá, artista de mão cheia, jurava que o meu Bacalhau à Gomes de Sá era o melhor do mundo. É que ele, modéstia à parte, nunca experimetou o meu Molho de São Nicolau..
quarta-feira, 5 de abril de 2006
Alvoroda chuvosa em Fortaleza
1
Logo ao romper da alva, a cidade adormecida ainda, vou à janela ver a réstia da chuva. Adoro a chuva. Acho que a chuva todo o cabo-verdiano adora. Encanta-me a fresca brisa que a acompanha. O céu plúmbeo e carregado de nuvens cinzentas. E a promessa de um dia ensolarado mais à frente. Aqui, deste 11° andar, apetece-me flutuar no pensamento. Levitar no espaço sideral devia ser um direito constitucional. Ou, algo mais em conta, um direito humano. E assim, sempre que nos desse a gana do imponderável, toca a flutuar, camaradas. Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências. Quero a chuvosa manhã (pessoana) de não pensar em nada…
2
Entrementes, na televisão (baixinho para não acordar a cidade), um cientista afirma que afinal o rio Nilo – the Big River – não nasce no Lago Vitória, entre o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, onde acontecem muitos outros rios africanos. Mas sim na floresta de Nyungwe, no Ruanda, seguindo o fio do rio Akagera. Uma expedição de cientistas, apoiada por satélites de localização, confirma a nova nascente do maior rio do planeta.
3
Antes lia muito. Devorava, com antropofagia, os autores alinhados nas estantes da biblioteca do meu pai. Hoje, sou mais bissexto…e malandro. Mas, assim mesmo, só como aperitivo ou digestivo, vou lendo algo…se o título me encanta. Et pour cause, começo a ler, neste afã chuvoso, o romance “"Al-Gharb 1146 - Viagem Onírica ao ‘Portugal’ muçulmano”, de Alberto Xavier, comprado ontem numa livraria no centro da cidade. Uma prosa inteligente, a retratar a influência do Califado de Córdoba sobre toda a Península Ibérica, em que prevaleceu uma verdadeira democracia religiosa entre mouros, judeus e cristãos. E porque o mundo não se esgota na intolerância da alma e na intransigência da fé, acho que tomo coragem para chegar ao fim deste inusitado romance…
4.
Divago. Onde estávamos mesmo? Arre, substantivos, adjetivos, complementos e reticências, está na hora de sair de casa…o dever me aguarda, companheiros!
segunda-feira, 3 de abril de 2006
O Mundo e o Belo
Os indocumentados
João K., nome falso e aleatório, está nos Estados Unidos há 10 anos. Ele não obteve ainda nem o Green Card (o cartão de residência), nem o Social Security Card (a cartaira de trabalho e do seguro social). Trabalhador, vizinho exemplar e bom chefe-de-família, João K sustenta a sua prole, algures num subúrbio de Boston, e sustenta os seus pais e irmãos em Cabo Verde. Mais, abriu uma conta-emigrante num banco em Cabo Verde e o seu extracto bancário confirma ser um excelente cliente. Como milhares de cabo-verdianos, na mesma situação, João K votou nas eleições legislativas e presidenciais de Cabo Verde. Não diz no quê, nem em quem. O voto é secreto, ora. Algum problema, meus senhores?
2.
Recentemente, mercê da política doméstica, alguém tentou pôr em causa a legitimidade dos cabo-verdianos “ilegais” nos Estados Unidos, mas com passaportes cabo-verdianos válidos, votarem nas legislativas e presidenciais de Cabo Verde. A princípio, achei a ideia um tanto ao quanto bizarra, para não dizer bizantina, para logo depois concluir pela perversão e intolerância desse pensamento. Antes de mais, seria mister analisarmos, em termos da nossa própria constitucionalidade, em que cenários um cidadão cabo-verdiano perderia a sua nacionalidade. Depois, ao querermos questionar a questão da dupla ou da múltipla cidadania, não poderemos admitir o cenário da não cidadania para qualquer cabo-verdiano. E, finalmente, não poderemos formular a ideia da Nação Global se subtrairmos aos cabo-verdianos espalhados pelo mundo, legais ou não nos vários países de acolhimento, a sua capacidade de participar da vida cabo-verdiana (política, cultural, social, económica, outra).
3.
No que concerne aos Estados Unidos, milhares, senão mesmo milhões, de americanos e não americanos preparam-se para marchas históricas, a 10 de Abril, recordando as marchas cívicas dos anos 60, desta feita protestando contra um um projecto de lei, que prevê a selecção de imigrantes de acordo com a respectiva nacionalidade, e a criação de «bolsas de estrangeiros» autorizados a permanecer no país para ocuparem empregos mal pagos, designadamente no trabalho doméstico, restauração e construção civil. A lei põe de imediato em causa a permanência nos Estados Unidos de muitos indocumentados, entre os quais muitos, muitíssimos, cabo-verdianos.
4.
Paradoxalmente, os imigrantes considerados ilegais representam actualmente cerca de 5% da população activa dos EUA, e a tendência é de aumentar. Segundo a Pew Hispanic Center (PHC), sediada em Washington,, o mercado de trabalho norte-americano registou um aumento de 400 mil indocumentados, em 2005, o que faz ascender a 12 milhões de estrangeiros as estimativas dos indocumentados a viver nesse país. Em suma, a América é grande também graças aos imigrantes. Inclusive, os indocumentados como João K., nome falso e aleatório, …eis a verdadeira realidade.
5.
Voltando a Cabo Verde, o que motivaria um político cabo-verdiano a misturar, alhos com bugalhos, a indocumentação de muitos cabo-verdianos residente na América com a capacidade destes votarem? Temos todos, até às últimas consequências, de pensar no alcance perverso de tal motivação… João K., nome falso e aleatório, é cabo-verdiano de pleno direito, meus senhores!
domingo, 2 de abril de 2006
Ora chove, ora faz sol
1.
Da cozinha, uma telápia feita ao molho de limão e malagueta, um caldo de mancarra e um arroz branco. Em tributo ao meu amigo Mário Rosa, prezadíssimo Maruca, ex Embaixador da Guiné-Bissau em Washington, dizem-me que agora político. Era ele que, em tardes de muita discussão sobre o futuro da África, me ensinou a confeccionar alguns pratos típicos da Guiné-Bissau. Meio exilado, Maruca escrevia um diário implacável sobre os bastidores da sua vida diplomática e eu terminava o livro “O Inferno do Riso”. Tardes inesquecíveis de um Inverno tomado de neve. Em Quincy, Mass…
2.
Não me esqueço daqueles dias em Lisboa. Os três na plataforma da Estação de Parede. Sempre gostei da Estação dos Caminhos de Ferro. Remetem-me ao cancioneiro de Milton Nascimento e ao frenesim de Alewife, em Cambridge. Foram belos momentos em Lisboa, apesar de em Madrid a barbárie ter explodido então uma Estação dos Caminhos de Ferro. Adiante…
3.
Ora chove, ora faz sol. Ora vou a janela, ora fico diante do computador. Como naquele poema de Arménio Vieira, falando do relógio de cucos. Este é um ano das efemérides. A Claridade faz 70 anos. O movimento Pró Cultura e a folha literária Sopinha do Alfabeto fazem 20 anos. O primeiro romance em crioulo de Cabo Verde (a língua materna, preferente e maior dos cabo-verdianos), Odju d´Água, de Manuel Veiga, também faz 20 anos. Ora chove, ora faz sol. Mas importa termos memória…
4.
Prometo só escrever palavras certificadas. Aquelas que podem ser encontradas, a baixo preço, no supermercado dos termos. E que a defesa dos consumidores as ateste dentro do prazo e próprias para o consumo. Em momento algum trarei palavras do mercado negro. As minhas frases não estarão fora de jogo, nem irão falhar penalties. Prometo não ficar completamente nu perante o leitor. Terei, pelo menos, uns óculos escuros…para que a moral não entre de vez em paranóia!
5.
Saio do mote deste blog para sugerir com verdade a leitura do livro “Nação Crioula”, de José Eduardo Agualusa. Li-o de uma assentada…
sábado, 1 de abril de 2006
Em "chuvoso"
sexta-feira, 31 de março de 2006
Notas soltas...com leite de côco
Dia mais ou menos livre. Ontem, entreguei o meu Plano de Trabalho à AGÊNCIA e aguardo o feedback. Hoje, estou mais doméstico. Enquanto isso, faço a ménage do meu apartamento e a panela coze um guisado de frango com mandioca. E com leite de côco, esqueci-me de pontuar. Da mesa da escrita, o Denzel e o Pablo, meus pássaros, sorriem para mim da moldura fotográfica.
O funaná entra, lento e melodioso, pelo meu portátil. É a Rádio de Cabo Verde, repescada pela www.nave.cv . Zeca di nha Reinalda e a sua voz inconfundivel:
Oh, Segunda, kela ka ta fazedu…
O noticiário diz que anda um Director da Prisão, agora demissionário, a contas com a Justiça. Pelo entendido, há uma grande nebulosa sobre o caso. Que o mesmo não seja partidarizado, como quase tudo o que acontece. O importante é que a Justiça funcione…
2.
A Justiça funciona? Acho que funciona sim, ainda que malmente. Há dias, apareci diante de um Procurador a depor, como testemhuna, contra a agressão a que uma advogada foi vítima. Isso me fez lembrar uma queixa contra mim, porque Visaonews publicou um artigo não assinado e que caiu no desagrado de um dos nossos deuses pés descalços. E, por ironia do destino, não tinha sido eu o autor do artigo! Eu era (e sou) apenas um dos accionistas desse jornal online, por sinal presente em Cabo Verde na altura. Não entendi a queixa contra mim, mas Freud explica. Ele tem costas largas. Na altura, quis usar aquele dispositivo constitucional de mandar tudo e todos às urtigas, mas deixei correr a palhaçada e, como se previra, não deu em nada. A questão acabou plasmada no Relatório dos Jornalistas Sem Fronteiras e no dos Direitos Humanos, do Departamento de Estado Americano. Mas a Justiça funciona. Ela, por exemplo, convocou o Manuel Delgado, jornalista senior da nossa praça, por telefone a comparecer “daqui a duas horas” e este, tão brilhante quão irreverente, contou-me das ternuras que disse à “autoridade”. Funciona sim, e como funciona! Eu, por exemplo, fui agredido por um animal raivoso e à traição, e até esta nada. Arrependi-me mil vezes não ter revirado a afronta na hora, saldando ali as contas com o “amofinado justiceiro”. É um detalhe tão somente, mas, como diria Flaubert, “le bom Dieu est dans le détail”…
3.
Não sou daqueles que diaboliza o Estado e, importando lixeiras ideológicas, vocifera pelo seu fim. Defendo antes um Estado democrático e social, sobretudo num país como o nosso. Cabo Verde precisa de Estado ágil, moderno e forte. Isso não significa a defesa de uma economia sem mercado ou de uma cidadania esquecida do bem-estar e da qualidade de vida. A riqueza é gloriosa, vaticinou Deng Xiaoping, algo que os pós estalinistas, trotskistas e “trotskeiros”, bem como os tais deuses pés descalços, nunca entenderam. O buraco tem sido sempre mais em baixo, companheiros. Temos de ter um Estado que assuma a Educação, a Saúde, a Segurança, a Justiça e a Política Externa. Para o resto, valha-nos Deus, terá de ser a sociedade…civil, ora.
4.
Março, mês do Teatro, termina hoje. E queria não só saudar João Branco e Francisco Fragoso, cada um imprescindível à sua maneira, mas também fazer uma homenagem a Sammuel Bekect, cujo centenário do nascimento já se comemora em todo o mundo. Entrementes, da cozinha, ressalta o aroma do frango guizado com mandioca. Tresandada a leite de côco. Quanta fome…
Oh, Segunda, kela ka ta fazedu…
quarta-feira, 29 de março de 2006
A lacónica flor da língua
Para alguém, como eu – do antanho apaixonado pela museologia e pela língua portuguesa –, o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado recentemente na cidade de São Paulo, é um bálsamo. Fico a imaginá-lo de longe e a namorá-lo no pensamento. Ou, então, a acariciá-lo virtualmente, pelo Internet. Ele permite de facto um conhecimento intensivo e exaustivo da língua portuguesa e nos confirma a pujante (e ainda não totalmente acordada) existência da lusofonia. Outrossim, ele se revela, a um tempo, real e fantástico. Como adoraria aprofundar o meu conhecimento sobre museus interpretativos, que usam as tecnologias de comunicação de ponta para embalar conteúdos de assaz interesse colectivo. Importava reafirmar que os museus hoje em dia não apresentam apenas artefactos, mas ideias e imaginação. Anteriormente, o curador era um guardador de peças, agora ele e um roteirista de surpresas. Isso me encanta…
Sucessão no MpD ou algo mais sério
A propósito da sucessão no Movimento para a Democracia (MpD), acertada depois do duplo desaire eleitoral, o meu confrade Manuel Delgado tocou num aspecto realmente importante ao dizer que o deputado Jorge Santos, para ele o melhor posicionado, “apesar de ser preto, é de Santo Antão”. E, o pior, ele assume isso como um “defeito” em conexão a que denomina o “badiuísmo que inquina a elite política cabo-verdiana”. Amigo, respeitador e ciente da pena de Manuel Delgado, procurei ler o artigo sob vários ângulos antes de me pronunciar. Mas não pude deixar de ficar intrigado com o vector nele impregnado. Ora, os “defeitos” de Jorge Santos não se radicam em ser “de Santo Antão”, o que em Cabo Verde não será condição suficiente para ganhar e/ou para perder qualquer pleito. E muito menos a pretitude, seria condição sina qua non da ascensão e/ou queda de alguém na Ilha de Santiago. Os seus “defeitos” serão com certeza outros…Ademais, não é o “badiuismo” que inquina a politica cabo-verdiana. Mas sim o regionalismo estreito e letal, o bairrismo besta (vamos botar besta nisso), de uma elite, que, a continuar, poderá indicar caminhos tenebrosos e desavindos. O “badiuismo”, assim como o “sampadjudismo”, seriam faces opostas da mesma moeda, há muito fora da circulação, mas que sub-repticiamente gente bem localizada utiliza como cavalo de batalha. A indivisibilidade de Cabo Verde e os fundamentos da cabo-verdianidade, conceitos eivados de significado, revelam que realmente somos um povo coeso e único, e que a diversidade dos nossos jeitos e trejeitos, longe de ser um condicionalismo, é a nossa grande oportunidade. Por isso, uma outra abordagem, por favor…
Torres verdes para Nova Iorque
Em Nova Iorque, tornou-se importante e correcto construir prédios ‘ecológicos’. Isto é, edifícios projectados para diminuir o impacto sobre o ambiente – com sistemas para economizar a água e a energia eléctrica. As maquetas dessas novas edificações estão expostas no museu dos arranha-céus, em Manhattan. Há pelo menos uma dúzia delas, nomeadamente a nova sede do jornal The New York Times, o corporativo "The Hearst Tower", residencial "One River Terrace" e a Torre da Liberdade, que será construída no "Ground Zero" (terreno onde se localizavam as torres gémeas do World Trade Center), entre outras. Mas tudo indica que, muito em breve, as casas ecológicas se tornarão populares nos Estados Unidos e no resto do Planeta. Em Cabo Verde, agora que pretendemos dar vida (e sustentabilidade) aos ZDTIs, a questão poderá perfeitamente ser levantada com acuidade. A ecologia deveria encarada como pré requisito para o investimento imobiliário e turístico. E para que não fiquemos a ver navios, os nossos edis e arquitectos deveriam fazer-se por uma sensibilidade ecológica. Verde que te quero verde…
domingo, 26 de março de 2006
Distante do Pranchinha
Nota necessária
O S/Cem Margens entra numa nova fase. Distante do Pranchinha. Os sinais foram dados nas últimas semanas. Fi-lo com enigma, naturalmente. A realidade sem a magia seria “bera”, o leitor poderá imaginar. Mas, sob o diáfano da sombra, deixei as pistas necessárias. A literatura tem a sua vertente confessional e Flaubert teria dito a grande verdade quando, sobre a pressão das autoridades e dos bons costumes, assumiu “Madame Bovary c’ est moi”. Tudo sou eu, ao fim e ao cabo, e daqui a alguns anos alguém dirá terem servido estas notas, em forma de crónica, para algum entendimento do espírito da época. Uma nova fase, repito, mais voltada a aspectos de uma actualidade de acuidade colectiva. Obviamente que, vez por outra, terei uma recaída. Afinal, o escritor não vende, por nada deste mundo, a sua criatividade…e a sua liberdade!
Brasil X Cabo Verde
Numa hora
Museu dos Correios
Ocupo parte do meu tempo, agora que tomei a decisão de viver da escrita (risco espinhoso, note-se), a formular o projecto da criação do futuro Museu dos Correios de Cabo Verde. Esta nova ocupação, que me permite espaço para uma pesquisa académica, obriga a entrar no mundo fascinante da museologia, algo que deveria ser pensado com mais propriedade e parcimónia
quarta-feira, 22 de março de 2006
As sandálias do peregrino ou recurso a Mulher nua
« Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté »
- Leopold Sédar Senghor
Mote
Enquanto isso, uma corja de labregos e com mandíbulas ao léu, intenta contra a ordem dos dias. De vez em quando, saio assim da cena e deambulo por aí como uma verbo à toa. Deixo-me levar pela brisa que venta, esquecida e serena, acalentando o meu momento. Passa a dita manifestação e eu, pensativo, introspectivo mesmo, não me identifico com nada disso. Apetece-me gritar aqui na crónica, recitar aos labregos os versos Mulher Nua, mas o tempo passou e o leitor, aquele mais obtuso, não iria gostar da estilística. É que morreu o filósofo português Fernando Gil e o pensamento ficou mais pobre. Ele nos ensinara que para se perceber seja o que for, é preciso olhar até à linha do horizonte e ir um pouco mais além. Um grande homem…
Nota para a malta da Campanha
Recebe a faixa presidencial o Comandante Pedro Pires. O acto tem grandeza e, sobretudo, transcendência. O Presidente, de entre os demais, é quem mais defende a estabilidade da nação, razão por que eu e a maioria dos cabo-verdianos nele apostámos. Queremo-lo, por isso, em serenidade e muita saúde, para que possa potenciar (a Cabo Verde) …es paz di Deus. Aos companheiros da jornada eleitoral, recordando-lhes Ildo Lobo em sua ausência, um grande abraço de Homem Livre…
Dos livros
Dos livros que deixo, em boas mãos vale dizer, três foram tão marcantes que lhes devoto um amor táctil e uma ternura física. «Os Lusíadas», de Luís de Camões, «Intérprete de Enfermidades», de Jhumpa Lahiri, e «Confissões de uma Máscara», de Yuko Mishima. Com o primeiro, aprendi o ritmo e a métrica, o engenho e a arte das letras intemporais. Com o segundo, tomei tento à trama com que o novelo se desenrola. E com o terceiro, sonhei que sorria deste imponderável todo. Faço votos que estes três fabulosos livros sejam, para quem os doei, verdadeiras bíblias. Basta que a leitura se alheie do profano. Em verdade, o sagrado nunca esteve nos livros, mas na sabedoria de quem os lê...
Dia Internacional da Poesia
No Dia Internacional da Poesia (e da Árvore), a par das actividades do Ministério da Cultura, quis fazer um tributo particular aos meus poetas dilectos. Dos cabo-verdianos, separei Jorge Barbosa, Ovídio Martins, João Vário e Arménio Vieira para balbuciar seus versos à boca da noite. Dos estrangeiros, transportei para um lugar à-parte Walt Withman, Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto. Os leitores poderão ter um naipe diferente, pois a poesia é um campo vasto e sem tempo. Hoje, por exemplo, apetece-me falar-vos de Leopold Sédar Senghor, um dos expoentes da poética mundial, cujo vate levou aos altos píncaros a negritude. E, a partir dele, extrair, em tributo à “prefaciadora implacável”, as palavras mais belas no manancial do sentimento, quais sejam:
(…) Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir,
bouche qui fais lyrique ma bouche (…)
As sandálias do peregrino
Chamados à sombra de uma árvore, quisemos contar uns aos outros as estórias das nossas vidas. Enquanto isso, uma corja de labregos, vociferante e besta, insiste em “quebrar” o nosso concêntrico abraço. Em comunhão, repitimos em coro as palavras de Fernando Gil: «Cada coisa, para ser o que é, tem de estar em ligação com todas as outras. A identidade ideal é uma rede de conexões infinitas. Para se perceber o mínimo sobre o mínimo seria preciso conhecer-se tudo». Kírie…meus irmãos!
quarta-feira, 15 de março de 2006
Traz di Som
Fiquei indignado quando li uma nota jornalística, cuja manchete vinha nestes termos: Anti-Semitism subsidized by U.S.? Aid flows to Cape Verde regime that attacks Jews. E também acompanhei a lista dos emails, em forward, até à minha “caixa de correio electrónico”. Somando dois mais dois, vi claramente o quatro e o quadro de gente bem identificada que, uma vez mais e pela falácia, avilta a imagem de Cabo Verde. Não pude deixar de pensar, com náusea diga-se, que há um lado perverso neste nosso jogo democrático. Em verdade, a democracia só nos interessa, se for com verdade, pão e fonema. A democracia só é virtuosa se estribada na liberdade e no bem-estar, conceitos alargados e subjectivos, mas com uma sustentação cognitiva muito clara. O anti-semitismo não existe em Cabo Verde e não seria pelas opiniões irresponsáveis de Florenço Baptista, nem pelas reacções desproporcionadas de José Tomás Veiga que ele passaria a existir. Quase todos nós, cedo ou tarde, tivemos ascendentes judaicos e isso, assim como outras ascendências, não nos torna melhores, nem piores. O sermos mestiços significa que corre em nós o húmus antropológico de origem vária e recusar esta realidade é sermos empobrecedores. Mas o busílis da questão está na maliciosa tentativa de “denunciar” uma situação que não existe, com o fito de “encurtar” ou mesmo comprometer a assistência americana e/ou outra a Cabo Verde. A política do “vale-tudo”. Chegados aqui, peço-vos licença para vomitar…
Assessorando a Cultura
Ter servido no Ministério da Cultura me deu a enorme percepção das mudanças que o sector demanda. E não deixou de ser “uma verdadeira escola” partilhar o dia-a-dia profissional com Manuel Veiga, Ministro da Cultura, como assessor. Longas e caudalosas conversas (e sonhos, porque las hay…) e planos sobre a causa e a coisa da Cultura. Em verdade, precisamos de mudanças radicais a nível do sector, nomeadamente em questões da inclusão, da diversidade, do património, do livro e da leitura, da arquivística, da animação e, sobretudo, da internacionalização. Se quisermos fazer da Cultura um factor importante, se não mesmo aquele determinante do PIB, temos de encetar a triagem e a selecção do potencial, investir pesado na produção e introduzir um novo padrão de qualidade dos bens e serviços culturais. A lógica da subvenção indiscriminada, autentico hábito de FAIMO cultural, não nos levará a caminhos do sucesso e da excelência. É preciso reservar o subsídio institucional para os casos excepcionais e periclitantes. Para a maior parte dos casos, urge instituir créditos, com juros motivadores, que permitam a um tempo introduzir a noção do mercado artístico e a outro tempo estrategizar a inserção internacional da Cultura de Cabo Verde.
Traz di Som
Não podia deixar de assinalar o lançamento do álbum Traz di Som, de Ângelo (Djinho) Barbosa, ocorrido na última sexta-feira, no Palácio da Cultura. São 16 faixas de boa música, à procura ousada de novas sonoridades e de outras atitudes para com a Música. Projecto generoso e federador, Ângelo (Djinho) Barbosa, conseguiu o feito de reunir, para fazer coisa boa, 35 músicos de diferentes matrizes e matizes. É obra. Num tempo em que precisamos, como pão para a boca, de destrinçar o trigo do joio…
Intervalo
Não me é possível prosseguir esta crónica sem que a tristeza e a saudade aflorem à linha do texto. Os sentimentos invadem-me a escrita e eu nada mais sou do que um cronista de viagem. Queria ser cerebral e frio, pura faca incisiva na carne. Queria não ter pena dos dias soletrados nas horas. Nem lamentar o sol que, desaparecido no poente, voltará amanhã recauchutado e...fatalmente outro. Queria ser estrela cadente e riscar, com ilusória beleza, o silencioso céu. E, quem sabe, poder regressar ciente da minha prefaciadora das crónicas implacáveis. E dela ter, quiçá em retorno, um pródigo abraço...
segunda-feira, 6 de março de 2006
Linda cotovia
Vejo o sol a pôr-se em raríssima beleza e a minha tristeza é uma existência…com poesia. Chamava-a, com respeito e amizade, “linda cotovia”, mercê de uns versos de Xavier Villarutica, poeta mexicano. E a minha amiga dizia amiúde versos de Pessoa quando a ocasião prometia balbuciá-los. E foram poucos, mas bons, os momentos de encanto em que pude com ela falar sobre os livros que, pela fantasia, nos apanharam pela rama. Os livros de Miguel Torga, dizia-me ela. E eu insistia que lesse os de João Ubaldo Rodrigues, devasso das vestes que aprisionam certos intelectuais. E aplaudimos juntos Lauro Moreira, na residência do Embaixador Victor Gobato, a recitar, em eloquente verve, “Alguns Toureiros”, de João Cabral de Melo Neto. Ou tão simplesmente, com uma candura de pássaro, “Estiagem”, de Jorge Barbosa. Pois é, Lica era uma alma boa, doce e pacífica. Uma alma poética. E, sempre que morre alguém próximo da minha saudade, fico a flutuar no pensamento e, sem alarde, deixo a minha solidão ir ver o pôr-do-sol.
Fome
Inaugura-se o Monumento à Fome e às Vítimas do Desastre da Assistência, numa das rotundas da capital. É um obelisco em tríade, a representar a família nuclear cabo-verdiana, disposta de forma concêntrica numa procura de céu…e de eternidade. Os obeliscos são assim: agudos, dramáticos e desafiadores. A cidade irá entender pouco a pouco o significado do Monumento e recriará a partir dele um traço mais estético (e mais futurista) para o espaço. A Fome continuará, por muito tempo, a ser uma referência em Cabo Verde. É uma experiência traumática e matricial inscrita na psique de todos nós, mesmo daqueles que insistem no esquecimento. Assim, no imponderável da velocidade das luzes e dos automóveis, faça sol ou lua, nuvem ou Juno, a nossa memória se sublimará em beleza neste chão da República…
Albatrozberdiano
Entrementes, alguém entoa uma melopeia triste e não consigo identificar quem seja. Sempre a medo de serem as sereias, das que cantam à aventura peregrina, amarro-me ao mastro da minha imaginação e sigo a viagem. Não me importa o que os deuses pequenos pensam dos dias. Estes (os dias, naturalmente) passam indiferentes aos grandes e desaguam sempre na profundidade do destino. Quem souber doutra margem, atire aqui e agora a primeira pedra. Ou tão simplesmente ria o seu riso sapiente que a própria vida tem os seus cabelos brancos. Mas não se julgue ingénuo e abrutalhado este fruto das vinhas. Tem-se nesta hora os dentes todos na boca. E o que era doce acabou: o Supremo já deu o seu veredicto e a Vénus de Milo, como diria Arménio Vieira, está gorda. A partir de hoje, entra-se no realismo pesado e a poesia, a pouquíssima então, desvelar-se-á pelo ralo. Eu já não acredito nas manhãs que cantam. Infeliz, mas lúcido, farei sozinho a minha longa estrada. Sem lenço, nem documento…
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
BIG BROTHER
A brincar com o Pablo aprendi que as brincadeiras têm peso e ocupam espaço…na alma. É uma experiência bonita e enriquecedora, garanto-vos. Por isso, digo-vos a Constituição, assim como está, às vezes, é um transtorno bipolar. Leiam, como eu li, ““O doce veneno do escorpião”, de Bruna Surfistinha, que, sem medo de mostrar a cara, nos conta do “real life”. Não serei eu o primeiro, nem o último, a misturar alhos com bugalhos. O fenómeno BIG BROTHER instalou-se entre nós. Dias-há….
Inquietações
Não consegui atinar a razão por que dois avaros cronistas desta praça inquinaram o bate-boca das eleições – aqui, de celebrações, e, acolá, de impugnações – na séria, seríssima, questão do Holocausto. O que uma coisa teria a ver com outra? A par do inquinado, e falando agora também a sério, concordo que o Holocausto, extermínio de milhões de judeus e outros grupos indesejados pelos nazistas (comunistas, homossexuais, ciganos, eslavos, sindicalistas, católicos, Testemunhas de Jeová, e pacientes psiquiátricos), seja para sempre lembrado como o ápice da selvajaria e da intolerância humanas nesta era contemporânea. Ocasião para recordar ainda as bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáki. Ou recuar um pouco mais no tempo e repensar a Escravatura, cuja rota da memória a UNESCO pretende erigir. Já agora, e porque estou na Cidade Velha – ou Cidade de Santiago, rebaptizado –, diante do grande oceano que nos leva para o mundo, lembro-vos da frase de Koichiro Matssura: “Símbolo da negação dos direitos humanos, o tráfico negreiro e a escravatura devem ser recordados pela consciência humana. Pela exploração e a violência extrema que as caracterizaram, pelos discursos monstruosos que os justificaram, e pelas interacções paradoxais que engendraram, esta tragédia continua no centro das questões mais quentes do mundo de hoje”. Inquinemos, pois, o debate para estas questões da nossa (des) Humanidade…
Cabo Verde mais ao largo
Cabo Verde é isto: “Para António C., a caminho da América, com um forte abraço da sua esposa e filhos, até um dia se Deus quiser”. Além de simples e corriqueiras “mantenhas pela rádio”, Cabo Verde é a extraterritorialidade onde radicam as suas comunidades espalhadas pelo mundo. São os cabo-verdianos que se posicionam em rede para fazerem do arquipélago um espaço matriz e matricial da cabo-verdianidade. É isto na cultura, na língua, economia. É isto nas eleições. Os argumentos que dividem os cabo-verdianos dentro e fora do país são falaciosos e fascistas. O povo das ilhas nem sempre está nas ilhas e, quando isso acontece, ele não perde a sua identidade, nem os seus direitos cívicos. A grandeza de Cabo Verde está nesta nação que extravasa o Estado e se prolonga por “ilhas mais ao largo”. Saudemos, pois, a Nação Global Cabo-verdiana e deixemo-nos de “mofineza”…
Super a superar a nossa paciência
Irreconciliável, fiquei como toda a gente a aguardar a decisão do Supremo. A cada dia, é o dia…e nada. O país todo, em stand by, à espera de uma decisão e os senhores doutores demoram assim tanto tempo! Não percebo nada de juízo, nem de assaz procedimento. É possível que seja normal essa câmara lenta, lesiva da nossa santa paciência. Alguém me confidencia que o anacronismo está no 5º Juiz. O episódio onde entra o bonitão, ainda por cima de prazo vencido, virou hilário nacional. Gostávamos muito de rir, lá isso é verdade. Mas demais faz mal…
Racismo
Outro dia, os avaros falaram também do racismo. Sim, o racismo. E ninguém venha dizer que tal seja afago doutra freguesia. O racismo é global, globalizou-se. E assentou raias entre nós também. Muito do nosso bairrismo não passa de racismo contido. Normal seria que as localidades competissem. Que cada um, no seu rincão, vestisse dele também a camisola. Isso, sem perda de perspectiva nacional, nem esquecimento do nosso destino colectivo, obviamente. O que é absolutamente intolerável e dispensável passou a ser a ideia da supremacia, do lobby bloqueador e do regionalismo autocolonial. E sobre isso, de nada adianta a defesa do avestruz, fingir que o dito acaba por toque de mágica ou por uma fuga em frente. O racismo, sim. Já que os avaros trouxeram a deixa, vamos colocar o dedo na ferida. Noutra pauta, falar-vos-ia de Etelvina, nome inventado naturalmente, como uma pérola. Raceada, branco e negro, nasceu escurinha e de olhos verdes. E o drama de tal cruzamento é problema do BIG BROTHER. Etelvina quer, e merece, ser feliz…
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Um oásis no recôndito
Creio ter sido Fernando Pessoa, o grande, melhor dito, o profundo, a escrever que “Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma”. Ó, leitor, a minha mãe faz anos e eu agradeço a Deus pela mãe que tenho. Queria, em súplica pública, que ela soubesse (para a eternidade) que sou o eterno devedor. Fosse eu o autor do soneto de Januário Leite, estaria um pouco mais tranquilo. Tivesse eu pintado “Pietà”, loiça do tipo, seria outra loisa. Mas nada de frustrações, pois cada um dá o que pode e a mais não é obrigado. E a minha mãe sabe que há um oásis no recôndito da minha alma…
Saravá, shallon e olá como vamos
Acompanhei, primeiro, com hilariante leitura, e, depois, com alguma preocupação, o semitismo e o anti-semitismo dos articulistas Florenço Varela e José Tomaz Veiga. A questão judaica, que é séria e importante, merecia ser discutida com outra serenidade e nunca no calor de eleições, por uns, ganhas, e, por outros, perdidas. Não há inferioridade, nem superioridade, pela origem judaica. Seria falacioso querer que houvesse. Falacioso e irritante, já agora. Oportuno seria debater a cidadania cabo-verdiana e a origem antropológica do cabo-verdiano. O código genético é importante. Mas não é no inato apenas, mas sobretudo no adquirido, que reside a virtude. Pelas quatro costelas, descobri numa delas a minha origem judaica. As minhas origens cristãs-novas, como diria Manuel Delgado, o mais acutilante jornalista cabo-verdiano. Mas pelas minhas contas, entram na minha composição genética os fulas, os mandingas, os indianos e os portugueses. Algo me diz que somos fortes e “ricos” por esta mestiçagem. O mundo que o cabo-verdiano criou, com perdão a Gilberto Freyre, tem origem em muitos outros povos e em mais diversas culturas. E temos de estar orgulhosos destas origens (de todas as origens, note-se). Sem xenofobias, nem afirmações…bestas!
Caia na gandaia
Ó, leitor, basta de política. De contar e recontar votos. Isaura Gomes, quando acerta, pede basta à psicose da fraude. Vamos cair na gandaia, pois a ala dos malucos (e dos artistas) já sai pelas ruas. Estamos no Carnaval. Além de grande evento cultural e grande negócio turístico, o Entrudo tornou-se numa profunda terapia psicossocial. Carregados que estamos todos de duas eleições, com a sua boa dose de guerra de nervos, o Carnaval vem em boa hora. Há que desanuviar, festejar, rir, soltar a franga. Uma festa estival, tomada de máscara e folia, na qual o fugaz sobrepõe ao eterno. “O Carnaval está aí, vamos vadiar…para a polícia não pegar!”. Sobretudo, o nosso auto policiamento que, vezes sem conta, nos leva à patrulha e ao fascismo existencial. Ame-se quem puder…
Griposa preocupante
Enquanto a gripe aviaria se globaliza e, como um cancro, ela se aproxima, os homens perdem o tino e o siso em guerras fratricidas. Parece que vivemos tempos difíceis em termos de uma consciência colectiva em prol da paz. Os recursos gastos para a destruição são de longe mais avultados do que aqueles dispendidos para pesquisas e aplicações médicas. Sofisticam-se mais as prisões do que as escolas. Armam-se exércitos e desarmam-se hospitais. Um pouco por todo o mundo. Apetece-se sair à rua, de cartaz em punho, e manifestar-me contra este grande absurdo. Estaria sozinho? Naturalmente, num país onde as pessoas não conseguem fazer entrar nos eixos a Electra, é normal que ninguém se manifeste contra o aquecimento global. Eu vi a frieza com que a comunicação social tratou o facto do Presidente Pedro Pires ter restituído ao mar uma tartaruga cabeçuda. Frieza tão franciscana quão ignorante. Pois, estaria sozinho, pedreiro livre que sou, sem lenço nem documento, ciente da minha cidadania. Aliás, prefiro uma boa solidão a uma má companhia. Por isso – montanha! -, queria estar bem lá no alto…
A NATO por estes dias
Defendemos que Cabo Verde terá de ser um país útil para a comunidade internacional. E utilíssimo na promoção da paz e da estabilidade, sobretudo regional, diga-se. Destrinçando sempre a geopolítica da paz da geopolítica da hegemonia e do terror (sob qualquer forma e conteúdo), há que ponderar, entretanto, o papel do nosso país na presente conjuntura internacional. Os exercícios militares da NATO devem ser assim analisados pela opinião pública. Não os detalhes militares em si, mas os contornos políticos e diplomáticos da sua autorização e da sua concessão. Os cabo-verdianos querem saber em que condições eles se realizam e quais as suas vantagens (e as desvantagens). A que lucro (e a que custo) temos a NATO por estes dias. Será pedir demais? Nada disso. Uma exigência democrática tão somente…
Nota: Discorde, fale mal, fale bem, concorde, esperneie. O leitor pode sim opinar sobre as minhas crónicas. Recebo críticas pelo email: filinto1992@yahoo.com.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2006
Liiiiiiiiiiiiiindo
Esta é a crónica do Dia Lindo. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó pessoal. Antevimo-lo do alto da montanha, em Santo Antão. E tudo isto transcende a política. É uma coisa épica. Romântica até mais não. Tomada de beijos e abraços. Risos e lágrimas. De gente bonita, no seu interior emocionado. Este é o Dia Lindo. Definitivamente este não poderá ser o tempo vigiado. Liiiiiiiiiiiiiindo, ó juventude…
Daquela aventurança
Em criança, fui um mau perdedor. E sofri muito com isso. Chorava e agredia toda a vez que tivesse de declarar a falência no jogo do monopólio. Se a minha equipa perdesse, era um Deus nos acuda. E se não conseguisse um lugar à mesa ao lado da dona Mindoca, a comida sabia-me amarga. Aos poucos, fui aprendendo (e ainda bem) que a tolerância era a melhor aventurança da vida. Perder ou ganhar fazem parte do mesmo processo. E ambos devem ser tomados com calma, serenidade e responsabilidade. Já adulto, perdi eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos e, felizmente, ganhei eleições, empregos, mulheres, amigos, inimigos…não confundindo nunca nuvem com Juno. Ao vencedor, impede a fineza da humildade. E ao perdedor, recai a responsabilidade da felicitação. Isto, dito assim, não tem graça alguma. Era preciso viver as luas todas de uma campanha (imprópria para cardíacos, diga-se) para se ter a ideia desta crónica. É uma questão que tem a ver com Freud e não com a fraude. Trata-se de um indício muito perigoso a que devíamos estar mais atentos. E isso lembra-me aquela do jogo da bisca em que o perdedor quis impugnar os resultados de um capote. Se a moda pega e faz doutrina!
A viagem até 2011
Estas presidenciais devem ser analisadas por múltiplos ângulos. E as ilações também podem ser múltiplas. Serão escritas páginas e páginas sobre a vitória do Comandante Pedro Pires. Analistas e politólogos, gente com mais ciência (e mais frieza) de perspectiva. Eu apenas direi da minha justiça. Ora bem, os cabo-verdianos votaram maioritariamente no Comandante Pedro Pires porque entenderam que este dá mais garantias para liderar o Estado de Cabo Verde nesta transição ao País de Desenvolvimento Médio. Mais garantias, entendem? Decisivamente, o contra-ciclo político só será em 2011.
Com Cabo Verde no Coração
Agora é tempo da inovação na continuidade. A navegação entendeu o que estava em causa e deu o seu veredicto certo, certíssimo. Desta feita, o eleitor não se fez rogado: concedeu boa margem de legitimidade ao presidente. E, em democracia, a vontade do cidadão é soberana. O que se espera de um presidente que fará o “time-frame” 2006-2011? Doravante, a presidência deverá ser exercida com maior protagonismo e acutilância. Embora o presidente da República não tenha a governação como encargo, a sua eleição é muito importante, pois trata-se do mais alto representante da Nação. Tão importante que o novo presidente eleito poderá exercer uma magistratura mais influente no combate à pobreza, na erradicação do tráfico de droga, no alargamento da inclusão cultural, nas parcerias estratégicas e nas novas âncoras internacionais, no retoque constitucional necessário e, sobretudo, no aprofundamento da nossa cidadania. Liiiiiiiiiiiiiindo…
O TELL ME THE TRUTH ABOUT LOVE
NHOS FLA-M VERDADI ASÉRKA DI AMOR
TRADUSON: J.L. TAVARES
Ten kenha ki ta fla ma amor é un rapazinhu
Y kenha ki ta fla ma el é un pasu;
Es ta fla ma e ta faze mundu jira el sozinhu,
Ten kenha ki ta fla ma é un éru krasu:
Mas kantu N tenta sabe atraves di vizinhu
Ki ta parseba ma kel li staba na si alkansu,
Si mudjer fika aburisidu
Y e fla ma éra proibidu.
Será ke ta parse ku un pijama
Ó pruzuntu na kabu kura dor,
Será ki si txéru ta lenbra un lama
Ó e ten purfumu di un flor?
Será ke áspri sima arami farapadu
Ó suavi sima un masiu kubertor,
Será ke ta korta ó é lizu na ladu?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
Livrus di stória ta papia d´el
Dun manera ki kuazi ka ta ntendedu,
Y ta papiadu txeu d´el
Na kes grandi naviu ki ta trabesa mar sen medu;
Dja N odja es asuntu tratadu
Na rilatóriu asérka di algen ki mata kabésa,
Dja N odja-l té rabiskadu
Na gia di konboiu viradu dipalbesa.
E ta uba sima un lobu fomiadu
Ó e ta rapika sima marxa fanfara,
Será ki si son é midjor imitadu
Nun seroti ó na pianu Xiku Séra?
Será ke gosta so di stilu bédju
Ó na fésta é pruvokador
E ta kala so N da-l ku duedju?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
N buska-l na kaza di veron
Mas N ka atxa-l nen sen kamiza
Na kel ar di brighton ki ta intxi pulmon
Nen la maidenhead, la na tamiza,
N ka ta ntende vos di rozera
Melru N ka konxe si kanson
Mas e ka staba dentu kapuera
Nen baxu di kolxon.
E méstri na faze bioku sen midida,
E ta bira tontu na karosel,
Ó e ta pasa ténpu na korida
Ta brinka ku fiu di kordel,
E ten ideias asérka di dinheru
E ta atxa ma pátria debe kantadu lovor,
Ó e gosta di ri di stórias brajeru?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
Es fla-m ma ta fika sénpri lenbransa
Di kes sintimentu ke ta inspira,
N sta buska-l desdi kriansa
Y nunka N ka panha-l na mira
Trinti-sinku anu di tamanhu
Y N kontinua sen konxe
Es kriatura stranhu
Ki tudu algen e ta da koxi.
Y óra ke ta ben, e ta ben sen aviza
Inkuantu N ta linpa naris
Ó N ta odja-l sédu antis di txon N piza
Ó e ta masa-m na otokaru di karis?
E ta ben sima ténpu ta muda
Ku mansidon turtura ó kusa pior,
Nha bida futuru e ta muda?
Nhos konta-m verdadi asérka di amor.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Montanha
Não direi outra coisa deste momento. Os nossos olhares dizem quase tudo e faz algum frio nesta montanha. Devíamos ter trazido uma malha mais pesada. Os abraços e os afagos não aquecem as sobras do mundo. Desgovernados que somos, é neste preciso lugar que a vida nos faria sentido. As honras, os livros, os compromissos – menos os filhos e a música – podem ser deixados na saudade. E se o sol nos saísse redondo e amarelo? E se tudo parasse para sentir a terra a girar? Distante da pequena política…
O segundo erro de Agostinho
Recentemente, dando um triste espectáculo de mau perdedor, sai-nos um Agostinho, pior do que nunca, a propalar fraude ao vento. Foi um erro grave, gravíssimo. Sobretudo, porque não fez jus, nem honrou o ónus da prova. Quem acusa, tem que provar. Senão corre o risco de perder credibilidade. Ou, então, incorre ao crime da calúnia, com consequências penais e civis. Quem atira a primeira pedra, reza o bíblico preceito, terá de estar imune ao pecado. Ou, bem no popular já que estamos em campanha, terá de se cuidar do telhado de vidro. Vociferando, gesticulando e gritando, o gajo abriu as torneiras do esgoto e as residuais alagaram o seu próprio partido. Foi o seu segundo, e grave, erro. Tenho falado com amigos próximos, alguns militantes e outros dirigentes, do MpD. Estão todos incrédulos (e angustiados, diga-se) com a “feito” do seu presidente. Como sei separar o trigo do joio, e reconheço as virtualidades desse partido no equilíbrio do sistema político, digo isto aos meus amigos: tirem-no dali. Troquem-no por outro mais interessante. Aquilo deve voltar ao lugar de onde deveria ter permanecido – a militância na base!
Combate pela História
Mas basta, Pranchinha, onde quer que estejas! É já no domingo que a coisa se resolve. Entrámos na recta final de uma campanha. E já não temos tempo, nem paciência, para cansaços. Às tantas, a adrenalina toma conta de nós e move-nos o gosto pelo embate. Outras vezes, temos a tentação de exacerbar, sair da coordenação e responder às coisas. Mas não, terá de ser tudo ponderado, conforme os cânones. A campanha eleitoral é uma estilização, civilizada, da guerra. Um confronto feito de cartazes, bandeiras, pulseiras, tempos de antena, comícios, porta-a-porta, boca-a-boca, negociações, enfim, tudo a que se tem direito para levar a água ao moinho. A par de tudo isso, não estamos num jogo das circunstâncias. Para nós, este combate é estrutural. É um combate pela História…
Ao peitoril de uma casa
No alto da serra, avistamos São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau e os ilhéus Rombo e Raso. O aroma a rosmaninho, eivado a perfume dos pinheiros, leva-nos distantes no pensamento, com os fiapos de nuvem. De repente, invade-nos um sol redondo e amarelo. E rimo-nos. Não vá o adversário reclamar por um sol azulado, pois a natureza não se afina pelas leis eleitorais. Nem se confina a esse Carnaval da política. Vamos ao peitoril de uma casa, onde o queijo fresco é divino e o grogue é mesmo de Santo Antão. Um cúmulo de nuvem faz trilho ao telhado dessa casa. De uma porta, ladeada de duas janelas, sobra à soleira uma criança tão linda, tão linda, que Deus existe.
terça-feira, 31 de janeiro de 2006
Travessia
Disse, uma vez Cláudio Vivo (dou um doce a quem descobrir o seu paradeiro): É triste, mas verdadeiro. A grande maioria das pessoas passa por esta vida imersa na multidão, cumprindo prazos, pagando contas, morrendo de medo do futuro e idealizando um passado remoto que é na maioria das vezes um monte de sequelas. Outros (poucos, loucos e raros) desafiam, desafinam este coro de contentes descontentes. Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram à beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo. Não sei se os leitores entendem o espírito, mas os tempos pedem um esforço de compreensão. Entrementes, estava no terraço de um ferry que nos atravessa o canal entre São Vicente e Santo Antão.
On the road
Estive em Santo Antão e caí de quatro. Fiquei impressionadíssimo com as montanhas e com as cordilheiras. Todas imponentes e caprichosas. Desafiando tudo. A terra e os homens. Mentalmente revi os retratos de “Flagelados do Vento Leste”, de Manuel Lopes, um romance marcante. Em Ponta do Sol, alojei-me perto da minha casa da mais tenra infância. E, por um relapso que só Freud explica, revivi o convívio com Nha Juliana e os passeios à mirada de Ponta de Pistola. Palmilhei a ilha de lés a lés e quase quis parar – assentar de cama e mesa! – em Ribeira do Paul. Mas havia um comício mais à frente e uma eleição para ganhar…
Campanha alienígena
Abro os jornais e acompanho o impropério. Ainda bem que isso só acontece num planeta bem distante. Em Cabo Verde, as coisas já são diferentes. País do milénio, do desenvolvimento médio e da categoria 1, ora. Mas dizia, o dito acontece num planeta a mil milhas. Ali, a fraude eleitoral é cassete gasta de todo o derrotado nas eleições. Uma linguagem violenta, virulenta e rasteira. Com verguinhas, cimentos e euros à mistura. Os cartazes gigantes, médios e pequenos, espalhados pelo planeta, são para o inglês ver. Na ante-véspera das eleições, está-se mesmo a ver, a capotona faz das suas e sai pela calada a comprar votos. As capelinhas, as clientelas e os carreiristas de sempre. Dão vivas e abaixos diante da multidão. E querem ganhar à força (e à sombra) umas eleições já perdidas. É a lógica do verbo fácil, demagógico e conventual, onde o Estado é palavra vã. Assim não dá…
Musa de amarelo
Em Ribeira das Patas, conheci uma linda jovem. Estava grávida e vestia umas camisolas amarelas, pilon-pilon. Quis saber das suas razões, além do entusiasmo político, pontuado pela batucada. Ela falou-me do futuro e da sua responsabilidade maternal. Prometi sugerir à dita, musa da campanha, disse alguém, um nome para o primogénito. Vai ser um nome bonito, risonho que nem a aurora. Para, como diria o poeta Mário Fonseca, quando a vida nascer…
quarta-feira, 25 de janeiro de 2006
Os desgovernados
Como se a espiral desse agora mais uma volta, assim eles se encontraram tantas luas passadas sobre aquela praia. Que o passado esteja morto e enterrado. E dele fique lembranças, ora boas, ora nem por isso, mas sempre cândidas de mãos fadadas para um reencontro. Esquecidos da elementar cautela, os desgovernados amaram-se pela madrugada e a sorte, que sempre inveja, soube serenar o seu ímpeto de maldade. O amor é o melhor que há nas nossas vidas, escrevera ele em tempos distantes, noutras paragens. E ela então prometida ao destino suspirava o derradeiro encontro, como se de “Amor em Tempos de Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, tudo se tratasse. E a espiral, cumprindo mais uma volta, fez do fugaz o que a vida tem de eterno. Mesmo que soletrada sobre aquela praia…
Um novo mundo é possível
Em tempos de campanha eleitoral, a crónica fica entontecida. O texto tem de se apartar das tentações e o cronista fica esquizofrénico. Por isso, ele fala de amor, que é a mais profunda forma de subverter as coisas. E por falar de amor, acontece neste momento o Fórum Social Mundial, desta feita na Venezuela. O Fórum se define como um espaço mundial de debate democrático de ideias, aprofundamento da reflexão e formulação de propostas que se opõem à ditadura do capital. Vale a pena conferir esta cosmovisão no Site: www.forumsocialmundial.org.br . Nele li um extraordinário discurso de Hugo Chaves sobre Sandino, Simon Bolívar e Pancho Vila. Não só o texto retórico estava impecável, como a semântica era toda conseguida. Nestes tempos em que a América Latina retorna às lideranças necessárias, valerá a pena acompanhar o mundo com uma visão mais alargada e crítica. O nosso olhar não pode ficar confinado às eleições portuguesas, desaguadas em Cavaco Silva, mas têm de extravasar para mais além. Céu é grande, mundo é largo…
Águas passadas…em festa
Acontece a qualquer um embriagar-se numa vitória eleitoral. Logo eu que sou fã de Kundera e tenho sempre à mão “O livro do riso e do esquecimento”. Pois, dizia, acontece a qualquer um saltar, sorrir, dançar e gritar vivas. Quem diria, eu que não vou à procissão, nem à manifestação. Eu que vejo a vida e a morte, como um albatroz, convencido que o poeta nunca foi deste mundo. Mas esse celebrar transcendeu a um devaneio passageiro. Sofri a cada hora da campanha, a cada minuto da contagem dos votos e a cada segundo do anúncio dos resultados. Não nego que essas eleições mexeram com a minha estrutura muito mais do que eu gostaria de admitir. Pelo sim e pelo não. Por isso, são águas passadas…em festa!
O gado em raiva & já faltou mais
Soube, por travessas portas, que o gado continua raivoso. Há quatro anos raivoso. A destilar alcatrão quente pelas ventas e a vociferar mil pragas contra o alter-ego do Pranchinha. Este também não é flor que se cheire. Tão logo diluído no esquecimento, volta à carga, atiçando os do palanque para o diálogo dos dias. Pôr as ideias a circular é o apanágio dos democratas, razão porque não se compreende que o gado continue tão neurótico. Tendo o vulgo indagado as razões de tamanho fiasco, o Pranchinha respondeu, com aquele humor de espantar catedrais: “O efeito ‘manito bomba’ é de feitiço contra feiticeiro, ó minha gente”. Mas não tardará muito para que possamos voltar à normalidade. As eleições são necessárias, porque dão oxigénio à democracia, mas cansam. Exacerbam. O nosso espírito já pede algum remanso, algo como uma paz. De uma nuvem que se instala, linda como um algodão doce, diante do nosso olhar existencial…
Os desgovernados
Os desgovernados olharam o céu e aquiesceram. O que dirá o Zodíaco sobre o futuro e a angustiosa decifração dos enigmas? A tremeluzente cidade, adormecida, dolente na sua aparência. O arfar das horas monocórdicas e dos corpos assustados. O importante é haver vida e vivê-la com sentido. O resto…ondas que beijam a praia e depois partem. Liquefeitas, realizadas, saciadas…
quarta-feira, 18 de janeiro de 2006
Aquariano pós eleitoral
Desta feita, faço recortes. Não por falta de assunto. Mas por excessivo assunto. Saio à rua e tudo muda de figura: cartazes, bandeiras, músicas, farpas e fanfarras. Está-se em tempo eleitoral e eu, como a maioria dos cabo-verdianos, vou votar no próximo domingo. E, quem sabe, apesar da sandice de certos discursos, estejamos novamente a fazer história. Manifestamente há civismo nestas eleições. Tirando um ou outro caso, a lembrar que “quem não suja à entrada, fá-lo à saída”, tudo corre como manda o figurino mais civilizado. Às tantas, percebe-se que a democracia é um excelente processo civilizatório. Isto é, aos poucos, vamos perdendo a barbárie que nos torna exacerbados uns com os outros.
O Pranchinha revisitado
Daria tudo para reavivar o Pranchinha. Este também daria o céu para assistir a tudo isto. Obviamente com o seu humor consequente de quem destrinça o trigo do joio. Por mais isento que o gajo se assumisse, fazendo jus à sua mania de juiz, nestas eleições a neutralidade parece impossível. De resto, não se pode ficar neutro, nem indiferente perante Cabo Verde. E Pranchinha teria de entrar na dança, seguir a procissão e subir ao palanque (ó política a quanto obrigas!). Frequentar a conversa de café. Curtir a demagogia dos assessores lusitos, compará-los aos tupiniquins de outrora, e lamentar a marginalização das competências locais (mesmo quando não mercenárias), enfim…o que o Pranchinha tem perdido nestes dias!
Conversa de café
Devíamos ter ido lá todos, amigos e conhecidos, nunca inimigos, diga-se, ouvir o que o homem tem de novo para dizer. Saber se há novidade, pois das velhas coisas (não por serem antigas, mas por serem ultrapassadas) já não há vencimento. Esperarmos que o discurso não traga desgraças, nem que os gestos sejam de briga. Já ninguém quer ir para a Pasargada, de modo que terá de ser aqui, na Tapadinha. Caso para dizer que estamos condenados ao entendimento. Obrigados ao destino comum, por Cabo Verde. Por isso, e porque há valores que transcendem a política, a tolerância e o diálogo devem falar mais alto. Devíamos, pois, ir à conversa de café. Para expressar as nossas “posições espontâneas”. Ou quanto mais não seja pelo café. Que nunca defraudou ninguém…
Xatiadu ku flipadu
O comício ia forte e feio, cheio de desgraça e de má-língua, vaticinando para Cabo Verde tsuname, tremor de terra, erupção vulcânica e praga de mil pés. O comício do pessoal xatiadu ku flipadu, pronto para tomar a terra de assalto e para ver se era daquela que a malta comprava gato por lebre. De repente, surge o jornalista no meio do apupo dos imbecis, uns mais fanáticos do que outros a mandar vir farpas contra o gajo. “Li o teu artigo no on-line”, diz um cão-de-fila, pronto para saltar na presa. O seu comparsa põe o dedo em riste e ameaça o jornalista. Gente que confunde estado de direito com da direita. Onde será que vimos isso? Alguém se lembra das ameaças pidescas? Em tempos do Estado Novo, seria? É pá…uma corja de fascistas!
Aquariano pós eleitoral
A 24 de Janeiro, este aquariano fará anos. São muitos e não os vou dizer ao leitor. Só direi que continuo engajado às coisas da arte e não às circunstâncias da política. O tempo eleitoral está sendo uma excepção, uma espécie de intervalo para dar o meu contributo modesto. Como cidadão não ficaria bem com a minha consciência, se visse este momento a partir do cais de ver passar o barco. No dia 13 de Fevereiro, faça sol ou chuva, venha nuvem ou Juno, voltarei aos meus poemas e às minhas pesquisas. Como diz alguém que me é próximo, “é tempo académico, mano”. Et pour cause, a partir dessa data, regressarei ao meu âmago. Aquariano tem cada uma…
sábado, 7 de janeiro de 2006
Rio
sábado, 31 de dezembro de 2005
Feliz Ano Novo
Nota: Arte é a condição sine qua non para uma resolução alternativa.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2005
INTERVALO
Que raras deusas têm escutado
- Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca
- A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
FERNANDO PESSOA
quinta-feira, 29 de dezembro de 2005
Soneto desviado
Pois nestas coisas do amor, o género
É puro detalhe –, na retina da solidão
Retirada do fino mel de mim.
E dizia, a cada momento, sua sentença
De ficar ou de partir e a viagem,
A mais dolorosa, diga-se, nesta nau
Onde são outros os azimutes de pertença.
Também outros, que não eu, caídos
À terra vermelha das coisas paradas,
Ajoelharão antes os deuses de esquina.
E saberão (dele ou dela) essa coisa louca,
Uma vontade de voo no improvável,
Que em mim lateja como um soneto…
Passaja d’óne
quinta-feira, 22 de dezembro de 2005
NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
Nota do Blogueiro:
Natal: rebuliço do vento
quarta-feira, 21 de dezembro de 2005
Os juízes e os nossos deuses de esquina
Pórtico
As Festas aproximam-se vertiginosamente, mas a minha alma está triste com o falecimento da tia Ivone, irmã da minha mãe, pertença do que somos e do que temos em termos dos valores familiares. Naturalmente que não irei discorrer sobre este doloroso facto íntimo no S/Cem Margens que, modéstia à parte e mau grado o próprio autor, é referência pública. Entrementes, dando contas à vida, devo sublinhar que a morte é o grande reconstrutor das coisas. Relativizando tudo, mas tudo, nada se sobrepõe à perda (irreversível) de uma pessoa querida e próxima. É como se uma espécie de sol partisse para todo o sempre. Dói muito, muitíssimo…
Glosa
As Festas aproximam-se vertiginosamente, dizia, e a azáfama natalícia é consumista. O comércio é o grande ganhador de haver Natal e os pobres ficam mais deprimidos do que nunca. Sempre achei que o Natal daria uma excelente ocasião para o debate sobre o desequilíbrio social. Paradoxalmente, a celebração do nascimento de Cristo (a grande esperança dos deserdados) se transformou na exuberância dos poderosos. Pode? Não que eu seja contra a celebração e o encanto natalícios. Quem chega em casa e não encontra a Árvore de Natal, não se considere feliz, nem benquisto. Há rituais que valem a pena, porque o ritualismo faz parte do ser antropológico. De resto, cai bem sair pela Avenida Cidade de Lisboa e pela Avenida dos Combatentes pela Liberdade da Pátria e ver as luzes da cidade. Melhor, só a voz de Nat King Cole a cantar “Merry Christmas To You”, no rádio do automóvel. Vertiginosamente, e de um só gesto, apetece-me abraçar a todas as pessoas que amo…
Deliberações & milénio
Uma decisão das autoridades eleitorais, sem efeitos práticos, que o Falecido comentaria “apenas para o inglês ver”, manda um partido político retirar cartazes de propaganda eleitoral colocados há três meses. Esse ilícito, que já teve o seu impacto danoso, está a ser reparado tardia e morosamente, permitindo à opinião pública pensar que a impunidade reina e que há uma tendência de “bananização” da República. E, já agora, porque “o cujo nada tem a ver com as calças”, aproveito para expressar solidariedade ao jornalista José Leite, do Noite Ilustrada, diante do acto censurante (sem aspas, meus senhores) a uma peça feita com isenção e deontologia jornalísticas e que não belisca os princípios que enformam o sistema e a lei eleitorais. Estamos a entrar em 2006, caríssimos. Há coisas que não cabem no milénio!
Com Cabo Verde no coração
Estive na Assembleia Nacional a ponderar a nossa sala cheia. O candidato Pedro Pires dizia, às tantas no seu discurso de apresentação, que a questão de fundo já não é a de haver ou não a democracia, mas sim da qualidade da democracia que existe no país. E, se a conversa antes era a sala composta do adversário, o que se dirá agora da transbordante multidão que ali estava a apoiar o “Amigo Comandante”? Mas o tema recorrente terá de ser adiado novamente, já que é impossível não pensar na minha tia Ivone, recém falecida, cuja alegria de viver merece, aqui e agora, a recitara da minha imensa saudade…
sexta-feira, 16 de dezembro de 2005
A hora íntima
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Rio de Janeiro, 1950
quarta-feira, 14 de dezembro de 2005
Pinóquio ou Ronda nº 2
(Uma hora depois de rodarmos os bares da cidade da Praia em busca da paz de espírito: Motcha, fechado; Pirilampo: fechado; Petu Pomba, fechado; chegamos ao Paulino, no Palmarejo. Acesa discussão. A escravatura foi abolida há 169 anos. Alguns dos nossos bisavós foram escravos. Mas até esta não discutimos a fundo a questão. Temos falado do Holocausto, outra tragédia, mas acontecida há menos tempo. As luzes na avenida prenunciam o Natal. Fala-se da escrita. O poeta é um fingidor, glosou alguém Fernando Pessoa. Eu queria tanto contar aos meus filhos a história do Pinóquio. Festival marginalizado, dizes no teu Blog)
Zero
Amiga, a grande verdade é que o mundo começou sem o homem e há de terminar sem ele. O ciclo completo não é necessariamente antropológico. Leio o teu Blog e gosto das tuas razões. Um dia, hás de entender que o mundo é um grande paradoxo às voltas. Vale termos os Raiz di Polon, Amiga. Gostei daquela: Está tudo a ver um Benfica – Manchester, um Porto – Artimedia. Ou então, a encher avenidas em passeatas...
Boa nova…lufada de ar fresco
Soube, há dias, pelo meu pai que Arménio Vieira lança em breve um livro de poemas. Nessa mesma tarde, encontro o Poeta por acaso e este confirma-me ter na calha o documento. Venha o livro, agora ou nunca. Quero ler boa poesia e não a versalhada que pulula por cá. Aguardo, com expectativa, o livro de poemas do Conde de Silvenius, um veneno contra a monotonia…e a mediocridade!
Natal a ser…
Aproxima-se o Natal e ficamos entre tristes e contentes. As luzes e as cores trepidantes trazem-nos algo como uma nostalgia e, mesmo calados cá dentro, a nossa alma chora de alguma perda. Viver é perder. Perder-se, para ser mais próprio. E no Natal, na azáfama natalícia, que nos sentimos mais sós no mundo. Ou a sós com ele, como tu predizias quando era luar o que nos encantava à beira das horas…
Cinematografia nacional
Parece ter chegado a hora de abordarmos o cinema e o audiovisual em Cabo Verde. A questão de fundo não é este ou aquele festival de cinema. Não coloquemos o carro diante dos bois. Está fora de questão adiarmos o debate. Importa, a bem da nossa cultura e identidade, uma cinematografia nacional. Para já, temos de criar as infra-estruturas institucionais que possam, via cooperação internacional e outros canais, fomentar a Sétima Arte. O cinema criou um manancial de obras-primas em pouco mais de um século. Tornou-se a mais popular e mágica linguagem antes da multimédia e fixou imagens transcendentais na retina da humanidade. Só que não se faz cinema com o aparato e os significantes. É preciso tocar no ponto certo. O Ministério da Cultura não poderá aderir ao cinema apenas por uma questão de marketing. Ele tem de se reestruturar organicamente para que o cabo-verdiano veja e produza cinema. A cadeia tem de ser montada. Aqui e agora…
Cinema Paradiso e o festival
Acontece o Festival de Cinema. Sem público, o que não é dramático em qualquer mostra de qualidade. A qualidade é hermética, me perdoem os populistas e demagogos. O meu amigo sente-se nervoso, perdido e sem estribeiras. Começa-se a procurar culpados. Típico de pessoas que não possuem referencial e tentam justificar a sua mediocridade diante da crise. Raramente a qualidade é pão que agrada todas as bocas. Mas, dizia, o festival acontece com alguns gatos-pingados e os burocratas ficam descontentes. Queriam ter público, imprensa, secretário de estado, ministro, fogo de artifício, gala, Hollywood, a ver se era daquela que o comboio entrava nos trilhos. Mas ainda é prematuro…
A propósito do cabaret no Ilhéu dos Pássaros
Ocupação do Ilhéu de Santa Maria? Eu também tenho as minhas reticências. Não que eu seja contra o investimento do magnata David Chow. Cabo Verde precisa é de mais e mais investimentos. Mas quando as coisas são de fundo, elas merecem ser socializadas com os cidadãos. Queremos saber a natureza de tal investimento no Ilhéu de Santa Maria, escrutinar criticamente os prós e os contras. Afinal trata-se de um formidável património histórico, paisagístico e ecológico. Por isso, as intervenções estruturais demandam, no mínimo, algum consenso da cidadania. O crescimento económico é bem-vindo, mas não o queremos a qualquer custo…
Sim, falávamos de Pinóquio
O escritor é uma espécie de Pinóquio. De tudo o que escreve, cresce-lhe este nariz. E os leitores já sabem nada é verdade. Nem mesmo a verdade. Escrever, dizia Pessoa, é fingir tão completamente a dor deveras. Bem criança, entre os meus seis e sete anos, eu ouvia contar a história do Pinóquio e ficava numa pilha de meditações existenciais. Era uma história, não se sabe se de rir, se de chorar. Como era bom ser Pinóquio e equilibrar sobre os ombros de outros bonecos. A vida é um show de marionetas…
segunda-feira, 12 de dezembro de 2005
Porque...
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
segunda-feira, 5 de dezembro de 2005
Não há praia para ninguém, madame
Há coisas que só acontecem aqui na Tapadinha. Umas boas, como a cachupa refogada ou o funaná lento. E outras horríveis, como o outdoor eleitoral antes da campanha ou, pior ainda, a covardia de o tirar. A jeito ou a eito, como diria o falecido no seu tratado “Oito ou Ointenta, as Dicas da Malandragem!”. Pelas coisas boas, vamos ficando nesta paragem e, nas entrelinhas, empunhando a bandeirola, mesmo que a dita pareça um pouco o logótipo daquela lata de banha da CEE. Pelas más, me perdoem as muito feias, mas beleza é fundamental, estaremos dispostos à lida contra a malvadeza e a carniça que envergonham a malta.
A Avenida enfarpelada
A Avenida, enfarpelada de luzes, prepara-se para a inauguração. Por uns instantes, somos já cosmopolitas. Por outros, continuamos provincianos. Cosmopolitas, quando pensamos a cidade de molde integrado e competitivo. Uma urbe disposta a ser um espaço equipado, com cidadãos qualificados. O binómio do desenvolvimento. E o resto, tretas. E provincianos, quando temos a sensação de trabalho acabado, obra fechada. Nivelando a cidade por baixo, comparando com outras da região ou, pior ainda, com o passado. O muito que já se fez, é pouco. O cidadão quer melhor aeroporto, porto, circular, avenida, rotunda, universidade, praça, mercado, parque, centro comercial, centro cultural, enfim, melhor tudo. Bem-estar e qualidade de vida, no mote dessa inauguração bonita. Ora, a cidade compara-se com o futuro. A saudade que se tem é do futuro…
Ao leitor atento
Mal abro a caixa-de-correio do Hotmail, dou de caras com uma mensagem indignada. Alguém que se assume apreciador do S/Cem Margens protesta contra a minha última crónica. Impõem-se-me uma resposta, noblesse oblige. Tive de explicar ao leitor que eu jamais seria pau-mandado. Se estou a apoiar este ou aquele é por pura convicção política. Melhor dizendo, convicção cultural. Acredito que este será capaz de ter sentido histórico e não se vender ao desbarato a um punhado de estrangeiros. E aquele tomará providências cautelares contra a máfia instalada na vizinhança. Pau-mandado é o apoiante acrítico que não destrinça aquele que governa daquele que se governa, porra. Agora, gostar mesmo, gosto da poesia e de coisas mais elegantes. Política não resiste à idealização. Arte, sim senhor. Paixão. Em matéria de coração, sou leviano assumido. Apaixono-me aos 44. Um caso sério…
O Plateau e o Monte Vermelho escavado
Dou uma volta pelo Plateau e tenho a impressão de que alguém anda a sabotar este lugar. Desconfio que seja ódio social, coisa parecida. Vingança histórica. Ou simplesmente incompetência. Nossa, naturalmente. De todos nós. Que não temos nem força, nem resistência, para dizer basta. Cidadania também seria afirmar o Plateau. Protegê-lo e fomentá-lo a ser o lugar de referência e memória de uma cidade, menina do mar. Só que o Plateau não é um problema só dos nascidos e residentes, dos munícipes direi, da Praia, mas uma questão que interpela a todos os cabo-verdianos. Desde a segunda metade do século XVIII que este espaço urbano é matricial da cabo-verdianidade. Não reconhecer isso é inibir a nossa memória e votar o nosso passado ao esquecimento. Não reconfigurar esta trajectória, que tudo alberga de identitária, significará uma perda colectiva com consequências imprevisíveis. O Falecido, que Deus o tenha, do alto do seu exagero, vaticinava a premonição da merda generalizada. Já não será só a falta de água e da energia eléctrica, dizia. Mas os esgotos vão encanar e o Monte Vermelho, escavado como está, cairá por terra. E os extractores de areia, além de matarem as tartarugas e de salgarem os lençóis freáticos, acabarão com as praias. Dentro de pouco tempo, já não há praia para ninguém, madame. O caos…