Mote
Correndo riscos de um dia acabar debaixo da ponte, o escritor escreve, como diria Niechstch, para não morrer de excesso de realidade. Pessoalmente, sem nenhuma pretensão, nem pedantismo, questiono muito a razão por que escrevo. Se calhar, para não ficares impune desta grande tragédia, disse-me Pranchinha. Em verdade, não consigo descortinar de onde veio o meu texto nem para onde vai. Como os números, ele não tem princípio nem fim. Mas garanto-vos que não é um verbo à-toa. Hermético, eu? Ás vezes, com muito visualismo, outras vezes, cheio das zonas de sombra, quando não o fulgor dos instantes, tudo aqui é verdade. Até mesmo a fantasia. Por isso, estou ciente de haver química e cumplicidade com os leitores. Quem lê um texto não o faz impunemente, ora. O amor é o único elemento estruturante em tudo isso. Por sinal, leio, num extraordinário livro, de Ana Luísa Amaral, estes versos: "Talvez só este abismo/Interrompo no mapa o precipício?/No traço dos teus dedos,/rota onde quase cabem: sereia,/o alaúde, o tempo,/ Nessa rota/o suspendo". É que a boa poesia recusa linha programática ou ideológica. Ela é simplesmente (musas somente) o espaço das belas letras. Não há impunidade possível, ó gente amiga!
Soletrado nesse vinho
Impunemente, uma taça desse vinho para a festa do corpo. E o recriar de tantas almas pelos lagares. Muitos lugares de passagem, onde os teus pézinhos, imperceptíveis de tão ágeis, saltitam sobre as hordas das vindimas. No fascínio que seria o vir a melodia, o teu olhar que nem sabe quão de mim é paz, sina e salvação, essas coisas vagarosas que se instalam em nós como uma grude. E mais, esse lacre quente de puro chocolate, que é o meu desejo. Até nas pedras, nas mais puras e nas quase nuas, calhaus apenas que estiram os nossos corpos no tapete dos sonhos. Textura, nervura, o que mais queiras, nada que não roube no coração todo este silêncio que temos sido...
Nova Orleãns
Dá pena ver crianças e velhos a chorarem entre os escombros do que restou de Nova Orleãns, cidade de Louis Armstrong e de Wynton Marsalis, para falar de dois imortais da música americana. As vítimas do furacão Katrina são a fase visível da incompetência, da incúria e do racismo. Não foi o furacão que lhes trouxe a calema. Ele apenas pôs a nu algo que se escondia nos ghettos, numa cidade que se veste de música e de carnaval para o consumo dos turistas. A tragédia há muito que tinha chegado ao delta do Mississipi, desde o vergonhoso tempo da escravatura. E da subsequente segregação. E da actual proletarização do negro. A escravatura, pelo resquícios de hoje, continua pior, muito pior do que o holocausto e é preciso que alguém o diga, sem medo de desagradar os senhores deste mundo. Este inferno, mercê de uma negligência franciscana e ulterior, deve merecer o repúdio de todos. Até porque os furacões têm algo a ver com o aquecimento global e esta catástrofe há de nos lembrar que é preciso assinar o Protocolo de Quioto. Problema mais sério do que o descalabro no mercado petrolífero e na economia globalitária reinante. Haja Humanidade!
Porto da Praia e a segurança nacional
O Porto da Praia, de longe o mais vital do país, está bloqueado, mercê de um quiproquó laboral entre o patronato (Enapor) e o sindicato (SIACSA). Enquanto isso, a fazer jus à Comunidade Portuária da Praia, o país encontra-se à beira de uma ruptura. Os prejuízos são enormes e o cidadão começa a pagar na pele o desentendimento no cais da Praia. Uma crónica de Péricles Barros descreve o caso de um diabético em risco de vida, porque os trabalhadores não autorizam o embarque da carga (entre ela o remédio vital) para a Brava. Nesse excelente artigo, Barros escreveu o seguinte: Imaginem se o presidente do sindicato dos estivadores tivesse um pai a morrer na Brava hoje, por falta de um vaso dilatador? Aí os déreis ou mil-réis a mais, o raio do PCCS, o novo sistema de remuneração que reivindicam deixavam imediatamente de ser uma prioridade; este homem era capaz de matar para enviar as ampolas do medicamento que o pai carece. A par disso, os empresários estão desesperados. E os investidores começam a torcer o nariz. Fala-se em legitimidade dos trabalhadores. Fala-se também da coerência do patronato. Mas nada disso resolve o problema do cidadão contribuinte e eleitor (e muito menos do diabético na Brava). Muitas questões emergem desse cenário, a merecer cuidadoso inquérito sobre as razões e as causas, algumas muito obscuras. E a realidade vai sendo esta: muitos navios aguardam ao largo para a descarga. As ilhas do Fogo, Brava, Maio e Boavista estão desabastecidas e há ruptura de produtos. Alguns navios rumaram à Guiné-Bissau por não poderem fazer operações no porto da capital. Outros foram desviados para São Vicente. Estranhamente, apesar das regulamentações e das práticas serem as mesmas no Porto Grande, as reivindicações dos trabalhadores ali não têm sido paralisantes. Será que há lodo no cais da Praia? Razão para dizer, com o humor a doer, mandem o pai do desgraçado para a ilha da Brava a ver se dói, carago! Havendo esse lodo, seria mais do que hora de o Governo intervir. O Porto da Praia é, no mínimo, uma questão de segurança nacional!
sexta-feira, 9 de setembro de 2005
quarta-feira, 31 de agosto de 2005
Alta do petróleo, karma, mantra & etc
O dó das estrelas
Cansado de uma ronda de reuniões, queria lidar a esta hora com a poesia, as artes, coisas realmente mais sublimes e mais sintonizadas com a alma. Para alguns, este frenesim é excitante e, por isso, adrenalina pura. Para mim, o cargo tem a ver com o encargo. A pesada canga da responsabilidade, condicionada ao odor bafiento dos gabinetes. Queria, se me permites, ouvir agora As Quatro Estações, de Vivaldi (Primavera, sobretudo) e, de olhos cerrados, visualizar o Roger Williams Park com os seus cisnes a deslizar na água. Hás de perguntar o que se passa comigo. Às vezes, quero perceber os versos de Fernando Pessoa: tenho dó das estrelas, luzindo há tanto tempo. Outras vezes, vou à Ponta Temerosa, que é o extremo desta minha cidade, e olho, com neurastenia, para o vasto e azulado vão. É que cansa, cansa mesmo, não poder contemplar o mundo. Há dias, em São Vicente, passei horas esquecidas com o Vasco Martins e o Tchalé Figueira, dilectos amigos, na grandeza silenciosa do Monte Verde. Silenciosa vírgula, pois, vez por outra, a beleza do mundo era invadida pelo grasnar de um corvo ou pelo piar de um falcão. Tão bom ouvir, ante o grande silêncio que a montanha exala, o ciciar dos bichos no nosso cansaço! Dirás que é meu karma. Ou simples questão de mantra este meu lado espiritual que atenta à perfeita sintonia e à curiosa clave entre o cantar de galo e as peixeiras madrugadoras a pregoar “cavala fresta”. Sim, fiquemos por esses nadas que – fumo violeta deste incenso –, vagam o meu pensamento para o além. E, antes que tarde mais no meu coração, te suplico que sejas poesia …
A surfar pelos blogs
Roubo tempo à burocracia, arre, e navego um bocado pelos blogs. Ultimamente, andamos todos bissextos nesta praça. Leio algo sobre o Tcheka Andrade, outro que admiro, e me sinto apaziguado. Se isto tudo fosse padrão Mayra & Tcheka! Temos de pensar no grande salto de qualidade para a nossa Cultura. O by-pass para a excelência não se compadece com algum assistencialismo artístico, um tanto ao quanto difícil de se desacelerar. Tão pouco significa marcar passo no tosco, quando o segredo é o bom acabamento e a apresentação de marca. E muito menos ficarmos a repisar o já visto, numa hora de inovação e competição. Obviamente, mais alma, como diria o matricial Orlando Pantera. Mas falava dos blogs e, desta feita, vou deixar algumas opiniões. Modestíssimas e exclusivas opiniões, diga-se. Posições nada a ver, mas ditas ao sabor do tempo, que a crónica, ela sim, tem a ver com o cronos e o resto é história. A propósito, com respeito às susceptibilidades e trocadilhos rascas, as "Alegrias" trazidas para esta "Praça" foram-nos impostas pelo monstro da incompetência, que a todos domina. Se para o mau entendedor, meia palavra besta; para aquele que vê alguma graça na desgraça, este vaticínio de que humor é um acto de inteligência. Ou seja, tem de ser cultivado, ora…
The Big Easy
Não posso pensar em Nova Orleães sem ouvir, remotamente, a música de Sidney Bechet. La vie en rose, executado em clarinete. Uma vez, em pleno Carnaval da cidade – The Big Easy, diz-se –, alguém tocara essa música, que é um pouco a minha infância, e eu não posso deixar de ligar uma coisa com outra. Depois, vejo-te a comer, com tanta gana, o Cajun Combination (jambalaya, gumbo, ostras, you may name it…), nesse restaurante da Bourbon St. E a fazeres fila, por umas horinhas de blues e zydeco, na House of Blues. O que será feita da House of Blues, na Decatur St? Pois é, estou triste. Triste, triste, triste, como no poema de Valentinous Velhinho. Acompanhei, com consternação, os estragos que o Furacão Katrina fez à cidade de Nova Orleães. Gente morta, desalojada, desesperada. Os diques e as comportas já não resultam. O saque saiu à ordem do dia. E a pobreza, muitas vezes escondida pelas imagens fabricadas, grita alto para todo o mundo ouvir. A cidade histórica ficou submersa. Um grande património mundial em perigo. A crioulidade ficou ferida. Entrementes, as antenas internacionais dizem que o preço do barril de petróleo fechou terça-feira nos 70,45 dólares no mercado de Nova Iorque, mercê da quebra na produção de 1,4 milhões de barris de petróleo. La vie en rose, é melodia que não sai do meu pensamento. Antes que tarde mais, vem em poesia…
Li na lém di Mulato
Tempo apenas para repisar: o Aeroporto Internacional da Praia é para ontem. O Platô Digital é projecto que merece o nosso aplauso. A circular é obra com letras maiúsculas. A pavimentação do Platô – de asfalto ou de pedra, ou, mesmo, o misto destes dois elementos –, já tarda. A capital enlameada, sitiada de chuva, é feia e dá para esquecer. Di-lo, com propriedade, José António dos Reis. Vamos todos, ciosos dos nossos republicanos direitos, ficar atentos. Construtivamente, diga-se. Já dizia Nho Naxu: ka nu sunha kordadu, pa nu ka durmi na forma…
Cansado de uma ronda de reuniões, queria lidar a esta hora com a poesia, as artes, coisas realmente mais sublimes e mais sintonizadas com a alma. Para alguns, este frenesim é excitante e, por isso, adrenalina pura. Para mim, o cargo tem a ver com o encargo. A pesada canga da responsabilidade, condicionada ao odor bafiento dos gabinetes. Queria, se me permites, ouvir agora As Quatro Estações, de Vivaldi (Primavera, sobretudo) e, de olhos cerrados, visualizar o Roger Williams Park com os seus cisnes a deslizar na água. Hás de perguntar o que se passa comigo. Às vezes, quero perceber os versos de Fernando Pessoa: tenho dó das estrelas, luzindo há tanto tempo. Outras vezes, vou à Ponta Temerosa, que é o extremo desta minha cidade, e olho, com neurastenia, para o vasto e azulado vão. É que cansa, cansa mesmo, não poder contemplar o mundo. Há dias, em São Vicente, passei horas esquecidas com o Vasco Martins e o Tchalé Figueira, dilectos amigos, na grandeza silenciosa do Monte Verde. Silenciosa vírgula, pois, vez por outra, a beleza do mundo era invadida pelo grasnar de um corvo ou pelo piar de um falcão. Tão bom ouvir, ante o grande silêncio que a montanha exala, o ciciar dos bichos no nosso cansaço! Dirás que é meu karma. Ou simples questão de mantra este meu lado espiritual que atenta à perfeita sintonia e à curiosa clave entre o cantar de galo e as peixeiras madrugadoras a pregoar “cavala fresta”. Sim, fiquemos por esses nadas que – fumo violeta deste incenso –, vagam o meu pensamento para o além. E, antes que tarde mais no meu coração, te suplico que sejas poesia …
A surfar pelos blogs
Roubo tempo à burocracia, arre, e navego um bocado pelos blogs. Ultimamente, andamos todos bissextos nesta praça. Leio algo sobre o Tcheka Andrade, outro que admiro, e me sinto apaziguado. Se isto tudo fosse padrão Mayra & Tcheka! Temos de pensar no grande salto de qualidade para a nossa Cultura. O by-pass para a excelência não se compadece com algum assistencialismo artístico, um tanto ao quanto difícil de se desacelerar. Tão pouco significa marcar passo no tosco, quando o segredo é o bom acabamento e a apresentação de marca. E muito menos ficarmos a repisar o já visto, numa hora de inovação e competição. Obviamente, mais alma, como diria o matricial Orlando Pantera. Mas falava dos blogs e, desta feita, vou deixar algumas opiniões. Modestíssimas e exclusivas opiniões, diga-se. Posições nada a ver, mas ditas ao sabor do tempo, que a crónica, ela sim, tem a ver com o cronos e o resto é história. A propósito, com respeito às susceptibilidades e trocadilhos rascas, as "Alegrias" trazidas para esta "Praça" foram-nos impostas pelo monstro da incompetência, que a todos domina. Se para o mau entendedor, meia palavra besta; para aquele que vê alguma graça na desgraça, este vaticínio de que humor é um acto de inteligência. Ou seja, tem de ser cultivado, ora…
The Big Easy
Não posso pensar em Nova Orleães sem ouvir, remotamente, a música de Sidney Bechet. La vie en rose, executado em clarinete. Uma vez, em pleno Carnaval da cidade – The Big Easy, diz-se –, alguém tocara essa música, que é um pouco a minha infância, e eu não posso deixar de ligar uma coisa com outra. Depois, vejo-te a comer, com tanta gana, o Cajun Combination (jambalaya, gumbo, ostras, you may name it…), nesse restaurante da Bourbon St. E a fazeres fila, por umas horinhas de blues e zydeco, na House of Blues. O que será feita da House of Blues, na Decatur St? Pois é, estou triste. Triste, triste, triste, como no poema de Valentinous Velhinho. Acompanhei, com consternação, os estragos que o Furacão Katrina fez à cidade de Nova Orleães. Gente morta, desalojada, desesperada. Os diques e as comportas já não resultam. O saque saiu à ordem do dia. E a pobreza, muitas vezes escondida pelas imagens fabricadas, grita alto para todo o mundo ouvir. A cidade histórica ficou submersa. Um grande património mundial em perigo. A crioulidade ficou ferida. Entrementes, as antenas internacionais dizem que o preço do barril de petróleo fechou terça-feira nos 70,45 dólares no mercado de Nova Iorque, mercê da quebra na produção de 1,4 milhões de barris de petróleo. La vie en rose, é melodia que não sai do meu pensamento. Antes que tarde mais, vem em poesia…
Li na lém di Mulato
Tempo apenas para repisar: o Aeroporto Internacional da Praia é para ontem. O Platô Digital é projecto que merece o nosso aplauso. A circular é obra com letras maiúsculas. A pavimentação do Platô – de asfalto ou de pedra, ou, mesmo, o misto destes dois elementos –, já tarda. A capital enlameada, sitiada de chuva, é feia e dá para esquecer. Di-lo, com propriedade, José António dos Reis. Vamos todos, ciosos dos nossos republicanos direitos, ficar atentos. Construtivamente, diga-se. Já dizia Nho Naxu: ka nu sunha kordadu, pa nu ka durmi na forma…
sexta-feira, 26 de agosto de 2005
Viciosa chuva
O que à vigília cinzela o plúmbeo do céu,
Tu, e os outros, nesta acústica da pétala,
Só de saudades sois silêncio agora em mim
Ou de caos tão-somente no cosmos desta voz…
Todos os átomos e todas as poeiras giram
Suspensos no maluco carrossel das horas
E como relógios destravados de música
Soltam-se o alarme e o alarde na quietude…
Pura gota, minúscula que seja, de chuva
Que me desperta para o reencontro das coisas
E me olha das pedras que à vidraça soletra…
Escorrendo parte em meu corpo, de alma
Aqui liquefeita de uma viscosa boca tua
Que nos degusta o sal, fruto de poemas nós…
Filinto Elísio
Tu, e os outros, nesta acústica da pétala,
Só de saudades sois silêncio agora em mim
Ou de caos tão-somente no cosmos desta voz…
Todos os átomos e todas as poeiras giram
Suspensos no maluco carrossel das horas
E como relógios destravados de música
Soltam-se o alarme e o alarde na quietude…
Pura gota, minúscula que seja, de chuva
Que me desperta para o reencontro das coisas
E me olha das pedras que à vidraça soletra…
Escorrendo parte em meu corpo, de alma
Aqui liquefeita de uma viscosa boca tua
Que nos degusta o sal, fruto de poemas nós…
Filinto Elísio
quarta-feira, 24 de agosto de 2005
Insólitos ou nem isso
Fidalgo Preto
Fico feliz e eufórico, pois desta feita ganhou o Prémio Sonangol da Literatura – 2005, o amigo e confrade Álvaro Ludgero Correia, com o pseudónimo literário Fidalgo Preto. O romance intitula-se “Baban – O Ladino” e alarga a bibliografia cabo-verdiana com o romanesco. Ludgero Correia sabia-o bom cronista, dos que dizem as verdades com laivos de humor. Como intelectual que se preza provoca reacções mil, umas de amor, outras de ódio, mas nenhuma de indiferença. E como cidadão, ele faz presença, diria mesmo que é dos tais que tem peso e ocupa espaço. Espera-se que Cabo Verde se dê conta de quanto o prémio a todos prestigia. Ano do trigésimo, do milénio, do PDM, da universidade, do Grammy…palmas para Cabo Verde. Com perdão às vossas senhorias do Pró Praia (bem como da outra comandita mais estreita), palmas para Álvaro Ludgero Correia, nosso Fidalgo Preto!
Livro e festival
Olha, terminei o último verso do livro Das Frutas Serenadas. Fiquei mais leve, quase a flutuar. Ou a levitar. Escrever um livro tão íntimo que, já feito, nos fica este travo de melancolia. O mundo é um grande leviatã, sabes. Uma antropofagia que nos engole lentamente. Depois passei horas esquecidas a ver, pela televisão, o directo do Festival da Baía das Gatas. Boa moldura humana, excelente civismo e homenagem merecida. Luís Morais, a quem tive o privilégio de apresentar no Fesquintal de Jazz, na cidade da Praia, é um instrumentista que transcende. Voltando à Baía das Gatas, gostei demais de Dulce Pontes e os rappers vindos da França detestei. Já, ao amanhecer, reli os manuscritos do meu livro e revi as ilustrações do Mito que irão também separar os respectivos cadernos internos. Não sei se por urgência desta vigília, ou se por insónia mesmo
Pedrada no charco
Uma pedrada inconsequente, de pura rebeldia ou perturbação juvenil, contra as vidraças da Câmara Municipal de São Vicente quase roubou o show da Baía das Gatas, não fosse a providencial Dulce Pontes, e já o feito levava o arzinho de mais um quiproquó político entre a edilidade e o governo. Ai, o peso das pedras! Enquanto o circo recolhe a sua tenda e a procissão regressa ao adro, há alguma gente – aquela que Arménio Vieira caracterizaria de “gente oca, cabecinha de alfinete” – pronta para do insólito tirar um bocado de partido. Em verdade, esse quase incidente, lamentável, diga-se de passagem, servirá (já agora) como uma chamada de atenção, uma pedrada no charco de todos nós. O que o insólito não provoca! Agora, devagar, devagarinho, à maneira do samba, não seria outra loisa, uns e outros, nos olharmos todos de frente, olhos nos olhos…sem pedra na mão?
Despertar
Acordo indisposto. Alguém pragueja e esconjura a madrugada. Já não suporto tamanha ignomínia. Apetece-me gritar, voar, fugir. Apetece-me desaparecer do mapa. Andar noutra geografia. Ouvir som de flauta, beber água pura, ter paz. Choveu toda a noite. Ainda quis ver algo na televisão, mas a emissão foi-se. Isto é muito precário. Uma boa pancada de chuva e não há emissão televisiva. O jeito é ouvir música. Não na rádio que, a esta hora, se ajeita a programação com zoukada e o barulho afim. Pode? Adiante que a canalha dá cartas…
Mindelact
O 11º Festival Internacional de Teatro do Mindelo estará em cena de 8 a 18 de Setembro e não participar dele, mesmo como mero espectador, é perder. Quando digo perder, estarei a querer dizer o perder a oportunidade de ver as obras em desfile, o ambiente festivo e a organização que nos diz a todos de que a qualidade, mais do que uma porrada de patrocínios, tem a ver com engajamento e inovação. Mais do que teatro em si, o Mindelact é excelência de organização. O resto será este depois da chuva. O céu, em cambiantes ainda de cinzento, anuncia o fim da tarde. Na fímbria desta hora, entre a luzinha da alba e a minha solidão, alguém assobia ao longe uma velha melodia. A crónica da cidade fica para depois. Nunca é tarde, nunca é demais…
Fico feliz e eufórico, pois desta feita ganhou o Prémio Sonangol da Literatura – 2005, o amigo e confrade Álvaro Ludgero Correia, com o pseudónimo literário Fidalgo Preto. O romance intitula-se “Baban – O Ladino” e alarga a bibliografia cabo-verdiana com o romanesco. Ludgero Correia sabia-o bom cronista, dos que dizem as verdades com laivos de humor. Como intelectual que se preza provoca reacções mil, umas de amor, outras de ódio, mas nenhuma de indiferença. E como cidadão, ele faz presença, diria mesmo que é dos tais que tem peso e ocupa espaço. Espera-se que Cabo Verde se dê conta de quanto o prémio a todos prestigia. Ano do trigésimo, do milénio, do PDM, da universidade, do Grammy…palmas para Cabo Verde. Com perdão às vossas senhorias do Pró Praia (bem como da outra comandita mais estreita), palmas para Álvaro Ludgero Correia, nosso Fidalgo Preto!
Livro e festival
Olha, terminei o último verso do livro Das Frutas Serenadas. Fiquei mais leve, quase a flutuar. Ou a levitar. Escrever um livro tão íntimo que, já feito, nos fica este travo de melancolia. O mundo é um grande leviatã, sabes. Uma antropofagia que nos engole lentamente. Depois passei horas esquecidas a ver, pela televisão, o directo do Festival da Baía das Gatas. Boa moldura humana, excelente civismo e homenagem merecida. Luís Morais, a quem tive o privilégio de apresentar no Fesquintal de Jazz, na cidade da Praia, é um instrumentista que transcende. Voltando à Baía das Gatas, gostei demais de Dulce Pontes e os rappers vindos da França detestei. Já, ao amanhecer, reli os manuscritos do meu livro e revi as ilustrações do Mito que irão também separar os respectivos cadernos internos. Não sei se por urgência desta vigília, ou se por insónia mesmo
Pedrada no charco
Uma pedrada inconsequente, de pura rebeldia ou perturbação juvenil, contra as vidraças da Câmara Municipal de São Vicente quase roubou o show da Baía das Gatas, não fosse a providencial Dulce Pontes, e já o feito levava o arzinho de mais um quiproquó político entre a edilidade e o governo. Ai, o peso das pedras! Enquanto o circo recolhe a sua tenda e a procissão regressa ao adro, há alguma gente – aquela que Arménio Vieira caracterizaria de “gente oca, cabecinha de alfinete” – pronta para do insólito tirar um bocado de partido. Em verdade, esse quase incidente, lamentável, diga-se de passagem, servirá (já agora) como uma chamada de atenção, uma pedrada no charco de todos nós. O que o insólito não provoca! Agora, devagar, devagarinho, à maneira do samba, não seria outra loisa, uns e outros, nos olharmos todos de frente, olhos nos olhos…sem pedra na mão?
Despertar
Acordo indisposto. Alguém pragueja e esconjura a madrugada. Já não suporto tamanha ignomínia. Apetece-me gritar, voar, fugir. Apetece-me desaparecer do mapa. Andar noutra geografia. Ouvir som de flauta, beber água pura, ter paz. Choveu toda a noite. Ainda quis ver algo na televisão, mas a emissão foi-se. Isto é muito precário. Uma boa pancada de chuva e não há emissão televisiva. O jeito é ouvir música. Não na rádio que, a esta hora, se ajeita a programação com zoukada e o barulho afim. Pode? Adiante que a canalha dá cartas…
Mindelact
O 11º Festival Internacional de Teatro do Mindelo estará em cena de 8 a 18 de Setembro e não participar dele, mesmo como mero espectador, é perder. Quando digo perder, estarei a querer dizer o perder a oportunidade de ver as obras em desfile, o ambiente festivo e a organização que nos diz a todos de que a qualidade, mais do que uma porrada de patrocínios, tem a ver com engajamento e inovação. Mais do que teatro em si, o Mindelact é excelência de organização. O resto será este depois da chuva. O céu, em cambiantes ainda de cinzento, anuncia o fim da tarde. Na fímbria desta hora, entre a luzinha da alba e a minha solidão, alguém assobia ao longe uma velha melodia. A crónica da cidade fica para depois. Nunca é tarde, nunca é demais…
quarta-feira, 17 de agosto de 2005
Monumenta
Monumenta
O Memorial à Fome e às Vítimas da Tragédia da Assistência, a ser construído na rotunda de São Januário, orla marítima da cidade da Praia, é um monumento que fazia falta a Cabo Verde. A Fome (com letra bem maiúscula) é algo que deve ser sublimado e exorcizado, não a através do esquecimento, mas pela via da memória. Tal como os judeus fazem com o Holocausto. E os africanos (e sua diáspora) pretendem fazer com a Escravatura. Um obelisco, em tríade multidimensional, dirá sempre aos cabo-verdianos de que a tragédia pode ser a alavanca de um grande futuro. Vimo-lo há dias nas cerimónias do 60º aniversário da bomba atómica (inédita selvajaria humana, diga-se de passagem) sobre Hiroshima. Haveremos de correr a marginal e problematizar a Fome como um recurso para o futuro. Esta também é uma grande contribuição do 30º aniversário da Independência Nacional…
Nós e a cidade
Deixa andar, que a cidade não há de notar a nossa ausência. Tudo corre, como tem mesmo de correr, sem nós. Ou apesar de nós. E, se somos importantes – ainda que a enorme cloaca urbana isso desconheça –, somo-lo no remanso de que uma simples borboleta também o seja. Deixa andar e canta-me nesta caminhada aquela quadra já liberta das palavras. Ser cronista é ser deste tempo testemunha e deste lugar narrador da acta. O que sobra é ledo engano e o sol, por mais que os deuses pequenos esbracejem, nascerá sempre no mesmo lugar. Não te preocupes se A, B ou C, veja nestas linhas um puro cantar de galo. Em democracia, cada um tem direito a seu delírio e, se não está constitucionalizado, chamam ao intelectocrata para que introduza mais este disparate. Quanto à estética, bem isso exige cuidado adicional. A Poesis não surge por acaso. Mas, deixa andar… a cidade não há de notar a nossa ausência.
Do grande Pranchinha
Arguto e desperto, parecendo sempre de vigília, ei-lo o grande Pranchinha que a canalha julga de somenos importância. Mas haverá gente tão essencial quão nossa própria sombra? Aquela assaz interior que, perdidos no labirinto da vida, nos apresenta o fio de Ariadne? Claro está que a personagem estará pintada de fresco. Uma primeira demão para animar a malta, pois sob a resina da comédia inventaram gregos antigos a tragédia. Dizia, é o Pranchinha sempre atento que dá prumo às minhas vertigens e, quando me sente D. Quixote, se arma comigo em Sancho Pança. Por isso, vossas senhorias perdoem-me este à parte, mas falar deste meu alter-ego, como do vosso uso dizer, é condição sine qua non…
Promessa
Jamais deixarei morrer cá dentro o viés que transforma esta amargura em poesia. O grito que me teima, mas que tu guardas no instante dos sentidos, saberá sempre em mim como um sopro de vida. E, se não vou à noite como quem vai à maresia, começarás tu a dissipar a neblina no horizonte dos caminhos por andar. É-nos pouco o tempo, mas naveguemos numa alegria sem demora. Diante do mundo, algo mais do que esta enseada de águas mansas, não quererá a eternidade ser parte do abalo ou do desvario. Simplicidade apenas, de remanso com que as horas são batidas monocórdicas no relógio. E todos os fados são universos de cada transeunte.
Mas poeta és tu
Não te posso dizer que nesta estação somos felizes. Nem que, ao espectáculo do mundo, temos razões para aplaudir. A cada dia, nessa idade de Cristo em que tu andas, fazes melopeia à vileza do quotidiano. Poeta és tu e o resto é treta. A palavra disposta em fila, rima e métrica. Verso saído do quadrado aceite pela praça. Metáforas de acordo com a Constituição. Ingénuo quem pense com o verbo tão-somente sanear a alfurja dessa gente. A mediocridade que se obstina, querendo seja esta uma hora minguada, demanda aqui ingente luta e o poeta, de solilóquio como estás apanhada, nada pode contra a língua vesícula de peçonha, que era como o grande Eugénio Tavares retratava os burocratas. Poeta és tu que não abres mão à beleza de um sol a pôr-se…
O Memorial à Fome e às Vítimas da Tragédia da Assistência, a ser construído na rotunda de São Januário, orla marítima da cidade da Praia, é um monumento que fazia falta a Cabo Verde. A Fome (com letra bem maiúscula) é algo que deve ser sublimado e exorcizado, não a através do esquecimento, mas pela via da memória. Tal como os judeus fazem com o Holocausto. E os africanos (e sua diáspora) pretendem fazer com a Escravatura. Um obelisco, em tríade multidimensional, dirá sempre aos cabo-verdianos de que a tragédia pode ser a alavanca de um grande futuro. Vimo-lo há dias nas cerimónias do 60º aniversário da bomba atómica (inédita selvajaria humana, diga-se de passagem) sobre Hiroshima. Haveremos de correr a marginal e problematizar a Fome como um recurso para o futuro. Esta também é uma grande contribuição do 30º aniversário da Independência Nacional…
Nós e a cidade
Deixa andar, que a cidade não há de notar a nossa ausência. Tudo corre, como tem mesmo de correr, sem nós. Ou apesar de nós. E, se somos importantes – ainda que a enorme cloaca urbana isso desconheça –, somo-lo no remanso de que uma simples borboleta também o seja. Deixa andar e canta-me nesta caminhada aquela quadra já liberta das palavras. Ser cronista é ser deste tempo testemunha e deste lugar narrador da acta. O que sobra é ledo engano e o sol, por mais que os deuses pequenos esbracejem, nascerá sempre no mesmo lugar. Não te preocupes se A, B ou C, veja nestas linhas um puro cantar de galo. Em democracia, cada um tem direito a seu delírio e, se não está constitucionalizado, chamam ao intelectocrata para que introduza mais este disparate. Quanto à estética, bem isso exige cuidado adicional. A Poesis não surge por acaso. Mas, deixa andar… a cidade não há de notar a nossa ausência.
Do grande Pranchinha
Arguto e desperto, parecendo sempre de vigília, ei-lo o grande Pranchinha que a canalha julga de somenos importância. Mas haverá gente tão essencial quão nossa própria sombra? Aquela assaz interior que, perdidos no labirinto da vida, nos apresenta o fio de Ariadne? Claro está que a personagem estará pintada de fresco. Uma primeira demão para animar a malta, pois sob a resina da comédia inventaram gregos antigos a tragédia. Dizia, é o Pranchinha sempre atento que dá prumo às minhas vertigens e, quando me sente D. Quixote, se arma comigo em Sancho Pança. Por isso, vossas senhorias perdoem-me este à parte, mas falar deste meu alter-ego, como do vosso uso dizer, é condição sine qua non…
Promessa
Jamais deixarei morrer cá dentro o viés que transforma esta amargura em poesia. O grito que me teima, mas que tu guardas no instante dos sentidos, saberá sempre em mim como um sopro de vida. E, se não vou à noite como quem vai à maresia, começarás tu a dissipar a neblina no horizonte dos caminhos por andar. É-nos pouco o tempo, mas naveguemos numa alegria sem demora. Diante do mundo, algo mais do que esta enseada de águas mansas, não quererá a eternidade ser parte do abalo ou do desvario. Simplicidade apenas, de remanso com que as horas são batidas monocórdicas no relógio. E todos os fados são universos de cada transeunte.
Mas poeta és tu
Não te posso dizer que nesta estação somos felizes. Nem que, ao espectáculo do mundo, temos razões para aplaudir. A cada dia, nessa idade de Cristo em que tu andas, fazes melopeia à vileza do quotidiano. Poeta és tu e o resto é treta. A palavra disposta em fila, rima e métrica. Verso saído do quadrado aceite pela praça. Metáforas de acordo com a Constituição. Ingénuo quem pense com o verbo tão-somente sanear a alfurja dessa gente. A mediocridade que se obstina, querendo seja esta uma hora minguada, demanda aqui ingente luta e o poeta, de solilóquio como estás apanhada, nada pode contra a língua vesícula de peçonha, que era como o grande Eugénio Tavares retratava os burocratas. Poeta és tu que não abres mão à beleza de um sol a pôr-se…
sexta-feira, 12 de agosto de 2005
Viagem
Em torno da odisseia das ilhas, creio levar
Neste puro desejo que me transcende, a senha
E a palavra-chave de os labirintos serem aqui
Simples lugares de passagem, apenas paisagem…
O andarilho palmilha todas as dunas, areias
De intermináveis desertos e todas as ondas
Que os oceanos concedem, quando furibundas
Ou, mesmo, serenadas e das praias acariciadas…
Sem culpa, nem sina – ou de Job puro devedor –,
Percorro de lés a lés o mapa que é de ti e do mundo
Como quem responde à morte o saldo estival…
Como quem salta para a eterna idade da vida
E fica suspenso entre a estrela e sua cadência
A riscar, de viajar tão-somente, o céu da noite…
Filinto Elísio
Neste puro desejo que me transcende, a senha
E a palavra-chave de os labirintos serem aqui
Simples lugares de passagem, apenas paisagem…
O andarilho palmilha todas as dunas, areias
De intermináveis desertos e todas as ondas
Que os oceanos concedem, quando furibundas
Ou, mesmo, serenadas e das praias acariciadas…
Sem culpa, nem sina – ou de Job puro devedor –,
Percorro de lés a lés o mapa que é de ti e do mundo
Como quem responde à morte o saldo estival…
Como quem salta para a eterna idade da vida
E fica suspenso entre a estrela e sua cadência
A riscar, de viajar tão-somente, o céu da noite…
Filinto Elísio
Côdea de sal
A José Luís Tavares
Corpo áspero de sal que aos meus dedos crispa
Cada cristal e, quase que nuvem feita pedra,
Brilha qual diamante ao sol, e, do seu zénite,
Deixo transcorrer o sonho pela água…
Saberás sempre que, em mim, se resume
À poesia esta motriz do vento e do moinho,
E a matriz que alinha, no mais puro linho,
O fiar das palavras no pano das metáforas…
Hás de me ver passar, em sepulcral silêncio,
Onde os ruídos e as ruínas quedam-se inertes,
Mister do Verbo ou de quão soberbo apanágio…
E deste simples ritual – dedos na côdea de sal –,
Aprenderemos nele o siso e o cisco das pedras,
Corpos das musas, errantes nós das geografias…
Filinto Elísio
Corpo áspero de sal que aos meus dedos crispa
Cada cristal e, quase que nuvem feita pedra,
Brilha qual diamante ao sol, e, do seu zénite,
Deixo transcorrer o sonho pela água…
Saberás sempre que, em mim, se resume
À poesia esta motriz do vento e do moinho,
E a matriz que alinha, no mais puro linho,
O fiar das palavras no pano das metáforas…
Hás de me ver passar, em sepulcral silêncio,
Onde os ruídos e as ruínas quedam-se inertes,
Mister do Verbo ou de quão soberbo apanágio…
E deste simples ritual – dedos na côdea de sal –,
Aprenderemos nele o siso e o cisco das pedras,
Corpos das musas, errantes nós das geografias…
Filinto Elísio
quinta-feira, 11 de agosto de 2005
Correspondências
Podia escrever sobre as ilhas e o cosmos. Mas hoje, dou-vos um cheirinho das minhas correspondências – três enviadas por mim e uma recebida do Luís Araújo. São milhares de cartas, round trip, a cronicar a vida, quase sempre de forma não autorizada e não publicável. Não é segredo do Estado, mas é o estado do segredo, o que dá às coisas mais recato e parcimónia. Uma ressalva apenas: não será por falta de assunto que deito mão às correspondências. Será por excesso dele. E uma estranha saudade do futuro. Ou, tão-só ganas de regressar à “estrada”. Vamos, então, a isso:
A. Flashes de três enviadas:
1. Caríssima Ambi,
(…) Pois é, continuo a escrever crónicas. Sem alguma pretensão de imparcialidade. Antes pelo contrário, não me concedo aqui à hipocrisia. Liberdade total. Não confundir com totalitária, pleaaaaase. Comentário e crítica são bem-vindos. Mas que o pessoal não exagere. Sou neto de António Leão Correia e Silva (o pai e não o filho do meu pai, entendes) e de João Henriques de Almeida Cardoso (pelo lado da mãe), razão bastante para ter nervos, fibra, ganas e raiva. A par deste muito amor aquariano. Para o que der e vier (…)
2. Prezado Crisolino,
(…) Neoliberal eu? Às tantas, hás de indagar se ajoelho e rezo diante dos altares. A riqueza é feita por todos. Cada um à sua maneira. Mas ela é distribuída só para alguns e aí o busílis. Alinho-me com Jorge Luís Borges quando afirma que é uma “irreligiosidade” crer no inferno. Infelizmente, eu acredito em duendes, mas não tenho ganho nada com isso. Pode? O Pranchinha diz que não. Mas para o Pranchinha, a humanidade só existe como pano de fundo longínquo, evanescente e irreal. Arre…(…)
3. Baixinha
Manhã azul, Baixinha. Como um peixinho mágico de riscas verdes, ele dá voltas no teu aquário. Sei que gostas do luar e das praias. Aposto mesmo que saibas cantar ao silêncio das noites caladas. Dizes que sou maluco. Meio real e meio ficção. Podes dizer que ando repetitivo, mas hoje estou com ganas de balbuciar o famoso poema de Vinícius de Moraes:
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
B. Flash da recebida de Luís Araújo
1. Caro amigo Filinto,
(…) Adoro a alegoria do David e Golias de que te serviste para chamar a atenção sobre os perigos que me espreitam. Desde que, ainda criança, a ouvi pela primeira vez a minha simpatia pelos Davids deste mundo foi imediata e, convocado pelo fantástico da proeza de David, tratei logo de arranjar também uma fisga para abater o primeiro Golias que me aparecesse. Já adulto, alguns foram os "meus Golias" que, também, consegui "arrumar", e tu os conheces bem (…)
(…) Realmente feijão com arroz hoje e arroz com feijão amanhã, outra vez, mesmo que servido com outras cores e odores em outra mesa, presidida por outro senhor, como resultado da alternância dos cozinheiros e príncipes da corte, torna-se um exercício semelhante ao do marcar passo da tropa na parada e a sociedade não é propriamente uma tropa subordinada a clubs de generais (…)
(…) Por isso, a mudança tem que ser sempre , essencialmente, o resultado criativo dum processo sistemático de rupturas culturais consecutivas que, com maior ou menor velocidade e grau de alteridade, irreversivelmente transforme a situação institucionalizando uma nova estética geradora duma norma que consiga fazer dos valores que a constituem as fundações dum universo institucional que a sustente e reproduza (…)
A. Flashes de três enviadas:
1. Caríssima Ambi,
(…) Pois é, continuo a escrever crónicas. Sem alguma pretensão de imparcialidade. Antes pelo contrário, não me concedo aqui à hipocrisia. Liberdade total. Não confundir com totalitária, pleaaaaase. Comentário e crítica são bem-vindos. Mas que o pessoal não exagere. Sou neto de António Leão Correia e Silva (o pai e não o filho do meu pai, entendes) e de João Henriques de Almeida Cardoso (pelo lado da mãe), razão bastante para ter nervos, fibra, ganas e raiva. A par deste muito amor aquariano. Para o que der e vier (…)
2. Prezado Crisolino,
(…) Neoliberal eu? Às tantas, hás de indagar se ajoelho e rezo diante dos altares. A riqueza é feita por todos. Cada um à sua maneira. Mas ela é distribuída só para alguns e aí o busílis. Alinho-me com Jorge Luís Borges quando afirma que é uma “irreligiosidade” crer no inferno. Infelizmente, eu acredito em duendes, mas não tenho ganho nada com isso. Pode? O Pranchinha diz que não. Mas para o Pranchinha, a humanidade só existe como pano de fundo longínquo, evanescente e irreal. Arre…(…)
3. Baixinha
Manhã azul, Baixinha. Como um peixinho mágico de riscas verdes, ele dá voltas no teu aquário. Sei que gostas do luar e das praias. Aposto mesmo que saibas cantar ao silêncio das noites caladas. Dizes que sou maluco. Meio real e meio ficção. Podes dizer que ando repetitivo, mas hoje estou com ganas de balbuciar o famoso poema de Vinícius de Moraes:
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
B. Flash da recebida de Luís Araújo
1. Caro amigo Filinto,
(…) Adoro a alegoria do David e Golias de que te serviste para chamar a atenção sobre os perigos que me espreitam. Desde que, ainda criança, a ouvi pela primeira vez a minha simpatia pelos Davids deste mundo foi imediata e, convocado pelo fantástico da proeza de David, tratei logo de arranjar também uma fisga para abater o primeiro Golias que me aparecesse. Já adulto, alguns foram os "meus Golias" que, também, consegui "arrumar", e tu os conheces bem (…)
(…) Realmente feijão com arroz hoje e arroz com feijão amanhã, outra vez, mesmo que servido com outras cores e odores em outra mesa, presidida por outro senhor, como resultado da alternância dos cozinheiros e príncipes da corte, torna-se um exercício semelhante ao do marcar passo da tropa na parada e a sociedade não é propriamente uma tropa subordinada a clubs de generais (…)
(…) Por isso, a mudança tem que ser sempre , essencialmente, o resultado criativo dum processo sistemático de rupturas culturais consecutivas que, com maior ou menor velocidade e grau de alteridade, irreversivelmente transforme a situação institucionalizando uma nova estética geradora duma norma que consiga fazer dos valores que a constituem as fundações dum universo institucional que a sustente e reproduza (…)
quarta-feira, 3 de agosto de 2005
Angelus Novus
1.
Gosto de passear pela orla marítima da cidade da Praia. Ver a baía, o apelo uterino da paisagem, o seu abrigo que antevê o mundo com um certo vagar. Ando pela calçada da marginal, os transeuntes circulam em azáfama de fim do dia e um bando de aves pousa na areia da Praia da Gambôa. Gosto de passear, assim sozinho, pela orla marítima e é quase certo que andamos sempre em espiral.
2.
De repente, percebe-se que a identidade existe não só pela origem comum, mas pelo destino comum. O vivermos colectivamente como destino é o grande leimotiv do desenvolvimento. E esta consciência interpela a todos e, no âmago, a cada um particular, para a saga colectiva. Tudo não passa de um grande périplo rumo ao infinito afinal. Entrementes, o tempo existencial do indivíduo pode ajustar-se ao percurso épico de um povo. Senti isso, na pele, ao participar nas comemorações do 30º Aniversário da Independência Nacional. Parafraseando Padre António Vieira: a festa mais de todos e a festa mais de cada um. Dir-se-ia que o vento trans-histórico bafejou a minha face e me deixou marcas por fora. Já nem direi do que me vai cá dentro. O tempo, que nasce com o homem, não pode ser compreendido de molde apenas objectivo. Deve ser visto crítica e historicamente no modo como ele é vivido pela complexidade do sujeito. Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Vale a pena conhecê-lo. Ele representa um anjo a afastar-se de algo que encara fixamente. Os vários elementos desse quadro dão a ideia da Fortuna, mas o Anjo encara-os como uma catástrofe única, à qual é preciso fixar os olhos com consciência de que toda a construção carrega a sua própria ruína. Assim, estes foram dias reais, mas com quê de metafísico. E, como diria Jorge Luís Borges, em El Aleph, o final da história só se pode contar em metáforas pois passa-se no Reino dos Céus, onde o tempo não existe…
3.
Escuto, com causa, o último disco de Tcheka Andrade. Este entendeu que a diversidade cultural é preciso. Cabo Verde só chegará à internacionalização e à globalização se conseguir apresentar, com qualidade e excelência, a sua Cultura. Isso de forma mais diversa possível. A sociedade cabo-verdiana reflecte, em sua própria génese, o pluralismo cultural. Somos uma síntese inter cultural e não apenas um mosaico de culturas. A nossa idiossincrasia está no aceitar a diversidade e transformá-la em matriz da nossa identidade cultural. Esta realidade intrínseca é a verdadeira teia que mantém a rede da nação cabo-verdiana, cerzida na sua geografia insular e da diáspora. Tcheka Andrade entendeu-o como poucos. Já agora, seria importante que a sociedade cabo-verdiana se inteirasse dos debates em curso sobre a diversidade cultural.
Gosto de passear pela orla marítima da cidade da Praia. Ver a baía, o apelo uterino da paisagem, o seu abrigo que antevê o mundo com um certo vagar. Ando pela calçada da marginal, os transeuntes circulam em azáfama de fim do dia e um bando de aves pousa na areia da Praia da Gambôa. Gosto de passear, assim sozinho, pela orla marítima e é quase certo que andamos sempre em espiral.
2.
De repente, percebe-se que a identidade existe não só pela origem comum, mas pelo destino comum. O vivermos colectivamente como destino é o grande leimotiv do desenvolvimento. E esta consciência interpela a todos e, no âmago, a cada um particular, para a saga colectiva. Tudo não passa de um grande périplo rumo ao infinito afinal. Entrementes, o tempo existencial do indivíduo pode ajustar-se ao percurso épico de um povo. Senti isso, na pele, ao participar nas comemorações do 30º Aniversário da Independência Nacional. Parafraseando Padre António Vieira: a festa mais de todos e a festa mais de cada um. Dir-se-ia que o vento trans-histórico bafejou a minha face e me deixou marcas por fora. Já nem direi do que me vai cá dentro. O tempo, que nasce com o homem, não pode ser compreendido de molde apenas objectivo. Deve ser visto crítica e historicamente no modo como ele é vivido pela complexidade do sujeito. Há um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus. Vale a pena conhecê-lo. Ele representa um anjo a afastar-se de algo que encara fixamente. Os vários elementos desse quadro dão a ideia da Fortuna, mas o Anjo encara-os como uma catástrofe única, à qual é preciso fixar os olhos com consciência de que toda a construção carrega a sua própria ruína. Assim, estes foram dias reais, mas com quê de metafísico. E, como diria Jorge Luís Borges, em El Aleph, o final da história só se pode contar em metáforas pois passa-se no Reino dos Céus, onde o tempo não existe…
3.
Escuto, com causa, o último disco de Tcheka Andrade. Este entendeu que a diversidade cultural é preciso. Cabo Verde só chegará à internacionalização e à globalização se conseguir apresentar, com qualidade e excelência, a sua Cultura. Isso de forma mais diversa possível. A sociedade cabo-verdiana reflecte, em sua própria génese, o pluralismo cultural. Somos uma síntese inter cultural e não apenas um mosaico de culturas. A nossa idiossincrasia está no aceitar a diversidade e transformá-la em matriz da nossa identidade cultural. Esta realidade intrínseca é a verdadeira teia que mantém a rede da nação cabo-verdiana, cerzida na sua geografia insular e da diáspora. Tcheka Andrade entendeu-o como poucos. Já agora, seria importante que a sociedade cabo-verdiana se inteirasse dos debates em curso sobre a diversidade cultural.
quinta-feira, 28 de julho de 2005
O estado da nação
Depois de tanta insistência do Pranchinha, eis que faço um texto político. Ou, melhor dito, um texto sobre a política. Ou, com mais aggiornamento, um texto sobre o Estado da Nação. O Pranchinha mete-me em cada alheada! Todavia, pensando bem, cada um de nós tem a sua percepção sobre o Estado da Nação e dizê-lo, nestas linhas, no café ou no raio que o parta, é a sagrada prerrogativa que nos assiste. Afinal, hoje já somos o Estado da Nação e não, como aliás fomos, a Nação do Estado…
E, fazendo vontade ao Pranchinha (o amor tem destas coisas), direi que esta Nação, cada vez percebida de forma mais lacta e complexa (insularizada, diasporizada, globalizada, enfim), ganhou dimensão irreversível e que ela não se compadece hoje com a pequena política. Não que se dispense o bate-boca das esquinas, pois isso é terapêutico, mas os tempos exigem de nós mais responsabilidade de análise. Mesmo quando aplaudimos. Ou vaiamos…
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nas minhas crónicas eu sempre demonstrei confiança na governação de José Maria Neves. Quem me leu, deve lembrar-se da minha coluna “Prato do Dia”, na qual escrevera sobre a necessidade de dar o voto de confiança a este Governo. Não por seguidismo político, afã partidário, descrença nos demais, essas coisas que não me roçam a alma, mas por conhecer a dimensão humana do homem. Desde os bancos da escola. Neves dedicou os três primeiros anos da sua governação ao controlo do défice do Estado, pois entendeu que a economia teria de esperar pelo restauro das finanças. Isso correndo sérios riscos de popularidade. Admirei-o por isso também. Anos depois, o MCA confirma essa confiança, o Banco Mundial diz mais que eu algum dia diria e o confrade Manuel Delgado, homem de coragem, laureia-o com um acto de contrição.
Mas nem tudo são rosas. Apesar dos ganhos, Cabo Verde é ainda um país de produto nacional bruto inferior a mil e quinhentos dólares por habitante e com quase 500 mil habitantes, onde 173 mil são pobres, para não falar dos 93 mil que são muito pobres. Não estaremos a pedir, em vez de uma lógica de combate à pobreza, a da promoção e a do alargamento da riqueza tendente à redução da insatisfação social? Que medidas de políticas são agora necessárias para energizar uma população cuja taxa de desemprego se situa em 17% entre a juventude? O que se poderá fazer para perspectivar o bem-estar social e da qualidade de vida nos rincões encravados de Santiago, Santo Antão e Fogo? Ou para dar centralidade às ilhas periféricas como a Brava, São Nicolau ou Maio? Como descortinar condições humanas decentes para as nossas bolsas comunitárias em São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, ou mesmo nos ghettos das cidades do Norte, como Lisboa, Bóston e Paris?
Quer me parecer que uma nova mentalidade de trabalho, de produção, de investimento e de inserção nos seria mister a esta hora. A tal atitude transformacional, já ventilada um pouco pela imprensa, mas ainda não de todo interiorizada pelos cidadãos. Cruzar as vantagens todas – das comparativas às competitivas – e recriar o ideário da riqueza. A ter que escolher uma atitude, entre as muitas necessárias, importaria saber optar pelo “fogo” da riqueza, afinal o que garantirá a glória, segundo o sábio vaticínio de Deng Xiaoping.
Fogo? Indagará o Pranchinha pronto para duvidar dos meus rasgos estilísticos. Conheces aquela do fogo e do poeta francês Jean Cocteau? A sua casa era um verdadeiro museu de relíquias: estatuetas africanas, quadros de artistas famosos, livros raros. E Cocteau guardava tudo, e tinha um profundo amor por cada peça dessa esplendorosa casa. Numa entrevista, a jornalista lhe perguntou: "Se esta casa se incendiasse e o senhor só pudesse levar uma coisa consigo, o que escolheria?". Cocteau respondeu, com sentido de riqueza: "Eu levaria o fogo".
E o Pranchinha bem sabe que, dito isto, regresso aos meus textos sobre os insólitos. A minha praia não é escrever sobre a política, quando há a luz e a sombra, a vida e a morte, enfim. De resto, o Poder tem o seu lado perverso. É uma questão estrutural, note-se. Quem se esqueceu de Calígula, aquele que nomeou o seu cavalo a senador do Império Romano? Pode? O meu herói mesmo era Prometeu que se revoltou contra os deuses e lhes roubou o fogo para ofertá-lo aos homens.
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nesta hora do Estado da Nação, me apraz antever que JMN mantém o ideário do fogo que se destina aos homens. Adiante…
E, fazendo vontade ao Pranchinha (o amor tem destas coisas), direi que esta Nação, cada vez percebida de forma mais lacta e complexa (insularizada, diasporizada, globalizada, enfim), ganhou dimensão irreversível e que ela não se compadece hoje com a pequena política. Não que se dispense o bate-boca das esquinas, pois isso é terapêutico, mas os tempos exigem de nós mais responsabilidade de análise. Mesmo quando aplaudimos. Ou vaiamos…
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nas minhas crónicas eu sempre demonstrei confiança na governação de José Maria Neves. Quem me leu, deve lembrar-se da minha coluna “Prato do Dia”, na qual escrevera sobre a necessidade de dar o voto de confiança a este Governo. Não por seguidismo político, afã partidário, descrença nos demais, essas coisas que não me roçam a alma, mas por conhecer a dimensão humana do homem. Desde os bancos da escola. Neves dedicou os três primeiros anos da sua governação ao controlo do défice do Estado, pois entendeu que a economia teria de esperar pelo restauro das finanças. Isso correndo sérios riscos de popularidade. Admirei-o por isso também. Anos depois, o MCA confirma essa confiança, o Banco Mundial diz mais que eu algum dia diria e o confrade Manuel Delgado, homem de coragem, laureia-o com um acto de contrição.
Mas nem tudo são rosas. Apesar dos ganhos, Cabo Verde é ainda um país de produto nacional bruto inferior a mil e quinhentos dólares por habitante e com quase 500 mil habitantes, onde 173 mil são pobres, para não falar dos 93 mil que são muito pobres. Não estaremos a pedir, em vez de uma lógica de combate à pobreza, a da promoção e a do alargamento da riqueza tendente à redução da insatisfação social? Que medidas de políticas são agora necessárias para energizar uma população cuja taxa de desemprego se situa em 17% entre a juventude? O que se poderá fazer para perspectivar o bem-estar social e da qualidade de vida nos rincões encravados de Santiago, Santo Antão e Fogo? Ou para dar centralidade às ilhas periféricas como a Brava, São Nicolau ou Maio? Como descortinar condições humanas decentes para as nossas bolsas comunitárias em São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, ou mesmo nos ghettos das cidades do Norte, como Lisboa, Bóston e Paris?
Quer me parecer que uma nova mentalidade de trabalho, de produção, de investimento e de inserção nos seria mister a esta hora. A tal atitude transformacional, já ventilada um pouco pela imprensa, mas ainda não de todo interiorizada pelos cidadãos. Cruzar as vantagens todas – das comparativas às competitivas – e recriar o ideário da riqueza. A ter que escolher uma atitude, entre as muitas necessárias, importaria saber optar pelo “fogo” da riqueza, afinal o que garantirá a glória, segundo o sábio vaticínio de Deng Xiaoping.
Fogo? Indagará o Pranchinha pronto para duvidar dos meus rasgos estilísticos. Conheces aquela do fogo e do poeta francês Jean Cocteau? A sua casa era um verdadeiro museu de relíquias: estatuetas africanas, quadros de artistas famosos, livros raros. E Cocteau guardava tudo, e tinha um profundo amor por cada peça dessa esplendorosa casa. Numa entrevista, a jornalista lhe perguntou: "Se esta casa se incendiasse e o senhor só pudesse levar uma coisa consigo, o que escolheria?". Cocteau respondeu, com sentido de riqueza: "Eu levaria o fogo".
E o Pranchinha bem sabe que, dito isto, regresso aos meus textos sobre os insólitos. A minha praia não é escrever sobre a política, quando há a luz e a sombra, a vida e a morte, enfim. De resto, o Poder tem o seu lado perverso. É uma questão estrutural, note-se. Quem se esqueceu de Calígula, aquele que nomeou o seu cavalo a senador do Império Romano? Pode? O meu herói mesmo era Prometeu que se revoltou contra os deuses e lhes roubou o fogo para ofertá-lo aos homens.
Não sou dado à premonição nem à adivinhação, mas, nesta hora do Estado da Nação, me apraz antever que JMN mantém o ideário do fogo que se destina aos homens. Adiante…
Catedra
por Filinto Elísio
Algo, quem sabe uma melodia, teria um dia
Fazer da vida uma grande catedral, vitral
Ou algo como uma nogueira, coisa da infância
Tipo de música que dá lágrima e alegria...
Uma grande catedral seria o teu sorriso,
Flor surgida no esquecimento dos pedregais,
Onda levantada e depois estendida na praia
E estarão os teus pézinhos à beira de água...
Seria também fina neblina que nos enovela
Desaparece para os umbrais a portentosa águia
E deixa-nos assim entre a pedra e o mundo...
Algo mais zen do que o próprio silencio, faria
Deste momento mais sublime que a morte
Quem sabe um fumo breve, eterna...de catedral!
Algo, quem sabe uma melodia, teria um dia
Fazer da vida uma grande catedral, vitral
Ou algo como uma nogueira, coisa da infância
Tipo de música que dá lágrima e alegria...
Uma grande catedral seria o teu sorriso,
Flor surgida no esquecimento dos pedregais,
Onda levantada e depois estendida na praia
E estarão os teus pézinhos à beira de água...
Seria também fina neblina que nos enovela
Desaparece para os umbrais a portentosa águia
E deixa-nos assim entre a pedra e o mundo...
Algo mais zen do que o próprio silencio, faria
Deste momento mais sublime que a morte
Quem sabe um fumo breve, eterna...de catedral!
Em olhares de torpor
Em olhares de torpor, onde deambulei perdido,
Quis como quem, de talhante, a carne corta, romper
Os nervos e os músculos, e a revestir os ossos todos
O peso dos verdes musgos pela greta das pedras...
Quis, quase de sina e de seno, o alarde de te viajar
E ter levado a tristeza que me sombreia a tarde
Ou, então, fugir dos cárceres impostas em nós
Como deuses incessantes a cercear-nos a crença...
E o que arde ainda e não se evade do coração,
Assaz quente lacre derretido, tão vazante
Quão segredo no curso obrigatório de um rio
És como eu viagem que jamais se estanca
No estuário do imenso oceano, és como eu
Talhante desta carne enquanto não putrefaça...
Quis como quem, de talhante, a carne corta, romper
Os nervos e os músculos, e a revestir os ossos todos
O peso dos verdes musgos pela greta das pedras...
Quis, quase de sina e de seno, o alarde de te viajar
E ter levado a tristeza que me sombreia a tarde
Ou, então, fugir dos cárceres impostas em nós
Como deuses incessantes a cercear-nos a crença...
E o que arde ainda e não se evade do coração,
Assaz quente lacre derretido, tão vazante
Quão segredo no curso obrigatório de um rio
És como eu viagem que jamais se estanca
No estuário do imenso oceano, és como eu
Talhante desta carne enquanto não putrefaça...
quarta-feira, 20 de julho de 2005
Desejo e sina lapidando o sonho
Ao amigo Zezito de Araújo
Na minha imaginação, apenas uma rede parada, à espera que alguém a balance. Uma rede, aparentemente absurda, como Rosebud, o trenó do Cidadão Kane. Uma rede, envolta de mistério e de silencio ulterior a tudo que a consciência explica. Quem balançaria essa rede? Seria a Nega Fulô, seria?
Do Estado de Alagoas, no Brasil, eu guardava mais pressentimento do que conhecimento. Um pressentimento bom, em combustão interior. Sentimento quase de paixão. O que lateja, mas não descortina. Sabia de Djavan, das suas músicas e poemas. Mostrou-mo um amigo, do tempo do liceu. Sabia-o alagoano, apanhando em toda a rama o meu pressentimento. Tenho acompanhado a frondosa floração da sua carreira artística, com alguma frustração de não o poder trazer para um espectáculo em Cabo Verde. Ver Djavan, na Cidade Velha, partida de muitos escravos para o Brasil, alguns dos quais para Alagoas, seria desejo e sina lapidando o sonho. A mesma comoção de participar, no Fesquintal de Jazz, e de assistir ao concêntrico encontro de Rhoda Scott com a Cidade Velha. E repito o dito em 2003: cruzar gente nossa e gente outra no palco das ilhas realiza a vocação real deste país, que é a de ser o palco do Cosmos. O Fesquintal de Jazz foi, nesse sentido e modéstia à parte, a segunda maior operação triunfo da história de Cabo Verde. A primeira está sendo o 30º Aniversário da Independência Nacional.
Mas, dizia, eu não conhecia o Estado de Alagoas da perspectiva tão afilada e aprofundada quanto desejaria. E reconheço esta falha, se não mesmo esta falência, agora que o governador Ronaldo Lessa e os seus secretários de governo visitam Cabo Verde, num reencontro esperado há séculos. Do Quilombo dos Palmares, a primeira república negra do mundo, eu não sabia quase nada. De Zumbi dos Palmares, uma ou outra leitura bissexta, desaconselhando qualquer discussão sobre a problemática.
Mais pressentimento do que conhecimento, fui me apercebendo que Alagoas tem muito a ver connosco, com a nossa identidade matricial e relacional. É o próprio governador alagoano que o reconhece quando afirma “É o resgate da nossa história e precisamos resgatá-la para dar sentido ao nosso projecto de vida”. É a gente de Jorge de Lima, poeta cujos versos meu pai recitava assim à mesa:
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
E que o actor Chico Assis recria, sem neurastenia, mas com recitado balanço, a poética do grande mestre. Apetece até retribuir com Jorge Barbosa, nosso poeta:
Nem sinal de planta
Nem restos de árvore
No cenário ressequido
Da planície…
O casebre apenas
De pedra solta
E uma lembrança aflitiva.
Neste momento em que os alagoanos chegam a Cabo Verde, será mais do que ocasião para nos revelarmos. Para que possamos fazer coisas em comum, numa cooperação muito digna, entre escravos hoje libertos. Será tempo, já que o espaço nos concede a oportunidade, para fazer cultura, negócios, amizade, amor, essas coisas todas, havendo o céu por limite. Assim, quem sabe o conhecimento se torne primado onde era pressentimento em mim. E já com menos mistério e silêncio ulterior, saio da imaginação para fazer da rede uma realidade. O resto a balançá-la (só poderia) a Nega Fulô…
Na minha imaginação, apenas uma rede parada, à espera que alguém a balance. Uma rede, aparentemente absurda, como Rosebud, o trenó do Cidadão Kane. Uma rede, envolta de mistério e de silencio ulterior a tudo que a consciência explica. Quem balançaria essa rede? Seria a Nega Fulô, seria?
Do Estado de Alagoas, no Brasil, eu guardava mais pressentimento do que conhecimento. Um pressentimento bom, em combustão interior. Sentimento quase de paixão. O que lateja, mas não descortina. Sabia de Djavan, das suas músicas e poemas. Mostrou-mo um amigo, do tempo do liceu. Sabia-o alagoano, apanhando em toda a rama o meu pressentimento. Tenho acompanhado a frondosa floração da sua carreira artística, com alguma frustração de não o poder trazer para um espectáculo em Cabo Verde. Ver Djavan, na Cidade Velha, partida de muitos escravos para o Brasil, alguns dos quais para Alagoas, seria desejo e sina lapidando o sonho. A mesma comoção de participar, no Fesquintal de Jazz, e de assistir ao concêntrico encontro de Rhoda Scott com a Cidade Velha. E repito o dito em 2003: cruzar gente nossa e gente outra no palco das ilhas realiza a vocação real deste país, que é a de ser o palco do Cosmos. O Fesquintal de Jazz foi, nesse sentido e modéstia à parte, a segunda maior operação triunfo da história de Cabo Verde. A primeira está sendo o 30º Aniversário da Independência Nacional.
Mas, dizia, eu não conhecia o Estado de Alagoas da perspectiva tão afilada e aprofundada quanto desejaria. E reconheço esta falha, se não mesmo esta falência, agora que o governador Ronaldo Lessa e os seus secretários de governo visitam Cabo Verde, num reencontro esperado há séculos. Do Quilombo dos Palmares, a primeira república negra do mundo, eu não sabia quase nada. De Zumbi dos Palmares, uma ou outra leitura bissexta, desaconselhando qualquer discussão sobre a problemática.
Mais pressentimento do que conhecimento, fui me apercebendo que Alagoas tem muito a ver connosco, com a nossa identidade matricial e relacional. É o próprio governador alagoano que o reconhece quando afirma “É o resgate da nossa história e precisamos resgatá-la para dar sentido ao nosso projecto de vida”. É a gente de Jorge de Lima, poeta cujos versos meu pai recitava assim à mesa:
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
E que o actor Chico Assis recria, sem neurastenia, mas com recitado balanço, a poética do grande mestre. Apetece até retribuir com Jorge Barbosa, nosso poeta:
Nem sinal de planta
Nem restos de árvore
No cenário ressequido
Da planície…
O casebre apenas
De pedra solta
E uma lembrança aflitiva.
Neste momento em que os alagoanos chegam a Cabo Verde, será mais do que ocasião para nos revelarmos. Para que possamos fazer coisas em comum, numa cooperação muito digna, entre escravos hoje libertos. Será tempo, já que o espaço nos concede a oportunidade, para fazer cultura, negócios, amizade, amor, essas coisas todas, havendo o céu por limite. Assim, quem sabe o conhecimento se torne primado onde era pressentimento em mim. E já com menos mistério e silêncio ulterior, saio da imaginação para fazer da rede uma realidade. O resto a balançá-la (só poderia) a Nega Fulô…
segunda-feira, 18 de julho de 2005
DAS FRUTAS EM 5 TEMPOS
1.
Direi destes dias os momentos de prumo,
As nuvens que passam e deixam aqui travo,
Os olhares, uns de soslaio, outros de frémito,
Que serenam bem ao viés suas dilectas frutas.
Das metáforas direi o crepitar dos fogos,
Ora de águas, ora de ventos, quando não dos ares,
Pequenos nadas, somatizando febres, reversos,
Destroçadas vidas, fonemas, chispas e poemas.
E de os dizer hás de escutar tu, minha fome,
Aroma das ervas, temperos esquecidos, sais
Na boca de comer tudo, ó meu tanto pecado.
Sangue das trevas tu, ácidos e salivas, halos de ti,
Onde a borbulha das espumas sabe a frutas,
Furtivos beijos, e por dar-te o trevo destes dias...
2.
Todos os poemas são de amor na estação das frutas
Se, da minha gula, de apenas um gole te sorvesse
São tácteis desejos de chuva, outrora vidraças de ver
Tua espraiada partida, mesmo quando versos de solidão.
Todos os poemas são de outra música assim cantada
Em pertinazes versos, palavras quase ondas, viagens,
Chinas por aí, longe de nós a fímbria dos invernos
E estarei bem à porta – direi sempre - de chegada tua.
Os poemas são desenhos largados nas longas estradas
Errantes dos desertos, horas, dias, anos a fio, palavras
Pelas dunas – também direi sempre – do teu corpo.
Navegantes dos oásis, soletradas florestas de sermos,
Na noite e no dia, o esvoaçar das areias em rara clepsidra
De ti, porque doutra glosa não, serei neste silencio cativo...
3.
As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca,
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.
Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Silabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.
De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémens, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.
Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.
4.
Tempos houve em que foste meu riso e meu siso,
Meu travesso sonho, de coisa alada, foste meu tudo,
Transeunte em cidade grande, eras meu néon,
À beira mar, a neblina para lá da tarde eras tu.
Também tu eras a réstia do crepúsculo e quase noite
Estrelavas a primeira estrela d´alva pela manhã
Pássaro que voa grande e redondo em torno do mundo
Cântico guardado no baú das lembranças circulares.
Eras sim tu na minha mão de apertar ninguém,
Outro alento quando arfavas à moribunda leoa
Animal caído em descanso, de qualquer remanso.
Eras e não eras nesses tempos tu, minha deusa,
No espelho transfigurado de algum reflexo,
Diletante água, meu sorriso, de coisa alada...
5.
O travo das nuvens que passam, o frenesim
Que somos à batuta dos momentos, na retina
Dá-me conta de bocados de nós, retirantes da vida,
Somente louvados daqueles que se amam.
Entrelinhas salpicadas de folhas, silvestres
Quadras impregnadas de calor e halo, incenso
Incendiado nos seios e nas coxas das flores,
Exalados aromas de quando esfíngica és tu.
Não só de palavras, das belas letras vivemos
Nós os de boca esventrada aos teoremas
Que refazem escalas das fórmulas soltas.
Mas de gestos e actos, de cujas pirâmides somos
Quais vértices onde nelas faz o sol zénite
E não terei outra eternidade senão teu olhar…
FILINTO ELÍSIO
Direi destes dias os momentos de prumo,
As nuvens que passam e deixam aqui travo,
Os olhares, uns de soslaio, outros de frémito,
Que serenam bem ao viés suas dilectas frutas.
Das metáforas direi o crepitar dos fogos,
Ora de águas, ora de ventos, quando não dos ares,
Pequenos nadas, somatizando febres, reversos,
Destroçadas vidas, fonemas, chispas e poemas.
E de os dizer hás de escutar tu, minha fome,
Aroma das ervas, temperos esquecidos, sais
Na boca de comer tudo, ó meu tanto pecado.
Sangue das trevas tu, ácidos e salivas, halos de ti,
Onde a borbulha das espumas sabe a frutas,
Furtivos beijos, e por dar-te o trevo destes dias...
2.
Todos os poemas são de amor na estação das frutas
Se, da minha gula, de apenas um gole te sorvesse
São tácteis desejos de chuva, outrora vidraças de ver
Tua espraiada partida, mesmo quando versos de solidão.
Todos os poemas são de outra música assim cantada
Em pertinazes versos, palavras quase ondas, viagens,
Chinas por aí, longe de nós a fímbria dos invernos
E estarei bem à porta – direi sempre - de chegada tua.
Os poemas são desenhos largados nas longas estradas
Errantes dos desertos, horas, dias, anos a fio, palavras
Pelas dunas – também direi sempre – do teu corpo.
Navegantes dos oásis, soletradas florestas de sermos,
Na noite e no dia, o esvoaçar das areias em rara clepsidra
De ti, porque doutra glosa não, serei neste silencio cativo...
3.
As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca,
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.
Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Silabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.
De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémens, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.
Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.
4.
Tempos houve em que foste meu riso e meu siso,
Meu travesso sonho, de coisa alada, foste meu tudo,
Transeunte em cidade grande, eras meu néon,
À beira mar, a neblina para lá da tarde eras tu.
Também tu eras a réstia do crepúsculo e quase noite
Estrelavas a primeira estrela d´alva pela manhã
Pássaro que voa grande e redondo em torno do mundo
Cântico guardado no baú das lembranças circulares.
Eras sim tu na minha mão de apertar ninguém,
Outro alento quando arfavas à moribunda leoa
Animal caído em descanso, de qualquer remanso.
Eras e não eras nesses tempos tu, minha deusa,
No espelho transfigurado de algum reflexo,
Diletante água, meu sorriso, de coisa alada...
5.
O travo das nuvens que passam, o frenesim
Que somos à batuta dos momentos, na retina
Dá-me conta de bocados de nós, retirantes da vida,
Somente louvados daqueles que se amam.
Entrelinhas salpicadas de folhas, silvestres
Quadras impregnadas de calor e halo, incenso
Incendiado nos seios e nas coxas das flores,
Exalados aromas de quando esfíngica és tu.
Não só de palavras, das belas letras vivemos
Nós os de boca esventrada aos teoremas
Que refazem escalas das fórmulas soltas.
Mas de gestos e actos, de cujas pirâmides somos
Quais vértices onde nelas faz o sol zénite
E não terei outra eternidade senão teu olhar…
FILINTO ELÍSIO
quarta-feira, 15 de junho de 2005
Coisas e Causas
Aeroporto da Praia
Pediram-me, de joelhos, que (não) escrevesse sobre o Aeroporto da Praia. Para uns, Novo Aeroporto da Praia (NAP, de feia sigla). Para outros, Aeroporto Internacional da Praia (AIP, sem comentários). É que depois de muito (não) dito, estava assente que o Aeroporto da Praia seria inaugurado a 4 de Julho de 2005, data emblemática para se inaugurar qualquer coisa, mormente algo assaz importante (não apenas para a Praia, mas para o país todo). Só que de repente, não mais do que de repente, estará alguém a dizer que talvez não. Faltam alguns requisitos técnicos, entendem? Procedimentos a ultimar, sabem como são essas coisas. Documentos em língua inglesa, por exemplo. O parque automóvel, imaginem só. Os tais constrangimentos, pelo que se pede a santa (santíssima, diga-se de passagem) paciência dos cabo-verdianos, em geral, e dos praienses, em particular. À pergunta, o que tem a ver a inauguração (acto simbólico) com a abertura ao tráfego (acto de gestão), ninguém responde. Em verdade, sem querer pressionar além do normal e do razoável, começa a passar do tempo para se inaugurar o Aeroporto da Praia. Para uns, Novo Aeroporto da Praia (NAP, de feia sigla). Para outros, Aeroporto Internacional da Praia (AIP, sem comentários). Por uma questão de causa. Quando não...de consequência!
Porto da Praia
Leio, com regozijo, que se prevê um grande desenvolvimento do Porto da Praia, de longe o mais movimentado e rentável do país. No quadro do Millenniun Challenge Account (MCA), fundo americano para alavancar o desenvolvimento dos países considerados da boa governança, dos Direitos Humanos e da economia aberta. O facto de Cabo Verde ter ganho o MCA prova, no mínimo, mérito e credibilidade. Cabo Verde vai dispor, nos próximos três anos, de 117,8 milhões de dólares. Mas dizia (com orgulho, verdade seja dita) que, em boa hora, se resolveu investir pesado no Porto da Praia. Fazer dele um dos portos mais apetrechados, seguros e competitivos da África Ocidental é uma decisão estratégica, a merecer o aplauso de todos. Bem, de todos nem por isso, já que o ratio do descontentamento é higiénico em democracia. Temos de ter, e de potenciar, uma opinião pública crítica capaz de analisar os grandes investimentos à luz dos custos/benefícios e das oportunidades multiplicadoras do desenvolvimento. É que a lucidez crítica, além de também higiénica, acabará por ser um grande factor do desenvolvimento...
Turismo e Cultura
Um grande fórum sobre o Turismo tem lugar no Mindelo, nos dias 17 e 18 de Junho. O II Encontro Internacional de Turismo, se não me engano, a envolver a Associação Nacional dos Municípios de Cabo Verde (ANMCV) e a União Nacional dos Operadores Turísticos (UNOTUR). Os painéis cobrem temas interessantes, diria mesmo fundamentais, como formação, transportes, marketing e financiamento. Só que nesta hora de se questionar - Que futuro para o turismo de Cabo Verde? -, importaria trazer para a ordem do dia a questão da Cultura. O Ambiente e a Cultura são hoje elementos essenciais em quaisquer debates de fundo sobre o Turismo. Temas como a bio-diversidade, a diversidade cultural, o eco-turismo e o turismo cultural, deviam ser transversais e permanentes nos fora de tamanha magnitude. Entretanto, saindo um tanto do cenário, numa praia da ilha do Sal um oeste-africano vende a um europeu um jacarézinho como Souvenir du Cap-Vert e, noutra aldeia, em Boa Vista um brasileiro apresenta uma rede índia como Made in Cape Verde. Pode? Isso, para não falar da Cidade Velha, da Cidade de São Filipe, do Ex Campo de Concentração do Tarrafal, das Salinas do Sal, do Maio e da Boa Vista, do Mindelo do Tempo d´Canequinha, enfim...valores fundamentais e de sustentabilidade.
Pediram-me, de joelhos, que (não) escrevesse sobre o Aeroporto da Praia. Para uns, Novo Aeroporto da Praia (NAP, de feia sigla). Para outros, Aeroporto Internacional da Praia (AIP, sem comentários). É que depois de muito (não) dito, estava assente que o Aeroporto da Praia seria inaugurado a 4 de Julho de 2005, data emblemática para se inaugurar qualquer coisa, mormente algo assaz importante (não apenas para a Praia, mas para o país todo). Só que de repente, não mais do que de repente, estará alguém a dizer que talvez não. Faltam alguns requisitos técnicos, entendem? Procedimentos a ultimar, sabem como são essas coisas. Documentos em língua inglesa, por exemplo. O parque automóvel, imaginem só. Os tais constrangimentos, pelo que se pede a santa (santíssima, diga-se de passagem) paciência dos cabo-verdianos, em geral, e dos praienses, em particular. À pergunta, o que tem a ver a inauguração (acto simbólico) com a abertura ao tráfego (acto de gestão), ninguém responde. Em verdade, sem querer pressionar além do normal e do razoável, começa a passar do tempo para se inaugurar o Aeroporto da Praia. Para uns, Novo Aeroporto da Praia (NAP, de feia sigla). Para outros, Aeroporto Internacional da Praia (AIP, sem comentários). Por uma questão de causa. Quando não...de consequência!
Porto da Praia
Leio, com regozijo, que se prevê um grande desenvolvimento do Porto da Praia, de longe o mais movimentado e rentável do país. No quadro do Millenniun Challenge Account (MCA), fundo americano para alavancar o desenvolvimento dos países considerados da boa governança, dos Direitos Humanos e da economia aberta. O facto de Cabo Verde ter ganho o MCA prova, no mínimo, mérito e credibilidade. Cabo Verde vai dispor, nos próximos três anos, de 117,8 milhões de dólares. Mas dizia (com orgulho, verdade seja dita) que, em boa hora, se resolveu investir pesado no Porto da Praia. Fazer dele um dos portos mais apetrechados, seguros e competitivos da África Ocidental é uma decisão estratégica, a merecer o aplauso de todos. Bem, de todos nem por isso, já que o ratio do descontentamento é higiénico em democracia. Temos de ter, e de potenciar, uma opinião pública crítica capaz de analisar os grandes investimentos à luz dos custos/benefícios e das oportunidades multiplicadoras do desenvolvimento. É que a lucidez crítica, além de também higiénica, acabará por ser um grande factor do desenvolvimento...
Turismo e Cultura
Um grande fórum sobre o Turismo tem lugar no Mindelo, nos dias 17 e 18 de Junho. O II Encontro Internacional de Turismo, se não me engano, a envolver a Associação Nacional dos Municípios de Cabo Verde (ANMCV) e a União Nacional dos Operadores Turísticos (UNOTUR). Os painéis cobrem temas interessantes, diria mesmo fundamentais, como formação, transportes, marketing e financiamento. Só que nesta hora de se questionar - Que futuro para o turismo de Cabo Verde? -, importaria trazer para a ordem do dia a questão da Cultura. O Ambiente e a Cultura são hoje elementos essenciais em quaisquer debates de fundo sobre o Turismo. Temas como a bio-diversidade, a diversidade cultural, o eco-turismo e o turismo cultural, deviam ser transversais e permanentes nos fora de tamanha magnitude. Entretanto, saindo um tanto do cenário, numa praia da ilha do Sal um oeste-africano vende a um europeu um jacarézinho como Souvenir du Cap-Vert e, noutra aldeia, em Boa Vista um brasileiro apresenta uma rede índia como Made in Cape Verde. Pode? Isso, para não falar da Cidade Velha, da Cidade de São Filipe, do Ex Campo de Concentração do Tarrafal, das Salinas do Sal, do Maio e da Boa Vista, do Mindelo do Tempo d´Canequinha, enfim...valores fundamentais e de sustentabilidade.
quarta-feira, 8 de junho de 2005
As cidades e os versos
Gás lacrimogéneo
Nessa altura, a cidade cheirava a laranja azeda. Talvez não seja curial, nem romântico, falar desse cheiro nauseabundo que, pressentido assim à distância, sempre dá alguma saudade. De qualquer forma, eram tempos mais heróicos de que hoje e os amigos - tão diferentes outrora!, carregavam em simples gestos a dimensão da aurora. Mas não pretendo aqui falar do perfume daqueles dias sobressaltados, às vezes, de prisões na calada da noite, outras vezes, de amigos evadidos. Nessa infância (sim, porque tive aquela entre tantas outras), eu gostava muito dos versos de Ovídio Martins que os meus pais, insidiosos no educar com a necessária subversão, declamavam à mesa:
Mordaças a um poeta? Impossível!
Seria esta uma excelente ocasião para homenagear o grande poeta da resistência cabo-verdiana. É que a história não se compadece com o esquecimento. E a memória é, no mínimo, um acto de justiça. Acto de justiça. Nessa altura, nós estávamos sob bloqueios e só os homens maiúsculos ousavam ser poetas. Tempos depois, soube que a laranja azeda, pressentida numa manifestação em Belo Horizonte, era o cheiro de gás lacrimogéneo. E, ainda que soe paradoxal, sempre deu alguma saudade...
Fenway Blues
Soubeste dos tempos de Fenway Blues, do imenso parque vis-a-vis Queenbury Street. Os amigos ensaiavam na sala e queriam ser, à força e a eito, um quarteto a tocar no Wally´s . O Ney nos seus intermináveis acordes de Charlie Parker. O nosso apartamento era o Birdland. Quando cheguei a Boston, não tinha sobre a cidade uma opinião propriamente simpática. Só mais tarde, depois de a deambular de fio a pavio, é que me aquiesci de que ali estava a minha segunda cidade. A primeira era – e continua a ser - a Praia. Não por ser a mais limpa, nem a mais bonita. Apenas por ser, nas cem razões do amor, a mais querida. A mais limpa, parecia-me Genebra que conhecera num memorável Natal, e a mais bonita, me perdoem as outras, era Rio de Janeiro que amedrontava ao mesmo tempo que encantava. Mas Boston, dizia-vos, era uma cidade demorada de se amar. Ela deixava-se envolver, a princípio, puritana e austera, depois, comedida e mais solta, e, finalmente, alegremente culta. Por isso, fiz nascer os meus dois filhos – big boys, indeed – nessa cidade: o Denzel, em St Margareth Hospital, e o Pablo, em Beth Israel Hospital. De repente, estou na beirada do Charles River. Para ser mais preciso, do lado de Cambridge, onde a cidade de Boston parece de um dourado singular dos fins da tarde. Canoas a remo e pequenos veleiros passam por mim. E tu, se tanto, ficas agora mais aninhada no meu pensamento. Birdland, não me faças rir. Digo-te Birdland, neste vagar das ondas, como se declamasse os versos de T.S. Eliot:
Não sei muito acerca dos deuses
Mas creio que o rio é um deus castanho...
Livros destes últimos dias
O livro 1421: O Ano em que a China Descobriu o Mundo, de Gavin Manzies, diz que uma grande armada chinesa, constituída por 300 navios e 30 mil homens, partira do Porto de Tanggu, a 5 de Março de 1421 e descobriram as Américas e a África Ocidental, inclusive Cabo Verde, antes dos portugueses. Segundo esse autor, em Santo Antão, há uma pedra de estrutura octagonal, datado de 1421, com caracteres hieroglíficos chineses. Baseando em antigas cartas náuticas e em datas astronómicas, bem como nos despojos de navios nas ilhas atlânticas, ele defende que foram os chineses os primeiros a atingir a Cabo Verde, nessa primeira viagem completa à volta do mundo. Não comento certas “verdades” que desconheço, repto para os historiadores claro está, mas recomendo a leitura, quanto mais não seja ficcional, da obra. E por falar nisso...Não sou um fanático pela Teoria da Conspiração, mas o livro O Código de Da Vinci, de Dan Brown, proporcionou-me uma interessante leitura. Um jogo de chaves escondidas, revelações surpreendentes, enigmas complicados, realidades e fantasias históricas, tudo narrado a um ritmo que leva o leitor ao enigma mais fechado da nossa era. Li-o com prazer e curiosidade...
Hermético
Hermético, quem sabe, se influenciado pelas leituras acima descritas. Deixo-vos a chave dos meus enigmas, que os tenho por dever e direito. Há dias estava feliz por ter visto um passarinho verde e parece que um deus castanho não gostou. Do volante do seu jeep, tentou uma, duas e três voltas, a ver se Alonjo Quijano esquecia a sua Dulcineia. Mas quixotesco da silva, já velho demais para saber tanto acerca desses deuses. Enfim, tudo em horas de conhecer alguém, numa casa não se sabe de quem. Ela olha-o de modo tão uterino que outra melodia aquele encontro não poderia ter tido. E dito isto, meus caros, passem o pudor e a prudência, as mesuras todas da escrita e o que mais queiram, a história vos fica neste ponto final.
Nessa altura, a cidade cheirava a laranja azeda. Talvez não seja curial, nem romântico, falar desse cheiro nauseabundo que, pressentido assim à distância, sempre dá alguma saudade. De qualquer forma, eram tempos mais heróicos de que hoje e os amigos - tão diferentes outrora!, carregavam em simples gestos a dimensão da aurora. Mas não pretendo aqui falar do perfume daqueles dias sobressaltados, às vezes, de prisões na calada da noite, outras vezes, de amigos evadidos. Nessa infância (sim, porque tive aquela entre tantas outras), eu gostava muito dos versos de Ovídio Martins que os meus pais, insidiosos no educar com a necessária subversão, declamavam à mesa:
Mordaças a um poeta? Impossível!
Seria esta uma excelente ocasião para homenagear o grande poeta da resistência cabo-verdiana. É que a história não se compadece com o esquecimento. E a memória é, no mínimo, um acto de justiça. Acto de justiça. Nessa altura, nós estávamos sob bloqueios e só os homens maiúsculos ousavam ser poetas. Tempos depois, soube que a laranja azeda, pressentida numa manifestação em Belo Horizonte, era o cheiro de gás lacrimogéneo. E, ainda que soe paradoxal, sempre deu alguma saudade...
Fenway Blues
Soubeste dos tempos de Fenway Blues, do imenso parque vis-a-vis Queenbury Street. Os amigos ensaiavam na sala e queriam ser, à força e a eito, um quarteto a tocar no Wally´s . O Ney nos seus intermináveis acordes de Charlie Parker. O nosso apartamento era o Birdland. Quando cheguei a Boston, não tinha sobre a cidade uma opinião propriamente simpática. Só mais tarde, depois de a deambular de fio a pavio, é que me aquiesci de que ali estava a minha segunda cidade. A primeira era – e continua a ser - a Praia. Não por ser a mais limpa, nem a mais bonita. Apenas por ser, nas cem razões do amor, a mais querida. A mais limpa, parecia-me Genebra que conhecera num memorável Natal, e a mais bonita, me perdoem as outras, era Rio de Janeiro que amedrontava ao mesmo tempo que encantava. Mas Boston, dizia-vos, era uma cidade demorada de se amar. Ela deixava-se envolver, a princípio, puritana e austera, depois, comedida e mais solta, e, finalmente, alegremente culta. Por isso, fiz nascer os meus dois filhos – big boys, indeed – nessa cidade: o Denzel, em St Margareth Hospital, e o Pablo, em Beth Israel Hospital. De repente, estou na beirada do Charles River. Para ser mais preciso, do lado de Cambridge, onde a cidade de Boston parece de um dourado singular dos fins da tarde. Canoas a remo e pequenos veleiros passam por mim. E tu, se tanto, ficas agora mais aninhada no meu pensamento. Birdland, não me faças rir. Digo-te Birdland, neste vagar das ondas, como se declamasse os versos de T.S. Eliot:
Não sei muito acerca dos deuses
Mas creio que o rio é um deus castanho...
Livros destes últimos dias
O livro 1421: O Ano em que a China Descobriu o Mundo, de Gavin Manzies, diz que uma grande armada chinesa, constituída por 300 navios e 30 mil homens, partira do Porto de Tanggu, a 5 de Março de 1421 e descobriram as Américas e a África Ocidental, inclusive Cabo Verde, antes dos portugueses. Segundo esse autor, em Santo Antão, há uma pedra de estrutura octagonal, datado de 1421, com caracteres hieroglíficos chineses. Baseando em antigas cartas náuticas e em datas astronómicas, bem como nos despojos de navios nas ilhas atlânticas, ele defende que foram os chineses os primeiros a atingir a Cabo Verde, nessa primeira viagem completa à volta do mundo. Não comento certas “verdades” que desconheço, repto para os historiadores claro está, mas recomendo a leitura, quanto mais não seja ficcional, da obra. E por falar nisso...Não sou um fanático pela Teoria da Conspiração, mas o livro O Código de Da Vinci, de Dan Brown, proporcionou-me uma interessante leitura. Um jogo de chaves escondidas, revelações surpreendentes, enigmas complicados, realidades e fantasias históricas, tudo narrado a um ritmo que leva o leitor ao enigma mais fechado da nossa era. Li-o com prazer e curiosidade...
Hermético
Hermético, quem sabe, se influenciado pelas leituras acima descritas. Deixo-vos a chave dos meus enigmas, que os tenho por dever e direito. Há dias estava feliz por ter visto um passarinho verde e parece que um deus castanho não gostou. Do volante do seu jeep, tentou uma, duas e três voltas, a ver se Alonjo Quijano esquecia a sua Dulcineia. Mas quixotesco da silva, já velho demais para saber tanto acerca desses deuses. Enfim, tudo em horas de conhecer alguém, numa casa não se sabe de quem. Ela olha-o de modo tão uterino que outra melodia aquele encontro não poderia ter tido. E dito isto, meus caros, passem o pudor e a prudência, as mesuras todas da escrita e o que mais queiram, a história vos fica neste ponto final.
quinta-feira, 26 de maio de 2005
Variações VI
Por Filinto Elísio
Glosa, mote et cetera
Estou a vê-los desta janela da alma, como se assistisse ao espectáculo do mundo. Todos desfilam agora que a vida nasceu e ninguém poderá parar este pais nesta dinâmica. Hei-los, jovens do milénio, alegres e ruidosos, no «façam barulho» do Festival do Gamboa. Há uma poesia em tudo isto, há emoção preservada nesta memória de quem soube este pais bem mais deprimido. Quanto caminho percorrido. Estou a vê-los, uns aos beijos, outros aos gritos, e o pais esta cada vez mais na moda. O meu eu existencial fica neste turbilhão de imagens. Exteriores e interiores. A esfera (outra, que não se estratifica) derrama em mim uma estranha contenção. Onde estarás, minha alma plena? O incauto achará que estou numa fase romântica (e se estivesse?), mas não...ando, sim, a recear que o pássaro desenhado deste quadro (reprodução rústica de uma tela de Picasso, explique-se) saia da moldura e se torne realidade. Alguém há de me achar no mínimo esquisito, mas tu saberás que, para lá deste premeditado, eu sou livre. LIVRE!
Belo Horizonte como era
Belo Horizonte era uma cidade linda. Ladeada de serra, num vale verdejante, onde as avenidas corriam ao som da música sacra. Estávamos os dois profanos, sentados no barzinho da Rua Tupis, e lá vinha o repentista com os seus versos de cordel. Ele emparelhava as rimas e vertia o poema com a mesura do garçon no seu serviço de mesa. Ora, ao Parque Municipal a ver os cisnes que lembravam os poemas de Anna Ahknatova, ora, no Palácio das Artes a debater os filmes de Kurosowa. Quando não eram longas conversas sobre a Classificação Decimal Universal ou, então, a professora Janet a jurar que a Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges, era uma síntese entre a antiga Biblioteca de Alexandria e a moderna Biblioteca do Congresso. E aquele professor de História da Arte que só podia ser maluco! Mas que, ao tempo do mundo polarizado com o vergonhoso Muro de Berlim ao meio, dizia existir em cada cultura um capital especifico de valores. A cultura mantém a identidade humana no que ela tem de singular, dizia. Lembras-te do campus da Pampulha? Do Lago da Pampulha e daquele complexo arquitectónico assinado por Oscar Niemayer? Linda era a cidade de Belo Horizonte...
Os fantasmas da nossa voz
Este país começou a comemorar o seu Trigésimo Aniversario da Independência Nacional. Comemora-o, porque, para lá dos jargões políticos, a soberania aqui foi um dos motores do desenvolvimento. Cabo Verde tem, a meu ver, três recursos estratégicos, todos derivados do seu factor humano, nomeadamente, a cultura, a memória sublimada da fome e a boa imagem externa. A configuração geoestrategica é outro recurso importante, mas a historia diz-nos que, por vezes, ela tem servido para o trafico de escravos e para os apetites da planaterização do mundo. Falando nisso, nem te conto que há dias foi aqui apanhado um barco a zarpar com clandestinos da África Ocidental. A canalha chama-os aqui de mandjacos. Algo me perturba nisso tudo. A cena de quase uma centena de homens negros presos, em situação concentracionária e, depois, deportados em decisão sumaria, tudo isso me deixou pensativo. Isso mexeu com os meus insondáveis precipícios, confesso-te. Devo estar só, sozinho, a lamentar a sorte colectiva desses infelizes, embriagada esta opinião publica pela vitoria do Benfica e pela remota, mas masturbante, possibilidade de virarmos Europa. Agora, baixinho para que a rabentoleira não nos ouça, às vezes, tenho medo dos fantasmas da nossa voz. Ou do nosso pensamento. Outras vezes, estou mais positivo e seguro. Como o Esteves sem metafísica, diria Álvaro de Campos, no Tabacaria. Tu não me entendes. Eu também não me entendo tão categoricamente...
Tudo o que arde
Soube, por intuição apenas, que ainda continuas de vigília. Nessa mesma janela que dá para o mundo. Os barcos, presumo, entram e saem da baia. E nem sei se sabes daqueles últimos versos do Ode Marítima, de Álvaro de Campos. Se sabes, queria, agora como nunca, que dissesses cada palavra desse belo poema até ao derradeiro barco na neblina. E o que queres tu que eu diga? De repente, esse pássaro entra no meu calendário e tudo torna-se muito louco. Carregamos todos esta grande complexidade, um tanto ao quanto halográfica, pois vamos sendo, paradoxalmente, sapiens e demens, faber e ludens, empiricus e imaginarius, economicus e consumans, prosaicus e poeticus...Quando Deus fez o Verbo no começo de tudo, a escrita não surgira no seu frontispício. Espero-te em todos os lugares. Quando não te vejo – de ausência minha ou tua -, pressinto-te nos recônditos momentos de estar. E de ti falo o tempo todo, como se fosses tudo o que arde. Mas, se apareces, às vezes, triunfal e poderosa, outras vezes, temerosa como qualquer mortal, dou comigo a inventar metáforas para que nos teus olhos cintilem as estrelas impossíveis. Despeço-me, sem dizer-te adeus, a cada crónica semanal. Teremos quiçá um encontro marcado. Oh, como apetece exorcisar este castelo de hábitos e certezas. O afecto faz o nosso monge. O mapa oculto tem-no escrito algures cá dentro. E tenho-te pressentido, minha alma plena, desde o começo de tudo. Continuas a ser tudo o que arde...
Glosa, mote et cetera
Estou a vê-los desta janela da alma, como se assistisse ao espectáculo do mundo. Todos desfilam agora que a vida nasceu e ninguém poderá parar este pais nesta dinâmica. Hei-los, jovens do milénio, alegres e ruidosos, no «façam barulho» do Festival do Gamboa. Há uma poesia em tudo isto, há emoção preservada nesta memória de quem soube este pais bem mais deprimido. Quanto caminho percorrido. Estou a vê-los, uns aos beijos, outros aos gritos, e o pais esta cada vez mais na moda. O meu eu existencial fica neste turbilhão de imagens. Exteriores e interiores. A esfera (outra, que não se estratifica) derrama em mim uma estranha contenção. Onde estarás, minha alma plena? O incauto achará que estou numa fase romântica (e se estivesse?), mas não...ando, sim, a recear que o pássaro desenhado deste quadro (reprodução rústica de uma tela de Picasso, explique-se) saia da moldura e se torne realidade. Alguém há de me achar no mínimo esquisito, mas tu saberás que, para lá deste premeditado, eu sou livre. LIVRE!
Belo Horizonte como era
Belo Horizonte era uma cidade linda. Ladeada de serra, num vale verdejante, onde as avenidas corriam ao som da música sacra. Estávamos os dois profanos, sentados no barzinho da Rua Tupis, e lá vinha o repentista com os seus versos de cordel. Ele emparelhava as rimas e vertia o poema com a mesura do garçon no seu serviço de mesa. Ora, ao Parque Municipal a ver os cisnes que lembravam os poemas de Anna Ahknatova, ora, no Palácio das Artes a debater os filmes de Kurosowa. Quando não eram longas conversas sobre a Classificação Decimal Universal ou, então, a professora Janet a jurar que a Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges, era uma síntese entre a antiga Biblioteca de Alexandria e a moderna Biblioteca do Congresso. E aquele professor de História da Arte que só podia ser maluco! Mas que, ao tempo do mundo polarizado com o vergonhoso Muro de Berlim ao meio, dizia existir em cada cultura um capital especifico de valores. A cultura mantém a identidade humana no que ela tem de singular, dizia. Lembras-te do campus da Pampulha? Do Lago da Pampulha e daquele complexo arquitectónico assinado por Oscar Niemayer? Linda era a cidade de Belo Horizonte...
Os fantasmas da nossa voz
Este país começou a comemorar o seu Trigésimo Aniversario da Independência Nacional. Comemora-o, porque, para lá dos jargões políticos, a soberania aqui foi um dos motores do desenvolvimento. Cabo Verde tem, a meu ver, três recursos estratégicos, todos derivados do seu factor humano, nomeadamente, a cultura, a memória sublimada da fome e a boa imagem externa. A configuração geoestrategica é outro recurso importante, mas a historia diz-nos que, por vezes, ela tem servido para o trafico de escravos e para os apetites da planaterização do mundo. Falando nisso, nem te conto que há dias foi aqui apanhado um barco a zarpar com clandestinos da África Ocidental. A canalha chama-os aqui de mandjacos. Algo me perturba nisso tudo. A cena de quase uma centena de homens negros presos, em situação concentracionária e, depois, deportados em decisão sumaria, tudo isso me deixou pensativo. Isso mexeu com os meus insondáveis precipícios, confesso-te. Devo estar só, sozinho, a lamentar a sorte colectiva desses infelizes, embriagada esta opinião publica pela vitoria do Benfica e pela remota, mas masturbante, possibilidade de virarmos Europa. Agora, baixinho para que a rabentoleira não nos ouça, às vezes, tenho medo dos fantasmas da nossa voz. Ou do nosso pensamento. Outras vezes, estou mais positivo e seguro. Como o Esteves sem metafísica, diria Álvaro de Campos, no Tabacaria. Tu não me entendes. Eu também não me entendo tão categoricamente...
Tudo o que arde
Soube, por intuição apenas, que ainda continuas de vigília. Nessa mesma janela que dá para o mundo. Os barcos, presumo, entram e saem da baia. E nem sei se sabes daqueles últimos versos do Ode Marítima, de Álvaro de Campos. Se sabes, queria, agora como nunca, que dissesses cada palavra desse belo poema até ao derradeiro barco na neblina. E o que queres tu que eu diga? De repente, esse pássaro entra no meu calendário e tudo torna-se muito louco. Carregamos todos esta grande complexidade, um tanto ao quanto halográfica, pois vamos sendo, paradoxalmente, sapiens e demens, faber e ludens, empiricus e imaginarius, economicus e consumans, prosaicus e poeticus...Quando Deus fez o Verbo no começo de tudo, a escrita não surgira no seu frontispício. Espero-te em todos os lugares. Quando não te vejo – de ausência minha ou tua -, pressinto-te nos recônditos momentos de estar. E de ti falo o tempo todo, como se fosses tudo o que arde. Mas, se apareces, às vezes, triunfal e poderosa, outras vezes, temerosa como qualquer mortal, dou comigo a inventar metáforas para que nos teus olhos cintilem as estrelas impossíveis. Despeço-me, sem dizer-te adeus, a cada crónica semanal. Teremos quiçá um encontro marcado. Oh, como apetece exorcisar este castelo de hábitos e certezas. O afecto faz o nosso monge. O mapa oculto tem-no escrito algures cá dentro. E tenho-te pressentido, minha alma plena, desde o começo de tudo. Continuas a ser tudo o que arde...
Auto censura, mais cultura e o livro de estilos
Por Filinto Elísio
1.
Participámos há dias num debate televisivo sobre a Imprensa em Cabo Verde, no quadro da programação da TCV sobre os 30 anos da Independência de Cabo Verde. Debate aceso, interessante e necessário, não apenas pelos tópicos desenvolvidos, mas pela parte pedagógica de se debater as diversas grandes questões. Só que num debate de uma hora, com cinco convidados e meia dúzia de reportagens, muito terá ficado por dizer, razão porque quereremos retomar uma ou outra ideia abordada nesse fórum. Às tantas pela discussão ficou a ideia de que a auto censura não existe senão na cabeça dos jornalistas sem carácter, premissa, na minha opinião, viesada já que os mecanismos censurantes devem ser tratados com mais complexidade e delicadeza. Grosso modo, já que ninguém é absolutamente livre, os mecanismos censurantes condicionam a vida de todo o ser humano, em qualquer tempo e/ou lugar. A par disso, em não havendo censura como instituição em Cabo Verde, permanece ainda, e quiçá por muito tempo, o espectro do limite imposto e interiorizado pelo profissional da comunicação social. Ademais, a censura não é apenas a proibição do discurso, mas é, em larga medida, a obrigação de escrever e de reportar um certo discurso. O Dicionário do Jornalismo, de Fernando Cascais, define a auto censura como «mecanismo psicológico provocado directa ou indirectamente pela pressão envolvente que desencadeia limitações na capacidade de expressão do pensamento ou na liberdade de comunicar através dos media. As suas causas são múltiplas, da pressão política velada a instabilidade de emprego, passando pela ameaça económica de anunciantes ou patrocinadores». A partir de tal perspectiva quem dentre nós não lida com este mecanismo insidioso que atire a primeira pedra.
2.
Houve um tempo em que era necessário apontar o dedo para o outro, buscar, no contexto e na conjuntura, as razões para justificar determinadas insuficiências. Sinceramente que não consideramos ser essa a via mais correcta, nem ser essa a melhor estratégia. Importa-nos, antes de mais, identificar o problema e evidenciá-lo a partir da ideia da sublimação. O jornalismo cabo-verdiano evoluiu muito, e bem, nos últimos 30 anos. O campo mediático alargou-se e hoje há relativa liberdade da imprensa – o espectro mediático, pelos órgãos que oferece e pelas linhas editoriais que apresenta, revela que um enorme espaço de manobra para o jornalista e para o cidadão. A velha pergunta: é a liberdade da imprensa ou do jornalista? Por ora, interessa-nos consolidar a liberdade da imprensa, ficando a liberdade do jornalista (no órgão e na sociedade) para uma outra análise.
3.
Só que, como diz a gíria brasileira, “o buraco é mais em baixo”. Em verdade, a classe dos jornalistas precisa de uma profunda introspecção. Como em muitas profissões, os jornalistas precisam estar mais informados para melhor informar, mais especializados em face das áreas especificas do conhecimento, dominar as novas tecnologias de informação e as técnicas de investigação e ser mais competitivos. Os jornalistas precisam ser mais cultos quando abordam a tensão política na Guiné-Bissau ou o campeonato europeu de futebol, passando pela violência doméstica ou pela mecânica do deficit publico em Cabo Verde. Precisam ser mais profundos a tratar da questão da integração ou da parceria europeia, a olhar o espectro político-partidário e a cobrir a carreira artística de Cesária Évora. Pequenas e grandes agendas, mas que exigem tratamento profissional e de qualidade, em prol da informação e do direito do consumidor. Sem simplismo, nem tábua rasa, o grande problema do jornalismo cabo-verdiano ainda reside no próprio jornalista, uma questão mais de forma e de conteúdo do que propriamente de contexto, por mais que este ultimo aspecto interfira na problemática.
4.
Digamos que o grande desafio do jornalismo cabo-verdiano tem a ver com a qualidade, isto é, com o domínio das regras técnicas e deontológicas, que se inspiram em critérios de bom senso, bom gosto e rigor profissional. A introdução dos livros de estilo nas redacções tornou-se um must e um factor na definição da qualidade e da credibilidade de um meio de comunicação social. Os livros de estilo são orientadores de normas linguisticas, técnicas e éticas que, cumpridas, uniformizam um padrão de qualidade, sem por em causa a criatividade e a liberdade do profissional.
1.
Participámos há dias num debate televisivo sobre a Imprensa em Cabo Verde, no quadro da programação da TCV sobre os 30 anos da Independência de Cabo Verde. Debate aceso, interessante e necessário, não apenas pelos tópicos desenvolvidos, mas pela parte pedagógica de se debater as diversas grandes questões. Só que num debate de uma hora, com cinco convidados e meia dúzia de reportagens, muito terá ficado por dizer, razão porque quereremos retomar uma ou outra ideia abordada nesse fórum. Às tantas pela discussão ficou a ideia de que a auto censura não existe senão na cabeça dos jornalistas sem carácter, premissa, na minha opinião, viesada já que os mecanismos censurantes devem ser tratados com mais complexidade e delicadeza. Grosso modo, já que ninguém é absolutamente livre, os mecanismos censurantes condicionam a vida de todo o ser humano, em qualquer tempo e/ou lugar. A par disso, em não havendo censura como instituição em Cabo Verde, permanece ainda, e quiçá por muito tempo, o espectro do limite imposto e interiorizado pelo profissional da comunicação social. Ademais, a censura não é apenas a proibição do discurso, mas é, em larga medida, a obrigação de escrever e de reportar um certo discurso. O Dicionário do Jornalismo, de Fernando Cascais, define a auto censura como «mecanismo psicológico provocado directa ou indirectamente pela pressão envolvente que desencadeia limitações na capacidade de expressão do pensamento ou na liberdade de comunicar através dos media. As suas causas são múltiplas, da pressão política velada a instabilidade de emprego, passando pela ameaça económica de anunciantes ou patrocinadores». A partir de tal perspectiva quem dentre nós não lida com este mecanismo insidioso que atire a primeira pedra.
2.
Houve um tempo em que era necessário apontar o dedo para o outro, buscar, no contexto e na conjuntura, as razões para justificar determinadas insuficiências. Sinceramente que não consideramos ser essa a via mais correcta, nem ser essa a melhor estratégia. Importa-nos, antes de mais, identificar o problema e evidenciá-lo a partir da ideia da sublimação. O jornalismo cabo-verdiano evoluiu muito, e bem, nos últimos 30 anos. O campo mediático alargou-se e hoje há relativa liberdade da imprensa – o espectro mediático, pelos órgãos que oferece e pelas linhas editoriais que apresenta, revela que um enorme espaço de manobra para o jornalista e para o cidadão. A velha pergunta: é a liberdade da imprensa ou do jornalista? Por ora, interessa-nos consolidar a liberdade da imprensa, ficando a liberdade do jornalista (no órgão e na sociedade) para uma outra análise.
3.
Só que, como diz a gíria brasileira, “o buraco é mais em baixo”. Em verdade, a classe dos jornalistas precisa de uma profunda introspecção. Como em muitas profissões, os jornalistas precisam estar mais informados para melhor informar, mais especializados em face das áreas especificas do conhecimento, dominar as novas tecnologias de informação e as técnicas de investigação e ser mais competitivos. Os jornalistas precisam ser mais cultos quando abordam a tensão política na Guiné-Bissau ou o campeonato europeu de futebol, passando pela violência doméstica ou pela mecânica do deficit publico em Cabo Verde. Precisam ser mais profundos a tratar da questão da integração ou da parceria europeia, a olhar o espectro político-partidário e a cobrir a carreira artística de Cesária Évora. Pequenas e grandes agendas, mas que exigem tratamento profissional e de qualidade, em prol da informação e do direito do consumidor. Sem simplismo, nem tábua rasa, o grande problema do jornalismo cabo-verdiano ainda reside no próprio jornalista, uma questão mais de forma e de conteúdo do que propriamente de contexto, por mais que este ultimo aspecto interfira na problemática.
4.
Digamos que o grande desafio do jornalismo cabo-verdiano tem a ver com a qualidade, isto é, com o domínio das regras técnicas e deontológicas, que se inspiram em critérios de bom senso, bom gosto e rigor profissional. A introdução dos livros de estilo nas redacções tornou-se um must e um factor na definição da qualidade e da credibilidade de um meio de comunicação social. Os livros de estilo são orientadores de normas linguisticas, técnicas e éticas que, cumpridas, uniformizam um padrão de qualidade, sem por em causa a criatividade e a liberdade do profissional.
sábado, 7 de maio de 2005
Hace falta estar ciego
Rafael Alberti
Hace falta estar ciego,
tener como metidas en los ojos raspaduras de vidrio,
cal viva,
arena hirviendo,
para no ver la luz que salta en nuestros actos,
que ilumina por dentro nuestra lengua,
nuestra diaria palabra.
.
Hace falta querer morir sin estela de gloria y alegría,
sin participación de los himnos futuros,
sin recuerdo en los hombres que juzguen el pasado sombrío de la tierra.
.
Hace falta querer ya en vida ser pasado,
obstáculo sangriento,
cosa muerta,
seco olvido.
Hace falta estar ciego,
tener como metidas en los ojos raspaduras de vidrio,
cal viva,
arena hirviendo,
para no ver la luz que salta en nuestros actos,
que ilumina por dentro nuestra lengua,
nuestra diaria palabra.
.
Hace falta querer morir sin estela de gloria y alegría,
sin participación de los himnos futuros,
sin recuerdo en los hombres que juzguen el pasado sombrío de la tierra.
.
Hace falta querer ya en vida ser pasado,
obstáculo sangriento,
cosa muerta,
seco olvido.
Joal, Joal
Leopold Sedar Senghor
Sow, voila Joal.
Joal!
Je me rappelle.
Je me rappelle les signares à l'ombre verte des vérandas
Les signares aux yeux surréels comme un clair de lune sur la grève.
Je me rappelle les fastes du Couchant
Où Koumba N'Dofène voulait faire tailler son manteau royal.
Je me rappelle les festins funèbres fumant du sang des troupeaux égorgés
Du bruit des querelles, des raphsodies des griots.
Je me rappelle les voix paiennes rythmant le Tantum Ergo
Et les processions et les palmes et les arcs de triomphe.
Je me rappelle la danse des filles nubiles
Les choeurs de lutte - oh ! la danse finale des jeunes hommes, buste
Penché élancé, et le pur cri d'amour des femmes _
Kor Siga!
Je me rappelle, je me rappelle...
Ma tête rythmant
Quelle marche lasse le long des jours d'Europe où parfois
Apparait un jazz orphelin qui sanglote sanglote sanglote.
Sow, voila Joal.
Joal!
Je me rappelle.
Je me rappelle les signares à l'ombre verte des vérandas
Les signares aux yeux surréels comme un clair de lune sur la grève.
Je me rappelle les fastes du Couchant
Où Koumba N'Dofène voulait faire tailler son manteau royal.
Je me rappelle les festins funèbres fumant du sang des troupeaux égorgés
Du bruit des querelles, des raphsodies des griots.
Je me rappelle les voix paiennes rythmant le Tantum Ergo
Et les processions et les palmes et les arcs de triomphe.
Je me rappelle la danse des filles nubiles
Les choeurs de lutte - oh ! la danse finale des jeunes hommes, buste
Penché élancé, et le pur cri d'amour des femmes _
Kor Siga!
Je me rappelle, je me rappelle...
Ma tête rythmant
Quelle marche lasse le long des jours d'Europe où parfois
Apparait un jazz orphelin qui sanglote sanglote sanglote.
quarta-feira, 4 de maio de 2005
Uma questão de alma moderna
por Filinto Elísio
Em tributo à “alma moderna” de António de Paula Brito, Pedro Cardoso,Eugénio Tavares e Luis Loff de Vasconcelos
Com o coração na mão
Neste processo de oficialização do crioulo, vozes, aqui e acolá, prós e contra, dirão da sua justiça e contribuirão para prossecução do debate necessário que importa revigorar. O dia é agora e o lugar é aqui. E, antes de mais, importa reafirmar que a padronização da língua (não confundir com imposição) pressupõe obviamente, em exacta dimensão e proporção, a ideia de ser a nossa unidade estribada na nossa língua materna, como ela é falada e cultivada em cada espaço e em cada região do nosso país. Mais do que isso até: em cada comunidade mais ao largo da nossa nação. Em todos os tempos e lugares, o afrontamento da língua nacional se coloca em determinado momento do desenvolvimento. Sobretudo, em momentos de pique do desenvolvimento humanista, como é o que se vive hoje em Cabo Verde, 30 anos passados sobre a nossa Independência Nacional. E o processo de afirmação linguística nunca foi feito em águas serenadas. Língua tem a ver com cultura, poder, afirmação e coisas afins, de modo que envolve princípios e interesses, tanto convergentes como divergentes...
Processo que vem do antanho
Na Europa, por exemplo, a oficialização das línguas nacionais deu-se na sua maioria durante o Renascimento, momento no qual os principais países abandonaram as estruturas - económicas, sociais, culturais - feudais e entram na fase moderna. Com o fim da Idade Média os romances falados passam a afirmar-se como línguas escritas e de cultura; o francês, o italiano, o castelhano, assim como o português, passam a ter, por diferentes processos, o estatuto de línguas oficiais. Era o latim a língua escrita por excelência; as línguas nacionais foram se constituindo, como se depreende, em variedades orais. Elas passam por um processo gradual de legitimação que inclui a homogeneização das formas de escrita e a escolha de uma variedade padrão a ser transcrita. Este processo de ‘padronização’ das variedades “nacionais” vai culminar na formação das línguas nacionais. A formação do português como língua nacional está, naturalmente, contextualizada nesse processo mais geral do desenvolvimento renascentista europeu. A língua portuguesa afirma-se no período dos descobrimentos em que Portugal teve um papel central na Europa, especialmente no que tange às inovações técnicas ligadas à navegação e aos conhecimentos geográficos. É nesse contexto de humanismo que surgem as primeiras gramáticas: a de Fernão de Oliveira em 1536, e a de João de Barros em 1539.
E o quiproquó que aquilo deu?
Também em Portugal, a questão não foi pacífica. As peças em defesa da língua portuguesa tinham de passar por três instâncias censórias antes de serem licenciadas: o Santo Ofício, o Ordinário eclesiástico e o Paço. A gramática de Barros foi listada no index de obras proibidas; Fernão de Oliveira foi preso e condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Isso, para desdramatizarmos um ou outro frisson que o processo de afirmação línguística possa provocar nestas paragens...
A palavra dos outros
Este processo de afirmação línguística, desde o antanho, tem defensores respeitáveis. Vejamos, por exemplo, o que diz a voz abalizada de Aristides Lima, Presidente da Assembleia Nacional, sobre a problemática (é de dar a palavra aos outros, note-se): “O poder político tem urgentemente de fazer mais do que fez até agora. Ele está convocado a, eventualmente, fazer o seu exercício de desalienação cultural. Ele está convocado a reconhecer à língua mais falada pela comunidade cabo-verdiana um estatuto de igual dignidade que o português. Ele está convocado a reconhecer a cada um de nós o direito ao ensino em língua cabo-verdiana, ao lado do direito ao ensino em português; a reconhecer o direito do uso do crioulo em correspondências e documentos oficiais e, ainda, o direito a um presença equitativa do crioulo nos meios de comunicação social do Estado. Isto não é nenhum favor. É tão somente escutar o imperativo do direito humano à língua e reconhecer o direito à igualdade das duas línguas que caracterizam a nossa cultura.”
O bilinguismo é uma valência
O processo de afirmação da língua cabo-verdiana, sobretudo, o processo da construção do bilinguismo cabo-verdiano, prima-se pela busca de um consenso amplo, alargado e participado. Um processo que observa sensibilidades e competências, factores socio-linguísticos e histórico-linguísticos, oportunidades identitárias e de desenvolvimento. Um processo construído de há séculos e que atinge o ápice do debate, agora que o país faz 30 anos da Independência Nacional. O bilinguismo não é um dilema, nem uma dicotomia, mas uma realidade ambivalente com soluções para os desafios de Cabo Verde. Por ser uma ambivalência enriquecedora, importa potenciá-la. A padronização escrita do crioulo e a democratização do português são dois passos importantes no processo de construção nacional. Outro passo, não menos importante, seria a elaboração do crioulo-padrão que deverá se sobrepor à multiplicidade de variantes da língua no arquipélago, constituindo-se como um novo símbolo de unidade no país. Por isso, haja diferença, mas com serenidade; contradição, com boa-fé...em face de um desígnio histórico. E o melhor laboratório para tal padronização é a sua socialização no Ensino (o Superior, sobretudo) e na Comunicação Social. E o seu óbvio reconhecimento de língua paritária na Administração Pública. Outrossim, não estamos em tempo de imposições. Nem as da maioria, obviamente. E muito menos as da minoria, como fora norma nestas ilhas, antes, de colonialismo e, depois, de auto-colonialismo. De facto, o grande Albert Einstein tinha razão ao dizer que “é muito mais fácil dissecar o átomo do que desenraizar preconceitos”. Por isso, faça-se o caminho a caminhar, desintegrando o átomo de certos preconceitos. Numa autêntica (e desta feita genuína) largada de consciencialização. Já ninguém aceita ser auto-colonizado nestas ilhas, venha esta maldição sob a roupagem que vier e este vaticínio da boca de quem vier. É que “o dia nasceu”, como diria o poeta Mário Fonseca...
Em tributo à “alma moderna” de António de Paula Brito, Pedro Cardoso,Eugénio Tavares e Luis Loff de Vasconcelos
Com o coração na mão
Neste processo de oficialização do crioulo, vozes, aqui e acolá, prós e contra, dirão da sua justiça e contribuirão para prossecução do debate necessário que importa revigorar. O dia é agora e o lugar é aqui. E, antes de mais, importa reafirmar que a padronização da língua (não confundir com imposição) pressupõe obviamente, em exacta dimensão e proporção, a ideia de ser a nossa unidade estribada na nossa língua materna, como ela é falada e cultivada em cada espaço e em cada região do nosso país. Mais do que isso até: em cada comunidade mais ao largo da nossa nação. Em todos os tempos e lugares, o afrontamento da língua nacional se coloca em determinado momento do desenvolvimento. Sobretudo, em momentos de pique do desenvolvimento humanista, como é o que se vive hoje em Cabo Verde, 30 anos passados sobre a nossa Independência Nacional. E o processo de afirmação linguística nunca foi feito em águas serenadas. Língua tem a ver com cultura, poder, afirmação e coisas afins, de modo que envolve princípios e interesses, tanto convergentes como divergentes...
Processo que vem do antanho
Na Europa, por exemplo, a oficialização das línguas nacionais deu-se na sua maioria durante o Renascimento, momento no qual os principais países abandonaram as estruturas - económicas, sociais, culturais - feudais e entram na fase moderna. Com o fim da Idade Média os romances falados passam a afirmar-se como línguas escritas e de cultura; o francês, o italiano, o castelhano, assim como o português, passam a ter, por diferentes processos, o estatuto de línguas oficiais. Era o latim a língua escrita por excelência; as línguas nacionais foram se constituindo, como se depreende, em variedades orais. Elas passam por um processo gradual de legitimação que inclui a homogeneização das formas de escrita e a escolha de uma variedade padrão a ser transcrita. Este processo de ‘padronização’ das variedades “nacionais” vai culminar na formação das línguas nacionais. A formação do português como língua nacional está, naturalmente, contextualizada nesse processo mais geral do desenvolvimento renascentista europeu. A língua portuguesa afirma-se no período dos descobrimentos em que Portugal teve um papel central na Europa, especialmente no que tange às inovações técnicas ligadas à navegação e aos conhecimentos geográficos. É nesse contexto de humanismo que surgem as primeiras gramáticas: a de Fernão de Oliveira em 1536, e a de João de Barros em 1539.
E o quiproquó que aquilo deu?
Também em Portugal, a questão não foi pacífica. As peças em defesa da língua portuguesa tinham de passar por três instâncias censórias antes de serem licenciadas: o Santo Ofício, o Ordinário eclesiástico e o Paço. A gramática de Barros foi listada no index de obras proibidas; Fernão de Oliveira foi preso e condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Isso, para desdramatizarmos um ou outro frisson que o processo de afirmação línguística possa provocar nestas paragens...
A palavra dos outros
Este processo de afirmação línguística, desde o antanho, tem defensores respeitáveis. Vejamos, por exemplo, o que diz a voz abalizada de Aristides Lima, Presidente da Assembleia Nacional, sobre a problemática (é de dar a palavra aos outros, note-se): “O poder político tem urgentemente de fazer mais do que fez até agora. Ele está convocado a, eventualmente, fazer o seu exercício de desalienação cultural. Ele está convocado a reconhecer à língua mais falada pela comunidade cabo-verdiana um estatuto de igual dignidade que o português. Ele está convocado a reconhecer a cada um de nós o direito ao ensino em língua cabo-verdiana, ao lado do direito ao ensino em português; a reconhecer o direito do uso do crioulo em correspondências e documentos oficiais e, ainda, o direito a um presença equitativa do crioulo nos meios de comunicação social do Estado. Isto não é nenhum favor. É tão somente escutar o imperativo do direito humano à língua e reconhecer o direito à igualdade das duas línguas que caracterizam a nossa cultura.”
O bilinguismo é uma valência
O processo de afirmação da língua cabo-verdiana, sobretudo, o processo da construção do bilinguismo cabo-verdiano, prima-se pela busca de um consenso amplo, alargado e participado. Um processo que observa sensibilidades e competências, factores socio-linguísticos e histórico-linguísticos, oportunidades identitárias e de desenvolvimento. Um processo construído de há séculos e que atinge o ápice do debate, agora que o país faz 30 anos da Independência Nacional. O bilinguismo não é um dilema, nem uma dicotomia, mas uma realidade ambivalente com soluções para os desafios de Cabo Verde. Por ser uma ambivalência enriquecedora, importa potenciá-la. A padronização escrita do crioulo e a democratização do português são dois passos importantes no processo de construção nacional. Outro passo, não menos importante, seria a elaboração do crioulo-padrão que deverá se sobrepor à multiplicidade de variantes da língua no arquipélago, constituindo-se como um novo símbolo de unidade no país. Por isso, haja diferença, mas com serenidade; contradição, com boa-fé...em face de um desígnio histórico. E o melhor laboratório para tal padronização é a sua socialização no Ensino (o Superior, sobretudo) e na Comunicação Social. E o seu óbvio reconhecimento de língua paritária na Administração Pública. Outrossim, não estamos em tempo de imposições. Nem as da maioria, obviamente. E muito menos as da minoria, como fora norma nestas ilhas, antes, de colonialismo e, depois, de auto-colonialismo. De facto, o grande Albert Einstein tinha razão ao dizer que “é muito mais fácil dissecar o átomo do que desenraizar preconceitos”. Por isso, faça-se o caminho a caminhar, desintegrando o átomo de certos preconceitos. Numa autêntica (e desta feita genuína) largada de consciencialização. Já ninguém aceita ser auto-colonizado nestas ilhas, venha esta maldição sob a roupagem que vier e este vaticínio da boca de quem vier. É que “o dia nasceu”, como diria o poeta Mário Fonseca...
quarta-feira, 20 de abril de 2005
LAURO MOREIRA (em três momentos)
1º Momento (manhosa era a lua, com poesia)
Manhosa era a lua intrometida nas nuvens. Errante, andante, minguante, como nessa música de Princesito. Manhosa a voz de Mayra Andrade, naturalmente. Manhosa a onda que, meia-noite, brincava aos pezinhos nossos na praia do Mangue. Manhosa a manhã que abria, com o sol que ainda nem queimava e cantava o galo imperceptível das recordações. E à cristalina clarabóia que a tarde empresta e à neurastenia barbosiana desta hora, leio agora, com vagar, Poemeto Erótico...de Manuel Bandeira!
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Tão bom poder declamar, ali à beira da piscina, entre gente interessada e bonita desta hora, os versos de Manuel Bandeira. Parecia ali estar a musa mais procurada, de repente reencontrada, aninhada entre os presentes. Dona do meu imaginário, com seus olhos de amêndoa verde e sua pele moreníssima, a cintilar cá dentro a minha infância. Esse atónito e obsessivo desejo. Águas a transbordar cá dentro. E nada está certo neste lugar de não estar.
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...
Ali estava ela, a poesia. Estava ali, consubstanciada em tantas outras, sorridente e poderosa. De Manuel Bandeira, Lauro Moreira, embaixador e director da Agência da Cooperação Brasileira, amigo íntimo, companheiro no vate e na palavra, que fora. Mas de Jorge Barbosa, alma gémea de Bandeira, ele nos confessara pena, muita pena mesmo, de não o ter conhecido em vida.
O Embaixador do Brasil em Cabo Verde, Victor Gobato acabava de “transformar” a sua tão diplomática quão deliciosa residência em centro cultural. Espaço de música e poesia. Tertúlia preto no branco. Se há discurso, ele vem solto. Salpicado de humor. Apetece fazer um grande manifesto cultural e marcar, em definitivo, o lugar. E a hora.
Lauro Moreira manda calar o momento (primeiro, como está aqui nomeado) e declama Navio, de Jorge Barbosa. "Leva-me contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja em todos nós um incessante navio "que nunca partiu, que nunca partirá", a poesia dita, com tanta mestria e coração, nos petrifica no cais da palavra...
2º Momento (Machado de Assis e eu não estou)
Dia seguinte, para ser mais exacto. Percorro a avenida e na rotunda o bronze de um homem nu. Homem de Pedra, chamam-no. Aprimorado por uma noite de vento, desse vento imaterial que galopa. A intensa avenida de crina silenciosa de quando se sai do trabalho. Apetecia-me pastar noutras paragens. E eu esquecido que Lauro Moreira dava um autêntico recital sobre um dos meus favoritos, Machado de Assis, escritor de sanha atenta e de verve de tanta nomeada. Padre António Vieira e Machado de Assis. Dos modernos, se não estou neurasténico, Gabriel Garcia Marquez e parem vocês de se armar em intelectocratas de café. E vou, ao volante do velho Starlet, balbuciando o Soneto de Amor e Sóis, de Ruy Espinheira Filho:
de água cintilante de tão negra,
eram teus olhos de água luminosa
como só umas raras dessas brisas
chamadas alma, eram os teus olhos
Poesia é uma mulher imaginária que dança. Sob o seu véu, mamas sem a artificialidade de um silicone. Ou não?
Chego a casa, com o fim do dia a pesar sobre os ombros. E a necessária réstia de energia para dar mimos ao Pablo. Roubo-me momentos para ler um conto de Machado de Assis – A Mulher de Preto, no caso. Penso no casal Gobato, que a diplomacia brasileira deve muito e a cabo-verdiana mais ainda. E como estaria Lauro Moreira a discorrer sobre Machado de Assis nesse preciso instante, no Palácio da Cultura Ildo Lobo? O mestre que assim escreveria: Por que acabaremos no primeiro capítulo? perguntou ele; um amigo não é coisa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses.
3º Momento (hora quase severina)
Mais um dia, para quem quiser fazer o roteiro deste filme...Pude conversar longamente com Lauro Moreira. Sônia Gobato, embaixatriz e anfitriã, coloca-nos na mesma mesa. Éramos quatro nessa mesa: David Hopffer Almada e Dolores Vasconcelos completavam a quadrilha. Falou-se de tudo um pouco. Do Brasil e de Cabo Verde. Os pergaminhos de uma diplomacia sul-sul. Da complementaridade entre os dois países – um tomado de continentalidade, outro lançado na sua insularidade. Ambos com fome do mundo. Um por ser demasiado grande. E outro, demasiado pequeno. A súmula dos dois mundos. O integracionismo antropofágico das nossas culturas. E, obviamente, da poesia. Dos poetas. Do poeta João Cabral de Melo Neto, em particular...
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida
Embarco, como Jorge Barbosa outrora fizera, numa circundante e nostálgica viagem. Alguns Toureiros, de João Cabral de Melo Neto, com fina entoação e sem poetizar seu poema, dito por Lauro Moreira. Arre que não consigo ser cronista bem comportado! Logo agora que entro (sinto-o a cada pulsar) nesta fase “manhosa”...
Manhosa era a lua intrometida nas nuvens. Errante, andante, minguante, como nessa música de Princesito. Manhosa a voz de Mayra Andrade, naturalmente. Manhosa a onda que, meia-noite, brincava aos pezinhos nossos na praia do Mangue. Manhosa a manhã que abria, com o sol que ainda nem queimava e cantava o galo imperceptível das recordações. E à cristalina clarabóia que a tarde empresta e à neurastenia barbosiana desta hora, leio agora, com vagar, Poemeto Erótico...de Manuel Bandeira!
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Tão bom poder declamar, ali à beira da piscina, entre gente interessada e bonita desta hora, os versos de Manuel Bandeira. Parecia ali estar a musa mais procurada, de repente reencontrada, aninhada entre os presentes. Dona do meu imaginário, com seus olhos de amêndoa verde e sua pele moreníssima, a cintilar cá dentro a minha infância. Esse atónito e obsessivo desejo. Águas a transbordar cá dentro. E nada está certo neste lugar de não estar.
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...
Ali estava ela, a poesia. Estava ali, consubstanciada em tantas outras, sorridente e poderosa. De Manuel Bandeira, Lauro Moreira, embaixador e director da Agência da Cooperação Brasileira, amigo íntimo, companheiro no vate e na palavra, que fora. Mas de Jorge Barbosa, alma gémea de Bandeira, ele nos confessara pena, muita pena mesmo, de não o ter conhecido em vida.
O Embaixador do Brasil em Cabo Verde, Victor Gobato acabava de “transformar” a sua tão diplomática quão deliciosa residência em centro cultural. Espaço de música e poesia. Tertúlia preto no branco. Se há discurso, ele vem solto. Salpicado de humor. Apetece fazer um grande manifesto cultural e marcar, em definitivo, o lugar. E a hora.
Lauro Moreira manda calar o momento (primeiro, como está aqui nomeado) e declama Navio, de Jorge Barbosa. "Leva-me contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja em todos nós um incessante navio "que nunca partiu, que nunca partirá", a poesia dita, com tanta mestria e coração, nos petrifica no cais da palavra...
2º Momento (Machado de Assis e eu não estou)
Dia seguinte, para ser mais exacto. Percorro a avenida e na rotunda o bronze de um homem nu. Homem de Pedra, chamam-no. Aprimorado por uma noite de vento, desse vento imaterial que galopa. A intensa avenida de crina silenciosa de quando se sai do trabalho. Apetecia-me pastar noutras paragens. E eu esquecido que Lauro Moreira dava um autêntico recital sobre um dos meus favoritos, Machado de Assis, escritor de sanha atenta e de verve de tanta nomeada. Padre António Vieira e Machado de Assis. Dos modernos, se não estou neurasténico, Gabriel Garcia Marquez e parem vocês de se armar em intelectocratas de café. E vou, ao volante do velho Starlet, balbuciando o Soneto de Amor e Sóis, de Ruy Espinheira Filho:
de água cintilante de tão negra,
eram teus olhos de água luminosa
como só umas raras dessas brisas
chamadas alma, eram os teus olhos
Poesia é uma mulher imaginária que dança. Sob o seu véu, mamas sem a artificialidade de um silicone. Ou não?
Chego a casa, com o fim do dia a pesar sobre os ombros. E a necessária réstia de energia para dar mimos ao Pablo. Roubo-me momentos para ler um conto de Machado de Assis – A Mulher de Preto, no caso. Penso no casal Gobato, que a diplomacia brasileira deve muito e a cabo-verdiana mais ainda. E como estaria Lauro Moreira a discorrer sobre Machado de Assis nesse preciso instante, no Palácio da Cultura Ildo Lobo? O mestre que assim escreveria: Por que acabaremos no primeiro capítulo? perguntou ele; um amigo não é coisa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses.
3º Momento (hora quase severina)
Mais um dia, para quem quiser fazer o roteiro deste filme...Pude conversar longamente com Lauro Moreira. Sônia Gobato, embaixatriz e anfitriã, coloca-nos na mesma mesa. Éramos quatro nessa mesa: David Hopffer Almada e Dolores Vasconcelos completavam a quadrilha. Falou-se de tudo um pouco. Do Brasil e de Cabo Verde. Os pergaminhos de uma diplomacia sul-sul. Da complementaridade entre os dois países – um tomado de continentalidade, outro lançado na sua insularidade. Ambos com fome do mundo. Um por ser demasiado grande. E outro, demasiado pequeno. A súmula dos dois mundos. O integracionismo antropofágico das nossas culturas. E, obviamente, da poesia. Dos poetas. Do poeta João Cabral de Melo Neto, em particular...
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida
Embarco, como Jorge Barbosa outrora fizera, numa circundante e nostálgica viagem. Alguns Toureiros, de João Cabral de Melo Neto, com fina entoação e sem poetizar seu poema, dito por Lauro Moreira. Arre que não consigo ser cronista bem comportado! Logo agora que entro (sinto-o a cada pulsar) nesta fase “manhosa”...
segunda-feira, 18 de abril de 2005
Alguns Toureiros
de João Cabral de Melo Neto
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema
sábado, 9 de abril de 2005
Cais
de Manuel Lopes
Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.
Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!
Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.
Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!
O imperativo da voz de Helberto Helder
Sou eu, assimétrico, artesão, anterior / - na infância, no inferno. [...] Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue, / defronte / da massa inóspita ou da massa / mansa de outros nomes. / Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves / nomes, / escrevem-nos os dedos ferozes no papel / pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo / e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que, / gramatical, carnalmente, me reparto...
quarta-feira, 23 de março de 2005
Um tanto de tudo e um pouco de nada
As Mil e Uma Noites
Sheherazade e as Mil e Uma Noites sempre foram as minhas referências literárias fundamentais. As Mil e Uma Noites, porque a outra só se perde, no campo da complexidade estética, apenas pela Bíblia e o Corão. E concorre à minha cabeceira com Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, e Mensagem, de Fernando Pessoa. Exagero um bocado, mas não estou longe da verdade. E Sheherazade, porque retém toda a minha fantasia da musa inspiradora e primordial da verdadeira literatura. Sheherazade, para mim, é o supremo poder da mulher, isto é, sedutora e sensual como a água das fontes na secura dos nossos múltiplos preconceitos. Agora que entramos na Semana da Cultura no Feminino, uma iniciativa do Ministério da Cultura, germinam cá dentro algumas inquietações em torno de conceitos como mulher, homem, feminino, masculino, feminismo, machismo e feminilidade. Grandes questionamentos se impõem. Como é que a mulher pode actuar num mundo masculino de uma forma não masculina? Como é que a mulher, que não produz o conjunto das regras de funcionamento do mundo, pode processar a sua própria emancipação? Antes de mais, a mulher deverá recusar a tentação — de ser homem — esse caminho dominante do "ser". O modelo de actuação masculino baseado neste amálgama milenar, responde a uma imagem legitimada do que é ser e isto tende a ser paradigma para certos feminismos, na linha na monossexualidade do discurso antropológico. Tudo isso, para dizer-vos, caros leitores, que a verdadeira libertação é do género e que todo o ser humano – o macho, na sua condição ulterior – guarda a sua condição feminina. A sua Sheherazade...
Ora Europa, ora África
Cabo Verde, por ser país pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, tem vivido ao longo da sua História a procurar âncoras. As suas elites, desde o antanho, procuram pensar a estabilidade destas ilhas a partir de matrizes exógenas, produtoras de valores materiais e imateriais que, com criatividade e fé no Além, sempre ajudam a sobreviver (e, em períodos mais excepcionais, a desenvolver). Mas essa procura está inscrita na nossa memória genética de um tropismo sincrético, de somatório de várias componentes, que, em certas horas, se afirmam e, noutras horas, se recusam. Ora Europa, ora África, quando não Europa e África. Ou mesmo Euroáfrica, passe o composto. Mas a questão é mais complexa do que parece. As ligações com o Brasil sempre friccionaram os nossos sentimentos mais íntimos. Eu gosto de você, Brasil, diria Jorge Barbosa no seu vate modal. A simbiose com Portugal lateja em nós e se consolida, mesmo quando, a medo da despersonalização, nos sentimos a entregar. Ou quando descobrimos que o negócio da Electra, com os olhos de ver mesmo, foi um grande negócio da China. Os ilustres Mário Soares e Adriano Moreira formulam hipóteses de entrarmos (periféricos ou de cabeça) na União Europeia e aí estamos nós, sem paciência nem tempo para analisar a prenda na sua condição e intenção, a dar vivas e alvíssaras. E a âncora também pode ser a Espanha – afinal já fomos também espanhóis, filipenses da silva, enfim. Pode ser a África do Sul e/ou Angola, pois, estes lá podem ter as suas grandes mazelas, mas são terras de ouro e de petróleo e isto, deixemo-nos de tretas, conta irremediavelmente. A Guiné-Bissau, agora dilacerada pelo momento histórico, será, como já foi aliás, um espaço para nós vital, razão porque temos de olhar para esse país vizinho (e irmão, diga-se pelas nossas informações genéticas, ora) com alguma prudência e proposta de complementaridade. Âncora, ainda que pareça absurdo. País pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, Deus nos há de ajudar nesta vocação de procura. O mundo é redondo afinal...
E agora América
Cabo Verde foi um dos 16 países premiados com os Fundos do MCA Estes países foram escolhidos, segundo o jornal Washington Post, por serem países pobres, mas democráticos, com a capacidade tácita de promover reformas económicas e sociais. A postura adoptada pelo governo de Washington, pode ser analisada como uma retomada das ideias wilsonianas de 1919 em que o conceito de democracia aliado ao conceito de segurança colectiva seria resultante de bons fluídos ao comércio. E nós com isso? Cabo Verde é o único país da África Ocidental que vive na estabilidade, no crescimento saudável e na cultura da paz. O único. Este estatuto nos aproxima naturalmente da América. Os EUA, que estão em guerra contra o terrorismo global, consideram que há uma ameaça sobre os seus cidadãos e sobre o seu território e que, face a ela, é essencial buscar outras sociabilidades e encontrar novos aliados. Tenhamos coragem de analisar as coisas de frente e de despir a lógica não-alinhada do tempo da Guerra Fria. O peso da antiga estrutura mental deve dar lugar a uma leveza de olhar, disposto a reformas e inovação que se impõem. Torna-se mister compreender que a relação entre Cabo Verde e os Estados Unidos deixou de ser a mesma desde o fim da Guerra Fria. Enquanto país de vocação atlântica, precisamos colocar acento na cooperação mais intensa com os EUA, sem pôr em causa os nossos múltiplos interesses. É que, sendo o mundo realmente redondo, se reforça o atavismo estratégico entre Cabo Verde e os EUA. Nem sempre se pode fazer poesia, ao fim e ao cabo...
Sheherazade e as Mil e Uma Noites sempre foram as minhas referências literárias fundamentais. As Mil e Uma Noites, porque a outra só se perde, no campo da complexidade estética, apenas pela Bíblia e o Corão. E concorre à minha cabeceira com Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, e Mensagem, de Fernando Pessoa. Exagero um bocado, mas não estou longe da verdade. E Sheherazade, porque retém toda a minha fantasia da musa inspiradora e primordial da verdadeira literatura. Sheherazade, para mim, é o supremo poder da mulher, isto é, sedutora e sensual como a água das fontes na secura dos nossos múltiplos preconceitos. Agora que entramos na Semana da Cultura no Feminino, uma iniciativa do Ministério da Cultura, germinam cá dentro algumas inquietações em torno de conceitos como mulher, homem, feminino, masculino, feminismo, machismo e feminilidade. Grandes questionamentos se impõem. Como é que a mulher pode actuar num mundo masculino de uma forma não masculina? Como é que a mulher, que não produz o conjunto das regras de funcionamento do mundo, pode processar a sua própria emancipação? Antes de mais, a mulher deverá recusar a tentação — de ser homem — esse caminho dominante do "ser". O modelo de actuação masculino baseado neste amálgama milenar, responde a uma imagem legitimada do que é ser e isto tende a ser paradigma para certos feminismos, na linha na monossexualidade do discurso antropológico. Tudo isso, para dizer-vos, caros leitores, que a verdadeira libertação é do género e que todo o ser humano – o macho, na sua condição ulterior – guarda a sua condição feminina. A sua Sheherazade...
Ora Europa, ora África
Cabo Verde, por ser país pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, tem vivido ao longo da sua História a procurar âncoras. As suas elites, desde o antanho, procuram pensar a estabilidade destas ilhas a partir de matrizes exógenas, produtoras de valores materiais e imateriais que, com criatividade e fé no Além, sempre ajudam a sobreviver (e, em períodos mais excepcionais, a desenvolver). Mas essa procura está inscrita na nossa memória genética de um tropismo sincrético, de somatório de várias componentes, que, em certas horas, se afirmam e, noutras horas, se recusam. Ora Europa, ora África, quando não Europa e África. Ou mesmo Euroáfrica, passe o composto. Mas a questão é mais complexa do que parece. As ligações com o Brasil sempre friccionaram os nossos sentimentos mais íntimos. Eu gosto de você, Brasil, diria Jorge Barbosa no seu vate modal. A simbiose com Portugal lateja em nós e se consolida, mesmo quando, a medo da despersonalização, nos sentimos a entregar. Ou quando descobrimos que o negócio da Electra, com os olhos de ver mesmo, foi um grande negócio da China. Os ilustres Mário Soares e Adriano Moreira formulam hipóteses de entrarmos (periféricos ou de cabeça) na União Europeia e aí estamos nós, sem paciência nem tempo para analisar a prenda na sua condição e intenção, a dar vivas e alvíssaras. E a âncora também pode ser a Espanha – afinal já fomos também espanhóis, filipenses da silva, enfim. Pode ser a África do Sul e/ou Angola, pois, estes lá podem ter as suas grandes mazelas, mas são terras de ouro e de petróleo e isto, deixemo-nos de tretas, conta irremediavelmente. A Guiné-Bissau, agora dilacerada pelo momento histórico, será, como já foi aliás, um espaço para nós vital, razão porque temos de olhar para esse país vizinho (e irmão, diga-se pelas nossas informações genéticas, ora) com alguma prudência e proposta de complementaridade. Âncora, ainda que pareça absurdo. País pequeno e frágil, mas virtuoso e ambicioso, Deus nos há de ajudar nesta vocação de procura. O mundo é redondo afinal...
E agora América
Cabo Verde foi um dos 16 países premiados com os Fundos do MCA Estes países foram escolhidos, segundo o jornal Washington Post, por serem países pobres, mas democráticos, com a capacidade tácita de promover reformas económicas e sociais. A postura adoptada pelo governo de Washington, pode ser analisada como uma retomada das ideias wilsonianas de 1919 em que o conceito de democracia aliado ao conceito de segurança colectiva seria resultante de bons fluídos ao comércio. E nós com isso? Cabo Verde é o único país da África Ocidental que vive na estabilidade, no crescimento saudável e na cultura da paz. O único. Este estatuto nos aproxima naturalmente da América. Os EUA, que estão em guerra contra o terrorismo global, consideram que há uma ameaça sobre os seus cidadãos e sobre o seu território e que, face a ela, é essencial buscar outras sociabilidades e encontrar novos aliados. Tenhamos coragem de analisar as coisas de frente e de despir a lógica não-alinhada do tempo da Guerra Fria. O peso da antiga estrutura mental deve dar lugar a uma leveza de olhar, disposto a reformas e inovação que se impõem. Torna-se mister compreender que a relação entre Cabo Verde e os Estados Unidos deixou de ser a mesma desde o fim da Guerra Fria. Enquanto país de vocação atlântica, precisamos colocar acento na cooperação mais intensa com os EUA, sem pôr em causa os nossos múltiplos interesses. É que, sendo o mundo realmente redondo, se reforça o atavismo estratégico entre Cabo Verde e os EUA. Nem sempre se pode fazer poesia, ao fim e ao cabo...
sábado, 19 de março de 2005
Dia Mundial da Poesia - 21 de Março
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos
quinta-feira, 17 de março de 2005
Difícil ser funcionário
Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
João Cabral de Melo Neto
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
João Cabral de Melo Neto
terça-feira, 15 de março de 2005
Blog Nota 6
Mais alma!!!
A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras. Até porque ela precedeu a pátria. Tanto que no miasma da nação diasporizada, ela circula livre no espaço global, quando erigir, fará cair, o Muro de Berlim, ainda nem era sonho. Leiam Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luis Loff de Vasconcelos. Leiam os de hoje: Mário Lúcio Sousa, João Varela, Onésimo Silveira e António Correia e Silva. Cabo Verde se afirma pela sua dimensão cultural, que não é grande, no sentido do peso e da medida, mas que é profunda e diversa. A peculiaridade da cultura cabo-verdiana reside, pois, no seu sincretismo antropofágico. Desde sempre. Muito antes do Movimento Claridoso, que, de repente, quase por decreto, virou nossa independência cultural. A cultura cabo-verdiana, para mim, sempre foi uma entidade que “come” todos os elementos culturais e processa-os de molde reinventado e, de certa forma, autónomo. Fê-lo desde a barbosiana “hora inicial” e a língua crioula é disso prova maior. Assim, a cultura cabo-verdiana nunca foi uma pedra de Sísifo, mas sim uma janela para o mundo, que é a nosso identidade lacto senso, imunizados que somos contra os zéfiros da descaracterização. A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras, mormente quando afirmativas e patrulheiras. Precisa, sim, de cada vez mais espaço para a alma, como diria o imenso Orlando Pantera, nesta continuada afirmação da estética...
E a nossa estrutura desejante?
E o cabo-verdiano precisa mais do que nunca da estética, tanto como do pão para a boca. Mostra-nos a psicanálise que a função do belo perturba a estrutura do ser desejante diante do enigmático e inacessível. Para o ser psíquico a criatividade estética se configura como um acto e símbolo da realização. Bem dizia Diderot que a perfeição de um espectáculo consiste no seu poder de evocar uma aura da realização. Agora, o busílis da questão é sabermos, com firmeza, o que é a realização. Dou um doce. O debate ainda vai no adro. O dramaturgo João Branco disse-nos aquilo das crianças encantadas (e, quem sabe, transformadas) pelos encantos do teatro, uma realização que talvez transcenda à bizantinice de certas discussões. Gostei desse rasgo no Konbersu Sabi, da jornalista Matilde Dias. Os ilustrados e os iluminados que deixem os acantonados becos sem saída e venham à praça (pode até ser virtual) do diálogo. Vale escujurarmos a sina dos meios pequenos. Ou mesmo tacanhos, para que saibamos destrinçar o trigo do joio. Se, vez por outra, surgem tiradas brilhantes, aqui quase sempre o verbo tem sido chulo. Verborreia pelo esculacho. Quando não descamba para um bairrismo incompetente. Estamos literalmente naquele dilema de ou vai, ou racha. Dum lado, ficamos arreigados, orgulhosamente agarrados à pedra da tradição. Doutro, já sabemos que a cultura não pode ser a pedra de Sísifo, e a queremos solta como uma ave que voa. Pior são aqueles que vêm ao debate com a pedra na mão. E no coração, meu Deus. Assim fica difícil pensar que este país é de morabeza...
En souffrance
Eu seria um ser humano en souffrance, se me fosse privado saber de Nácia Gomi e de William Shakspeare, de José Luis Tavares e de Pablo Picasso, de Vasco Martins e de Wole Soyinka. Deixem-me curtir Kwame Kondé! Não se “avexem” que a 5ª Sinfonia de Beethoven me emociona! Aceso, integral e crítico, me sinto pronto para o grande diálogo. Pronto, porque estou descomplexado. De coração na mão. Pronto para dar e receber. Para apreender de tudo. Com todos. Mas palavra que não entendi aquilo sobre o índice de civilização. Falta-me entendimento em relação a certas questões. E, em remate final, indagaria: espelho, espelho meu, existirá alguma civilização “mais civilizada” do que a minha? Já Lévi-Strauss nos ensinara que a diferença cultural, não deve ser percebida como uma ameaça a ser destruída mas como alternativa a ser inter-cambiada. E eis que à negativa do espelho, meu espelho, se adensa a anuência da antropologia. Ou, aqui no âmago, a antropofagia...
A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras. Até porque ela precedeu a pátria. Tanto que no miasma da nação diasporizada, ela circula livre no espaço global, quando erigir, fará cair, o Muro de Berlim, ainda nem era sonho. Leiam Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luis Loff de Vasconcelos. Leiam os de hoje: Mário Lúcio Sousa, João Varela, Onésimo Silveira e António Correia e Silva. Cabo Verde se afirma pela sua dimensão cultural, que não é grande, no sentido do peso e da medida, mas que é profunda e diversa. A peculiaridade da cultura cabo-verdiana reside, pois, no seu sincretismo antropofágico. Desde sempre. Muito antes do Movimento Claridoso, que, de repente, quase por decreto, virou nossa independência cultural. A cultura cabo-verdiana, para mim, sempre foi uma entidade que “come” todos os elementos culturais e processa-os de molde reinventado e, de certa forma, autónomo. Fê-lo desde a barbosiana “hora inicial” e a língua crioula é disso prova maior. Assim, a cultura cabo-verdiana nunca foi uma pedra de Sísifo, mas sim uma janela para o mundo, que é a nosso identidade lacto senso, imunizados que somos contra os zéfiros da descaracterização. A cultura cabo-verdiana nunca precisou de bandeiras, mormente quando afirmativas e patrulheiras. Precisa, sim, de cada vez mais espaço para a alma, como diria o imenso Orlando Pantera, nesta continuada afirmação da estética...
E a nossa estrutura desejante?
E o cabo-verdiano precisa mais do que nunca da estética, tanto como do pão para a boca. Mostra-nos a psicanálise que a função do belo perturba a estrutura do ser desejante diante do enigmático e inacessível. Para o ser psíquico a criatividade estética se configura como um acto e símbolo da realização. Bem dizia Diderot que a perfeição de um espectáculo consiste no seu poder de evocar uma aura da realização. Agora, o busílis da questão é sabermos, com firmeza, o que é a realização. Dou um doce. O debate ainda vai no adro. O dramaturgo João Branco disse-nos aquilo das crianças encantadas (e, quem sabe, transformadas) pelos encantos do teatro, uma realização que talvez transcenda à bizantinice de certas discussões. Gostei desse rasgo no Konbersu Sabi, da jornalista Matilde Dias. Os ilustrados e os iluminados que deixem os acantonados becos sem saída e venham à praça (pode até ser virtual) do diálogo. Vale escujurarmos a sina dos meios pequenos. Ou mesmo tacanhos, para que saibamos destrinçar o trigo do joio. Se, vez por outra, surgem tiradas brilhantes, aqui quase sempre o verbo tem sido chulo. Verborreia pelo esculacho. Quando não descamba para um bairrismo incompetente. Estamos literalmente naquele dilema de ou vai, ou racha. Dum lado, ficamos arreigados, orgulhosamente agarrados à pedra da tradição. Doutro, já sabemos que a cultura não pode ser a pedra de Sísifo, e a queremos solta como uma ave que voa. Pior são aqueles que vêm ao debate com a pedra na mão. E no coração, meu Deus. Assim fica difícil pensar que este país é de morabeza...
En souffrance
Eu seria um ser humano en souffrance, se me fosse privado saber de Nácia Gomi e de William Shakspeare, de José Luis Tavares e de Pablo Picasso, de Vasco Martins e de Wole Soyinka. Deixem-me curtir Kwame Kondé! Não se “avexem” que a 5ª Sinfonia de Beethoven me emociona! Aceso, integral e crítico, me sinto pronto para o grande diálogo. Pronto, porque estou descomplexado. De coração na mão. Pronto para dar e receber. Para apreender de tudo. Com todos. Mas palavra que não entendi aquilo sobre o índice de civilização. Falta-me entendimento em relação a certas questões. E, em remate final, indagaria: espelho, espelho meu, existirá alguma civilização “mais civilizada” do que a minha? Já Lévi-Strauss nos ensinara que a diferença cultural, não deve ser percebida como uma ameaça a ser destruída mas como alternativa a ser inter-cambiada. E eis que à negativa do espelho, meu espelho, se adensa a anuência da antropologia. Ou, aqui no âmago, a antropofagia...
sexta-feira, 11 de março de 2005
O mar tão-só à justa
Tão sentado quão me deslavo, vejo-te,
Tardos dos meus olhos, seja tempo
Esmaecido das nuvens ou das flores peregrinas,
Assim clepsidra musa das que crepita…
Aonde o périplo leva, ao tento breve e fogo,
Sobressalta na noite esta chama dos olhares,
Pedra em cripta que não sabes já, a rebrilhar
Quais estrelas lá longe da tua sombra…
Dou-te mais do que o mar para dar,
As praias íntimas de conchas mais secretas,
As gretas que sabem ao desponte da noite…
As luas que sobem ao musgo das grutas,
O escorrer impúdico nas veias das águas,
O mar tão-só à justa dos nossos corpos…
Filinto Elísio
Tardos dos meus olhos, seja tempo
Esmaecido das nuvens ou das flores peregrinas,
Assim clepsidra musa das que crepita…
Aonde o périplo leva, ao tento breve e fogo,
Sobressalta na noite esta chama dos olhares,
Pedra em cripta que não sabes já, a rebrilhar
Quais estrelas lá longe da tua sombra…
Dou-te mais do que o mar para dar,
As praias íntimas de conchas mais secretas,
As gretas que sabem ao desponte da noite…
As luas que sobem ao musgo das grutas,
O escorrer impúdico nas veias das águas,
O mar tão-só à justa dos nossos corpos…
Filinto Elísio
Blog Nota 5
Fragoso e Branco
Do debate…bem, do pretenso debate sobre o teatro em Cabo Verde, iniciado em boa hora, e com polémica, por Francisco Fragoso, salva-se, dum lado, a impressão de que novas luzes e outras dinâmicas começam a germinar; doutro lado, fica o travo de que continuamos provincianos e tacanhos. Numa rotação mais lenta da que este mundializado planeta, diga-se. Tanto Francisco Fragoso como João Branco muito fizeram, e fazem, pelo teatro em Cabo Verde. Torna-se, por isso, normal que, diante de tanta convergência, existam entre eles pontos (e pomos) de discórdia. Mas o inferno…são os claquistas de parte a parte. Estes continuam saudosistas, dependentes e bairristas, quando não racistas. E trocam farpas de levar por casa. Um verdadeiro festival do maniqueísmo e da mediocridade. Debater teatro é saudável e é isto que o país precisa. De um amplo debate cultural ao fim e ao cabo…
Espuma que já bateu na praia
Outro debate que desponta é sobre a oficialização do crioulo. E tudo indica que, contrariamente à Igreja Católica que, há muitos anos, deu à língua materna o estatuto litúrgico, a nossa dita intelectualidade treme nas bases. Muitos consagrados e com lugares marcados nos pequeníssimos pedestais, temem introduzir algo que os obrigue a repensar, a reaprender e a revalorizar. Será demasiado trabalho para uma intelectualidade que vê o mundo de um horizonte pequeno. Só que a oficialização do crioulo deixou de ser uma onda que se adensa, mas uma espuma que já bateu na praia…
Agora que a vida nasceu
Em verdade, Cabo Verde, agora que a vida nasceu, precisava ter disto tudo (e bem à Eduardo Pitta): os artistas «nascidos de cu para a lua», os «funcionários», os «mediáticos», os «velhíssimos», os «novos», os «novíssimos», os «urbanóides», os «do Partido», os «picantes», os «malditos», os «marginais», os «tardo-Dada», as «socialites-escritoras», os «laterais», os «colunistas», os «candidatos», os «jornalistas», os «psicoterapeutas», os «académicos», os «S/M», os «políticos», as «feministas», as «professoras», os «deputados», as «escritoras do Graal», os «gay off the record», os «palopianos», os «venéreos», os «crioulistas», os «fedorentos radical-chic», etc.
Da paz era o nome do largo
O largo por ironia chamava-se da paz. E eu, por redundância, quis fazer as pazes entre dois amigos. As circunstâncias (não importam aqui as razões) fizeram com que estivessem de costas voltadas. Nem conto nesta terra onde tudo se sabe. Mas estamos em tempo de criação, que diabo! E tempo não haverá para odiar tanto. O que sobra será do amor. Da amizade. Ledo o meu engano. Vociferantes e maldizentes, prontos para a primeira pedra. Para mim, bastou. O meu teatro é de tirar, e não colocar, a máscara. Saio para o Largo da Paz e sinto-me mais livre que nunca, embora triste pela perda. Por ironia, balbucio o nome da placa que dá nome ao largo…
Dá Fala
A revista Dá Fala foi lançada, com sublinhado frisson cultural, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. É uma revista com gráfica solta, que desafia laudas, margens e sequências. Com um conteúdo múltiplo, ainda não totalmente definido, mas que se orienta para as artes, letras e ideias. Por tudo isso, é uma iniciativa bem-vinda que me lembrou, primeiro, a revista Ponto & Vírgula e, segundo, a folha cultural Sopinha do Alfabeto. Com Artiletra, já no mercado cultural há década e meia, Dá Fala é mais uma valência editorial. Num tempo em que as novas tecnologias também se derivam para o campo gravítico da cultura. Os blogs que o confirmem - Lantuna, Os Momentos e Aulil, entre os mais dinâmicos…
Do debate…bem, do pretenso debate sobre o teatro em Cabo Verde, iniciado em boa hora, e com polémica, por Francisco Fragoso, salva-se, dum lado, a impressão de que novas luzes e outras dinâmicas começam a germinar; doutro lado, fica o travo de que continuamos provincianos e tacanhos. Numa rotação mais lenta da que este mundializado planeta, diga-se. Tanto Francisco Fragoso como João Branco muito fizeram, e fazem, pelo teatro em Cabo Verde. Torna-se, por isso, normal que, diante de tanta convergência, existam entre eles pontos (e pomos) de discórdia. Mas o inferno…são os claquistas de parte a parte. Estes continuam saudosistas, dependentes e bairristas, quando não racistas. E trocam farpas de levar por casa. Um verdadeiro festival do maniqueísmo e da mediocridade. Debater teatro é saudável e é isto que o país precisa. De um amplo debate cultural ao fim e ao cabo…
Espuma que já bateu na praia
Outro debate que desponta é sobre a oficialização do crioulo. E tudo indica que, contrariamente à Igreja Católica que, há muitos anos, deu à língua materna o estatuto litúrgico, a nossa dita intelectualidade treme nas bases. Muitos consagrados e com lugares marcados nos pequeníssimos pedestais, temem introduzir algo que os obrigue a repensar, a reaprender e a revalorizar. Será demasiado trabalho para uma intelectualidade que vê o mundo de um horizonte pequeno. Só que a oficialização do crioulo deixou de ser uma onda que se adensa, mas uma espuma que já bateu na praia…
Agora que a vida nasceu
Em verdade, Cabo Verde, agora que a vida nasceu, precisava ter disto tudo (e bem à Eduardo Pitta): os artistas «nascidos de cu para a lua», os «funcionários», os «mediáticos», os «velhíssimos», os «novos», os «novíssimos», os «urbanóides», os «do Partido», os «picantes», os «malditos», os «marginais», os «tardo-Dada», as «socialites-escritoras», os «laterais», os «colunistas», os «candidatos», os «jornalistas», os «psicoterapeutas», os «académicos», os «S/M», os «políticos», as «feministas», as «professoras», os «deputados», as «escritoras do Graal», os «gay off the record», os «palopianos», os «venéreos», os «crioulistas», os «fedorentos radical-chic», etc.
Da paz era o nome do largo
O largo por ironia chamava-se da paz. E eu, por redundância, quis fazer as pazes entre dois amigos. As circunstâncias (não importam aqui as razões) fizeram com que estivessem de costas voltadas. Nem conto nesta terra onde tudo se sabe. Mas estamos em tempo de criação, que diabo! E tempo não haverá para odiar tanto. O que sobra será do amor. Da amizade. Ledo o meu engano. Vociferantes e maldizentes, prontos para a primeira pedra. Para mim, bastou. O meu teatro é de tirar, e não colocar, a máscara. Saio para o Largo da Paz e sinto-me mais livre que nunca, embora triste pela perda. Por ironia, balbucio o nome da placa que dá nome ao largo…
Dá Fala
A revista Dá Fala foi lançada, com sublinhado frisson cultural, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. É uma revista com gráfica solta, que desafia laudas, margens e sequências. Com um conteúdo múltiplo, ainda não totalmente definido, mas que se orienta para as artes, letras e ideias. Por tudo isso, é uma iniciativa bem-vinda que me lembrou, primeiro, a revista Ponto & Vírgula e, segundo, a folha cultural Sopinha do Alfabeto. Com Artiletra, já no mercado cultural há década e meia, Dá Fala é mais uma valência editorial. Num tempo em que as novas tecnologias também se derivam para o campo gravítico da cultura. Os blogs que o confirmem - Lantuna, Os Momentos e Aulil, entre os mais dinâmicos…
quarta-feira, 9 de março de 2005
Gestos escusados
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pablo Neruda
Nosso fórum
O mundo está amedrontado pela justificada fúria da riqueza e do terror. E a questão essencial tem a ver com a Humanidade. E não apenas, como pretendem alguns, com a geo-política. E o sistema doutrinal (hoje globalitário e com filiação entre nós), que com a ideologia não se confunde, é aquele que legitima, sempre e a qualquer preço, a ordem dominante. Ora, temos de ser mais complexos e analisar, com parcimónia e sem fantasmas, este mundo que se arma em cão. É possível sim, nas ilhas e no cosmos, um novo mundo.
Adão desconhecido
Sempre que a Electra, por excesso de zelo ou de competência, nos falta com a energia eléctrica, facto frequente, pelo menos na capital do país, revejo mentalmente “Virgens Loucas”, de António Aurélio Gonçalves (o mestre da boa prosa) e fico à varanda, horas esquecidas, a ver as constelações. E tem sido assim, às escuras perante o firmamento, que me sinto grão de areia neste Universo e que me apetece escrever poesia. Na sala de visitas, a televisão apagada e a vela fragilmente acesa, exala um silêncio existencial. E, entre o ridículo que é o blackout da Electra (logo nesta cidade de maior demanda e de melhor receita!) e o romântico destas mãos para o vácuo, procuro, como no famoso quadro de Miguel Angelo, tocar os meus dedos aos de um Adão desconhecido...
Os astros de Neruda
Um dia, escrever-te-ei textos elegantes e excelentes. A minha literatura, então, será redimensionada pelo imperativo da beleza. Pela estética mais pura. As Belas Letras. Caudalosas prosas que, correndo o curso de um rio, extravasem suas águas no mar das palavras. Quem escreve, caro Pranchinha, quer no seu epitáfio apenas as datas de nascimento e de passamento; no seu obituário, acrescente-se-lhe que amou os seus filhos e as frutas serenadas da poesia. Quem escreve precisa de remanso e de descanso, algo como uma paz interior na seiva dos momentos. Um dia, havendo espaço para tanto, dir-te-ei como tiritam azuis os astros ao longe...
Doce Guerra
Apesar dos grandes avanços nestes 30 anos bem contados (e bem vividos), Cabo Verde - Doce Guerra, como vaticinou Antero Simas – continua a ser um país sob stress e sob o espectro da incerteza. Que os merecidos elogios, não nos façam esquecer esta secular contingência face à conjuntura internacional. No mundo interdependente e global, os frágeis, pequenos e pobres são menos iguais do que os outros. A esta hora importaria uma largada diferente, mais centrada na solidez endogénica e menos voltada para modismos importados. País insular, nação diasporizada e povo escolarizado, qual a próxima questão? Sustentabilidade parece ser a palavra-chave e a necessária procura. E qualidade a palavra de ordem (onde já ouvi isso?). Para o grande salto colectivo...
Slightly single
Caro amigo, nesta respiração assistida da solidão procuro sorrir. Para a manhã radiante. Ou, simplesmente, para o bom dia de um transeunte. Eu queria sentir agora, como nos versos de Fernando Assis Pacheco, uma paz assim fresca/ sem grandes gestos/ escusados. E eis que Neruda termina assim o lindo pórtico: Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa/ y éstos los últimos versos que yo le escribo.
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